Arquivo para outubro, 2011

Auto-Suficiente

Posted in Literatura, Nossa Arte with tags , , , , , , , on outubro 18, 2011 by canibuk

O mendigo está com fome.

O mendigo despe-se.

O mendigo se agacha e faz força, até geme.

O mendigo defeca suas fezes magras.

O mendigo come.

O mendigo saciou sua fome impertinente.

O mendigo quer mais.

O mendigo quer a sobremesa.

O mendigo enfia dois dedos na garganta.

O mendigo regurgita em jorros.

O mendigo agora também tem a sobremesa.

poesia de Petter Baiestorf.

Como a Geração Sexo-Drogas & Rock’n’roll Salvou Hollywood

Posted in Cinema, Literatura with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 17, 2011 by canibuk

“Como a Geração Sexo-Drogas e Rock’n’Roll Salvou Hollywood” (“Easy Riders, Raging Bulls”, 1998, 500 páginas), escrito por Peter Biskind. Com base em milhares de entrevistas que o autor realizou com trabalhadores da indústria cinematográfica americana, este livro é um verdadeiro achado para cinéfilos do mundo inteiro (li o livro quando foi lançado no Brasil em 2009 e semana passada reli novamente). Biskind conta histórias divertidíssimas sobre os bastidores de grandes produções dos anos de 1968, mais ou menos, até começo dos anos de 1980, quando o cinema americano se tornou essa máquina comandada por executivos que só se importam com lucros.

Warren Beatty, Dennis Hopper, Bert Schneider, Jack Nicholson, Bob Rafelson, Robert Altman, Francis Ford Coppola, George Lucas, Peter Bogdanovich, Bob Evans, Robert Towne, Roman Polanski, Charles Manson, Hal Ashby, William Friedkin, Martin Scorsese, Brian de Palma, Steven Spielberg, Paul Schrader, Terry Malick, Amy Irving, Robert De Niro e Pauline Kael são algumas das personagens do livro. Como é bom constatar que diretores que eu nunca gostei, como George Lucas e Spielberg (a quem eu culpo por terem infantilizado o cinema), realmente são uns nerds idiotas loucos por dinheiro e poder. Com este livro ficamos sabendo que vários clássicos do cinema americano foram meros acidentes, conhecemos histórias com a megalômania de diretores como Hopper, Coppola ou Friedkin que simplesmente enlouqueceram sem rumo com o poder que tiveram nas mãos e constatamos, com prazer redobrado, o quanto um visionário como Roger Corman (anti) influênciou toda essa geração da “Nova Hollywood”. Todos citam Corman como um gênio centrado e sabendo sempre o que estava fazendo.

Este livro já foi lançado tem 2 anos, queria ter feito a indicação dele aqui antes mas fui esquecendo. Mas é fácil de encontra-lo, vivo esbarrando neste livro em qualquer livraria de aeroporto ou rodoviária. E vale qualquer preço que estiverem pedindo por ele, é imperdível!

Essa história (vídeo abaixo) do Spielberg choramingando porque não foi indicado ao Oscar de melhor diretor pelo “Jaws” (“Tubarão”, 1975) é contada, entre milhares de outras, no livro:

Existe também um documentário chamado “Easy Riders, Raging Bulls” (dirigido por Kenneth Bowser, escrito por Peter Biskind) que conta tudo isso com imagens visuais, deixo no post a abertura deste documentário:

Mostra de Fotografias Ivandalizadas

Posted in Arte e Cultura, Fotografia with tags , , , , , , on outubro 16, 2011 by canibuk

Graphos Brasil está bancando uma inusitada exposição de fotografias de Ivan Cardoso (que possui um arquivo com mais de 70 mil negativos). Para essa exposição Ivan Cardoso pegou alguns positivos (revelados à base de nitrato de prata), que eram preto & brancos, e os transformou em originais únicos, ivandalizando-os com cores lisérgicas (bem ao estilo anos 60/70) atrvés de canetinhas e pincéis.

Postamos aqui algumas fotos ivandalizadas inéditas, mas quem estiver no Rio de Janeiro saiba que a exposição está acontecendo desde o dia 05 (e segue até dia 29 de outubro) na Graphos Brasil, rua Siqueira Campos 143, Sobreloja 01/02, Copacabana.

Diário Etílico das Filmagens do longa Blerghhh!!!

Posted in Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 15, 2011 by canibuk

Coffin Souza enviou um e-mail nesta semana me alertando que nosso filme “Blerghhh!!!” (1996) estava com suas filmagens completando os 15 aninhos. Lembrou disso porque viu notícia dos 15 anos da morte de Renato Russo e lembrou que ele havia falecido enquanto a gente estava filmando o “Blerghhh!!!”, onde quase todos os atores e equipe-técnica ficaram ofendidos conosco porque ficamos fazendo piadinhas de humor negro envolvendo a morte do Russo. Depois deste e-mail dele procurei um diário da produção que eu sabia ter escrito durante as filmagens e que vou publicar aqui algumas partes dele (prá ver na íntegra, só quando sair o livro com a história da Canibal Filmes). Este filme foi feito na época com 2 mil reais que o Coffin Souza tinha na mão, ficamos uns 11 dias filmando sem interferências, com uma equipe que envolvia umas 25 pessoas (não lembro o número total) e o resultado do filme foi prejudicado pela edição ruim que eu (Petter Baiestorf) e Coffin Souza fizemos (coisa que consertei em 2008 com ajuda do Gurcius Gewdner, quando re-editamos o “Blerghhh!!!” com nova trilha sonora e que ficou bem como eu queria – menos o som direto que é aquela merda do padrão Canibal Filmes de sempre). Segue algumas partes do diário etílico das filmagens do “Blerghhh!!!” que aconteceram entre os dias 03 à 15 de outubro de 1996:

Dia 04 (de outubro de 1996), Sexta-feira:

O dia estava ótimo. Coffin Souza (o produtor/maquiador/ator) e eu (diretor de fotografia/roteirista/co-produtor/diretor), acompanhados de Claudio Baiestorf (assistente de produção/armeiro), chegamos ao set de filmagens de nosso novo longa-metragem (reduzido a média-metragem na re-edição de 2008), desta vez sutilmente intitulado “Blerghhh!!!”, onde Marcos Braun (ator e assistente de direção) e Zé (ator e produtor associado) , ambos bem a vontade, já com praticamente tudo organizado e com o restante do pessoal já acomodado. Aproveitamos o dia para preparar detalhes do cenário (coisa pouca que faltava arrumar) e deixar o equipamento já a mão, pronto para começar a rodar as cenas noturnas. Todos estavam alegres e otimistas. Nada parecia que ia dar errado.

As 2o horas iniciamos as filmagens. Logo em seguida Denise V. sentiu-se mal (provavelmente devido a longa viagem até Canibal City e o nervosismo, já que era sua primeira produção e estava no meio de um monte de caras estranhos e debochados). Resolvo filmar o ataque policial com os atores Loures Jahnke (que interpretou em 1995 o Monstro Legume) e Airton Bratz (mais conhecido por ter interpretado, anos depois, o Chibamar Bronx no, também meu, longa “Raiva”, uma produção de 2000, lançada em 2001) à casa de um traficante fodão (minha ponta neste filme). Na cena inicial rolava um tiroteio entre o traficante e os policiais e todos os tiros das armas – que já estavam prontos – falharam. Perdemos muito tempo resolvendo o imprevisto e quando os tiros funcionaram, eu acertei um tiro (com pólvora seca) no estômago de Coffin Souza que fazia a câmera em meu lugar. O tiro furou a camiseta de Souza e queimou sua barriga, passado o susto, equipe-técnica estourou numa sessão de risos intermináveis, com um mal humorado Coffin Souza reclamando do acidente. Lá pelas 03 da madrugada tínhamos as 3 primeiras seqüências finalizadas, com toda a introdução do filme resolvida.

Neste instante sou informado que o ator E.B. Toniolli (que possuia um dos papéis principais) não havia chegado, pois estava  num hospital sofrendo uma lavagem estomacal devido a um porre de uisque que havia tomado naquele dia. Reunimos a produção para uma reunião rápida para decidir o que fazer. Optou-se por colocar Loures Jahnke, com visual diferente do policial que ele acabara de interpretar, no lugar de Toniolli. Só que a esposa (hoje ex-esposa) de Loures, que estava junto acompanhando as filmagens, não gostou muito da idéia de ter ele preso ao filme durante quase duas semanas e armou uma confusão. Ao mesmo tempo sou informado que o ator teatral David Camargo, completamente bêbado no set de filmagens principal (que servia de set e dormitório à boa parte da equipe), gritava enfurecdo algo como: “Onde está aquele atorzinho anti-profissional!!!”, referindo-se ao Toniolli que ele ainda nem conhecia. David Camargo era nossa grande estrela importada do Rio Grande do Sul, já tinha trabalhado nos anos 70 com Teixeirinha e era uma lenda do super-oito e teatro porto alegrense.

A produção resolve encerrar as filmagens de noite inaugural tão conturbada e ir encher a cara com um sucolento churrasco (eu ainda não era vegetariano nesta época) oferecido por Marcos Braun que naquele dia estava completando 23 anos. Acalmamos o David com comida e mais bebida, até fazê-lo desmaiar de bêbado e encerrar seus resmungos contra o amadorismo de nossa produção!

capa do roteiro.

Dia 05 (de outubro de 1996), Sábado:

Cansados, sujos, fedidos e sem uisque, nos deslocamos ao restaurante do Jorjão (que naquela época pertencia ao ator/produtor Jorge Timm) onde estava todo o restante da equipe hospedada (o restaurante era em anexo à um hotel), na esperança de um café, banho e um dia calmo de gravações. Porém, como desgraça pouca é bobagem, repentinamente o céu escureceu, acompanhado de ventos fortes, trovões e raios e uma tempestade violenta começava a se formar no horizonte, vindo em nossa direção. Numa velocidade alucinante, retornamos os 2 quilometros que separavam o set do restaurante na ânsia de salvar o equipamento técnico (várias iluminações, figurinos que estavam numa barraca de lona, objetos de cena ainda empilhados do lado de fora do set, entre outras coisas) da fúria da natureza. Resultado: tomamos banho sim… de chuva e comemos… poeira com vento! Realmente um belo dia se iniciava!

As 10 da manhã, conversando com meu assistente de direção, resolvi o problema do papel que seria interpretado pelo Toniolli. Trocamos Toniolli pelo ótimo e sempre disponível Marcos Braun (que topou assumir o papel desde que ele tivesse o mínimo de diálogos possível, queria interpretar a personagem quase sem dizer diálogo nenhum, o que se revelou uma escolha acertada no decorrer das filmagens). E começamos a rodar várias cenas internas enfocando os terroristas, finalmente estávamos trabalhando a todo vapor. Lá fora uma chuva forte castigava tudo sem dó nem piedade.

Anoitece e, sob uma fina chuva de verão (com câmera e iluminação portátil protegidas por pedaços de lonas), filmamos algumas cenas externas onde os terroristas seqüestram Sid (interpretado pelo Zé) e sua parceira Naja (interpretada pela Denise). Resolvo filmar, também, várias seqüências noturnas com David Camargo, um excelente ator mas que incomodava demais, para dispensá-lo em viagem de retorno à Porto Alegre/RS no dia seguinte. Meu plano foi meio maligno, filmei todos os closes dele, todos os diálogos da personagem dele (o velho nojento que no filme fica teorizando sobre caganeira e hemorróidas, aliás, fui o primeiro diretor a colocar diálogos escatológicos na boca de David Camargo) e deixei prá trás cenas gerais onde aparecia partes do corpo dele, ele de costas, etc (porque Marcos Braun tinha a mesma altura e físico dele e filmei todas esses takes nos dias seguintes com o Braun de dublê de corpo, sem David enchendo o saco no set).

As 3 da madrugada dispensei os atores e a equipe-técnica (para que dormissem e estivessem bem logo cedo) e fiquei com Coffin Souza, Madame X e Onésia Liotto para filmar algumas seqüências do média-metragem experimental sobre drogas, intitulado “Chapado”, que estávamos filmando em paralelo ao “Blerghhh!!!”.

diretores do média "Chapado".

Dia 06 (de outubro de 1996), Domingo:

Depois de ter dormido uma hora, me levanto e acordo o pessoal que participaria da primeira seqüência do dia. Eram 7 horas da manhã, pessoal parecia abatido. Caféééé, cadê a porra do caféééé???… Logo cedo Toniolli, melhor de saúde, já tinha aparecido no set e informei ele que tivemos que fazer algumas mudanças no elenco para não perder tempo nas filmagens. Como as duas seqüências que íamos filmar no dia eram fáceis, com Toniolli e Onésia namorando na beira do rio Uruguai, passei a direção das cenas para Coffin Souza e fui prá minha barraca onde peguei uma garrafa de uisque (muito uisque) e bebi generosos goles e fui ficando muito doido, tendo alucinações etílicas toda manhã, portanto não tenho como dar detalhes mais precisos sobre as cenas filmadas. Só posso afirmar que desde aquele dia, nunca mais fiz isso novamente (sair do ar durante as filmagens) porque não gostei do resultado final das cenas dirigidas pelo Coffin Souza (aliás, hoje em dia não gosto mais nem de gente bebendo nas minhas produções).

Depois de um almoço no restaurante do Jorjão, já ao anoitecer, filmamos a engraçada morte da personagem feita pelo Toniolli (na troca de papéis, Toniolli acabou com uma personagem que aparece só prá morrer), que na idéia toda do roteiro, era prá ser uma morte bem violenta e gratuita. Ficou ótima, com pedaços de orelha e cérebro cinematográfico jorrando contra a câmera. Na filmagem desta seqüência levei um tombo com a câmera na mão, porque um dos técnicos não retirou um fio de cerca que havia no local, entre meio a grama alta, escondido, verdadeira armadilha aos desavisados. O visor da câmera ficou torto, mas conseguimos consertar.

As 20 horas começamos a filmar as cenas de torturas com a personagem da Denise. Na equipe-técnica ficou apenas eu, Marcos Braun fazendo a iluminação, Carli Bortolanza (maquiador assistente nesta produção, que foi sua primeira trabalhando nesta função), Claudio Baiestorf, Jorge Timm e a Andréia na continuidade. Coffin Souza, já caracterizado como a personagem Rumba, é quem tortura a menina. Como a Canibal Filmes é uma empresa produtora de sexploitations, muitos closes nos peitos da atriz neste momento para a alegria dos fãs de nossos filmes. Paralelo às filmagens de “Blerghhh!!!”, faço também algumas cenas de um projeto intitulado “Bondage” (um filme de arte erótico dedicado inteiramente às pessoas que gostam de ver as outras amarradas/amordaçadas, cuja segunda parte filmamos em 1997, sendo lançada em 1998).

Terminada as filmagens, dispenso o pessoal e, junto de Coffin Souza, sentamos prá um uisque sem gelo e refazer o plano de filmagens do dia seguinte. Domingão foi um dia cansativo. Minha chapadeira do começo do dia, não ter dormido quase nada e filmagens noturnas demoradas, estavam quase me derrubando.

bondage no Blerghhh!!!

Dia 07 (de outubro de 1996), Segunda-feira:

Neste dia acordamos um pouco mais tarde e filmamos várias seqüências sem muita importância. Vários closes, takes que ficaram prá trás, gerais do cenário, algumas cenas de segunda unidade, etc…

Ao anoitecer resolvemos fazer um churrasco regado a muita bebida, como cerveja e o já tradicional uisque e prá acompanhar umas caipirinhas. Todo mundo fica meio bêbado e apaga (a canseira física estava pegando todo mundo, eu mesmo ainda não tinha tomado um banho decente desde que as filmagens tinham começado).

eu re-escrevendo o roteiro numa das pausas nas filmagens.

Dia 08 (de outubro de 1996), Terça-feira):

Depois de dormirmos a manhã toda, Zé, Coffin Souza e eu começamos a preparar tudo para a seqüência mais importante do filme, que é quando Sid perde sua cabeça (a cabeça animatrônica que usamos nesta produção foi construida pelo técnico em efeitos especiais Júlio Freitas). Serramos árvores, cavamos buracos (para esconder o corpo de Zé para as cenas da cabeça decepada conversando com seu corpo), colocamos a iluminação, ensaiamos, acertamos diálogos, bebeu-se mais uisque, cachaça e trabalhou-se muito (era triste ver os 3 gordos fazendo aqueles serviços braçais). Marcos Braun, Claudio Baiestorf e Airton Bratz (assistentes) fizeram muita falta, mas naquela terça eles não estavam disponíveis para a produção porque o orçamento não permitia.

O tempo ameaçava chover. Iniciamos as filmagens da cena às 19 horas, que era complicada de ser feita, com a equipe inteira (agora já com os assistentes integrados à equipe) nervosa. Vários takes são repetidos a exaustão, para o pânico dos atores, todos já cansados (quando você está realizando um filme amador, esse negócio de repetir demais uma cena irrita os atores). Mas, em apenas umas 5 horas de trabalho, conseguimos concluir a cena inteira, que depois de editada ficou razoávelmente gore e violenta-engraçada, o que era o intuíto.

Rapidamente iniciamos outra cena complicada com o personagem do Zé, porém fomos impedidos de termina-la por causa da chuva que desabou sobre nós. Recolhemos o equipamento e esperamos um pouco prá ver se a chuva parava. Nada feito. Suspendi o resto das filmagens por aquela noite e Coffin Souza e eu vamos ao monitor assistir as cenas capturadas. Aplausos, tudo, de iluminação à interpretações, havia ficado muito bom. Parte do pessoal foi dormir e outra parte ficou bebendo e jogando conversa fora. Finalizamos essa cena uns dias depois.

Júlio Freitas tirando molde da cabeça de Zé.

Dia 09 (de outubro de 1996), Quarta-feira:

Acordo e percebo que a chuva vai continuar caindo sem parar. Dispenso o pessoal de seus afazeres (não tínhamos atores o suficiente para rodar as cenas internas), folga merecida à todos, e passo o dia dormindo porque ninguém é de ferro.

Perto do anoitecer o tédio por não estarmos fazendo nada começa a bater, então chamo Coffin Souza e bolamos o curta-metragem “Ácido”, que filmamos em umas 2 horinhas dentro de um dos quartos do set principal. Acreditem, aquelas cenas lisérgicas do “Ácido” são imagens distorcidas e com suas cores vazadas, que filmamos de bobeira neste dia.

Desconheço o que o resto da equipe fez neste dia.

Dia 10 (de outubro de 1996), Quinta-feira:

Logo cedo, Onésia e Madame X voltam ao set (elas tinham sido dispensadas no domingo), ambas empolgadíssimas, o que levanta o astral de todos. Na primeira hora da tarde iniciamos as filmagens onde Onésia espancava violentamente a personagem Bruce, vivido pelo Braun. Vários takes são repetidos, pois Onésia estava batendo fraco demais em seu algoz com medo de machuca-lo. Ao editar conseguimos impôr mais violência à cena.

Ao anoitecer a chuva recomeça. A equipe técnica fica de prontidão e assim que a chuva acalmasse iríamos fazer algumas cenas externas com Onésia. Prá ganhar tempo resolvo filmar uma cena onde Madame X transava com Rumba moribundo. Tudo sai muito bem feito, principalmente o take onde vários litros de sangue respingam em close sobre os seios de Madame X, criando uma cena ótima para o teaser do filme.

Para não perder nada da empolgação do pessoal, resolvemos rodar algumas seqüências  com o Jorge Timm, big-ator que já chamou atenção de renomados diretores brasileiros como Ivan Cardoso e Carlos Reichenbach (uma pena nenhum dos dois ter filmado algo com o Timm). Terminada as filmagens com o Timm, encerramos as atividades por aquela noite. Foi tudo lindo e tranqüilo, como todos os dias num set devem ser (em teoria).

Jorge Timm e Ivan Cardoso.

Dia 11 (de outubro de 1996), Sexta-feira:

Neste dia não filmaríamos nada relacionado ao “Blerghhh!!!”, pois estávamos aguardando o pessoal da banda Necrotério (banda de death metal de Curitiba/PR) para gravar um vídeo-clip com eles (seguindo o exemplo do polêmico clip “Speech” que fiz para a banda Zero Vision e que foi censurado pela gravadora Roadrunner e pela MTV).

As 11 da manhã acordo e já dou de cara com o vocalista e o baixista da banda (os outros dois integrantes da banda haviam ido conhecer os “banheiros” naturais da mata verdejante que nos cercava). Batemos um breve papo sobre a produção do vídeo-clip e vamos almoçar um lanche com café e pequenas doses de pinga.

As 14 horas começamos a filmar os primeiros takes do clip. Problemas com a iluminação fazem com que Coffin Souza e Loures Jahnke (aquela altura já agregado à produção do filme, para desespero de sua ex-esposa) tenham que ir até Palmitos (distante 20 quilometros da Canibal City) comprar novas lâmpadas. Ao mesmo tempo, racho minha cabeça num pedaço de pau pontudo, transformando minha face num grande rio de sangue. Pessoas desmaiam ao ver o sangue verdadeiro, histeria, gritos de pavor, almoços voltam em jorros de bílis em câmera lenta. Por um segundo o universo todo para em uma eternidade de miléssimos de segundo. No ar ecoam batidas lentas de corações, um grilo se cala, sapos arregalam seus olhos, pavor, pavor, medo e desespero. Mas grito: “Estou bem!” e tudo volta a normalidade de sua insignificância cósmica. Tão logo retornam com a iluminação arrumada, voltamos às filmagens do clip. Devido a empolgação de alguns membros da banda (não devíamos ter dado uisque aos meninos), atrassa-se alguns takes internos.

Durante as filmagens do clip, chegam ao set o diretor/desenhista Rogério Baldino (“Fatman & Robada”, 1997) e o ator/historiador de cinema Marcelo Severo (que está no elenco de “O Monstro Legume do Espaço”, 1995, e “Eles Comem Sua Carne”, 1996, ambos dirigidos por mim). Os dois muito bem a vontade e integrados com a equipe, já bebericando sua parte alcoólica.

Anoitece, sem pausa pro café, começo a fazer os takes, em cenário interno, do clip. São vários takes cansativos à todos os envolvidos. às 21 horas, enquanto Coffin Souza maquiava Rogério Baldino para uma ponta no clip como um cadáver do IML, eu e todo restante da Canibal Filmes ficamos tentando convencer os meninos da banda de que iria ficar muito bom sangue respingando contra o corpo deles, afinal, uma banda de death metal com toques de splatter precisa ter este clichê no currículo. Conseguimos convence-los. Coffin Souza e Carli Bortolanza, com suas seringas cheias de sangue falso, faziam jorrar o líquido vermelho em doses generosas contra a banda, promovendo uma sangueira muito divertida.

Concluída as filmagens do vídeo-clip, maioria do pessoal se retira pro Hotel para um merecido banho. E eu vou cuidar do meu corte na cabeça, lavo bem, passo algo contra infecção e esqueço da porra do corte!

gravando clip da banda Necrotério.

Dia 12 (de outubro de 1996), Sábado:

Um dia agitado estava por vir, segundo nosso plano de filmagens. Levanto-me cedo e já as 8 da manhã, junto de Coffin Souza, Braun, Bortolanza e Claudio Baiestorf, rodamos várias seqüências de segunda unidade. Ceninhas sem grande importância mas que precisavam ser feitas em algum momento.

Depois do almoço (somente eu, Zé, Claudio, Souza e o Timm) no restaurante do Jorjão para uma reunião da produção, percebemos uma nova tempestade se aproximando. Uma respirada funda e vamos lá!

Voltamos ao set principal e filmamos várias cenas internas entre Madame X, Andréia e Jorge Timm (eram cenas noturnas, mas tapamos as janelas da casa com cobertores negros e o dia virou noite). Fazer filme vagabundo é brincar de deus.

Às 17 horas, depois de colocarmos uma lona sobre a câmera e a iluminação, fomos filmar uma cena externa onde era a vez de Denise espancar o infeliz personagem de Marcos Braun (que passa o filme todo apanhando de todas as personagens femininas da história). Os tapas ficam tão realistas que num deles, em especial mais forte do que os anteriores, Braun realmente caí no chão e fica resmugando mal humorado e não querendo continuar suas cenas com ela (dou razão prá ele, mas no dia a gente tinha que filmar o máximo possível, então converso com ele e finalizamos rapidamente a seqüência).

Logo que escureceu, aproveitando que a chuva finalmente fez uma pausa, filmamos cenas noturnas externas entre meio ao lôdo e umidade angustiantes. Numa cena onde Onésia mata uma personagem, sangue respinga forte e denso contra a câmera principal. Delícia. Em seguida rodamos outra cena ultra-gore onde a personagem do Zé mutila a personagem do Jorge Timm e novo jato de sangue respinga contra a câmera principal. Duas vezes em menos de uma hora? Isso quer dizer alguma coisa. E queria dizer sim: Logo em seguida, ainda fazendo takes para essa cena do Timm sendo mutilado, quase perdemos Marcos Braun que, ao segurar uma iluminação, recebeu uma violenta descarga elétrica, jogando-o ao chão e fazendo a iluminação explodir. Passado o susto, finalizamos rapidamente as filmagens da mutilação do Jorge Timm.

Pausa para tentar consertar a iluminação que explodiu e para beber um cafézinho.

Começamos a rodar as cenas ultra-gores finais (possivelmente, até 1996, as mais violentas e sangrentas já rodadas numa produção nacional). Eram cenas díficeis de serem ordenadas devido ao pouco espaço da sala escolhida para filmar essa cena. Take após take, Zé era metamorfoseado numa maquiagem gore pesada, demorada de ser feita, com Coffin Souza e Bortolanza trabalhando duro para garantir o exagero sanguinolento que eu queria. As meninas em cena e o Zé demonstravam cansaço, mas tiravam forças de sua fé no cinema de baixo orçamento para continuar até eu dizer que estava bom. Eu mesmo não enchergava quase nada no monitor da filmadora devido ao grande cansaço nos olhos, afinal, eu já estavam com meus olhos enfiados naquele monitor a mais de uma semana. Muito café esquentava o ânimo de todos.

Lá pelas 3 da madrugada uma parte da equipe vai dormir, pois já não estavam mais aguentando. Mas apesar do cansaço e eventuais crises de mau-humor, tudo corria maravilhosamente bem. As meninas tomavam seus banhos de sangue com dedicação e as cenas capturadas eram lindas. Nesta altura, Jorge Timm roncava alto, mas muito alto mesmo. Como usamos o som direto, a cada novo take alguém tinha que acordá-lo para fazer com que parasse de roncar. Era hilário na verdade.

Depois de uma pequena pausa para novas doses de café, jogamos vísceras reais de porco sobre o Zé que só reclamava do cheiro insuportável de podridão que impregnou o set. Já que ele tava irritado mesmo, neste momento resolvemos clicar várias fotos dos efeitos, para somente depois filmar os takes restantes da cena. Lá fora os pássaros acordavam animados cantando doces melôdias, já era manhã de domingo, olho num relógio e constato que são 8 horas. Havíamos terminado as filmagens de um novo longa-metragem, ninguém comemora, todos queríamos desmaiar em qualquer lugar.

Jorge Timm dando uma dormidinha.

Dia 13 (de outubro de 1996), Domingo:

Acordo ao meio dia para almoçar (restaurante do Jorjão já tinha providenciado um almoço de primeira) e encher a cara de cachaça com muita dedicação e sem nenhum outro compromisso. E com a boa sensação de dever comprido!

Pessoal da equipe e atores começavam a recolher seus pertences pessoais, motoristas da produção começavam a levar as pessoas embora, uma tristeza começava a se esboçar no ar. Cara sofre filmando, mas quando tudo acaba fica um vazio e a sensação de quero mais, sempre mais!

Jorge Timm travestido de Thor Johnson zuando em Gramado, 1997.

Pós-lançamento do Blerghhh!!!

(final de 1996 até final do primeiro semestre de 1997):

Coffin Souza e eu não conseguimos, na época, o dinheiro necessário para editar o filme em equipamento profissional (em 1996 ainda não existiam programas de edição nos computadores pessoais) e fizemos a burrada de edita-lo no nosso equipamento inferior. Nossa ilha de edição era de vídeo prá vídeo com umas placas de créditos e efeitos de transição acopladas. O resultado foi uma montagem que eu passei mais de 10 anos de minha vida odiando, porque eu sabia que este filme com uma edição bem feita teria sido bem recebido. Lançamos o filme ainda no final de 1996 em VHS e conseguimos a exibição dele em alguns festivais independentes sem grandes alardes. Por incrível que pareça, a edição vagabunda, aliada as cenas de nudez e gore intenso, foram uma espécie de empecilho nas exibições. “Blerghhh!!!” ficou restrito à exibições em shows de bandas gore grind.

Em 2008, pós Gurcius Gewdner editar vários filmes meus (“Palhaço Triste”, “Arrombada”, “Que Buceta do Caralho, Pobre só se Fode!!”, “Manifesto Canibal – O Filme” e “Vadias do Sexo Sangrento”), surgiu a idéia da gente re-editar o “Blerghhh!!!” e o resultado ficou lindo. Re-lançamos a versão média-metragem dele em double feature com o “Vadias do Sexo Sangrento” (2008) e finalmente as pessoas puderam curtir ele com um corte decente. Prá dar uma idéia: “Blerghhh!!!” (original, editado de vídeo prá vídeo) tinha 69 minutos e a versão re-editada ficou com meros 42 minutos e ainda contava com uma cena inédita a mais. Edição é tudo!!!

“Blerghhh!!!” (1996, 69 min./2008, 42 min.), Escrito e dirigido por Petter Baiestorf. Produzido por Coffin Souza e Petter Baiestorf. Produtor Associado: Zé. Assistente de produção: Marcos Braun, Jorge Timm e Claudio Baiestorf. Direção de Fotografia de Petter Baiestorf. Edição em 1996 de Petter Baiestorf e Coffin Souza. Edição em 2008 de Gurcius Gewdner. Maquiagens gores de Coffin Souza e Carli Bortoanza. Efeitos mecânicos de Júlio Freitas. Com: Zé, Madame X, Onésia Liotto, Denise V., Andréia, Marcos Braun, Coffin Souza, David Camargo, Jorge Timm, Loures Jahnke, Airton Bratz, E.B. Toniolli e Petter Baiestorf.

Nazimova: A Salomé do Cinema Mudo

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , on outubro 14, 2011 by canibuk

Essa pequena introdução sobre os primórdios do cinema não se pretende definitiva, é somente um pequeno panorama de como as coisas funcionavam naquela época e não eram nenhum pouco diferentes do que são hoje em dia.

O cinema surgiu graças à invenção do cinematógrafo dos irmãos Lumière no finalzinho do século XIX. Em 28 de dezembro de 1895, em Paris (França), eles realizaram a primeira exibição pública com ingressos da história do cinema, exibindo uma série de 10 filmes com duração de, no máximo, um minuto cada (naquela época os rolos de filmes tinha somente 15 metros). O cinema como diversão das massas começou a se esboçar com as produções de George Méliès, um mágico ilusionista que realizou pequenos curtas já com o uso dos efeitos especiais e empolgantes histórias de aventura como o clássico “Le Voyage dans la Lune/Viagem à Lua” (1902); as produções do espanhol Segundo de Chomón que realizava aventuras cheias de trucagens visuais e coloridas (ele coloria seus filmes, quadro à quadro, com um pincel. Anos atrás baixei vários curtas dele pelo site UBU e achei suas produções bem superiores às produções de Méliès); e por último, mas não menos importante, as produções de Thomas Edison, que em 1910 produziu um pequeno clássico baseado no livro de Frankenstein de Mary Shelley (já postamos este filme de Thomas Edison aqui no Canibuk).

"La Casa Hechizada", 1906, de Segundo de Chomón.

Em seguida o diretor David W. Griffith, um dos pioneiros de Hollywood, e o russo Sergei M. Eisenstein, foram os grandes responsáveis pela construção dos longa-metragens, cujas fórmulas são usadas até nos dias de hoje. “The Birth of a Nation/O Nascimento de uma Nação” (1915) de Griffith e “Bronenosets Potyomkim/O Encouraçado Potemkim” (1925) de Eisenstein, servem até hoje como bases sólidas para a montagem dos filmes. Caminhando junto, na Alemanhã surgiu o estilo conhecido como Expressionismo que deu alguns clássicos do início da história do cinema, como “Das Cabinet des Dr. Caligari/O Gabinete do Dr. Caligari” (1919) de Robert Wiene, com seus cenários alucinantes, “Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens/Nosferatu” (1922) de F.W. Murnau (uma versão não autorizada do livro “Drácula” de Bram Stoker) e “Metropolis” (1927) de Fritz Lang, uma verdadeira obra-prima da sci-fi cinematográfica e da sétima arte. E em Paris, vários surrealistas experimentaram desconstruir filmes, criando lindas peças poéticas de surrealismo em movimento, como “Le Retour à la Raison” (1923) de Man Ray, “Le Ballet Mécanique” (1924) de Fernand Léger, “Entr’Acte” (1924) de René Clair, “Anémic Cinéma” (1926) de Marcel Duchamp, “La Coquille el le Clergyman” (1927) de Germaine Dulac e o clássico “Un Chien Andalou/Um Cão Andaluz” (1929) de Luis Buñuel com colaboração de Salvador Dali. Prá sorte dos tarados, o cinema é uma arte voyeur por excelência, e nesta mesma época já surgiram os primeiros filmes pornográficos. Várias coletâneas com pornôs que teriam sido rodados nos anos de 1920 foram lançadas aqui no Brasil em VHS/DVD. Uma busca rápida pela internet é possível ver vários destes filmes eróticos do tempo de nossas tataravós.

Com essa pequena introdução sobre os tempos do cinema mudo, Canibuk apresenta agora a lendária atriz Alla Nazimova, que merece ser redescoberta por uma nova geração de cinéfilos.

Rotulada pela crítica como “bizarra”, Alla Nazimova teve uma vida pessoal nada convencional  e uma carreira cinematográfica que, embora tenha sido única, não recebeu o apreço merecido naquela época.

Nazimova nasceu na Rússia em 1879, era a mais nova de três filhos, cresceu em meio à violência familiar, com um pai extremamente bruto, tendo uma vida instável. Com a separação dos pais, foi morar ainda criança com uma família na Suiça onde sofria abusos sexuais dos dois irmãos adotivos. Em meio aos abusos e vida conturbada foi descobrindo seus talentos musicais e aos sete anos começou a ter aulas de violino. Voltou logo pra Rússia e continuou tendo aulas, chegando a executar um concerto de Natal. Aos 15 anos decidiu ser atriz. Foi ajudada por um velho rico que conheceu nas ruas onde se prostituia e conseguia a renda pra poder pagar seus estudos.  Fez grandes peças de teatro e em  Nova York suas performances na Broadway recebiam grandes destaques e ela logo se tornaria a queridinha por aquelas bandas. Ainda nessa época, se tornou amante da Emma Goldman, a grande líder feminista e anarquista. Em breve, Emma a abandonaria por não conseguir mais suportar suas incontáveis relações com outras mulheres.

O primeiro convite pro cinema surgiu em 1915, onde ganhou um papel no “War Brides“, filme que trazia um apelo pacifista naquele período onde emergia a Primeira Guerra Mundial. Com o sucesso do filme assina  contrato de 13.000 dólares semanais com a MGM e várias regalias, como poder escolher diretor, roteirisa e ator principal dos filmes. Em três anos, estrelou onze filmes, entre eles “Revelation” (1918), onde faz uma prostituta, “Toys of Fate” (1918)  onde faz dois papéis: uma mulher que tenta suicídio após ser abandonada pelo pai de sua filha, e como a filha crescida empenhada em vingar a mãe, e “La Lanterne rouge” (1919) onde faz papel de duas irmãs capturadas numa rebelião.  Seus papéis que a apresentavam como uma mulher exótica, independente e devastada por sentimentos angustiantes e problemas pessoais  lhe garantiram uma fama considerável.  No auge da carreira, Nazimova provocava e animava ao mesmo tempo em que apavorava Hollywood com as grandiosas festas regadas a orgias e drogas que dava em sua mansão chamada de “Jardim de Alá“, festas que contavam sempre com a presença de várias de suas amantes, mulheres como a roteirista June Mathis, a cenógrafa Natacha Rambova e a cineasta Dorothy Arzner.

Mesmo com a fama no cinema, continuou a fazer teatro e em 1920 começou a produzir seus filmes, que foram um fracasso de bilheteria.  No mesmo ano, seu filme experimental “Afrodite” que trazia cenas de lesbianismo, foi perseguido por grupos religiosos e proibido, tendo seus rolos queimados. Também produziu, escreveu e dirigiu “Salomé” (1923), onde todo o elenco é homosexual e, como em todos os seus filmes, traz um erotismo gritante e teve uma reputação escandalosa. Nazimova também financiou todo o filme, que foi um fracasso de bilheteria e a deixou totalmente quebrada. Começou a ser perseguida e a sofrer na pele por ser o que era, mulher livre e homosexual,  iniciou-se uma série de rejeições para filmes, foi acusada de comunismo e chegou a tentar suicídio. Tentando fugir da perseguição que sofria, vendeu sua mansão e com a repressão ao lesbianismo que só crescia nos EUA, decidiu passar um tempo em Paris, onde  namorou a sobrinha de Oscar Wilde.

Salomé (1923)

Em 1940, já de volta aos Estados Unidos,  começa a fazer cinema outra vez e participa de filmes como “Escape” (1940), “Sangue e Areia” (1941) e “Since You Went Away” (1944), seu último filme, feito um ano antes de sua morte. Alla Nazimova morreu vítima de uma trombose coronária, em 1945, aos 66 anos, publicou neste mesmo ano uma biografia onde faz grandes revelações.  Não é a toa que essa grande atriz é pouco falada e conhecida pela nova geração, quase não se acha mais seus filmes por aí. Tendo mais de 20 filmes, menos de seis sobreviveram ao tempo e as perseguições sofridas.  É lamentável!

Nazimova quebrou todas as regras de uma época onde os grupos religiosos estavam em alta, sofreu todo o tipo de preconceito e teve um papel importantíssimo na introdução da idéia de emancipação feminina naquele período nos EUA. Um grande exemplo de liberdade e de como a sociedade persegue desde sempre aqueles que não vivem de acordo com o que é pregado como certo e moral.  Revoltante.

O Evangelista de Sodoma

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um conto escrito por Coffin Souza.

Ilustrações de Leyla Buk.

A BODEGA DO FIM DO MUNDO

Ficava no meio do nada. Todos os desertos do mundo pareciam convergir e se encontrar num mesmo ponto. No centro desta desolação total, na aridez do vazio absoluto, se encontrava a Bodega.

O Velho Enrugado 1 (o moreno que usava um macacão cinza surrado) contava sua história. Mais uma vez. É, de novo. Todos conheciam aquele amontoado de memórias, feitos heróicos, traições e desapontamentos, tanto quanto os sulcos fundos que marcavam seu rosto e seus olhos eternamente úmidos, vazios, mas fortes.

Soou um sinal conhecido. Estridente e curto. Todos na Bodega remexeram seus bolsos, carteiras e mochilas e passaram a acender e fumar cigarros, cigarrilhas, charutos, e cachimbos, de tamanhos, aromas e procedências variadas. Era a Hora do Fumo. Depois das mortíferas Guerras do Tabaco, onde mais da metade da humanidade padeceu em meio a luta de fumantes contra não fumantes, ficou estabelecido que todos, absolutamente todo os adultos tinham o dever de acender e tragar algum tipo de tabaco durante uma hora por dia. Mas somente nesta hora. Mais precisamente das 18:30 às 19:30, para poder relaxar depois de um dia de trabalho ou de ócio e claro para satisfazer as Grandes Corporações Intermultinacionais, que firmaram o pacto e criaram a lei. Todos acendíamos nossos fumos e nos virávamos para as câmeras que nos vigiavam, mesmo sem saber se havia alguém do outro lado para nos fiscalizar.Dona Gorda não gostava do cheiro que ficava em sua boca escancaradamente carmim e em suas roupas rosa-choque. Fumava, mas secretamente não tragava. Dominando todo o ambiente estava a maior coleção de infusões alcoólicas do mundo. Ficava nas prateleiras que cobriam todas as paredes do lugar. Ninguém se atrevia a contar, mas se comentava a meio tom que eram mais de mil. Três palmos de altura por um palmo e meio de circunferência, transparentes e com tampas impecavelmente brancas e bem fechadas. Estes vidros continham abacaxi, mel, funcho, acerola, cidró, cravo, jiló, laranjinhas, tâmaras, gengibre, urtiga, leite de coco, pedras coloridas, ervas amargas, cobras, uvas tailandesas, ossos, flores, sementes e tudo mais que se pudesse imaginar (ou não) misturado com cachaça, rum, vodka e outros destilados.

Eu estava sozinho no meu canto habitual. Era a única mesa da Bodega que só comportava duas pessoas (bem espremidas, diga-se de passagem). Não sei por que havia escolhido aquele canto, ou ele me escolhido. Ficava contra a meia parede que dava saída para o corredor dos banheiros. Era verdade, que a vista dali era das mais privilegiadas da Bodega. Eu podia observar a enferrujada porta de correr da entrada, o grande balcão de fórmica amarela do Bodegueiro, todas as outras mesas e grande parte das infinitas fileiras de bebidas à nossa disposição. Apesar de toda aquela fartura de sabores, eu me entretinha com uma garrafa de Bitter. Composto de álcool potável, ervas amargas, aroma natural, acidulante, corante natural e 38 % de graduação alcoólica. Eu já fora um grande bebedor de cervejas. Já tivera minhas fases de coquetéis e de bravo explorador e provador da coleção de infusões, o orgulho do lugar. Agora me sentia satisfeito (e devidamente embriagado) com algo mais simples. O negro e amarguíssimo Bitter Leão de Tebas. Com uma rodela de limão e uma pedra de gelo, por favor.

Uma gargalhada solta, potente e conhecida reverberou por toda a Bodega, e fez tremer vidros, copos e pratinhos de amendoins salgados. Na mesa 18, a mais central, o Gordo Barbudo acabara de fazer mais um chiste, contado mais uma piada, ou inventado um apelido novo para alguém. Todos nos conhecíamos e nos tratávamos à partir dos apelidos que o Gordo Barbudo nos legava. Já a muito tempo esquecêramos  dos nomes, pré-nomes e incontáveis ou impronunciáveis sobrenomes. Agora éramos individual ou coletivamente, o Magriço, a Dona Gorda, os Filósofos, A Boquinha, Os Atletas, o Velho Enrugado 1, o Velho Enrugado 2, as Putas, o Vomitão ou o Gordo Barbudo, claro. Que era como eu o chamava. Ah, sim, prazer, me chamam de Cabeção. Mas já fui o Xarope, e antes ainda o Solitário 2. Apelidos são mutáveis com o tempo, vivencias e circunstâncias. Os nomes são concretos. E chatos depois de anos de convivência.

O Bodegueiro é sempre o Bodegueiro. Meia idade, meio careca, com um pouco de barriga, barba por fazer, roupas mais ou menos limpas, humor variável. Tudo no Bodegueiro era mais ou menos. Sem posição social ou política definida, trocava seguidamente seu time favorito e opiniões, condição primordial para agradar a todos. Falava-se que ele era um ex-seminarista desiludido, outros diziam que ele era um sábio, um místico com incríveis poderes e conhecimentos. Como o de saber de cor, todas as manias e os gostos de seus clientes. E o de servir o mais correto e gelado chopp que alguém já provara. Ele sabia que tudo não passava de ossos de seu ofício. Mas ele era uma lenda para todos. Por isso o Bodegueiro é sempre O Bodegueiro.

-Sabe o que mais me deixa angustiado?

-Fala.

-As últimas quinze ou vinte páginas do livro que estou lendo. Porra! Eu sei que estou chegando ao fim, que esta é a hora das revelações finais, toda a tensão e o prazer da leitura acumulados desde o prefácio e alimentado por parágrafos e mais parágrafos está para terminar. Quero, necessito e sei que vou chegar a última linha, a derradeira palavra, ao fatídico final, mas reluto sempre em terminar a leitura, é por isto que sempre começo a ler outro livro nesta hora…

-Mas o que isto tem a ver com a nossa discussão? Afinal, tu acha que o Schopenhauer era viado, ou não?

-Mas que mania esta tua de ficar dividindo todo mundo em viado ou não viado! Para mim tu é que é um frutinha!

-Ah, mas que este era, isto eu sei…

-Então o Nietzsche também era, Ecce Homo, Ecce Homo, homossexual, isto sim!

Na mesa próxima alguém se levanta bruscamente derrubando a cadeira e se apoiando na mesa, quase virando todos os copos e garrafas e gritando.

-Mas que bosta! Vocês não sabem falar de outra coisa a não ser nestas merdas de livros velhos? Se as bichinhas aí, que são tão inteligentes, então me respondam quem foi que acertou o meio-campo Bertichevski com uma joelhada na boca na XV Copa Mundial de Boxerball?

-Copa, que copa? Eu só conheço a copa aqui da Bodega…

-É, e copos! Completou outro dos amigos Filósofos, arremessando um copo vazio na direção da mesa dos Atletas, não acertando ninguém, mas recomeçando mais uma das intermináveis brigas entre as mesas vizinhas. Por que o Bodegueiro não separava cada grupo em um lugar distante era algo que ninguém entendia. Mas eu desconfiava. Quando não estava servindo ninguém ou de vassoura em punho entre as mesas, ele ficava limpando seu balcão de fórmica e rindo discretamente com a animosidade dos dois grupos de jovens teimosos. Acho que o Bodegueiro tinha sua forma particular de se divertir.

A música explodiu nas caixas de som e, quase todos se mexeram desconfortáveis em seus assentos. Já fazia dias que ninguém se lembrava da Máquina de Música, maravilha da tecnologia oriental. 5000 micro discos à escolha. Mais de 200 estilos musicais. Mas o Chato (por esta e outras tantas razões apelidado assim) colocava sempre a mesma valsa venezuelana que começava com o som daquelas típicas flautas latino-americanas e seguia com o choro de um acordeom acompanhado de violinos e harpas egípcias. O Chato ficava scaneando o recinto com seu olhar enevoado e obsessivo e então se dirigia até uma das mulheres para o convite formal para dançar. Desta vez a vítima era a Dona Gorda – para o alívio de todas as outras. Era impossível negar uma dança para ele, com toda sua refinada técnica de chatice, era capaz de ficar (e ficava) horas insistindo e argumentando e recomeçando a música de novo, até ser atendido. Enquanto a senhora se esforçava para levantar seus 130 quilos de formosura, alguns já arredavam as cadeiras e mesas para abrir espaço para o casal. Tanto na mesa dos Atletas, quanto na dos Filósofos e das Putas recomeçavam planos e idéias para terminar com massacrante situação. Cogitava-se sabotar a máquina, envenenar a bebida do Chato, improvisar tampões para os ouvidos, esperar a vinda de um Fiscal para fazer uma denúncia e, outras idéias mais criativas e impraticáveis, que sempre eram abandonadas depois de 13 minutos de tortura auditiva, quando a música terminava e a parceira-vítima-pobre coitada podia voltar para sua mesa com as pernas bambas e todos podiam beber aliviados.

Sua chegada foi um choque para todos nós, de fregueses até o Bodegueiro. Primeiro porque como era sabido, mas ainda não dito aqui, ninguém entrava ou saia da bodega a muito tempo.A maior parte de nós já nem se lembrava de como havia chegado. Ninguém tinha um motivo forte para querer partir. Segundo: o Novato (o Gordo Barbudo já catalogava uma série de apelidos provisórios, apesar de tão nitidamente assustado que até parara de rir.), parecia ser um dos famigerados e temidos Fiscais oficiais.

-Ele deve dividir a mesa comigo, já que é o único lugar vago, vai querer saber por que pareço tão anti-social e aí to fudido! – Com certeza vai querer ver meu alvará de funcionamento e saber da inspeção da saúde, como explicar que ninguém nunca vem até aqui. – Nossa, na Hora do Fumo ele vai perceber que eu não trago… – Este certamente é viado! – Vou ter que vomitar no banheiro agora… – Será que eu não vou mais poder fazer ponto aqui, então aonde vou encontrar clientes?

-Sabe, o Charley Patton cantava, na verdade resmungava alto “Rattlesnake Blues”, cê já ouviu o Patton cantar e tocar? Devia, o neguinho era muito bom; mas como eu dizia, enquanto a música rolava, ela me dizia seus “Ooohss! Oooh! Ooooohh!” e me chamava de “bêbado de merda”, aí não suportei mais e peguei minha garrafa e fui-me embora. Voltei uns dias depois, sabe? Na verdade queria pegar uns discos, mas também queria saber se ela queria fazer as pazes. Peguei ela fazendo seus “Ooohs” na nossa cama com um dos meus amigos de bar! Porra, o cara também era um bêbado e eles me viram entrar e não pararam de trepar! Saí com vontade de encher a cara ouvindo o Blind Lemon Jefferson cantar “Long Lonesome Blues”… “i walked from Dallas, i walked to Wichitta Falls”… Cê já ouviu o Blind Lemon?…

O recém chegado, de pé do lado do balcão fazia uma cara de tédio e impaciência e todos nós sabíamos que o Velho Enrugado 1 ainda nem começara a contar de como fora preso e torturado. Será que os fiscais tinham alguma lei contra que lhes alugava os ouvidos e repetia as mesmas histórias infinitamente?

-E ainda é parecido com o Bukowski, comentou um dos Filósofos; Buqui… queemm? Perguntou uma das Putas, e os Atletas caíram na risada, e a Boquinha arrastou um deles para uma chupeta rápida no corredor dos banheiros e aí tocou o alarme e todos acenderam seus fumos e a Dona gorda tragou com medo do fiscal e se engasgou e todos souberam que havia se passado mais um dia.

-Não senhor, eu nunca ouvi falar deste Trebone Walter.

-Não é trebone, é T-Bone, T-Bone Walker, devia o negão era muito bom…

Já que o novato ainda não pedira nada e estava muito ocupado tentando se livrar do Velho, o Bodegueiro passou por mim com um esfregão e desinfetante para limpar certamente mais uma das obras primas em jorros que o Vomitão deveria ter executado sem muito esforço ao lado da privada número 12. Eu nunca conseguira entender porque quem planejara a estrutura da Bodega, havia construído um banheiro para cada freguês e mais um para o Bodegueiro. Ficavam no longo corredor na parte de trás da construção, depois da cancha de Bocha explosiva, bem nas minhas costas. Quase todo mundo só ocupava as primeiras portas (as com os números mais altos). As Putas costumavam levar seus clientes para os fundos onde era mais escuro por falta de lâmpadas que estragaram há muito tempo e o Magriço se refugiava lá para fumar seus baseados fora do horário permitido. Mesmo assim, o Bodegueiro limpava a todos e os mantinha impecáveis e cheirosos como todos os banheiros de qualquer bodega do mundo.

Vez por outra, um de nós motivado pela bebida farta e pelo isolamento, aparecia com idéias filosóficas e arroubos de imaginação. Lindinha, a puta mais nova (e também a mais feia, com longo nariz quebrado, bochechas enormes e cabelo de ”palha-de-aço” avermelhados) costumava, quando muito embriagada, ter ataques verborrágicos, e com um falar arrastado mas constante versava sobre a possibilidade de todos estarmos mortos. E no Paraíso. O Bodegueiro seria na verdade o Ser Supremo, o Bam-Bam-Bam do Universo, o Supremo criador de toda a… Cerveja! As outras Putas riam e riam que se mijavam, mas no fundo, bem no fundo ficavam pensando no assunto. Como é do conhecimento de todos, mas aqui ainda não escrito é que toda puta é meio mais ou menos assim, mística, supersticiosa. Ou você conhece alguma puta que seja ateísta?

Estremeci. Alguém da mesa da frente tremeu. Toda a Bodega pareceu se arrepiar. Fez-se o silêncio. Fúnebre. No meio do bar, de pé, imponente, o Fiscal pedira a atenção e retirara do bolso de seu longo casaco azul um documento para ser lido. A temida hora da verdade estava chegando para alguém. Quem teria cometido a maior infração? Quem seria advertido, multado, interrogado, punido, torturado? E, porque? Temi pela minha segurança, mas também pela de todos, já que nos sentíamos como uma grande e ruidosa família de bêbados. Tínhamos vínculos uns com os outros, criados durante os porres Homéricos. E com aquele lugar. Durante muito tempo a única vida que conhecíamos. O homem lia o papel com ares de importância e eu divagando e tapando os ouvidos com as mãos e os cotovelos apoiados na mesa. De cabeça baixa, olhava em volta procurando nas expressões dos rostos, nos mínimos gestos, algo que denuncia se o conteúdo do oficioso papel e suas palavras que eu evitava ouvir. Por fim ele se calou. Enrolou o documento e se dirigiu para o balcão. Pediu um trago de uma infusão da coleção. Tomou-o em um só gole e sem mais delongas dirigiu-se para a porta e sumiu como tinha chegado. O silêncio ainda durou mais alguns eternos segundos, mas logo um arrastar de cadeiras, um tinir de copos e um muxoxo distante retomaram as atividades normais de nosso cotidiano ébrio. Não tive coragem de me levantar e me interar dos acontecimentos que com esforço conseguira abstrair. Pedi um chopp escuro para o Bodegueiro, fazia tempo que não tomava um. Pedi junto uma dose cachaça pura, pois tinha resolvido encher a cara de verdade.

-É por conta da casa, não vai ser descontado dos seus créditos, anunciou o mestre da Bodega- afinal, amanhã quando o ônibus estacionar ali na frente para levar todo o mundo, eu também vou fechar as portas. Ele sentou-se pela primeira vez ao meu lado com a cabeça meio baixa parecendo cansado e envelhecido enquanto falava. Havíamos sido esquecidos no exílio? Que exílio? Sair daqui? Para aonde? Não existia mais a Cidade das Luzes? Que revolução??

Meu chopp havia acabado e o velho amigo estava muito quieto agora, e melancólico. Levantei-me, atravessei o salão correndo e pulei por sobre o balcão, servindo-me generosamente do precioso líquido escuro gelado. Reparei que todos olhavam curiosos o meu atrevimento repentino. Ergui meu caneco e puxei um brinde. Todos se levantaram, me acompanharam e beberam sem falar nada. A Hora do Fumo soou automaticamente, mas desta vez poucos acenderam seus chaminés. Estávamos muito ocupados em tomar nosso último pileque juntos neste lugar. Nesta bodega. Nossa Bodega. Saúúúdee!

O EVANGELISTA DE SODOMA

Parte 1: ”De Onde Iremos do Nada Para Um Lugar Chamado Algum”

 “Posso duvidar da realidade de tudo, mas não da realidade da minha dúvida.”

 (André Gide).

A voz metálica estalou no ar:

-Por favor, desobstruam a pista onírica eletrônica para nosso irmão poder sonhar…

-Mas, eu não sonho mais!

Discordei

-Então construa alguma coisa de útil!

Insistiu

-Vou fechar todos os esgotos e abrir bem todos os buracos para poder deslizar na mais pura merda!

-Ai, Ai! Já imagino o fedor, estou ficando enojado…

-Mas eu vou fazer!

-O que? O que?

-Táxi! Táxi!!!

Chamei

-Senhor?

-Vamos motorista, mas antes…

Com o dedo em riste berrei a todo pulmão.

-Vá para a puta que te pariu!

-Vá o senhor, mas vá a pé!

-Não era contigo motorista, mas com esta voz de merda que parece ter um crucifixo enterrado no cú!

-Blasfêmias, Blasfêmias! Senhor que estais no céu, tende piedade deste ateu que está cagando (perdoe-me a expressão) para tua existência e piedade…

-Isto apele para teu deusinho imaginário, sua voz irritante!

-Pra onde o senhor deseja ir mesmo, Sr. Ateu?

-Olha, eu estava decidido a ir ao Esgoto Central, mas qualquer lugar longe destas vozes metálicas boiolas já vai me fazer bem.

-Conheço um ótimo Supra-Puteiro em uma área neutra aqui perto, senhor…

-Que seja. Elas, as putas de lá, aceitam sodomia?

-O que?

-Sexo anal…

-Hãããã???

-O Cú, elas dão o cú??

-Ah, claro senhor, é pecado, mas pagando bem que mal tem?

Fomos

-Voltem aqui, sonhem por favor, convertam-se, paguem o dízimo ou consumam alguma BigÓstia Sagrada Mac Burguer, Pelo Amor de DEEEUUUSSS!!!!!

A voz metálica ficou ao longe.

 PARTE 2: “De Diversões Noturnas e Outras Práticas”

A velha gorda cafetina Dona Gertrudes Santíssima, nos recebeu sorridente e sem dentes.

-Ceeerrveja gelada custa cinco doletas. Quente só quatrrro e cincoenta. Uma rrraapidinha com os meninas só trrreezentas doletas. Com chupeta existe um acrrreecímo de trrinta doletas. No rrraabo só com amoorr…

-Já vi que a coisa não vai ser fácil…

Não falei, mas pensei cá com meu zíper.

-O senhor pode conversar e escolher uma das meninas, sentado ali naquele sofá. Eu já tenho a minha preferida, ta vendo aquela japonesinha mirrada, ali com os peitinhos de fora e saia comprida? Pois ela não tem a perna direita. É mecânica, modelo antigo e barato, sabe… meu fetiche.

-Mas vamos tomar uma cerveja primeiro!

Sugeri

-Não senhor, eu posso até fuder em serviço, mas beber nunca…

-Baita profissional, o senhor… Como se chama mesmo  taxista?

-José. José Judas Malaquias de Abreu. Mas pode me chamar de Zé…

Disse já arrastando a japinha perneta para um dos quartos próximos.

“O AMOR É COMO ONDAS QUE ARREBENTAM NA PRAIA DE QUEM ACREDITA QUE AMAR É COMO AS FLORES QUE MURCHAM NO FRIO DO VERÃO PRIMAVERIL, LAIÁ-LAIÁ, LAIÁ.”

Uma voz chorosa cantava na radiola

-Bosta de Merda! Que caralho de música ruim…

Em voz alta pensei.

-Oi, Paixão! Cê quer que eu cague em cima de ti? Nãaããoo? É que eu ouvi tu falando em bosta e eu pensei, este cara deve ser legal e vai me querer, porque, sabe? Eu-tô-na-vida-porque-fuiabandonadapelomeunoivoquedescobriuaminhataradecagar…

Ela ficou falando um tempo enorme sem parar.

-Não, obrigado, vou conversar com tuas amigas ali no sofá.

-Aí paixão, sê não gosta de merda?

-Não as que saem pela boca…

Debochei

-Além do mais, cú cagado não tem graça, já vem lubrificado, né amor?

Uma morena alta e corpulenta interferiu na conversa me puxando pela mão

-Não é o caso. Só não gosto de burrice-chata, ou chatice-burra, me tira o tesão!

-Então amor vamos nos sentar e aí tu me paga umas bebidas caras e me fala umas coisas inteligentes e depois pode enfiar o que quiser nos meus buraquinhos. Eu só não beijo de língua, ouviu?

“LÁ-LÁ-LÁ, LÁ ONDE MORA MARIA MADALENA? VIVE ELA COM JESUS O ISCARIODES? LÁ-LÁ-LÁ, LÁ DENTRO DELA MORA O AMOR DE DEUS, OU O FILHO BASTARDO DO CRISTO NOSSO REI?…”

-Pensei que já tinha ouvido de tudo que fosse ruim, mas samba-gospel-brega era o fim.

-Porra, não dá para mudar esta música horrível? Acho que sou só eu de cliente por enquanto, e tenho aqui uns micro-cds…

-Poderrr eu posso, mas o rraapaz tem que gastaarr, além de gostaarrr…

-Ok, você venceu, me vê uma Brhamilda Triplo Extra.

-Só temos a Nova Kult e a Virrrgen Marrria Pilsen.

-Virgem, o quê?

-Viirrrgem Marrrriaa, a mais gostosa das geladas, você queerrr experrrimentarrr?

-Tudo bem, me trás uma virgem destas.

Vir a um puteiro para experimentar uma virgem…

Fim do Tomo 2

O EVANGELISTA DE SODOMA– Tomo 3, tomo 4 e muitas outras.

Sem comentários. Depois da ressaca continuo.

 O EVANGELISTA DE SODOMA – Parte 4 – NA SACADA

-Nenhuma carne será poupada… A Ira do Altíssimo vai se derramar sobre aqueles que duvidam de seu Amor Infinito e da Redenção da alma Eterna… oh … Senhor… Senhor… Nosso Senhor… Amém… Aleluia, Amém…!!!

A mesma velha balela de sempre, cuspida pela horda interminável de velhas carolas vestidas de preto e vermelho que abriam a procissão das 18:30, a minha favorita.

-… Don’t you know,know i like, can always be na Angel…

A voz rasgada de Eric Burdon soava distorcida na cópia da cópia de um milenar disco compacto, absolutamente ilegal, já que só se podia ouvir as músicas das rádios oficiais; 100% religiosas. Mas na intimidade da sacada úmida de meu minúsculo apartamento eu era o senhor de meus ouvidos e me permitia ouvir The Animals mesmo com a cantoria  dos fanáticos lá fora.

-Oh, Senhor, tende piedade de seus filhos… Aleluia!… I’m Just a soul who’s intentions are good, Oh Lord, please don’t let me be misunderstood… Aleluia, Amém… OH Jesus amado…

Abri mais uma garrafa geladíssima de Virgem Maria e puxei  uma cadeira para a sacada para assistir de camarote o longo desfile de penitentes e outros birutas . Certamente esta era a procissão mais concorrida das doze diárias que percorriam a Cidade das Luzes durante o fim de semana. As vovós doidas já haviam passado. Agora vinham sete fileiras de freiras da Ordem Das Irmãs Divinas, carregando suas longas velas pretas e seus rosários de contas coloridas. A Ordem era a maior e mais popular atualmente. Constituída apenas de homens solteiros de todas as idades e que haviam desistido de participar do complexo jogo amoroso, e não queriam mais saber de sexo. Castravam-se e se vestiam com os mesmos hábitos pretos ou cinzas das freiras tradicionais. Cantavam com suas vozes agora afeminadas, mas não renegavam a antiga condição de machos e cultivavam longos bigodes e cavanhaques bem tratados. Uma das muitas aberrações sociais criadas pelo maldito Concílio 13. Eu ainda preferia ser um macho frustrado em constante busca de sexo pago ou solitário…

“Sometimes i found myself alone regreting, yeah. Some foolish things , some simple things i’v done… I’m Just a soul… ”Aleluuuuuiiiiaaaaa, AAAAleeeelluuuuiiaa, AHHHH!!!…

O espetáculo burlesco continuava, a Assembléia dos Anjos Desnudos abrigava uma horda de anões pintados com tinta dourada e com asas de plástico prateadas, exibindo suas genitálias e tocando longas trombetas; a Igreja da Santa Pobreza trazia pessoas que antes pertenciam a castas mais abastadas e que por causa de desastres, incompetência ou falta de ligação com o clero Governamental haviam mergulhado na mais profunda miséria e mesmo assim continuavam agradecendo as graças recebidas, e finalmente os gritos dos Penitentes de Oman, nus, rastejando e sendo açoitados por jovens coroinhas e estudantes de teologia sádicos. Pagavam seus pecados e curtiam de forma explícita suas perversões masoquistas. Toda a procissão do final parecia um imenso circo fetichista. E era. Sequei minha cerveja e ainda fiquei observando o espetáculo patético por alguns minutos. Entrei, fechei a sacada e aumentei o som. Acendi um cigarro e me joguei na cama. Tinha que esperar mais um quarto de hora para que as ruas ficassem livres dos fanáticos. Depois eu iria sair e procurar meus antros. Cada dia mais difíceis de encontrar. Os gritos dos penitentes agora encobriam a tudo e entravam com força através das paredes. Assim mesmo, depois de um tempo adormeci…

Fim desta parte.

O EVANGELISTA DE SODOMA- INTERLÚDIO ONÍRICO

 “Realidade é o pesadelo do Mundo dos Sonhos”

(Esaú Wendler)

Estou em frente a uma porta muito alta e bastante estreita. Totalmente entalhada com motivos florais. Feita de uma madeira escura e perfumada. Grossa e pesada. Abro-a com dificuldade. No centro de uma sala circular, totalmente branca, brilha um imenso telescópio prateado. Aproximo-me e por suas potentes lentes passo a observar o Cosmos infinito. Avisto um gigantesco asteróide de forma irregular que flutua na plenitude do nada. Uma observação mais cientificamente demorada e descubro ser um conglomerado da mais pura bosta! Será este o Deus de milhões de crentes, na sua imunda plenitude? Indago-me. A imensidão de fezes se aproxima rapidamente e a vejo cair por sobre um extenso campo de girassóis. Forma-se então uma altíssima coluna que vara as nuvens e parece feita de pedra íngreme. E mal cheirosa, imagino. Estou agora escalando a montanha de pedra-bosta com as mãos nuas, perdendo pedaços de unhas e de pele na empreitada. Um rastro de sangue marca a minha escalada rumo a uma minúscula plataforma do mais puro e fino gelo azulado que se forma no topo, além das nuvens, além de todas as razões. Alcanço-a e passo a me equilibrar precariamente, enquanto o sangue que escorre de minhas mãos em carne viva vai manchando a superfície da plataforma com um vermelho-rubi intenso. Procuro no meu íntimo uma razão para tamanho esforço… Olho profundamente para o meu interior e encontro um imenso corredor com ladrilhos em preto e branco formando espirais absurdas. Centenas, talvez milhares de portas iguais a primeira que abri estão a minha frente. Ruídos estranhos, cochichos, gemidos, gritos e estrondos ecoam pelo corredor sem fim. Caminho em frente, indiferente a miríade de sons que parecem querer me seduzir em abrir e penetrar nos segredos por detrás dos batentes e fechaduras pesadas. Dobro um corredor e passo por uma cortina de plástico como as de banheiros e então estou no meio de uma estação de trens intercontinentais, tomando um café expresso em um balcão. Levanto os olhos e me vejo cercado por freiras com seus hábitos poeirentos e jovens com camisetas com dizeres construtivos. Não ouço vozes, apenas um zumbido metálico intermitente. Merda do caralho! Isto não é um sonho comum, é parte de minhas lembranças da época que viajava a trabalho. Porra, então este som deve ser de uma sonda mental! Algum Espião-cristão em serviço. O filho-de-uma-puta está rastreando meu cérebro. Devo ter esquecido de tomar meu inibidor de sonhos. Preciso acordar. Agora!

Fim do interlúdio.

O EVANGELISTA DE SODOMA – La Perle Des Profondeurs

-Não, não é possível!

-O quê???

-Não é possível que você não acredite em nada! Você tem que crer em alguma coisa…

-Mas eu creio… Creio em liberdade individual… na imaginação e criatividade humana… creio na miséria e mediocridade da sociedade… acredito que toda a religião, igreja ou culto são engodos vergonhosos… acredito no meu ateísmo e que tu falas a verdade quando diz que crê em algo, mas…

-Não! É diferente, estas coisas eu já sei de ti, mas estou falando que…

Eu ficava observando e admirando o profundo azul dos olhos dela. Olhos que não me viam, mas procuravam enxergar muito longe. Enquanto ela falava e falava, eu me distraía admirando seu corpo muito esguio e alvo. Seus longos cabelos loiros cacheados, as inúmeras pintinhas em sua pele e seus ralos e macios pêlos pubianos, um pouco mais escuros que os de sua cabeça. Acariciava sua pele nua e procurava não pensar nos motivos que me levavam a procurar sua companhia de forma periódica e compulsiva. Seria…

-Tira a mão daí! Você não está ouvindo nada do que eu estou falando!

-Claro que estou. Você continua tentando con-ver-ter-me!…

-Cretino! Tu ta me masturbando. Só pensa em sexo e bebidas.

-E em música. Boa música. E tu também tens bom gosto, já que tem ouvido os discos que te presenteei…

-Não mude de assunto! Estou falando das tuas convicções e aspirações. Virgem Santa, eu gosto muito de ti e me preocupo. Tu é contra todos, quer viver a margem de tudo, e não se apega a nenhuma fé, quer morrer sozinho?

-Você está enganada Lurdes (seu nome era Maria de Lurdes Glória dos Santos, 15 ou 16 anos, cega de nascença e prostituta desde os 10 anos) tem coisas desta tua sociedadezinha cristã-ditatorial que eu gosto. Não preciso trabalhar por que ninguém pode passar fome e frio, me viro com a esmola oficial do Estado-Igreja. Bom, e a cerveja e o vinho ainda são liberados, apesar de eu ficar só com as geladas. Pô, todo o vinho é suave. Vinho de missa. Dá azia. E as prostitutas, como estão presentes em toda a história Bíblica, são protegidas pela Lei Madalena, como tu bem sabes, o que mais eu vou querer?

-Por favor, tu precisa de alguma coisa que te preencha, algo no fundo do teu coração que…

Aquela conversa de “preencher”,  ”algo no fundo”, me reergueu o tesão. Enquanto ela tentava a todo custo me converter a alguma coisa, e argumentava que era perigoso eu viver assim, fui colocando-a de bruços com um travesseiro em baixo de sua barriguinha e com uma pequena quantidade de cuspe lubrifiquei seu rabo e a penetrei com apenas uma estocada. Ela gaguejou um pouco, mas continuou a falar e pregar enquanto era sodomizada. Puxei-a pelos longos cabelos para beijá-la na boca para ver se a calava, e vi que estava chorando. Lambi suas lágrimas e não senti nenhum gosto de dor física. Uma linda prostituta adolescente, cega e talvez apaixonada… prometi a mim mesmo que seria a última a vez que a procuraria… com um pouco de pressa, gozei…

 O EVANGELISTA DE SODOMA – O Monge Ateu

 “A imaginação é o único terreno onde o homem é realmente livre.”

(Luis Buñuel)

 Assoviei três vezes e depois fiquei piscando com minha lanterna de bolso apontando o facho para sua janela. Era sempre o mesmo ritual de sinais secretos que me abriam as postas de um dos meus refúgios preferidos: O Museu de Comunicação & Imagem & Som. Logo ele apareceu no pátio interno dos fundos do prédio, arrastando seus chinelos, segurando um enorme porrete de madeira e resmungando como um velho muito velho.

-Quem está aí?

-Abre logo este portão e não faz gritaria seu maluco, tu sabes que sou eu…

-Ora… ”eu”, ”eu”… que resposta mais vaga, quantos “eus” eu tenho dentro de mim e nenhum deles vem me incomodar a uma hora destas…

-Porra Ezequiel, qual dos “eus”, fora os teus mesmos, que poderia estar aqui e saber a tua senha, a não ser… EU…?

-Psssss! Não mostre que sabes o meu nome seu bostinha, eu tenho que fazer de conta que estou cumprindo a minha obrigação, pelo bem de todos e a felicidade geral das religiões. Digitou rápido o código de acesso no cadeado eletrônico que se abriu tocando alguns acordes de um hino religioso qualquer, lembrando-nos que mesmo ali, último reduto da sabedoria e cultura geral, os dogmas e mandamentos da religião oficial estavam presentes.

-Entre logo bostinha! Falou sorrindo -Seja bem-vindo de volta a ilha, a minha pequena ilha isolada, perdida e desabitada, cheia de prazeres, ditos proibidos! -fazendo uma mesura exagerada como era de seu costume.

Entramos apressados, Ezequiel, “Monge” como eu o apelidara,foi logo acionando as luzes dos longos corredores do comprido prédio de dois andares e que mais se assemelhava a um depósito. E o era. Guardados em prateleiras largas e etiquetadas eletronicamente, estavam livros, periódicos, revistas, discos, rótulos, fotografias, brinquedos, máscaras de teatro, antigas máquinas de escrever, de fotografar, filmar e gravar sons, papéis, muitos papéis, peças de teatro, roteiros de filmes, cartazes, poesias, histórias em quadrinhos, cópias de obras de arte popular, negativos, material iconográfico e documento. Todo este acervo era de material considerado pagão ou ateu. Ou subversivo, anarquista, libertário, pornográfico ou simplesmente considerado desinteressante para o Estado-Igreja. Por razões desconhecidas estes milhares de itens não haviam sido destruídos nem desapareceram misteriosamente. Foram arquivados neste “museu” e estavam teoricamente à disposição de quem quisesse consultar. Mas como Monge bem sabia em todos os anos que fora o zelador do local, muito poucas pessoas tinham cruzado oficialmente suas portas. Aliado ao profundo desprezo dos deístas e da população em geral à cultura, havia um complexo entrave burocrático que desanimava quem tivesse o interesse ou alguma curiosidade. Além disto, desconfiava-se que o edifício e seus tesouros eram na verdade uma enorme armadilha para se descobrir potenciais, “ateus-subversivos”. Afinal, tudo que havia oficialmente liberado para se ler, ver ou ouvir estava disponível nos templo, igrejas e é claro na R.E.S.A. e no S.B.T. Monge era o zelador permanente e morava ali mesmo em meio de tantas maravilhas culturais.

Fui seguindo-o pelos corredores já conhecidos enquanto ele falava sem parar. Parou em frente a sala de vídeos e digitou o segredo para abri-la.

-Esteja a vontade como sempre seu bostinha, vou te mostrar uma “coisa legal” como se dizia no meu tempo!

Sentei na primeira poltrona e Ezequiel logo atrás. Logo acionou o enorme telão e desligou as luzes. A sala se encheu com imagens borradas, truncadas de uma cópia antiga e mal conservada… ”Allen Klein Productions”, um cenário irreal, uma espécie de religioso com roupas pretas, música tribal, um cadáver coberto de moscas, dezenas de crianças nuas, um aleijado sem pernas e braços, um arremedo de cristo crucificado, um circo de sapos… Uma avalanche de imagens poderosas, uma mistura de circo e teatro (duas artes praticamente mortas nestes dias de TV-Dimensional); Pássaros saindo das entranhas de mortos, uma loja com milhares de imagens idênticas de crucifixos…

-Putaqueopariu! Que filme do caralho! Isto é o que tinha que passar no S.B.T.

-Sabia que tu ia gostar, bostinha. Foi realizado per um artista da antiga América do Sul, a mais de cem anos. Mesmo em sua época foi polêmico e revolucionário. Hoje em dia seria inconcebível e potencialmente criminoso.

Monge continuou dissertando sobre a obra e passando-me as informações que conseguira reunir em antigos arquivos sobre outras obras transgressivas de uma época em que política e religião corriam juntas, mas as pessoas ainda tinham vontades próprias e o livre pensar. Não eram muito incentivadas a isto, mas também não eram consideradas criminosos insanos.

Não havia muito mais do que quarenta minutos de fragmentos do filme preservados, por isto fiz com que Ezequiel voltasse a gravação várias vezes durante a noite, enquanto nos entupimos de café preto forte. Monge era abstêmio, como para provar que ninguém é mesmo perfeito. Discutimos, filosofamos e blasfemamos até o amanhecer. Saí de lá quando senti que meu velho amigo já estava muito cansado e fui para meu apartamento a pé, tentando colocar meus pensamentos em ordem. Quanto mais firmeza sentia em minhas convicções, mais perdido me sentia em um mundo que definitivamente não era o meu. Como eu gostaria de ter a criatividade e capacidade para poder externar  meus pensamentos e de outros em uma obra que pudesse ser lida, vista ou ouvida por meus pais, por meus companheiros de bar ou por Lurdes. Imaginei até um título pomposo “O Evangelista de Nova Sodoma”, ou algo parecido…

 O EVANGELISTA DE SODOMA- Interlúdio Cultural

Região montanhosa da Baixa Gauchudéia, cerca de 850 D.C… Pobres agricultores e criadores de cabritos albinos anões viviam sob o julgo do monarca Petrus Erbus II. Seu reinado a mais de vinte anos, impunha severos tributos sobre as parcas colheitas e metade dos rebanhos, que serviam para grandes banquetes onde eram recheados e assados com iguarias exóticas. A população em geral só costumava criar os pequenos animais para aproveitar seu leite, forte e abundante, já que eram desprovidos de pouca carne em seus corpos diminutos e esquálidos. Já sua majestade, também era apreciador de vinhos, e cultivava de forma cada vez mais extensa, diversas variedades de uvas que só podiam ser colhidas, fermentadas e consumidas pela família Real, ou seja, somente ele, já que era viúvo pela quarta vez e não tinha herdeiros diretos. Incumbira ele agora, seus vinicultores reais de encontrar o melhor lugar para o cultivo da rara uva Moscate-Branco-Azulada, que renderia um maravilhoso vinho licoroso de refinado aroma silvestre.

No sopé do penúltimo morro dentro das fronteiras Gauchudéicas, vivia a infortunada família Crutis. Habitavam o local a várias gerações, sempre com dificuldades, quer seja pela região inóspita e pedregosa, quer pela temperatura instável, que variava abruptamente no meio das estações. Além destas dificuldades para a agricultura e pecuária, estavam muito próximos da fronteira com a Região Catarinítica, antiga Alta Gauchudéia, em constante atritos bélicos desde sua independência, o que os deixavam a mercê de ataques de soldados dos dois lados. Enquanto viveu ali, o último patriarca Crutis, Salamin Crutis, a família apesar dos contratempos e agruras, sobrevivia com o cultivo de nabos roxos e batatas amargas, e a criação de dezenas de cabritinhos leiteiros. Todo o final de ano, após pagarem os tributos – apesar da distância com o poder central nunca eram esquecidos pelos cruéis cobradores de impostos; Reuniam-se com os poucos vizinhos e recebiam parentes distantes e dividiam uma ceia com pão de batatas amargas, salada de nabos e muito leite e queijo caprino. Celebravam assim o Natal e o Ano Novo juntos e oravam e agradeciam a Deus pela felicidade de todos, inclusive de Sua Majestade. Durante a última celebração, o clima sempre instável lançou uma violenta tempestade com raios, ventos fortíssimos e uma chuva abundante que varreu a região por mais de uma semana. Salamin Crutis, que auxiliava o sacerdote, primo seu, a preparar o culto, lembrou-se que não havia recolhido seus cabritos, e apesar das súplicas de todos, saiu em meio à tormenta para procurá-los. Foi encontrado dois dias depois no fundo de uma ravina, empapado de lama e com os miolos esfacelados depois da queda. Protegida em seus braços, apesar da fome e do frio, uma pequenina cabrita estava milagrosamente viva.

Precisaram esperar vários dias para enterrá-lo por causa dos temporais contínuos, e rezaram por sua alma e agradeceram a Deus pelo homem fervoroso, dedicado, trabalhador e bondoso que se fora. Após o funeral, todos os parentes e vizinhos distantes se foram, desejando boa sorte para a família: A matriarca Verzolina Crutis, o filho mais velho Benício – 14 anos; Anícia – 12; Onícia – 9; e os gêmeos Salício e Docília – 3 anos. Apesar das orações e da fé inabalável dos Crutis, os tempos seguintes foram de miséria, fome e desespero. Grande parte do rebanho se fora na noite fatídica, a chuva e uma posterior avalanche de pedras e lama destruíram todas as plantações, que não conseguiram reflorescer, pois sobrevieram meses  do mais puro e intenso calor e seca.Todos trabalharam arduamente, enfrentando juntos as adversidades, e os pequenos gêmeos encarregados de cuidar dos cabritos anões no cercado, acabaram contaminados com as fezes dos animais com quem brincavam, e Docília morreu com a Febre Caprina e seu irmão depois de semanas de sofrimento sobreviveu com seqüelas graves na locomoção e fala.

Quatro anos depois que seu pai se foi, Benício, como todos os dias trabalhava duro, suando enquanto carpia e rezava quando viu aproximar-se uma comitiva Real. O mais estranho é que não era época dos impostos e não lhes havia chegado nenhuma notícia de conflitos bélicos recentes, únicos motivos para os emissários empoados de Petrus Erbus II se aventurarem por estas plagas.

“SUA MAGESTADE, O MAGNÂNIMO E JUSTO PETRUS ERBUS II, VEM POR MEIO DESTA…”

-Interlúdio Cultural: A Vida de São Benício – é um oferecimento das LOJAS NOSSA SENHORA APARECIDA: Por que você também é uma beleza sagrada!… Meias São Francisco: Todos podem caminhar e peregrinar a vontade, elas não rasgam nem ficam com mal-cheiro…  Papel Higiênico Arcanjo Miguel: branco e macio como… asas de anjo… e logo após assistam ao culto ecumênico presidido por sua…

-Porra de Merda! Estes burros destes padrecos nunca apreendem a programar o corte para a entrada destas ridículas propagandas de lixo… vou aproveitar para pegar mais uma cerveja e dar uma cagada. Se os filhos da puta do I.N.R.I. soubessem  como eu curto estes programas com a vida destes absurdos santos e santas que eles inventam, ainda mais com estas interpretações e cenários capengas. Já é a terceira vez que assisto a história deste babaca que plantava ervilhas para alimentar a família sofredora e é intimado a plantar uvas para o Rei e se rebela e se… ahhhh… uh… Santa caganeira, tudo culpa desta comida 100% transgênica. AHhh… acho que vou perder uma parte do programa.

-… E VOCÊ BENÍCIO CRUTIS, POR TER RESSISTIDO A UMA ORDEM REAL E TER INCITADO O POVO A REBELIÃO CONTRA SUA MAGESTADE, SERÁ CONDENADO A MORTE POR ESQUARTEJAMENTO, DEPOIS DE 3 DIAS DE TORTURAS OFICIAIS, ASSIM SEJA!

-Que Deus nosso senhor perdoe as suas almas e de nosso monarca! Por favor, me torturem e me matem, mas não destruam a nossa plantação! Como a minha família vai conseguir viver e plantar as uvas Reais se não tiver o que comer?

-Ora seu cristãozinho estúpido, comam estas cabras que vemos rondando por aí ou folhas de parreira, ou rezem para seu Deus os ajudarem! AH! AH! AH!

-Este cara é foda! Uma das razões por eu gostar tanto deste programa: Vicente Leonardo é o mais canastrão, afetado e sádico vilão da Dígito-TV. Ele sempre faz estes papéis de algoz e torturador de religiosos. Ele gosta muito destes papéis, deve ser um esperto de um ateu que se aproveita para colocar suas fantasias na tela… velho Vicente, tu também deve achar vida de santo muito engraçada…

… E o fervoroso Benício foi amarrado de cabeça para baixo em uma cruz de madeira e obrigado a assistir aos guardas estuprarem e degolarem sua bondosa mãe e sua cabrita favorita, aquela mesma que seu saudoso pai morrera para salvar. Chorou desesperado ao ver suas irmãs virgens serem levadas acorrentadas pra servirem ao Bordel Real e seu irmão mais novo, paralítico e retardado Salício, ser utilizado como alvo vivo para um torneio de arco e flechas incandescentes.

-Oh, Senhor, perdoai-os porque eles sabem muito bem o que fazem. Entrego minha alma aos céus, mas, por favor, não deixe este tirano possuir esta terra sagrada que sempre nos acolheu… Um violento chute na boca arrancou os poucos dentes que ele ainda possuía e o fizeram se calar. Nos dias e noites vindouros, Benício foi espancado, queimado, esfolado, escalpelado, sodomizado e emasculado e finalmente decapitado. Durante todo o tormento nunca deixou de rezar pedindo perdão a Deus por suas faltas e proteção para suas terras. Então seu corpo foi esquartejado e estripado. Seu coração foi levado ao tirano e o resto foi queimado até virar cinzas que foram espalhadas aos pés das parreiras recém plantadas aonde antes haviam as vagens de ervilhas.

Mais de uma estação se passaram, até que Petrus Erbus II se lembrasse de um de seus milhares de caprichos e consultasse os seus vinicultores para saber das parreiras com uvas Moscato especiais vindas da longínqua e exótica Chapecônia. As respostas foram todas excepcionalmente evasivas e estranhas. Durante semanas tentou arrancar, inclusive sob ameaças, alguma informação de seus servos quanto ao futuro de seu mais especial vinho, sem sucesso. Preocupado com algum complô ou temendo que alguma ação dos inimigos Catariníticos estivesse sendo escondida de sua Monárquica pessoa, mandou torturar primeiro a família e depois o próprio Grande Mestre Vinicultor, que foi depois jogado para ser devorado pelos cães da matilha real. Vencendo sua lendária preguiça, ele mesmo o soberano de toda a Baixa Gauchudéia iria até a remota região fronteiriça para conferir as histórias absurdas que lhe eram contadas. Depois de exaustivos doze dias de viagem por entre os morros e colinas de seu reino, o descrente Petrus chegou até aquela aparentemente inóspita região e encontrou-a totalmente tomada por lindas e ricas parreiras, pesadas de cachos azuis. Uma legião de velhos sábios, com seus monóculos de pedra cristal, investigavam tudo e confabulavam excitados. O monarca desceu de seu coche dourado, e aos berros exigiu saber por que toda esta opulência na safra estava sendo mantida em sigilo e por que não havia sinais da fabricação do tão esperado licor azulado. Entre gaguejos, pigarros e estapafúrdias explicações místico-científicas, o incrédulo tirano pode constatar com seus olhos e mãos, que misteriosamente, dentro de cada baga de uva, de cada cacho, dos milhares que haviam crescido em toda parte, ao invés do fruto a ser esmagado e fermentado, havia uma insossa, pobre, ridícula e amarela… ervilha! E mais, os experimentos dos sábios haviam constatado que tudo que era plantado naquelas estranhas terras, de batatas a laranjeiras, terminavam por apenas germinar… ervilhas amarelas. Petrus que nunca ficou sabendo da história de seu súdito crente-rebelde que havia sido morto ali, voltou para seu palácio e logo se esqueceu do exótico ocorrido. Seus sábios, depois de algum tempo, desistiram de entender o ocorrido, mas o povo, desejoso de milagre e de fé, cultuou o local secretamente. Aos poucos ali foi erigida uma igreja para o milagroso São Benício, protetor dos criadores de cabritos albinos e plantadores de ervilhas. Neste mesmo local, hoje, ao lado da linda catedral amarela, funciona a todo vapor, a magnífica e abençoada Fábrica de ervilhas, milho e legumes enlatados São Benício: os enlatados preferido pelas donas de casa cristãs do mundo todo. Ervilhas enlatadas São Benício, atualmente 100% transgênicas e abençoadas por Sua Zumbificiência John Paulus III. Amém, Aleluia! Acabamos de apresentar…

Puta merda! Eu achava que o Vicente Leonardo aparecia mais neste episódio, acho que confundi com o da vida da Beata Terezona, protetora das loiras gordas e chifradas… acho que o excesso de cerveja está afetando minha memória, falando nisto acho que vou tomar mais uma ou duas e comer alguma coisa… menos… ervilhas…

O EVANGELISTA DE SODOMA – parte 7: Nem Tudo Que é sólido se Desmancha com Ácido.

A voz nasalada de Bob Dylan cantava “Knockin’On Heaven’s Door” em uma pré-histórica gravação em um disco preto e enorme, que eu encontrara em uma de minhas perambulações noturnas pelo lado mais isolado de Nova Sodoma. O artefato para escutar o disco, Ezequiel desviara dos porões do Museu, onde estava se deteriorando pela falta de uso. O som era abafado e cheio de chiados mas parecia mais real e humano que o som metálico das caixas ressonantes que espalhavam as vozes eletrônicas e as músicas sacras por toda a cidade. ”Knock,Knock,Knock…”… Merda!… Não era na porta do céu que estavam batendo, mas na do meu apartamento…

-Boa tarde, irmão! O Sr. deve ser… Se me permite…

Antes que eu pudesse abrir a boca, um sujeitinho baixote, rechonchudo e muito afeminado já havia se imiscuído com um rastro de perfume adocicado e enjoativo junto.

-Sim, sou eu mesmo e tu quem é?

-Marcos Tadeu de Almereyda, fiscal do I.N.R.I., veja minhas credenciais.

Gelei. Mas que caralho este cara queria comigo, será que eu fora denunciado?

-Pois bem meu Irmão, quantos fiéis vivem neste lar?

Questionou-me mecanicamente, depois de puxar seu micro de bolso para registrar as informações para os arquivos centrais. Aquilo me acalmou um pouco, o nanico devia ser mesmo um destes fiscais da vida alheia em serviço de rotina. Melhor que um dos P.M.S.

-Apenas eu, vivo sozinho.

Na verdade eu queria ter dito: Irmão o caralho sua bicha-cristã nojenta! Esta pocilga tem cara de lar? Tu achas que eu tenho cara de otário para me chamar de fiel?

-Idade?

-32

-Emprego?

-Faço parte da maioria.

-Quanto tempo está desempregado? Quantos dígito-televisores em funcionamento?

Fui respondendo e mentindo quase sempre enquanto abria a geladeira e preparava um sanduíche de restos e secava uma Maria Pescoçuda, tudo para não ter que encarar o sujeitinho e seu interrogatório irritante.

-Quantas missas esta semana? A última vez que se confessou? Comida transgênica preferida? Cor da cueca? Nããoo usa?

-Sim. Não. Não sei. Não tenho costume. Talvez…

-Quantas caixas ressonantes privadas? Nenhuma? E esta música estranha, mas bonita? Tenho um arquivo com mais de trinta mil músicas gospel-sacras e não conheço este irmão que está cantando… Que aparelho curioso é este?… Como o conseguiu? De que época é? Nooossaaa, tão velho assim? Como conseguiu autorização?

O Sr.fiscal de Almereyda foi chegando cada vez mais perto e passou a me encarar com um sorriso idiota nos lábios.

-Programa favorito do S.B.T.? Quantos exemplares do Biblecorão?

Notei que apesar de continuar as perguntas, ele já não estava registrando nada. Neste momento soou o Alarme da Hora do Fumo e ele puxou uma cigarreira dourada e montou rapidamente uma piteira da mesma cor, acendendo uma cigarrilha com fumaça cheirando a menta.

-Quer uma? Qual seu fumo favorito?

Esta eu não conseguiria mentir, odiava as malditas cigarrilhas, preferia os cigarros fortes e ilegais que consumia no bairro proibido, a qualquer hora e não quando um apito me avisasse. Gostava de fumar enquanto bebia nos bares e nem tinha cigarros em casa.

-O jovem irmão sabe que vou ter que informar algumas irregularidades a seu respeito aos meus superiores, como a falta de documentos deste aparelho sonoro antigo, sua falta de cuidado de não ter um estoque de fumo para “A Hora” e outras coisitas?

Minha vontade mesmo era jogar o maldito pela janela de minha sacada ou fazê-lo engolir o mini-micro computador, mas lembrei-me que todos em Nova Sodoma comentavam de como era fácil comprar estes fiscais, bastava encontrar seu ponto fraco.

-Como disse que se chama este aparelho interessante, irmãozinho?

-Pode chama-lo como quiser, é seu…

-Veerrdaadee? Aí, que lindinho… Muito obrigado… Sabe, vou ter que ir embora, parece que meu computadorzinho está em pane, vou ter que deixar sua entrevista para outra vez, possivelmente para outro colega, uma pena…

E foi saindo, escondendo como podia o aparelho com seu sobretudo azul por cima.

-Vitrola.

-O que?

-O aparelho, chama-se vitrola .

-Ah! Muito obrigadinho, sabe você tem cura, viu meu irmão? Quer um conselho? Não? Mas vou falar assim mesmo, você precisa ter uma companhia, alguém com quem possa dividir as dádivas e o carinho de Deus Nosso Senhor.

-Eu tinha gatos, vários deles anos atrás, antes de serem todos exterminados.

-Aí que horror, não fale assim, eles não foram mortos, foi a Praga Feli-canina que levou todos os nossos bichinhos… mas não era deste tipo de companhia que eu estava…

Fechei a porta na cara da figura. Eu já havia o comprado com um presente que eu dificilmente conseguiria igual. E Bob Dylan fora junto. Mas ele falara em companhia e carinho e eu me lembrei do Bairro Proibido, as putas, os bares, os bêbados, pouca luz e nenhum fiscal. Vesti-me e sai cantarolando: ”Knocking the door in the fat face… Knock, knock…”

O EVANGELISTA DE SODOMA – Interlúdio Criativo

AUTO-RETRATO

Meu nome é Kuottsaniaabo…

Bebo, penso, bebo, crio, bebo, escrevo e repenso… e bebo para comemorar… para viver e para pensar. Me chamem Kuot ou Aab, são vocês quem sabem. Sou apenas assim, carne e álcool em ação, em tormento, em transformação. Alguns me acham legal, outros me acham terrível, para mim sou normal. Meu corpo é frágil, um saco de carne e ossos boiando em produtos gordurosos e alcoólicos, mas não sejam melancólicos, sempre existe mais um pouco de bebida querendo sair ou entrar em mim. Meu nome agora é XXX… cansei do antigo, não o quero andando mais comigo. Continuo andando, bebendo e pensando, mas também fumando. Centenas de gramas de gás carbônico, nicotina e alcatrão, flutuando como névoa no que me resta de pulmão. Estou falando assim em rimas que nem sempre rimam, mas não se reprimam: sou aparentado com sua raça. Não que disto eu ache graça. Nem tudo que eu escuto eu sei o que quer dizer, nem tudo o que falo vocês conseguem entender. Estou em meu quarto lendo coisas antigas, apreendendo e escrevendo. Ou em um boteco bebendo, talvez vocês não estejam me vendo. Sou agressivo para muitos, invisível para outros. Também não vejo muito além do meu copo, a não ser quando me toco. Vocês me acham estranho, talvez… estranho?… sou apenas como outros bêbados, a divagar, devagar, sobre sua tamanha estupidez.

Agora é sua vez…

Acabo de escrever uma espécie de poema ou algo parecido utilizando um antigo aparelho de tipos e teclas com tinta que Ezequiel chama de máquina de datilografia e me presenteara. Foi trabalhoso, mas gostei de expor alguns pensamentos no papel, parece que ninguém mais o faz hoje em dia, em que todas as idéias, dizem, já foram impressas. Retiro a folha e a dobro, guardando para talvez, se eu tiver coragem mostrar mais tarde para meu amigo e mestre.

O EVANGELISTA DE SODOMA – PARTE 8: “Nas Bodegas da Vida”

Não me lembro com que idade eu comecei a freqüentar os antros, botequins e bordéis de Nova Sodoma, o bairro dito proibido. Primeiro foram os medos infantis, alimentados pelos fantasiosos conselhos maternos, que transformavam o bairro pobre e abandonado em uma filial do inferno. Depois que me convenci que infernos e paraísos só existiam dentro de nós mesmos, lutei contra a influência da propaganda oficial que alertava sobre o perigo do contato com os últimos marginais, párias, loucos e deserdados que se escondiam em suas ruelas escuras e fedorentas. Já que sempre me senti a margem de tudo e de todos, fui atraído como que magneticamente para lá, e agora consigo ficar um ou dois dias sem percorrer aquele labirinto desordenado, pulsante e cheio de surpresas, sem procissões, sem vozes gravadas, sem painéis luminosos com propagandas e mensagens; antítese do resto da Cidade das Luzes.

Em uma noite quente e úmida, não me demorei muito passando e entrei no primeiro bar que encontrei. Estava cheio. Pessoas de pé, bebendo, comendo tira-gostos, conversando, namorando ou se distraindo com velhos jogos de tabuleiros ou cartas. Nada de telas de computadores, nem dígito-tvs, nem pregações e também nada de ameaçador.

-Por favor, uma cerveja!

-Só tem chopp caseiro…

Aquilo sim era perigoso. Pedi um médio. O velho do outro lado do balcão encheu uma enorme caneca de alumínio amassada até a espuma transbordar. Deveria ter mais de um litro. Fiquei curioso para saber o tamanho da caneca grande. Tirei um pouco da espuma grossa com os dedos e sorvi um grande gole, sob o olhar atento e um pouco maroto do bodegueiro. Estava extremamente gelado, o que conseguia disfarçar o gosto, que lembrava algo entre urina e suco de repolho estragado (o que talvez realmente fosse). Gelou-me o peito e o estômago e me provocou um longo e sonoro arroto. Com um sorriso desdentado de aprovação, o velho voltou sua atenção para uma prostituta gorda e de cabelos azulados que queria uma fatia grossa de mortadela frita. Os bares do bairro proibido eram os únicos lugares aonde podia-se pedir comida que não fosse enlatada ou Transgênica-Ultra Higienizada. Eram torresmos, lingüiças, croquetes, salames, pães e ovos de procedência duvidosa, é claro. E era tudo muito gorduroso e temperado. Mas com gosto e cheiro de comida. Pelo menos o que eu achava que deveria ser. Tinha que me lembrar de levar alguma coisa substanciosa para meu amigo Ezequiel. Tomei mais um gole do “Chopijo” e já não me pareceu tão horroroso. A mulher de cabelos azuis virou-se para mim, mastigando e exalando o cheiro forte da mortadela.

-Prove, prove querido… é bom… não é a mesma coisa de “lá”… nem a bebida… mas prove… ”Lá” é que eu era servida como uma dama… por que não me mandam de volta… hein, hein?… prove…

Uma mão forte e ossuda apoiou-se no meu ombro obrigando-me a virar.

-Não de atenção para ela. É um caso de loucura crônica. Vive falando de um lugar absurdo onde teria sido presa e tratada da melhor forma, pode?

Voz conhecida, alto, magro, mulato, uns 50 anos, uniforme de motorista.

-Zé, Zé da Sílvida… o Sr. Não se lembra… algumas noites atrás levei o Sr. até a Casa da Dona Gertrudes!

-Sim, claro que me lembro, e a Japinha, lhe deu muito trabalho?

Muito suador, mas do tipo proveitoso. E o Sr. não encontrou nenhuma garota do seu tipo por lá? Não o vi depois que sai.

-Não, eu só fui lá pela bebida e conversa. Acabei procurando uma amiga, tipo namorada aqui do bairro, sabe?

-SSeeiii, sim Sr… Não é nada fácil a vida de solteiro na Cidade das Luzes, não é?

-É terrível! Mulheres temos de sobra, tu sabes como a quantidade de caras entrando para estas porras destas ordens religiosas e se castrando. Mas estas convenções de virgindade, matrimônio, família, não são para mim.

-O Sr. é corajoso falando assim. Me lembro daquela sua discussão no Terminal Onírico -Eletrônico, o Sr. é um ateu, tipo raro, bem raro nos dias de hoje.

Debrucei-me sob o balcão para escolher um aperitivo.

-Descrente e comendo estas guloseimas, o Sr.  gosta de viver em perigo, não é Sr. Ateu? Tipo raro, brindar a isto!

-Ué, tu ta bebendo?

Hoje eu não estou de serviço, posso beber e me divertir a vontade.

-Como eu sabia, tu é mesmo um baita profissional! Desce um chopp pro meu amigo aqui, e eu quero outro! Agora me serve um… grande!

 O EVANGELISTA DE SODOMA – Nestas Noites Felizes

 “Não há no mundo amor e bondade bastantes para que ainda possamos dá-los a seres imaginários.”

(Nietzsche)

Fora uma noitada e tanto. Sei que havia bebido muito além da conta. Não tinha nenhuma vontade de me levantar e não tinha a mínima idéia de que horas fossem. Mas, uma cantoria monótona e em alto volume vazava minhas paredes e começavam a me bombardear com ondas de raiva e depressão. Com um esforço mastodônico abri vagarosamente os olhos e constatei que o dia já chegara a bastante tempo, mas esta música?

-Porra do caralho! Deve estar chegando a época do Natal, pensei afundando a cara no travesseiro. Isto quer dizer, um longo e torturante período de vários meses de cânticos, propagandas, presépios, propagandas, luzes coloridas, mensagens edificantes e mais propagandas.

-MEERRDA!! – gritei o mais alto que pude ao ouvir o meu dígito-televisor ser acionado automaticamente, mais uma maravilha da tecnologia – Teológica moderna: durante esta época do ano era obrigatório um tempo mínimo de exposição da maravilhosa programação oficial. Meninos jesuses em mangedouras e estrelas em Belém; musiquinhas sobre noites felizes e mensagens de amor e fraternidade lidas por crianças zumbis vestidas de anjos; Reprises e mais reprises de filmecos antigos como “Jesus, O Nazareno, ”O Sagrado Manto” ou “O Rei de Todos os Reinos”; Sermões intermináveis do Bisfeito, do afetado Cardeador e claro de Sua Zumbificiência em pessoa e, as maravilhas do novo Multiprocessador de sucos que também servia como torradeira ou um Dígito-televisor de 89 polegadas com sistema de 3 Dimensões e Odorama, ou ainda ou ainda as bonecas de brinquedo reproduzindo figuras do Biblecorão e que recitavam trechos sagrados quando apertados na barriga.Tudo isto para cumprirmos a tradição – agora uma obrigação imposta por lei -, de presentearmos nossos entes queridos e familiares com quinquilharias e inutilidades dispendiosas. Resolvi levantar e sair ,antes que tivesse ímpetos de jogar alguma coisa pesada na tela do aparelho, e ser descontado de centenas de necessários créditos para a aquisição obrigatória de outro; o que me faria preso a uma dieta com menos cervejas e outros poucos prazeres que as doletas provenientes do COCORICOD sustentavam.

Uma vez nas ruas, senti-me ainda mais oprimido. Tudo soava, brilhava e fedia a natal. As calçadas da Cidade das Luzes estavam coalhadas de pessoas. Famílias em peso irremediavelmente atraídas pelas brilhantes vitrines das lojas como insetos em volta da lâmpada em noites de calor. Além das indefectíveis musiquinhas natalinas e das onipresentes vozes eletrônicas cuspindo mensagens tolas, esta era a época de um exército de fanáticos de ligas e ordens ficarem berrando suas pregações e enchendo o saco dos passantes. Como se eu estivesse estampado na testa “Sou Ateu!” ou “Estou cagando para sua fé”, não conseguia dar mais de uma dúzia de passos sem ser abordado por velhas caducas pertencentes à LINFATICA ou bichas idosas da O.P.S.

-Meu filho, lembre-se que esta é a época do amor maior e da redenção, pois Jesus, filho de deus vai nascer em todos os corações, guarde um tempo para a adoração e não se esqueça portanto de visitar seus familiares que tanto…

-Jovem irmão, vamos pegue este folheto e leia, é a oportunidade de você passar dedicar todo seu tempo ao amor divino de…

-Apenas no natal, promoção das Lojas Cananéia Moderna: Na compra de lindos lençóis de casal estampados com os 39 mandamentos do Biblecorão, grátis micro disco com os 50 maiores sucessos da dupla Gospel-Sertaneja Esauzinho & Jacó, incluindo o sucesso…

Parei um pouco tonto e confuso, fazendo de conta que olhava uma vitrine menos concorrida. Pelo reflexo do vidro vi que estava sendo observado. Uma linda jovenzinha de uns 15 ou 16 anos, cabelos pretos encaracolados, uniforme de estudante, lindos dentes em um sorriso meio tímido, meio sedutor. Me virei e ela estava andando mesmo em minha direção, rebocada por seu lindo par de peitinhos duros que se salientavam no uniforme branco.

-Oi! – Disse ela piscando os grandes olhos castanhos e balançando suas madeixas – eu estava te observando e te achei um pouco deslocado, sem saber para onde ir, eu queria…

-Puta merda! – exclamei bem alto, imaginando que a tal belezinha deveria pertencer a uma das lojas em volta, ou pior a algum grupelho de jovens querendo atrair mais um incauto – Olha menina, não sei quem tu é, e não quero comprar nada, nem ir a reunião de grupo nenhum, ouviu? – ela desfez aquele sorriso lindo, e baixou os olhos se encolhendo um pouco, desarmando-me.

-Desculpe-me eu nem te deixei falar, mas sabe como é, já to meio vacinado contra simpatias forçadas, sabe?

-Eu que me desculpo em incomodá-lo, acho que não iria dar certo mesmo, tchau!

E meteu-se rapidamente em meio a multidão sumindo tão rapidamente quanto aparecera e deixando-me com a sensação de ser um estúpido, ignorante e que deixara alguma coisa importante escapar-me.

Nem tive tempo de remoer minhas frustações, pois fui cercado por um bando numeroso de D.O.I.D.A.S., o grupo mais miseravelmente insuportável esta época.

-Amém Aleluia, Shalom meu filho, que a paz de nosso senhôzinho Jesus, o abençoe!

-Desculpem-me senhoras estou com pressa, tenho que ir.

-Shalom, Krig-ha, Bandolo! Sim! Amém! Vá meu filho e confesse seus pecados para se preparar com o coração puro para a vinda do altíssimo! -Sim, claro, um confessor eletrônico, onde é o mais próximo – Glória,glória Aleluia! – gritaram todas as idosas em uníssono, enquanto abriam caminho para mim, formando um corredor até a porta de uma das cabines eletrônicas invioláveis, espalhadas pelo centro para facilitar a vida de devotos arrependidos. BANCO CONFESSIONAL 24 HORAS, diziam as letras garrafais ao lado da porta magnética. Retirei rapidamente algumas moedas do bolso e depositei-as na ranhura de coletas, o que me permitiu voar pra dentro, trancando a porta e deixando a gritaria das loucas D.O.I.D.A.S. lá fora. Eu faria qualquer coisa para me livrar daquela perturbação, inclusive aproveitar o conforto, o silêncio e o ar condicionado de uma destas jostas. Só me lembrava de ter entrado nelas duas vezes na minha vida, quando muito pequeno, logo que foram instaladas, levado pela mão de meu pai e algum tempo atrás, bêbado fugindo dos bastões de choque de P.M.S. Sentei-me na poltrona estofada em frente a um teclado. Sabia que lá fora havia uma luz vermelha que avisava quando a confissão estava em andamento, assim eu não poderia ficar apenas fazendo hora, pois, as carolas não me deixariam sair em paz. Puxei minha identidade paroquial e digitei meu número. Enter. Senha. Automaticamente foi-me descontado o valor pelo serviço especial diretamente nos meus créditos, preço duas vezes maior que o pago a um sacerdote em uma confissão “ao vivo”. A cabine toda se encheu de luzes e logo diversas imagens holográficas começar a se sobrepor, transformando o pequeno espaço numa versão imaginária de um paraíso. A minha volta um lindo bosque florido, um lago com águas translúcidas onde animais bebem água em paz e tranqüilidade, um céu muito azul e sem nuvens sobre a minha cabeça, e talvez, novidades das novidades, pequenos e cantantes passarinhos que ficavam voando graciosamente ao meu redor. A minha frente uma luz muito forte se acende por detrás de uma nuvem que surge devagar, entre acordes de “Aleluia Para O Divino”, do plagiador clássico Amadeus Próspero. Logo uma voz poderosa e grave estremece tudo. -BEM VINDO A ESTE PEDAÇO DO CÉU, FILHO MEU! QUE MINHAS GRAÇAS ESTEJAM CONVOSCO, O QUE DESEJAS CONFESSAR?

-Buceta do caralho! Cretinice de todas as cretinices, a “voz de Deus” simulada eletronicamente para melhor iludir os pobres fiéis…

-SIM MEU FILHO, ALÉM DE PRAGUEJAR E DIZER PALAVRAS DE BAIXO CALÃO, O QUE MAIS PERTURBA TEU CORAÇÃO? QUANTO TEMPO FAZ QUE VOCÊ NÃO SE CONFESSA? TENS TIDO TEMPO PARA OS CULTOS, OU ESTÁ SEMPRE COM PRESSA? TENS PRATICADO ATOS DE CARIDADE E BENEMERÊNCIA? TENS OUVIDO MAIS OS ENSINAMENTOS DIVINOS OU A CIÊNCIA? TENS PEDIDO AS BENÇÃOS DE TEUS PAIS? TENS…

Tentei tapar os ouvidos para poder ficar ali dentro o maior tempo possível, mas o som ribombante atingia meu cérebro como pauladas. Além disto, os malditos passarinhos imaginários não paravam de voar a meu redor, aumentando a sensação de tontura. Realmente achei que iria enlouquecer de vez. Sem pensar fechei o punho direito e desferi uma porrada com toda a força diretamente contra a nuvem luminosa e falante. Levantei-me e passei a pisar, chutar e socar tudo ao meu redor. Com fúria e retirando toda a força que podia de meu desespero, arranquei a poltrona e terminei de destruir o mecanismo idiota.Tudo começou a piscar e os pássaros holográficos pareciam se chocar contra as paredes antes de sumirem e reaparecerem de outro lado. A voz, antes retumbante agora parecia aguda e truncada ao meio de zumbidos e apitos.

-BBzztt! plim, plim, plim, Bzzzzz… Aleeluiiaa irrmãoooo, bzzzz, plim, plim, Piu-Piu… bzzzzz…

Descobri que estava com minha mão ferida, sangrando, segundos antes de todo o minúsculo compartimento se encher de fumaça preta com um cheiro forte de queimado, portanto, não imaginária. Escondi minha mão ferida por debaixo da camisa, abaixei minha cabeça e saí correndo porta fora.

-As bênçãos dos Altíssimos estejam com você meu filho, agora que estás livre dos pecados, procura teus santos paizinhos e lhes proporcionem a alegria de ter uma criança pura em seus braços!

As velhas carolas não conseguiram continuar sua pregação, por que logo atrás de mim a nuvem de fumaça invadiu a rua e a luz vermelha no alto do confessionário ficou louca e se transformou em um alarme estridente. Surgidas imediatamente sabe-se lá da onde, várias motos flutuantes e silenciosas cavalgadas por policiais com capacetes altos e cônicos, com longas viseiras negras passaram a distribuir pancadas e choques indiscriminadamente, atingindo a todos ao redor. Gritos de dor de senhoras e de pavor de crianças, em meio a um tumulto generalizado. Um cacetete elétrico acertou meu ombro esquerdo e me jogou no chão. Rastejei como pude e consegui me levantar, me lançando rapidamente em meio a multidão.

Corri como pude por entre um mar de mulheres com seus rosários, homens segurando seus Biblecorões de encontro ao peito e crianças vestidas de anjos que corriam em desespero. Dobrei uma esquina e quase fui atropelado por um coletivo elétrico. Fiz sinal e ele parou. Embarquei e sentei-me no fundo, ainda tremendo de raiva, medo e dor. Se a memória do maldito confessor não tiver sido completamente destruída, descobririam com facilidade quem o havia vandalizado. Mas não havia em mim espaço para arrependimentos, depois de toda aquela balela confessional e deter escapado da truculência dos policiais da misericórdia. A experiência servira entretanto para me lembrar de meus pais. Fazia muitos meses que não tinha notícias deles. E estava machucado e com fome. Lembrei-me da época em que minha mãe cozinhava para nós, tentando extrair o máximo de gosto daquelas comidas asséptica, temperando tudo “com muito amor”, como dizia uma antiga propaganda de condimentos. Se as velhas D.O.I.D.A.S. soubessem que eu havia aceitado dois de seus conselhos fanáticos em uma mesma tarde, certamente seria um júbilo regado a muitos glórias-aos-deuses-nas-alturas e o escambau.

Desci do coletivo a umas duas quadras do lugar onde nasci, do lado direito da cidade das luzes. O bairro residencial, todo de pequenos edifícios de sete ou oito andares, enfileirados em calçadas enfeitadas com árvores e flores semi-artificiais e pequenos pátios com indefectíveis cercas brancas. Um pesadelo de boa vizinhança, habitado noventa por cento por funcionários e ex-funcionários públicos. Minha mãe havia sido cozinheira da lanchonete da P.U.S., e meu pai se aposentara como contínuo da F.E.D.E.

-Filho meu, eu e teu pai nos preocupamos muito contigo, por que não voltas a morar conosco? Podemos cuidar de ti e tu de nós! – dizia minha velha enquanto colava uma bandagem curativa em minha mão recortada pela tela do confessor.

-Para voltar para cá, antes ele tem que retomar a vida direita, cumprir suas obrigações religiosas e aceitar um cargo na repartição, eu já disse isto mulher!

Meu pai não levantara do sofá em frente a Dígito-TV desde que eu chegara e falara isto sem se virar para nós.

Almocei uma pasta de arroz com legumes enlatada, minha mãe já havia abandonado o hábito antigo de cozinhar, e a gororoba tinha gosto de abandono e comiseração.

-Filho, teu pai é um homem rígido, mas de bom coração cristão, ele está pronto para te acolher de novo, assim como na parábola do pródigo que…

-Mãe, por favor, eu só vim aqui visitar vocês, não estou pedindo nada, só queria ver como estavam. Eu gosto muito de vocês, mas do meu jeito.

-Se gostasse mesmo, não deixava teus pais morrendo de preocupação com a vida que tu leva. Pois fique sabendo que o nosso sacerdote-conselheiro-familiar nos alertou sobre tuas andanças pelo bairro do pecado e tua ausência nos cultos e obrigações de fé. Uma vergonha depois de toda a boa educação que eu e tua mãe lhe demos!

-Querido, não precisa falar estas coisas para ele, sei que nosso filhinho é boa pessoa, só precisa é achar uma boa mulher, saudável e fiel que o encaminhe de volta a…

Aquilo bastava para mim, tinha revisto os meus velhos, e até pensava em passar algumas noites por aqui para agradá-los um pouco.  Mas pelo jeito a minha barra estava realmente suja. Beijei minha mãe e dei o fora ainda ouvindo-a me desejar feliz-natal-e-que-os-anjos-blá-blá-blá… blábláblá…

O EVANGELSTA DE SODOMA – Na Fogueira.

 “Toda virtude tem seus privilégios…Por exemplo, o de se levar seu próprio feixezinho de lenha para a fogueira do condenado.”

 (Nietzsche)

… A sua infinita justiça, sua infinita bondade e… infinita sabedoria, não permitiria que… no tribunal Supremo… acorde infiel… estar muito apegado a sua vida material, sua carne e suas…

Vozes metálicas e agudas martelavam minha cabeça. Luzes opressivas. Brancas e leitosas. Perguntas e mais perguntas. Não sei se minha voz está saindo para responder. Não sei se ainda tenho voz. Acho que estou deitado. As luzes adquirem cores e correm sem parar, girando a minha volta.

… e suas verdadeiras intenções eram desafiar publicamente a Santa Autoridade?

… e disse Samuel capítulo 12, versículo 23: “Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria.” O que tem a dizer em sua defesa Sr…

Confusão total, o vórtice de brilhos e sons tenta me tragar. Vagas lembranças e pensamentos imperfeitos se confundem em minha mente embolada. Uma voz mais humana, mas muito ao longe me chama pelo nome e parece tentar me trazer a tona. Tento abrir os olhos e sou agredido por um brilho intenso que ainda se confunde com o resto do vórtice alucinatório que se dispersa aos poucos. Tentando me mexer sinto que estou imobilizado em uma cama fria e dura que parece de metal. Mãos mexem em minha cabeça e rosto. Consigo distinguir uma mulher oriental, uma enfermeira… Não maldição… Uma vagabunda de uma freira que tira sem muitos cuidados, terminais que estavam grudados em minha testa e têmporas e depois sai mancando de forma engraçada. Será que estou na mesa operatória do Hospital central? Será que sofri algum acidente? Mas as perguntas que estavam me fazendo, seriam reais?

-Graças ao Todo Piedoso o senhor está recobrando a consciência. Saiba que seu subconsciente é muito forte e quase não conseguimos nada dele. Agora desperte e ouça-nos para seu próprio bem. Vamos esclarecer tudo e tentar salvar a sua alma. Você está diante do Conselho Superior Dirigente da Cidade das Luzes. Somos os encarregados dos negócios de Deus nesta comunidade e temos seu poder e autoridade a nosso lado. Exigimos que siga as nossas ordens e  respondas as indagações, não nos contradizendo nem defraudando, antes mostrando sua humildade e lealdade para que tudo seja esclarecido e registrado dentro do estabelecido na doutrina do Novo Santo Ofício!

Esforcei-me, limpei a garganta que parecia estar cheia de areia com pigarros e falei o mais alto que pude.

Escute seu inquisidor de merda! Padreco filho de uma puta! Apareça na minha frente para fazer suas perguntas idiotas e pregar sua moralzinha distorcida seu…

Ouvi um agudíssimo zumbido do meu lado direito e com dificuldade virei o pescoço a tempo de ver uma fina e longa agulha penetrar minha pele próximo do antebraço. Comecei a me arrepender de minha língua comprida. Afinal se eram inquisidores oficiais eu poderia imaginar o que iria acontecer. Não senti a agulhada, mas quase imediatamente uma dor profunda, insuportável, atingir meu estômago, que parecia querer sair a força de meu corpo. Senti uma profunda ânsia de vômitos e jorrei bílis pela boca e nariz a uma velocidade impressionante, engasgando-me com meu vômito.

-Que o Todo Misericordioso perdoe suas palavras senhor… Limite-se a responder nossas perguntas. Você está sob nosso julgo, vamos, diga-nos por que contestas as doutrinas  e costumes de nossa constituição dogmática? És um revolucionário?

-Não sou porra nenhuma! Só acho que toda religião é uma fraude, uma ilusão. Somos forçados a viver em uma grande e constante mentira!

Não sei aonde a segunda agulha penetrou, mas meus ouvidos automaticamente passaram a doer e zumbir como se atingidos momentaneamente por milhares de decibéis. Meus tímpanos pareciam explodir e desacordei.

Meus sentidos voltaram aos poucos e tentando não demonstrar comecei a tomar contato com o lugar onde eu estava. Deitado em uma espécie de plataforma metálica, realmente parecida com uma cama cirúrgica, mas muito alto do chão e, certamente com um poderoso campo magnético acionado, pois apesar de não haver nenhuma correia, presilha ou algemas, não consegui me mover ou levantar. Uma larga cinta de aço brilhante emoldurava tudo e dela é que saíam as malditas agulhas. Eu já ouvira falar sobre a colaboração dos mestres orientais na criação de uma forma de interrogatório definitivo: Acupuntura Elétrica Scanneada. Baseada na milenar ciência, potentes scanners encontravam os pontos nevrálgicos mais sensíveis no corpo humano e potentes e direcionadas descargas elétricas causavam dores e reações orgânicas estimuladas, sem provocar qualquer tipo de marcas ou sintomas posteriores. Maravilhas da tecnologia a serviço da tortura oficial.

-Diga-nos de uma vez por todas, por que não acredita em Deus, nosso criador?

-Como acreditar em um ser que quer ser louvado o tempo inteiro, e que se fosse mesmo todo poderoso teria feito exclusivamente o bem e nos livrado de sofrimentos? Um ser onipresente e monstruoso? Alguém que poderia nos livrar de todo o mal e não o fez porque? Para nos torturar e divertir?

Desta vez foi como se duas torquesas de aço tivessem retorcido meus testículos!

-Sacrilégio! Não lhe cabe o direito de negar aquele que paira nas alturas e que você não pode atingir. Seu cérebro é humano, portanto finito e pobre e não consegue conceber a Deus, que é infinito e perfeito. Tenha a humildade de confessar que não lhe é possível compreender ou explicar deus, por isso o renega!

-Putos mentirosos! Vocês que vivem pregando a realidade deste ser fantástico é que deveriam provar sua existência! É muito cômodo perpetuar uma dúvida, ao invés de sanar. Um ente supremo que cria um mundo no qual uma criatura deve devorar a outra para sobreviver e depois diz: “Não Matarás”; um pai bondoso que joga seus filhos preferidos sozinhos em um mundo cheio de prazeres e desejos e depois proclama leis que os fazem negar o que lhes é oferecido; e que diz que um dia vai voltar para resgatar apenas aqueles que lhe foram fiéis durante os séculos de sua ausência; o ser perfeito que cria algo tão imperfeito quanto nosso mundo e depois senta e espera que nos submetemos a seus caprichos? Vocês não podem me provar que deus existe. Mas seria melhor para a sua reputação que ele não existisse, não é mesmo?

Uma agulhada agora no meu pescoço e senti uma pressão interna nas órbitas oculares e tive a nítida impressão e dor agonizante de ter meus olhos expulsos de suas cavidades… Mais uma destas e eles vencem, não sei se suporto mais este jogo… Vou tentar moderar minhas respostas, mas se ao menos eu pudesse ver a cara destes desgraçados…

-Bilhões de pessoas no mundo todo vivem felizes e ordenadas agora que a sociedade se organizou em torno de uma mesma crença. Por que o Sr. teima em ser um anarquista contra a fé?

-Só por que milhões de moscas comem merda, eu deveria comer também? Se muitos acreditam em uma coisa estúpida, essa coisa não fica sendo menos estúpida. Tenho sim uma visão materialista do mundo, e não consigo viver de outra forma. Não sou um vilão com planos de destruir a sociedade. Eu poderia respeitar todas as religiões, se elas respeitassem a minha falta de fé. Deus não existe, e assim mesmo me sinto na responsabilidade de tentar matar um mito que escraviza o planeta todo. Acho que faço muito pouco para isto, com medo de passar o que estou passando hoje.

Estranhamente nenhum ruído, agulhada ou dor.

-O Sr. então se confessa um Ateu ?

-Se este é o rótulo que me colocam, fazer o que? Não optei em ser religioso ou ateu. A fé existe ou não. Quando digo que não tenho religião acham que eu sou louco ou imoral. Mas tenho uma visão humanista e me interesso por meus semelhantes. Não faço uma coisa boa por outra pessoa apenas porque algum mandamento de alguma crença me obriga. Não preciso temer alguma danação eterna, então de onde vem minha moralidade de ateu? Arrependo-me sim, de não ter lutado com mais convicção contra a hipocrisia e barbárie da principal inimiga do progresso moral da humanidade: a Religião! Matem-me, ou terão que me torturar por muito tempo e não vão me ouvir concordar com sua doutrina abominável… querem saber mais ?… vão… vão… SE FUDEERR!!!

Joguei minha cartada final e esperei ser serrado ao meio enquanto sentisse as chamas da fogueira inquiridora torrar a minha carne, pelo menos aquele martírio teria fim. Mas nada. Silêncio. Por muito tempo nada de vozes amplificadas.

-Sr………, é impossível calcular quanto dano moral, suas atitudes e idéias possam ter causado em meio ao nosso rebanho. Temos que silenciá-lo, mas és um tolo se achas que vamos matá-lo. Não queremos um ateu mártir e deste assunto bem sabes que temos bastante conhecimento. Lavagem cerebral não vai resolver, já que afirmastes e confirmamos ao sondar sua mente que és um ateu convicto até no fundo de seu ser. Espere pois por nosso julgo.

As horrendas luzes branco-leitosas diminuíram um pouco de intensidade e pude relaxar durante um tempo indeterminado, enquanto o meu caso estaria sendo examinado e discutido por sabe-se lá quem. Estes mesmos que devem ter me raptado em casa enquanto dormia, sedado, torturado e humilhado e por pouco não haviam conseguido dobrar. Logo eu, que nunca imaginei que tivesse alguma importância ou influência. Se ao menos eu fosse algum líder anti-religioso engajado na resistência ou tivesse algum cargo como o Ezequiel, por exemplo. Neste momento meu velho amigo veio a minha mente e fiquei imaginando se alguma coisa poderia ter acontecido com ele, já que eu havia sido pego.

-ATENÇÃO! ATENÇÃO! A Corte Eclesiástica do Tribunal do Novo Santo Ofício vai se promulgar!

Uma voz reverberou por todo o local, mas agora sem distorções, soando bastante natural. Uma voz conhecida, de alguém que eu havia falado a pouco tempo… ahhhhh… motorista traidor filho de uma puta!

-Senhor Eduardo Santos!

Odiava e evitava ouvir ou falar meu nome, acho que eles sabiam disto também.

-O Sr. foi investigado, sondado e julgado pelos crimes de: Insubordinação as leis e mandamentos da Santa Igreja Universal. Prática de sexo anormal e sem fins reprodutivos com mulheres ilegais e não autorizadas à servi-lo com freqüência confirmada nos guetos e prostíbulos não oficiais da régio proibida da Cidade das Luzes conhecida como Nova Sodoma. Consulta irregular, não autorizada, a arquivos e documentos oficiais. Prática de vandalismo em uma cabine de confissão pública. Porte ilegal de instrumentos e modalidades audiovisuais em desuso e não autorizadas. Prática de suborno á funcionário autorizado e abençoado do I.N.R.I. Consumo abaixo do nível da programação obrigatória do S.B.T. Participação nula nas doze romarias diárias recomendadas. Baixo consumo de calorias transgênicas saudáveis, alto consumo de cafeína não autorizada e consumo absurdamente acima do permitido de produtos etílicos oficiais ou não. Conduta anti-social maníaco-depressiva e práticas de discussões anti-teológicas em lugares públicos com a nítida pretensão de desviar do caminho correto pessoas tementes e fiéis. Contribuição nula do dízimo e em trabalhos de caridade obrigatórios em sua paróquia de registro. Falta total nos cultos dominicais e consumo zero de Hostiaínas. Tudo completamente documentado e registrado nos anais desta corte. Queres falar agora com um confessor e se arrepender de seus pecados antes de ouvir sua sentença, Sr. Ateu ?

-Enfia a perna mecânica da tua freirinha japa no teu cú seu espião de merda! Sei quem vocês são, e duvido que não se divertiam, trepavam e enchiam a cara enquanto espionavam os outros nas zonas!

-Apenas cumpríamos com a missão que nosso senhor nos destinou, e a principal é proteger nosso rebanho de pragas nocivas como o Sr., portanto ouça agora o Juiz supremo.

-O Tribunal de Justiça & Piedade do Novo santo Ofício da Congregação da Cidade das Luzes considera o senhor Eduardo santos, registro de batismo número 234B-9; identidade paroquial número 766/cZ-8, uma ameaça pública a ordem de paz, e um herege assumido, portanto maligno para toda a sociedade. Piedosamente levamos em conta os exames toxicológicos e os testes com sondas mentais realizados no réu e o consideramos um caso grave de alcoolismo e de desvio de personalidade, sendo assim apenas parcialmente responsável por seus atos extremos. Fica portanto imposto um tratamento de isolamento dentro do P.U.T.A.3, por tempo indeterminado, até que novos exames o considerem apto a voltar ao convívio com outros filhos de Deus. Será, portanto, imediatamente transferido para dentro do centro de pesquisa e isolamento Bodega I, junto com outros anormais, desajustados e marginais como o réu. E que deus tenha piedade de sua Alma!

-Vocês é que são loucos e alienados seus crentes do…

-Cale-se “seu bostinha”, ainda temos uma “coisa legal” para mostrar-lhe “meu amiguinho” ateu!

Esta outra voz, este jeito de falar… porra eu deveria imaginar que mais alguém estava envolvido, mas não… ele…

-Ezequiel, seu filho da Pu…

Neste momento uma série de agulhadas em partes diferentes do meu corpo foram desferidas por um “velho amigo’ e me mostraram toda a força da fogueira da inquisição high-tech: a viva impressão que meu corpo era assado em brasas vivas começou nos pés e foi subindo lentamente, enquanto meus tímpanos vibravam com o som de um hino religioso em alto volume  misturado com meus próprios gritos de dor. Quando a agonia chegou na virilha, apaguei.

Recuperei os sentidos não sei quanto tempo depois, e demorei uma eternidade para conseguir me mexer e me tocar, constatando que ainda tinha pele e não virara um enorme quibe assado. Eu estava deitado no chão vibrante do que logo descobri ser um ônibus blindado e em movimento. Só havia uma minúscula janela na parte de trás. Arrastei-me até lá e vi o brilho bruxuleante das luzes da minha cidade natal ficando muito ao longe. Por um segundo quase reneguei minha falta de fé ao pensar em gritar:   “Graças a deus!!!”

A CIDADE DAS LUZES

A ponta da longa haste eletrificada tocou de leve a esfera plantada no alto do grosso poste de cimento. Um zunido se faz ouvir, seguido de um forte cheiro ácido. Logo, como se gemendo de agonia e se entregando a morte, sua luminosidade azul leitosa foi-se apagando, até só restar uma minúscula chama branca que depois de alguns minutos também desapareceu. Ele ficou mais um tempo como que para se certificar que sua vítima não teria realmente nenhuma salvação, e com passos bem demorados dirigiu-se para outro poste próximo. Achou irônico, que nos últimos anos tenha se preocupado diariamente com o bom funcionamento do sistema de luz química, para agora ser encarregado de apagar tudo de uma vez. Parecia um crime, mas o que serviria uma iluminação pública em uma cidade fantasma?

Desde muito jovem sentira muito orgulho daquelas bolas azuis. Não sem motivo, afinal crescera ouvindo todos elogiarem a genialidade de seu pai, que inventara o sistema revolucionário e econômico, e que tirara a cidade das sombras depois do Grande Apagão. Mil e trezentas grandes esferas foram instaladas nos principais pontos da antiga Santa Helena, capital da pequena província do Espírito Santo das Pedras. Milhares de modelos portáteis foram distribuídos a população, garantindo assim a funcional e belíssima claridade que era vista a muitos quilômetros de distância de suas fronteiras. Com o passar dos anos, a energia tradicional fora restabelecida, mas a capital conservou o sistema e trocou de nome. Por conta disto, sua família sempre tivera privilégios, ele mesmo nunca precisou freqüentar as escolas oficiais e outras atividades impostas. Seu pai o instruíra em mecânica, química, eletricidade e outras coisas práticas, e sua única obrigação era acompanhar a manutenção diária e ser seu substituto mais tarde, como de fato acontecera a mais de vinte anos. Estivera sempre distante de problemas políticos e ideológicos. Nunca entendera quando passaram a circular rumores preocupados sobre escândalos na Santa Sé e a bancarrota da mega corporação que a regia. O que isto iria afetar seu dia-a-dia atarefado, metódico e confortavelmente rotineiro? Por isso, talvez tivesse ficado espantado mais que qualquer outro quando o caos e a desordem tomaram conta das ruas e milhares e milhares de pessoas abandonaram o conforto de seus lares e fugiram para sabe-se lá aonde. Continuara sua tarefa e precisara mesmo trocar alguns dos globos luminosos quebrados por vândalos. Procurara tardia e inutilmente alguma informação na sua Dígito-TV quase sem uso, apenas para ouvir antigos sermões gravados sobre o fim dos tempos e comentários desencontrados sobre sua amada cidade ser o último bastião de um regime político que esfarelara-se.

Com seus ombros caídos e passos melancólicos dirigiu-se para o último grupo de luzes. Sentou-se em uma mureta protetora do poste e tirou um cigarro do bolso. Agora já não havia mais a Hora do Fumo e ninguém para vê-lo fazer uma pausa em sua obrigação. Olhando para a brasa e para a fumaça que subia, decidiu que iria deixar pelo menos uma das esferas químicas vivas. Seu brilho seria uma homenagem ao seu falecido pai e um marco em meio ao nada. Escutou passos arrastados e sobressaltou-se. A pelo menos duas semanas não vira nem ouvira uma viva alma por aquelas bandas. Seria um de seus desconhecidos superiores, deixado para trás para fiscalizar seu trabalho solitário? Nunca ninguém havia reclamado diretamente para ele, somente através de ofícios digitais e gravações. Levantou rápido e jogou o cigarro longe. Um homem velho e magro se aproximava, saindo da escuridão, arrastando seus chinelos. Pobre ancião, pensou, deve ter sido esquecido pela família ou era outro como ele ligado demais à cidade e com receio do mundo lá fora.

-Boa noite meu jovem! Ainda trabalhando? Pois termine de apagar estas bostinhas ultrapassadas, eu tenho uma lanterna e vamos ao meu refúgio, minha ilha. Vou te mostrar uma “coisa legal”…

 GLOSSÁRIO – O EVANGELISTA DE SODOMA

BIBLECORÃO- Reunião da Bíblia e do Alcorão com mais oito livros sagrados à saber: Tao-Te-King; Mahabarata; Cabala; Necronomicon; Livro negro de São Cipriano; Pensamentos de Allan Kardec; O Livro da lei de Alister Crowley  e Compêndio de Mitologia Grega Ediouro resumidos em um único volume de apenas 1500 páginas ricamente ilustradas com figuras em relevo e 3D.

BISFEITO- Bispo & Prefeito da Cidade das Luzes.

CARDEADOR- Cardeal & Governador do estado.

COCORICOD- Compensação Compulsória Restauradora do Ímpeto Consumista do Operário Desempregado.

D.O.I.D.A.S.- Defensoras Organizadas da Integridade e Decência das Autoridades Sacrosantas.

F.D.P.- Fiscais Delatores Penitentes.

F.E.D.E.- Federação Estadual do Direito Eclesiástico.

I.C.C.- International Church Corporation.

I.N.R.I.- Instituto nacional de Religiosidade Individual.

LINFATICA- Liga Nacional das Fanáticas Tias Carolas.

HOSTIAÍNAS- Hóstias sagradas feitas com farinha e cocaína.

O.P.S.- Ordem dos Padres Sodomitas.

P.M.S.- Polícia da Misericórdia Santa.

P.U.S.- Pontifícia Universidade Sacrosanta.

P.U.T.A.3- Plano Urgente de Tratamento Alcoólico, Ateu, Anti-social.

RESA- Rede Religiosa (Rede mundial de computadores, ex-Internet).

S.B.T.- Sistema Beatificado de Tele-informação & diversão.

SUA ZUMBIFICIÊNCIA- John Paulus III, O Papa Eterno (na verdade João Paulus II,”o Polonês” revivido quimicamente pela V.I.P.S. em um acordo histórico com a I.C.C.

U.A.U.- União Apostólica Universal.

V.I.P.S.- Voodoo International Priest Sindicate.

Decoder

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 11, 2011 by canibuk

“Decoder” (1984, 87 min.) de Muscha (e Klaus Maeck). Com: F.M. Einheit, William Rice, Christiane Felscherinow, William Burroughs e Genesis P-Orridge.

Decoder é a história de um jovem músico que experimenta sons em seu estúdio caseiro. Depois que ele cria um decoder, passa a criar músicas subliminares que instigam a população à revolta. Cansado de músicas de ambiente dos restaurantes fast-foods, o jovem começa a sabotar o sistema de som de todas as redes fast-food de Berlim e protestos tomam conta das ruas enquanto ele é caçado por um agente. As imagens de revolta popular que se vê no filme são reais, são tumultos que aconteceram em Berlim nos anos de 1980, quando o presidente americano Reagan visitou os alemães.

O visual do filme (cortesia da diretora de fotografia Johanna Heer) com seus tons azulados que conferem ao filme uma frieza tétrica, aliados aos cenários e figurinos espertos e à potente trilha sonora (composta por Dave Ball, F.M. Einheit e a banda Soft Cell), deixam “Decoder” com uma cara própria, inventiva, um visual de cinema Beat trepando animalescamente e seu maiores cuidados com o cinema Cyber Punk. “Decoder” segue a tradição de cineastas undergrounds como Anthony Balch, Ron Rice, Jack Smith e japoneses como Sogo Ishii (Gakuryu Ishii) e Shinya Tsukamoto que veio depois. Em tempo, a ótima trilha sonora do filme se encontra na net para download.

No elenco, temos F.M. Einheit (que foi percussionista na Einstürzende Neubauten) no papel do jovem músico, a junkye Christiane F. (aqui creditada com seu impronunciável sobrenome real) como uma stripper e o ator Bill Rice se destacando no papel do agente secreto que tenta achar o jovem músico. Há, também, a participação especial de William Burroughs (em rápida, mas marcante participação) e do lendário Genesis P-Orridge (no papel de um padre), um músico que antecipou o indústrial nos anos de 1960 e depois ficaria conhecido com a banda Psychic TV).

“Decoder” é uma alegoria orwelliana, uma crítica ao consumismo, à produção em massa, à idiotização que atingiu os jovens do século XXI. Se antes os jovens se escondiam consumindo drogas, hoje os jovens se escondem atrás da tecnologia. O Ópio agora é High Tech.

O filme está no youtube:

Subterfuge

Posted in Fanzines, Quadrinhos with tags , , , , , , , on outubro 10, 2011 by canibuk

“Subterfuge # 21 – Especial Comix Brutal III (La Venganza)” foi um fanzine editado na Espanha por Carlos Galan e Borja Crespo e resolvi compartilhar aqui 2 HQs publicadas neste número.

“Reconversión Vengada!” (de Pedro Vera):

“La Comunión” (El Bute):

Bebendo Café durante a Nevasca Gelatinosa

Posted in Literatura, Nossa Arte with tags , , , , , on outubro 9, 2011 by canibuk

Na montanha sagrada de Jodo, durante uma magnífica tempestade de neve gelatinosa, continuo bebendo o café enegrecido pela total falta de sentimentos que cultivo em meu âmago. Sentado à mesa permaneço em silêncio, apenas olhando os seres que se atacam por todo o sempre, viciados em discussões inúteis e trocas de socos hilários. Essa agitação toda faz com que eu me esqueça de minha dor interior. Faz com que eu permaneça numa calmaria pessoal que até assusta meus inimigos mais ousados. A desgraça alheia diverte mais do que minha própria desgraça. Me alucina e me faz querer beber grandes quantidades de café quente, tão quente que molesta até mesmo as lindas fadas que me tornaram uma hiena infeliz de riso forçado. Fadas funcionais, belíssimas máquinas modernas com cavidades orais onde podemos ver seus receptáculos de espermatozóides transparentes prontas para então sugarem mais alguns atormentados da minha raça. Tão logo a tempestade de neve gelatinosa se acalma, resolvo usar um mínimo da vontade e me levanto. No horizonte uma Deusa Excluída berra alto com a gentalha que lhe servia de capacho e ao me ver, acena sem sorrir. Somos dois estranhos em auto-exílio na montanha sagrada. Essa Deusa Excluída às vezes tenta me ajudar. Mas como ajudar alguém que não faz questão de ser ajudado? Aceno para a Deusa, um aceno completamente apagado e ridículo, mas que (ela sabe disso) significa que hoje não quero conversar, prefiro curtir minha infelicidade de modo solitário, dando atenção apenas para minhas tempestades cerebrais. E ali permaneço encantado com este interminável devaneio, onde uma tonelada de idéias esmagam a infelicidade reinante e me trazem de volta o sarcasmo amigo. Duas semanas depois já estou melhor, o mesmo humano amargo de sempre. Confiante em meu poder supremo de pisar sobre os outros vou então, ao som de um tango executado por escravos judeus de ternos bem cortados, ver uma fada cujo brilho de seu sorriso me cativou. Mas tal candidata à musa me parece pobre (em todos os sentidos), doença essa que é totalmente contra minhas convicções de pequeno burguês nojento. Esnobando-a por completo, volto a me sentar em minha mesa. Uma amiga insensível senta-se junto a mim. Me conta suas aventuras onde nada foi como deveria ter sido.  Gargalhamos de nós mesmos. E ali vamos ficar por toda a eternidade, um se deliciando com a desgraça do outro, sem tempo para mudarmos, nem nos arrependermos.

escrito por Petter Baiestorf (1998).

Oficina do Diabo – Forró for All

Posted in Música with tags , , , , , , , , , , , , , on outubro 8, 2011 by canibuk

A banda Oficina do Diabo foi formada na cidade de Cordeirópolis/SP em 1993 pela dupla de amigos Charles Corvo e Lusfer (Luís Fernando), que resolveram unir rock’n’roll ao forró.

Conheci a banda mais ou menos por 1995/1996 e usei 2 músicas deles no meu média-metragem “Chapado” (1997). Lembro que naquela época, em qualquer festinha que a gente fazia na Canibal Filmes, rolava essa demo-tape genial da Oficina do Diabo. Ver o ator Jorge Timm (160 quilos de malandragem) dançar ao som da faixa “Não sei Enrolar”, não tem preço!!!

O melhor de tudo são as letras da Oficina do Diabo, que são poderosas. “A Revolução dos Bichos”, “Oração do Assassino”, “Não sei Enrolar”, “Eu Quero Viver Chapado” e o hino ateu, “Reza Braba”, são extremamente bem construídas (algo que se perdeu na música de hoje em dia).

“Reza Braba” diz:

“Eu acho que não tem deus nem virgem maria

Eu acho que não tem deus nem são joão

Eu acho que não tem deus nem santa luzia

Eu acho que não tem deus nem vida eterna

Eu acho que não tem deus nem nossa senhora

Eu acho que não tem deus nem papai noel

É díficil viver sem um mito

O que é que eu faço se eu não acredito

Minha mãe fica braba comigo

Mas é muito absurdo

E eu não consigo acreditar”

Oficina do Diabo ia lançar um CD de estréia em 1998, mas nunca mais ouvi falar nada deles (nem sei se a banda existe ainda). Segue fragmentos de uma entrevista com Charles Corvo que meu colega Carlos Evaristo realizou e publicou no seu fanzine “Beerbuns” e um resgate da demo aqui.

Nos arranjos vocês fazem uso de samplers, bateria eletrônica etc, além dos instrumentos, digamos, convencionais. Como você definiria então o termo “Forrock”?
Charles Corvo: Quanto aos arranjos, fora a guitarra e o violão, o resto é eletrônico. A falta de feeling do sequencer é meio que um anti-feeling inigualável! Não vejo razão para humanos na cozinha, a não ser em shows. “Forrock” é muito mais um lance de marketing que uma definição do som da banda. “Forrock é provisório… espero em breve me livrar desse rótulo.

Falando agora sobre os vocais, em algumas faixas eles ficam parecidos com os de Raul Seixas. É  proposital?
Charles Corvo: Não é intencional, mas acho a referência a Raul Seixas extrememente elogiosa.

E a inspiração prás letras?

Charles Corvo: Basicamente eu falo o que eu estou pensando ou vivendo no momento. Eu nunca me sento para escrever, as idéias é
que vêm e me dão uma porrada na nuca.

De onde veio a oração do assassino?
Charles Corvo:
“Oração…” é um caso à parte. É uma música que todo mundo acha trash, porra-louca, sádica e coisa e tal, mas é a única que nasceu de um conceito, que foi feita para ilustrar uma idéia clara e objetiva. O lance é o seguinte: a única filosofia de vida que consigo conceber é o Carpe Diem, ou seja, viva o agora intensamente, faça o que tiver vontade. E para uma regra de vida não pode haver exceção! É muito bonito dizer “Pô, o cara é gay, então sai do armário, lute pelo que quer!” ou então “Você quer fazer rock’n’roll? Chuta teu emprego, foge de casa, vai à luta!”. Até aí tudo bem… mas e o cara que tem vontades inconcebíveis para o nosso padrão social? E o freak, o tarado? Será que essas pessoas não têm o mesmo direito de viver intensamente? Por quê podemos e elas não? Com essa idéia na cabeça tentei imaginar um estilo de vida que ninguém, nem de longe, poderia aceitar: o cara gosta de matar criancinhas simplesmente porque gosta e ponto final. Não é um elogio nem uma crítica, é “Henry, Portrait of a Serial Killer” em forma de música. Daí veio a “Oração do Assassino”.

Como anda sua banda? Tem feito shows?

Charles Corvo: Bom, a banda não andou. Fizemos alguns contatos com gravadoras e percebemos a total falta de senso crítico, visão de mercado, sensibilidade e o que mais você quizer acrescentar ao rol de incapacidades de um diretor artístico (tanto em Majors quanto em  independentes). Quase me deixei abalar com essa constatação (agora óbvia, antes não), mas aposto minha língua venenosa no potencial da Oficina do Diabo e resolvi mandá-los à merda. Estou tentando andar com as próprias pernas: Fazer, divulgar e comercializar (em pequena escala) meu próprio trabalho. “Eu fujo mas não desisto…”. Quanto aos shows, paramos por hora.

Poderia deixar uma mensagem para os leitores do Beerbuns ?

Charles Corvo: “A tradição é falta de imaginação”.