O Rei do Cagaço

Brazilian Trash Cinema era um fanzine que Coffin Souza e eu fazíamos entre os anos de 2000 e 2001, durou apenas 3 edições (a primeira de Maio de 2000 com 48 páginas, a segunda de Novembro de 2000 com 60 páginas e a terceira de Junho de 2001 com 68 páginas), neste fanzine a gente cobria o cinema marginal, cinema sexploitation (e pornô), cinema de gênero brasileiro, cinema de vanguarda e as produções em vídeo da época, publicamos nele matérias e entrevista com gente como Nilo Machado, Ivan Cardoso, Mojica, Andrea Tonacci, Jairo Ferreira, Diomédio M., Rajá de Aragão e muitos outros caras fodas que faziam uma arte autêntica. Devagar vou disponibilizando aqui no blog algumas coisas publicadas neste fanzine que era um barato fazer! Hoje segue uma entrevista com o Edgard Navarro (que não foi a gente quem fez, simplesmente encontramos ela em algum lugar – que minha memória não permite lembrar que local era – e disponibilizamos para o nosso público tomar contato com as experimentações do Navarro). A mini-entrevista é ilustrada pelas páginas do “Brazilian Trash Cinema” (e não tem relação alguma com a entrevista do Navarro).

EGDAR NAVARRO:

Filmar é desvendar o mistério do ser

Alguém: Você continua achando que pessoas prudentes não fazem revolução?

Navarro: (risos) Felizmente eu não sou uma pessoa prudente!

Alguém: Como tudo começou?

Navarro: Uma das primeiras coisas que filmei foi um cu cagando. Uma coisa esquisita mas que tem haver com minha personalidade transgressora, a vontade de falar palavrões na cara de uma sociedade hipócrita. Afinal todos cagam, peidam e trepam.

Alguém: Fale sobre a filmagem dessa cena, trata-se do filme “O Rei do Cagaço”?

Navarro: A cena do cocô dura um minuto e meio. É uma cena que toca muito. Foi inspirada num livro de Salvador dali. Na verdade esta cena representa o cu da humanidade. Quando filmei esta cena tinha a certeza de que estava vendo aquilo pela primeira vez. Se o Louis Armstrong (nota do blog: Navarro confundiu o jazzista com o astronauta Neil Armstrong) foi o primeiro homem a pisar na lua eu tinha a sensação de ser o primeiro homem a ver um cu cagando daquela proximidade, com aquele close todo. Na hora, confesso que fiquei descabaçado!

Alguém: Como são as reações das pessoas quando assistem esta cena?

Navarro: Eu percebo que os primeiros segundos são de sorrisos e gargalhadas. Mas depois elas passam a ficar incomodadas com isso. Chega o momento que elas passam a se entre-olharem e rirem de nervosas.

Alguém: E você?

Navarro: A imagem mais contundente que fiz era uma merda, teve momento que eu entrei numa viagem de que não poderia mostrar esta cena. Aquilo era uma coisa demoníaca, que poderia ser amaldiçoado, que não podia fazer mais nada. Deveria desistir de tudo? Resolvi continuar!!!

Alguém: Por que você filma?

Navarro: Parafraseando Artaud, eu filmo para acabar de vez com o juízo de Deus. Filmar é desvendar o mistério do ser. Quando começo a escrever um roteiro eu entro numa espécie de transe. Aquilo quer sair de mim e precisa sair de mim. É daquela forma que vou atingir o meu companheiro, meu igual, ser humano. Essa é a única coisa importante que faço na vida além de comer, cagar e ter uma vida orgânica.

Uma resposta to “O Rei do Cagaço”

  1. […] ano o grande homenageado da MFL é o cineasta baiano Edgar Navarro, que exibrá toda sua obra e, também, o ainda inédito “O Homem que Não Dormia”. O […]

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