O Vampiro da Cinemateca

No Brazilian Trash Cinema número 3 (2001) publiquei uma entrevistei que fiz com o grande Jairo Ferreira, autor do livro “Cinema de Invenção” (pode ler as duas edições do livro que ambas tem muita coisa a dizer) e cineasta de curtas como “O Guru e os Guris” (1973), “Ecos Caóticos” (1975), do média-metragem “Horror Palace Hotel” (1978) e dos longas “O Vampiro da Cinemateca” (1975/77) e “O Insignificante” (1980). Jairo era uma grande figura, está fazendo falta na arte brasileira.

Baiestorf: Afinal, quem é o Vampiro brasileiro? Você ou o Ivan Cardoso?

Jairo Ferreira: Eu sou o legítimo Drácula de Brahma Stockler desde meu curta “O Guru e os Guris” (1973), curta em 35mm em que cito “O Vampiro de Dreyer”. Ivan é o criador do Ivampirismo & seu “Nosferatu” tem mais haver com Torquato Neto.

Baiestorf: Você acabou de lançar uma versão atualizada de seu livro “Cinema de Invenção”, como está sendo a repercussão?

Jairo Ferreira: O Brasil em vez de andar, carangueja. A nova edição está linda, mas o editor não soube divulgar e quase virei um personagem de Polanski no “A Dança dos Vampiros”.

Baiestorf: O que você acha dos novos fazedores de filmes do Brasil???

Jairo Ferreira: Sou muito sintético. Todo homem e toda mulher é uma estrela. Cada um de nós somos um microcosmo. Freud dizia que cada cabeça é um mundo. Há uma correspondência entre micro & macro, certo?

Baiestorf: Fale um pouco sobre a “paranóia de 68”, quando cineastas neuróticos destruiam seus filmes (como Parolini, co-autor do destruido e inesxistente “Via Sacra”):

Jairo Ferreira: Essa pergunta é boa. Abra meu livro na página 126: Temos aí Orlando Parolini em “Via Sacra”. Uma foto vale por mil palavras. (nota do Canibuk: página 126 da segunda edição do “Cinema de Invenção”, segue scanner da foto de Parolini, na página 126 da primeira edição você irá encontrar duas fotos: 1) “Stenio Garcia e Clarice Piovesan em O Pornógrafo”; 2) “Deglutição antropofágica do Cinema Noir”).

Baiestorf: Mizumoto Kokuro, proprietário do jornal “São Paulo Shimbun” onde você tinha uma coluna que falava sobre cinema, também era o distribuidor dos filmes do estúdio Nikkatsu, certo? Você e o pessoal udigrudi paulista acompanhavam os filmes japoneses? Havia influência?

Jairo Ferreira: Muita, porém sutil. Em 1965 fiz um roteiro chamado “A Geração dos Insetos”. Era influência de “A Mulher Inseto” (nota do Canibuk: “Nippon Konchûki”, 1963, de Shôhei Imamura). Eu era da Comissão de Cinema do Juizado e convidei Luiz Sérgio Person para assisti-lo. Carlão Reichenbach eu também já conhecia desde 1964. Amavámos cinema nipônico.

Baiestorf: Fale sobre “O Vampiro da Cinemateca”.

Jairo Ferreira: Olha Baiestorf, você é a flor do mal baudelaireano que vem de Palmitos. Intuo que você seja um anjo da guarda. Eu já estava pensando em suícidio  via Cioran. Então lhe digo: Esse meu filme está sendo telecinado pelo Itaú Cultural num lance de resgate nacional do Super 8, com curadoria do professor Rubens Machado, do ECA. Faz parte de amplo projeto de resgate do Super 8 e começa com udigrudi por ser uma coisa apaixonante, mas eu sou muito esotérico & tenho que me manter desapaixonado.

Baiestorf: Quando veremos um novo filme feito por Jairro Ferreira?

Jairo Ferreira: Estou rodando o vídeo “Cinema de Invenção 2001” que terá 22 minutos e ficará pronto no equinócio de Setembro. Não se trata de documentário babaca, pois misturo entre os entrevistados os 22 arcanos maiores do Tarot.

Baiestorf: É a favor dessas leis de incentivo ao cinema?

Jairo Ferreira: Detesto burocracia, sou anarquista. Não precisamos mais dessas leis repressivas prá pegar grana e fazer bosta. A única lei que me orienta é a lei do forte, a lei do Nietzsche, a lei de Crowley, a lei de Raul Seixas.

Baiestorf: Fale um pouquinho de seu romance “Só por Hoje”.

Jairo Ferreira: Olhe, foi escrito entre janeiro e outubro de 2000. Aí comecei a reler e fui modificando, acrescentando, alterando na medida da minha inspiração que melhora quando puxo um fumo. Não gosto de destilado, não gosto de cocaína: meu santo é a coisa natural sativa… Você já viu alguém morrer de overdose de maconha? Quero uns 10 ou 15 anos mais prá realizar coisas de maturidade. Atualmente tenho sobrevivido graças a minha mãe que me compreende, mas ela se mudou prá Minas Gerais. O romance é em prosa poética e vou reintegrando todo meu universo, da infância aos dias atuais.  Hermes Trismegisto: o que está em cima é semelhante ao que está embaixo. Jairo Ferreira: estou sempre com os pés no chão e a cabeça nas estrelas. Sou Cine-Mago.

foto-montagem de Ivan Cardoso.

4 Respostas to “O Vampiro da Cinemateca”

  1. coffin souza Says:

    UMA QUESTÃO; SERÁ QUE A FALTA DE COMENTÁRIOS SOBRE ESTES ARTIGOS COM O RESGATE DO CINEMA BRASILEIRO COM CULHÕES É FALTA DE INTERESSE PELO ASSUNTO??? SERÁ QUE SÒ INTERESSA BRUNA SOFRIDINHA E ENTOPE A ELITE 2 ???????????????????

  2. Esse Jairo é uma figura msm.
    Tô loco pra ler o livro do cara, ms não me sobra grana agora.

  3. […] em 1970 e tem direção de João Silvério Trevisan. No elenco os cineastas Ozualdo Candeias, Jairo Ferreira e o crítico Jean-Claude […]

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