Eu e os Deuses Inexistentes

Viajo ao som das sandálias lisérgicas dos deuses no caótico reino de Hades que fica, as vezes, entre a padaria  e o boteco onde costumo beber com estudantes de Teogonia infelizes devido ao fato de nunca encontrarem com seu objeto de estudo. Na padaria Chumbinho ri dos estudantes, vai parar de rir deles somente no dia em que levará uma facada no estômago, tripas com merda adocicada sobre a calçada suja será a única lembrança que nos restará do anão negão invocado do cinema nacional feito nos tempos em que nossos cineastas eram machos. No boteco o dono enfia seus dez dedos no nariz da garçonete mais gorda branquela e bebe mais do que seus fregueses, está em comemoração eterna por ter perdido sua mulher num jogo de caxeta cósmica com regras complicadas anotadas num livro de receitas etílicas. O dono do boteco bebe pinga do gargalo e bate punheta em público gritando que precisa de uma mulher que lhe ame, que lhe adore, que lhe satisfaça os desejos mais bizarros e que, ainda, lave o chão e a louça sem reclamar. Zeus grita com Pan, Baco embebeda as Divas noturnas e eu… Bem, eu simplesmente deixo tudo do jeito que está e tento equilibrar meu copão de pinga em minha barriga gordurenta. E bebo e resmungo e passo minhas mãos na bunda de Vênus já decadente, sem os dentes e vesga, usando um olho de vidro e o outro de gelatina. Retalhando palavras faço um amontoado de letras regurgitadas para que, com sorte, talvez, causem alguma estranheza no desocupado que se aventura por meus devaneios completos-incompletos-descompletos tal qual um jazz tocado por Kenton numa noite em que lhe deram nada para beber, nem mesmo uma vadia suja para lhe amar o tempo todo que durar seus centavos mal contados. E bebo e amo e adoro todas as mulheres gordas, estranhas, estúpidas, putas, tortas, caolhas, feias, desnutridas que dão bebidas para mim. E bebo e amo e adoro todas as bebidas que me oferecem. E bebo e amo e adoro todos os momentos em que esculhambo com os deuses inexistentes que sempre preocupam aqueles que ainda tentam levar a sério este mundo louco onde fomos atirados para morrer de tédio.

escrito por Petter Baiestorf (2003).

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