Joel Caetano e seu Cinema de Recurso Zero

Joel Caetano e sua equipe da Recurso Zero Produções, nos últimos 10 anos, realizaram vários filmes extremamente interessantes. Conheci o Joel quando ele estava divulgando seu curta “Minha Esposa é um Zumbi” e, desde então, me tornei fã das produções dele. Em 2010 fui convidado pelo cineasta Rodrigo Aragão para interpretar o vilão humano no seu filme “A Noite do Chupacabras” (longa recém lançado) e, para minha surpresa, o “mocinho” do filme era interpretado pelo Joel Caetano. Foi divertido demais filmar com o Joel Caetano, temos várias cenas juntos onde fico torturando e sacaneando ele e, após o término das gravações, sempre ficávamos ele, eu e o ator Walderrama dos Santos (que interpreta o Chupacabras), bebendo umas cachaças e contando histórias de nossas produções até o sol raiar (as filmagens do “A Noite do Chupacabras” eram todas noturnas, o que nos permitia dormir durante o dia). Baseado nessas nossas conversas da madrugada, em set do “A Noite do Chupacabras”, que resolvi entrevistá-lo pro Canibuk.

Eu, Rodrigo Aragão e Joel Caetano.

Petter Baiestorf: Fale um pouco sobre sua infância/adolescência e como você acabou se interessando em virar produtor de filmes independentes:

Joel Caetano: Fui uma criança com muita imaginação! Desde pequeno, gostava de ver filmes, desenhos animados e ler livros e histórias em quadrinhos de super-heróis, ficção científica e terror. Sempre tive facilidade de me transpor ao universo dessas histórias fantásticas, e num dado momento, eu comecei a criar, e a melhor maneira que tive de fazer isso na época foi o desenho. As minhas primeiras lembranças de infância são de estar debruçado sobre uma folha de papel desenhando meus personagens favoritos, Batman, Superman, Sprectreman, Tom e Jerry, Disney entre outros. Comecei a desenhar antes mesmo de saber escrever. Eu tinha muita imaginação e as vezes isso saía do controle. Me lembro que um dia, amarrei uma toalha no pescoço e pulei de uma escada muito grande, achando que ia voar como o Superman… Resultado, quebrei o nariz de todas as formas e lugares possíveis, e devo ter quebrado algo no cérebro também, pois ele nunca mais voltou a funcionar normalmente desde então rs. Cresci nesse universo de desenhos e fantasias, e ao chegar na época da escola, eu me dei bem, pois costumava chamar atenção pelos desenhos. Enquanto os outros alunos desenhavam bonecos de pauzinho e bolinha, eu já desenhava meus personagens favoritos da TV. Logo depois comecei a desenhar caricaturas dos outros alunos (o me causou algumas brigas eu confesso), e me tornei uma figura cômica da sala de aula, sempre aprontando para os outros rirem. Outro momento marcante de minha infância foi a primeira vez que estive num cinema, levado por minhas irmãs que eram um pouco mais velhas que eu. Assisti “Labirinto – A magia do tempo” (“Labyrinth”, 1986, de Jim Henson). Foi uma experiência incrível, saí muito  impressionado da sala. Para uma criança com a imaginação que eu tinha, ver toda aquela fantasia bizarra, criada por Jim Henson, seus bonecos e a música de David Bowie e naquela tela enorme com som para todos os lados, causou um grande impacto em minha vida que até hoje, ao ir no cinema, sinto uma emoção juvenil que me transporta no tempo e espaço de uma forma que não posso mensurar, sou privilegiado em poder  vivenciar essa emoção mesmo depois de tantos anos, é inexplicável.  O segundo filme que assisti no cinema foi, “Robocop – O policial do futuro”, que impressionou pela violência gráfica, nunca tinha visto um filme de ação/ficção científica tão violento e sangrento, não preciso dizer que adorei não é? Aos 13 anos, tentei fazer minhas próprias HQs, primeiro mais infantis, uma espécie de Liga da Justiça só com animais, no bom e velho estilo Disney,  que se chamava “Liga Maluca” que enfrentava a “Liga do Mal” (Qualquer semelhança com os “Superamigos” e a “Legião do Mal” é mera cópia), mas eu era meio preguiçoso e só ficou na primeira edição, mas os tenho até hoje. Fui crescendo e entre as coisas comuns da idade, continuei desenhando, sempre focado no universo de Super-heróis e FC. Nessa época, comecei a ter contato com filmes de terror como, “A hora do Pesadelo” (construí uma luva com lata parecida com a do Freddy para brincar, eu adorava esse personagem), “Brinquedo Assassino”, “A volta dos Mortos Vivos”, “Sexta-feira 13”, “Halloween”, “A coisa”, “A mosca”, “Colheita Maldita”, “A Casa do Espanto” e é claro “Evil Dead”, que na minha opinião é o maior clássico do gênero. Sobre esse filme, me lembro de ficar acordado até tarde toda vez que passava na TV, era como um ritual, não perdia por nada.Eram todos filmes que passavam na TV aberta, pois naquela época, eu não tinha vídeo-cassete. Tudo que eu podia ver do gênero na TV eu via, só me lembro de ter medo de um filme, “O Exorcista”, na época eu tinha medo de tudo que envolve espíritos (isso não mudou muito hoje em dia, esse tipo de filme sempre me incomoda,  é um lado irracional que me persegue, posso ver sangue jorrando em um filme, mas não uma criança morta que se esconde debaixo da cama, vai entender). Falando sobre filme, eu via de tudo. Nos anos de 1980 eram o auge das comédias adolescentes, e as que mais me marcaram foram, “Porks”, “Curtindo a Vida Adoidado”, “Namorada de aluguel”, “Loverboy”, “A primeira Transa de Jonathan”, “Te pego lá fora”, “Mulher Nota 1000” entre outras tranqueiras. Eu assistia Porks, que tinha algumas cenas de nudez e sacanagem (muito leves se levar em consideração hoje, mas para um garoto de 8 a 10 anos, ver um mamilo era o máximo) escondido da minha mãe, com o dedo no botão de mudar de canal e o som bem baixo, quando ela chegava, eu rapidamente mudava de canal tentando disfarçar, acho que ela sempre soube a verdade rs. Falando em comédia, assisti muitos filmes do Jerry Lewis e dos Trapalhões (os mais antigos), sempre adorei comédias desse tipo pastelão mesmo, hoje em dia faltam caras como esses para fazer bem filmes desse tipo, tem o Jim Carrey, mas faz tempo que não faz nada significativo, é uma pena. Não posso falar de filmes sem citar algo que me influenciou por muito tempo, os filmes da primeira trilogia de “Guerra nas Estrelas” (antes daquela frescura de “Uma nova Esperança” etc). Me lembro de brincar de “sabre de luz” com os amigos, fazendo aquele som característico com a boca, “Vrummm… Vrummmm” era muito divertido (principalmente quando algum vizinho trocava as lâmpadas fluorescentes de sua garagem). Eu via e revia esses filmes dezenas de vezes, era um evento quando passava na sessão da tarde, todas as crianças iam assistir, depois saímos com nossos cabos de vassoura e enfrentávamos a nossa própria “Estrela da Morte”. De ficção científica, ainda tinha o “Blade Runner”, “De volta para o Futuro”, “Superman” de Richard Donner (a melhor personificação desse personagem até hoje) e muitos outros, que alimentavam minha fértil imaginação. Destaque para, “O planeta dos Macacos”, e seu final arrebatador, que me deixou por muito tempo chocado com a possibilidade de um futuro tão assustador. Eu gostava muito também dos filmes de ação, aventura e fantasia da sessão da tarde, tipo Krull (odiava a cena que o ciclope morria, era o melhor personagem do filme), Fúria de Titãs, Conan, o Bárbaro, Fuga de NY, Aventureiros do Bairro Proibido, Indiana Jones entre outros. Tive também minha época de ver filmes de artes marciais, os filmes de Bruce Lee e Van Damme eram meus favoritos, eu via os filmes e ficava no quintal de casa treinando os golpes, fazendo exercícios, para depois, ir treinar com os moleques na rua, era uma curtição só, saía briga pra tudo quanto é lado, mas nada sério, só coisa de moleque. Nessa época, já com uns 15 anos, eu tentei novamente fazer uma HQ, O “Ninja X”, a história de um garoto que é salvo de um acidente de avião por um mestre em artes marciais e passa a integrar o seu clã. Quando se torna adulto, ele resolve voltar para sua terra natal para descobrir quem derrubou o avião que matou seus pais. Mais uma vez não terminei, quadrinhos dava muito trabalho. Quando cheguei à adolescência, os hormônios falaram mais alto, comecei a namorar, me afastei dos filmes, tentei ser músico (aprendi a tocar violão), e  estudei eletrônica, foi uma época de trevas, onde a minha diversão era somente encher a cara, jogar futebol e sair em baladas com os amigos, obviamente tudo isso deu errado, eu só voltaria a me dedicar a arte quando, anos depois, comecei a faculdade de Rádio e TV em 2001.

Baiestorf: Você trabalha com o que para sobreviver?

Caetano: Sou formado em Rádio e TV, com pós Graduação em Comunicação organizacional.  Trabalho como editor, assistente de direção e eventualmente como roteirista em uma produtora de vídeos institucionais e propaganda.  O mais interessante é que entrei nessa empresa pois a dona da produtora era uma das alunas da faculdade onde estudei, e ela se lembrou de mim por causa do curta “Dupla Surpresa”, que fiz no primeiro ano do curso e decidiu me chamar para um trabalho, estou lá, desde 2007 e tem sido um ótimo lugar, pois consigo  conciliar meu trabalho com meus filmes e estar perto de profissionais altamente qualificados, com os quais aprendo muito tecnicamente.

Baiestorf: Fale um pouco da sua cara metade, Mariana Zani, que te acompanha desde o início. Vocês se conheceram antes de começar a fazer filmes?

Caetano: Conheci Mariana em 2000, começamos a namorar e 6 meses depois,  decidimos fazer faculdade, estudamos juntos os 4 anos de curso mais 1 ano de pós graduação, tudo isso na mesma sala, o que pra ambos foi muito bom, pois estávamos focados no aprendizado, e um dava suporte ao outro, estudando juntos ou fazendo trabalhos e seminários. A Mariana vem de uma família de artistas, seus pais, Ivete Zani e Luiz Carlos Batista (que hoje participam dos filmes da RZP) se conheceram no teatro na década de 1970. Sua mãe, atriz e seu pai, ator, diretor e roteirista, (que escreve até hoje para o “Grupo Ato”, companhia teatral muito influente na cidade de Bauru em São Paulo) logo se casaram e dessa união, nasceu a Mariana. Pelos relatos da família, Mariana sempre foi muito talentosa e ainda pequena, nas festas de família fazia shows enquanto as outras crianças engatinhavam. Seus pais sempre a incentivaram a seguir essa carreira, por isso ela sabe de tudo um pouco, desenhar, pintar, dançar, atuar e escrever, tudo com muita naturalidade e competência. Quando estávamos na faculdade, nossa idéia era começar a produzir logo no primeiro ano, um pouco por entusiasmo e inocência de nossa parte, mas acabou dando certo.  Decidimos começar por um documentário sobre a praça Benedito Calixto, em Pinheiros, onde acontece, até hoje, uma feira de antigüidades muito famosa. Marcamos uma reunião com várias pessoas, mas só veio, uma hora depois, o Danilo Baia, que era o único que tinha uma filmadora, na época uma Hi-8. Nos juntamos e gravamos várias horas de material, mas cometemos o erro de não pedir autorização de imagem para ninguém, o documentário não deu certo, mas nascia ali, batizada pela própria Mariana Zani, a “Recurso Zero Produções”. A Mariana me ajuda em tudo, ela lê os roteiros e emite suas opiniões, me ajudando no processo de criação, faz produção, maquiagem, ajuda na organização geral, evita que eu maltrate os atores com intermináveis horas de gravação (eu sou meio sem noção às vezes), e me ajuda na divulgação e palestras da RZP. Sem ela nada disso seria possível, funcionamos muito bem juntos, procuramos sempre separar o relacionamento do trabalho, não vou negar que existem divergências, mas fazem parte do processo. Não consigo me imaginar fazendo filmes sem ela, normalmente quando falo dos filmes, não os cito como meus filmes, e sim da RZP, pois é sempre um trabalho em grupo.

Mariana e Joel.

Baiestorf: Como é o processo de criação dos teus filmes? Mariana colabora com idéias sempre?

Caetano: Na verdade as idéias e roteiros vêm da minha cabeça mesmo. Tenho lampejos de inspiração o tempo todo e vou anotado em  qualquer papel que me apareça na frente. Depois de ter a idéia central, escrevo de forma literal, ainda uma espécie de rascunho, e vou aos poucos recheando esse argumento com elementos, dado personalidade e profundidade as personagens, estruturando a história de acordo com o formato e narrativa que pretendo seguir. Nesse momento, conto pra Mariana a história sem muitos detalhes, só para ver sua opinião, muitas vezes ela torce o nariz e eu tento convencê-la do meu argumento, se conseguir, normalmente estou no caminho certo. Feito isso, escrevo o roteiro e depois de pronto, desenho o Storyboard, que me ajuda a definir o visual do filme. Uma coisa importante, é que durante quase todo o processo, eu desenho algo, pois sou muito visual, eu tento montar o filme na minha cabeça antes mesmo do roteiro estar pronto. Esse exercício me ajuda a dar ritmo à história, acho que é coisa de editor, sei lá, mas funciona muito bem comigo.

Baiestorf: Assim como o Felipe Guerra, outro batalhador do cinema independente, você faz vários filmes usando sua família (seu pai, seus sogros, etc…). Como funciona isso?

Caetano: Quando comecei era muito inseguro, pois tinha vontade de fazer filmes que não se via por aí em nosso cinema convencional, principalmente na faculdade, onde a maioria das pessoas queriam fazer filmes mais “sérios”. Minha vontade sempre foi fazer filmes de terror, de ficção científica, com efeitos especiais, sem muita frescura. Para resolver esse problema de ter que persuadir algum ator a trabalhar nos filmes, decidi que tudo seria feito por nós mesmos, eu Mariana Zani e Danilo Baia, a RZP. Foi assim nos dois primeiros filmes, “Afrodite” e “Dupla Surpresa”. Nos dois, eu e Mariana atuamos, eu escrevo e dirijo e o Danilo Baia faz a câmera e direção de fotografia. Com o passar do tempo, nosso trabalho foi amadurecendo, fui estudando mais e aprendendo a escrever melhor, ter mais controle, conhecimento e segurança do que queria. Ainda na faculdade, no último ano, em 2004, fizemos o “Despedida”, um curta de terror, com um fantasma, estrelado por mim e Mariana. O resultado técnico foi bem satisfatório, me senti mais seguro para envolver outras pessoas numa produção. No ano seguinte, fiquei sabendo que iria ter um festival de Cinema Fantástico aqui no estado, na cidade litorânea de Ilha Comprida, e decidi fazer um curta para enviar. Eu e Mariana, tínhamos acabado de casar, e isso refletiu no curta,  no sentido de que, aproveitar o que tínhamos em mãos na época, que era o nosso apartamento, uma câmera mini-dv e uma luz que o Danilo conseguiu por aí (diz a lenda que “pegou emprestado” de uma igreja). Já mais seguro e com um roteiro que, ao meu ver, era bom (diante das circunstâncias), decidi chamar os pais da Mariana e uma amiga dela para participarem como atores, todos toparam no ato e foi uma experiência muito gratificante que resultou no filme “Minha Esposa é um Zumbi”. Desde então, tenho trabalhado com esse grupo de pessoas (menos a amiga da Mariana, que decidiu encerrar sua carreira como atriz depois de fazer o filme conosco), e apesar de serem da família, todos são profissionais do ramo e tenho sorte de poder contar com pessoas tão talentosas. Hoje não trabalho só com esse grupo, já filmei com outros atores, como o Davi de Almeida, ótimo ator que participou do GATO em uma ponta e que já trabalhou em novelas, filmes (VIPs) e séries de TV e Kika Oliveira e Walderrama dos Santos, atores da Fábulas Negras Produções. O casal mais gore do cinema nacional, o Luis da Machadinha e Raquel do filme “Mangue Negro”.  Foi um prazer trabalhar com esse pessoal e pretendo continuar agregando novos parceiros, de acordo com a proposta do filme, mas sem descartar nunca o grupo com quem venho trabalhando ha tantos anos.

Baiestorf: Teus primeiros filmes foram projetos de faculdade, certo?

Caetano: Eu fiz curso de Rádio e Tv, mas meus professores, em grande maioria já tinham trabalhado no cinema e teatro, por isso tive praticamente aulas de cinema. O que me ajudou bastante também, é que durante o curso de Rádio e TV, fiz em paralelo, um curso de teatro, a fim de entender melhor a arte de atuação, e por fim, acabei tomando gosto e atuo nos filme até hoje.

Baiestorf: Como era sua relação com os colegas e professores na faculdade, já que na maioria das vezes faculdades ficam somente na teoria e não na prática?

Caetano: Bom, não esperei a faculdade para começar a realizar meus filmes. Meu primeiro curta pronto foi o Afrodite, que fiz com a Mariana Zani e o Danilo Baia, de uma forma bem improvisada. O mais legal é que a gente exibiu o curta na faculdade (quase que clandestinamente) num evento que estava tendo, não me lembro do quê, e fez o maior sucesso entre os alunos, foi engraçado. Era a primeira vez que eu sentia o gosto de ver meu filme sendo assistido por outras pessoas, uma sensação indescritível até hoje. Nós da RZP éramos meio que um grupo fechado, pois a maioria dos alunos do curso tinham outras aspirações e temas mais sérios, e nós, sempre íamos para as vertentes do cinema de gênero, mas sempre tivemos uma relação muito boa com todos, cada um na sua. Mas foi uma boa época, onde pude experimentar muito, sem medo de errar, sempre defendendo minhas idéias, por isso aprendi bastante.

Baiestorf: Fale sobre “Afrodite”, seu primeiro curta:

Caetano: O “Afrodite” foi gravado depois do “Dupla Surpresa”, mas finalizado antes, pois não tinha muitos efeitos especiais. Foi uma tentativa de fazer um drama, mas que acabou saindo com sangue demais para ser classificado assim. Queríamos impressionar um professor que curtia Nelson Rodrigues e coisas do tipo, foi o máximo que cheguei desse tipo de narrativa. O filme é sobre um cara que procura desesperadamente algo que sua esposa escondeu, descobrimos que ele a traiu e que ela então está se vingando. Por fim, tem uma surpresa muito sangrenta. Foi um curta feito com uma câmera Hi-8 do Danilo Baia, uma luz pendurada numa escada dobrável, um pepino, uma faca de cozinha, uma caixa de fósforos e dois atores, eu e a Mariana. Nem me lembro quanto tempo demorei para escrever o roteiro, foi tudo feito no improviso, acho que nem usei storyboard. Gravamos em um dia e editei no computador sem trilha nem nada, só diálogos.  Como disse anteriormente, ele foi exibido na faculdade e serviu de incentivo para outras produções de alunos, achei isso bacana.

Baiestorf: “Afrodite” teve distribuição? Foi exibido em festivais?

Caetano: Ele foi exibido somente na faculdade, depois coloquei na internet, quem quiser assistir é só acessar a página da Recurso Zero Produções no YouTube.

Baiestorf: “Dupla Surpresa”, de 2002, é um bom “fanfilm”. Como surgiu a idéia de fazê-lo?

Caetano: Quando comecei a fazer faculdade, pesquisei sobre filmes independentes, e a primeira coisa que procurei, por ser muito fã na época, foi filmes do universo de “Guerra nas Estrelas”. Descobri que havia centenas de fanfilms e isso abriu um universo de possibilidades para mim. Na época, nunca tinha imaginado que era possível fazer filmes com efeitos especiais como sabres de luz em casa, isso foi algo totalmente mágico pra mim. Decidi então estudar sobre o assunto, e aprender as técnicas usadas por essas pessoas. Fiz vários testes em casa, eu tinha uma câmera VHS velha e uma placa de captura que comprei usada na Santa Efigênia, a câmera só gravava em preto e branco sem som, mesmo assim serviu para esses testes iniciais, onde aprendi muito sobre After Effects, Studio Max 3d e outros softwares de edição e sonorização. Logo depois, os alunos da minha sala de RTV decidiram fazer uma vaquinha para alugar equipamentos e gravar alguns curtas em um fim de semana, não deu outra, escrevi o roteiro de “Dupla Surpresa” e gravei no estúdio da faculdade, num fundo verde (chroma key). A edição desse curta demorou mais ou menos 6 meses, pois tive que capturar todo material na faculdade, copiar em cds, levar para casa, criar os efeitos dos sabres de luz quadro a quadro, criar o fundo virtual (grande parte peguei “emprestado” de modelos 3D do filme mesmo), animar as naves de fundo, editar e sonorizar em um computador com processador Pentium 160 MHZ (que já era obsoleto na época), que demorava dias para renderizar minutos de trabalho. No fim, apesar de não ter ficado perfeito, o curta foi exibido na faculdade e fez sucesso entre os alunos que como eu, viram que era possível fazer filmes de ficção científica, mesmo sem muitos recursos. Ainda gosto de Star Wars, mas não sou tão fanático, acho que fazer esse filme , o “Dupla Surpresa”, me ajudou a seguir em frente e procurar outras inspirações, como o trash e o terror por exemplo.

Baiestorf: “Dupla Supresa” ganhou vários prêmios, algo habitual em sua carreira. Você faz os filmes pensando em ganhar prêmios?

Caetano: O “Dupla Surpresa” não ganhou tantos prêmios assim, somente prêmios de um festival acadêmico. Na verdade o fiz por gostar mesmo desse tipo de filme, e para aprender a fazer efeitos especiais e composição usando programas de computador. Quando escrevo os filme a última coisa que penso é em prêmios. Sempre me preocupo em fazer uma boa história, e esse é sempre o meu maior objetivo. Acho que esse lance de ganhar prêmios é importante, pois indica que meu trabalho vem sendo reconhecido, mas de maneira alguma tem como prever isso, se fosse algo tão preciso assim, seria matemática, não arte!

Dupla Surpresa (2002).

Baiestorf: Você também já experimentou no campo da animação com os curtas “Onde há Fumaça” (2003) e “Bruma” (2005). Como esses curtas foram concebidos? E como você fez para realiza-los com orçamento zero?

Caetano: “Onde há fumaça” é um curta em stop-motion usando recortes de jornais e revistas, que fala dos males que assolam a humanidade, como drogas, religião, guerra etc. Foi feito meio que sob encomenda para um evento que aconteceu na faculdade e só foi exibido por lá. Gravei em estúdio, com luz e equipamento profissional em apenas um dia. Gosto muito de stop-motion, penso em voltar a usar essa técnica futuramente. O curta “Bruma” foi feito em 2005, um ano depois do término da faculdade. Eu estava meio sem produzir nada, e decidi fazer algo que poderia realizar sozinho. Já tinha usado esse personagem no trailer falso “Heróiz com Z de Brazil”, e decidi fazer um HQ.  Gostei tanto do resultado que decidi fazer um curta animado do “Bruma” nos mesmo moldes das animações da Marvel (Thor, Hulk, Capitão América e Homem de Ferro) da década de 1960, usando uma técnica que consistia em capturar os frames dos HQs e depois transforma-los em animações com o mínimo de movimentos possíveis. Era um estilo que fez muito sucesso na época, e no fim, gostei do resultado dessa técnica para meu curta. Foi uma boa experiência, que viria a ser útil, pois voltei a usar animações no filme “Minha Esposa é um Zumbi” no ano seguinte.

Baiestorf: E a recepção do público como é quando assistem suas animações?

Caetano: “Onde há fumaça” é só um curta experimental, mas me lembro que as pessoas gostaram na época. O “Bruma” faz sucesso devido à animação e o traço, mas não agrada muito no roteiro e locução (que fiz precariamente num microfone de computador). Acho  ambos  trabalhos válidos como aprendizado e desenvolvimento da técnica, mas os roteiros não considero dos meus melhores.

Baiestorf: Fale um pouco sobre seu trabalho como ator? Em 2003 você trabalhou no filme “Véio Mentiroso” e pós 2010 você aceitou vários trabalhos como ator em filmes de outros diretores.

Caetano: Além de “Véio Mentiroso”, interpretei mais papéis em filme de terceiros, como “O Tormento de Mathias” do diretor Sandro Debiazzi, “Morte e Morte de Johnny Zombie” de Gabriel Carneiro e o longa “A noite do Chupacabras” do Rodrigo Aragão. Normalmente procuro ler bastante o roteiro e entender as motivações dos personagens. Gosto de saber como o diretor vê esse personagem, e para isso costumo conversar até entender essa visão e poder integrá-la a minha. Feito isso, o resto é ensaio. O que gosto de fazer é imaginar que estou numa grande brincadeira de faz-de-conta, em alguns momentos mais densos, procuro intensificar mais a minha imersão nesse mundo criado pelo roteirista, mas no geral, eu apenas ligo a tomada e o personagem aparece. Claro que isso depende do quanto ele exige em termos de texto e profundidade, por isso, procuro estudar cada papel de acordo com a sua proposta, sempre respeitando e dando prioridade a visão do diretor.

Baiestorf: Ainda não vi teus curtas “Trabalhador” (2003), “Trailer Heróiz com Z de Brazil” (2004) e “Despedida” (2005). Fale um pouco sobre eles:

Caetano: “Trabalhador” era pra ser um exercício de iluminação na faculdade que aproveitei para fazer um curta. É uma homenagem a Charles Chaplin em tempos modernos, um curta que mostra como o cotidiano de um trabalhador pode ser desgastante e cruel. O destaque do curta é a ótima interpretação de Danilo Baia no personagem título. O Trailer “Heróiz com Z de Brazil” era pra ser um curta, com os mesmo personagens de “O assassinato da Mulher Mental”, mas o roteiro que escrevi na época era totalmente sem pé nem cabeça, para não perder a viagem fiz um trailer falso, sem saber que viraria um filme no futuro. Já “Despedida” é meu curta de formatura da faculdade de RTV. É uma história de amor e fantasmas. Foi a primeira vez que trabalhei com terror sobrenatural. Mais uma vez, me reuni com Mariana Zani e Danilo Baia, fizemos uma produção respeitando todos os passos propostos em sala de aula, e nesse sentido foi muito interessante, apesar de ser uma produção pequena, foram seguidas todas as regras de um filme profissional, e o resultado ficou bem satisfatório. Os três curtas citados acima estão no YouTube, quem quiser conferir é só acessar o canal da Recurso Zero Produções.

Baiestorf: E eles tiveram boa recepção do público?

Caetano: O “Trabalhador” ficou em segundo lugar no júri popular em um festival acadêmico. O Trailer “Heroiz com Z de Brazil” está na internet desde que foi feito, não tem muitos acessos, acabei não divulgando muito, foi só uma brincadeira na época, já o “Despedida” foi exibido no I Cinefantasy, não sei a aceitação do público pois não estava lá na ocasião, foram curtas que fiz e coloquei logo na internet sem pretensão ou divulgação. Esse último é o mais visto na internet, nada demais, mas tem boas avaliações.

Baiestorf: Acho que tua carreira tem 2 fases: Joel estudante, onde você estava experimentando as ferramentas que tinha à mão, e Joel pós-estudante, quando você começou a aplicar com maior segurança tudo que aprendeu com as experiências anteriores. Creio que o teu ótimo curta “Minha Esposa é um Zumbi” (2006) é o divisor dessas 2 fases. Fale um pouco sobre a produção do curta “Minha Esposa é um Zumbi”:

Caetano: Em 2006, eu já havia terminado a faculdade havia 2 anos e não conseguia emprego na área, somente alguns trabalhos esporádicos como editor e cinegrafista. Sempre pensei que se produzisse algo bom, serviria como uma vitrine do meu trabalho e com isso conseguiria algum êxito profissional (o que aconteceu logo depois), mas eu precisava ser visto. Fiquei sabendo de um festival de cinema fantástico que aconteceria em Ilha Comprida, no litoral de São Paulo (que mais tarde mudaria para a capital com o nome de Cinefantasy) e decidi fazer um filme para me inscrever. Nessa época, eu estava imerso nos filmes trash (que maneira de começar a me mostrar para o mercado hein), me deliciando com zumbis, monstros do espaço e toda gama de absurdos deliciosos que só esse tipo de filme pode nos propiciar. Percebi que o terror não precisava ser somente assustador, poderia ser nojento e engraçado. Filme como “Fome Animal”, “Evil Dead” e outros voltavam, com força total, não só como entretenimento juvenil, mas como uma forma de inspiração. O ponto crucial desse despertar para o terror com elementos de comedia aconteceu quando vi o filme, “Todo mundo quase morto” (“Shaun of the Dead” de Edgard Wright). Vi nesse filme, toda a magia dos clássicos filmes de zumbis, mas com uma dose “cavalar” de humor negro, tudo o que eu queria fazer, mais uma vez a inspiração veio de bons e simples exemplos. Decidi então fazer meu próprio filme de zumbi, com terror, comédia e tudo que tinha direito, só tinha um problema… Como eu ia conseguir fazer uma invasão de zumbis quando nem conseguia atores para encenar um curta simples com poucas pessoas. O “pulo do gato” foi pensar na produção ao contrário (coisa que faço até hoje), ver o que tinha em mãos e escrever uma história a partir disso. Bom, eu não poderia ter muitos zumbis, então decidi usar apenas um, ou uma, no caso a Mariana. Já que tínhamos acabado de casar, pensei em ela ser minha esposa mesmo no filme, ia facilitar na interpretação. Logo depois chamei sua mãe que fez o papel de sogra mesmo e o Danilo, que era o melhor amigo de Tonho, meu personagem. Foi também a primeira vez que trabalhei com Luiz Carlos Batista, meu sogro, e como eu sabia que ele era mais experiente ator do grupo, lhe dei um papel de cientista que cria a fórmula de zumbificação. A doutora Melissa, foi interpretada por uma amiga da Mariana chamada Adriana, que foi chamada no dia mesmo. Ela nem era atriz (e desistiu de tentar depois de trabalhar conosco), mas isso foi ótimo para o caráter cômico do personagem. Com todos os elementos em mãos escrevi o roteiro, com intenção de fazê-lo com o máximo de piadas possíveis e ganchos estapafúrdios. Eu parti da premissa de que se não pudesse fazer o melhor, faria o pior filme possível! Gravamos tudo em uns 4 fins de semana, e a edição durou um mês mais ou menos. Durante as gravações, pedi aos atores que interpretassem o mais exagerado que conseguissem, eu queria algo caricato mesmo, próximo do humor físico que citei gostar tanto nas respostas anteriores. Terminado o filme, mandei para o Cinefantasy (que aconteceu em 2006), mas não fui assistir, pois era longe e eu trabalhava muito na época. Para minha surpresa, “Minha Esposa é um Zumbi” ficou em primeiro lugar no júri popular, algo inusitado, visto a forma despretensiosa como foi realizado. “Minha Esposa é um Zumbi” me despertou para o mundo de festivais, que até então eu não via a possibilidade de participar. A partir desse filme, comecei a mandar meus trabalhos para esses eventos cuja importância está na possibilidade de se difundir o cinema de gênero pelo país. O curta também foi escolhido para fazer parte do livro “Cinema de Bordas II”, num capítulo chamado “Minha esposa é um zumbi e a mistura de gêneros de Joel Caetano”,  escrito pelo professor e pesquisador Rogério Ferraraz, que fala do meu trabalho e faz uma análise do filme. Esse filme acabou tomando o status de cult entre algumas pessoas, e é citado como um dos 5 filmes mais importantes para se entender o trash nacional, título que ostento com muita honra.

Baiestorf: Gosto do senso de humor que você imprime nos teus filmes, como o público reage a ele?

Caetano: Normalmente assistir meus filmes com o público é muito divertido. A sala fica totalmente inquieta com os absurdos na tela. O mais engraçado é que as pessoas comentam durante o filme, riem, se assustam, ficam indignadas e em alguns casos até chocadas, é quase como ir a um circo, onde as pessoas se sentem à vontade para se divertir e jogar pipocas no palhaço.

Baiestorf: “Minha Esposa é um Zumbi” foi lançado comercialmente? Você acredita que filmes undergrounds possam ter carreira comercial em cinema e lançamento em DVD?

Caetano: No passado, fiz algumas tentativas com distribuidoras para lançamento de uma coletânea sem sucesso. Hoje acredito em um mercado paralelo, underground mesmo, criado pelos próprios realizadores. Temos que nos unir cada vez mais e fortificar nosso mercado, que é muito segmentado mas existe, só precisa ser explorado de uma forma mais profissional. É muito cedo para se falar numa indústria de filmes de gênero no Brasil, mas existe esse nicho de mercado que tem uma enorme carência de material e que deve ser alimentado, hoje podemos nos gabar de ter diversos produtores independentes que fazem filmes cada vez mais profissionais, sem precisar de apoio do governo, e que podem suprir a necessidade de demanda desses consumidores, o que falta é organização.

Baiestorf: Como surgiu a idéia para a produção de “Junho Sangrento” (2007)?

Caetano: “Junho Sangrento” era uma tentativa de fazer uma sessão dupla de filmes, com trailers falsos (tipo Grindhouse do Tarantino/Rodrigues, cineastas que também adoro), que infelizmente só funcionou pela metade. Escrevi dois roteiros, o “Junho Sangrento e o “Carne Mutante Zumbi do Espaço” e reuni uma galera para passar o fim de semana no sítio de um casal de amigos. Tinha umas 15 pessoas (foi a maior equipe que liderei), e todos trabalhavam por churrasco, cerveja e diversão. No primeiro dia, gravamos algumas cenas do “Carne Mutante” e ao cair da noite decidimos gravar o “Junho Sangrento” até o fim, pois se passava durante o período noturno. Gravamos tudo com sucesso, mas ao terminar, na hora de tomar banho para dormir, descobrimos que a água da região havia acabado, e isso aliado ao cansaço, minou todas as possibilidades de gravar o outro curta no domingo. No fim, editei o “Junho Sangrento”, e juntei a um trailer falso que a Mariana tinha gravado no começo da faculdade o “Jogando com Espíritos”, que nunca tinha sido editado.  Gravei também mais algumas cenas do “Carne Mutante Zumbi no Espaço” no chroma mesmo e fiz um trailer falso (que na minha opinião é a melhor coisa do filme), juntei tudo e o filme ficou pronto. É um filme meio picareta, mas acho divertido pela cara-de-pau desse que vos fala de ter lançado algo desse tipo!

Baiestorf: Rolou algum problema durante as filmagens do “Junho Sangrento”? Acho este curta bem confuso.

Caetano: O nosso problema foi a falta de água e a dificuldade de se filmar um curta com tanta gente em apenas uma tarde e uma noite. Por isso abdicamos de várias cenas e efeitos. Tudo foi gravado com muita pressa, felizmente deu pra montar no final, mas foi só isso mesmo.

Método de trabalho de Joel Caetano.

Baiestorf: E os trailers falsos que tem no “Junho Sangrento”, fale sobre a idéia de fazê-los. Algum pode virar um filme?

Caetano: Ainda tenho o roteiro de “Carne Mutante Zumbi do Espaço”, que quem sabe um dia, possa vir a filmar, só espero que faça jus ao trailer, que acho muito divertido.

Baiestorf: Algo que acho fantástico nos teus curtas é sua habilidade de filmar num único cenário, na maioria das vezes dentro de seu próprio apartamento, como foi com seus curtas “Gato” e “Estranha”, sobre os quais falaremos mais adiante. Como é isso de filmar, na maioria das vezes, num único cenário? É uma opção estética ou uma necessidade?

Caetano: Depende do caso! O “Minha Esposa é um zumbi” foi feito em casa por não haver outra alternativa, mas o “GATO” por exemplo, achei o apartamento ideal para a história, nem pensei em outro lugar. No caso do “ESTRANHA”, eu usei mesmo por conveniência, pois teria os atores convidados Kika Oliveira e Walderrama dos Santos por pouco tempo, então seria mais fácil, até porque eles estavam hospedados aqui em casa. Tenho diversos roteiros que se passam em outros locais, acho que devo aposentar meu apartamento, mas “nunca diga nunca”!

Baiestorf: Nos últimos anos você fez 3 filmaços como diretor/roteirista, fazendo um curta por ano. É importante para você realizar um filme por ano? Como é o planejamento dos teus filmes?

Caetano: Eu tento manter essa constância, até para não “enferrujar”! Normalmente tenho a idéia e  escrevo o roteiro num período de um mês. Depois me junto com a Mariana e fazemos a pré-produção e cronograma. Os filmes que fiz até hoje foram gravados rapidamente, nos fins de semana.  Normalmente começamos na sexta à noite e gravamos até domingo de madrugada (com devidas pausas para dormir, comer,  etc), gosto de deixar o dia de domingo livre para descanso, pois ninguém é de ferro! Terminada as gravações vou para a edição, esse processo pode demorar de um a seis meses, dependendo da minha disponibilidade e do filme em questão. Minha idéia agora é fazer os filmes com mais tempo e profissionalismo, graças a projeção de meus trabalhos, tenho a possibilidade de agregar mais pessoas à equipe, sem contar que a partir de agora, tenho a responsabilidade de me superar nas produções, e esse é um desafio muito interessante e inspirador.

O Assassinato da Mulher Mental.

Baiestorf: “O Assassinato da Mulher Mental” (2008) é um ótimo exemplo de como fazer um filme cheio de efeitos visuais com orçamento quase zero. Como é a concepção dos efeitos visuais dos teus filmes?

Caetano: Sempre achei que os efeitos especiais devem servir à narrativa e não o contrário, então, só os uso se há necessidade dramática na cena, não gosto de fazer histórias calcadas nos efeitos e sim o contrário. Na época da faculdade, estudei muito sobre isso, o título de minha monografia de conclusão de curso é “O uso dos efeitos especiais no cinema de Ficção Cinetífica” para você ter idéia. Para conseguir realizar tudo isso sem dinheiro é importante estudar bastante sobre o assunto. Existem alternativas simples que dão ótimos resultados se você tiver uma tela verde para colocar o ator na frente, é importante dominar a técnica, mas e mais importante ainda, entender conceito  e quando é o momento certo de se aplicar os efeitos especiais.

Baiestorf: “O Assassinato da Mulher Mental”  pode virar uma série? Como o público reage a ele? Pergunto isso levando em conta que o público deste tipo de filme, super-heróis, está acostumado com super-produções onde os efeitos visuais custam verdadeiras fortunas.

Caetano: Eu escrevi “O assassinato da Mulher Mental” inspirado em tudo que eu já havia visto em matéria de histórias em quadrinhos. Por ler muito esse tipo de material, sempre sonhei em ver super-heróis brasileiros, mas não aquelas paródias tipo “Casseta e Planeta”, algo menos imbecil ou ingênuo, que tivesse uma certa consistência, mas que também fosse divertido. Eu fiz esse filme pensando nessa minha carência e sabendo que outras pessoas, no Brasil também queriam ver algo do tipo. Não queria uma história convencional de heróis que salvam mocinhas de vilões maquiavélicos, por isso, criei personagens, que apesar de seus poderes e serviços a humanidade, são falhos e decadentes. O resultado foi bem interessante, nos eventos que exibi, percebi que é um filme que faz muito sucesso com as crianças (apesar de ter um ou dois palavrões) e que, quem gosta de quadrinhos, se diverte com as muitas referências que coloquei, desde as mais óbvias como a foto onde o Hiper-Homem segura uma Rural (emulando a capa da Action Comics número 1, onde o Superman aparece pela primeira vez) até as situações cômicas e diálogos rápidos como os da “Liga da Justiça Internacional”, que gosto muito. Tive várias críticas positivas, em uma delas, o filme era comparado ao “Watchmen” (cujo a HQ é uma das minhas referências para o filme) de Zack Snyder, me divirto com isso, acho que o filme cumpriu sua proposta de divertir e transportar quem assiste para esse universo cheio de reviravoltas, personagens que voltam da morte, heróis pomposos e vilões absurdos que permeiam as histórias em quadrinhos.

Baiestorf: Você trabalha como técnico de efeitos visuais se algum produtor te convidar? Como seria isso?

Caetano: Não tive essa proposta ainda, se rolar, vou analisar para ver se é algo que eu possa fazer. Se sim, trabalharia sem problema algum.

Baiestorf: Como um curta de orçamento baixíssimo deve ser planejado quando elaborado prá ter inúmeras cenas com efeitos visuais?

Caetano: Acho que você deve primeiro pensar em o que você é capaz de fazer bem. Estudar bastante a técnica e testar. Já ocorreu comigo de ter idéias que achei que poderia executar, mas no final, não deram certo. É muito frustrante. O seu filme deve ser do tamanho de sua capacidade, assim, você aprende a cada trabalho e vai aperfeiçoando com o tempo. Planejamento é uma das coisas mais importantes na hora de se realizar um efeito especial, mas deve-se estar seguro do que está fazendo, e essa segurança, só vem com muitos testes.

Baiestorf: Você e a Mariana realizam oficinas de vídeo, como são essas oficinas?

Caetano: Nós trabalhamos o conceito da idéia como principal instrumento de um filme, e que essa idéia, sendo um filme de baixo orçamento, deve ser desenvolvida a partir do que se tem em disponível, tanto de equipamentos quanto de pessoas. Vamos desde a concepção dessa idéia e roteiro, até a produção e finalização de um curta dentro desses preceitos. A última oficina que ministramos foi na “Mostra de Cinema de Bordas” esse ano, onde dividimos a sala em dois grupos que produziram um curta cada um. Foi uma grande proeza, visto que muita gente sai da faculdade de cinema sem produzir quase nada e esses grupos, usando os preceitos da produção independente, conseguiram finalizar dois filmes em apenas 3 dias, com qualidade técnica e narrativa muito interessante. O mais importante é abrir as portas da percepção das pessoas, de que é possível produzir com qualidade e baixo recurso, basta ter criatividade e saber usar o que se tem em mãos da melhor maneira possível.

Baiestorf: Como foi a criação do “Gato” (2009)?

Caetano: Bom, antes de contar como o filme foi criado, primeiro tenho que falar sobre o “gato” ou melhor gata que participou do filme, a Cindy Lauper Maria Mancini. Essa gata foi resgatada da rua por Mariana, minha esposa, no dia dos mortos (que coincidência não?), quando ela voltava do trabalho. A bichana havia sido atropelada ou espancada, não se sabe ao certo, e estava com uma pata totalmente comprometida, que arrastava ao andar. Ao decidir pega-la, Mariana me ligou perguntando o que eu achava, e como sempre fui muito apegado aos animais, concordei e apoiei sua nobre atitude. Desde o primeiro dia que vi a Cindy, sabia que íamos ficar com ela, e depois de semanas de tratamento (e uma pata amputada), ela se restabeleceu e vive conosco até hoje. Agora vocês me perguntam por que contei tudo isso antes de falar do filme não é? Bem, é que o filme “GATO” não existiria sem a Cindy. Eu trabalho em uma produtora como editor no período da manhã, e à tarde, trabalho em meus projetos artísticos, hora escrevendo roteiros, hora fazendo a pré-produção de um filme, hora vendo e revendo referências e por aí vai. Nessas tardes, depois que adotamos a Cindy, ela passou a me fazer companhia. Ela estava sempre presente onde eu estava, quando escrevia, quando via um filme ou lia um livro, quando ia no banheiro e tudo mais. Ela têm uma característica estranha, na verdade uma mania de ficar nos encarando por horas e horas, sem um motivo aparente, parece até que entende o que falamos, é muito estranho (inclusive quem vem aqui em casa sempre fica  meio espantado com essa mania dela). Tudo isso aliado ao fato de ela ter apenas 3 patas a torna uma gata especial. Dessas observações diárias comecei a pensar o quanto ela entendia o que eu estava pensando e dando asas a minha imaginação fértil, imaginei se por acaso, um dia, ela pudesse falar, o que acharia de mim? Pronto, surgiu o primeiro “estalo” da idéia. Decidi então escrever algo sobre isso, e fui criando primeiro o personagem do homem solitário que fala com o seu gato todos os dias, e que em um dado momento, ele ouve o animal responder. A princípio, era pra ter só os personagens do homem e o gato em sua forma animal, e a comunicação seria telepática, uma loucura só. Mas fui agregando elementos para rechear essa trama, a vizinha xereta, a mulher que o abandonou, a amante que ele traz pra casa e por fim, o gato humanóide, que ao meu ver, só funcionou muito bem por causa do ator, Luiz Carlos Batista, que por meio de sua impressionante interpretação,  deu vida a esse personagem. Depois de gravado, o filme foi para o festival de curta fantástico, o Cinefantasy  que aconteceu em 2009, agora em São Paulo. O festival cresceu muito e havia filmes de todo o mundo, com grandes orçamentos e histórias fantásticas em todos os sentidos, para minha surpresa, o filme “GATO” ganhou o júri popular daquele ano, fiquei muito impressionado com o resultado! A partir daí, o filme participou de 17 festivais, ganhando 5 prêmios nacionais e um internacional, o de Melhor Curta Metragem Latino-americano no Montevidéu Fantástico 2010. O filme ainda continua sendo exibido em  mostras  e festivais por aí. Moral da história, a Cindy pagou em dobro todo o carinho que tivemos por ela, pois se não a tivéssemos resgatado, esse filme, que hoje é o nosso maior sucesso, não teria sido realizado.

Baiestorf: A maquiagem da personagem do filme “Gato” foi criada por você? O que você utilizou para confeccioná-la?

Caetano: A maquiagem foi feita por mim sim. Sempre tive vontade de fazer esse tipo de maquiagem, mas achava meio distante, pois só via coisas assim em filmes de hollywood ou grandes produções. Foi então que assisti o filme “Mangue Negro” do Rodrigo Aragão. Vi que o cara fazia esse tipo de maquiagem aqui no Brasil, e que funcionava tão bem quanto as de fora. Comecei a pesquisar, e achei vários tutoriais na internet e fiz alguns testes. Como sou louco pela maquiagem do filme “O planeta dos Macacos” o primeiro teste que fiz foi uma máscara de símio, parecida com as do filme. O resultado não ficou muito satisfatório, mas percebi que com treino, poderia fazer melhor. Então, durante as gravações, eu fui fazendo a máscara, tirei o molde do rosto do ator, fiz um positivo de gesso, modelei a máscara do gato, fiz um negativo disso, usei látex para fazer a máscara, e depois finalizei colando pêlos (de um tecido sintético que comprei na 25 de março, uma rua de bugigangas aqui em São Paulo), para dar o toque final, colei piaçava (nem sei se á assim que se escreve) de vassoura para fazer os bigodes. Um processo totalmente artesanal, que finalizei com uma capuz peludo que cobria o resto da cabeça, e um chapéu de porco, que cortei o nariz e revesti as orelhas de pelo para parecerem de gato. O resultado foi o que todos viram na tela.

Baiestorf: Conte-me, por favor, como foi filmar com sua gatinha de verdade? Adoro felinos de todos os tipos, mas nunca tive paciência de filmar com os bichanos. Foi difícil?

Caetano: A Cindy, como disse, foi uma maravilha do começo ao fim. Tudo que fizemos com ela foi rápido, pois ela é muito esperta. Costumávamos gravar as cenas sem ela perceber e encaixamos tudo no filme de acordo com a necessidade. Cenas mais complexas como a da janela, usei um brinquedo que ela gosta escondido em minha mão, eu balançava e ela vinha naturalmente, gravamos essa cena em apenas 4 takes, com um pra garantir no final. A Cindy tem uma gratidão muito forte por nós, por isso ficou fácil fazer tudo, não forçamos ela à nada. Até a cena do banheiro, onde parece que o personagem principal está estrangulando o gato, foi tranqüilo, pra ela tudo não passou de mais uma brincadeira e em momento algum a forçamos ou machucamos de alguma forma, ela é nossa estrela!

Baiestorf: Teve um importante festival de cinema fantástico aqui no Sul do Brasil que se recusou a exibir “Gato”, dizendo que ele era uma produção amadora. O que você pode falar sobre este episódio?

Caetano: A seleção ou não em alguns festivais depende muito do critério de avaliação de cada um deles e eu respeito isso. Infelizmente não pude participar de alguns festivais, mas entrei em outros, que ao meu ver, conseguem entender a diferença entre um filme amador à um filme de baixo orçamento. Felizmente tive a oportunidade de exibir meus curtas em Porto Alegre, tanto o  “GATO” quanto a “ESTRANHA” em mostras como “A vingança dos Filmes B”, organizada pelo também cineasta (e companheiro de cena em “A noite do Chupacabras”) Cristian Verardi, e fico muito feliz por isso, pois o público teve a oportunidade de ver os filmes, e isso é o que importa no final. É normal não entrar em alguns festivais que normalmente achamos que seríamos aceitos, como é normal também entrar em outros que nem esperamos, não dá pra agradar todo mundo e nem espero que isso aconteça, por que senão ia ser um saco. O mais interessante é que essas barreiras de pré-conceito vêm sendo quebradas pois o filme “GATO” foi exibido em alguns festivais importantíssimos que não são sequer de de gênero, como o Festival de Curtas de BH e o Cine Amazônia, e o internacional Piriápolis de Película no Uruguai, isso é uma vitória não só para mim, mas para todos que fazem e curtem cinema de gênero no país.

Baiestorf: Acho que seus últimos curtas mereciam lançamento comercial. Você tentou  negociar com alguma distribuidora ou tem planos de lançar alguma coletânea de curtas de forma independente mesmo?

Caetano: Eu já tentei lançar os antigos, esses novos ainda não, mas pretendo futuramente fazer isso, seria muito bom poder ter um DVD oficial dos filmes, preciso começar a me organizar quanto a isso!

Baiestorf: E exibição em TV, já teve alguma proposta?

Caetano: Comecei a pensar nesse tipo de coisa mais recentemente e pretendo em breve, poder oferecer esse material tanto para emissoras de TV quanto para distribuidores.

Baiestorf: O que é o “Wonderlandigital”?

Caetano: Foi um curtinha que fiz com a Mariana num fim de semana que não tinha nada pra fazer, foi só pra testar a capacidade de uma filmadora que havia comprado na época.

Baiestorf: Percebo que após 2009 você aceitou vários trabalhos como ator, como é isso?

Caetano: Eu gosto de atuar, mas não pensava em fazer filmes de outras pessoas, já estava feliz em poder fazer meus próprios filmes. Foi então, que fui a um evento chamado CineTerror na Praia II, em Guarapari, Espírito Santo, onde estava passando uma retrospectiva da RZP, do “Minha Esposa é um Zumbi” até o “GATO”. Essa mostra foi organizada pela Fábulas Negras Produções, do diretor Rodrigo Aragão. Chegando lá fui muito bem recepcionado por todos e o Rodrigo, junto com a Mayra (atriz, produtora e esposa do Rodrigo), me disseram que tinham escrito um papel para mim no próximo filme, “A noite do Chupacabras”, fiquei surpreso e feliz, e mesmo sem ler e nem saber nada sobre o tal papel, aceitei na hora, primeiro por ter feito uma grande amizade por todos lá do Espírito Santo, depois, por admirar o filme “Mangue Negro”, que ao meu ver, é um divisor de águas no cinema de terror nacional.  Era uma grande oportunidade  de trabalhar e aprender com esse grupo muito talentoso de pessoas, lideradas pelo Rodrigo. O papel foi maior do que eu esperava, e aprendi e me diverti muito nesse processo todo, foi um sonho de infância realizado. Depois de participar de “A noite do Chupacabras”, recebi alguns convites, uns tive que recusar, por não ter tempo, ou não terem muito haver com meu perfil, e outros aceitei como a ponta no filme “O Tormento de Mathias” de Sandro Debiazzi, filme que gosto muito e tenho orgulho de ter participado e “Morte e Morte de Johnny Zombie” de Gabriel Carneiro, a quem respeito muito e acho um novo diretor que ainda vai dar o que falar, pois é muito profissional e talentoso.

Baiestorf: Como foi ser dirigido pelo Rodrigo Aragão, que, na minha opinião, é o mais significativo diretor de filmes de gênero surgido no Brasil nos últimos 20 anos. Como rolou o convite?

Caetano: O personagem Douglas Silva, foi um presente maravilhoso e interessante e que adorei interpretar. Trabalhar com o Rodrigo é muito bom, além de todo aspecto técnico, todos trabalhavam o tempo todo com o sorriso no rosto, por amarem o que estavam fazendo, é uma equipe muito apaixonada e apaixonante. O Rodrigo é um cara muito inteligente e focado no que está fazendo, e ele tem uma característica muito boa que é conseguir juntar bons profissionais com uma maneira de agir, caráter e determinação iguais a sua e isso facilita tudo. Conversamos muito sobre o personagem antes das gravações e a medida que íamos fazendo as cenas, ele ia apontando algumas modificações que queria, até um ponto que eu já estava totalmente imerso no universo criado por ele no filme e isso foi ótimo. Considero minha participação em “A noite do chupacabras” um grande aprendizado em todos os sentidos, pois pude acompanhar de perto e participar efetivamente de todo o processo (menos da finalização), desde atuar, até ajudar na produção, construção de cenário, máquina de fumaça (o pior trabalho desse set), ver o processo de maquiagem (onde aprendi muito também) entre outras coisas mais, para mim, foi tudo uma grande diversão. Quando atuava, me sentia como na infância, naqueles mundos que criava em minha cabeça, e isso só foi possível de ser realizado por causa desse maravilhoso convite, por isso agradeço muito ao Rodrigo Aragão e a toda sua equipe que me acolheu como um dos seus, hoje me considero um capixaba de coração.

Baiestorf: E sua participação nos filmes “O Tormento de Mathias” (2011) e “Morte e Morte de Johnny Zombie” (2011). Conte como foram as filmagens destas produções:

Caetano: Conheci o diretor Sandro Debiazzi, de “O tormento de Mathias”, em uma das edições da Mostra de Cinema de Bordas em São Paulo. Ele se apresentou, dizendo que tinha visto alguns de meus filmes e que tinha gostado, e que estava com uma idéia de escrever uma dissertação de mestrado falando sobre meu trabalho. Quando ele disse isso, achei que estava “tirando uma” com a minha cara, uma dissertação de mestrado sobre meu trabalho, só podia ser brincadeira (apesar de já terem escrito um capítulo no livro “Cinema de Bordas II, sobre o filme “Minha Esposa é um Zumbi”, vejam como boto fé em mim mesmo rs). Um belo dia, em uma conversa com outro grande diretor independente chamado Felipe M. Guerra, fiquei sabendo que o tal Sandro também o havia abordado, e que o negócio era sério. Logo depois, ele me mandou um e-mail, falando sobre a tal dissertação, e claro que prontamente atendi todas as suas solicitações, pois me senti muito honrado em ser objeto de estudo de um trabalho tão importante. Desde então, eu e Sandro fizemos uma boa amizade, ele terminou sua dissertação denominada “Que horror é esse”, onde analisou o meu trabalho cineasta, o do Felipe M. Guerra e o dele mesmo, sob o pseudônimo de Thitus André. Sobre isso, fiquei sabendo que Sandro vinha gravando um filme à mais ou menos 20 anos, chamado “O Tormento de Mathias”, e que estava com vontade de finalizar. Ele falou comigo sobre o assunto e disse que muita gente o havia persuadido a finalizar sua obra, e eu, fui um dos que incentivei também, alegando que esse tipo de coisa pode se tornar “a maldição da punheta eterna” (termo que roubei do Rodrigo Aragão), onde você nunca chega ao ápice final que é o gozo de se terminar um filme e jogá-lo na face do espectador! Sandro começou a filmar as partes que faltavam e chamou o Felipe M. Guerra para participar como ator, uma escolha totalmente apropriada, pois sua participação é impagável no filme. As cenas que foram gravadas em VHS no passado, serviriam de flash back, uma tirada genial do diretor. Com quase tudo gravado, Sandro decidiu me chamar para fazer uma pequena participação como ator da cena de abertura do filme. Não tinha como negar, participar de algo tão interessante quanto esse filme, que só pelo fato de ter sido filmado em 20 anos, já se torna cult. No filme, interpreto o Dr. Dantas, um médico que usa meios nada convencionais para controle de doentes mentais. Gravamos tudo numa noite, muito rapidamente, mas gostei bastante do resultado, o Sandro além de ter ótimas idéias e soluções para fazer filmes de baixo orçamento, é também um bom editor, o filme tem um ritmo ótimo. O Mathias já é um slasher clássico 100% nacional! Sobre “Morte e Morte de Johnny Zombie” é o seguinte. Também conheço o diretor Gabriel Carneiro de “outros carnavais”. Ele é jornalista, editor chefe da revista eletrônica Zingu e trabalha na Revista de Cinema. Em 2008, quando lancei o curta “O assassinato da Mulher Mental”, ele me entrevistou para a Revista Zingu, numa série de entrevistas que fez com vários diretores independentes (inclusive o Sr. Petter Baiestorf). Desde então, nos encontramos em eventos e ele já escreveu algumas vezes sobre meus curtas, sempre com textos muito bem escritos e bastante críticos de forma muito lúcida e analítica. Em algumas conversas, Gabriel me confidenciou que gostaria de trabalhar em alguma produção, mas que tinha dificuldades de conseguir algo. Eu pensei em chamá-lo algumas vezes, mas acabou não rolando por causa de agendas e outras coisas. Esse ano, fiquei sabendo que Gabriel estava fazendo teste de elenco para seu primeiro curta chamado “Morte e Morte de Johnny Zombie”, até pensei em ir fazer o teste, mas acabei deixando passar por falta de tempo e por achar que talvez não fosse um papel para mim. Foi então, que para minha surpresa, durante a “Mostra de Cinema de Bordas”, Gabriel e Adriana Câmara, sua assistente de direção (e também diretora premiada com o excelente curta “1:21”) me abordaram na fila do ingresso, ele portava em suas mãos um roteiro do curta e ao me entregar, disse que tentou fazer testes com outros atores, mas que o Johnny Zombie tinha que ser interpretado por mim! Não posso dizer o quanto fiquei feliz ao ouvir isso, e é claro que aceitei na hora. As gravações do curta foram extremamente profissionais, fizemos ensaios e durante as filmagens tinha até claquete (coisa que nunca usei nos meus curtas). Por fim, Gabriel se revelou um diretor que sabe o que quer, meticuloso e extremamente perfeccionista. Acredito que o resultado final (ainda não vi a edição final do curta) será um filme de zumbis muito diferente do convencional. Por fim, deu pra perceber que aceito trabalhos motivado pelo envolvimento pessoal e principalmente pela idéia do filme. Como já trabalho com produção de vídeo profissional e ganho a vida com isso, fazer cinema tem que ser divertido e inspirador, senão não faz sentido. Vi tanto nessas propostas, uma forma de aprender e de participar de uma experiência única, por isso aceitei os papéis.

Baiestorf: Teu último filme, “Estranha”, é bem mais violento que seus trabalhos anteriores. Teremos um Joel Caetano mais sangrento nas próximas produções?

Caetano: Tenho me divertido muito com esse negócio de sangue, mas é meio imprevisível. Sou um artista caótico, muitas vezes movido pelo impulso. Pode ser que eu faça uma comédia romântica ou até um western da próxima vez, tudo pode acontecer, mas com certeza, farei mais filmes com sangue, pois me divirto muito com isso.

Baiestorf: No curta “Estranha” você contou com a colaboração dos atores Walderrama dos Santos e Kika de Oliveira, dos filmes do Rodrigo Aragão. Como rolou isso?

Caetano: Ao fazer parte do elenco de “A noite do Chupacabras”, acabei passando muito tempo no Espírito Santo (uns 40 dias se contar tudo). Logo de cara, me apaixonei pelo lugar e pelas pessoas, posso dizer que fiz grande amigos naquele lugar, que espero levar para toda a vida. Kika e Walderrama são dois exemplos, adoro os dois como amigos, mas também são ótimos profissionais. No ano de 2010, eles decidiram vir para São Paulo para participar do Cinefantasy, um grande festival de cinema fantástico que ocorre aqui na cidade. Prontamente, os convidei para ficar em minha casa e eles aceitaram. Nesse meio tempo, voltei ao Espírito Santo para gravar mais cenas do longa do Aragão, e em conversas com a Kika, ela manifestou a vontade de filmar algo com a Recurso Zero, eu é claro, adorei a idéia. Quando voltei para São Paulo, comecei a escrever o roteiro, queria algo simples, que pudesse ser gravado em apenas um ou dois dias,  com equipe reduzida. Tive então a idéia de fazer um filme só com mulheres (para aproveitar a Kika e a Mariana), que fosse bem violento e com um certo apelo sensual. Nasceu então a idéia do curta “ESTRANHA”, e quando eles vieram pra cá, gravamos tudo somente em quatro pessoas, eu dirigi e fiz câmera, fotografia, maquiagem de efeitos e direção de arte, a Mariana Zani atuou, fez maquiagem, figurino e produção, a Kika atuou e fez produção e o Walderrama (só avisei que ele tinha um papel quando estava aqui), fez microfone e atuou. Foi tudo muito divertido, e apesar de ter sido feito rapidamente (foi gravado em 2 noites e 1 dia), gostei muito do resultado final do curta.

Baiestorf: E a recepção do público com o “Estranha”?

Caetano: Está sendo muito bom. Já vi algumas vezes com o público, e são reações diferentes dos meus outros curtas que são mais engraçados. Vejo pessoas rindo de nervoso e algumas se contorcendo em algumas cenas, e por fim, o silêncio total. Sinto que o filme causa um certo estranhamento no público, que fica sem saber o que dizer nos primeiros minutos após seu término, é muito interessante. Do ponto de vista da crítica, vem sendo bem aceito, inclusive acabamos de ganhar o prêmio de Melhor Curta Profissional no ESPANTOMANIA II pelo júri técnico, é o primeiro prêmio do curta. Enviei o filme para alguns festivais que ainda estão rolando, ainda não sei totalmente qual a recepção do filme, só o tempo dirá.

Baiestorf: “Estranha” está com uma ótima qualidade de imagem, que equipamentos tu está utilizando para produzir teus filmes?

Caetano: Estou usando uma câmera DSLR, a T2I 550d. A vantagem dessas câmeras é que se pode gravar com qualidade HD e estética de cinema, por causa da possibilidade de se trocar as lentes, é uma maravilha. No mais, tento trabalhar bem a parte de fotografia, sendo bem criterioso na iluminação das cenas. Uma coisa que preciso citar que fez uma enorme diferença na finalização desse curta é a trilha, que foi feita exclusivamente para o filme pelo artista Tiago Fernando Galvão, que desenhou de forma marcante curva dramáticas e de tensão, levando ao tema do filme ao extremo de forma delicada e muito sensível, entendendo profundamente a proposta do filme.

Baiestorf: O que você pode adiantar sobre teus projetos futuros?

Caetano: Estou fazendo alguns testes com Stop Motion e tenho alguns roteiros que pretendo filmar. Eu pretendia começar a produção de um longa ainda esse ano, mas por problemas pessoais tive que adiar. Nesse momento estou na produção de um curta de um diretor amigo meu, chamado Tiago Fernando Galvão (que fez a trilha de “ESTRANHA”), ajudei ele a escrever o roteiro e estou auxiliando na concepção geral do curta, que terá uma produção muito interessante. Fui também convidado pelo Felipe M. Guerra para participar de seu novo curta, e pretendo filmar um curta também até o final de 2011.

Baiestorf: Como os interessados podem adquirir teus filmes?

Caetano: Ainda não estou vendendo, mas estou preparando alguns DVDS com material inédito para lançar entre o final desse ano ou começo do próximo! Assim que tiver novidades sobre isso lhe aviso, para que possa postar em seu blog!

Baiestorf: Que dicas Joel Caetano deixa para os novatos que queiram começar a produzir filmes?

Caetano: Façam seus filmes acima de qualquer coisa! Acreditem nas suas idéias, pois só assim podem convencer os outros. Não se prendam ao equipamento, eles são só ferramentas, vocês devem usá-los para contar uma boa história, não depender deles. No mais, se divirtam na hora de fazer o filme, isso já é meio caminho andado para seu sucesso.

RZP and Troma.

7 Respostas to “Joel Caetano e seu Cinema de Recurso Zero”

  1. Amei a entrevista!!! Isso me dá saudades de filmar com Joel, e com você também, Petter!!! Vamos criar novos projetos, novas parcerías e juntar as nossas paixões, cabeças e talentos e prol de um cinema independente, de gênero, com estilo e cara próprios… falei.

  2. Josi Giacon Says:

    Joel e Mariana estou sempre seguindo o trabalho de vocês e curtindo cheia de orgulho o sucesso deste trabalho.
    Adorei a reportagem e conhecer melhor como surgiu tanto talento.
    Casal 20….Adoro muito vocês !!!! Bjs

  3. Entrevista bem completa e cativante. Aliás, mais que uma entrevista, uma viagem dentro da arte de se fazer arte.

  4. […] que passou e-mails de alguns Cineastas que faziam Cinema Fantástico, entre eles estavam Joel Caetano e Liz Vamp Marins que foram indicando outros diretores, alguns encontrei no Youtube como o Rodrigo […]

  5. […] “Confinópolis”, dirigiu o seu próprio curta intitulado “Gentileza”, com participação de Joel Caetano (cultuado ator e diretor de filmes de horror paulista), Walderrama dos Santos, e com apoio técnico […]

  6. […] Joel Caetano e sua esposa Mariana Zani estarão ministrando uma oficina sobre como fazer filmes sem grana nenhuma em paralelo ao evento. Antes da mostra, dia 31 de julho, rola um debate no programa de TV Jogo de Idéias com participação de Kika de Oliveira (“Mangue Negro”), Dona Oldina (“Extrema Unção”), Gisele Ferran (“O Doce Avanço da Faca“), Mariana Zani (“Estranha“) e o diretor Seu Manoelzinho. […]

  7. […] em “Joel Caetano e seu Cinema de Recurso Zero” para ler a entrevista que fiz com […]

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