Roteiro da Intolerância

“Roteiro da Intolerância – A Censura Cinematográfica no Brasil” (264 páginas, Editora Terceiro Nome e SENAC), um livro de Inimá Simões. Que a censura é um bicho ridículo todo mundo já sabe, mas a história por trás da censura brasileira dos tempos da ditadura pouca gente sabe e Simões fez um levantamento bem interessante de todos os filmes censurados no Brasil (tanto filmes gringos quanto produções nacionais) num livro extremamente divertido, onde cara rola de rir com passagens como:

“(…) vem agora o professor Waldemar de Souza com informações de tirar o sono do general Antônio Bandeira, novo chefe da Polícia Federal, em sucessão ao general Caneppa, afastado do cargo por ser “mole” demais. Ele (Waldemar de Souza) afirma que até mesmo os filmes de kung fu, exibidos nas salas populares do centro das grandes cidades, opção preferencial de lazer para office-boys, soldados em dia de folga, gays, desempregados, etc., trazem também o perigoso vírus. E o pior de todos! O do maoísmo. Não se sabe se esses consultores e especialistas recebiam honorários pelas suas aulas, papers ou palestras. Ou se era a contribuição de “patriotas sinceros”, num esforço conjugado para afastar os perigos da subversão no país, consubstanciada numa frase bastante citada na época: “Quem não vive para servir, não serve para viver”, cuja origem é por demais evidente. (…)”

Em outra passagem o autor conta como foi a liberação do filme “O Império dos Sentidos” (1976, Nagisa Oshima):

“O Império foi liberado pelo Conselho em setembro de 1980, com unanimidade de votos. Uma guinada radical no comportamento da ala conservadora do Conselho, que não quis contraditar? Uma nova estratégia em andamento? Nada disso. O que se pretendeu foi evitar um recurso ao ministro Ibrahim Abi-Ackel, poupando-o de constrangimentos para manifestar-se. Afinal, como poderia ele proibir o filme se o Brasil inteiro foi notificado pela imprensa que seu filho Paulo, menor de idade, havia sido surpreendido com seus coleguinhas de escola assistindo ao filme numa sessão especial no Ministério antes de qualquer brasileiro comum? (…)”

Além da história da censura dos filmes lançados no Brasil, o livro ainda dá um panorama geral de como agia a censura no Brasil naqueles tempos:

“Alguns meses depois da tomada de poder pelos militares, a situação já se encaminhava para um acomodamento. A violência inicial foi arrefecendo e o governo Castelo Branco entrou numa rotina em que se alternavam medidas autoritárias e promessas de respeito aos direitos individuais. De início, as ações policiais se confundiam com a mais pura patetice. Entraram para o anedotário nacional. Na afoiteza, fora proibido “O Vermelho e o Negro”, de Stendhal, romance inscrito entre os melhores da literatura do século XIX, e – outro gesto desastroso – foi anunciado que a polícia estava procurando Sófocles, autor de um texto encenado em Porto Alegre. (…) “

Livro imperdível para todos aqueles que se interessam pelas patetadas do regime militar brasileiro e a censura que a arte sofreu na ditadura. A edição que tenho aqui em casa é de 1999, creio que ainda deva ser fácil de encontrar este livro nos sebos de grandes cidades.

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