A Vós, que Compreendeis o Absurdo da Vida!

Se você fosse filha de um casal de família tradicional e casada com o homem mais rico do Brasil, o que você faria? Continuaria sendo um bibelô social ou deixaria tudo para trás para perseguir seu sonho? Maysa Monjardim, depois Matarazzo ao se casar com André, herdeiro do império Matarazzo, escolheu o segundo, e mais difícil – embora gratificante – caminho!

“Maysa – Só numa Multidão de Amores” (395 páginas, editora Globo), escrito pelo jornalista cearense Lira Neto, conta a história real da cantora Maysa e nos faz saber em saborosos detalhes como ela abandonou uma vida de contos de fadas para se tornar uma polêmica estrela da MPB, sendo uma precursora de tendências e estilos, do feminismo, da independência da mulher. Sem medo de errar, Maysa é a primeira personalidade punk (muitos anos antes do movimento punk surgir) da música brasileira, e motivos para afirmar isso há de sobra no livro de Lira Neto: Seus porres alucinados só a metiam em confusões; sua personalidade forte resultava sempre em frases de efeito que ofendiam a tradicional sociedade brasileira da década de 1960; mandou uma vida de regalias à merda para se tornar independente e poder ser dona de suas próprias escolhas; não assinava contratos de exclusividade com as gravadoras; mais de uma vez entrou em falência por investir todo seu dinheiro em projetos fadados ao fracasso; em 1972 abriu um dos primeiros brechós do Brasil, “Malé Lixo”, onde vendia roupas e objetos usados por ela e amigos (isso décadas antes dos brechós serem moda); se re-inventava das cinzas de tempos em tempos e muitas outras atitudes que provavam que era uma mulher de fibra, talentosa, independente e à frente de seu tempo.

Um ponto interessante da biografia é o relacionamento de Maysa, carregado de conflitos hilários, com seus colegas de profissão da época. O livro de Lira Neto compõe um panorama bem definido de como o artista brasileiro (principalmente cantores de sucesso) são umas “divas” cafonas, provincianas, cheios de preconceitos e verdades prontas. Outra constatação deliciosa é averiguar o quanto nossa imprensa “especializada” não passa de macaquinhos amestrados que não fazem a mínima idéia do que estão escrevendo e só se preocupam em divulgar o que seus donos aprovam (seja na TV, jornais ou grandes revistas de circulação nacional). Mesmo com vários conflitos com a imprensa brasileira, em 1970 Maysa se tornou jornalista na TV Record e ganhou um inventivo programa de entrevistas chamado “Dia D”, à frente dele Maysa conseguiu um grande furo do jornalismo na época: Foi a única repórter brasileira a cobrir o julgamento de Charles Manson.

Achei um errinho grotesco no livro de Lira Neto, mais culpa do revisor do que do autor. Na página 283 Lira escreve sobre a novela “O Cafona” (que teve Maysa como atriz) e credita Rogério Sganzerla como diretor do filme “Matou a Família e foi ao Cinema”, mas todos sabemos que o diretor deste maravilhoso clássico de nosso cinema é Júlio Bressane.

Mesmo sem gostar da música de Maysa (eu mesmo não sou fã dela como cantora, mas avisado pela Leyla Buk de que essa biografia era interessante, li e virei fã da personalidade única de Maysa), sugiro uma lidinha nesta ótima pesquisa sobre a vida desta artista inclassificável que é Maysa e que Abelardo Barbosa, o Chacrinha, tão bem definiu em sua coluna no “Última Hora”, quando afirmou: “Vai ser boa assim no inferno, sua danada!”.

por Petter Baiestorf.

2 Respostas to “A Vós, que Compreendeis o Absurdo da Vida!”

  1. Recomendo também a biografia-homenagem “Meu Mundo Caiu – A Bossa e a Fossa de Maysa” por Eduardo Logullo!

  2. “… não assinava contratos de exclusividade com as gravadoras; mais de uma vez entrou em falência por investir todo seu dinheiro em projetos fadados ao fracasso”.

    Esse trecho ilustra a marca dos grandes artistas, que pagam o preço por ousarem pensarem diferente.

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