O Anticlericalismo e a Luta pela Emancipação Feminina

Os libertários denunciavam que a mulher na sociedade burgo-clerical era vista como o sexo fraco, considerada tanto intelectual como fisicamente inferior ao homem. A concepção dominante da repartição dos papéis masculino e feminino bloqueava o acesso das mulheres a muitas funções. Nas famílias burguesas ficava quase restrita aos cuidados da família, conservando o estado de espírito e hábitos firmemente enraizados.

Até mesmo setores intelectualizados, como as correntes positivas, alegando comprovações legítimas através de experimentos pretensamente científicos, defendiam, no final do século XIX, que o cérebro da mulher, por ser mais leve e com menos circunvoluções, era incapaz de maiores condições de discernimento.

No século XIX, ocorreu uma nítida feminilização do catolicismo. A Prática religiosa das mulheres era mais intensa e regular do que a dos homens. A existência de uma proeminente religiosidade entre as mulheres gerou a feminilização das práticas de devoção. Na sua primeira fase, a vida feminina encontrava-se demarcada pelo véu branco da primeira comunhão e pelo também imaculado véu do casamento.

O afastamento da Igreja, o anticlericalismo militante ou passivo são, no século XIX, fenômenos exclusivamente masculinos. Este é um lamento generalizado dos párocos: os homens não comparecem.

Para a Igreja, o corpo é o lugar do pecado. A luxúria continuava sendo uma das culpas mais graves que a mulher poderia incorrer. A virgindade mantinha-se como um valor sagrado. O culto a Maria, que desde 1854 assumiu o caráter de dogma de Virgem Imaculada, reforçava a concepção de que todo tipo de comportamento pecaminoso deveria ser imputado às mulheres.

Afinal,

desde Eva que a luxúria é feminina; então que mérito pode ser maior do que aquele que se adquire ao libertar-se da mácula que conspurca todos os decendentes da primeira mulher (com excecão de Maria)?

A intensa devoção mariana e a importância dada aos valores da maternidade foram o modelo em que a Igreja apostou para ampliar sua influência. As mulheres católicas deviam aprender a perfeita dosagem entre as práticas devocionais e os deveres domésticos. “A pureza da Virgem tornou-se modelo de identificação , o centro da educação feminina.”

Havia uma preocupação excessiva com a observância das regras que garantissem a manutenção da pureza feminina. O que as mulheres liam era motivo de rigoroso controle. A rígida educação católica propunha-se a amordaçar as fantasias femininas e estabelecer uma clara distinção entre os bons e os maus costumes. O livro deveria cumprir seu papel de educador moral. A Igreja vigiava as leituras, desconfiando de qualquer livro que pudesse provocar tentações e levar as almas das raparigas ingênuas em direção aos pecados da carne. Ao padre cabia a função de afastar o perigo das leituras consideradas lúbricas. As obras prescritas eram poucas, a maioria formada basicamente por livros de oração e devoção. Durante o oitocentismo, não seria muito temerário afirmar que caso não fosse necessário alguma escolaridade para que as moças pudessem dedicar-se aos seus livros de oração, muitos padres seriam contrários a alfabetização feminina. Ainda no início do século XX, o romance era considerado um gênero literário pecaminoso, apesar da difusão da leitura dos folhetins baratos nessa época.

Como tática de controle da honra feminina era mantida uma rigorosa separação entre os sexos e a mais estreita vigilância possível. No modelo feminino de perfeição virginal, a donzela deveria ser capaz de resistir às tentações. A sociabilidade mista era atacada por favorecer a permissividade, sendo imprudente manter raparigas em contato com rapazes. Os religiosos apregoavam, insistentemente, as vantagens da manutenção de barreiras intransponíveis entre os sexos como principal meio para não colocar em risco a virgindade feminina.

A educação da mulher exaltava a família como o único lugar onde era possível a felicidade terrena. Viver para os outros – o marido e os filhos – era o ideal que toda boa mulher católica deveria seguir. Dessa mulher doce e submissa esperava-se sacrifícios, despojamentos e ascetismo. Ela não podia vacilar na sua missão tão nobre e altruísta.

Ao contrário das mulheres das classes mais abastadas, a mulher proletária não podia ser tratada como um adorno ou um símbolo de posição social. A necessidade de contribuir com algo que complementasse o salário do marido empurrava as mulheres das camadas populares para as fábricas, oficinas, empregos domésticos, escritórios ou lojas.

As condições de subsistência da mulher trabalhadora eram ainda piores do que a dos homens. A quase totalidade dos trabalhos qualificados nas fábricas era exercida por eles. Os salários femininos eram ainda menores do que os pagos aos homens. As mulheres eram fonte de mão-de-obra barata e consideradas menos rebeldes, sendo muitas vezes olhadas com desconfiança nos meios sindicais. Além de serem desvalorizadas em seu trabalho, sofriam a superexploração da jornadadupla – trabalho fora de casa e afazeres domésticos.

Para os anarquistas, a mulher era mais suscetível à influência dos padres e freiras. Pelo fato de freqüentarem as igrejas, encontravam-se ainda atreladas às explicações teológicas do mundo. A força conservadora da Igreja mantinha a mulher presa à ignorância, ao mesmo tempo em que eram reforçados os comportamentos conformistas e resignados.

Em todos os veículos de propagação das idéias libertárias, o clero é apresentado como força extremamente prejudicial à adesão da mulher ao anarquismo, como a grande força conservadora que a mantém presa a uma verdadeira teia de superstições, impendindo o seu acesso à educação e à ciência e justificando sua subjugação e exploração, fortificando cada vez mais os preconceitos que a remetem aos papéis de esposa e mãe abnegada e pronta a se sacrificar pelos seus.

A mulher era considerada o principal suporte do catolicismo, com a Igreja procurando regular o ritmo de sua vida através das práticas religiosas. A preservação das virtudes cristãs das mulheres era um importante baluarte para a manutenção da religiosidade, pois ela dependia, em grande parte, a transmissão das crenças religiosas no seio da família. É a mãe cristã que fortifica a fé no coração dos filhos e, através do mais ativo zelo, instiga no marido a necessidade da conversão às virtudes católicas.

Os anticlericais procuravam encontrar meios para tornar as famílias imunes aos padres. A educação da mulher trabalhadora aparecia como uma tarefa importante na luta contra as classes dominantes e contra o poder da Igreja e do Estado. A educação racional e científica permitiria a desmistificação da religião e fulminaria a influência nefasta do padre como conselheiro moral e guia espiritual.

escrito por Eduardo Valladares (parte do livro “Anarquismo e Anticlericalismo).

4 Respostas to “O Anticlericalismo e a Luta pela Emancipação Feminina”

  1. Infelzimente pouco mudou, pois uma parcela significativa dos homens subestimam a inteligência feminina. Vejo muito isso na internet e na vida real. Discursos de Mussolini e Ahmadinejad baixados. Eu sei que são poucos, mas é preciso manter atenção, embora blogs alternativos e anarquistas crescem também, porém é necessário mantê-los ativos.

  2. e hoje temos vivido o preconceito contra o feminismo…

  3. nao so contra nei a favor mas e interesante

  4. […] Parece que essa preocupação da deputada federal Myriam Rios com sexo anal se dá porque muitas garotas evangélicas, na ânsia de se casarem virgens, fazem somente sexo anal e boquetes antes do casamento, assegurando assim às suas atrasadas famílias, cujos pais ainda tem condutas de senhores feudais, de que casarão virgens (porra meninas, estamos em pleno Século XXI, vocês podem fazer sexo saudável antes do casamento, na verdade, vocês nem precisam mais do casamento, vocês já são livres para viver sem a opressora figura do pai/marido/patrão. […]

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