Bebendo Café durante a Nevasca Gelatinosa

Na montanha sagrada de Jodo, durante uma magnífica tempestade de neve gelatinosa, continuo bebendo o café enegrecido pela total falta de sentimentos que cultivo em meu âmago. Sentado à mesa permaneço em silêncio, apenas olhando os seres que se atacam por todo o sempre, viciados em discussões inúteis e trocas de socos hilários. Essa agitação toda faz com que eu me esqueça de minha dor interior. Faz com que eu permaneça numa calmaria pessoal que até assusta meus inimigos mais ousados. A desgraça alheia diverte mais do que minha própria desgraça. Me alucina e me faz querer beber grandes quantidades de café quente, tão quente que molesta até mesmo as lindas fadas que me tornaram uma hiena infeliz de riso forçado. Fadas funcionais, belíssimas máquinas modernas com cavidades orais onde podemos ver seus receptáculos de espermatozóides transparentes prontas para então sugarem mais alguns atormentados da minha raça. Tão logo a tempestade de neve gelatinosa se acalma, resolvo usar um mínimo da vontade e me levanto. No horizonte uma Deusa Excluída berra alto com a gentalha que lhe servia de capacho e ao me ver, acena sem sorrir. Somos dois estranhos em auto-exílio na montanha sagrada. Essa Deusa Excluída às vezes tenta me ajudar. Mas como ajudar alguém que não faz questão de ser ajudado? Aceno para a Deusa, um aceno completamente apagado e ridículo, mas que (ela sabe disso) significa que hoje não quero conversar, prefiro curtir minha infelicidade de modo solitário, dando atenção apenas para minhas tempestades cerebrais. E ali permaneço encantado com este interminável devaneio, onde uma tonelada de idéias esmagam a infelicidade reinante e me trazem de volta o sarcasmo amigo. Duas semanas depois já estou melhor, o mesmo humano amargo de sempre. Confiante em meu poder supremo de pisar sobre os outros vou então, ao som de um tango executado por escravos judeus de ternos bem cortados, ver uma fada cujo brilho de seu sorriso me cativou. Mas tal candidata à musa me parece pobre (em todos os sentidos), doença essa que é totalmente contra minhas convicções de pequeno burguês nojento. Esnobando-a por completo, volto a me sentar em minha mesa. Uma amiga insensível senta-se junto a mim. Me conta suas aventuras onde nada foi como deveria ter sido.  Gargalhamos de nós mesmos. E ali vamos ficar por toda a eternidade, um se deliciando com a desgraça do outro, sem tempo para mudarmos, nem nos arrependermos.

escrito por Petter Baiestorf (1998).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: