Entrevista exclusiva com Roger Corman

Em Agosto de 2000 publiquei no fanzine “Arghhh” número 29 uma entrevista exclusiva que o Ivan Cardoso fez com o Roger Corman especialmente pro zine que eu editava.

Ivan Cardoso: Mr. Corman…

Roger Corman: Please Ivan, Call me Roger!

Cardoso: É que apesar de nos conhecermos há alguns anos. ainda fico bastante emocionado em encontra-lo pessoalmente. Para mim você é um deus! Um dos diretores que mais gosto e admiro…

Corman: Que bobagem! Você também é um grande filmmaker e os seus filmes falam por si! Lembre-se que quando assistimos “As Sete Vampiras”, no Rio (de Janeiro) em 1994, a minha filha caçula achou a sua planta carnívora muito melhor que a minha de “The Little Shop of Horrors”!!!

Cardoso: Que é isso, Mr. Corman… Quer dizer, Roger!

Corman: E, é verdade! Aliás, antes de mais nada, se me permitem, gostaria de falar sobre o seu último trabalho: Eu acho “O Escorpião Escarlate” muito bem feito. Você, Ivan Cardoso, mistura muito bem horror, sexo e comédia! Os planos, os enquadramentos perfeitos para cada take, os movimentos de câmera, a fotografia e, principalmente, a montagem são excelentes, porque o filme nunca fica chato ou perde o ritmo!

Ivan Cardoso e Roger Corman.

Cardoso: Obrigado Roger. Bem, depois dos “comerciais” acho que podemos começar a entrevista…

Corman: À propósito Ivan, quanto custou “As Sete Vampiras”?

Cardoso: Duzentos mil dólares! Mas não sei quanto custaria hoje! Porquê a econômia brasileira é muito complexa e mesmo o dólar não serve de referência.

Corman: Bom preço! Você também é um ótimo produtor! Mas agora descobri porque sua planta carnívora é melhor que a minha! “The Little Shop of Horrors” foi rodado em apenas dois dias e me custou somente, em dinheiro, 35 mil dólares! É claro que naquele tempo Jack Nicholson não era um ator tão caro!

Cardoso: Você fez o filme todo em dois dias? Foi isso mesmo o que eu entendi?

Corman: Exatamente! Nós fizemos o filme em apenas 48 horas! Mas, isso foi em 1961, há quase quarenta anos atrás e todos nós erámos mais jovens!

Cardoso: E quantos filmes você dirigiu naquele ano?

Corman: Por acaso, em 1961, eu dirigi e produzi apenas dois filmes. Mas em 1957 cheguei a dirigir e produzir nove fitas, foi meu “record”! No início da minha carreira, normalmente, eu fazia cinco ou seis filmes por ano!

Cardoso: Porque você se especializou em fazer produções baratas?

Corman: Em diversas ocasiões, ao longo da minha bem sucedida carreira, me ofereceram super produções milionárias. Mas sempre achei melhor recusa-las porque, em contrapartida, eu teria pouco controle sobre o filme!

Cardoso: Até hoje os diretores americanos não tem autônomia na montagem final de suas obras?

Corman: É claro que não, Ivan. Eles são apenas diretores contratados para executarem uma parte do trabalho. O produto final não lhes pertencem, é dos estúdios e das companhias que o produziram. Por isso sempre preferi continuar sendo um produtor independente!

Cardoso: Quantos filmes você produz por ano?

Corman: Atualmente a minha produtora, a Concorde New Horizons, faz uma média de 10 à 12 longas por ano, dependendo do volume de trabalhos que estivermos fazendo para a televisão. Nós produzimos dentro de uma escala industrial, com muito planejamento.

Cardoso: Quanto custam em média suas produções?

Corman: Custam, em média, hum milhão de dólares. Tem produções mais baratas e outras um pouco mais caras. Ou seja, em média, invisto entre 10 e 12 milhões de dólares do meu próprio bolso para continuarmos produzindo. Por isto discordo desta afirmativa que “só faço filmes baratos”: A minha produção tem este custo, porque este é todo o dinheiro que disponho para produzi-la e não acredito que 12 milhões de dólares sejam tão pouco dinheiro…

Cardoso: Que conselho você daria aos cineastas que estão começando?

Corman: Bastante disposição para trabalhar duro e investir muito tempo na pré-produção, para quando você estiver filmando, só se preocupar com os problemas que não estavam previstos mas que surgem naturalmente na produção de um filme e podem complicar as coisas. Quanto mais tempo você trabalhar na preparação de um filme, menos tempo você gastará para roda-lo, diminuindo os seus custos e aumentando suas possibilidades de lucro!

Cardoso: Então, esta é a sua fórmula do sucesso?

Corman: Pelo menos é o que temos feito nos últimos quase 50 anos com relativo sucesso! Não posso afirmar que todos os meus filmes foram um grande sucesso, mas posso lhe garantir que 95% das nossas produções se pagaram e deram algum lucro.

Cardoso: Roger, como você vê o cinema produzido atualmente?

Corman: Nos últimos anos Hollywood segue a risca a mesma filosofia empressarial que comanda o show business americano. Produzir obras descartáveis, facilmente assimiladas pelo público jovem. Eu penso justamente o contrário: Creio que a principal força do cinema está concentrado num equilíbrio perfeito entre arte e negócio! Por isso mesmo que o cinema se transformou na arte mais poderosa do século XX. Esta tensão, esta fórmula mágica gera uma energia positiva que, de imediato, abre uma porta para os cineastas independentes entrarem no mercado.

Cardoso: E qual seria o “segredo desta porta fechada” para os cineastas brasileiros?

Corman: Em todas as artes é o mesmo segredo: Tem que se conseguir criar algo novo! E, isto está totalmente fora do alcance dos grandes estúdios que, por investirem somas fabulosas em suas super produções, não ousam se arriscar em nada de novo! Esta é a grande oportunidade dos cineastas do seu país que, não tendo uma cinematografia industrial, poderia produzir novidades como “O Escorpião Escarlate”, que deveria ser um modelo à ser seguido e não “perseguido”, por ser uma obra universal. E, a propósito, como vai a nova produção do cinema brasileiro? Quanto custa, em média, atualmente, um filme brasileiro?

Cardoso: Esta é uma pergunta díficil de responder, por que não faço um longa-metragem há quase 10 anos. Além disso, tivemos uma maxi desvalorização que nos trás de volta, novamente, o problema cambial. Mas em média, os novos filmes brasileiros custam de 3 à 4 milhões de doláres.

Corman: Mas isso é uma loucura! Um suicídio comercial, não existe mercado para filmes falados em português, neste planeta, que viabilize produções tão caras, com atores internacionalmente desconhecidos. Os produtores brasileiros não estão ligados na internet? No mundo globalizado filmes falados em idiomas regionais só podem custar no máximo meio milhão de doláres. Atualmente, mais do que nunca, é impossível se pensar numa produção cinematográfica industrial que não seja falada em inglês. É claro que, ao longo da história recente do cinema, várias cinematografias de outros países, em diversas ocasiões, brilharam nas telas mundiais. Mas sempre o principal atrativo comercial destas fitas é seu baixo custo, como podemos observar nas cinematografias emergentes orientais.

Cardoso: São problemas díficeis de equacionar, numa entrevista, mas em linhas gerais, até os anos 90, tínhamos uma produção semi industrial, que chegou a produzir quase 100 títulos por ano! E, durante alguns anos, a Embrafilme (distribuidora de filmes nacionais) foi líder do mercado exibidor! Em 1990 um psicopata assumiu a presidência do Brasil promovendo um autêntico holocausto cultural que extinguiu a frágil “róliudi tupiniquin”. Atualmente, nunca um governo investiu tanto na cultura, mas como não temos mais um mercado interno, o cinema brasileiro é subvencionado pelo estado, através de leis que possibilitam a renuncia fiscal. Sendo um dinheiro público, doado à fundo perdido, muitos dos meus colegas desperdiçam verdadeiras fortunas em obras nati-mortas sem o menor atrativo comercial. Grande parte dos nossos diretores se orgulham-se em serem anti-comerciais. Para você ter uma idéia do nosso atraso, a maioria dos artistas e intelectuais brasileiros ainda são esquerdofrênicos!

Corman: Oh! My God! Não é possível que 10 anos depois da queda do muro de Berlim ainda existam comunistas no Brasil?

Cardoso: E como, Roger! Nunca tivemos um presidente tão bom e um governo tão neo liberal, porém a cultura, infelizmente, continua sob controle stalinista. Muitos cineastas nacionais ainda vêem os cinemas apenas como um veículo moderno para as suas ultrapassadas mensagens políticas, não percebendo que estão diante de um universo mágico muito maior que qualquer ideologia!

Corman: Ivan, me responda uma coisa que eu não consigo entender: Porque os seus colegas vão mixar filmes falados em português nos Estados Unidos? Isto me parece rídiculo, porque a julgar pelos seus dois filmes o Brasil possuí excelentes estúdios de som…

Cardoso: Roger, também não sei! Síndrome de complexo de inferioridade, talvez! Mas não sei… Bem Roger, obrigado pela entrevista!

Corman: Ivan, eu que agradeço! E um abraço aos leitores do “Arghhh” zine!

10 Respostas to “Entrevista exclusiva com Roger Corman”

  1. demais essa entrevista , q figura – vou até corrigir o meu erro de nao ter visto filmes do ivan ate agora, fiquei curioso

    blearggggg

  2. […] para ser o diretor do filme durante 3 anos (seu roteiro chegou até a ser oferecido ao lendário Roger Corman, mas uma cláusula no contrato que dava ao roteirista o direito de dirigi-lo, manteve Corman fora […]

  3. […] como “Jail Bait” (1954) de Edward Wood Jr., “Carnival Rock” (1957) de Roger Corman, entre vários outros), provissoriamente intitulado “Tarantula” (não confundir com o […]

  4. […] clássico “Alligator” de Lewis Teague, filmado um ano antes) que havia trabalhado com Roger Corman e Joe Dante no primeiro “Piranha” (1978) que traria de volta as personagens de Kevin […]

  5. […] 1956 o diretor Roger Corman, com um roteiro de Lou Rusoff, chamou Peter Graves, Lee Van Cleef e Beverly Garland e legou ao […]

  6. […] um mané que sonha se tornar rockstar, ambos filmados simultaneamente com produção do lendário Roger Corman. O drama “Hero, Lover, Fool” (1996), com Ron Jeremy no elenco, também tem direção […]

  7. […] ágil, putaria, depravação, bestialismo e um monte de cenas memoráveis. Uma cortesia de Roger Corman, que não contente com as cenas de violência filmadas pela diretora Barbara Peeters (originalmente […]

  8. […] Nicholson. Após a recusa Alex Gordon (que trabalhava na A.I.P. produzindo os primeiros filmes de Roger Corman, como “Apache Woman” (1955), “Day The World Ended” (1955), “The Oklahoma Woman” (1956), […]

  9. […] Bride and the Beast” (1958), de Adrian Weiss, e realizações da A.I.P., muitas dirigidas por Roger Corman, como “House of Usher/O Solar Maldito” (1960); “Tales of Terror/Muralhas do Pavor” (1962) e […]

  10. […] tardia para o clássico “The Little Shop of Horrors/A Pequena Loja dos Horrores” (1960) de Roger Corman e “Wham! Bam! Thank You, Spaceman!” (1975) de William A. Levey, diversão sobre dois aliens que […]

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