JK – O Artista do Impossível

“JK – O Artista do Impossível” (Ed. Objetiva, Coleção Ponto de Leitura, 1063 páginas) escrito por Claudio Bojunga é uma daquelas biografias monstros meio paternalistas que pinçam as “coisas boas” que o biografado fez (mais ou menos igual o filme sobre o Lula), tanto que a panelinha aplaudiu e o livro ganhou o prêmio Jabuti de 2002 de melhor biografia.

Bojunga começou as pesquisas sobre a vida de Juscelino Kubitschek em 1990, nas palavras do próprio: “Foram dois anos de pesquisas de campo, 4 anos de escrita, entremeados de viagens a Diamantina, Belo Horizonte, São Paulo e Brasília, pesquisas em bibliotecas, jornais, cerca de 150 entrevistas, reformulações, mais três anos de distanciamento e repouso, e finalmente um ano e meio de ajuste final na lapidação do texto.”

O livro conta a história recente de nosso país dominado pelas vontades de umas 30 famílias, como atesta a passagem:

“(…)

O casamento com Sarah (de Souza Lemos) inseria Juscelino na grande parentela mineira: nosso médico ingressava numa tradicional família política do estado. No seu clássico “Famílias Governamentais de Minas Gerais”, o historiador Cid Rebelo Horta mostrou como uma pequena rede de 30 famílias com muitas ramificações passou a ter o imemorial domínio do estado, do nível local ao nacional. Formadas pelo entrelaçamento de três núcleos principais, as chamadas “Famílias Extensas” formavam o que ele chamou de círculos endogãmicos – cada um deles abrangeando a área social de uma ampla parentela contígua num vasto domínio de terra.

(…)”

Como todo político (de qualquer parte do mundo), Juscelino começou logo sua carreira de corrupto falsificando sua idade para poder prestar exames, é aquela velha idéia de polítco, “crio leis para os outros obedecerem, não eu!”:

“(…)

JK e Alkmin viveram, entre seus 17 e 20 anos, uma corrida de obstáculos pela instrução e pelo sustento. Como em toda história de sucesso, ocorrem oportunidades inesperadas, auxílios imprevistos, acidentes de percurso e arranjos providenciais que encurtam o acesso à linha de chegada. No caso de Juscelino, o primeiro caso favorável foi um subproduto da epidemia de “gripe espanhola” que espalhou milhares de mortos pelo Brasil em 1918, esvaziando os colégios de norte a sul do país. Um projeto do senador capixaba Jerônimo Monteiro previa a promoção dos alunos impedidos de prestar exames por causa da epidemia. Posteriormente, a medida foi ampliada pelo senador carioca Paulo de Frontin, instituindo “exames de decreto”: bastava o aluno estar matriculado e requerer o certificado que receberia automaticamente quatro créditos.

Álvaro Mata Machado chamou a atenção de Juscelino para a oportunidade, que se inscreveu imediatamente. Como não tinha dinheiro para a viagem, enviou os papéis a Belo Horizonte por seu primo João Kubitschek, que estava de partida para a capital. Cada certificado custava 11 mil-réis, o total da operação ficava em 44 mil-réis. Dona Júlia recorreu ao pé-de-meia. Muito espertamente, Juscelino requereu os exames de álgebra e aritmética – matérias detestadas – além de português e latim. Faltavam oito exames, que só poderiam ser feitos em Belo Horizonte. Era preciso ganhar dinheiro.

(…)

Foi preciso um jeitinho suplementar: Juscelino ainda não tinha completado os 18 anos – idade mínima exigida pelo concurso. Entra então em cena o velho amigo Ninico, oficial de registro público, que deu uma mexida nos papéis. Isso explica por que os documentos escolares de Juscelino Kubitschek o registram com dois anos a mais. José Maria Alkmin seguira para a capital na frente do amigo: antes mesmo dos exames, conseguiu ser nomeado mensageiro interino através do pistolão de um cunhado.

(…)”

Típico dos políticos essa idéia de falsificar tudo e vencer enganando as pessoas. E até quando político realiza atos de grandeza, os fazem por interesses próprios:

“(…)

Maristela tinha então quatro anos. Juscelino e Sarah nunca esconderam dela a adoção. A menina costumava visitar seus pais e irmãs de sangue. Seus novos pais nunca fizeram diferença entre as filhas – mas só Ma´rcia falava mamãe e papai, Maristela os chamava de padrinhos. O constrangimento desapareceu no dia 10 de dezembro de 1957, quando Maristela completou 15 anos. O presente de aniversário do pai presidente foi dos mais elegantes: um decreto permitindo que filhos adotivos tivessem o mesmo direito dos legítimos, inclusive o de usar o nome de família de seus respectivos pais. Sarah mostrou à filha o texto do cecreto. Ao terminar a leitura, Maristela foi ao gabinete de Juscelino, deu-lhe um beijo e disse: “Obrigada, papai.”

(…)”

“JK – O Artista do Impossível” é um livro perfeito para alunos do segundo grau tomarem intimidade com a história política brasileira. Eles se sentirão tristes em saber que no Brasil cargos políticos ficam na mão das mesmas famílias de geração para geração, os mesmos sobrenomes que assombraram o Brasil de antigamente, continuam ainda hoje nos noticiários com escândalos de corrupção, subornos e outras cositas mas.

Sei que a indicação deste livro aqui no Canibuk soa um pouco estranha, mas façam um favor a si mesmos (aprender mais sobre a história nunca fez mal à ninguém) e vão até uma biblioteca pública, retirem este livro e percebam que nas próximas eleições vocês não podem sair de casa, nós brasileiros não merecemos continuar elegendo estes políticos que só pensam em si próprios.

Em tempo: Este livro serviu de base para o roteiro daquela série ridícula (com o muito ruim José Wilker no papel de Juscelino) produzida pela TV Globo.

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