Entrevista com Ivan Cardoso

Colagem que o Ivan Cardoso realizou pro Arghhh.

Em 1996 entrevistei o Ivan Cardoso pro meu fanzine “Arghhh” (saiu no número 16) e resgato a entrevista aqui no Blog.

Baiestorf: Quem é Ivan Cardoso?

Ivan Cardoso: É uma marca registrada de sucesso! O homem da múmia, o mestre do Terrir!!! Um careca folgado, torcedor apaixonado do Botafogo, que adora carros esportes, mulheres bonitas e filmes de terror. É um babaca que assistiu demais televisão, penetrando num mundo de sonhos que o mantêm criança até hoje, acreditando que possa fazer filmes de vampiros iguaizinhos aos da Hammer. É uma pessoa que trabalha prá caralho e por isso tem conseguido algumas vitórias nesta interminável luta contra a burrice, mediocridade, inveja, esquerdofrênia e outros obstáculos cotidianamente colocados em nossa rota cósmica! É um morto-vivo sedento de sangue e atravessa as noites em busca de sexo e rock’n’roll. É um insaciável fotografo que já documentou várias décadas, tendo convivido e trabalhado com caras fodões como Hélio Oiticica, Raul Seixas, Wilson Grey e outros centauros dos pampas!

Baiestorf: E como anda o filme biográfico de Glauber Rocha que você está fazendo?

Ivan Cardoso: O filme ainda está em fase de montagem. Como se trata de um trabalho novo, que marcará a minha volta as telas sete anos depois de “O Escorpião Escarlate”, ainda estou solucionando algumas questões para a mixagem final de “A Meia-Noite com Glauber na Zona Proibida” (nota do Canibuk (NdoC): o filme foi lançado em 1997 com o título “À Meia-Noite com Glauber”). Um falso trash-movie, que é fruto de uma exaustiva pesquisa arqueológica, onde tal qual um cientista, dissequei clássicos do cinema nacional para revelar um outro lado da obra de Glauber que continua muito mais vivo do que morto… O seu lado experimental de “O Pátio” – curta-metragem de 1959, que considero o melhor filme nacional porque só tem 10 minutos – e o “Câncer”, além de resgatarmos também o seu lado trash, não só de “A Idade da Terra” – que sem dúvida nenhuma poderia receber o título (muito honroso) de pior filme do mundo, como aqueles pavorosos filmes psicodélicos que ele fez na África. Outra curiosidade deste trabalho é a minha volta ao curta, quase 20 anos depois de “H.O.” (1979). Já que, como vocês terão a oportunidade de ver em minha filmografia, nos anos 70 fui um documentarista bastante ativo, tendo tido a felicidade de registrar, entre outras coisas, quatro cavaleiros do apocalipse da nossa cultura: o antológico Kid Morengueira, o nosso querido Mojica, o escritor gaúcho Dyonélio Machado, que também é um pioneiro trash da literatura nacional e finalmente o lendário Hélio Oiticica, que foi meu grande mestre! Nesta época inclusive, conheci o Glauber e, embora naquele tempo estivessemos muito distante e porque não dizer, em campos opostos, nasceu certa simpatia, intermediada pela presença da maconha que eu lhe dava. Em 1979, Glauber queria que eu fizesse um documentário sobre ele mas que talvez por timidez, ou medo de penetrar na “zona proibida”, não levei adiante o projeto, que hora estou finalizando! O filme será narrado por Zé do Caixão e tem músicas do Roberto Carlos e Raul Seixas!!! Completando sua pergunta, trata-se de um filme tese onde procuro provar a minha nova teoria sobre “A Estética da Fome” com “A Estética da Vontade de Comer” (que é a nossa: tendo começado com o Zé (NdoC: José Mojica Marins), influênciado o Rogério Sganzerla e toda uma nova geração da qual também faço parte e atingindo até canibais punheteiros como você!!!

Baiestorf: O que tem visto de bom no cinema nacional?

Ivan Cardoso: Na verdade eu odeio o cinema nacional, ou melhor, odeio este rótulo, que atualmente é sinônimo de um tipo de produção que faliu a Embrafilme nos anos 80. Como sou o único babaca do planeta que teve o saco e a determinação de fotografar 99 outros idiotas, malucos, delinqüentes e otários que se dizem diretores de cinema. Estou falando da badalada expo-fotográfica “De Godard À Zé do Caixão”, onde ao longo de duas décadas registrei esse monte de fotos de homens e drag queens (Benguel, Ana Carolina, Tizuka e outras víboras) compondo um exótico hall, do qual, seu barriga verde ensanguentado, você já faz parte!!! Além de ser o otário que mais se debruçou sobre o nosso cinema, pois além do filme do Glauber e do Mojica (NdoC: “O Universo de Mojica Marins, ver post anterior intitulado “Ivan Cardoso Encontra Zé do Caixão”), tenho quatro making of de Júlio Bressane, inéditos. Um outro curta inacabado sobre Bressane, intitulado “A História do Olho” e outro sobre o Sganzerla, chamado “O Terceiro Olho”, ambos em 16mm. Portanto acho que tenho o direito de falar mal do cinema brasileiro chapa branca. De bom no cinema brasileiro eu vejo o sucesso do Mojica e a volta do udigrudi trash do qual vocês são um dos principais responsáveis!

Baiestorf: Por falar em udigrudi trash, qual sua opinião a respeito das produções amadoras em vídeo, que substituem o Super 8?

Ivan Cardoso: São todas umas merdas! Todas essas discussões e categorias estão ultrapassadas, principalmente no reino udigrudi. Em primeiro lugar, essa categoria “amadora” não existe. Se você acha que o seu trabalho é amador só porque é cooperativo, não remunerando seu pessoal, é porque você é um merda mesmo, baixinho! Todo o esforço de vocês não vale nada? … Como já dizia “Suor, não é água!”, apartir do momento que vocês se reunem para fazer e posteriormente mostrar o seu trabalho, não são mais amadores, ou melhor, são amadores de cinema. Outro problema que devemos analizar, na verdade, apenas para finalizar a primeira questão: Os teus canibais deveriam pagar para trabalhar no cinema. Afinal de contas, na sétima arte, o diretor é que é o artista e os outros são gado!!! Profissionalismo vs. amadorismo é um obstáculo criado pelo sindicalismo Stalinista petista, para censurar esteticamente a criatividade das novas gerações, obrigando os artistas a se profissionalizarem , ou seja, terem carteirinha e colaborarem com seu dízimo para a CUT. Em relação ao outro problema que os afligem: Vídeo Vs. Cinema, também já foi ultrapassado há mais de duas décadas. O vídeo é o instrumento, um meio, veículo do caralho! Super mais moderno, do qual vocês não devem se afastar porque, além de mais barato, experimental, fácil de usar, manejar, iluminar, gravar som, etc, é o veículo, cinema do futuro!

Baiestorf:  Como anda a pré-produção do “A Filha de Drácula”? O Luiz Thunderbird me disse que vocês iniciam as filmagens no final do ano?

Ivan Cardoso: Estou reformulando o projeto, que já é um sonho que me acompanha desde 1988, quando estava em dúvida entre essa lenda ou a radionovela do “Escorpião Escarlate”. Agora só está faltando contratarmos a nossa sugadora. Já pensei em várias: a Monique Evans, Daniele Daumerie, Cristina Mortagua, Claudia Liz, Roberta Close e até a Helena Rinaldi, mas que perdi um pouco da tesão depois que ela foi para o fantástico (NdoC: Como se sabe, Ivan não conseguiu fazer “A Filha de Drácula” e acabou realizando o “Sarcófago Macabro” e “Um Lobisomem na Amazônia”).

Baiestorf: Por falar na Roberta Close, que tal foi trabalhar com ela?

Ivan Cardoso: Foi realmente do caralho trabalhar com a Close, porque naquela época inclusive, ela ainda tinha caralho!!! E vocês não podem imaginar a loucura que foi. Por isso mesmo planejei o “Escorpião Escarlate” com um elenco ainda mais grandioso, para repetir a dose. Sendo assim contratamos, além da Beltrão, Josi Campos, Suzana Mattos, Isadora Ribeiro e Monique Evans! Como naquela época, 1988, 1989, a Roberta estava no auge, resolvi contrata-la para um número de strip tease, visando tirar partido disto no lançamento do filme. Por isso mesmo, no contrato milionário que assinamos de 3 mil dólares, fiz questão de frizar que ela teria de ficar nua de frente. Curiosamente sempre que a boneca aparecia na produção, encantava os homens mas deixava as bichas furiosas, sendo assim, Roberta não contava com os amores do sensacional Oscar Ramos, o super Ramos, diretor de arte de todos os meus filmes, ou mesmo dos maquiadores e cabelereiros , que geralmente prestavam toda a assistência às atrizes. E na hora H da esperada filmagem vim a descobrir que ela não poderia tirar o tampasex, pois seu enorme caralho (que infelizmente nunca vi) aparecia em cena. Pena que não filmamos a seqüência assim, aliás, na época do lançamento, em 1993, quando a Roberta já tinha cortado o seu caralho, eu cheguei a pensar em fazer um insert para o trailer de um outro caralho, dando a impressão que era o dela!!!

Baiestorf: E os orçamentos dos seus filmes?

Ivan Cardoso: No Brasil, como no resto do mundo, nenhuma cinematografia pode existir se não tiver o apoio do estado, por uma razão muito simples: A indústria norte-americana é baseada em 3 mercados internacionais ocupados e criados por eles, que é o vídeo, televisão e cinema. Como no Brasil nós não temos acesso a nenhum deles, como poderemos existir sem essa ajuda, que é responsável pela sobrevida que ganhou o cinema espanhol, inglês, alemão, chinês, etc… Tudo isso é um papo muito careta, complicado e chato, porque inclusive o nosso governo subvenciona o cinema americano ao permitir que ele circule no Brasil sem pagar impostos!

Baiestorf: Como foi conhecer o Christopher Lee?

Ivan Cardoso: Meu grande sonho ainda é filmar com ele. Quando se fala em filmes de terror a nossa mente geralmente nos trás a memória os nomes de Bela Lugosi e Boris Karloff que são, sem sombra de dúvida, dois titãs da sétima arte, mas não podemos nos esquecer que Christopher Lee ainda é a última grande encarnação do Conde Drácula. Aliás, não sei onde estão os big shots de Hollywood que não percebem isso! Lee, que inclusive fala fluentemente português, é talvez o último dinossauro do terror!

Baiestorf: Projetos?

Ivan Cardoso: Paralelo ao filme do Glauber, estive fazendo novos copiões de uma série de produções minhas dos anos 70. Além deste valioso material e de todos os já citados making ofs, tenho verdadeira filmografia desconhecida de trash movies, ou seja, posso me aposentar que o meu baú está cheio de fitas inéditas!!!

Baiestorf: E o Carlos Imperial?

Ivan Cardoso: Fui amigo e fã do legendário Carlos Imperial, homem de TV, produtor de teatro e principalemente, o homem que lançou a jovem guarda. Sendo assim, divido meu tempo entre o cinema e a doce atividade de descobrir talentos. Atualmente, por exemplo, estou preparando uma outra exposição de fotos, focalizando 69 bundas fotografadas na minha alcova: O título ainda estou em dúvida entre “Bundamania”, “Preferência Nacional” ou “Do Nô ao Pornô”! E olha que eu nem curto muito comer cu, pois acaba sempre sujando a camisinha. Mas eu gosto muito de uma bundinha no apecto plástico da coisa! Como já tive a oportunidade de lhe dizer, duro deve ser enrabar o Jorge Timm, o resto é pinto!!!

Baiestorf: E o que Cardoso diz pros futuros cineastas?

Ivan Cardoso: Sai dessa meu filho, o Brasil já tem cineasta demais para tão pouco cinema que mostra nas telas!

Nota do Canibuk: Depois dessa entrevista, realizada em 1996, Ivan Cardoso voltou na ativa com produções fantásticas como o clássico “Sarcófago Macabro” (2006) e o ruinzinho “Um Lobisomem na Amazônia (2006) que teve inúmeros problemas de produção. Também lançou, em 2005, “A Marca do Terrir”.

Segue o curta-metragem “À Meia-Noite com Glauber” para quem quiser conferir a genialidade de Ivan Cardoso, um dos mais inventivos cineastas do Brasil:

2 Respostas to “Entrevista com Ivan Cardoso”

  1. grande entrevista. Pô, mas aposto que o Ivan era do Partido Comunista Brasileiro, na juventude né. Pq é incrivel, toda pessoa que na juventude era do PCB hoje em dia é um reaça, velho e ranzinza. hahah.

  2. […] dedicando-se ao curso de jornalismo. Em 1971 estrelou “Nosferatu no Brasil” de Ivan Cardoso, fazendo o papel de um hilário vampiro que andava de dia pelas praias cariocas. Se suicidou no ano […]

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