Kwaidan Eiga: O Cinema de Horror do Japão

Quando se fala em cinema de horror e fantástico, sempre se comenta a produção made in USA, Inglaterra, Itália ou Espanha, ou seja, o cinema Ocidental, ignorando-se quase completamente o gênero originário do extremo Oriente como China ou o cinema Japonês.

O cinema fantástico japonês é mais conhecido no ocidente por seus monstros de borracha que esmagam cidades e são imitados pelos gringos com mais dinheiro e menos imaginação, ou seja, pelos Kaiju Eiga (“filmes de monstros”) onde reina absoluto Gojira (nome certo do Godzilla). Mas trataremos aqui dos chamados Kwaidan Eiga. A palavra Kwaidan (ou Kaidan) significa “tamanho” ou “grandeza”, mas escrita com um ideograma diferente que dizer “Histórias de Fantasmas”, e por extensão, “histórias de horror”, se considerar-mos que a maioria das histórias assombrosas japonesas são ghost stories. Assim, partindo da literatura clássica de fantasmas nipônicos (Kaidan Mono) e seu sub-gênero mais popular, o Bake Neko Mono (“histórias de gatos fantasmas) o gênero passou para o cinema dando origem aos Kaidan (ou Kwaidan) Eiga, ao Bake Neko Eiga, ao Kyuketsuki Eiga (filmes de vampiros), etc.

Oficialmente o Kaidan Eiga nasceu em 1899 quando foi realizado o filme “Momijigari”, o mais antigo filme japonês totalmente conservado, e que só foi apresentado ao público em 1903. Na verdade é o registro em celulóide de uma peça de teatro “Kabuki” que continha elementos fantasmagóricos na trama. O gênero se desenvolveu muito e teve seu auge entre os anos de 1950 e 1970, gerando vários clássicos como: “Kaidan Kasanegafuchi” (The Ghost os Kasane, 1957) de Nobuo Nakagawa (1905-1984), um dos maiores diretores do gênero; “Jigoku” (Hell/Retrato do Inferno, 1960) também de Nakagawa, um dos filmes precursores do gênero Splatter; “Kyofu Nikei Ningen” (The Horror of Malformed Men, 1969) de Teruo Ishii, uma versão de uma história de Edogawa Rampo (1894-1965), maior escritor nipônico de terror e que inventou seu pseudônimo baseado no som do nome de Edgar Allan Poe; além dos filmes de vampiros de Michio Yamamoto, como “Chi o Suu Ningyo” (A Noite do Vampiro, 1970), “Chi o Suu Me” (O Lago de Drácula, 1971) e “Chi o Suu Bara” (O Inferno de Drácula, 1974) que foram exibidos nos cinemas brasileiros na época. Hoje em dia, apesar dos avanços de linguagem e efeitos especiais, quase nada aporta por aqui, nem mesmo em DVD.

Kwaidan – O Filme (1964), vencedor do prêmio especial do júri no festival de Cannes de 1965, onde também foi exibido outro clássico japonês, “Onibaba” (Devil Woman/Onibaba – O Sexo Diabólico, 1964) de Kaneto Shindo.

“Kwaidan” (Ghost Stories/As Quatro Faces do Medo, 1964) dirigido por Masaki Kobayashi é claramente um filme de arte com produção requintada. Com cenários deliberadamente artificiais e design na tradição do teatro “Nô”, adaptando técnicas do “Kabuki” e do teatro de boneco “Bunaraku”. O som do filme foi todo dublado em um estúdio adaptado em um hangar de aviões soando estranho e com ecos abafados ao longe. A trilha sonora composta pelo músico experimental Toru Takemitsu é recheada de efeitos sonoros pesados que lembram sons de madeira cortada, rochas caindo ou trovões. O roteiro adapta 4 histórias folclóricas coletadas e transcritas pelo escritor naturalizado americano Lafcadio Hearn (um europeu fascinado pela cultura oriental e que também escrevia com pseudônimo de Yakumo Koizumi) em seu “Kwaidan-Stories and Studies of Strange Things”.

Num exercicio estilístico, cada conto se passa numa estação do ano. “Kurokami” (Cabelos Pretos) conta sobre um jovem e pobre samurai que deixa sua mulher para se casar com a filha de um homem rico. Anos depois ele retorna arrependido e encontra tudo em ruínas, menos sua ex-esposa que parece intocada pelo tempo. Eles vivem uma noite de apaixonada reconciliação mas, ao acordar pela manhã, ele está abraçado a um cadáver com longos cabelos pretos que o envolvem. Em “Yukionna” (A Mulher da Neve) é uma linda mulher demônio que mata homens de frio. Um lenhador testemunha uma aparição mas é poupado sob a promessa de nunca contar o que viu. Anos depois ele é tentado a contar a sua maravilhosa e perfeita esposa o segredo, descobrindo então que se casara com a mística Mulher da Neve. “Miminashi Hoichi no Hanashi” (Hoichi – O Sem Orelhas) é o segmento mais espetacular. Há mais de 700 anos dois clãs, Genji e Heike, travam uma sangrenta batalha naval (num mar estilizado e com um céu vermelho digno das mais fantásticas pinturas) onde os Heike são dizimados. A imperatriz e seu filho suicidam-se jogando-se nas águas (e não há ruído da queda ou gritos, mas sons de rochas e madeira) fazendo com que o mar já vermelho de sangue fique assombrado e habitado por estranhos caranguejos com os rostos dos mortos em suas costas. Muito tempo depois os espíritos dos samurais não descansam, mas encontram alívio ao ouvirem o jovem músico cego Hoichi tocar o Biwa (instrumento primitivo) e recitar a saga do clã noite após noite. Os sacerdotes do templo onde o jovem mora desconfiam de seus passeios noturnos e descobrem o macabro público que ele agrada. Pintam então Hoichi com ideogramas de um livro sagrado da cabeça aos pés e o fazem ficar em silêncio trancado no templo para afastar os espíritos. O fantasma que vem busca-lo para a audição noturna não consegue vê-lo, mas os sacerdotes esqueceram de pintar suas orelhas. Para não sair de mãos abanando, o samurai espectral resolve levar só o que encontrou. Hoichi se livra da maldição e fica famoso e rico como menestrel cego-sem-orelhas e que conta tocando seu Biwa sua própria história de fantasmas. “Chawan no Nak” (Em uma Xícara de Chá) rola em torno da premissa que algumas histórias permanecem inacabadas por não terem um bom final. No dia do ano novo um samurai sedento vai tomar uma xícara de chá e vê o reflexo de um rosto sorridente que o assombra. Ele tenta contar o que aconteceu mas ninguém acredita nele. O fantasma chamado Heinai o persegue e o samurai o ataca fazendo-o desaparecer. Na noite seguinte ele é abrodado por três guerreiros que o desafiam em nome de Heinai e ele tem que lutar com os fantasmas. A história para por aí pois ninguém conseguiu lhe dar um final satisfatório. Um editor resolve procurar o autor da história em sua casa e o encontra… aprisionado no reflexo de uma xícara de chá.

Comentando o filme na época de seu lançamento nos USA (onde concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro), o crítico do New York Times escreveu: “Um filme de horror com extraordinária delicadeza e sensual qualidade, “Kwaidan” é uma sinfonia de cor e som sem comparação anterior!”.

escrito por Coffin Souza.

Uma resposta to “Kwaidan Eiga: O Cinema de Horror do Japão”

  1. O que poucas sabem é que Kwaidan marcou tanto o diretor John Millius, que ele usou a cena mais famosa de Kwaidan como referência para Conan- O Bárbaro. Essa referência também serviu como homenagem ao filme oriental.

    Trata-se da cena onde Conan está entre a vida e a morte, e o mago oriental escreve ideogramas em todos seu corpo, para evitar que os espíritos do vento o levem. Vale a pena conferir a homenagem, curta, mas que nos remete diretamente ao filme oriental. Foi Conan, que fez com que eu tivesse vontade em correr atrás e assistir Kwaidan.

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