O Carro e a Liberdade Burguesa

Crossland, o grande político trabalhista dos anos 1950, que viu no acordo pós-guerra o advento do socialismo, disse uma vez: “Por trás de um voto, um homem: de um homem, um carro!”. Claramente, para os ideólogos do pós-guerra, de Crossland a Thatcher, o carro é a epítome da liberdade e da democracia, e nós certamente concordaríamos!

Para o indivíduo, a posse de um carro oferece um salto para a liberdade e a oportunidade. A liberdade para ir aonde e quando quiser. Uma liberdade impensável para as pessoas das primeiras gerações da classe trabalhadora. Certamente, para o homem, aprender a dirigir é a principal ruptura com as restrições sufocantes da família e o primeiro passo para chegar à idade adulta.

Contudo, esse aumento da liberdade individual serve para reduzir a liberdade de todos os demais. Outros motoristas de carros passam a enfrentar muito mais congestionamentos e atrasos. Os pedestres acabam ficando mais limitados pelo medo de morrer ou de ferir-se gravemente por um carro, enquanto as pessoas sofrem com mais barulho do tráfego e muito mais poluição.

A liberdade de movimento oferecida pelo carro torna-se cada vez mais uma liberdade formal, uma representação da liberdade, assim como todos os lugares se tornam os mesmos tão logo sejam asfaltados e poluídos para se tornarem caminhos para o carro. À medida que o carro se torna a norma, a sua própria liberdade transforma-se numa necessidade, uma vez que atos mundanos, como fazer compras, tornam-se impossíveis sem acesso a um carro. Já é o caso em Los Angeles, Londres ou São Paulo, com o crescimento de megalojas fora da cidade.

Por delinear-nos como cidadãos consumidores, a liberdade do carro, como todas as liberdades burguesas, nos joga em uma guerra de todos contra todos, em que os outros motoristas aparecem meramente como obstáculos e limitações ao nosso próprio direito inalienável de movimento. Esse direito inalienável de movimento, conseqüentemente, implica o dever de obedecer ao código rodoviário e às leis de trânsito, que, por sua vez, são reforçados e garantidos pelo Estado. Policiando as estradas e se comprometendo a continuamente fornecer mais espaço para elas, o Estado assegura a liberdade burguesa de movimento.

Contudo, como o volume de tráfego cresce a uma taxa mais rápida do que a construção de estradas, o carro não tem aonde ir (exceto para levar o seu proprietário ao trabalho), mas tem algo importante a dizer. O carro há muito tempo tem se tornado menos um meio de transporte e cada vez mais um meio de identidade. Reduzindo a possibilidade de uma comunicação direta, o carro deve dizer o que somos por nós. Quer sejamos um ascendente social ou um ecologista consciente, o carro diz tudo.

Apesar da ofensiva da classe trabalhadora dos anos 1960 e 1970, que levou o modo fordista de acumulação à crise e forçou uma maior reestruturação do capital, a contínua centralidade do carro não foi afetada. Certamente, a luta associada das mulheres e da juventude contra a antiga estrutura da família patriarcal, que encontrou sua expressão material moderna no carro dirigido pelo pai de família, com projeto incluindo esposa e dois filhos, foi há muito tempo recuperada no direcionamento da venda de carros às mulheres e aos jovens (e aos que querem ser jovens).

Assim o carro tornou-se não somente central à acumulação de capital nos últimos cinqüenta anos, mas também um meio vital de consolidação do compromisso de classe que tornou tal acumulação possível. A promessa de liberdade física e de mobilidade oferecida pelo carro levou à desmobilização política da classe trabalhadora.

Ned Ludd, livro “Apocalipse Motorizado” (Ed. Conrad).

Canibuk defende o aumento de impostos na gasolina e nas vendas de automóveis/caminhões e que esses impostos sejam usados para a construção de ciclovias e no barateamento das bicicletas. Também defendemos a isenção do imposto aos produtos da cesta básica e defendemos Saúde e Educação gratuíta à todos durante a vida inteira.

7 Respostas to “O Carro e a Liberdade Burguesa”

  1. Apoiado. Estou muito feliz de ter adquirido minha bike e estar contribuindo para um ar mais respirável!

  2. Já não bastam os vegetarianos e eco-chatos, agora teremos que suportar o Movimento dos Anti-Carro…

    Francamente!

    • Rafaela,
      carros de passeio sempre me incomodaram muito, acho que a sociedade só tem a ganhar sem o uso do carro de passeio. É só andar no trânsito paulista (ou de qualquer cidade de médio porte, ou até cidadezinha de 8 mil habitantes como na cidade onde vivo) para perceber que 98% dos carros de passeio estão com apenas uma pessoa dentro, botando terror nas vias públicas. Nunca irei concordar com algo tão estúpido assim.
      Automóveis são indefensáveis (sem contar que hoje em dia carros são comprados para ostentar uma posição social, infeliz pode estar devendo a vida aos bancos mas tá ali desfilando com seu carrinho novo, é besta demais isso!!!).

      E para deixar bem claro, você está lendo um blog escrito por eco-chatos vegetarianos anti-carros que são ateus e que acham armas (e militares) desnecessárias!

      Mas amamos você lendo nossos posts e sua opinião será respeitada aqui, afinal é um direito seu se stressar no trânsito, pegar engarrafamentos, reclamar dos aumentos do combustível, pagar todos os impostos do carro e se matar trabalhando prá quitar as prestações de seu carro em dia!

      Só trate os pedestres com respeito, ok?

      Petter Baiestorf (o primeiro e único carro que comprei até hoje foi para explodir no meu longa-metragem “Raiva”, produção de 2001).

      • Concordo com a base. É urgente alterar a formar como nos movimentamos – principalmente nos meios urbanos, mas um carro é isso mesmo, um carro e não podemos cair na utopia infantil de um mundo sem carros. E se há quem compre certas marcas para se exibir isso é com cada um (o dinheiro é deles). Cada um dá importância ao que quer. Eu sou bastante prático nas escolhas.

        Ainda assim o carro, a mota,o avião, o barco, quando em modo de transporte individual não dependem dos horários de das carreiras. O livre transito é um direito.

        Trabalho e moro a 160 km de Lisboa, mas quando lá me desloco em dias de semana, opto por andar metro, deixando o carro para onde o metro não chega, mas nas zonas rurais não há muitas alternativas a não ser de carro.

        Acredite ninguém se mete em engarrafamentos por prazer.

        Como defensor de medidas ecológicas, acho mais urgente alterar a tecnologia automóvel, para algo limpo e sustentável.

        PS: Sou ateu e militar. Ok estou a provocar 😀

  3. Bem… Nesse caso eu concordo. Comprar carro hoje em dia é praticamente um rito de passagem. Outro mito que a sociedade sustenta (e acham até engraçado) é o fato de que com um carro, qualquer neanderthal imbecil come qualquer mulher.

  4. Concordo com quase tudo, menos esse “endeusamento” das bicicletas que parece q é moda hj em dia no meio “underground”…

    Porra, pra ir na padaria, dá um passeiozinho, vá lá, mas como meio de transporte diário, bicicleta é uma merda. Imagina, o cara que mora num bairro periférico, tendo que ir pro outro lado da cidade p escola/trabalho, nesse frio do caralho do inverno aqui do sul, no calor infernal do verão, e em dias de chuva, e etc…

    Que se invista esses impostos em um transporte coletivo de qualidade, e verdadeiramente público. A não ser q vcs sejam do tipo maníacos por saúde e boa forma, mas acho que não é o caso, hehe…

  5. Adoro Armas, Carne Vermelha, Deus, Carros ,o asfalto e a fumaça do trânsito. !!!!!! Seus Eco-Chatos!!!!!!

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