As Aventuras de Nilo Machado na Terra do Cine-Bundismo

“Com duas garrafas de whisky na mesa eu escrevo qualquer história”, já dizia Nilo Machado (1924 – 1996), um obscuro diretor brasileiro até hoje não reconhecido. Pra não deixa-lo de fora, reviramos arquivos e mais arquivos sobre cinema nacional e conseguimos levantar um pouco de sua história. Uma curiosa história de vida que facilmente pode dar a Nilo Machado o título de diretor mais picareta da história do nosso tão pouco conhecido cinema nacional (essa pesquisa, originalmente publicada no fanzine “Brazilian Trash Cinema 2”, eu realizei em 2000, hoje em dia os historiadores do cinema brasileiro estão conseguindo publicar seus livros com maior facilidade).

1953: após ter sido boy do escritório da distribuidora United Artists, terceiro sargento de infantaria, lanterninha do cinema Polytheama, gerente do cinema Piedade e contador das distribuidoras Warner, Columbia e França filmes, Nilo Machado (com apenas um dente na parte superior da boca) compra a RIO MAR DISTRIBUIDORA, empresa especializada em produções de baixo orçamento, geralmente comédias trashes, policiais, sexploitations, drug-movies, sleaze films americanos, franceses e brasileiros (representando um espaço extremamente importante na distribuição da produção independente local).

1957: Nilo começou a enxertar nos filmes estrangeiros pequenos números de strip tease, como o sucesso foi tanto, logo estava ele próprio filmando a mulherada para botar strips inéditos nas produções distribuídas pela sua empresa.

1960: Abriu a Nilo Machado Produções Artísticas e virou figura lendária do beco da fome (local onde se reunia a classe cinematográfica do Rio e também os músicos de jazz e bossa nova, na Cinelândia). Por essa época, começou a comprar filmes inacabados, que remontava para o delírio da machaiada. Assim realizou “Tuxauá… O maldito”, que misturava cenas da selva africana (tiradas de filmes americanos) com o matagal que havia nos fundos do hospital Geral de Curupaity, em Jacarepaguá. Em “A Psicose de Laurindo” dois amigos contam suas aventuras nos bordéis franceses (e nos seus sonhos aparecem trechos inteiros de filmes franceses que eram distribuídos por Nilo). No filme “Aconteceu no Maracanã”, marido e sua esposa vão assistir a final da copa de 50 (que são imagens tiradas de um documentário) e, enquanto o Brasil perde para o Uruguai, o marido tem visões com mulheres nuas.

1972: Com o sucesso financeiro de “seus” filmes, Nilo arranja algum dinheiro e ao invés de consertar seus dentes podres na boca, compra uma câmera Arriflex, alguns refletores e realiza seu primeiro filme “sério”: “O Playboy Maldito”, um sexploitation chinelão onde faz, além da direção, também o roteiro, iluminação, cenografia, montagem, fotografia e produção.

1977: Nilo é inspirado nos grandes sucessos estrangeiros, faz “Tarzan…O bonitão sexy” (filme que ele dirigiu somente de cuecas, momento este registrado no curta “Cinema 77”) e “Emanuelo…O Belo”, que trazia no papel principal o açougueiro Sylvio Kristal, um jeito magistral que Nilo encontrou de pagar suas dívidas com o açougueiro de seu bairro. Segundo o Jornal do Brasil (31/07/1978), a produção de “Emanuelo… O Belo” custou Cr$ 85 mil e já no segundo dia de exibição havia arrecadado Cr$ 65 mil de renda.

1979: É abandonado por sua esposa e as três filhas.

1980: Após iniciar a construção do estúdio Adelana, alcança certa notoriedade e consegue distribuir seus filmes e outros estados. Nesta mesma época, para aproveitar a lei de obrigatoriedade de exibição de curtas nacionais antes de longas estrangeiros, realizou um punhado de obras picaretas, como “Ginástica”, “Base para boa saúde”, “Tiradentes”, “São Paulo e suas rodovias” , “Sábio Oswaldo Cruz” e muitos outros.

1981: Começou a filmar primeiro a morte de seus personagens, pois se algum dos atores desistisse no meio da produção já tinha na mão a solução para, pelo menos, este problema…

1982: Aproveitando o sucesso do pornô nacional, partiu também ao sexo explicito com sugestivos títulos como “Tarados na Fazenda dos Prazeres” e “A Ilha dos Cornos”.

1988: “A Ilha dos Cornos” (realização de 1985) é liberado pela censura, mas continua proibida a exibição de fotos e cartazes de propaganda.

1990: Já fraco para o negócio faz seu ultimo esforço cinematográfico ao reunir toda a sua produção (incluindo até os melodramas em preto e branco que distribuía) e relançou tudo com novos títulos e enxertos de sexo explícito e coloridão.

1996: Morre sem ser reconhecido como um dos mais incansáveis realizadores e distribuidor do cinema brasileiro.

2000: Seus filmes continuam produções obscuras e totalmente inacessíveis para a geração de novos cinéfilos.

2009: Vai ao ar em Novembro, pelo Canal Brasil, um documentário de 26 minutos sobre Nilo Machado.

2011: Está previsto o lançamento de “Nilo”, docudrama em torno de Nilo Machado.

Filmografia de Nilo Machado: A Máfia Do Sexo (1988), A Noiva Piranha (1988), A Filha Da P… (1988), O preço de uma prostituta (1986), A ilha dos cornos (1985), Nas garras da cafetina (1985), Tarados na Fazenda dos Prazeres (1982), Não Fale em Sexo (1980), Emmanuelo… O Belo (1978), Traí… Minha Amante Descobriu (1978), Tarzan, o Bonitão Sexy (1977), Desejo Sangrento (1976), Traição Conjugal (1976), Lua-de-Mel Sem Começo E Sem Fim (1975), Nas Garras da Sedução (1974), Playboy Maldito (1973), Aconteceu no Maracanã (1969), A Psicose de Laurindo (1969), Tuxauá, o Maldito (1967) e Terra da Perdição (1962) .

2 Respostas to “As Aventuras de Nilo Machado na Terra do Cine-Bundismo”

  1. […] de forma inconsciente e bem atrasado em relação ao seus irmãos pervertidos americanos/europeus, Nilo Machado seguiu os passos dos Nudies-Cuties (flertando muito com o cinema nudista) quando produziu a […]

  2. edson seretti Says:

    onde esta o acervo dos filmes de nilo machado

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