A Guerra dos Mundos

“A Guerra dos Mundos” (“The War of the Worlds”) foi escrito por HG Wells e lançado em 1898. Dividido em duas partes (“Livro 1: A Vinda dos Marcianos” e “Livro 2: A Terra sob os Marcianos”), o livro de Wells relata a invasão do planeta Terra por hordas sangüinárias de terríveis marcianos. No livro, em uma linguagem jornalística, a ação se desenrola nos arredores de Londres e os marcianos estão armados de um raio de calor e uma arma química chamada de “Fumaça Preta”. Os marcianos são descritos como “volumosos polvos do tamanho de um urso” e quando saem de seus cilindros cósmicos mostram grande dificuldade de lidar com a atmosfera do planeta Terra. O Narrador do livro acompanha todo o andamento da invasão, contando em detalhes várias batalhas (aqui, diferente do programa de rádio de Orson Welles e dos filmes que vieram depois, o exército britânico consegue destruir algumas espaçonaves marcianas), porém a resistência humana logo cessa e os marcianos começam a cultivar a “Red Weed”, uma erva vermelha marciana que muda de forma agressiva a paisagem do planeta Terra. O narrador, escondido, passa a vivenciar o dia-a-dia dos marcianos, descobrindo que eles se alimentam do sangue humano e outras particularidades macabras. No final do livro os marcianos acabam morrendo porque seus corpos não possuíam nenhuma imunidade contra as bactérias terrestres.

Quem foi HG Wells?

Herbert George Wells nasceu em 21 de setembro de 1866 (tendo falecido em 13 de agosto de 1946). Em 1883 tornou-se professor na Midhurst Grammar School. Seus primeiros romances, “A Máquina do Tempo” (“The Time Machine”, 1895), “A Ilha do Dr. Moreau” (“The Island of Dr. Moreau”, 1896), “O Homem Invísivel” (“The Invisible Man”, 1897) e “A Guerra dos Mundos” (“The War of the Worlds”, 1898) entraram para a cultura popular de todo o mundo, é preciso ser um alienado completo para nunca ter ouvido falar destes livros.

Desde muito cedo Wells acreditava que era possível organizar a sociedade de uma maneira melhor, escreveu alguns romances utópicos explorando essas idéias. Inicialmente, sentiu-se atraído pelas idéias socialistas de Lenin, linha de pensamento que abandonou após desiludir-se com os massacres Bolcheviques e, após um encontro com o próprio Lenin, convenceu-se de que a revolução na Russia correra terrivelmente mal. No fim da vida se tornou cada vez mais pessimista sobre o futuro da humanidade. Em 1934 foi publicado sua autobiografia intitulada “An Experiment in Autobiography”.

Em 28 de outubro de 1940 HG Wells foi entrevistado por Orson Welles (que dois anos antes havia levado ao ar uma polêmica adaptação radiofônica do livro “A Guerra dos Mundos”) e na entrevista Wells admitiu sua surpresa com o pânico generalizado que resultou da transmissão e reconheceu estar em dívida com Welles por aumentar as vendas de seu livro.

O Programa de rádio que abalou os ouvintes e instalou o pânico nas ruas

No dia 30 de outubro de 1938, 20 horas, os habitantes de New York e Nova Jersey que ligaram seus aparelhos de rádio na CBS (a mais importante estação de rádio da época) levaram um puta susto quando a programação de músicas suaves e românticas, com previsão do tempo, foi interrompida pela voz de um radialista desconhecido que trazia informações de estranhas explosões no planeta Marte. Era o início da adaptação do livro “The War of the Worlds” (1898) de H.G. Wells como um programa teatral radiofônica, levado ao ar sem aviso prévio, pelo jovem Orson Welles e seu programa de rádio intitulado The Mercury Theatre in the Air. Essa adaptação de “A Guerra dos Mundos” causou um forte impacto entre os ouvintes, muitas pessoas realmente acreditaram que nosso planeta estava sendo invadido por marcianos e ficaram histéricas e abandonaram as cidades levando consigo tudo que podiam. Essa brincadeira sem precedentes custou o emprego de Orson Welles que, mais tarde, virou cineasta e realizou um dos maiores clássicos do cinema mundial: “Citizen Kane/Cidadão Kane” (1941).

A seguir, na íntegra, o programa como foi ao ar naquela noite especial de 1938, quando os marcianos apavoraram os terráqueos (as ilustrações que acrescentei na transcrição do programa são da HQ “Guerra dos Mundos” lançado no Brasil em 1978 pela Bloch Editores sob licença da Marvel Comics Group, que digitalizei especialmente prá este post):

Locutor – Não há previsão de grandes mudanças de temperatura nas próximas 24 horas. Uma ligeira depressão atmosférica, de origem desconhecida, foi observada nas proximidades de Nova Escócia; em conseqüência, é possível que caiam chuvas leves sobre os estados da Região Norte. Máxima: 66 graus Fahrenheit; mínima: 48 graus. Previsão do Instituto Meteorológico Nacional. A partir deste momento passaremos a transmitir diretamente do Meridian’s Room, no Hotel Plaza, com Raymond Russello e sua orquestra.

Música espanhola.

– Senhoras e senhores, boa-noite. Diretamente do Meridian’s, do Hotel Plaza, no centro de Nova York, apresentamos a orquestra de Raymond Russelo, que vai interpretar “La Cumparsita”.

Música.

– Senhoras e senhores, interrompemos o nosso programa de música e dança a fim de transmitir um boletim extra da Intercontinental Radio News. Às 19h40m de hoje, o professor Farrel, do observatório do Monte Jennings, em Chicago, Illinois, informou ter observado, sobre a superfície do planeta Marte, em intervalos regulares, várias explosões de gás incandescente. O espectroscópio indicou que o gás em questão é hidrogênio e que suas partículas se deslocam rumo à Terra com velocidade fantástica. O fenômeno foi confirmado pelo professor Pearson, do Observatório de Princeton, que o descreveu com as seguintes palavras: “Parecem chamas azuladas saídas do cano de um revólver”. Voltamos agora a transmitir do Meridian’s Room do Hotel Plaza, no centro de Nova York, com a orquestra de Raymond Russelo.

Música e aplausos.

– E agora ouvirão o sucesso de sempre, “Stardust”, com Raymond Russelo e sua orquestra.

“Stardust”.

Interrupção.

– Senhoras e senhores, dando seqüência ao boletim noticioso irradiado há poucos instantes, podemos informar agora que o Bureau Meteorológico do Governo acaba de pedir a todos os observatórios do país que acompanhem ininterruptamente, através de seus telescópios, as mudanças em curso no planeta Marte. Levando em conta a natureza excepcional do fenômeno, entrevistamos o célebre professor Pearson, que nos vai dar a sua opinião sobre o mesmo. Enquanto aguardamos a ligação com o observatório de Princeton, Nova Jersey, continuaremos a ouvir a orquestra de Raymond Russelo.

“Stardust”.

– Deslocamo-nos agora para o Observatório de Princeton, onde Carl Philips, nosso enviado especial, entrevistará o professor Richard Pearson. Com vocês, Princeton.

Durante toda a seqüência ouve-se, ao fundo, um tique-taque mecânico.

– Boa-noite, senhoras e senhores. Aqui, Carl Philips, falando diretamente do Observatório de Princeton. Neste momento encontro-me em uma grande sala semicircular, sombria, em cujo teto há uma abertura retangular. Através dessa abertura, vejo algumas estrelas, que lançam uma espécie de luz irreal sobre o mecanismo do telescópio gigante. O tique-taque é produzido pelo movimento do mecanismo de alta precisão do telescópio. O professor Pearson encontra-se a meu lado, numa pequena plataforma, da qual pode ver os grandes corpos celestes. Antecipadamente, senhoras e senhores, peço que desculpem as possíveis interrupções da entrevista, pois a qualquer instante, no decorrer de sua incessante observação do céu, o professor Pearson poderá ter que atender ao telefone ou a qualquer outro tipo de chamado. Ele se acha em contato permanente com centros astronômicos do mundo inteiro.

– Professor, poderia dizer aos nossos ouvintes o que está vendo agora, ao observar o planeta Marte através do seu telescópio?

– Nada de especial, Sr. Philips… Vejo apenas um disco vermelho flutuando em um mar azul escuro. Há listras negras, muito nítidas, na superfície desse disco, pois nesse momento Marte se encontra no ponto de sua órbita mais próximo da Terra, em oposição, como você nesta plataforma em relação a mim.

– No seu entender, professor, o que são essas listras transversais?

– O que eu posso garantir, Sr. Philips, é que não se trata de canais. Embora muitos suponham que Marte é habitado, de um ponto de vista estritamente científico sabemos que tais listras são apenas o resultado de condições atmosféricas particulares daquele planeta.

– Podemos dizer então que, como sábio, o senhor está convencido de que não existe em Marte vida inteligente, tal como a que conhecemos?

– A meu ver a possibilidade é uma contra mil.

– Então, como explicar essas explosões de gases que agora estão se produzindo lá a intervalos regulares?

– Bem, não posso explicá-las.

– Para conhecimento de nossos ouvintes, professor, qual a distância entre Marte e a Terra?

– Cerca de 40 milhões de milhas.

– Ah! Parece-me uma distância bastante segura.

– Obrigado.

– Um instante, por favor, senhoras e senhores. Alguém acaba de entregar uma mensagem ao professor. Um instante, por favor, o professor passa às minhas mãos a mensagem que acaba de receber. Senhoras e senhores, o telegrama recebido pelo professor Pearson está assinado pelo Dr. Grey do Museu de História Natural de Nova York, e tem o seguinte texto: “às 21h15m de hoje o sismógrafo registrou um choque de intensidade quase igual à de um tremor de terra, num raio de 20 milhas ao redor de Princeton. Queira, por favor, investigar. Assinado Lloyd Grey, chefe do Departamento Astronômico”. Fim da citação.

– Professor Pearson, o senhor vê alguma relação entre este fenômeno e as alterações verificadas em Marte?

– Oh… Claro que não, Sr. Philips. Trata-se, provavelmente, da queda de um meteorito de tipo bastante raro, cuja chegada neste momento não tem nenhuma coincidência com o ocorrido em Marte. Logo que o dia amanheça, investigaremos o assunto.

– Obrigado, professor, senhoras e senhores, acabamos de falar diretamente do Observatório de Princeton, na transmissão de uma entrevista especial do célebre professor Pearson. Alô, Nova York. Alô, estúdio.

Música e depois o locutor.

– Senhoras e senhores, transmitimos a seguir o último boletim de notícias da International Radio News: “Toronto, Canadá. O Professor Morris, da Universidade de MacMilan, declarou ter observado, entre às 19h45m e 21h20m de hoje, três explosões na superfície do planeta Marte”. E neste momento nos chega uma informação procedente de um local bem próximo de nós. Um boletim especial de Fenton, Nova Jersey, assinala que às 20h50m um gigantesco objeto incandescente – possivelmente um meteorito – caiu numa fazenda próxima de Grover’s Mill, em Nova Jersey, a 22 milhas de Fenton. O clarão do objeto no céu foi visível num raio de centenas de milhas e o estrondo da queda ouvido até em Elizabeth, muitas milhas em direção ao Norte. Despachamos vários repórteres para os locais em questão, inclusive o nosso enviado especial Carl Philips. Enquanto não chegam novas notícias, transmitiremos diretamente do Hotel Martinez, em Brooklin, com a orquestra de Bobby Mitchell, que executa um programa de música romântica.

Música de estúdio.

– Neste momento, entramos em comunicação com Grover’s Mill, em Nova Jersey.

Ruído de sirenes.

– Senhoras e senhores. Aqui fala Carl Philips, no pátio da fazenda Willmot, em Grover’s Mill, estado de Nova Jersey. Em companhia do professor Pearson, percorri em apenas 10 minutos as 11 milhas que separam esta fazenda do Observatório de Princeton. Bem… bem… não sei como começar. Não sei como descrever a estranha cena que se desenrola diante de meus olhos. É inacreditável. Acabo de chegar e ainda não pude ver tudo. Eu… eu… eu… sim, aí está. Diante de mim… uma coisa… meio enterrada num buraco enorme. Deve ter caído com uma força terrível, pois o solo está inteiramente coberto de fragmentos de árvores despedaçadas por ocasião da queda. Contudo, é evidente que o objeto não tem qualquer semelhança com um meteorito, pelo menos com os meteoritos que já vimos antes. Parece mais um imenso cilindro, com um diâmetro de… a seu ver, professor Pearson, qual o diâmetro?

– O quê?

– Qual o diâmetro, professor?

– Mais ou menos 30 metros.

– Mais ou menos 30 metros! O metal de que é construído é… bem… nunca vi nada parecido. É branco, um pouco amarelado. Populares se aproximam do objeto, apesar dos esforços da polícia para mantê-los a distância. Eles tomam a minha frente… Por favor, podiam ficar um ao lado do outro?

Vozes, a polícia afasta os curiosos.

– Vai falar agora o Sr. Willmot, proprietário da fazenda, que talvez tenha alguma informação para acrescentar. Com a palavra o Sr. Willmot.

– Olá!

– O senhor poderia dizer algo aos nossos ouvintes acerca deste estranho visitante que acaba de descer no seu jardim? Aproxime-se, por favor. Senhoras e senhores: o Sr. Willmot.

Voz com forte sotaque caipira.

– Eu estava escutando o rádio…

– Um pouco mais alto, por favor.

– O que?

– Mais alto!

– Tá bem. Eu estava escutando o rádio, meio dormindo, meio acordado. Tinha um tal de professor Machin falando sobre o planeta Marte e eu dormi na metade da história…

– Sim, Sr. Willmot, e depois, o que houve?

– Como eu estava dizendo, fiquei escutando o rádio e dormi na metade da história.

– Sim, sim, Sr. Willmot, e depois, o senhor viu alguma coisa?

– Bem, não foi logo em seguida. Daí escutei um ruído.

– De que espécie?

– Um assobio, assim. Como esses foguetes que soltam em dias de festas.

– E daí?

– Daí virei a cabeça para o lado da janela e tive a impressão de que estava sonhando. Vi um risco de fogo e depois pum!… Qualquer coisa bateu no chão com tanta força que me fez cair da cadeira.

– Sentiu medo, Sr. Willmot?

– Bom, não sei, foi uma surpresa tão grande…

– Obrigado, Sr. Willmot, muito obrigado.

– O senhor quer que eu fale do…

– Não, obrigado, é mais do que suficiente. Senhoras e senhores acabam de ouvir o Sr. Willmot, proprietário da fazenda onde caiu o objeto não identificado. Eu gostaria que vissem a cena com seus próprios olhos. É inacreditável. Os curiosos não respeitam os cordões de isolamento e os faróis dos automóveis iluminam intensamente o buraco onde se encontra o objeto, enterrado pela metade. Algumas pessoas vão até a borda do buraco, as suas silhuetas se recortam contra o enorme cilindro. Senhoras e senhores, existe ainda algo que não mencionei, mas que se torna cada vez mais nítido no meio de toda essa agitação. Talvez possam ouvir. Estão ouvindo?

Um zumbido discreto.

– Estão ouvindo esse curioso zumbido que parece vir do interior do objeto? Tentaremos nos aproximar com o microfone. Pronto, estamos a menos de 10 metros do objeto. Ouvem agora? Professor Pearson.

– Sim, Sr. Philips?

– O senhor sabe o que significa este zumbido?

– Trata-se provavelmente do resfriamento do objeto.

– Bem, o senhor continua a acreditar que isto é um meteorito, professor Pearson?

– Não sei. Indiscutivelmente o material não é terrestre, seria impossível encontrá-lo em qualquer ponto de nosso planeta. Além do mais, como se sabe, o atrito com a atmosfera terrestre costuma ferir a superfície dos meteoritos… e esta coisa cilíndrica parece absolutamente lisa…

– Algo está acontecendo. Senhoras e senhores, é impressionante, uma das extremidades do objeto está se abrindo, está se descascando, a parte superior está se desaparafusando. Pelo jeito a coisa é oca…

Gritos de terror. Pânico.

– Atenção! Cuidado!…

– Nunca vi nada mais terrível… um momento… há qualquer coisa aparecendo na parte superior do aparelho! Alguém… ou alguma coisa. Alguma coisa que sai da sombra… parece uma serpente enorme. E agora outra. Parecem tentáculos. Já se pode ver o corpo da coisa. É muito grande, do tamanho de um urso. Brilha como se fosse de couro molhado. Parece… senhoras e senhores, é impossível descrever. Deixem-me ver primeiro. É horrível, seus olhos são negros, de sua boca sai uma luminosidade em forma de V, não tem lábios, escorre baba, ele treme todo, bate a cada instante como se fosse um enorme coração. O monstro… ou o que quer que seja… mal consegue se mover, parece grudado ao chão, preso pela gravidade terrestre. Agora parece que a coisa está se levantando e a multidão recua. Senhoras e senhores, não tenho palavras… tenho que parar esta reportagem a fim de procurar um posto de observação melhor. Continuem em sintonia conosco…

Música suave.

– Estão ouvindo uma reportagem diretamente da fazenda Willmot, em Grover’s Mill, Nova Jersey.

Música suave.

– Senhoras e senhores… Será que estou na antena?… senhoras e senhores, encontro-me neste momento em cima do muro do jardim do Sr. Willmot, de onde tenho uma visão de conjunto do espetáculo. Continuarei a lhes fornecer todos os detalhes, enquanto puder falar e ver o que acontece. Parece que estão chegando reforços da polícia, deve haver pelo menos 30 policiais ao redor do buraco. Agora não há mais necessidade de conter os curiosos, pois a multidão recuou para uma distância segura. O chefe de polícia está discutindo com alguém que não reconheço. Ah, parece que é o professor Pearson. Sim, é ele. Neste momento o professor examina um dos lados do aparelho, enquanto o chefe da polícia e dois guardas se postam a seu lado com alguma coisa na mão. Ah, sim, é um lenço branco amarrado à ponta de uma vara, uma bandeira de paz… parece que aquelas criaturas entendem o significado da bandeira.

Forte vibração.

– Incrível, está acontecendo qualquer coisa inesperada! Uma coisa qualquer está saindo do buraco, estou vendo uma luz em um vidro. É… é um jato de fogo, um jato de fogo saindo daquele espelho, na direção do grupo, o jato os alcança como se fosse um chicote. Meu Deus! Eles estão pegando fogo!…

Urros de dor, gritos de pânico.

– A multidão está correndo para o bosque, as chamas se espalham por toda a parte… estão vindo para o nosso lado… a alguns metros…

Estúdio.

– Senhoras e senhores, por motivos alheios a nossa vontade, somos forçados a interromper essa reportagem direta de Grover’s Mill, pois, ao que parece, houve dificuldades com o membro de nossa equipe ali destacada. Prometemos, porém, continuar a transmissão assim que seja possível. Enquanto isso, transmitiremos uma notícia que acaba de chegar de San Diego, na Califórnia. Hoje, no decorrer de um jantar da Sociedade de Astronomia da Califórnia, o professor Kendel Kopfer manifestou a opinião de que as explosões em Marte nada mais são do que grandes erupções vulcânicas na superfície daquele planeta… Continuaremos agora com o nosso programa de música suave.

Música.

– Senhoras e senhores, estou sendo informado, neste instante, de que já dispomos do testemunho de alguém que viu com seus próprios olhos a tragédia ocorrida há pouco em Grover’s Mill. Trata-se do professor Pearson, localizado há minutos nas imediações daquela fazenda, onde estabeleceu o seu posto de observação. Na qualidade de cientista, ele vai dar a explicação da tragédia. Com vocês o professor Pearson.

Transmissão a distância.

– Quanto à criatura saída de dentro do foguete cilíndrico de Grover’s Mill, nada de conclusivo posso afirmar, nada sobre sua natureza, sua origem, suas intenções. Quanto ao engenho destrutivo por ele utilizado, creio que tenho algo a dizer. À falta de um termo mais preciso, eu diria que se trata de um raio de calor. É evidente que tais criaturas possuem conhecimentos científicos bem mais avançados do que nós. A meu ver, são capazes de acumular um certo tipo de calor muito intenso em um recipiente imune à condutibilidade. Esse calor é projetado em forma de raio, através de um espelho parabólico de material desconhecido. O calor se projeta da mesma forma que a luz de um farol de automóvel. Está é minha opinião sobre a origem do raio.

Estúdio.

– Obrigado, professor Pearson. Neste instante, uma ligação chegada de Princeton nos dá conta de que o corpo queimado de Carl Philips acaba de ser levado para o hospital de Trenton. De Washington nos informam também que o diretor da Cruz Vermelha acaba de enviar 10 equipes de socorro à central de polícia do estado, as quais se encontram agora estacionadas nas imediações de Grover’s Mill, onde os incêndios já estão sob controle. No buraco onde caiu o objeto, tudo parece calmo, não havendo sinal de vida dentro do cilindro. Eis uma declaração especial do Sr. Henry MacDonald, vice-diretor de operações:

“Acabamos de receber um apelo do destacamento da Polícia Estadual em Princeton. Faremos o possível para conceder-lhes todas as facilidades, tendo em vista a gravidade da situação. Estamos persuadidos de que o rádio tem o dever de servir a cada instante o interesse do público. Colocamos todo nosso equipamento à disposição da Polícia de Trenton.” Neste momento passamos a falar de um posto de polícia estabelecido nas imediações de Grover’s Mill.

– Aqui fala o capitão Lensing, do corpo de sinaleiros da Polícia estadual. Neste momento estamos realizando uma operação militar perto de Grover’s Mill. Podemos afirmar que os objetos não identificados estão sob controle. O objeto não identificado está dentro de um buraco, sob nossa mira, cercado de oito batalhões de infantaria. Não possuímos artilharia pesada, mas estamos bem armados, com fuzis e metralhadoras. Não há mais motivo para pânico. As coisas, seja lá o que forem, não se atreverão a ultrapassar a borda do buraco. Daqui, à luz dos faróis, estou vendo o esconderijo dele. Com todos os seus recursos, se é que realmente eles os têm, esses caras não poderão sustentar um combate com nossas tropas. De qualquer forma, é um bom exercício para os soldados. De meu posto, eu os vejo, em uniformes cáqui, passeando diante dos holofotes. Parece uma guerra de verdade. Há um pouco de fumaça no bosque a margem do rio Millstone. Devem ser fogueiras acessas pelos camponeses. O melhor seria entrarmos logo em ação: um rápido assalto de uma das companhias postadas nos flancos e tudo estaria terminado. Um momento, estou vendo qualquer coisa lá no alto do cilindro. Não, era apenas uma sombra. Há nada menos que 7 mil homens armados nas terras da fazenda Willmot, cercando um cilindro metálico. Esperem, não era uma sombra, é uma coisa qualquer que se levanta do cilindro. Está cada vez mais no alto. Nossa! A coisa tem pernas. É qualquer coisa que se ergue sobre andaimes de metal. Agora está passando das árvores, perseguida pelos holofotes. Esperem…

Estúdio.

– Senhoras e senhores, tenho uma importante informação para transmitir. Por incrível que pareça, tanto as observações dos cientistas quanto as nossas levam à inevitável conclusão de que os estranhos seres que há pouco aterrissaram na fazenda Willmot constituem a vanguarda de um exército de invasores procedentes do planeta Marte. A batalha que acaba de ter lugar em Grover’s Mill terminou com a mais incrível derrota sofrida por um exército de nosso tempo. Uma só máquina procedente de Marte enfrentou 7 mil homens armados de fuzis e metralhadoras, dos quais apenas 120 sobreviveram. Os corpos dos restantes juncam agora  o campo de batalha, que se estende de Grover’s Mill até Plainsborough, tudo arrasado pelos pés metálicos do monstro, tudo reduzido a poeira pelo seu raio de calor. O monstro ocupa a parte central de New Jersey e divide os Estados Unidos ao meio. As linhas de comunicação acham-se cortadas desde a Pensilvânia até o Atlântico. Os trilhos das ferrovias foram arrancados e as rodovias entre a Filadélfia e New York estão interrompidas, excetuando-se os desvios de Allentown e Felixtown; as auto-estradas no norte, do sul e do oeste estão ocupadas por multidões tomadas de pânico. A polícia e o exército são incapazes de controlar esse êxodo absurdo. Acaba de ser decretada a lei marcial em New Jersey e no leste da Pensilvânia. Diretamente de Washington, transmitiremos agora um comunicado especial sobre o estado de emergência. Com a palavra o ministro do Interior: “Cidadãos. Não esconderei a gravidade da situação que se abate sobre este país, nem os problemas que o governo está enfrentando para proteger a vida e as propriedades dos cidadãos. Entretanto, quero fazer com que todos sintam, civis e militares, a urgente necessidade de calma e de ação. Felizmente o terrível inimigo ocupa apenas uma área relativamente pequena do país e podemos estar certos de que nossas Forças Armadas serão capazes de detê-los. Enquanto isso, depositando em Deus a nossa fé, saibamos cumprir o nosso dever, a fim de que a nossa nação, unida, corajosa e consagrada à preservação da supremacia humana sobre este planeta, possa enfrentar o inimigo. Muito obrigado.”

Ruídos de avião.

– Aqui fala o avião bombardeiro Z-843, voando sobre New Jersey. Tenente Bolt, comandante, ao comandante Forsyte, base de Langham. Máquina inimiga a vista, bem como três outros aparelhos em forma de cilindro. Uma das máquinas está parcialmente danificada e cercada de policiais. Suas armas parecem silenciosas. Uma espécie de pesado nevoeiro cobre o chão, parece extremamente denso e é de um tipo desconhecido. Não há sinais do raio de calor. O inimigo se dirige agora para o oeste. Vai atravessar o rio. Evidentemente seu objetivo é New York… acaba de destruir uma central hidrelétrica.

Ruído poderoso de motor descendo a pique.

– As máquinas estão cada vez mais próximas. Vamos atacá-las. Mais 900 metros e ela estarão dentro de nosso alvo. Daqui a 800 metros… 600… 400… 200… pronto… ele está aprontando o raio em nossa direção, é uma luz verde…

Ouve-se nitidamente a queda do avião. Corte. Outra voz.

– Estamos queimando… a 80 metros… o motor não responde… não há meio de largar as bombas… estamos caindo… o motor parou… eu…

– Nova Jersey chamando a base de Langham… Responda, por favor…

– Aqui, base de Langham. Fale.

– Oito bombardeiros tiveram seus motores danificados durante a missão contra os aparelhos não identificados. Foram atingidos pelo raio de calor e abatidos. Um aparelho inimigo foi danificado. O inimigo está mandando uma espessa cortina de fumo negro na direção de…

Corte. Outra voz.

– Aqui New Jersey… Aqui New Jersey… Atenção… uma pesada cortina de fumaça negra avança em direção às áreas ainda não conflagradas… as estradas federais 7, 23 e 24 estão completamente engarrafadas… evitem esta região bloqueada… a fumaça se propaga pelas ruas…

– XXLL chamando 8X3R… XXLL chamando 8X3R… responda por favor…

– Aqui 8X3R respondendo a XXLL…

– Vocês nos recebem bem? Onde está você, 8X3R?… Onde está você?…

Apitos de trem e de navios.

– Estou falando do teto do nosso estúdio em New York…

Bimbalhar de sinos.

– Os sinos que ouvem neste momento estão dando o sinal de alarme para que os habitantes abandonem a cidade, pois os marcianos se aproximam… Calcula-se que nas últimas horas nada menos de 3 milhões de pessoas fugiram pelas estradas no norte… todas as pontes continuam abertas… a fim de evitar que os automóveis tenham de seguir por Long Island, que parece infernalmente engarrafada…

Enquanto o locutor fala, ouvem-se os ruídos distantes do porto: sirenes, apitos, etc.

– Todas as comunicações com New Jersey foram cortadas há 10 minutos… não há mais nenhuma possibilidade de defesa, o nosso exército foi completamente destruído… esta talvez seja a nossa última emissão… permaneceremos aqui até o fim… lá embaixo o povo reza na catedral… no porto, os navios estão superlotados… todas as ruas estão bloqueadas… um momento, um momento… estou vendo o inimigo lá para os lados de Palissade Park… cinco… gigantescas máquinas… a primeira acaba de atravessar o rio… atenção, recebi agora mesmo um telegrama: “Os cilindros marcianos estão descendo no país inteiro, um em Buffalo, outro em Chicago, Saint-Louis”… Tudo parece cronometrado, planejado, um engenho acaba de atravessar o rio e observa a cidade… é da altura de um arranha-céu… está esperando pelos outros… parecem uma fileira de torres a oeste da cidade… estão erguendo as suas mãos metálicas… é o fim… sai fumaça… uma fumaça negra que envolve a cidade… os transeuntes vêem a fumaça… milhares de pessoas fogem para o leste, como ratos… a fumaça se propaga rapidamente para os lados de Times Square… Os fugitivos procuram evitá-lo, mas é inútil, caem como moscas… a fumaça está chegando agora à Sexta Avenida… está apenas a 80 metros… a alguns metros…

(tosse. Ruído de um corpo que cai.)

Silêncio.

– XXLL chamando New York… XXLL chamando New York… XXLL chamando New York… XXLL chamando New York… Alguém na escuta? Ninguém? XXLL…

Voz de Orson Welles no papel do último homem.

– Sou talvez o único homem vivo sobre a Terra. Escapei porque me escondi numa casa deserta, nas proximidades de Grover’s Mill. Tudo o que aconteceu antes da chegada das monstruosas criaturas parece fazer parte de uma existência muito remota. Uma vida sem nenhuma relação com a atual. Com esta existência sem sentido, reduzida ao silencioso diálogo com uma folha de papel, em cujo verso acham-se escritas algumas notas sobre astronomia, assinadas pelo professor Richard Pearson. Olho para minhas mãos enegrecidas, meus sapatos rasgados, minhas roupas em farrapos e tento estabelecer alguma relação entre mim e esse homem de Princeton que, na noite de 20 de outubro, percebeu em seu telescópio um curioso clarão alaranjado na superfície de um planeta distante. Minha mulher, meus colegas, meus alunos, meus livros, meu laboratório, meu… meu… mundo, onde estão? Alguma vez existiram? Sou de fato Richard Pearson? Que dia é hoje? Os dias existem sem calendário? Descrevendo agora a minha vida cotidiana, digo a mim mesmo que estou conservando a história do homem entre as capas escuras deste pequeno caderno. Mas, para escrever devo permanecer vivo, e para viver tenho de comer. Na cozinha, encontrei um pouco de pão e uma laranja não muito ressequida. Olho continuadamente através da janela e de vez em quando vejo um marciano por entre a fumaça negra, esta fumaça que envolve tudo. Às vezes ouço um silvo e vejo um marciano pulverizando os arredores com um jato de vapor, a fim de dissipar a fumaça. Vejo sua enorme perna de ferro, quase tocando a casa onde estou… Fui dormir dominado pelo terror… Hoje de manhã… O sol penetrou através da janela, a nuvem negra desapareceu dos campos, somente os campos para os lados do norte ainda parecem cobertos por essa nuvem negra… aventurei-me a sair de casa, fui até uma estrada coberta de veículos destruídos, esmagados, esqueletos carbonizados… Caminho para o norte… não sei exatamente porque sinto-me possuído pela idéia de perseguir os monstros, ao invés de ser perseguido… Observo minuciosamente os arredores e, se por acaso algum dos monstros aparecer, estarei pronto para me atirar ao chão… Acabo de ver uma árvore de natal… Outubro?… Há dois dias caminho em direção ao norte, através de um mundo de desolação… Por fim, encontrei uma criatura viva, um pequeno esquilo no galho de uma árvore… Olhei para ele, pensativamente; ele me olhou e, naquele momento, tive a impressão de que sentiu uma emoção igual a minha: a de ter encontrado uma criatura viva… Continuo a andar em direção ao norte… No dia seguinte, vi uma cidade, uma cidade de contornos vagamente familiares, cujas casas parecem ter sido caprichosamente decepadas pela mesma mão, igualadas pela mão de um gigante… fiquei nos arredores da cidade… Depois de ter caminhado muito tempo, cheguei finalmente à New York, ansioso por saber qual fora o destino dessa grande cidade. Entrei cautelosamente em um túnel e fui sair em Canal Street. Ao alcançar a Rua 14, encontrei está poeira negra e estes corpos mutilados; vinha um cheiro terrível dos porões de certas residências. Atravessei as Rua 30 e 40 e me vi sozinho no meio do Times Square. Notei a presença de um cão muito magro, que corria pela Sétima Avenida. Aproximou-se, pôs-se a andar ao redor de mim. Continuei em direção à Broadway, através da poeira negra, destas vitrines silenciosas que enviam a sua mensagem sem palavras às calçadas desertas. Eis o Capitólio, silencioso e nu. Passo diante de um stand de tiro ao alvo, vejo uma fila de fuzis diante de patos de madeira, imóveis. No Columbus Circus, vejo uma enorme vitrine e dentro dela um automóvel 1939, que parece olhar a rua desolada. Sobre o teto de uma casa, pássaros negros voam em círculos. De repente, percebo o capô de uma das máquinas dos marcianos, brilhando ao sol do Central Park. Subo a uma pequena elevação e vejo 19 máquinas iguais, imóveis, os braços pendentes ao longo de sua couraça vazia. Os monstros que ocupavam tais engenhos parecem ter desaparecido. Só então percebo a grande quantidade de pássaros que voam perto do chão, onde jazem os cadáveres nus e silenciosos dos marcianos. Famintos os corvos arrancam pedaços de seus corpos inanimados… Mais tarde, quando os cadáveres foram examinados nos laboratórios, descobriu-se que tinham sido mortos por micróbios contra os quais os seus organismos não estavam imunizados. Estranho, quando falharam as armas dos homens, venceram os pequenos organismos. Antes do ataque, estávamos persuadidos de que fora de nosso globo não havia nenhuma espécie de vida. Hoje vemos mais longe. Uma visão maravilhosa se forma em nosso espírito: a visão de uma vida que se estende, lentamente, a partir desses pontos minúsculos do sistema solar, em direção à imensidade do espaço sideral. Parece-me quase inacreditável estar sentado outra vez diante de minha mesa de trabalho, em Princeton, a escrever tranquilamente este último capítulo das notas começadas numa casa deserta nas imediações de Grover’s Mill. É quase inacreditável ver através da minha janela a universidade que renasce, os garotos que brincam na rua, os jovens deitados na grama primaveril, de uma primavera que trata de ocultar as últimas feridas escuras da tragédia. É quase inacreditável assistir ao fluxo de visitantes que vêm ao museu a fim de ver os restos de uma máquina marciana exposta ao público; é inacreditável que eu possa ainda me recordar da primeira vez que vi esta máquina brilhante, dura e silenciosa, ao amanhecer daquele derradeiro e histórico dia.

Música.

– Senhoras e senhores. A peça terminou e agora fala Orson Welles, para assegurar que a guerra dos mundos não foi nada mais do que um divertimento, a única maneira que o Mercury Theatre encontrou de se cobrir com um lençol e se esconder atrás de uma moita, a fim de lhe pregar um susto. Desta forma, fizemos o que nos competia, aniquilamos o mundo e destruímos inteiramente a CBS. Espero, pelo menos, que hajam compreendido as nossas boas intenções e estejam certos de que estas duas instituições (o mundo e a CBS) continuam em perfeito funcionamento. Assim, boa-noite a todos, com a recomendação de que se recordem, pelo menos durante alguns dias, da horrível lição aprendida esta noite.

Download do programa original

Se você ficou empolgado com essa transcrição do programa de “A Guerra dos Mundos” que Orson Welles levou ao ar via rádio em 1938, saiba que o programa pode ser baixado. Clique aqui no título “A Guerra dos Mundos” e se divirta!!!

Quem foi Orson Welles?

Nascido em 06 de maio de 1915, Orson Welles foi diretor teatral, ator, roteirista, produtor e diretor de cinema. Com pouco mais de 20 anos, Welles dirigiu uma série de produções teatrais, incluíndo uma inovadora adaptação de “MacBeth” de William Shakespeare com atores negros, mudando a ambientação da peça (que no original se passa na Escócia) para uma fictícia ilha do Caribe. Em 1938 ganhou fama internacional por sua adaptação radiofônica de “A Guerra dos Mundos”. Com este sucesso sem precedentes na manga, Orson Welles acabou indo para Hollywood onde, para o estúdio RKO Radio Pictures, realizou o clássico cinematográfico “Citizen Kane” (“Cidadão Kane”, 1941), baseado na vida do lendário mago das comunicações William Randolph Hearst. Devido ao seu ego sem tamanho, Welles não se acertava com os produtores executivos dos estúdios e a indústria hollywoodiana, fato que prejudicou inúmeros de seus futuros projetos. Após “Citizen Kane”, Welles veio ao Brasil realizar um documentário sobre o carnaval, que acabou virando um projeto megalomaníaco complicado intitulado “It’s All True”, onde, num acidente de filmagens, um jangadeiro retratado no documentário acabou morrendo. Após o fracasso de público de “The Lady from Shanghai” (“A Dama de Xangai”, 1948), Welles passou mais de 10 anos trabalhando em uma adaptação de “Dom Quixote”. Sem conseguir filmar seus próprios projetos Welles passou a aceitar papéis em qualquer filme, sendo sustentado no final de sua carreira pelo diretor Peter Bogdanovich. Faleceu em 10 de outubro de 1985 de ataque cardíaco.

Guerra nos cinemas

“War of the Worlds” (“Guerra dos Mundos”, 1953, 85 min.) de Byron Haskin com produção de George Pal. Com: Gene Barry e Ann Robinson.

A primeira adaptação de “A Guerra dos Mundos” para o cinema, comandada pelo produtor George Pal, se baseou mais na adaptação de rádio de Orson Welles do que no livro de HG Wells. No filme a trama é atualizada para o início dos anos de 1950 e o cenário é o sul da Califórnia. Dr. Clayton Forrester (Gene Barry) pesca com seus colegas quando um meteoro cai nos arredores, logo o Dr. Forrester e toda uma multidão de humanos curiosos vão ver o meteoro que se revela uma espaçonave marciana. Diferente de todas as outras adaptações, aqui as máquinas marcianas não possuem pernas (na verdade elas iriam ser “Tripods”, como no livro e na peça radiofônica, mas problemas em conseguir o efeito desejado fizeram George Pal preferí-las voando sem tocar o solo). Uma violenta batalha é travada entre humanos e marcianos, revelando a supremacia dos invasores. Dr. Forrester e a mocinha Sylvia Van Buren (Ann Robinson) conseguem escapar e, após conseguirem arrancar um olho mecânico de uma espaçonave alienígena, chegam à Pacific Tech, onde vários outros cientistas estão reunidos testando meios de deter os marcianos.

As máquinas de guerra marcianas foram desenhadas pelo artista Al Nozaki, que modificou as naves descritas no romance de Wells, criando nas naves uma espécie de periscópio que funcionava tanto como arma, quanto como “olho”. As máquinas também disparam agora um feixe de raio verde, substituindo a “fumaça preta”, uma arma química presente no livro (o efeito sonoro desta arma foi criada com o golpear de um martelo num cabo de alta tensão). Outra mudança significativa que George Pal fez foi retirar a sátira à humanidade que havia na segunda metade do livro de Wells, tornando o filme uma peça de fácil assimilação pelo público pagante comum dos cinemas.

Na época de seu lançamento, “A Guerra dos Mundos” de George Pal foi um tremendo sucesso de crítica e bilheteria, arrecadando na época mais de 2 milhões de dólares e se tornando o maior hit sci-fi daquele ano. Foi indicado à 3 Oscars (montagem, sound recording e efeitos especiais, tendo vencido nesta última categoria). Aqui no Brasil “Guerra dos Mundos” já foi lançado duas vezes em DVD pela Paramount. Tenho as duas edições na minha coleção, a primeira é pelada (trás de extra apenas o trailer do filme), já a segunda edição tem extras bem bacanas: comentários de áudio com os atores Gene Barry e Ann Robinson, comentários de áudio com Joe Dante, Bob Burns e Bill Warren, o programa radiofônico de Orson Welles, um documentário sobre a produção do filme, outro documentário sobre HG Wells e o trailer original de cinema. Imperdível!

Quem foi George Pal?

George Pal, nascido no dia primeiro de fevereiro de 1908 sob o assustador nome de György Pál Marczincsak, é um hungaro naturalizado americano que fugiu da Europa quando os nazistas tomaram o poder. Como animador ele criou a popular série “Puppetoons” pela qual ganhou um Oscar honorário em 1944 pelo desenvolvimento de novas técnicas na produção de curtas-metragens. Em 1950 começou a produzir filmes de live-action, se especializando na produção de sci-fi e filmes de fantasia. E daí em diante fez vários filmaços, como “Destination Moon” (1950, dirigido por Irving Pichel), “When Worlds Collide” (1951, dirigido por Rudolph Maté), “Conquest of Space” (1955, dirigido por Byron Haskin), “The Time Machine” (1960, já lançado em DVD no Brasil pela Warner), “Atlantis – The Lost Continent” (1961) e o fenomenal “Seven Faces of Dr. Lao” (1964), estes 3 últimos títulos dirigidos por ele próprio. Morreu de ataque cardíaco no dia 02 de maio de 1980, deixando o projeto “The Voyage of the Berg”, no qual ele trabalhava na época, inconcluído.

As tralhas de A Guerra dos Mundos

“Guerra dos Mundos” faz parte da cultura popular desde 1938 quando foi ao ar o programa de rádio de Orson Welles e, em 1953, com o filme de George Pal, entrou de vez no inconsciente coletivo da humanidade. Em 1976 a Marvel Comics lançou uma adaptação em quadrinhos, desenhada por Yong Montano, bem fiel ao livro de HG Wells (que foi editada no Brasil em 1978 pela Bloch Editores, a qual digitalizei algumas páginas que servem de ilustração à transcrição do programa de rádio de Orson Welles). Em 1980 a revista brasileira “Spektro” (número 14) publicou essa transcrição do programa de rádio de Orson Welles que resgatei especialmente para este post. Em 2006 a Dark House lançou sua adaptação de “Guerra dos Mundos” em uma HQ feita por Ian Edginton e D’Israeli.

“Guerra dos Mundos” também virou uma série de TV que durou duas temporadas, de 1988 a 1990, sendo uma espécie de extensão do filme original de 1953. Alguns episódios desta série chegaram a ser lançados em VHS aqui no Brasil (cheguei a ter uma fita destas na coleção, mas não sei que fim levou), mas a série era ruim demais e não teve fôlego para continuar. Uma curiosidade interessante é que, na primeira temporada, Ann Robinson reprisa seu papel como Sylvia Van Buren.

Em 2005 Steven Spielberg fez sua adaptação cinematográfica do livro de Wells, mas seu “Guerra dos Mundos” é uma palhaçada família indigna de constar no Canibuk. A colaboração da versão de Spielberg foi a produção de outras duas bombas baseadas no livro de Wells: Uma versão da produtora Asylum, também de 2005, dirigida por David Michael Latt (que admitiu nunca ter visto o “Guerra dos Mundos” de Byron Haskin/George Pal), que é um filme intragável, e, ainda de 2005, uma versão da Pendragon Pictures, dirigida por Timothy Hines, que tentou fazer uma adaptação fiel do romance de Wells, que quando foi lançado recebeu inúmeras críticas negativas. O próprio diretor do filme, Hines, declarou na época: “Eu queria fazer ‘Guerra dos Mundos’, mas o que fiz foi algo como um filme de Ed Wood”.

Escrito por Petter Baiestorf.

7 Respostas to “A Guerra dos Mundos”

  1. Petter, olha que interessante este livro!

    Fizeram uma radiofusão em 71 no Maranhão que mobilizou até o exército:

    http://www.facebook.com/Outubrode71

    Aqui tem um link da matéria no G1 sobre o livro e o fato:

    http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2011/10/programa-de-radio-que-causou-panico-no-maranhao-faz-40-anos.html

    Abraços

  2. a namorada. Says:

    Grande texto, fico feliz que seu blog exista

  3. […] um clube de ficção cientifica em Los Angeles. O grande sonho de Harryhausen era filmar “The War of the Worlds” (livro do escritor HG Wells), chegou até a filmar uma cena teste com um polvo marciano […]

  4. […] roteiro de H.G. Wells, baseado em seu próprio livro “The Shape of Things to Come” (1933), misturado com […]

  5. […] em 1914 e falecido em 1977, começou a dirigir filmes no início dos anos 40, foi assistente de Orson Welles em “The Lady from Shanghai” (1947). Chamou atenção do público depois que começou a […]

  6. […] Ann Robinson nasceu em 1935 e seu papel mais famoso é o de Sylvia Van Buren no clássico “The War of the Worlds” (1953) de Byron Haskin, onde pela primeira vez ela pode interpretar uma personagem […]

  7. […] Trindade me deu toque sobre a existência de uma versão musical do livro “The War of the Worlds” de H.G. Wells que eu desconhecia completamente. Gravado em 1978 por Jeff Wayne, é um álbum […]

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