Mortos e Feridos: Um Acidente?

Um professor levantou a seguinte indagação:

Imagine que um grupo de cientistas pede um encontro com as lideranças políticas do país para discutir a introdução de uma nova invenção. Os cientistas explicam que os benefícios da tecnologia são incontestáveis, e que a invenção aumentará a eficiência e tornará a vida de todos mais fácil. O único lado negativo, eles alertam, é que para ela funcionar, 40 mil pessoas inocentes terão que morrer a cada ano. Os políticos decidiriam adotar ou não a nova invenção?

Os alunos estavam prestes a dizer que uma tal proposição seria completamente rejeitada de imediato, quando o professor despreocupadamente observou: “Nós já a temos: o automóvel”. Ele nos fez refletir sobre a quantidade de morte e de sofrimento que nossa sociedade tolera como resultado do nosso compromentimento em manter o sistema tecnológico – um sistema no qual todos nós nascemos e não temos escolha além de tentar nos adaptar a ele.

Foi Henrique Santos Dumont (irmão do “Pai da Aviação”) o proprietário do primeiro carro que chegou ao Brasil. O veículo aportou em Santos em 1893. Oficialmente, o primeiro acidente de carro no Brasil ocorreu em 1897 na estrada velha da Tijuca, Rio de Janeiro. Era Olavo Bilac que se chocava contra uma árvore com o automóvel de José do Patrocínio.

De lá prá cá o Brasil conseguiu alcançar e manter a marca de campeão mundial de “acidentes de trânsito”. Os personagens da história do consumo e dos “acidentes” de automóveis não são mais, apenas, os ilustres personagens dos livros de história escolares. As estatísticas tomaram o lugar dos ilustres. Porém, é suspeita a importância de estatísticas como fator de mobilização social, uma vez que, se dependesse delas, já não poderia existir um sistema econômico que impede que milhões de pessoas se alimentem adequadamente e que, para sua perpetuação e reprodução, esgota a possibilidade de vida no planeta. Alguma verdade existe no famoso pensamento de Stalin: a morte de uma pessoa é uma tragédia, a morte de um milhão é uma estatística. A frieza da matemática não desperta as paixões que são os combustíveis das revoluções. Mas quem sabe elas possam ter o seu papel.

A cada 13 minutos ocorre uma morte por “acidente” de trânsito no Brasil. A cada 7 minutos ocorre um atropelamento. Além das 46 mil mortes anuais por “acidentes” de trânsito, 300 mil pessoas ficam feridas, 60% com lesões permanentes. Destes mortos, 44% foram vítimas de atropelamentos e 41% estão na faixa etária entre 15 e 34 anos. Cerca de 60% dos leitos de traumatologia dos hospitais brasileiros são ocupados por “acidentados” no trânsito. Mais de 700 mil pessoas morreram em “acidentes” de trânsito de 1960 a 2000 no Brasil. Já não é novidade que temos no Brasil em média uma “guerra do Vietnã” de mortos pelo trânsito por ano. Além disso, o nível de monóxido de carbono nas grandes cidades já está acima do tolerado pelo ser humano.

Numa sociedade que naturaliza suas instituições e valores, que não os questiona mesmo que eles vitimem os próprios indivíduos que compõem essa sociedade, tais estatísticas dificilmente levam a uma prática de negação ou mudança. É interessante notar a escassa existência de movimentos e pensadores que questionem e se contraponham ao carro no Brasil.

Com números tão altos e uma generalização tal, a palavra “acidente” parece simplesmente encobrir o efeito não visado e não desejado de uma determinada lógica. Caso se possa falar com razão de “acidentes de carro” ou “acidentes de trânsito”, uma vez que não havia intenção de matar ou ferir quando alguém se postou atrás do volante de um carro, poderíamos falar também com a mesma razão de “acidentes de fluxo econômico”, “acidentes de lucro” ou “acidentes de nutrição” para nos reportarmos à miséria material, à subnutrição e às mortes conseqüentes do sistema econômico capitalista, generalizadas no Brasil e no mundo. Os capitalistas, através de sua atividade econômica, e o capitalismo, como sistema econômico, nunca tiveram intenção de matar de fome quem quer que seja. A miséria material é um efeito não desejado e não visado, porém inevitável, da lógica econômica capitalista.

texto de Ned Ludd, do livro “Apocalipse Motorizado – A Tirania do Automóvel em um Planeta Poluído” (Editora Conrad).

Os dados apresentados neste texto são de 2000, hoje em dia o caos está maior ainda.

Uma resposta para “Mortos e Feridos: Um Acidente?”

  1. Poizé, um trem cheio de carga polui menos que o equivalente em caminhões para levar a mesma carga, sai muito mais barato, não causa acidentes e não estraga a rodovia. Mas é um meio de transporte sub-utilizado, assim como o transporte pluvial.

    O problema é se mudar os hábitos. A quantia de carros que saem das fábricas, ao mesmo tempo que a garagens estão cheias de carros para vender baratinho, não incentivam nem um pouco que se compre menos carros. E é comum se comprar carro mais devido ao status social e á mulherada, do que devido á uma necessidade real. Se for só para usar em dias de chuva, táxi sai mais barato.

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