Pernas Atadas

Como todos os animais, o homem adapta-se, habitua-se às condições nas quais vive, e transmite por hereditariedade os hábitos adquiridos. Nascido e vivendo na escravidão, herdeiro de uma longa linhagem de escravos, o homem, quando começou a pensar, acreditou que a escravidão fosse uma condição essencial de vida: a liberdade pareceu-lhe impossível. É assim que o trabalhador coagido há séculos a esperar trabalho, isto é, o pão, do bel-prazer de um amo, habituado a ver sua vida continuamente à mercê daquele que possui terra e capital, acabou por crer que é o patrão que lhe dá de comer; ingênuo, ele se diz: o que faria para viver se os amos não existissem?

Tal seria a situação de um homem que tivesse suas pernas atadas desde o nascimento, mas de modo a poder ainda assim caminhar um pouco; ele poderia atribuir a faculdade de se mover a suas ligaduras que só fazem, entretanto, diminuir e paralisar a energia muscular de suas pernas.

E, se aos efeitos naturais do hábito, eu acrescento a educação dada pelo patrão, pelo padre, pelo professor, etc., que estão todos interessados em pregar que os governos e os amos são necessários, se incluírmos o juiz e o policial que se esforçam para reduzir ao silêncio aquele que pensa de forma diferente e quer propagar seu pensamento, compreender-se-á de que maneira, no cérebro pouco culto da massa, enraizou-se o preconceito da utilidade, da necessidade do patrão e do governo.

Imaginem, pois, que ao homem de pernas atadas, do qual falamos, o médico expõe toda uma teoria e dá mil exemplos habilmente inventados para persuadi-lo de que com suas pernas livres ele não poderia caminhar nem viver. Este homem defenderia enraivecidamente suas correntes e consideraria como inimigo aqueles que quisessem arrebentá-las.

escrito por Errico Malatesta (revista “Letralivre” número 33).

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