Ivan Cardoso & O Crepúsculo do Olho

Gurcius & Ivan.

Interceptamos uma correspondência entre nosso Ivampiro Tarado Ivan Cardoso e seu Homem-Cão (e escravo sexual de todas as posições) Gurcius Gewdner, onde ele faz uma descrição extremamente importante e detalhada (tem valor de documento histórico) do seu novo projeto cinematográfico, “O Crepúsculo do Olho”, uma experiência de desconstrução cinematográfica bem ao estilo daquelas que tenho adoração (em 1999, Coffin Souza e eu, realizamos um projeto parecido, montamos em Super 8 uma desconstrução experimental riscando/raspando desenhos lisérgicos diretamente sobre a película – tente fazer isso em quadradinhos de 8 milímetros e fique louco – e o resultado foi o curta-metragem pouco visto “Pornô”, de 3 minutos). Destruir o cinema sagrado (entre as películas que Ivan destruiu neste projeto estão “Cancêr” de Glauber Rocha e “Alphaville” de Godard, filmes do Mojica e até seus próprios trabalhos) para, a partir desta destruição, recriar uma nova forma de visualizar esses mesmos filmes, transmutados em um mundo particular gerado pela mente irrequieta de Ivan Cardoso, o mais genial dos cineastas vivos do cinema brasileiro.

Segue o documento confidencial e top secret:

O HOMEM DOS OLHOS DE RAIO X

“No começo da semana que vem darei início à finalização do “CREPÚSCULO DO OLHO”, já tendo mais de meia hora de negativos rabiscados e animações, com destaque especial para a última série que fiz em cima de copiões com imagens já impressas. Além do resultado aparentemente ter ficado muito legal, quando for projetado estas animações ganharão um movimento fantástico graças ao movimento das imagens já impressas… Além disso, não tenho conhecimento que outros malucos, como eu, tenham desenvolvido tal técnica! Estou louco para terminar esta série porque este trabalho esta realmente acabando comigo e com o que restou da minha casa… Além de dormir diariamente às sete/oito da manhã, a descoberta deste novo processo me colocou, com toda minha experiência dos meus 56 bem vividos anos, à beira da loucura… Não só pela excitação que a descoberta deste novo processo causou em mim, como também por sua radicalidade! Se você passar a desenhar em fotogramas já impressos ou pontas, além de subverter todo um processo de captação de imagens, até então obrigatório para se fazer um filme, me colocou às portas de infinitas novas possibilidades de fazer um filme deixando de lado várias etapas caríssimas de produção: negativo virgem, revelação, equipe de filmagem, produção, etc. Embora limitado por um lado – é logico que é um tipo de filme bastante diferente do convencional – são inesgotáveis as possibilidades que você vai descobrindo a medida que você vai desenhando os fotogramas… Por exemplo: utilizei trechos de uma seqüência de “Cancêr” do Glauber onde o Hugo Carvana e a Odete Lara fumam um baseado… Como essas imagens não me pertencem eu tenho que desfigurá-las a tal ponto que elas se transformam; quando usei uns takes do “Cabeças Cortadas” para utilizar uns planos do Cierre Clementi tive de acabar cortando a sua própria cabeça, ou utilizando simplesmente uma circunferência para transformar sua cabeça numa bola transparente, ou as vezes desenhando uma caveira em cima da imagem do seu rosto… E o resultado, nem preciso dizer: fica espetacular!!! Também venho trabalhando copiões coloridos com soda caústica & água sanitária… Que além de serem produtos super tóxicos que acabam com as suas mãos, unhas e roupas, são produtos viscosos que penetram na cutícula, entre os dedos e nas unhas onde acabam ficando, de forma que muitas vezes ao passar a mão no rosto, ou a limpar o nariz após um teco, eu acabo ingerindo um pouco destes venenos! Que além de poderem me matar, acabarão destruindo ainda mais o meu nariz ! Graças a deus, e por usar óculos, nunca respinguei esses produtros nos olhos, o que seria fatal para eles, imagino… Mas, as mãos são aquela parte do nosso corpo que não param, não só para desenhar os negativos, como para aplicar a água sanitária ou a soda, espalhá-la sob as imagens e posteriormente lava-las… Enquanto isso você coça o saco com água sanitária, coça o cu com água rais, limpa a boca com água sanitária, assoa o nariz com soda !!! Meu deus, será que estou tentando me suicidar !!! O resultado da soda caústica,  da água rais & da água sanitária sob os copiões coloridos (são fantásticos), além de fabulosos, em seu aspecto químico: você joga o produto sob os negativos e, em poucos segundos, ele começa a interagir entre as camadas de cores dos filmes destruindo partes das emulsões, processo que vai mudando a cor das imagens que, caso você deixe rolar após se tornarem bastante psicodélicas, vão sendo pela cor verde e se você continuar esfregando o dedo ou uma esponja o verde também desaparece e o negativo fica inteiramente amarelo ! Durante esse díficil controle do processo, acontece que você tem de tomar um cuidado enorme porque se ficar tudo amarelo também não tem graça… E se você lavar com água então tá fudido, porque até o amarelo, a princípio ouro ou gema, como você preferir, a água também o descolore restando um amarelinho bem transparente… Quando o bacana desta técnica é você destruir partes do negativo, deixando algumas originais – com as cores certa – outras áreas degradê, entre essa loucura que lhe contei e a normal e outras inteiramente psicodélicas… A grande dificuldade que ainda não sei como resolver é que sem lavar com esses produtos químicos que ficam sob o filme, a sua emulção não seca rapidamente, as vezes levando dias para secar e mesmo assim ficam muito precárias e perigosas de grudarem uma nas outras, além deste resultado também esmaecer através do tempo…. Agora o mais curioso é que, como tenho guardado todos as sobras de negativos & copiões dos meus filmes, vou no melhor estilo dos super oito, fazendo uma montagem à olho nu em cima de uma  lâmpada, com os striptease  das vampiras – em especial o da Alvamar Taddei cuja as seqüências foram muito mal aproveitadas no filme porque tenho uma metragem enorme destas cenas inéditas, além das minhas tradicionais seqüências de banho da Clarice na serra, aliás um desses clips é “O ESCORPIÃO NEGRO EM ALPHAVILLE”, misturando seqüências do meu escorpião com as do filme do GODARD! Obs: ou seja, falando sério, quem está num horizonte distante destes, não pode levar um papo térreo destes do Márcio… Se vai DAR SAMBA, ainda não sei mas estou me requebrando todo!!! Essas montagens e como tenho praticamente duas, três, quatro versões dos mesmos planos destes filmes – porque durante o processo de captação de imagem, principalmente pela escola & perícia dos profissionais que trabalhavam nestes bons tempos, aprendi a gastar muito negativo, cobrindo as seqüências em vários ângulos e repetindo o mesmo take várias vezes no melhor estilo hollywoodiano – me veio a cabeça uma idéia que nunca tinha me atraído, fazer um novo filme com uma nova história apartir das já filmadas…. Que loucura! Ainda mais quando você percebe isso às 6 da manhã… Acho que o Bogdanovich – que é um cineasta desmoralizado pelo Orson Welles – tem um filme assim, feito apartir de uma colagem de vários outros, mas como lhe disse a princípio isso não me interessava, além do meu universo ser muito mais restrito! Trabalho com as imagens dos meus filmes e algumas outras piratas que utilizei, ou outras como as do Glauber & do Mojica que também utilizei em determinados filmes: aliás tenho muitas fotos do Glauber filmadas e outro grande hit desta minha nova serie é o “O HOMEM DOS OLHOS RAIO X” com o Glauber no papel do grande Ray Milland e ainda, escrevi  num baloon jurássico ele dizendo: “fiquei doidão!… Tô viciado nesse colírio do Corman!”. Guarde com carinho este e-mail porque pela primeira vez fiz um extenso relato dessas minhas novas experiências & como diria o Mojica: ISSO É MUITO IMPORTANTE!!! “

IVAN CARDOSO,
RJ, 26/03/2009
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Nota do Blog:
Nos anos 50 e 60 cineastas undergrounds como Stan Brakhage (seu “Thigh Line Lyre Triangular”, de 1961, foi pintado e arranhado sobre imagens, Brakhage tentou imprimir o que seu terceiro filho teria visto ao nascer, uma sucessão de explosões de luzes coloridas e outros exemplos de visão de olhos fechados), Bob Branaman (no seu “Goldmouth”, de 1965, um 16 mm sobre o poeta Lawrence Ferlinghetti, onde intercalou películas coloridas, preto & branco e negativas, arranhou e pintou sobre o filme e até mesmo colocou pequenos trechos de outros filmes dentro de um mesmo fotograma para fazer verdadeiras colagens em filme) ou Carmen D’Avino (seu “A Trip”, de 1960, foi resultado de um bloqueio mental, incapaz de trabalhar D’Avino atirou antigos filmes expostos dentro de uma banheira, juntou tintas de cor e conhaque (a bebida), arranhou, estampou e lixou a película, cortou o que restou em comprimentos de dois pés e terminou pintando diretamente sobre o filme de 16mm).
 
Todas as fotos deste post foram tiradas por Petter Baiestorf durante a “Mostra Trash 3”, na cidade de Goiânia em 2006.

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