Arquivo para maio, 2011

Mae West – Mulher com muito tempero!

Posted in Cinema with tags , , , , on maio 20, 2011 by canibuk

Nos meus filmes e nos meus livros, fiz o possível para mostrar que uma mulher deve ter os mesmos direitos de um homem. Mas nem pensar em trocar meu vestido e minhas jóias por um terno. Mae West.

Audaciosa, vanguardista, autêntica, são muitos os adjetivos que podemos usar pra definir esta mulher que nos anos 30 já falava sobre sexo sem nenhuma vergonha e fazia uma trabalho original mas mal-visto para a época, chegando até a ser presa por atentado ao pudor.

Mae West nasceu em 1893, em Nova York, filha de pai boxeador e dado às bebidas e de uma imigrante alemã,  aos 5 anos de idade começou a trabalhar no teatro. Quando começou a fazer filmes, aos 40 anos  de idade, Mae  já possuia uma longa experiência no teatro, em escrever suas próprias peças, novelas e comédias, sendo assim, não teve nenhuma dificuldade em, mais tarde, escrever seus próprios filmes.

Em 1926, com  “Sexy“, peça que narra a história de uma prostituta e que ganhou o desprezo dos jornais da época que se recusaram a dar publicidade à obra tão provocante, sua carreira deslanchou. “Sexy” resistiu e foi um sucesso,  até que a censura com aquela cara horrorosa e desocupada bateu à porta e a Sociedade para a Supressão do Vício tirou a peça de cartaz e Mae foi condenada e presa acusada de corromper a juventude. Depois de solta, escreveu outra peça intitulada “Drag” sobre a vida de travestis. A peça foi um sucesso em Nova Jersey, mas foi recusada na Brodway pois a polícia ameaçou prendê-la outa vez caso a peça fosse para Nova York. Nem assim deixou-se abater, era forte, insinuante, e ia em frente mesmo não sendo aceita e sendo mal vista pela sociedade branca por causa da forte influência afro que era gritante em seus trabalhos, adquirada desde à  infância, quando morava no Brooklyn onde teve contato com o blues e virou fã do artista negro Bert Williams, uma de suas grandes inspirações para muitas peças.

Mae West nunca esteve engajada com a causa feminista, mas sempre lutou pelo direito de fazer e dizer o que bem lhe apetecesse, teve vários amantes, e entre tantas frases de efeito e provocativas que tinha, umas delas dizia “Tenha um namorado para um dia de chuva – e outro, caso não chova.”. Mae sempre foi dona de uma posição de resistência, o que, certamente, acabou encorajando, inspirando e influenciando outras mulheres de sua época. Assim, continuou a escrever sobre os temas que mais a agradavam e que, ao mesmo tempo, despertava a ira dos falsos-moralistas que, bem… dispensam explicações, eles existem até hoje.  Prostituição, relacionamentos-interaciais, homosexualismo, eram os temas que predominavam em tudo o que escrevia e que, unidos a sua atitude atrevida, acabaram lhe dando a fama de mulher indecente, libertina e obscena.

Mae foi censurada até o começo dos anos 30, quando recebeu o convite da Paramount para o papel principal no “Night After Night” (Noite Após Noite), onde, ao receber o roteiro, odiou a história e se ofereceu para reescrevê-lo. Assim foi feito. E o filme, com o toque Mae West, cheio de humor sarcástico, foi um sucesso, salvando, inclusive, o estúdio da falência.

Em 1933, faz o “I’m No Angel” (Santa Não Sou), com o Cary Grant. O filme foi um escândalo para a época e quando foi atacada pela atuação considerada exageradamente sensual, quase vulgar, Mae respondeu dizendo sua frase mais famosa “Quando sou boa, sou boa. Mas quando sou má, sou melhor!”. Ainda pelo mesmo ano, entre tantativas de Hollywood em transformá-la numa moça comportada,  Mae adapta pro cinema sua peça “Diamond Lil” (Uma Loira para Três), outro grande sucesso. Logo depois veio o “Belle Of The Nineties” (Uma Dama de Outro Mundo), momento onde a censura no cinema estava intensa, ela tinha se tornado o principal alvo e, com a grande opressão, acabou tendo seus filmes editados. Por 1940 fez o “Flower Belle Lee” (Minha dengosa), filme que não agradou ao publico nem a atriz, que se via obrigada a deixar de lado tudo o que gostava e sabia fazer. Depois desse filme, Mae se afastou do cinema por muitos anos pois não aceitou ter que atender  aos padrões impostos pela censura da época. Continuou por muito tempo fazendo shows na Brodway e, mais tarde, fez mais dois filmes sem grande sucesso, “Myra Breckinridge” (Homem e Mulher até Certo Ponto) em 1970 e o “Sextette” (A Grande Estrela) em1978.

Mae West era única e poucos conhecem o trabalho dessa mulher magnífica e talentosa, que, ao contrário de muitas atrizes clássicas, era mais que uma loira voluptuosa  e desejável, ela era inteligente, rebelde, corajosa e legítima. Uma mulher com muito, muito tempero!

Selvas de Papelão e Latrinas Desocupadas: Uma Aula de Cinema com George Kuchar

Posted in Cinema, Vídeo Independente with tags , , , , , on maio 19, 2011 by canibuk

“Eu decidi fazer filmes após assistir à antigos trabalhos de George Kuchar”.

As palavras acima são de John Waters, rei do Mal-Gosto e um dos grandes nomes do cinema transgressivo mundial, admitindo uma de suas maiores influências.

George Kuchar nasceu em Manhattan, USA, em 1942. Junto com seu irmão gêmeo Mike (uma hora mais velho que George), começou a fazer filmes em 8mm nos blocos de apartamentos em que moravam e na vizinhança do Bronx, usando velhas cortinas como vestuário e amigos como atores. A partir de 1965, os diferentes interesses artísticos desfizeram a dupla. Como diretor, roteirista, câmera, editor e produtor, George fez mais de 50 filmes em 8mm e 16mm. Desde a metade dos anos 80 passou a trabalhar com vídeo produzindo mais de 40 títulos, além de dar aulas e cursos de cinema/vídeo. Tudo no seu estilo próprio: Underground, pobre, gay, debochado e divertido. A seguir várias dicas de George Kuchar sobre como produzir seu filme vagabundo (nota do Canibuk: essas dicas foram publicadas no fanzine inglês “Shock X-Press Cinema” de Steve Pulchalski em 1989 e traduzidas para o português por Coffin Souza em 2001 e publicadas aqui no Brasil no “Brazilian Trash Cinema” número 3).

Uma Aula de como Fazer Cinema com George Kuchar:

1- Nunca faça testes para escolher atores. Se você gosta do visual de alguém, use-o. Se para atuar ele for muito ruim, apenas utilize-o para ficar circulando em cena ou parado numa pose estilizada e expressiva. Mas se ele for realmente muito sem graça, então crie alguma situação como um tiroteio-e-fuga, uma escorregão numa casca de banana ou algum providencial relâmpago que fulmine o personagem.

É melhor ter amigos que são atores ruins do que gente chata que sabe atuar e ex-amigos chorando porque foram rejeitados de seu filminho.

Se algum amigo-ator for muito gordo e isto não ficar bem na tela, elabore uma iluminação expressionista (tipo meio Bela Lugosi, meio Marlene Dietrich) por baixo e dos lados para atenuar suas feições. Mas mantenha-o afastado do lanche reservado para a equipe… Ou melhor: Nem tenha lanche para a equipe!

2- Nunca vista seus atores com roupas da moda. Sempre misture estilos diferentes de roupas e utilize restos de guarda-roupas antigos. Assim você nunca vai ter um filme datado e conseguirá um visual mais original. Se não houver dinheiro para a compra de materiais, improvise. Sacos plásticos para lixo são ótimos para criar roupas futuristas. Infelizmente os atores vão suar como porcos debaixo da forte iluminação e se o som for direto vai se ouvir muitos ruídos estranhos quando eles se moverem.

3- Maquiagem é muito importante. Se você estiver rodando em preto e branco e quiser que sua atriz pareça estar com batom vermelho berrante, pinte seus lábios com lápis-de-sombra preto, que vai ter o efeito. Claro que os lábios pretos também podem ser utilizados num filme à cores, para vítimas de estrangulamento, por exemplo. Quando o ator tiver dificuldades de expressar suas emoções, elas podem ser pintadas em sua face. O contorno das sobrancelhas ou os cantos da boca, podem ser pintados para cima ou para baixo durante a cena para simular alegria, tristeza ou raiva.

Se uma atriz tiver os dentes dafrente muito separados (ou a falta de algum dente), pode-se colocar um pedaço de plástico ou papelão branco brilhante dentro de sua boca para simular um sorriso perfeito. Problemas haverão se você designar algum diálogo para ela recitar, neste caso, o truque é só trabalhar com esta pessoa se ela for representar uma vítima de espancamento.

4- Grande parte do filme é “fabricado” na sala de edição e esta é uma das atividades mais fascinantes na arte de se fazer cinema. Mas não é nada fácil ficar sentado dezenas de horas, durante vários dias, apenas para se fazer o casamento entre imagem e som. Por causa da pressão artística deste trabalho, suas glândulas sudoríparas vão exalar um fedor particularmente  forte e que parece uma mistura de cheiro de pêssegos podres com meias de nylon velhas e sujas. Suas meias devem estar limpas e os sapatos devem ser deixados do lado de fora da sala já no início do processo. Incenso pode ajudar a manter o ar menos fedorento. Se você sofre de acne, depois de horas trancado numa sala escura e quente e com os períodos de crise quando tiver alguma dúvida sobre cortar ou não uma cena, a vontade de expremer espinhas var ser terrível! Mantenha suas mãos longe do rosto para não engordura-las com seu suor e secreções de espinhas e emporcalhar o equipamento. Procure não se alimentar com coisas pesadas pois a flatulência pode atrapalhar a concentração. Mantenha litros de café à mão e tenha por perto uma latrina desocupada para suas necessidades.

5- Se você conhecer uma garota muito atraente e que também seja expert em edição e montagem, não a chame para trabalhar com seu filme. Os dois várias horas trancados numa sala escura… Já se você for homosexual e seu namorado é quem estiver editando o filme, evite distraí-lo com conversas íntimas e NUNCA entre na sala de edição depois de ter tomado banho de piscina com água tratada com cloro. Você vai estar com um cheiro parecido com porra e ele pode ficar aborrecido ao pensar que o estava traíndo enquanto trabalhava.

6- Para colocar em prática todos os seus projetos, existem várias técnicas para focar suas energias: É melhor que você viva numa vizinhança medíocre e que a TV só passe filmes repetidos. Ter muitos amigos também prejudica sua concentração, assim como comer bem e bastante. Para ser um cineasta dedicado, é preferível que você seja uma pessoa miserável e infeliz, de preferência castrado e se contente em comer galinha cozida com batatas.

Um pouco de complexo de inferioridade também ajuda, pois se tem vontade de estrangular todos os chatos que atrapalham na hora de criar algo superior, isso é bom para dar energia para criar algo que nos coloque no mapa da cultura humana. Esta fantasia assassina também pode ser um encentivo e inspiração para se elaborar tomadas mais criativas. Um local desconfortável para dormir também é um incentivo para se manter no trabalho até mais tarde, quem vai querer parar para descansar numa cama podre, torta e dura?

Música ajuda na concentração, mas evite os ritmos dançantes como uma praga! A batida martelante é criada para você se manter em movimento sem contar que os músicos sempre mixam mensagens satânicas gravadas de trás para diante entre estas batidas e que farão você ficar com uma vontade incontrolável de sair rebolando. Não é fácil se concentrar no trabalho quando se esta com o corpo envenenado com cigarros, drogas e bebidas. Mas as vezes o contrário é o melhor e precisa-se um pouco de veneno para conseguir aquela explosão intelectual e inspiração espiritual.

Se apesar de todos estes cuidados algum tolo ainda resolver atrapalhar seu trabalho, o que você deve fazer com esta pessoa é chama-la num canto e cortar sua veia jugular!!!

Sim, algumas destas dicas podem parecer ofensivas. Por favor me desculpem, mas fazer filmes é uma atividade que nos torna um pouco agressivos e cínicos.

Um último toque: Prefiro rodar tudo dentro de um estúdio ou local fechado onde tenho mais controle da situação. Penso que é melhor ter uma selva de papelão recortado do que não conseguir rodar aquela seqüência selvagem. Além disto cada vez que vejo um daqueles documentários sobre a natureza eu fico enjoado. Todos aqueles mosquitos e insetos zunindo por volta, pássaros cantando na hora errada, répteis nojentos se arrastando por toda parte e a possibilidade de se pisar em algo tão repugnante que vai acabar me revoltando o estômago e fazer com que eu acabe apreciando mais meus próprios fluidos fedorentos e excrementos!!!

Alguns filmes de George Kuchar:

Petter Baiestorf: Em 2007 eu escrevi, produzi e dirigi um curta-metragem de 23 minutos chamado “Que Buceta do caralho, Pobre só se Fode!!!” (estrelado pelos meus dois amigos pessoais, Coffin Souza & Elio Copini e editado pelo Gurcius Gewdner) que era uma espécie de homenagem/exaltação para o cinema realizado pelo George Kuchar. Na época mandei uma cópia do filme para o Kuchar conhecer e recebi esse bilhete abaixo em papel bem sugestivo:

Fernando Rick: Jesus Mendigo, Michael Jackson e o Cinema Biriteiro

Posted in Cinema, Entrevista, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , on maio 18, 2011 by canibuk

Faz 10 anos que o Fernando Rick está em franca evolução com sua obra cinematográfica e resolvi entrevista-lo. Fernando diz que foi influênciado (para começar a fazer filmes) principalmente pela Troma e pelos meus filmes, não é o melhor modo de começar a fazer filmes mas ele provou com seu trabalho que até mesmo os bêbados malditos evoluem na sua arte. E como evoluí, seu “Guidable – A Verdadeira História do Ratos de Porão” e, principalmente, seu novo curta-metragem “Ivan”, estão profissionais e continuam peças divertidíssimas do cinema underground brasileiro. Fernando fala na entrevista que gostaria de conhecer outra pessoa que tenha gostado do seu novo curta, bem, já encontrou, fiquei de quatro diante do filmaço, mostra um artista amadurecido em sua arte. Conheço o cinema de Fernando Rick desde quando ele lançou o tosco “Rubão – O Canibal” e virei fã na hora, na época fiquei extremamente feliz porque finalmente surgia alguém no Brasil fazendo filmes na linha dos meus (tanto ele quanto eu fomos/somos influênciados pela Troma) e, na minha cabeça de produtor independente alucinado, já começava a ver um mercado alternativo de cultura gore se esboçando na minha frente. Delírios de uma mente que alucina!!!

eu e Fernando Rick em 2007

Sem mais delongas, segue uma ultra entrevista com o Fernando Rick:

Baiestorf: Como você acabou dirigindo filmes? O que tu fazia antes? Conte como foi isso!

Fernando Rick: Como a maioria dos que se envolvem nisso, eu colecionava filmes, era aficcionado por filmes de terror e filmes violentos. Tinha uma coleção enorme, na época era VHS, vivia comprando e trocando fitas, filme alemão de necrofilia sem legenda em português, filme japonês simulando Snuff sem legenda nem em inglês e por ai vai… Era fanático por Lucio Fulci, Dario Argento, Takashi Miike, Jorg Buttgereit, mas os meus favoritos sempre foram a trilogia Evil Dead (devo ter umas 3 ou 4 tatuagens desse filme espalhadas pelo corpo) e os primeiros filmes do Petter Jackson. Minha vontade de fazer algo começou ai mas foi vendo os filmes da Troma (trilogia Toxic Avenger, Terror Firmer, Tromeu e Julieta, Sgt Kabukiman NYPD, Surfistas Nazistas Devem Morrer, e por ai vai) que comecei a me dar conta do tipo de filme que eu poderia e gostaria de fazer, e quando conheci os filmes da Canibal Produções e seu mentor Petter Baiestorf, comecei a ver que ja existia alguém fazendo este tipo de coisa no Brasil, ai foi o estopim de tudo. Quando era moleque eu fazia uns videos em VHS, com aquelas cameras grandonas de ombro, coisa que todo moleque que se interessa pelo assunto também ja fez algum dia. O primeiro um pouco mais significativo veio mais tarde, certa época eu tinha um site sobre filmes de terror que era bem famosinho, chamava Schizophrenia Horror Website, era antes de existir Boca do Inferno e esses portais de horror que existem hoje em dia. Eu passava meu tempo basicamente enchendo a cara com meus amigos e curtindo som pesado, resolvi juntar o pessoal e gravar algo, depois de algumas tentativas frustradas, conseguimos fazer nosso primeiro video, totalmente influenciado pelas tralhas da Troma, se chama Rubão – O Canibal, e claro, eu não tinha noção nenhuma do que eu estava tentando fazer.

Baiestorf: “Rubão – O Canibal” vai ser lançado em DVD pelo Gurcius Gewdner, como foram as filmagens dele?

Fernando Rick: Isso foi em 2001, eu tive essa idéia de fazer um filme sobre dois irmãos caipiras canibais necrófilos nazistas, queria misturar o máximo de absurdos possíveis e por umas bandas de metal nacional que eu gostava na trilha. Na época estava barateando o custo dessas hand cams MINI-DV e equipamento de edição, placa de captura, etc. Mas eu não tinha nada disso, e nem sabia como funcionava, pedi uma câmera emprestada pra um amigo, falei com um outro se ele poderia editar pra mim, juntei o bando de amigos bêbados que viviam chapados comigo pra cima e pra baixo e começamos a gravar a bagaça. Ficou um vídeo bem tosco, é demorado pra caralho, lento, sei lá como isso funcionou, mas rolou que por causa da trilha sonora, acabou tendo uma divulgação e saiu uns reviews falando bem na revista Rock Brigade, que pouco tempo antes havia feito uma puta matéria de 2 páginas sobre o Baiestorf, ou seja, começou abrir as portas pra esse tipo de filme para um público que ainda não conhecia e não sabia da existência de alguém fazendo esse tipo de coisa no Brasil. Nós fazíamos uns flyers toscos em xerox  e distribuíamos em shows de metal, lembro bem da gente entregando isso num show do Kreator e Destruction, todo mundo ficava curioso pra saber que porra era aquela. Isso já era 2002, quando saiu o filme, e caiu no gosto dos roqueiros bebuns de plantão, começaram a exibir isso em botecos, festinhas de amigos e der repente, todo mundo tinha uma cópia do VHS.

Baiestorf: “Feto Morto” é numa linha completamente Troma e foi o primeiro lançamento independente brasileiro em DVD, como foi realiza-lo?

Fernando Rick: Nessa época eu era extremamente bitolado em Troma, e queria muito fazer algo do tipo, queria mulher pelada, putaria, escatologia. Como eu não tinha noção de filmagem nem porra nenhuma, já sabendo que seria tosco, o negócio era assumir a tosquice, não tentar fazer algo sério, ou seja, era tudo ultra escrachado propositalmente. Essa época eu lembro q tava assistindo muito Toxic Avenger 4, Terror Firmer e seus making offs (que são melhores que os filmes), e claro, queria fazer igual! Inventei essa história sobre um cara que tem um feto morto grudado na cabeça pois seu pai trepou com a irmã. O resto é basicamente um monte de desculpa pra mostrar mulher pelada, escatologia e violência, tudo cheio de humor negro. O cara que faz o papel do Feto Morto é o Rui Villani, ele é o segredo do sucesso desse filme, o cara é meu herói até hoje. Ele tem um irmão gêmeo, que é quem faz o EXU do Feto Morto no filme, o Exu ensina o cara a lutar karatê pra se vingar de um grupinho que vivia azucrinando o protagonista (ta vendo só, nós tratávamos de bullying muito antes disso virar moda no Brasil [risos]). Esse filme conta com a ilustríssima presença da Denise V., que era famosa por seu trabalho nos filmes do Baiestorf, a idéia era ela ficar pelada andando de tetas de fora pra cima e pra baixo durante o filme. Contratamos mais uma putas horrendas pra aparecerem peladas fazendo nojeiras, todas pelo justíssimo preço de 50 reais cada, juntei novamente a cambada de bêbados que andavam comigo na época e começamos a gravar. Por causa do Rubão, muita banda queria ter trilha sonora no meu próximo vídeo, o então Feto Morto. Além da trilha original feita pelo Fabio Ribeiro,  é cheio de bandas de metal de cabo a rabo, o que novamente ajudou muito na divulgação. As gravações foram uma bagunça sem fim, em todas nós estávamos ultra bêbados, nada era sério, era tudo pura diversão, principalmente as gravações com as meninas peladas. O negócio do VHS era foda, era caro pra cacete enviar VHS por correio, dava um trabalho maldito gravar um por um, nessa época os gravadores de DVD para computador estavam barateando  e resolvi investir. Acabei sendo o primeiro cara a lançar essas tralhas em DVD no Brasil. Era mais rápido para gravar e mais barato pra enviar, só que tinha um problemão, muitos dos aparelhos de DVD naquela época ainda não liam DVD-R e sempre tinha problemas com caras reclamando que o DVD não funcionava. De qualquer forma, o Feto Morto também foi lançado em VHS, fizemos uma parceria com a Mutilation Records, eles pagaram as impressões das capas e vendiam os filmes na loja, mas tiveram que parar de vender os DVDs, pois muita gente reclamava que os DVDs não funcionavam. Fizemos uma festa de lançamento do Feto Morto, com bandas tocando, exibição de filmes extremos, cerveja barata (era Lecker, ruim e quente, mas era barata) e foi um sucesso! A Denise V. estava na festa pra alegria dos cuecas de plantão, e logo que saiu Feto Morto já se tornou um Cult absoluto! É incrível pensar a repercussão que este vídeo teve, até hoje é difícil achar alguém que não viu ou não conhece alguém que tenha uma cópia entre fãs de filmes extremos ou fãs de musica pesada. Começou a sair uma caralhada de matérias em revistas, fanzines, TV, internet e, como no Rubão, o boca a boca foi essencial, exibições públicas em botecos e festinhas, gente que sabia várias frases do filme de cor e salteado, lembro que me pagaram muita cerveja por causa desse filme, foi demais! E é um filme ultra tosco, feito sem recurso nenhum por um monte de moleques bêbados e sem noção alguma do que estávamos fazendo. Nessa época de Rubão/Feto Morto, eu era bem novo, devia ter entre 17, 18 anos. Um fato legal é que nós curtíamos muito os programas do Alborghetti e colocamos um trecho de um dos programas dele no filme, tínhamos uma fita com umas 6 horas de Alborghetti gravadas e vivíamos assistindo aquela porra, era tipo uma coletânea dos casos mais escabrosos que rolou nos programas dele. Depois, com o advento do You Tube, ele voltou a ser moda (risos).

Baiestorf: Como foi trabalhar com a Denise V.? Posso estar enganado, mas acho que “Feto Morto” foi o último filme de destaque que ela fez antes de abandonar as produções independentes e seu trabalho de atriz!

Fernando Rick: Foi muito divertido, pois eu era fã dela por causa dos filmes do Petter, já tinha assistido vários e me correspondia com ele por carta (isso ai, carta mesmo, não e-mail). Eu tinha mandado o Rubão pro Petter e ele escreveu uma resenha muito legal no fanzine que ele editava na época chamado ARGHHH. A Denise V. estava vindo pra São Paulo, acho que quem nos colocou em contato foi um amigo em comum o José Salles, que era outro realizador da época, fazia zines, vídeos, etc. As gravações foram uma zona total, bebedeiras e muito barulho, a Denise era doidona e nos demos muito bem, como não era um lance sério e profissional, passávamos a maior parte do tempo falando merda e rindo do que trabalhando de fato. Era uma época divertida. Ela costumava andar com os Abutres (os motoqueiros) e vivia contando histórias de putaria e esbórnia com esses caras, e por ai vai. Se me lembro bem, as lindas garotas que aparecem nuas no filme nos foram apresentadas pela Denise.

Baiestorf: “Coleção de Humanos Mortos” tem um puta clima e de certo modo representa seu amadurecimento como realizador, foi um passo natural?

Fernando Rick: Nessa época eu já havia começado a trabalhar de verdade com TV e cinema, eu era ajudante do Kapel, um dos maiores efeitistas do Brasil e já estava trabalhando na TV Cultura. Então resolvi fazer um curta de verdade, mesmo por que, nunca tive interesse em ficar fazendo a mesma coisa, até hoje cada um dos meus trabalhos é bem diferente do anterior, não gosto de me repetir muito. Queria fazer um filme de terror, com atores de verdade, efeitos legais, fotografia ajeitada, então fiz o roteiro do Coleção, baseado nas coisas que eu andava vendo na época. Em 2004 o Killjoy, vocalista da banda Necrophagia, veio pro Brasil para gravar um clipe com o Mojica e ficamos a semana toda indo pra esbórnia, ele tinha trazido com ele o DVD que eles tinham gravado com o Jim VanBebber e lá eu vi o curta The Last Days of John Martin. Eu pirei naquilo. Eu já conhecia o trabalho do cara nos filmes Deadbeat By Dawn e My Sweet Satan, mas esse ai foi foda, e todo o DVD do Necrophagia era do caralho, então resolvi fazer algo naquela pegada, misturado com alguns fatos de Serial Killers reais, nesta época também eu era meio viciado em coisas relacionadas a isso, lia um monte de livros do Harold Schechter, Helter Skelter do Manson, documentários, ouvia muito a banda Macabre, tudo que tinha a ver com Charles Manson, Ed Gein, Jeffrey Dahmer, Albert Fish e afins, me interessava.

Baiestorf: As filmagens do “Coleção de Humanos Mortos” duraram quanto tempo e qual foi o orçamento dele?

Fernando Rick: As gravações duraram 2 fins de semana e foram ultra conturbadas. Eu não tinha experiência de SET, não tinha equipe, não tinha porra nenhuma. Minha equipe era o André ZP (diretor do curta “Sozinho”) fazendo câmera, o Kapel nos efeitos, Rodrigo Terra e Renato Tado, dois caras que na época eram estagiários comigo na TV Cultura, fazendo luz e alguns outros amigos ajudando com todo o resto, áudio, produção, etc, entre eles o Rui Villani, que fez o Feto Morto. Eu tinha que fazer de tudo, sem ter tempo e experiência e a situação ia ficando tensa, tudo atrasava, dava problema, a luz não ficava como eu queria, tínhamos que remontar tudo, não tinha comida pros atores e equipe, só tinha bebida (herança das épocas de Feto Morto) e o povo todo ia ficando bêbado e ia rolando discórdia. E pra ajudar, o único cara que não era ator de verdade ali, era justamente quem eu tinha escolhido como ator principal, o Ulisses Granados do Putrescine. E ele gostava de encher a cara até cair, ai você já pode imaginar o desastre que foi o primeiro fim de semana de gravação. Foi difícil fazer tudo funcionar e as pessoas colaborarem, primeiro porque estava todo mundo trabalhando de graça, inclusive as atrizes que ficam peladas, segundo que estava todo mundo ultra cansado e com fome, terceiro que estava todo mundo meio chapado e foi bem neste primeiro fim de semana que gravamos aquela cena do estupro. Primeiro fim de semana foi um desastre, então tive que me preparar mais para o segundo fim de semana, ensaiei bastante com o Ulisses, comprei um mínimo de comida pro povo, menos bebidas dessas vez, e lá fomos nós. Gravamos a cena da Luciana tomando banho, tudo calmo e tranqüilo, sem efeitos, sem nada, só ela sem roupa e o banheiro, tudo rolou bem e a Luciana estava achando o máximo ter que ficar só ali, tomando banho quente enquanto ficávamos movimentando a câmera num travelling pelo trilho improvisado com madeira e um carrinho com rodinhas de skate. De lá fomos para uma casa em construção, onde gravamos as cenas que no filme são a casa do Serial Killer, onde tem aquela zona toda de corpos, cabeças, etc. Cena esta onde pela primeira vez tive o prazer de ter em um filme meu a participação do Gurcius Gewdner, fazendo figuração como um dos cadáveres da sala ao lado da Didi Babinski, outra amiga que me ajuda nos meus trabalhos dês da época do Rubão. De lá pra cá, tanto o Gurcius quanto a Didi me ajudaram ou participam de alguma forma de todos os meus trabalhos. Bom, lá estávamos nós no terceiro andar de uma casa em construção, sem janelas, num frio do caralho, altas horas da madrugada, a maior parte do tempo tudo ocorreu bem nesse dia, no máximo demorava para arrumar a luz do jeito que eu queria, mas cedo ou tarde o pessoal fazia, só que as meninas, tanto a Luciana quanto a Tiara, que faz a primeira vítima, estavam apenas de calcinha, num frio do cão, cobertas com aquele sangue fake do Kapel que é uma mistura de Glicose de milho com corante, um negócio grudento que incomoda e a Luciana que passa por vários tipos de tortura nas mãos do Ulisses no filme, coberta com aquele sangue, gritando a madrugada toda, tendo que chorar, atuar e o caralho a quatro, começa a surtar de verdade e de repente resolve abandonar as gravações, gritando que não agüenta mais essa tortura, que quer ir embora, que aquilo é um absurdo, etc. Então após conversar um pouco e acalmar a garota, tivemos que fazer o resto todo do filme as pressas o que prejudicou muito as cenas, alguns efeitos que ficaram bem toscos no filme são por causa disso, como quando o cara bate com a espingarda na cara dela, etc. Tudo que é feito na correria fica uma merda, não tem jeito. O resultado final não é uma obra prima mas também não é de se jogar fora. Foi lançado em DVD pela Mutilation Records, junto com os curtas de horror (“Sozinho” de André ZP e “6 Tiros, 60 Ml” do André Kapel), e foi a primeira vez que curtas de horror brasileiros foram lançados em DVD numa coletânea apenas de curtas. Com o passar dos anos parece que o pessoal começou a dar mais atenção pra esse filme, várias vezes foi convidado a ser exibido em Mostras de cinema no Brasil e exterior e basta você dar uma procurada no Google que vai ver o tanto de lugares que tem pra baixar o filme, sendo a maioria em sites gringos. La fora parece que dão mais valor aos filmes do DVD 3 Cortes, tem um monte de reviews legais espalhados pela Internet de tudo quanto é país, menos do Brasil. Aqui ninguém da muito valor e a maioria do pessoal deve achar uma merda.

Baiestorf: Como surgiu o convite para fazer o vídeo clip do Ratos de Porão?

Fernando Rick: Quando o Ratos estava gravando o disco Homem Inimigo do Homem, quem mixou a bagaça foi o Bernardo (Elma, ex Are You God?), ai entreguei um 3 Cortes para ele mostrar pro Gordo e ver se ele não queria fazer um clipe. O Gordo gostou dos filmes e disse que já tinha visto o Feto Morto e também gostava, ai fez o convite pra fazer um clipe pra música Covardia de Plantão que fala sobre a violência de grupos tipo Skinheads, Punks, etc. A idéia já era fazer algo pesado e que seria censurado, mas o que rolou foi fazer um clipe baratíssimo, porque a Deck Disc tinha dado só 1.500 reais pra fazer o vídeo e apesar de ser um pouco violento, usar uma violência caricata e meio engraçada. Ai foi aquela historia de sempre, junta um monte de gente pra trabalhar de graça, correria do caralho pra fazer tudo sem dinheiro, equipamento emprestado.Gravamos duas diárias, uma que foi a banda tocando no Cerveja Azul, um bar La na Mooca, e outra que é a parte das brigas. Sem grandes acontecimentos nestas gravações, só o usual. No fim das contas corremos pra tentar fechar o clipe a tempo de entrar no VMB, ai que vem o recado da gravadora – A Deck Disc não irá compactuar com a violência. Censuraram o clipe, ele não foi exibido em lugar nenhum, só na internet. Hoje tem ele no disco de Extras do Guidable também. E é isso ai.

Baiestorf: Este clip pro Ratos de Porão serviu prá ti tomar contato com o Gordo, certo? Como surgiu a idéia pro documentário “Guidable – A Verdadeira História do Ratos de Porão”?

Fernando Rick: No processo de realização do clipe do Ratos, acabei me tornando amigo do Gordo e me veio essa idéia de fazer um documentário sobre a trajetória do Ratos. O Gordo disse que vários caras tentaram fazer, mas nenhum conseguia, pois era MUITO material, era trabalho que não acabava mais. Resolvi assumir a bronca e de forma totalmente independente, produzindo tudo eu e o Gordo, comecei a fazer o filme.

Baiestorf: Como foi o processo de seleção de imagens e edição que tu e o Marcelo Appezzato realizaram pro “Guidable”? Deve ter sido uma loucura, porque olhando o filme dá prá perceber que foi um trabalho monstro!

Fernando Rick: A maioria do material usado no filme é do arquivo pessoal do Gordo, ele tem caixas e caixas de arquivos da banda, vídeos de todo formato que você pode imaginar, VHS em NTSC, VHS em PAL, VHS em PAL-M, DVD, Beta, Mini DV, DVD, fotos que não acabavam mais e, mesmo assim, ainda fomos caçar mais material por fora e conseguimos reunir muita coisa inédita e importante, não foi fácil, mas isso enriqueceu muito o filme e o resultado final é muito bom. Comecei recrutando algumas pessoas pra me ajudar a gravar as entrevistas, um cara pro áudio, dois caras pra fazer câmera e luz, e logo no início das gravações convidei o Marcelo Appezzato, vocalista do HUTT, para tirar fotos das gravações e acabou que ele sempre ajudava nas pautas e dava boas idéias, ai começou ajudar na produção, ligava pras pessoas, agendava entrevistas, dava idéias, etc. As gravações foram o máximo pois tivemos a chance de conhecer muitos caras que somos fãs e muita gente importante pra música, mas a melhor de todas foi a da Vila Piauí, bairro de onde surgiu o Ratos de Porão, lá gravamos as entrevistas com o Jabá e o Betinho, dois membros da primeira formação do Ratos. A gravação foi dentro de um boteco na beira da favela e tinha um monte de gente da vila assistindo, sem contar o pessoal do tráfico, os bebuns de plantão, etc. Foi legal ver a reação do pessoal que mora ali, que são vizinhos dos caras e nem sabiam quem eles eram, como quando o Jabá estava contando que uma das maiores conquistas dele foi quando eles tocaram com o Ramones, e você ouve um monte de moleques atrás de você comentando – “Caralho, o cara é meu vizinho e tocou com o Ramones!”. Quando terminamos as gravações, chamei ele pra editar o filme comigo e passamos 1 ano inteiro pra decupar e editar o filme, no fim das contas o cara virou Co-Diretor e ele foi essencial pra obtermos esse resultado final. Decupar essas fitas foi um inferno, foi um trabalho de pesquisa gigantesco, a idéia era ter uma edição dinâmica, e tudo muito ilustrado, quando um cara comentava sobre algum assunto, queríamos ter a imagem exata na hora certa e ficar achando 3,4 segundos de uma imagem X no meio de 500 vhs´s bolorentos, cansa!

Baiestorf: E como foi a carreira do “Guidable” nos festivais e mostras de filmes?

Fernando Rick: Fizemos umas sessões de lançamento do filme no Cine Olido graças ao nosso amigo Alex Andrade que armou tudo, e todas sessões de lançamento foram esgotadas, tinha gente sentado no chão, etc. Foi lindo. Depois o filme começou a rodar alguns festivais legais tipo a primeira edição brasileira do IN-EDIT, o Indie Festival em BH e em um monte de mostras ao redor do Brasil, conseguimos vender um monte de sessões de exibição do filme em diversos estados também, com diversas sessões esgotadas no Brasil todo e o filme entrou em cartaz no Cine Olido. Tivemos uma mídia espontânea fantástica, saímos em uma sexta feira, no mesmo dia, em todos grandes jornais– Folha, Estadão, Jornal da Tarde, Correio Brasiliense. Uma página inteira no mínimo, em cada jornal. Também rolou matéria em vários programas de TV, rádio, zines, internet, foi foda! Alias, várias dessas matérias estão disponíveis no nosso site http://www.blackvomit.com.br.

Baiestorf:  A distribuição do “Guidable” foi feita pela independente Läjä Rekords do incansável Mozine em edição dupla luxuosa, tu pode contar como foram as negociações? Lembro que a Monstro Discos e a Universal Music também estavam interessadas em lançá-lo!

Fernando Rick: No começo, antes do BOOM da mídia, ninguém queria saber do documentário. Oferecemos pra Deck Disc e um monte de gente, ninguém quis. Ai depois das matérias um monte de gente começou a se interessar.  Fizemos umas reuniões mas nenhuma era muito interessante, pois nossa idéia era o DVD ser DUPLO, com encarte e BARATO, custando no máximo 25 reais. Tínhamos até fechado com a Monstro mas acabei desistindo, pois os caras queriam lançar o DVD a 40 reais, encheram o saco pra eu mudar a capa (que foi feita pelo Gabriel Renner especialmente para o documentário), queriam por um desenho do Marcatti e o caralho, não adiantava eu falar que não, eles continuavam insistindo, puta falta de respeito e puta idéia burra. Aí na mesma semana apareceu o Mozine que, junto com o Felipe da Ideal Records, resolveram aceitar todas nossas condições, fizemos uma reunião com o João Gordo e voltei atrás e fiz com eles ao invés da Monstro, ai o tal do Márcio veio todo cheio de pompa me falar um monte de merda, que isso não se faz,  várias insinuações idiotas tipo – achava que você mandava em alguma coisa ai, etc. Depois falou um monte de merda sobre o Mozine, e começou cantar de galo como eles são foda, como eles fazem isso e aquilo, totalmente idiota, como se alguém dependesse dele pra alguma coisa. Tentei até falar na boa com o cara, mas parecia que eu estava lidando com o dono da Sony ou da EMI, ridículo. Depois, mais pra frente, eles lançaram o DVD ao vivo do Ratos e, cara, acho que é o lançamento mais ridículo que já vi na vida, lançaram o show com TIMECODE na tela, um menu cheio de pau, uma capa ridícula, dá até dó. Difícil lidar com os donos do mundo. Bom, lançamos pela Ideal Records + Laja Records, tudo saiu bem, o DVD ficou ótimo e vendeu pra caralho, vendeu uns 3.000 em pouco mais de 2 meses. Na época em que saiu, mesmo o preço de atacado sendo ultra baixo pra poder ser vendido a 25 reais, haviam várias lojas vendendo por 40, 50 e até 60 reais! E mesmo assim vendia muito e rápido. Depois começaram a piratear, colocar na internet, ai nos camelôs tinha o DVD Duplo por 10conto, ai começa a cair, não tem jeito. Teve umas pisadas na bola do Felipe da Ideal Records também com alguns lojistas e com divulgação, não imprimiram 1 poster pra colar em lugar algum, nem flyer, mas estou satisfeito com o resultado.

Baiestorf: Algum plano para o “Guidable” ser exibido em alguma rede de TV brasileira?

Fernando Rick: Ainda não, mas também nem tentamos negociar ainda. Com certeza faremos isso mais pra frente.

Baiestorf: “Guidable” foi lançado em outros países?

Fernando Rick: Mesma coisa que a resposta anterior.

Baiestorf: Confesso que não sou um grande admirador da banda Ratos de Porão (tinha parado de acompanhar eles depois do “Brasil”), mas teu documentário me fez voltar à ouvi-los. Como foi a recepção do público?

Fernando Rick: Foi demais! A repercussão que este documentário teve e continua tendo é inimaginável, muitas vezes estou na rua, em algum bar ou na fila de alguma coisa e ouço alguém comentando sobre o filme. E quando alguém fica sabendo que fui eu quem fez e as pessoas dizem o quanto gostam do filme, que viram no cinema sei lá de onde e depois compraram o DVD, que já emprestou pra 30 amigos e blá bla blá, isso não tem preço!

Baiestorf: E o piloto para programa de TV “Gurcius Gewdner Show”? Como surgiu essa idéia de usar o Gurcius como apresentador? No que consiste este projeto?

Fernando Rick: Eu tive essa idéia de tentar fazer um programa de TV pra web, a idéia original era fazer um programa apresentado pelo João Gordo. Cheguei a falar com ele sobre isso, tivemos algumas idéias, mas no fim acabou não rolando. Conheço o Gurcius a algum tempo, e sou UM, entre seus diversos fãs espalhados mundo a fora. Todo mundo que conhece o cara sabe que ele é uma figura única, e não sei de onde tive essa idéia de ao invés do João Gordo, colocar o Gurcius para apresentar o programa, aliás, era mais que isso, era um programa DO Gurcius, ele faria TUDO no programa. Então eu e o Marcelo Appezzato começamos a bolar as idéias de quadros e toda identidade visual do negócio, queríamos fazer algo simples, barato e divertido. Um dos primeiros quadros que criamos era um chamado Na Banheira do GUGUrcius, onde o Gurcius entrevistaria celebridades lado B em uma banheira e o primeiro que tentamos foi o Kid Bengala. Só que começamos a ter vários empecilhos, o cara queria cobrar cachê para dar a entrevista, não estávamos achando uma banheira legal, etc. Ai desencanamos desse quadro e começamos a pensar em algumas coisas pra fazer em Chroma, pensamos nesse quadro onde o Gurcius explicaria do seu ponto de vista, obras literárias, música e grandes mistérios do universo. O assunto escolhido para o piloto foi a Cultura Racional, aquela do disco do Tim Maia. Então eu vim com essa idéia de fazer uma mesa redonda de bebuns na praça da Sé, colocaríamos uma mesinha lá no meio e daríamos pinga pros caras ficar discutindo assuntos corriqueiros com o Gurcius. Fizemos uma pauta falando desde Michael Jackson até muro de Berlin e entregamos pro nosso herói de bigode. Foi tudo muito divertido com exceção da parte que, enquanto gravávamos naquele antro de pinguços e nóias, sem que percebêssemos, roubaram um case de câmera com uma lente e um microfone dentro. Foi isso o que acabou deixando o programa meio caro, porque todo o resto não gastamos praticamente nada. Gravamos o programa inteiro em um fim de semana e ficamos sabendo que o Sérgio Mallandro estaria fazendo um show de Stand Up bem no fim de semana em que marcamos a gravação. Claro que não poderíamos perder isso, então nossa produtora conseguiu por a gente pra assistir ao show e entrevistar o cara. Quando avisamos o Gurcius que ele iria entrevistar o Sérgio Mallandro, quase que ele teve um treco, ele é ultra fã do cara. Lembro que estávamos assistindo ao Stand Up e o Marcelo estava achando uma merda e começou a ficar azucrinando os caras do palco, ai eu fiquei irritado e discutimos lá no meio, ele saiu andando e largou a gente, antes de gravar, só que ele tinha levado um vinil do Mallandro pro cara autografar e deixou lá, ai o Gurcius pegou e depois da entrevista – “tem como o senhor assinar meu disco? Põe ai – pra Gurcius , um abraço!”, no disco do Marcelo.

Baiestorf: E como é dirigir o Gurcius? Tu já dirigiu ele em vários filmes, se não me falha a memória ele faz pontas no “Coleção de Humanos Mortos”, clip do Ratos de Porão e agora no ainda não lançado “Ivan”!

Fernando Rick: Ah, dirigir o Gurcius é fácil, nada que uns xingos e uns tapas não resolvam. Brincadeira, é bem fácil trabalhar com o cara, ele é ultra dedicado e esforçado, eu uso ele nos meus trampos a bastante tempo, desde o Coleção pra cá, o único que não tem ele acho que é o Guidable. Mas ele tava na sessão reservada que teve do filme antes da estréia, que foi só para imprensa e convidados. Gosto de ter ele fazendo pontas nos meus filmes, é tipo um amuleto da sorte, mas não posso dar muito destaque pra ele se não o cara rouba a cena do protagonista ou qualquer que seja o foco. Mas agora eu inventei um programa só pra ele, então tá tudo certo.

Baiestorf: Alguma TV se interessou em comprar o “Gurcius Gewdner Show”? Pode falar sobre isso?

Fernando Rick: Oferecemos e fizemos umas reuniões em canais de TV tipo a FOX, onde os caras até se interessavam, mas o departamento de marketing sempre barrava, dizia que era difícil vender, etc. Todo mundo pergunta se mostramos pra MTV, nós tentamos mas ninguém lá nem se deu ao trabalho de ver.  Sei lá, talvez só eu tenha gostado dessa merda… (risos).

Baiestorf: Faz alguns dias que vi teu novo curta “Ivan” e ele não sai da minha cabeça, achei o roteiro maravilhoso e me identifiquei com os artistas fodidos que tu retratou. Como surgiu a idéia para fazê-lo?

Fernando Rick: A idéia era tentar fazer um curta barato, que envolvesse um ator de teatro e se passasse dentro de um cortiço, só que o roteiro foi crescendo e tomando proporções muito maiores do que a idéia original. Ai coloquei o curta na Lei Rouanet, fomos aprovados pra captar 90 mil reais, mas eu não quis esperar, ai resolvi fazer com meu próprio dinheiro enquanto tentávamos captar pela lei. Pedi pra um monte de gente trabalhar de graça, apenas os atores foram pagos e mesmo assim foi cachê simbólico.  Tínhamos por dia cerca de 60 pessoas trabalhando no SET, isso só de parte técnica, pois teve dias em que tínhamos um monte de figurantes, atores, etc. Conseguimos diversos apoios para realizar o filme, a TV Cultura apoiou emprestando toda parte de figurino e cenografia, tivemos diversos apoios pra aluguel de equipamento, etc. Toda equipe foi formada por profissionais da área e todo mundo trabalhou de graça com a maior vontade do mundo, nunca na minha vida tinha trabalhado com uma equipe tão esforçada e olha que eu já havia trabalhado com todo esse pessoal antes. Tudo isso foi essencial para o resultado final do filme. Bom, voltando ao roteiro, resolvemos fugir novamente do que estávamos acostumados a fazer. Não queríamos fazer outro filme de terror, nem outro documentário, fizemos um drama misturado com humor negro, onde colocamos a situação do artista no Brasil num curta totalmente situado no centro velho de São Paulo, com personagens marginais. Todo o filme faz uma analogia com a bíblia e seus personagens, colocamos Jesus como um ator de teatro velho e decadente que vive em um cortiço imundo, Maria Madalena é um travesti de meia idade, os apóstolos são os amigos de Ivan, o ator decadente, entre eles um Michael Jackson cover fuleiro e um negro caolho de cadeira de rodas, e ai mostramos a trajetória deste ator que tem que entregar panfletos vestido de Mickey embaixo da luz do sol pra pagar seu sustento, até o momento em que tem uma iluminação e resolve mudar sua vida e de seus amigos.

Baiestorf: Essa versão que vi na tua casa (em companhia do Rodrigo Aragão) ainda não esta finalizada, certo? Quando o curta ficará pronto? Alguma previsão de lançamento?

Fernando Rick: Sim, a versão que você viu era a final, o curta já esta pronto, em 35mm e Dolby SR-D, neste exato momento esta a caminho de sua estréia num festival no Sul! Agora deve percorrer o circuito de festivais e é ai que vou descobrir se alguém além de mim gostou dessa bagaça, por que tem muita gente que mostrei o curta e não fizeram cara de quem gostou muito não (risos).

Baiestorf: A parte técnica do “Ivan” está fantástica, o trabalho dos atores (em especial do cara que faz o Ivan – não lembro nome dele – e do Rubens Mello) está genial!!! Qual foi o orçamento do curta? Como tu levantou essa grana?

Fernando Rick: Sim, a parte técnica foi exaustivamente estudada para conseguirmos esse resultado. Figurino, cenografia, fotografia. O trabalho dos atores também foi incrível, o primeiro cara que eu ofereci o papel do Ivan foi o Ivan Cabral, ator e dono do grupo de teatro Satyros, o cara fechou comigo, me deu certeza… e adivinha? Faltando um mês para começarmos as filmagens, o cara simplesmente sumiu, parou de atender minhas ligações, etc. Beleza, bola pra frente, tentei então o Carlos Mossy, que se interessou, mas como ele mora no Rio, ia ficar muito caro e então me deparei com o André Ceccato! Esse cara caiu do céu, ele ficou perfeito no papel e quero trabalhar muitas outras vezes com ele. Puta ator, com A maiúsculo. Quem ver o filme, verá. O Rubens Mello foi o primeiro que escolhi para o papel do travesti Darlene Starr e nem precisei procurar mais ninguém, ele ficou com o papel de cara. O cara que faz o Ronaldo, o Judas da história, é o Beto Bellini, que também foi o cara que criamos o papel pensando nele e rolou dele fazer e ficou ótimo também.  O curta esta orçado em 90 mil, mas gastamos cerca de 18, 19 mil reais contando com o Transfer para 35mm, etc. Só conseguimos fazer por este preço com esse esquema de todo mundo trabalhando de graça, se não, não ia ter jeito, é 90 mil pra cima. De qualquer forma, estamos conseguindo captar a grana graças a WHEATON do Brasil, que esta patrocinando o projeto através da Lei Rouanet. No site da Black Vomit tem um making of bem legal feito pelo nosso amigo Armando, que mostra um pouco de como foram as filmagens, vale a pena conferir.

Baiestorf: É bom ver cineastas independentes, como Rodrigo Aragão com seu longa “A Noite do Chupa Cabras” e você com o curta “Ivan”, fazendo filmaços. Tu acha que se rolasse mais grana nas produções independentes a gente teria mais grandes diretores realizando bons filmes?

Fernando Rick: Não sei não cara, com alguns até funcionaria, com outros não. O dinheiro funciona quando o cara sabe fazer e tem o que mostrar, tem muito moleque hoje que se prendeu a isso de “eu faço cinema de Bordas…” e o cara acha que porque faz uns videozinhos de 50 reais, não precisa se importar com parte técnica, etc. E os filmes desses caras geralmente não tem nada pra acrescentar, são historinhas de terror bobinhas, sem protesto, sem crítica, sem mensagem, sem finalidade, sem porra nenhuma. Hoje em dia tá cheio de caras assim.  Não sou contra filme tosco, sem recursos, sem equipamentos, sou contra filme bobo, pau mole. Eles deviam aprender mais com você e com o Gurcius. (risos).

Baiestorf: Aliás, tu acredita em cinema de gênero? Há público prá esse tipo de cinema no Brasil?

Fernando Rick: Sim, cada dia cresce mais o número de adeptos do cinema de gênero. A prova disso é o crescente número de festivais de gênero que nascem no Brasil a cada ano, Fantaspoa, Cinefantasy, RioFan, SP Terror, Mostra de Cinema de Bordas, etc. Até pouco tempo atrás não tinha nada disso. Graças à internet, o público tem mais acesso a esse material e vai rolando esse tipo de evento.  E todos eles são muito legais, é uma via de mão dupla, é bom pra quem produz, que divulga o trabalho e sempre tem mais lugares onde exibir os filmes e para os fãs é ótimo poder conferir uma produção crescente não só no Brasil, como no mundo, de um tipo de cinema específico que o cara gosta. Este ano, por exemplo, o FantasPoa esta trazendo o Lamberto Bava! Quando na vida a gente ia imaginar ver esse cara exibindo e comentando seus filmes e os clássicos do pai dele no Brasil? E claro, como não posso deixar de vender meu peixe, estou trazendo pela minha produtora o Lloyd Kaufman da TROMA, numa retrospectiva com os maiores clássicos dos caras e uma MASTER CLASS de 5 horas GRATUITA! Sem contar que ouvi fortes boatos de que até o fim do ano também tem uma mostra do Takashi Miike em SP. Tudo isso no mesmo ano! Ou seja, só temos a ganhar com o fácil acesso a esse material.

Baiestorf: “Ivan” vai ser exibido em festivais e mostras, certo? Há planos de lançar ele em DVD (talvez na linha do DVD “3 Cortes” que reunia 3 curtas de 3 diretores diferentes)?

Fernando Rick: O foco principal são os festivais ao redor do mundo, que é onde a gente consegue divulgar o trabalho, etc. Depois que rodar todo lugar que eu conseguir enfiar o filme, ai com certeza eu coloco ele na íntegra na internet. O que acho mais fácil acontecer é algum doido querer lançar uma coletânea de trabalhos da Black Vomit, reunindo trampos novos, antigos, etc, e o Ivan entrar no meio, com making of e tal.

Baiestorf: Vocês da Black Vomit estão trazendo o Llloyd Kaufman pro Brasil, tu pode falar sobre isso? Passar detalhes?

Fernando Rick: Bom, como já disse, a Troma sempre foi grande influência pra mim, foi em partes por causa deles que comecei a fazer filmes. O Lloyd Kaufman é uma das poucas pessoas que considero um herói de verdade. O que rolou foi que íamos tentar trazer o cara pra Virada Cultural em SP, mas abortamos o projeto e resolvemos fazer em parceria com a prefeitura esta mostra retrospectiva da TROMA, exibindo durante uma semana inteira os maiores clássicos da produtora e de quebra, uma MASTER CLASS de 5 horas com nosso mestre, e o negócio vai ter tradução simultânea, coffe brake e tudo mais. O melhor é que é totalmente de graça! É um sonho pra mim poder trazer um cara que sou fã desde criança e ainda por cima dar essa chance única de ter uma aula de cinema com ele, para um monte de fãs do cara pelo Brasil que virão pro evento. Isso tudo só foi possível graças a ajuda do nosso ultra brother Alex Andrade e o Cine Olido. E preparem-se que isso é só o começo, pretendemos trazer mais gente legal!

Baiestorf: Próximos projetos? O que tu planeja fazer depois do filmaço “Ivan”???

Fernando Rick: Temos um curta, chamado Estopim, que Foi aprovado antes do IVAN na Lei Rouanet e trata desse assunto de massacre em colégio, na época fizemos baseado no Massacre de Columbine, e eis que agora surge esse moleque xarope no Rio e fez o mesmo aqui. É um curta de humor negro, mais adolescente e pra variar, totalmente diferente do Ivan. É um monte de cabeças explodindo, corpos pegando fogo, etc. Vamos tentar captar grana pra fazer esse filme, essa é a única coisa certa até agora. Projetos temos de kilo, mas não adianta ficar contando com o ovo no cu da galinha, quando algo tiver certo, eu solto as novidades!

Lloyd Kaufman da Troma

Sh-Boom, Sh-Boom…

Posted in Música with tags , , , , , , on maio 17, 2011 by canibuk

Quem já viu o filme “Cry-Baby” deve lembrar da música “Sh-Boom“, que é cantada em uma das cenas pelo quarteto de garotos  “quadrados” do filme. A música original pertence ao grupo The Chords, um quarteto americano de doo-woop music que ficou famoso nos anos 50.

O grupo foi responsável pela introdução do R&B, a música negra, na audiência, numa época onde as paradas eram dominadas pela música branca. “Sh-Boom“, a canção responsável pelo sucesso do grupo, ganhou várias versões covers no mundo todo e,  em 2004, na lista das 500 maiores canções de todos os tempos da Rolling Stones, ela ainda estava por lá, na 215 posição.

Outra dica bacana de uma banda ótima que gravou uma versão de “Sh-Boom” pela mesma época, foi a The Crew-Cuts.

Recomendo muito e podem ir atrás que não é tão difícil achar sons deles por aí.

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“Sh-Boom” – Cena do filme “Cry-Baby”

“Sh-Boom” -versão original -The Chords

“Hold Me Baby” – The Chords

“Zippity Zum”- The Chords

“Sh-Boom” – versão The Crew Cuts

Paralela 4

Posted in Quadrinhos with tags , , , , , on maio 16, 2011 by canibuk

Na revista “Spektro” número 21 foi publicada a quarta parte da série “Paralela” do Watson Portela, digitalizei essa última parte também e disponibilizo ela aqui no blog. Quem começou a acompanhar o blog nos últimos tempos pode acessar aqui as 3 primeiras partes da série “Paralela” nos links:

Paralela 1:

https://canibuk.wordpress.com/2011/02/25/paralela-1/

Paralela 2:

https://canibuk.wordpress.com/2011/03/03/paralela-2/

Paralela 3:

https://canibuk.wordpress.com/2011/04/05/paralela-3/

E segue aqui a “Paralela 4”

Cinema de Garagem

Posted in Cinema, Literatura, Vídeo Independente with tags , , , , , , , on maio 15, 2011 by canibuk

“Cinema de Garagem” (170 páginas) de Dellani Lima e Marcelo Ikeda, lançado em 2011, faz um inventário afetivo sobre o jovem cinema brasileiro do século XXI. Mais do que necessário, a iniciativa da dupla traça um perfil das produções independentes nacionais que ganharam força com a popularização das filmadoras digitais que baratearam os custos e tornaram o cinema independente uma realidade. Nos dias de hoje só não faz filme quem não quer. Como os próprios autores escrevem sobre a publicação:

“Cinema de Garagem é um mapeamento da produção independente audiovisual brasileira da última década (2001-2010).

(…)

Esta publicação busca as conexões para compreender esta geração, que apresenta conceitos e uma série de pesquisas, geralmente bastante distintas, que na maioria das vezes se opõem às práticas comerciais do mainstream. O mapeamento não pretende abranger todos os artistas, coletivos, obras ou ações do período, mesmo que aborde diversas manifestações do audiovisual. A intenção é abrir novos caminhos, novas indagações.”

“Cinema de Garagem”, assim como os dois volumes do livro “Cinema de Bordas” (Bernadette Lyra e Gelson Santana, 2006) e o “Manifesto Canibal” (Petter Baiestorf e Coffin Souza, 2004), é um daqueles livros necessários para chamar atenção para produções marginalizadas que não encontram espaço nos meios de exibição oficiais. Como o cinema que produzo (que eu chamo de “Kanibaru Sinema” mas que na prática é a mesma coisa que “cinema de bordas” ou “cinema de garagem”) transita entre essas duas novíssimas “escolas estéticas”, eu queria muito ver os cine-bordeiros dialogando com os cine-garageiros e formando parcerias de exibição/divulgação. Parece uma idéia louca misturar cinema de gênero com cinema autoral mas, na minha opinião, é uma ótima forma de apresentar essas produções independentes para um leque maior de espectadores. A riqueza de todos esses filmes está na diferença que existe entre eles.

No “Cinema de Garagem”, Dellani & Ikeda, perguntam (ainda em 2001): “O que significaria ser independente?” e procuram mostrar essa independência tanto econômica, quanto culturalmente:

“No caso econômico seria um cinema que conseguiria prover os meios para se sustentar mesmo sem a megaestrutura dos estúdios. Isto é, com orçamentos reduzidos, equipes mínimas, produção ágil, e atendendo a um público específico, com um interesse especial em projetos que fujam do protótipo do cinemão.

(…)

O lado mais complexo da questão no entanto é o conceito cultural. Um filme independente , nessecaso, seria um filme que abordasse valores, costumes, hábitos que não são abordados pelo cinemão. Enquanto o cinemão pensa exclusivamente nas leis de mercado, como um puro negócio cujo objetivo principal é a geração de lucros, o cinema independente pode exercitar linguagem, questionar a sociedade, as estruturas do poder propor uma espécie de ensaio audiovisual, ser um cinema político, enfim, não ser primordialmente um produto a ser consumido.”

“Cinema de Garagem” é um livro imperdível para um primeiro contato com o cinema independente autoral brasileiro (assim como os livros do “Cinema de Bordas” o são para um primeiro contato com o cinema independente de gênero brasileiro), escrito por dois autores que fazem do cinema sua vida: Marcelo Ikeda é professor de cinema na Universidade Federal do Ceará e já realizou vários curtas, entre eles, “O Posto” (2005), “É Hoje” (2007), “Eu Te Amo” (2007) e “Carta de um Jovem Suicida” (2008). Já Dellani Lima realiza diversos projetos independentes (inclusive musicais), já tive o privilégio de ser ator no seu longa-metragem “O Sonho Segue Sua Boca” (2008) e posso afirmar que foi uma ótima experiência ser dirigido pelo Dellani.

Diz o Dellani que o livro não está disponível para vendas pelo correio (somente na mão, comprado diretamente com eles, em festivais/mostras de cinema), mas se você ficou interessado escreva para ele e tente comprar um exemplar (depositando valor do livro + valores postais) pelo e-mail: dellanilima@gmail.com

O cinema brasileiro independente precisa de mais livros na linha deste “Cinema de Garagem”!!!!!

Marcelo Ikeda & Dellani Lima

Salvador Dalí

Posted in Arte e Cultura, Bizarro, Entrevista with tags , on maio 14, 2011 by canibuk

Na última quarta-feira (11 de maio),  se estivesse vivo,  Salvador Dalí faria 107 anos e, em homenagem a este gênio e maluco, que tinha como um dos passa-tempos preferidos chocar e chocar mais e mais um pouco, Canibuk posta aqui uma entrevista, publicada originalmente em castelhano, concedida ao L’express no dia 06 de abril de 1971. A entrevista mostra o Dalí como ele sempre fez questão de ser em toda a vida: polêmico.

Divirtam-se com o homem que é o prórpio Surrealismo e que, com muito esforço, jamais passou despercebido…

Salvador Dalí, para muitas pessoas é um dos maiores pintores vivos, um escritor maravilhoso, uma inteligência notável. Mas, para  grande parte do público é considerado um mistificador, apaixonadamente em busca de publicidade.  Você mesmo, como se define?
Eu sou um dos poucos artistas contemporâneos que sempre se recusou a pertencer a um partido ou de qualquer agrupamento político. A história é minha paixão, porque é “mais” por excelência, enquanto a política é apenas a história da história efêmera.

Dentro da história da pintura, não é você, também, uma efêmera história?

Eu disse e repito, eu considero que como  pintor sou um artista medíocre.  Quando me comparo com os grandes pintores do passado, Vermeer, Velázquez, e Gérard Dou, a quem eu descobri no Petit Palais, a exposição do Age of Rembrandt, considero-me uma catástrofe artística.  Mas, pelo contrário, se eu me comparar com meus contemporâneos, então, obviamente, eu sou o melhor. Não é que seja bom, mas os outros são tão ruins que a comparação se revela impossível.

Em que artistas pensas? Em Picasso?                                                                                                                                                                                                           Em todos.  Eles têm duas coisas terríveis. Em primeiro lugar, a lógica herdada de Descartes, uma catástrofe. Em segundo lugar, o que chamam de bom gosto.  Com isso se tem construído o mito da pintura moderna, absolutamente ilegítimo.

Porque és inimigo de Descartes e de seu sistema cartesiano?
Porque Descartes baseia-se principalmente nos fenômenos tradicionais de inteligência, e inteligência está produzindo seu fracasso em todos os lugares.

Você pode esclarecer os sinais deste fracasso?
Teria de perguntar ao príncipe de Broglie, ou Heisenberg. Os escritos de Heisenberg mostram o total fracasso da inteligência.

Você mesmo, se considera inteligente?
Eu sou um monstro de inteligência.  Em uma sociedade como a nossa, é perigoso ter muitos Picasso e Dali. Felizmente, não é o caso.

Lamenta ser inteligente?
Eu sinto muito por minha pintura. Pintores muito menos brilhantes do que eu, por exemplo, Gerard Dou, poderiam ir muito mais longe, por causa da sua própria mediocridade.  Isso me impressionou ao ver, no Petit Palais, a pintura de “balão de Mulheres”.

Por isso modificará sua pintura?
Absolutamente.  Como eu já disse cem vezes, eu gostava de Vermeer. Para mim foi o maior de todos os pintores. Em Gerard Dou nunca quis parar, ao contrário de meu pai que sempre me disse: “Dou é o melhor”.  Mas meu pai morreu há algum tempo… E no outro dia no Petit Palais, pela primeira vez na minha vida, olhei realmente os quadros de Dou, que depois eu soube, foi um dos pintores favoritos de Luís XIV… E então me encantei.  Retiro tudo o que eu disse antes sobre Meissonier, sobre pintores pedestres. A arte máxima de pedestres estava lá, nesse quadro “Mulheres hidrópicas” pintado sem pretensão, mas com uma nobreza que transcende tudo isso, uma série de nuances que você não pode imaginar que um olho humano teria notado. A fotografia nunca será capaz de sutilezas semelhantes. É a alegria total.  Sem dúvida, este é o caminho a seguir.

Você é a favor da honestidade na pintura?
Pela honestidade em tudo.

Qual é a sua definição de pintura?
Fui o único, no período surrealista, que disse: “A pintura é a fotografia a cores do pincel. Nada é mais surreal do que a realidade. A existência da realidade é a coisa mais misteriosa, mais sublime e surreal que se dá. Pintei duas vezes na minha vida cestos de pão.  Eu pensei que eram fotos menos surreais do meu trabalho, já que havia apenas cestas de pão dentro. Mas eu acabei de descobrir, lendo Michel Foucault, o significado esotérico da cesta.  Ambas as naturezas-mortas que, aos meus olhos, no momento em que as pintava, não tinham nenhum significado, são talvez as coisas mais surreais que eu fiz.

Se pode ser surreal sem saber?
Especialmente sem saber.  Além disso, esta foi a opinião de Freud.  Um dia descobriu, antes de mim, que os surrealistas não lhe interessavam.  E como eu estava com medo, sabendo que foram baseadas em cima dele, ele disse: “Prefiro os quadros em que não há  traço aparente de surrealismo. Estes eu estudo. Ali encontro tesouros do pensamento subconsciente”.

Mas você pertence mais à categoria oposta.  Em suas pinturas mais famosas, “A Metamorfose de Narciso”, que está na Galeria Bolsa de Londres e em “O Enigma de Guilherme Tell”, em Estocolmo, o subconsciente está em toda parte, dominam temas psicanalíticos.
Ah, sim! No entanto, eu sou o produto do surrealismo consciente. Mas agora eu descobri Gérard Dou, isso vai mudar.

Como pintará?
Quero fazer  pinturas surrealistas sem saber, tais como cestos de pão.  E para começar, pintar o retrato de Gala, minha esposa, a quem mais amo, com o vestido de Deus levando a noite de Natal.  Um vestido de lamé formado de pequenos flocos de todas as cores.  A coisa mais difícil de pintar do mundo. Leve o tempo que levar. Será o quadro mais caro do mundo.

Você acha que as pessoas que compram Dalí fazem uma boa coleção?
Pergunte  ao Sr. Morse, que vai abrir um Museu Dalí, em Cleveland. Parece realmente nadar em felicidade.

Ainda tem grandes inimigos vivos?
Acho que nenhum. Mas eu gostaria que o mundo inteiro fosse meu inimigo. As pessoas inteligentes que estão contra mim são muito valiosas… O pior, terrível, são as pessoas estúpidas que me defendem.  Os subdalinianos.

Qual escritor estima mais?
Na minha opinião, o maior gênio é Raymond Roussel, ou seja, exatamente o oposto de Jules Verne. Considero Julio Verne  um dos idiotas mais fundamentais do nosso tempo. A humanidade embarcou nas suas meninices… Começando com a conquista do espaço, onde não há absolutamente nada para encontrar, já que o universo inteiro converge em direção à Terra, e a Terra é o único planeta que se manifesta esse fenômeno que se chama vida. Pra quê conquistar a Lua se, inclusive em nosso planeta, existem muitas áreas que não valem nada? A única seção significativa da Terra é, em última análise, a região entre Figueras e Toulouse.  Mas mesmo ali há realmente muito poucas coisas que valem a pena.

O prazer, a festa, qual o papel que desempenham na sua vida?
Um papel essencial. Eu acho que a vida deve ser uma festa contínua. Sou contra Descartes, porque ele era um homem que pensava. Eu nunca penso, jogo. O homem que mais odeio no mundo, eu vou dizer, é Auguste Rodin.  Porque ele é o autor de uma escultura abominável que representa um pensador, a cabeça apoiada em uma mão. Nesta posição, você nunca pode criar. Ou defecar. Você só pode criar as condições para jogar.  Os maiores cornudos de todos os tempos são pessoas como Rodin, Descartes e, sobretudo, o Karl Marx. Um cara que passou, deus sabe quantos anos, escrevendo O Capital.  Tudo o que ele disse é o inverso da realidade. Entre outras coisas, previa a luta de classes: já não há porque as classes desaparecem.  Pelo contrário, ele não tinha previsto a verdadeira luta de nosso tempo, ou seja, a luta das raças.  Na China, o Japão, Israel, o mundo árabe, etc: nada, nem uma palavra. Isso não é surpreendente. Karl Marx, como Descartes, era um indivíduo de infecções respiratórias. Os digestivos são um tipo muito mais interessante.

E você, está entre os digestivos?
Eu digiro cada vez com maior satisfação.  Eu descobri que a coisa mais importante na vida é o momento da excreção. Uma coisa que mexe comigo é a banalidade das latrinas. Seja Kruschev, Stalin, todo mundo está reduzido a usar as mesmas.

Quer mudar isso?
Projetando uma espécie de assento de honra.  Eu desenhei. Vou expor. São os golfinhos.  No sepulcro dos romanos, dois golfinhos entrelaçados pela cauda. Eu coloquei os golfinhos de costas, a cauda para baixo, duas cabeças no ar. De modo que se possa utilizar cada boca para um uso específico.  Isso me lembra uma história maravilhosa que  disse o poeta Federico García Lorca.  Seu amigo, o compositor Manuel de Falla, era muito profundo, muito maníaco. Um dia ele disse ao Lorca: “Eu vou a um show. Você pode preparar a mala?”. Ele acrescenta: “Tome essa tabela e coloque-a no meio” – “Por que?”. “Porque eu nunca misturo o que toca nas partes nobres da buzina com cuecas e meias, sempre separo em minha mala “…

Voltamos a festa. O que essa palavra significa para você?
Para mim, a festa é o fogo de artifício constante. É encontrar pessoas a quem se ver muito pouco, dizendo coisas que influenciam, para mudar sua mente, perturbá-la, torná-lo mais inteligente. Embelezar o feio e estragar o belo. É manipular as pessoas da minha época divertindo-as.

Como suporta a solidão?
Eu nunca estou sozinho.  Eu tenho o hábito de estar sempre com  Salvador Dalí. Acredite em mim, é uma festa permanente.

A pintura faz parte da festa?
E não! Em minha casa em Port Lligat, quando eu pinto, eu sigo o conselho do Rafael, que disse: “Quando você quer conseguir alguma coisa, tem que pensar sempre e acima de tudo em outra coisa”. Então, quando eu pinto, Gala sempre me lê livros, não escuto o que lê, porque eu ouço música, ao mesmo  tempo.  Mas, na verdade, tão pouco ouço a música. Porque eu penso em outras coisas. Ao terminar o dia  estou muito surpreendido com o que fiz, sem saber certamente como saiu… Cada pintura é o produto de uma festa perpétua da minha mente.

A técnica não lhe dá trabalho?
Eu não me preocupo com isso. Quem se preocupa com técnica erra em tudo.

Onde você conseguiu a sua técnica? Aprendeu na escola?
Frequentei a Escola de Belas Artes em Madrid, uma das melhores escolas do mundo.  Mas não aproveitei as lições que me davam, porque naquela época era o cubismo. No entanto, algo deve ficar. Um dia alguém me disse: “Tens uma técnica extraordinária, devia escrever um livro sobre a técnica”.  Então, eu escrevi esse livro. Brincando.  Inventei receitas completamente fantasiosas. Agora, quando quero pintar alguma coisa, me volto a esse livro escrito em tom de brincadeira.  O que significa que, no fundo, eu jamais brinco. Às vezes eu digo coisas para impressionar os jornalistas, para chocar. Muitas vezes, o que eu disse brincando revela-se mais verdadeiro do que julgam.

Você fala sobre as suas festas pessoais. Mas nunca pinta seus quadros para o prazer dos outros?
Não, não. A finalidade dos quadros, realmente, é puramente comercial. Uma citação de Gustave Moreau me impressionou: “Deixo de pintar minha parte, só quando eu ver que o ouro surge da ponta do meu pincel.”. Observo isso ao pé da letra. Inclusive pescadores de Cadaqués, dizem: “Aquele porco do Dali, com seu pincelzinho, faz ouro.”. Sou místico como todos os espanhóis.  Ser místico é fazer ouro.

Não foi esse amor pelo ouro que o tornou impopular com os surrealistas, especialmente com André Breton?
Eu digo com Luís XIV: “O surrealismo sou eu. Todos os outros se enganaram, porque eram românticos.”. Dito isso, eu fiquei realmente surpreso quando recebi a notícia da morte de André Breton, ao ler lá: “Ele buscou o ouro do tempo”.  Isso pareceu muito estranho, vindo de um homem que tanto havia me acusado de desejo e, para me designar, tinha inventado o apelido de “Avida Dollars”, um anagrama de Salvador Dali.  Então eu pensei: “Ele buscou o ouro da época, e eu o encontrei.”

O que o autoriza a dizer que o Surrealismo é você?
Eu sou o único surrealista realmente saído do romantismo. Os outros, com o seu romantismo, provocaram todas as catástrofes. A invasão de Hitler é o produto do Surrealismo, a revolução de maio de 1968 também. Eu sou o único clássico surrealista que vive perto do Mediterrâneo, em regiões claras, enquanto todos os outros estão amarrados pelo romantismo alemão.

Você não era hostil a Hitler?
É uma calúnia. Assim que Hitler chegou, eu  sai. Mas, em pleno surrealismo, eu disse para os surrealistas: “Se são surreais, se amam o romantismo, e sobretudo o romantismo alemão e irracional, então amem a Hitler, que é um louco, um total ser delirante.”. Naquela época, eu mesmo sonhava com Hitler, estava fascinado pela volta de Hitler. Da mesma forma, em outro momento, estive fascinado por Lênin. Hitler parecia ter uma volta muito previsível. Claro, isso foi uma reação puramente irracional e surreal. Eu havia previsto o fim de Hitler com dois anos de antecedência. Eu anunciei, em uma novela. Era realmente inevitável. Porque ele era um masoquista puro. Tinha empreendido toda essa ação wagneriana com a meta inconsciente de perder ou morrer.

E Stalin, o que você acha?
Todos os personagens têm muita autoridade, Mao, Lênin, me impressionaram muito. Stalin, acima de todos os outros, porque era o mais cruel, o mais autoritário que, na história contemporânea, foi verdadeiramente Vulcano forjando o escudo de Aquiles.  Escudo que, por outro lado, servirá para proteger a todos nós. Porque os russos estarão do nosso lado para nos defendermos contra os chineses.

Você tem medo de Mao?
Acho que é um poeta muito bom. Ilustrado por suas obras. Dito isto, tenho muito medo dos chineses.

Qual é a sua posição sobre o General Franco?
Estou convencido de que o General Franco é um grande político. Alguns meses atrás eu tive a honra de almoçar com ele e tive a convicção de que é também um santo. Ou seja, um místico, na tradição dos grandes místicos espanhóis.  Após o almoço, foi lá que percebi que era um santo, eu disse que iria tirar um cochilo, como faço todos os dias, um cochilo de meia hora. E ele foi visitar uma biblioteca de manuscritos antigos, o museu. Mudou seu figurino para começar a voar e, em seguida recebeu 15 ministros. Não há no mundo um jovem capaz de tal energia. Só  é capaz  um homem com a fé em sua missão, como ele é.  É um ser absolutamente extraordinário.

O que teria pensado se no final do processo de Burgos, o General Franco não tivesse concordado com a graça dos condenados?
Pessoalmente, sou contra a pena de morte. Eu acho que um homem não tem direito à vida, a existência de outro homem, assim foi o maior criminoso.  Por outro lado, eu estou muitas vezes com os criminosos mais experientes.  Minha preferência é maior pelos seres cruéis. O arquétipo sentimental, representado pelo cantor Yves Montand, é o que mais desprezo, por que ele é bom e choroso. Metafisicamente, portanto, eu sou contra a pena de morte. Mas se ainda existe a pena de morte em algum lugar, e se alguém acha que ela tem uma missão histórica, creio que acredite que ela deverá aplicar-se aos limites. Vinte  condenações à morte, certamente, é mais barato do que milhares de mortos na guerra civil.

Não acha que é monstruoso o que disse
Tudo que estou dizendo é realmente monstruoso. Mas a guerra civil é monstruosa.  Em um de meus quadros, que é uma premonição da guerra civil espanhola, intitulado “Construcción blanda con porotos hervidos”, figura também um monstro que se auto-devora.

O monstruoso faz parte da festa para você?
E não! Eu adoraria explodir seres vivos. Eu não vou, porque eu sou contra a pena de morte. Mas quando se trata de animais, eu tenho menos escrúpulos. Quanto mais sofrem, mais feliz eu fico.  O que eu mais queria era detonar bombas dentro de 8 cisnes e vê-los explodir.

Como você concilia este aspecto cruel do seu caráter com o amor que professa por sua esposa?
Gala, no entanto, é uma exceção em tudo. Mas eu sempre disse que se a Gala morresse, eu gostaria de comê-la.

A cortaria?
Não. Se fosse possível que, morta,  Gala diminuísse como uma azeitona,  então a engoliria. O canibalismo é uma das manifestações mais evidentes de ternura.

Em que Gala é tão excepcional assim?
Me fez ganhar todo dinheiro que tenho.

O que mais?
Foi a primeira com quem fiz amor. Não é que eu goste muito de fazer amor, mas tinha 29 anos e me achava impotente.  Gala revelou-me a mim mesmo.  Nunca fiz amor com mais ninguém.

No entanto, você organizou “festicholas”.
Nunca. Eu assisti “festicholas”, e eu achei antierótico por excelência.

Politicamente, você se diz monárquico. Porque?
Porque, do ponto de vista científico, é a única forma de governo que corresponde às recentíssimas descobertas das ciências biológicas. Da primeira para a última célula, tudo foi transformado de modo inevitável,  geneticamente. A monarquia é genética. Vem de Deus.

Você é mais que monárquico: é legítimo.
Exatamente. E minhas idéias sobre isso há pouco foi reafirmada pelo Légitimité, um livro extraordinário de Blanc de Saint-Bonnet, eu procurei por anos e finalmente encontrei esses dias.  O autor refere-se a Blanca de Castilla, mãe de San Luis, que disse: “. Eu prefiro ver o meu filho morto antes de saber que estava alguns minutos em pecado”.  Enquanto Letícia, mãe de Napoleão, repetia sem parar: “Aproveita, pois não vai durar.”.  É toda a diferença entre legítimos e ilegítimos.

Você acha que os governantes legítimos são mais honestos, mais desinteressados?
Para falar de uma maneira vulgar, os presidentes das repúblicas têm sempre uma tendência, porque o seu mandato dura apenas cinco anos, a fazer combinações, para pôr dinheiro à esquerda e à direita.  Na Suíça, quem nasce príncipe que não precisa fazer dinheiro, apenas tem que nascer.

Você acredita no restabelecimento das monarquias na Europa?
Na minha opinião, tudo caminha para a monarquia. Inevitávelmente. Na Espanha, é um fato. Roménia vai seguir.  E então eu não sei. O terrível é que os reis atuais não são monárquicos. Eles dizem: seja liberal, falam de socialismo e assim por diante.  Não é assim. Tem que ser absoluto. Mas convencer um rei de que deve ser monárquico é muito complicado. Portanto, eu gostaria de publicar extratos do livro de Saint-Bonnet Blanc e oferecer ao meu príncipe, Juan Carlos.

Você acha que o rei de Don Juan Carlos será um rei monárquico?
Para um rei, a chave não é ser um gênio, e sim o mais legítimo possívell, tendo recebido uma boa educação e acreditar em sua missão. Juan Carlos recebeu uma educação muito boa, estava no Zaragoza. E estou convencido de que ele acredita em sua missão.

Como você vive em casa, em Cadaqués?
Minha vida é muito rigorosa, mas sempre brincando. Eu me levanto muito cedo. Dou um passeio sempre a mesma hora. Eu faço uma sesta de meia hora, eu levo mais meia hora para nadar. Sempre vou pra cama na mesma hora. Em Cadaqués, às 10h30 já estou na cama. Sempre jogando todo o tempo, me divertindo como um louco.

O que joga?
Um monte de jogos. Por exemplo, quando eu escrevo na cama, eu tenho diante de mim uma televisão japonesa. E eu olho para trás para não saber o que acontece na tela, ou coloco um filtro na frente para complicar as imagens. Depois, como torradas com mel. Coloco mel dentro da minha camisa para grudar na pele e sentir meu pelo todo pegajoso.

Por que TV? Necessita de informação?
Não. Para mim, a televisão é uma espécie de tela que você vê tudo o que pode imaginar.

Resumindo, faz suas festas pessoais sem parar?
Sem parar.  Eu tenho medo de morrer de excesso de satisfação. Veja, hoje eu me divirto muito com você.

Em Cadaqués, repete todos os dias o mesmo script?
Nunca! Um dia, pego mel.  Outro, coloco uma abelha debaixo da minha camisa. Uma vez, eu coloquei sob os meus olhos uma caixa de formigas iluminadas por partículas fluorescentes. Alguns dias, eu não faço nada. Outros, me livro de todos os tipos de manipulações com aglomerados de matéria que tiro do meu nariz, ou se não, manuseio, farejo, rodo de um lado pro outro. De repente, a bola escapa. A perco.  Então, aí vem a loucura. Poderia começar de novo, fazer outra, substituir por uma migalha de pão… Mas deve ficar assim.  Porque corresponde a um pensamento cibernético.

Você já experimentou a angústia por outras razões?
Não, nunca. Não experimento qualquer sentimento humanitário. As grandes catástrofes, como o Paquistão, eu exulto. Quanto mais desastres e guerras ao meu redor mais prazer tenho.  Mesmo assim, sendo um cavalheiro católico, apostólico e romano, quando tais coisas acontecem, envio  dinheiro, eu me comporto como devo, melhor que os humanitários sentimentais.  Se me chamam a prestar contas…  precisam estar corretas.

Mas quem poderia lhe pedir contas?
Todas estas histórias, Deus, tudo isso … “Sejamos prudentes”, como dizia Saint-Granier.

Você sentiu a morte de seus amigos? Você gostava de Federico García Lorca.  Quando ele foi baleado, se comoveu?
Eu gostei. Além disso, como eu disse,  como eu sou um jesuíta ao mais alto nível, eu sempre sinto, quando um dos meus amigos morrem, que fui eu quem os matou. Que morreu por minha culpa.  É particularmente verdadeiro para Lorca, porque se ele tivesse me seguido a guerra civil não teria o surpreendido.  E eu disse  para não ir  juntar-se a mim na Itália, onde eu estava, e ele me disse, quando morreu, que não era minha culpa. Mais uma vez  o maravilhoso foi que, de alguma forma, eu sabia que não era verdade. Mas meu sentimento de culpa não dura muito tempo. Eu penso, afinal, já morreram. E isso me faz duplamente feliz.

Tudo o que você disse é humor negro. Lembra do cão andaluz, que rodou com Buñuel em 1929.  Por que não faz filmes?
Primeiro, porque não é uma arte. Uma pessoa não pode se expressar através do cinema, porque existem outros meios. Quando você tem também muita riqueza à sua disposição, é impossível fazer uma obra de arte.  Nem mesmo uma peça.

Quer dizer que a obra de arte é mais coerção?
Tudo é baseado na coerção.   Gérard Dou poderia fazer uma obra-prima porque tinha uma tela, óleo e seu olho.  No cinema, nem bem se fotografa a coisa, foge o mistério.

Na sua opinião, a arte é a coerção. Uma definição muito clássica na boca de um personagem como você.
Ah, mas eu sou de uma rigidez ainda maior.  Eu sou pelos períodos de Inquisição. Quanto mais coerção há, maior é a precisão no que se quer dizer. A liberdade é o esforço. Nosso tempo esqueceu.  Se libertou do tema da pintura, da técnica, da cor, da figuração, da forma. Veja os resultados: quadros  onde há apenas uma cor com uma linha.

Mas você, quando fala, quando escreve, tem uma linguagem muito livre, rejeita absolutamente qualquer coerção.
Porque eu sou um jesuíta, hipócrita, e uso todos os meios para divulgar as idéias que quero impor ao meu tempo.

Você está preparando uma continuação para O Diário de um Gênio?
Não. Concentrei toda a minha atividade literária na tragédia erótica em três atos e um verso, definida na época de Vermeer e Dou. Já fiz dois atos.  Só falta o terceiro.

Você pretende exibir em Paris?
Embora existam regimes democráticos creio que não poderão representar em nenhuma parte.  Isso irá requerer vários anos de monarquia para que  um rei possa permitir a representação de tal abominação.  O Marquês de Sade, para mim, é engraçado.

Você, que ama as catástrofes, as abominações, o que você acha da bomba atômica?
Eu gosto tanto de catástrofes que eu estou pronto para receber uma bomba nuclear na cabeça. Com uma bomba atômica, só se corre um risco, ir de homem ao status de anjo.  Nada a perder, tudo a ganhar.

Você deseja uma espécie de coroação, a apoteose atômica …
Eu realmente gosto do Apocalipse. Além disso, o ilustro. Mas eu sou como Santo Agostinho. Quero que venha o mais tarde possível.  Quando Santo Agostinho fez todas as orgias, a maior orgia que jamais sonhou, orou a Deus toda noite para fazê-lo. Mas terminou a sua oração dizendo: “Mas espera duas ou três semanas.”

Uma última palavra de Salvador Dalí. É um homem feliz?
Você viu muito bem que durante essa conversa eu não fiquei entediado um segundo…  Acima de tudo, não se esqueça de adicionar um pouco de confusão no texto, se as coisas parecerem muito claras …

Trilha Sonora do Killers Klowns from outer Space

Posted in Soundtracks with tags , , , , on maio 13, 2011 by canibuk

Em 1988 os Chiodo Brothers (Stephen, Eduard & Charles) realizaram um pequeno clássico chamado “Killer Klowns from outer Space”, quem tem na faixa dos 25 anos deve se lembrar que este filme vivia sendo exibido na televisão brasileira e contava a história de invasores interplanetários que aterrorizavam uma pequena cidadezinha americana com seu visual de palhaços espaciais. É a única direção dos Chiodo Brothers, depois desta maravilha eles passaram a trabalhar realizando os efeitos especiais de vários outros filmes, inclusive até trabalharam em produções da Disney. Segue trailer:

A trilha sonora do filme foi escrita pelo compositor John Massari (menos a canção título que foi escrita e executada pelos The Dickies). Em 2006 a Percepto Records lançou uma edição (em cópias limitadas) da trilha sonora completa, com a música título, a trilha sonora original e 4 músicas bônus em mais ou menos 70 minutos de sons que vão do tétrico ao hilário. Segue link para você baixar essa belezinha.

http://www.megaupload.com/?d=RU8R7P1S

Músicas que você vai baixar (no álbum do link que colei acima, as músicas estão sem os nomes):

“Killer Klowns” (4:37) – written and performed by The Dickies

“Hidden Klownship” (2:57)

“Mike & Debbie’s Discovery” (6:54)

“Escape from Klown Ship” (2:19)

“Killer Klown March” (0:44)

“Visit to the Drugstore” (0:51)

“Galactic GlobeTheatre” (1:25)

“The Empty Forest” (1:04)

“Knock My Block Off” (0:36)

“Little Girl Too Klose” (1:01)

“Top of the World” (2:00)

“Muscle Klown Kar” (1:06)

“Growing Korn” (2:05)

“Shadow Show” (1:56)

“Officer Mooney” (3:13)

“Dave and the Aftermath” (2:22)

“Ventriloquist Mooney” (1:46)

“The Inevitable Part 1” (1:25)

“The Inevitable Part 2” (1:56)

“Debbie’s Been Kaught” (1:19)

“Amusement Park/Death Pies” (2:14)

“The Fun House Part 1” (2:36)

“The Fun House Part 2” (4:28)

“Escape Into Klown Kathedral” (3:20)

“Klownfrontation” (1:01)

“Truck Escape and Klownzilla” (1:59)

“Final Konfrontation & Reunion” (4:13)

“Klowns Kidnap – Alternate” (1:21) – bonus track

“Galactic Globe Theatre – Full version” (1:25) – bonus track

“Klown Procession ReMix” (1:12) – bonus track

“Killer Klowns March ReMix” (3:09) – bonus track

Jairo Ferreira Entrevista Diomédio M. numa Ensolarada Tarde de Sábado Paulistano

Posted in Cinema, Entrevista with tags , , , , , , , , on maio 12, 2011 by canibuk

No “Brazilian Trash Cinema” número 2 eu entrevistei o Jairo Ferreira que gostou tanto da proposta do fanzine que se tornou colaborador no terceiro número entrevistando o cineasta mais que marginal Diomédio de Moraes, entrevista essa que resgato aqui na íntegra em memória desta pessoa fantástica que foi Jairo Ferreira. A entrevista foi realizada em 2001 e publicada no “Brazilian Trash Cinema” número 3, última edição do fanzine, infelizmente (mas nada impede, num futuro não muito distante, que eu e Coffin Souza retornemos dos mortos com a edição deste fanzine no formato de uma revista independente de cinema. Investidores se manifestem).

Jairo Ferreira: Eu sou o Vampiro da Cinemateca e estou entrevistando o Diomédio de Moraes. Você já fez um filme de longa-metragem chamado “Urubuzão”. Fale um pouquinho sobre como você chegou ao “Urubuzão”:

Diomédio de Moraes: Em 1996, com a necessidade de realizar um longa-metragem, juntamos um pessoal e uns atores e fizemos uma pequena assembléia onde ficou decidido fazer um longa e o pessoal via necessidade de estar junto nos finais de semana para fazer este filme…

Ferreira: Foi em 1996? Você juntou uma equipe grande para realiza-lo?

Diomédio: 52 pessoas, entre equipe-técnica e atores.

Ferreira: O roteiro era seu mesmo?

Diomédio: Sim! O negócio é o seguinte: Nós tínhamos um roteiro de longa pronto, daí surgiu a idéia de juntar 3 histórias do Júlio Shimamoto que resultaram no “Urubuzão”. A primeira história é baseada no “O Ogro”…

Ferreira: Seria um filme em 2 ou 3 episódios?

Diomédio: Eu juntei as 3 histórias e deu numa única história…

Ferreira: Baseada nos quadrinhos do…

Diomédio: … Júlio Shimamoto!!! Uma das histórias se chama “O Ogro” e é o comedor de cadáveres nos cemitérios aqui de São Paulo. Como personagens tem um caçador de vampiros, Zatan Polanski, a amante dele…

Ferreira: Quais são as personagens principais mesmo?

Diomédio: É o Urubuzão, o comedor de cadáveres…

Ferreira: Quem faz o Urubuzão?

Diomédio: É o Castor Guerra… E o Zatan Polanski é feito pelo Costa Senna, grande poeta de cordel e apaixonado pelo Raul Seixas. É um elenco desconhecido do grande público, mas que são profissionais de teatro.

Ferreira: Você filmou em 35mm?

Diomédio: 35mm!!!

Ferreira: Isso é um luxo prá um filme trash?

Diomédio: Filmei em 35mm, com 2 câmeras… Aqui em São Paulo e na cidade de São José dos Campos.

set de filmagens de Diomédio M.

Ferreira: O filme tá terminado?

Diomédio: O filme ta concluído, ta pré-montado e a gente ta batalhando a 4 anos dinheiro para sonorizar. Mas a medida que a gente ta avançando com este projeto, nós começamos à fazer um outro filme…

Ferreira: Fale um pouco deste outro filme? Você não terminou o “Urubuzão” e já começa um outro? Fala deste outro, como é o título deste outro???

Diomédio: É a história de um grupo de cineastas malucos que resolve fazer filmes baratos e eles não passam de bruxos porque eles estão com aquela magia de realizar filmes. Então é a labuta de todos os cineastas que lutam para fazer seus filmes. Seja ele trash ou comercial… A porcaria que vier… Mas o que nos interessa mesmo é realizar nossos filmes. Em película ou vídeo, enfim, em qualquer suporte que pode surgir daqui prá frente…

Ferreira: O que você quer falar mais?

Diomédio: Huuummm!!!

Ferreira: Bom, continuamos a entrevista e o Diomédio vai dar mais detalhes sobre o “Urubuzão”… E a curtição do trash que é um lance crítico em relação ao Brasil de hoje. O Brasil é um lixo!! O Brasil que é trash. O que você acha disso Diomédio?

Diomédio: O Brasil é o lixo dos lixos dos lixos dos países do terceiro mundo. Aqui é a patuléia da patuléia…

Ferreira: É cobra comendo cobra?

Diomédio: Cobra engolindo cobra! Aliás, tem um dito popular, pelo menos nestas bandas, que diz: “A gente mata o pau… (pausa)… A gente mata a cobra e mostra o pau!”, mas na verdade a gente tem que mostrar a cobra morta, coisa do… Hã!… (… nova pausa para pensar…) … O cara que não gosta do meio ambiente mesmo, tem que mostrar a cobra morta! No nosso caso a gente não mostra bichinho, a gente procura mima-lo, domina-lo, porque a gente tem necessidade de todos os seres-vivos, né? Para que a gente possa fazer as nossas criações…

Ferreira: Você defende o direito dos animais?

Diomédio: Sem dúvida… E aqui a gente ta contente devido a gente ter uma nova administração… E isso é muito importante falar, viu Jairo… Administração que vai abrir espaço prá cultura alternativa, pelo menos aqui na cidade de São Paulo, né? Com essa nova prefeita que a gente conquista depois de 8 anos de ditadura, de roubo, de furtos… E a nossa cultura massacrada…

Ferreira: São Paulo é trash!!!

Diomédio: E a gente tem um pessoal muito maluco, muito trash… Pelo menos na área do áudio-visual que a gente milita mais, né? Mas a gente tem conhecimento a pequena distância dos outros setores de Cultura, onde vem desenvolvendo uma série de atividades boas… Trash mesmo, mas que tem conteúdo, né?… Uma linguagem diferente e os projetos não param por aí porque a gente tem uma equipe de gente que ta fazendo cinema e todos eles estão com projetos e um vai trabalhar no projeto do outro, né?… E a gente vai partir prá fazer, agora também, um documentário em P&B, feito em película sobre a cidade de São Paulo que chama-se “São Paulo Via Postal”, onde mostra o surrealismo, o abstrato de São Paulo, sem aquela tradição de mostrar entrevistas e aquela baboseira… É só imagem, é só poesia… Imagem e música, imagens e música da cidade de São Paulo…

Ferreira: Mas é um documentário trash também?

Diomédio: Trash!!!

Ferreira: Você sempre atua na área trash?

Diomédio: Trash no bom sentido, quer dizer, eu exploro a linguagem…

Ferreira: O que é trash prá você?

Diomédio: Trash é a condição de se fazer um filme barato, sem aquela coisa tradicional de grande produção, que é aquela colagem de televisão… O que se faz de cinema no Brasil hoje é aquela bosta, que é com atores globais…

Ferreira: … Pasteurizada?

Diomédio: Pasteurizada, coisa americanizada… Então, nós temos a nossa própria cultura, os nossos enquadramentos, a nossa estética, a nossa linguagem e a gente soma tudo isso para poder realizar nossos trabalhos, né?

Ferreira: Você acha que até o final de 2001 você vai estar com o primeiro projeto concluído, o “Urubuzão”?

Diomédio: Não só o “Urubuzão, mas este que a gente ta rodando… O “Urubuzão” já entregamos prá um grupo maluco de americanos que ficaram interessados em concluir o projeto e a gente ta aguardando uma resposta… Paralelo a isso a gente vem desenvolvendo o “Vesperal dos Bruxos”, né?

Ferreira: Fala um pouquinho do “Vesperal dos Bruxos”, inclusive, parece que eu tive uma pequena participação no roteiro, né?

Diomédio: É, o “Vesperal dos Bruxos” só tem bruxos, nasceu na casa do Jairo Ferreira, assim, eu e ele em torno do computador, não… A gente começou a elaborar as cenas e foi crescendo, foi crescendo, aí foi pintando pessoas do nosso meio, dando opinião, eram 8… Bem, ficaram sendo no total 8 roteiristas, colaboradores… É a trajetória de um jovem cineasta que sai com seu roteiro embaixo do braço prá tentar realizar… Mas ele entra em crise e ele é aficcionado por National Kid e ele se transforma em National Kid e simula seu próprio seqüestro para obter dinheiro para finalizar seu filme e a medida que ele vai avançando ele confunde as personagens dele com a própria existência dele, então ele vai filmando fragmentos aleatoriamente porque ele entra em crise de criação e ele seduz grandes poeta românticos…

Ferreira: … Por falar em poetas, fala um pouco sobre o projeto que você tem sobre o Álvares de Azevedo, que prá nós o “Macário” é um trash Cult…

Diomédio: O “Macário” já ta pronto o roteiro, é o próximo projeto que a gente pretende rodar no segundo semestre deste ano…

Ferreira: Você fez o roteiro sozinho???

Diomédio: Sozinho!!!

Ferreira: Você basicamente é o roteirista?

Diomédio: Eu escrevo… Eu tenho uns 15 roteiros que eu escrevi nestes 3 últimos anos, né? Mas eu to procurando agora é realiza-los aos poucos e o “Macário” é um grande projeto prá esse ano, ou seja, grande no sentido…

Ferreira: O que você acha deste poeta, Álvares de Azevedo? É trash ou mais que trash? É visionário?

Diomédio: Visionário!!! Um dos mais malditos que surgiram na história da literatura brasileira…

Montagem de Ivan Cardoso

Ferreira: Dá uma geral da filosofia, da poesia do seu cinema:

Diomédio: É, a idéia…

Ferreira: O que você pretende hoje no Brasil? Revolucionar, subverter, anarquizar… Qual é a sua?

Diomédio: Pois é… A idéia em geral, nós temos a idéia de desenvolver todos esses projetos no sentido sempre marginal, sempre maldito, porque todos os meus personagens são anjos… Anjos malditos, meus personagens não morrem, eles dão vida à outros personagens… O Kid, o National Kid do “Vesperal dos bruxos”, é um anjo… Um anjo bruxo, como Kenneth Anger, né?

Ferreira: O Kenneth Anger?

Diomédio: Exatamente, o grande poeta dos anjos malditos!!!

Ferreira: Sim, mas o Kenneth Anger do underground americano, né?

Diomédio: Exatamente, o poeta dos anjos malditos dos USA… A gente se inspira muito nesse trabalho independente que há no mundo inteiro, né?

Ferreira: Fala!!! (pausa)… Vamos ficar por aqui? Ou vamos fazer uma mensagem final, sobre o Brasil, sobre o cinema do Brasil de hoje em dia… A mensagem final trash do grande cine-poeta Diomédio de Moraes… Por sinal, citado no meu livro “Cinema de Invenção”, né? No capítulo sobre “O Vampiro da Cinemateca” foi o Diomédio quem me entrevistou e agora estou devolvendo a peteca… Mensagem final:

Diomédio: É, o Petter… Gostei muito do trabalho de vocês, conheço o trabalho através da imprensa, né? Chegou à mão da gente aqui o fanzine de vocês, fiquei encantado pelo fanzine e eu também já publiquei nos anos 80 e 90 fanzine sobre cinema, em pequena escala. Eu acho que vocês tem mais é que dar continuidade, o Brasil não se resume à São Paulo e Rio de Janeiro, eles que vão prá puta que o pariu, eles fazem o mesmo cinema de sempre. Cinema é o que vocês fazem aí em Santa Catarina, faz no Rio Grande do Sul, os independentes malditos. Aqueles que fazem no Mato Grosso, os Pernambucanos, enfim, o resto do Brasil tá’í, não o Brasil que é centralizado no eixo Saó Paulo/Rio…

Ferreira: É o Brasil não oficial?

Diomédio: Exatamente, meu próximo passo depois destes trabalhos todos é picar a mula desta merda de São Paulo, disso aqui a gente ta com o saco cheio, a gente tem que mostrar mais a cara do Brasil que não se resume a São Paulo e Rio, eles é que vão prá puta que o pariu!!!

Jairo Ferreira: Falô Diomédio, especial para Petter Baiestorf, entrevista feita por Jairo Ferreira, num sábado ensolarado, efeito estufa… (pausa)… Vamos ver se gravou bem, ein? (barulinho característico de “stop” num aparelho de gravar)…

nota do Canibuk: pedimos desculpas pela falta de imagens com o cineasta Diomédio de Moraes, mas imagens dele são mais raras que seus filmes.

O Que Pensam, o que Querem os Surrealistas

Posted in Anarquismo, Literatura with tags , , , , , , on maio 11, 2011 by canibuk

Generalidades

É preciso não apenas que cesse a exploração do homem pelo homem, mas que cesse a exploração do homem pelo pretenso “Deus”, de absurda e provocante memória. É preciso que seja inteiramente revisado o problema das relações do homem e da mulher. É preciso que o homem passe, com armas e bagagem, para o lado do homem. Basta de flores sobre os túmulos, basta de instrução cívica entre aulas de ginástica, basta de intolerância, basta de engolir sapos! (André Breton, 1942).

Não poderá haver novo humanismo senão no dia em que a história, reescrita após ter sido acertada entre todos os povos e limitada a uma única versão, consentir tomar por sujeito todo homem, da época mais remota que os documentos permitirem, e perceber, com toda objetividade, seus fatos e gestos passados sem considerações especiais à região que este ou aquele habita e à língua que ele fala. (André Breton, 1945)

Nosso entrincheiramento agressivo contra a sociedade deliqüescente, nossa hostilidade em relação a seus ideais degradantes encontram seu corolário… Em nosso desejo de um grande vento Ateu, purificador e revolucionário. (Jean Schuster, 1950)

Surrealismo ou Realidade

Tudo o que amo, tudo o que penso e sinto inclinam-me a uma filosofia particular da imanência segundo a qual a surrealidade estaria contida na própria realidade e não lhe seria nem superior nem exterior. E reciprocamente, pois, o que contém também seria o conteúdo. (André Breton, 1928)

Os surrealistas, no que os concerne, não cessaram de invocar o livre pensamento integral. Concentrando deliberadamente suas pesquisas em torno de certas estruturas destinadas, de um modo totalmente abstrato, a evocar a ambiência ritual, procuram em nada assumir o absurdo e o ridículo de buscar promover por suas próprias mãos um novo mito. (André Breton, 1947)

Sonho & Revolução

… Desde que a démarche refletida e racional da consciência sobrepujou a démarche apaixonante do inconsciente, quer dizer, desde que o último dos mitos cristalizou-se numa mistificação deliberada, o segredo parece ter se perdido, segredo esse que pirmitia conhecer e agir sem alienar o conhecimento adquirido. O sonho e a revolução são feitos para pactuar, não para se excluir. Sonhar com a Revolução não é renunciar a ela, mas fazê-la duplamente e sem reservas mentais. (Ruptura Inaugural, 1947)

Religião

Em 1931, os surrealistas declaram, por ocasião das primeiras lutas na Espanha: “Tudo o que não é a violência quando se trata de religião. do espantalho Deus, dos parasitas da oração, dos professores da resignação, é assimilável com esses inumeráveis vermes do cristianismo, que devem ser exterminados”. (Benjamin Péret, 1948)

A religião cristã, a mais evoluída e a mais hipócrita de todas as religiões, representa o grande obstáculo espiritual e material à liberação do homem ocidental, pois é o auxiliar indipensável de todas as opressões. Sua destruição é uma questão de vida ou morte. (Benjamin Péret, 1948)

Pátria, Estado

Em 1925, os surrealistas declaram: “Ainda mais que o patriotismo, que é uma histeria como outra qualquer, contudo, mais vazia e mais mortal do que qualquer outra, o que nos repugna é a idéia de Pátria, que é verdadeiramente o conceito mais bestial, menos filosófico que tentam fazer penetrar em nosso espírito”. (a Revolução primeiramente e sempre!)

Em 1935, os surrealistas declaram: “Todo sacrifício de nossa parte à idéia de pátria e aos famosos deveres que dela resultam entrariam de imediato em conflito com as razões iniciais mais certas que conhecemos de termos nos tornado revolucionários… É a inanidade absoluta de tais conceitos que atacamos e, sobre isso, nada nos forçará a nos redimir”. (do tempo em que os surrealistas tinham razão)

Revolta, Revolução

O poeta não deve alimentar em outrem uma ilusória esperança humana ou celeste, nem desarmar os espíritos insuflando-lhes uma confiança sem limite num pai ou num chefe contra quem toda crítica se torna sacrílega. Muito pelo contrário, cabe a ele pronunciar as palavras sempre sacrílegas e as blasfêmias permanentes. (Benjamin Péret, 1945)

A idéia cristã da vaidade absoluta dos esforços do homem não tem inimigo mais irredutível que a poesia, que é a mensagem de esperança e revolta. Mesmo desesperada, essa poesia não aceita, com efeito, o desespero; ultrapassa o sofrimento transformando-o em fonte de revolta. Proclama por isso mesmo sua confiança no verdadeiro poder do homem. (Jean-Louis Bédouin, 1950).