Talento, transgressão, excesso e decadência — A arte de Schiele

Um dos grandes nomes do expressionismo austríaco,  Schiele viveu pouco (nasceu em 1890 e morreu em 1918, aos 28 anos), mas deixou uma obra extensa e transgressora pra uma época onde a corrupção e hipocrisia eram gritantes (bem como a sociedade ainda é hoje, aliás). Depois da morte do pai, que foi considerado louco oficialmente  e morreu por causa da sífilis, Schiele ficou traumatizado e começou a sentir aversão pela mãe, culpando-a de não ter amor suficiente pelo marido.  Foi morar com um tio materno que reconheceu seu talento e o apoiou desde então.

Pintores têm sempre aquela  sensibilidade à flor da pele e aquela instabilidade  que, de um jeito louco,  acaba trazendo algum benefício, e Schiele não era diferente,  tinha uma instabilidade emocional que o ajudou no desevolvimento de sua arte.  Com 17 anos, levou sua irmã, Gertie, de apenas 13 anos e por quem ele tinha uma paixão incestuosa, à Trieste, se deslocando depois pra outros países, demostrando uma inquietação que o atrapalhava e que não o deixava establecer nada significativo em lugar nenhum, fosse no âmbito pessoal ou profissional. Isso mudou quando, contrariando as vontades da mãe que queria que ele seguisse os passos do pai e trabalhasse com ferro,   ele ingressou na Academia de Belas-Artes de Viena onde estudou desenho e pintura. Logo após, conheceu o pintor simbolista, Gustav Klimt que  o ajudou e apoiou, comprou seus trabalhos,  lhe arranjou modelos e o inseriu no mundo artístico, onde ele pôde conhecer pessoas influentes.   Embora muito próximos e sendo Klimt  seu protetor, Schiele seguiu seu caminho desenvolvendo uma arte totalmente contrária a de Klimt. Influenciado pelo lado mais obscuro da sociedade em que vivia, ele conseguiu captar a crueldade e decandência de uma época cheia de contrastes. Se por um lado havia festas nos grandes salões de arte e toda aquela euforia cultural crescente, por  outro o mundo padecia com a fome, miséria,  doenças e todo tipo de mazela que despontou na primeira guerra mundial.

Schiele, ao contrário da maioria de seus colegas, não compartilhava das mesma idéias conservadoras da academia, e acabou abandonando os estudos, criando em seguida o grupo Neukunstgruppe (que quer dizer “Grupo Nova Arte”). A partir daí começou a expressar e explorar mais o lado sexual da humanidade.

Aos 21 anos, conheceu Wally Neuzil,  uma garota de 17 anos que tinha sido modelo de Klimt. Wally serviu de modelo pra muitas obras de Schiele, algumas consideradas suas melhores, e os dois viveram juntos por muito tempo tendo que mudar de cidade a cada pouco, mais um reflexo da inquietação de Schiele aliada a suas manias, paranoias (Schiele sofria de mania de perseguição e de várias fobias inexplicáveis). Por essa época, ele começou a ser mal visto pela população, vivendo de um modo que desagradava a todos. Era boêmio e desregrado, usava menores como modelos, tinha a casa sempre cheia de garotos e garotas delinquentes.  Mal visto pela sociedade conservadora e puritana, chegou a ser preso e teve mais de 100 desenhos seus apreendidos por serem considerados pornográficos, foi acusado de seduzir uma menor (embora nada tenha sido provado) e de exibir sua arte “pornográfica”  em lugares inapropriados, onde menores tinham acesso. Foi condenado a 3 dias de prisão e teve um de seus desenhos queimados na sua frente, como uma das punições. Na cadeia produziu o tempo todo, criando inúmeros auto-retratos.

Em 1915, casou-se com Edith e sua arte e popularidade só cresciam.  Seu narcisismo e suas tendências exibicionistas não ficavam atrás. Em 1918 foi convidado para participar da 49ª Secessão de Viena onde teve 50 trabalhos exibidos na sala principal e  produziu  um poster inspirado na Última Ceia em que ele próprio estava no lugar de Jesus, trabalho que foi um sucesso e aumentou ainda mais seu prestígio e o valor de seus trabalhos.

Com mais de 250 pinturas e 2000 mil desenhos recheados de sexualidade e obsessões, Schiele merece um lugar cativo entre todos aqueles artistas que, de uma forma ou outra, denunciaram a hipocrisia e a decadência da humanidade. Com imagens distorcidas, tortas, desfiguradas, sensuais e quase erráticas demonstrava sua visão do ser humano,  decadente, viciado e doente.  Sua realidade.

Em 1918,  Schiele morre vítima da gripe espanhola que assolava toda Europa, o mesmo mal que matou sua mulher três dias antes.

Uma resposta to “Talento, transgressão, excesso e decadência — A arte de Schiele”

  1. Eduardo Baumann Says:

    Tem um filme baseado na vida do Schiele, “Excesso e Punição” (1981), uma coprodução entre Alemanha, França e Áustria, que vivia reprisando na tevê antigamente (nos tempos da OM, lembram?) e que vale a pena ser visto ou revisto. No elenco, Mathieu Carriere (um nome recorrente no artcore alemão da época, não confundam com o Matheus Carrieri que participou da Casa dos Artistas, hehe), na pele do pintor, e a musa do Gainsbourg, Jane Birkin (pra variar, exercendo sua condição de musa, como Wally).

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