Duas Vidas para Antonio Espinosa

“Duas Vidas Para Antonio Espinosa” (2010, 16 min.) de Caio D’Andrea e Rodrigo Fonseca. Com: Índio Lopes, Guilherme Lopes, Luiz Fernando Resende, Gessy Fonseca e Angelo Coimbra.

Em 1976 Alberto Espinosa recebe um misterioso bilhete que o faz relembrar uma desavença do passado, quando em 1949, ele, seu irmão Antonio e outros dois amigos, atacaram índios sem terra só pela farra de importunar índios indefesos. A ação se torna desastrosa por conta do Pajé (índio Lopes, magnífico) que parece ter o corpo fechado. Com este ponto de partida, Caio e Rodrigo (os diretores) construíram um western tenso que remete ao clima das antigas HQs da revista de horror “Spektro”, uma publicação brasileira que explorava muito bem o folclore fantástico nacional; misturando ao que de melhor o Spaghetti Western legou aos cinéfilos de todo o mundo: Sergio Leone (principalmente seus inventivos “The Good, The Bad and The Ugly/Três Homens em Conflito” e “Once Upon a Time in the West/Era uma Vez no Oeste”), Sergio Corbucci (“Il Mercenario/Os Violentos Vão Para o Inferno”), Sergio Sollima (“La Resa dei Conti/The Big Gundown”) e Enzo Castellari (“Keoma”). A belíssima seqüência final do curta “Duas Vidas para Antonio Espinosa” remete diretamente ao duelo final de “The Good, The Bad and The Ugly”, com planos inspirados no clássico italiano.

O elenco deste curta é um verdadeiro achado, com destaque ao Índio Lopes (figura dos tempos da Boca do Lixo, amigo de Candeias, de José Mojica Marins; foi assistente de Valentino Guzzo – a antológica Vovó Mafalda no programa do Bozo – chegando a atuar numa novela, “As Minas de Prata”, e participação no clássico “Finis Hominis” de Mojica) que está no filme quase que de maneira acidental, como conta Caio D’Andrea, “O Carlos Sabugo, que fez os efeitos e também o primeiro índio que morre, falou que tinha o contato de um cara que morava no prédio dele que poderia fazer um dos índios. Quando o cara chega é o Índio Lopes”. Rodrigo Fonseca completa, “Já tínhamos em mente colocar alguma referência aos ‘feijoada westerns’ realizados na Boca do Lixo, e foi tranqüilo, o Índio Lopes é um cara muito bacana, além de ser ‘o cara’ para o papel do Pajé ele é uma pessoa legal de conversar, com muita história boa para contar”. Gessy Fonseca (nenhum parentesco com o diretor Rodrigo) é atriz e dubladora, era ela quem fazia a voz da mulher-gato no antigo seriado do Batman. Guilherme Lopes (que interpreta Alberto Espinosa) e Luiz Fernando Resende (que interpreta o Maurão) já haviam trabalhado com Rodrigo no curta “Mundo Cão” e estão completamente a vontade em seus papéis. O resto do elenco, de Angelo Coimbra (que interpreta um Antonio Espinosa adulto de poucas palavras) à Wilson de Andrade (um dos índios), até a garotada mais nova (Caio Merseguel, Lucas Dantas, Tony Budnikas e Samuel Barreto), menos experientes, está bem convincente em seus papéis. Sem esquecer de comentar a ótima fotografia do filme feita por Nicole Samperi e a trilha sonora composta por Renato Galozzi.

“Duas Vidas para Antonio Espinosa” é um filmaço, tecnicamente bem realizado e planejado e que, em minha opinião, deveria virar um longa-metragem (se no caso o Brasil tivesse produtores com visão comercial, algo que infelizmente não temos). Este curta revisita de maneira espetacular o gênero western, dando-lhe pequenos toques do gênero fantástico que não quero revelar aqui para não estragar o prazer que é assisti-lo. Mas Caio, sobre as possibilidades de torná-lo um longa, diz: “Também acho que daria um longa, dá prá desenvolver muita coisa. Mas agora, planos prá isso não tem não, se alguém de fora quiser investir, estamos de braços abertos”. E Rodrigo completa, “Acho que, tanto eu quanto o Caio, ainda vamos fazer muitos filmes nessa onda!”.

Duas Vidas Para Antonio Espinosa.

Segue uma pequena entrevista informativa que realizei com os diretores Caio D’Andrea e Rodrigo Fonseca sobre a produção e concepção de “Duas Vidas para Antonio Espinosa”, exclusivo para o Canibuk.

Petter Baiestorf: Falem sobre seus trabalhos:

Caio D’Andrea: “Duas Vidas…” foi o segundo curta que dirigi. O primeiro foi “O Solitário Ataque de Vorgon” que foi uma experiência bem legal, que inclusive o Rodrigo produziu. Os dois foram feitos no curso de cinema da FAAP em São Paulo. Fora isso, eu trabalhei por 3 anos como assistente de direção em publicidade.

Rodrigo Fonseca: Eu sou sócio de uma produtora chamada Poeira Filmes junto com o André Moreira que foi produtor dos meus três curtas-metragens e do Eduardo Haskel que fotografou todos com exceção do “Duas Vidas…”. O meu primeiro filme chama “Rua Javari” sobre o Juventus, time de origem italiana do bairro da Mooca aqui em São Paulo e sobre seu estádio que dá nome ao filme. Não é um tipo de filme que eu pretendo fazer muito e tem muita coisa que hoje eu faria diferente, mas é um filme do eu gosto e me orgulho muito, e acredito que para um primeiro filme foi muito bom, eu aprendi muito com ele e é isso que vale. O segundo filme, “Mundo Cão”, já está mais dentro do estilo que eu quero desenvolver: tem tiro, sexo, briga de bar, garrafada, duelo, morte etc. Foi o filme mais difícil e mais apertado de fazer, o dinheiro veio 100% do meu bolso e eu tinha menos do que precisava para fazer o filme. Então foi uma correria louca, mas eu gostei muito do resultado. Infelizmente o filme foi recusado em quase todos os festivais, eu gostaria que mais pessoas tivessem assistido a ele. Eu acho curioso que vários amigos meus me falam que é meu melhor filme, melhor até que o “Duas Vidas…” e apesar de eu discordar dessa opinião, acho que isso mostra a falta de sintonia de vários festivais com o público comum (que não faz e nem estuda cinema), não sei se interessa a eles isso também né? Além de dirigir eu produzi alguns curtas dentre os quais eu destaco “O Solitário Ataque de Vorgon” do Caio.

Baiestorf: Como surgiu a idéia para o “Duas Vidas para Antonio Espinosa”?

D’Andrea: Te falar que eu não sei. Com uns 16 anos eu comecei a ver muito western, especialmente os Spaghettis e nunca mais parei. O argumento me veio nessa época. Só lá no quinto semestre da faculdade, o Rodrigo, com quem eu já trocava muita idéia de Spaghettis, virou e falou: “Porra Caio, vamos fazer um projeto de TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) juntos?”. Eu joguei a idéia mas precisaria adaptar e trabalhar muito em cima. Então trabalhamos junto no roteiro por uns meses e apresentamos para ser escolhido como um dos projetos a serem filmados de TCC da nossa sala. Para nossa surpresa, ele passou.

Fonseca: No sexto semestre eu apresentei um projeto de um semi- faroeste que não foi selecionado, mas conversando com os professores descobri que ele até que tinha sido bem votado. Conversei sobre isso com o Caio e decidimos que para o TCC apresentaríamos juntos um projeto de um faroeste, pois tínhamos concluído que era muito difícil mas não impossível um faroeste ser escolhido pela banca de professores , ele apresentou o argumento e juntos desenvolvemos mais a história e fizemos o roteiro.

Baiestorf: Os índios retratados no filme remetem aos índios americanos, isso foi proposital? Porque?

D’Andrea: A idéia era ser uma tribo indígena com influências de índios americanos, norte e sul. Pegamos muita influência das tribos norte-americanas e também do povo indígena da Bolívia, mas acho legal a idéia que provavelmente são pessoas de uma tribo que podem ter perdido terras. Mas tudo isso foi porque não queríamos localizar o filme. Como o Rodrigo fala, o filme se passa na fronteira entre o Brasil e o México.

Fonseca: Sim, eles remetem aos índios americanos, mas não somente a eles. Isso foi uma coisa muito discutida ao longo da produção. No começo eu e o Caio pesquisamos sobre diversas etnias indígenas do Brasil. Mas quando decidimos que o filme não seria passado necessariamente no Brasil e nem em algum lugar específico resolvemos misturar algumas coisas que tínhamos achado interessante nessa pesquisa com algumas coisas de outras culturas indígenas. Na verdade chegou em um ponto que a gente desencanou de soar realista e nos demos liberdade total para fazer o filme do jeito que a gente queria, sem se preocupar com detalhes de “quando” ou “aonde”.

Baiestorf: Como vocês conseguiram viabilizar as filmagens?

D’Andrea: A FAAP apóia alunos a filmarem o TCC em 35mm, no sentido de liberar a câmera e duas latas de negativo (que dá uns 6 minutos de filme), isso sem contar os refletores, tripés, garras do cacete a quatro, e também uma grana para cobrir a pós-Produção. O resto foi por nossa conta. Já que era um western, em 35mm, tinha que ser Scope! Lente anamórfica é absurdamente cara, então setamos a câmera pro Super 35mm, arranjamos uma referência do formato 2:35 e rolou o visual scope na pós. Uma solução bem mais barata (mas ainda um tanto cara) e gostei muito do resultado.

Fonseca: Além disso, tivemos um belo desconto em pós-produção graças a nossa colega Sarah Girotto, que estava dirigindo o outro filme da nossa turma, e conseguiu fazer um belo acordo com a Teleimage. Quando enviamos o filme para a Lei Rouanet ele não foi aprovado sobre alegação de que “não apresentava nenhuma inovação narrativa ou estética” e que não era um projeto que apresentava contribuições para a cultura brasileira. Sorte nossa que o Paulo Brito, um grande amigo da minha família, que é produtor de cinema e que iria ser um dos patrocinadores através da lei, resolveu ajudar mesmo assim e nos deu uma contribuição. Ainda assim eu, o Caio e a Nicole, que fotografou o filme, acabamos arcando com boa parte das despesas, o resto do grupo também ajudou um pouco, não era um filme barato.

Baiestorf: As filmagens correram como planejado? No filme percebe-se que houve muito planejamento na construção do filme. Teve alguma história de produção divertida?

D’Andrea: Eu e o Rodrigo tínhamos um storyboard bem completo, decupamos o filme várias vezes, visando a economia de planos. Rolou uma discussão plano a plano com a diretora de fotografia, Nicole Samperi, e nosso produtor André Moreira. Rolaram alguns planos de última hora que um ou outro queriam fazer e fizemos, mas foram poucos. Estávamos sempre na pilha de acabar o negativo então tudo tinha que seguir o planejado. As diárias em geral eram tranqüilas, só uma foi mais foda. Tínhamos duas cenas noturnas, em duas locações diferentes, sendo que no mesmo dia nós deslocamos de Atibaia para Iperó, que dá umas 3 à 4 horas de viagem. Tínhamos o ator da cena apenas por aquela noite, todo mundo cansado, tivemos que redecupar uma cena por uma questão de um efeito que não rolou e a porra do dia amanhecendo. Foi tenso mas rolou. Filmamos a grande maioria do filme na cidade de Iperó, no interior de SP. Lá tem a Floresta Nacional de Ipanema, que é um dos primeiros lugares que foi feito ferro no Brasil. A locação do duelo final é entre os antigos fornos em que se fundia ferro, o lugar é do caralho. Por ser um filme de estudante, eles não cobraram nada pela filmagem e ainda disponibilizaram a casa de apoio deles para ficarmos, foi animal. Além do fator histórico, o lugar tem todo um ar macabro. Era história de fantasma de escravo, homem de três metros, um cara lá viu o irmão matar a cunhada a machadada, um dos guias chegou a tirar foto de um OVNI, que inclusive saiu num jornalzinho local. Acho que metade era história pra assustar um bando de moleque da cidade grande, mas te falar que afetou muita gente da equipe.

Fonseca: O filme foi selecionado para ser filmado em setembro de 2009 e foi filmado em abril de 2010, então não faltou tempo para planejar. Uma das partes que eu mais gosto em fazer filmes é decupar, criar os planos e a seqüência em que você pretende encaixá-los (ainda mais no caso do “Duas Vidas…”, pois nós mesmos iríamos montar o filme), então foram dias e dias de decupagem, ás vezes eu chegava com uma idéia e o Caio complementava ela com outra ou víamos um filme, gostávamos de um plano, e resolvíamos fazer algo parecido, tínhamos planos com nome de diretores, o último plano por exemplo chamava “Corbuccião”, pois achávamos ele bem parecido com alguns planos do Corbucci, o lance do terço em primeiro plano e o Antonio indo embora no fundo. Então, chegamos no set com cada plano estudado e sabendo bem o que queríamos pois a gente estava a seis meses pensando em como executá-los.

Baiestorf: Como está sendo a divulgação do curta? Será exibido em algum canal de Televisão?

D’Andrea: O curta passou em alguns festivais bem bacanas aqui no Brasil, como Fantaspoa, o Festival de Triunfo, inclusive está agora nesse Cinefantasy. Mas lá fora passou em bastante lugar, especialmente nos Estados Unidos, onde a gente ganhou em Atlanta o “Best Foreign Short” e em Geneva o “Student Visionary Award”, que foi bem bacana. Mas acho que o lugar mais bacana foi na Suazilândia, pais que fica logo ao norte da África do Sul. Os caras mandaram um email falando exatamente o que eles curtiam do filme, da questão dos índios terem que achar outras terras, que é uma realidade muito forte pra eles e de forças espirituais influenciarem a vida de pessoas. Achei um tesão. Ainda não tivemos nenhum contato com alguém de emissora de televisão.

Fonseca: Não temos do que reclamar, mas infelizmente ainda rola um preconceito aqui no Brasil com filmes de aventura/ação (acho que isso não é segredo para ninguém). Eu acho que o filme poderia ter sido exibido em mais festivais aqui no Brasil, nem falo de prêmios porque acho que o importante mesmo em festivais de cinema é você poder exibir seu filme, mas que muita gente torceu o nariz por ser um faroeste torceu.

Baiestorf: Há preocupação de vocês com a distribuição? Vocês acreditam no cinema independente brasileiro?

D’Andrea: O único cinema brasileiro que eu acredito no momento é o independente. O cinema nacional, salvas algumas exceções, eu classifico em duas vertentes, a globo filmes e o que chamo de cinema groselha. Falam de indústria sendo que de um lado temos filmes completamente idiotas e do outro filmes que não dialogam com o público que indiretamente pagou por ele. Vejo o pessoal independente pensar em público de uma forma que esses cineastas não fazem. Tanto em querer mostrar o filme para o maior número de pessoas possível como levar em conta a expectativa do público, satisfazendo ou enganando, entretendo ou chocando. Tanto que só vejo esse pessoal explorando gêneros. Não conheço nenhuma indústria cinematográfica no mundo que não se apóie no cinema de gênero.

Fonseca: A preocupação existe não só com a distribuição, mas com o cinema brasileiro em geral. Os filmes se repetem muito e cada vez mais se coloca qualidade artística e potencial comercial como características mutuamente excludentes. Nosso cinema depende de incentivo público e normalmente quem tem acesso a esse incentivo são os que estão menos preocupados em levar seus filmes até as pessoas, ou as pessoas até seus filmes. Quanto ao cinema independente eu acredito sim e muito. Acho que nem teria como não acreditar, pois com todas as barreiras e dificuldades ele está aí muito mais criativo, no bom sentido, que o velho cinemão. Sem falar que existe uma preocupação muito maior em levar o filme até o público. Não adianta você fazer um filme incrível, seja ele um filme “inteligentíssimo” ou filme despretensioso, se ninguém assistir, nem interessa o quão importante ou relevante é sua mensagem se ela não for ouvida.

Baiestorf: Projetos?

D’Andrea: Eu estou terminando um roteiro de um curta, é um filme de vingança (mais um) envolvendo os ataques a homossexuais na Av. Paulista aqui em São Paulo.

Fonseca: Estou escrevendo um argumento sobre um “faroeste” nos garimpos do Pará chama-se “Inferno Verde”. É uma idéia para filmar bem mais para frente, já que teria de ser uma mega-produção com longas cenas de ação, aviões, muitos personagens, etc. Também estou com dois projetos de curta-metragem, não vou falar muito sobre eles, pois os dois são baseados em contos e eu ainda estou conversando com os autores. Um deles inclusive seria para fechar um ciclo que eu comecei com o “Mundo Cão” e depois com o “Duas Vidas para Antonio Espinosa”. Eu brinco que o “Mundo Cão” foi minha homenagem ao Tarantino e “Duas Vidas…” ao Sergio Leone e esse próximo será ao Sam Peckinpah. Mais para frente no “Inferno Verde” eu volto a homenagear os três e mais um monte que faltou (risos).

Contatos com Caio D’Andrea: caiofigo@gmail.com

Contatos com Rodrigo Fonseca: rodrigo1106@hotmail.com

5 Respostas to “Duas Vidas para Antonio Espinosa”

  1. Guilherme Lopes Says:

    YES!!!!

  2. E aí Angelo…aqui é o seu amigo de adolescencia, se ler esta mensagem, entre em contato.

    Abraço
    Daniel

  3. Tel. 9905-3822 / 3493-8924 / derbydaniel@hotmail.com.br

  4. Wilton Azevedo de Andrade Says:

    du caralho. puta lucidez.. abraço e sucesso sempre Wilton Andrade

  5. […] Moletta, o dramaturgo Sérgio Pires e a exibição dos filmes “Desalmados”, “Duas Vidas Para Antonio Espinoza“, “Moroi”, “Não Servimos Zumbis”, “Necrochurume”, […]

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