Arquivo para abril, 2012

O Mingau da Vovó

Posted in Animações, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , on abril 20, 2012 by canibuk

“O Mingau da Vovó” (1999, menos de 2 min.) de Luciano Irrthum.

Não posso falar muito da sinópse deste curta para não estragar o prazer que é assistí-lo, mas posso dizer que o curta mostra um neto presenteando sua amada vovó com todo o amor caliente que as vovós merecem. Ou, também, o curtinha pode ser o “passo à passo” de como fazer o delicioso mingau que as vovós tanto adoram.

Para ler o resto da postagem, assista antes o curta:

“O Mingau da Vovó” foi realizado pelo desenhista mineiro Luciano Irrthum (que nos anos de 1990 foi um dos principais colaboradores no fanzine “Arghhh” que eu editava). Luciano estava numa vernissage bebendo vinho gratís adoidado com seu amigo Zé Armando, que lhe disse estar com uma idéia para um vídeo (que era somente um cara batendo punheta, nos moldes de “Deus – O Matador de Sementinhas“). Como por essa época Irrthum estava fazendo vários bonecos de stop motion para ilustrar um livro infantil, resolveu fazer um vídeo com essa técnica, partindo da idéia de Zé Armando.

Se armando de uma câmera de vídeo VHS, um tripé e sem roteiro, a história foi surgindo enquanto filmavam, como nos confidência Irrthum: “A vovó nem ia entrar no curta, mas eu tinha a boneca sobrando e resolvi usar também!”. Para fazer o gozo, Luciano usou shampoo e, com uma seringa ligada ao membro do querido netinho por uma mangueira de aquário, conseguiu um efeito jorrante de primeira. Para as filmagens Irrthum contou com a preciosa ajuda de Sílvia Amélia ajudando-o à construir os cenários, para a música/som, Luciano diz: “Um amigo meu toca cavaquinho, tomamos algumas cervejas e ele foi tocando Jimi Hendrix no cavaquinho e eu filmando este som, depois na edição o Leo Rocha arrumou tudo!”. Mais experimental, impossível.

Filmado em apenas uma tarde, “O Mingau da Vovó” chegou até a ser exibido na MTV por João Gordo. Também foi exibido no MUndo Mix, no Miami Gay Festival e em vários outros festivais nacionais. Em VHS foi colocado como bônus de luxo em alguns lançamentos da Canibal Filmes e em DVD está disponível como extra no “Mamilos em Chamas” de Gurcius Gewdner. Sobre a exibição na MTV, Irrthum nos conta: “Mandei pro João Gordo que exibiu na íntegra naquele programa dele que sempre passava algumas animações. No dia quem estava com ele no programa era o Edson Cordeiro, que fez uma cara de espanto muito engraçada ao final do curta, com João Gordo rolando de rir ao lado; gostei!”.

Atualmente Luciano Irrthum está preparando algumas animações gore em stop motion e assim que estiverem pronta falarei delas aqui no Canibuk.

Por Petter Baiestorf.

Reefer Madness – A Erva Maldita do Demônio te Espreita

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on abril 18, 2012 by canibuk

“Reefer Madness” (“A Erva Maldita”, 1936, 65 min.) de Louis J. Gasnier. Com: Dorothy Short, Dave O’Brien, Thelma White e Kenneth Craig.

É engraçado constatar que, para algumas milhares de pessoas, a Maconha ainda assusta tanto quanto na década de 1930 quando este filme foi produzido por um grupo de igreja.

A história de “Reefer Madness” é hilária, fala sobre um casal que vende maconha para a juventude e com isso corrompe os jovens que não mais seguem os ensinamentos cristãos. Segundo os produtores desta pérola, fumar um baseadinho vai te tornar um viciado tarado pervertido alucinado sem moral alguma. Você vai se tornar um assassino em potencial, um verdadeiro pedaço de lixo humano insano sedento por realizar delitos para garantir seu baseadinho de todo dia. “Um rapaz de 16 anos mata a família com um machado. Uma garota de 17 anos se deixa seduzir por cinco homens mais velhos ao mesmo tempo. Tudo isso por causa do uso de narcóticos. Pensou numa crise de abstinência de crack, abuso de LSD ou overdose de ecstasy? ERROU! É tudo culpa da maconha!” – nos alerta a capa deste filme.

“Tell Your Children” (que também foi relançado com outros títulos, como “Dope Addict”, “Doped Youth”, “Love Madness” e “The Burning Question”) foi financiado por um grupo de igrejas e era destinado aos pais da américa como um conto moral para alertá-los dos riscos que a terrível Marihuana representava aos seus inocentes filhos, mas logo depois de pronto, “Tell Your Children” foi comprado pelo notório cineasta picareta Dwain Esper que remontou o filme, adicionou cenas mais picantes e mudou o título para “Reefer Madness”, mais escândaloso e comercial. Dwain Esper nasceu em 1892 e foi diretor/produtor de filmes exploitations como “Narcotic” (1933), “Modern Motherhood” (1934), “Marihuana” (1936), “How to Undress in Front of Your Husband” (“Como se Despir na Frente de seu Marido”, 1937), “How to Take a Bath” (1937) e “Will it Happen Again?” (1948, relançado anos depois com o curioso título de “The Strange Love Life of Adolf Hitler”). Esper morreu em 1982.

Em 1971 “Reefer Madness” foi redescoberto por Keith Stroup (um advogado que foi o fundador da National Organization for the Reform of Marijuana Laws) que comprou uma cópia do filme por 297 dólares e o relançou em campus universitários repletos de estudantes hippies fumadores de maconha que rolavam de rir com os valores morais do filme. Hoje em dia “Reefer Madness” é um filme cult, está em domínio público e foi relançado em uma versão colorizada por computador pela Legend Films onde a fumaça da maconha é colorida, dando-lhe um visual kitsch único. Foi lançado no Brasil em DVD pela distribuidora Flashstar.

Em 1998 um musical off-Broadway baseado no “Reefer Madness” original lotou o teatro Hudson em Los Angeles durante anos. Foi o suficiente para que o filme “Reefer Madness : The Movie Musical” (“A Loucura de Mary Juana”, 2005, 108 min.), de Andy Fickman, fosse aprovado e filmado.  A história parte do mesmo ponto que o filme de 1936, só que aqui tudo é embalado com ótimas músicas, tom debochado e um senso de humor negro apurradíssimo. Depois de fumar maconha o estudioso menino inocente desta versão se torna um demente tarado que abandona os estudos, perverte sua virginal namorada loirinha tipicamente branquela e alienada, atropela um homem sob os efeitos da maconha e tem divertidos delírios envolvendo zumbis fumadores de maconha. Nosso herói chega até a receber conselhos de um Jesus Cristão bombadão na mais infame canção do filme e quando, está prestes a ser fritado na cadeira elétrica, se arrepende de sua vida no vício e ganha o perdão presidencial ao ser salvo pelo trio América, representados aqui por Tio Sam, George Washington e a estátua da Liberdade. Tão bom quanto o filme original. Foi lançado em DVD no Brasil pela distribuidora Imagem Filmes.

por Petter Baiestorf.

Fragmentos do Nobre Deputado Fraude Tomando no Orifício Pomposo

Posted in Nossa Arte, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on abril 17, 2012 by canibuk

Nesta semana Gurcius Gewdner está disponibilizando em sites como Vimeo e Youtube alguns curtas que fiz tempos atrás e que nunca foram lançados em DVD. Segue link para mais quatro curtinhas bagaceiros. Para Assistir “Deus – O Matador de Sementinhas” (1997) e “Poesia Visceral” (2004), clique aqui.

“Fragmentos de uma Vida” (2002, 7 min.) de Petter Baiestorf. Com: Juliana, PC e Loures Jahnke.

Em 2001, logo após o lançamento do longa-metragem “Raiva”, comecei as filmagens de outro longa chamado “Mantenha-se Demente”, uma homenagem ao cinema gore exagerado japonês que naquela época eu assistia aos montes em fitas VHS piratas sem legendas em nenhuma língua ocidental. Como o “Raiva” não deu lucro financeiro nenhum, tive que abortar as filmagens do “Mantenha-se Demente” (bem mais caras e complicadas), mesmo já tendo filmado algumas seqüências. Depois de um ano resolvi rever as cenas que havíamos filmado e percebi que tinha um curta nas mãos. Não gosto de filmar e não aproveitar o material. Mudando o título para “Fragmentos de uma Vida”, montei as cenas para ser uma reflexão sobre a brutalidade do machismo na sociedade brasileira (sem deixar de lado minhas críticas religiosas, desta vez centradas na figura de um satanista, que para mim é tão ignorante quanto um católico, um evangélico, um espírita, um cabalista, macumbeiro, budista, muçulmano e o que mais os medos humanos criarem para servir de muletas). Não filmo o sobrenatural porque o que não existe não me interessa (salvo zumbis e alienígenas que aí é pura diversão), meu interesse está voltado aos assuntos possíveis, como a imbecilidade do homem, seu fanatismo religioso, sua brutalidade que ganha força com sua ignorância; uma horda de torcedores fanáticos vindo em minha direção me assusta, fanáticos religiosos segurando um facão me assustam (o mundo está cheio de exemplos de massacres religiosos), a mente humana me assusta muito mais que vampirinhos ou fantasminhas de filme de horror americano que o cinema brasileiro está começando a pegar gosto em copiar. A trilha sonora do curta trás músicas das bandas Ornitorrincos e Intestinal Disgorge.

“Frade Fraude Vs. O Olho da Razão” (2003, 13 min.) de Petter Baiestorf. Com: Coffin Souza e Petter Baiestorf.

Este é outro curta que só filmamos por culpa do tédio (se você não gosta de filmes sem um mínimo de produção nem assista). Estávamos, Coffin Souza e eu, sem nada para fazer num domingo e, depois de algumas cervejas, resolvemos filmar uma reflexão sobre os rumos da humanidade. Nos apropriamos de textos do Nietzsche (e de outros filósofos que fomos lembrando frases) e elaboramos um curta cíclico como a vida; ação/reação – tudo que tu faz na vida resulta em críticas positivas e destrutivas (e no final arrisco dar minha fórmula para a implantação de uma sociedade anarquista na sociedade de hoje). Revendo este curta hoje me arrependo de não tê-lo filmado direito, com outro ator no meu papel (para mim manejar a filmadora e dirigir direito), figurinos apropriados e outras coisinhas mínimas de produção. Mas a idéia está aí, rodando por todos os lados, essa tranqueira foi até exibida em alguns festivais de cinema experimental. Neste curta temos uma participação especial de Claudio Baiestorf (meu pai, que infelizmente faleceu em 2009), no final do filme, com um diálogo enigmático que remete à uma piada interna da Canibal Filmes envolvendo o clássico “Invasion of the Body Snatchers/Vampiros de Almas” (1956) de Don Siegel.

“Vai Tomar no Orifício Pomposo” (2004, 14 min.) de Petter Baiestorf. Com: Coffin Souza, Elio Copini e DG.

Não é segredo prá ninguém que sou um grande fã do escritor Charles Bukowski e este curta é minha tentativa de filmar algo no universo do velho safado. Não lembro muita coisa destas filmagens, não lembro nem de ter escrito o roteiro (to achando que filmei este curta todo de cabeça), nesta época eu estava mais preocupado em me matar bebendo do que na possibilidade de realizar meus projetos. A casa usada nestas filmagens era a casa real do Souza e como a casa vizinha à dele estava vazia, arrancamos a parede para criar o clima surreal que a briga de vizinhos pedia. Elio Copini interpretou o evangélico cretino e Coffin Souza o escritor maldito com problemas com as bebidas (essa personagem sou eu, mas pode ser o Souza mesmo, pode ser o Bukowski, pode ser você). Não gosto muito da edição que fiz (montei tudo na câmera, inclusive os efeitos sonoros e as músicas). Desde a época que filmei “Vai Tomar no Orifício Pomposo” que tenho planejado um longa-metragem dramático com este clima de desespero fantástico, mas como tenho preferência por projetos sexploitations de humor negro, sempre vou deixando prá depois essa minha vontade de produzir um drama etílico surrealista.

“O Nobre Deputado Sanguessuga” (2007, 13 min.) de Petter Baiestorf. Com: Elio Copini, Coffin Souza, Gurcius Gewdner, Carli Bortolanza, Iara e Claudio Baiestorf.

Essa fábula infantil que ensina as crianças sobre as maldades dos políticos brasileiros eu escrevi e dirigi em 2007 para testar minha nova filmadora (escolhi a temática infantil por dois motivos, primeiro: nesta época eu estava planejando um livro infantil com ilustrações de Gurcius Gewdner – idéia que não abandonei ainda; segundo: porque é uma temática que me interessa muito). Inspirado no cinema expressionista alemão, “O Nobre Deputado Sanguessuga” foi a desculpa perfeita para reunir amigos para algumas cervejas no meu sítio e me exercitar na narrativa do cinema mudo. Gostei bastante da experiência de rodar um curta infantil, mas acabei não repetindo a dose porque depois dele rodei somente sexploitations gores com títulos como “Arrombada – Vou Mijar na Porra do seu Túmulo!!!” (2007), “Vadias do Sexo Sangrento” (2008) e “O Doce Avanço da Faca” (2010) e uma comédia musical western cafajeste chamada “Ninguém Deve Morrer” (2009).

Talvez Amanhã

Posted in Entrevista, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , on abril 16, 2012 by canibuk

“Talvez Amanhã” (2012, 10 min.) de Robson Clério. Com: Dul Victor, Isabela Pàáschoa e Miguel Lieira. Fotografia: Robson Clério e Carlos Tavares. Música: Alberto Cohon. Edição: Robson Clério. Produção: Carlos Tavares e Robson Clério.

Dois irmãos pegam carona com estranho numa estrada deserta e vão atrás de seu padrasto em sua última morada. Este é o ponto de partida de “Talvez Amanhã” de Robson Clério, curta de baixo orçamento com vários momentos carregados de clima mórbido que fazem o espectador sempre esperar pelo momento de maldade que pode, ou não, surgir na seqüência. Filmado com quase nenhuma grana, o curta tem um roteiro bem simples (jovens cineastas, este é o segredo para conseguir realizar seus primeiros filmes) que explora situações cotidianas com um trabalho de câmera/edição contemplativo. Em um mundo como o de hoje, onde todos sofrem de ansiedade, este ritmo contemplativo causa desconforto e agônia. Você fica querendo que algo maldoso aconteça e aconteça já.

O diretor Robson Clério nasceu em Valinhos/SP, com 15 anos foi trabalhar num escritório de contabilidade e viu que não levava jeito prá essa vida de empregado. Por um bom tempo trabalhou como designer gráfico, até que em 2006 realizou o curta “Estradas Brancas” com câmeras e microfones emprestados. No início de 2010 abriu a Arttería Filmes para a produção de seus próprios roteiros e organizou também a primeira edição do Ciclo de Cinema Fantástico de Campinas no MIS Capinas.

Produtores independentes que queiram seus filmes exibidos no Ciclo de Cinema fantástico de Campinas, escrevam para Robson: artteriafilmes@artteriafilmes.com.br

Veja o curta “Talvez Amanhã” e leia uma rápida entrevista que realizei com Robson Clério.

Petter Baiestorf: Conte-nos o que te levou a abrir a Artteria Filmes e qual a
proposta da produtora?
Robson Clério: A Arttería Filmes faz parte do projeto de ter autonomia para fazer meus filmes, depois da experiência de ficar dependendo de outro para gravar e editar quando pode logo no primeiro curta, decidi não passar mais pela mesma experiência, comprei uma câmera, aprendi editar e abri uma produtora.  A Arttería Filmes é uma produtora muito nova, abri em janeiro de 2010. De 2001 a 2004 era um estúdio de designer gráfico, ficou inativa por um tempo, não soube administrar então fui trabalhar para os outros até onde consegui agüentar.  Precisava fazer meus filmes  então reabri como  Arttería Filmes para acessar Editais. “Arttería” vem do conceito de local de fazer arte, “Confeitaría” faz confeitos, “Sapataría”, sapatos e Arttería para arte.  A proposta é fazer um cinema autoral de ficção e documentário com a mesma intensidade. Produzir filmes de outros diretores não esta fora do projeto, mas a prioridade são os meus filmes.
Baiestorf: Você também organiza o Ciclo de Cinema Fantástico de Campinas, conte como funciona, que filmes já foram exibidos e como os diretores brasileiros podem ter seus filmes exibidos na mostra:
Clério: O Ciclo de Cinema Fantástico teve duração de 4 dias, no primeiro fim de semana dos meses de março e abril de 2012. Foram exibidos 1 longa metragem e 19 curtas, teve participação de diversos estados brasileiros, incluindo de um brasileiro que vive no Canadá, o Dimitri Kozma. Este foi o primeiro Ciclo de Exibição que organizei no MIS CAMPINAS – MUSEU DA IMAGEM E DO SOM,  foi uma experiência intensa, esperar o publico para assistir os filmes e ficar olhando a reação é como esperar reações sobre um filme meu, senti insegurança, ansiedade como numa estréia.  A idéia veio depois de participar de uma oficina sobre Cinema Independente com a organizadora do Cine Fantasy, fiquei impressionado com a qualidade e a quantidade de filmes de boa qualidade e baixo orçamento.  A seleção para montar o Ciclo teve inicio enviando e-mails para a organizadora do “Cine Fantasy”, que passou e-mails de alguns Cineastas que faziam Cinema Fantástico, entre eles estavam Joel Caetano e Liz Vamp Marins que foram indicando outros diretores, alguns encontrei no Youtube como o Rodrigo Brandão, encontrei “A MALETA” , os filmes foram chegando, queria fazer um evento de maior proporção, exibir os filmes num paredão externo (num jardim de inverno gigante que tem no interior do  MIS CAMPINAS), o Rodrigo Brandão chegou a sugerir de colocar monstros gigantes no jardim, achei ótimo, falei com a Secretaria de Cultura  de Campinas  e sugeriram que eu entrasse no Ficc – Edital “Fundo de Investimento a Cultura de Campinas”. Como tive que parar o projeto para tocar produções da Arttería Filmes que gerariam receita para continuar em pé, o “Ciclo de Cinema Fantástico” ficou parado, alguns diretores já estavam me perguntando se aconteceria mesmo e decidi fazer um ciclo de exibições mesmo.  Qualquer cineasta brasileiro de Cinema Fantástico, que tem uma característica muito bem definida que “ironicamente é a não definição entre o real e o fantástico” acontecendo no roteiro. Exibimos filmes do diretor Rubens Melo, Joel Caetano, Petter Baiestorf (este que me entrevista agora), Joel Caetano, Rodrigo Aragão, Rodrigo Brandão, Geisla Fernandes, Dimitri Kozma, Liz Marins  que são apenas alguns dos cineastas fazendo cinema independente no Brasil.  Procurei selecionar filmes que estão bem dentro do contexto do Cinema Fantástico.  É um ciclo e exibição, não uma Mostra ou Festival, as sessões são gratuitas.  A situação de poder mostrar cineastas que a maioria do publico não conhecia e ver que ficaram impressionados com o trabalho deles não tem preço, sou deste grupo estou no mesmo barco e a necessidade de exibir é e mesma, é um Cinema Fantástico! Para exibir um filme no MIS CAMPINAS, fora do Ciclo de Cinema Fantástico só é preciso entrar em contato com o Sr. Orestes Augusto que uma data será agendada para a exibição.
Baiestorf: Fale um pouco sobre teus curtas anteriores.
Clério: Houve um momento que precisava fazer um filme de curta metragem, dar um “start” no processo de fazer cinema, de qualquer jeito então escrevi um roteiro e mostrei para um cara que tinha uma produtora com pouco tempo de mercado, ele estava querendo ganhar experiência como cinegrafista e topou gravar e editar e então fiz o “ESTRADAS BRANCAS” – http://www.youtube.com/watch?v=XOnQdUehFuA –  foi a primeira experiência dirigindo atores, cinegrafista, edição e então senti toda a ansiedade de ficar dependendo dos outros para gravar e editar quando pode o seu filme.  Depois juntei grana para comprar uma câmera e aprendi a editar para ter mais autonomia,  gravei e editei alguns curtas para o festival do minuto e o curta “TRANSITÓRIOS”  – http://www.youtube.com/watch?v=a2lQCMj6EPA&feature=relmfu –  para um concurso com prêmio em dinheiro realizado por uma empresa de transporte coletivo aqui de Campinas, perdi o prazo de inscrição e inscrevi na MOSTRA CURTA AUDIOVISUAL  CAMPINAS  organizada no Mis Campinas e fui selecionado para exibição, este curta já gravei com uma câmera Sony/Mini DV editei na versão Premiere 6.5. Então passei a gravar e editar o tempo todo para movimentar o audiovisual e ganhar experiência, com esta mesma câmera gravei um documentário sobre uma artista plástica que expõe na Feira de Artesanato mais tradicional de Campinas, o “VERA COR” –http://www.youtube.com/watch?v=4uV-o63UX9s&feature=relmfu – que foi gravado com 3 câmeras  Hand Cam diferentes, não ao mesmo tempo, acontece que uma quebrou, outra foi roubada, então fui trocando de câmera mas continuei gravando, editei umas três vezes e ainda não exibi em nenhuma mostra ou festival.  Escrevi outro roteiro de curta metragem “TUNEL” que inscrevi no edital de Paulínia e ainda não gravei e o roteiro de um longa que ainda esta em andamento.
Baiestorf: Como surgiu a idéia para rodar o curta “Talvez Amanhã”?
Clério: “Talvez Amanhã” é um curta feito para participar do Ciclo de Cinema Fantástico, depois de alguma insistência do próprio Orestes de que seria muito interessante que eu colocasse um filme na programação, passei alguns dias pensando num roteiro e quando consegui montar uma história na cabeça coloquei o nome do curta no cartaz com tempo de 5:00 minutos (acabou ficando com 10:47 minutos.) de duração já que não havia tempo para fazer um filme muito longo, tinha cerca de 40 dias até a data da exibição.  Não é um filme que fui elaborando  durante meses, que eu realmente planejei fazer, é um filme de exercício de produção e resolvemos tratá-lo com carinho apesar de ser um “filme de encomenda”  como comentou o Orestes durante o debate. Então falei como Carlos Tavares, que estava a fim de se envolver em algum projeto, e contei a idéia do filme a ele que imediatamente começou a fazer anotações e disse: –  Mas preciso do roteiro e respondi: Esta bem vou escrever amanhã. Com a idéia já formada na minha cabeça, em dois dias escrevi o roteiro do curta.  Decidimos fazer um “casting” apesar do prazo curto, O padrasto seria um ator que já havia gravado comigo em um comercial de conclusão de curso de uma turma do IPEP, mas quando falei do “casting” ele amarelou, então lembrei de um ator de teatro que tinha as características do personagem, não avisamos que seria o único a fazer o teste, ele veio e arrebentou na apresentação do personagem. Ficamos muito satisfeitos e seguros que teríamos uma boa atuação dele. Os jovens também vieram para o teste e percebi que teria que dirigir muito para chegar no resultado das cenas, nas gravações do cemitério passamos o texto por duas horas até gravar e chegamos a um resultado razoável para o tempo que tivemos para acertar as cenas. “Talvez Amanhã” é um filme feito em muito  pouco tempo, detalhes que poderiam ser melhorados serão feitos agora antes de inscrevê-lo nas mostras e festivais.  A trilha ficou pronta 3 dias antes da exibição , fomos para a casa do musico Alberto Cohon na quinta feira a noite para ouvir as musicas e fazer ajustes. Sábado a tarde o filme estava sendo exibido. Conseguimos o clima do cinema fantástico no curta “Talvez Amanhã”, um filme feito para entrar no Ciclo de Cinema Fantástico do MIS-Campinas.
Baiestorf: Qual foi o custo da produção? Conte-nos curiosidades sobre as filmagens.
Clério: O custo da produção não sei dizer exatamente, as anotações ficaram com o Carlos Tavares, mas foram gastos com gasolina, um óculos espelhado para o motorista que da carona, algumas garrafas de água mineral, um maço de cigarros  e os ingredientes para fazer o macarrão que o padrasto come enquanto fuma e bebe em frente da TV.  O Dul Victor que fez o padrasto não fuma a mais de 20 anos e teve que acender e fumar vários cigarros, no debate disse que passou alguns dias com o gosto do cigarro na boca e não foi esse o único pepino para o ator descascar, teve que comer muito macarrão ( feito por mim) até que eu conseguisse gravar as três tomadas diferentes da mesma cena. Logo na primeira cena ele parou e disse: – Tem como colar um salzinho?  Muita coisa pra pensar e esqueci o sal! Um ator sério, já teve uma companhia de teatro em Campinas e é capaz de fazer papéis mais complexos. Dificuldades não faltaram para um curta com o prazo final apertado. O motorista do utilitário que faz o cara que dá carona aos adolescentes, foi com um boné que não estava nos meus planos e foi recusando-se a tira-lo de Campinas a Joaquim Egídio, onde gravaríamos a cena da estrada, chegando lá o garoto levou uma touca para caracteriza um visual Emo, preferi ele sem touca, entreguei a touca para o produtor Carlos Tavares e disse para levar a touca para o Alfeu (motorista) e disse:  Se ele usar a touca eu topo, senão quem vai fazer o motorista é você. O Alfeu colocou a touca e fico ótimo. Toda a sala onde o padrasto fica comendo e bebendo é a sala da casa onde moro e foi totalmente montada com aqueles objetos, com aquelas caixas cheias de garrafas de cachaça vazias que fomos buscar no Mercadinho ali do bairro. O Carlos Tavares queria colocar um ventilador  bem debilitado na cena mas estava com uma cor azul muito aguçada  nas hélices e ficaria fora do tom marrom da cena e acabei tirando. O telefone preto, uma peça de arte que esta sobre o sofá e os cinzeiros  foram emprestados pelo Luiz Humberto, ator de teatro e produtor que mora em uma casa tomada por objetos antigos e peças que ele mesmo faz.  A poltrona e o sofá vermelho foram encontrados na rua em dias e locais diferentes. Gravamos a cena do padrasto com duas câmeras CANNON EOS REBEL T2I, na cena do cemitério não conseguimos a segunda câmera e gravamos com uma repetindo a cena e gravando de ângulo diferente.
Baiestorf: Como será a distribuição do curta? Você acha que seria interessante vários produtores independentes realizarem coletâneas de curtas com seus filmes num mesmo DVD?
Clério: Não consigo ver uma saída para distribuição de curta metragem sem essa proposta de vários diretores num mesmo DVD proporcionando assim uma divulgação do trabalho de cada um. A mostras e festivais vão “distribuir” o filme, de certo modo o mesmo acontece com as visualizações na internet. Tive a idéia montar um DVD com os filmes e os debates do Ciclo de cinema Fantástico do MIS CAMPINAS  para registrar o evento e disponibilizá-lo no acervo do MIS, talvez na loja virtual do site da Arttería Filmes mas isso já envolve uma serie de cuidados e ainda não como farei.  O que farei com certeza será um DVD contendo todos os debates e disponibilizar no acervo do MIS CAMPINAS.
Baiestorf: Como formar um público consumidor de curtas?
Clério: Já vi um site que dizia fazer distribuição de curtas mas  não acompanhei para saber se funcionou. Os festivais que disponibilizam os curtas nos sites para serem revistos estão distribuído, mas a melhor forma que vejo é a idéia do DVD com vários curtas do mesmo segmento e estive pensando em fazer isso com o Cinema Fantástico. O curta está caracterizado como exposição do trabalho de um cineasta, mas é muito mais que isto. Como dissee o Orestes num debate, num curta você não tem tempo para ganhar o publico por pontos como num longa,  tem que ser por nocaute. Não é simples fazer um curta! Este ciclo tem material para um DVD de curtas de ótima qualidade e vou pensar nessa possibilidade. Um DVD com curtas de vários diretores reunidos é muito bom pela diversidade cinematográfica e deve ser mais explorado.
Baiestorf: “Talvez Amanhã” é um bom filme, com atores esforçados e produção bem aproveitada. A Artteria Filmes tem essa preocupação de formar um núcleo de colaboradores em Campinas?
Clério: Campinas é uma cidade com grupos de teatro antigos e tradicionais de onde o cinema se abastece de atores, precisamos de mais que isto. No MIS-CAMPINAS existe um grupo que freqüenta, assiste e debate os filmes, no “Talvez Amanhã” temos o Luiz Humberto que cedeu peças de cena, Carlos Tavares que agarrou a produção, Alfeu que fez o motorista, Alberto Cohon que fez a trilha, os meninos são do Teatro de Sumaré e eu que freqüentam o MIS-CAMPINAS e que formou um grupo espontâneo de colaboradores. Desde o inicio eu e o Carlos Tavares falamos de montar uma cooperativa de produção onde haveria participantes se ajudando em produções com pessoas e equipamentos, acreditamos que isso ocorra quase que espontaneamente.  Sem duvida a idéia de um Núcleo de Colaboradores é genial e quero trabalhar nisso.
Baiestorf: Quais suas influências básicas na hora de produzir um filme?
Clério: Quando meus pais separaram-se fui morar na casa da minha avó materna. Ela tinha uma TV preto e branco. Via sessão da tarde deitado quase dabaixo da TV no chão de taco e levava bronca da Vó Dozolina, a noite assistia “Sessão Bang Bang”. Se sofro alguma influência na hora de produzir os filmes isso ocorre inconscientemente. Minha inspiração vem da criatividade e da ousadia de diretores autorais que foram fazer cinema apesar de todas as dificuldades. Quando estou produzindo um filme as dificuldades são apenas mais um desafio, é empolgante pensar em uma solução criativa para resolver o posicionamento de uma câmera ou como vamos gravar em determinada locação. Detesto trabalhar com pessoas que ficam fazendo uma lista dos problemas que poderia dar se fizéssemos isso ou aquilo.  Glauber Rocha não mediu esforços para gravar e exibir em uma época difícil de fazer cinema e no entanto fazia.  Isso me inspira muito! Cinematográfico sou influenciado por vários cineastas, sou eclético para filmes, gosto desde a câmera do Antonioni que passeia por uma cena, quanto a câmera nervosa do Fernando Meireles, gosto da seqüência atemporal do Tarantino e de uma linearidade as vezes no roteiro.  Devo admitir que estou num processo de formação cinematográfica quanto ao modo de produzir meus filmes, o primeiro curta “Estradas Brancas” e o “TRANSITORIOS” tem um ritmo muito diferente do “Talvez Amanhã”, onde fiz cenas mais  longas com a câmera fixa, sem pressa de sair da tela, sem cortar a cena toda. Comecei ir ao Cinema no inicio dos anos 80 e vi todas aquelas superproduções “hollywoodanas”, fiquei na fila que dava voltas no quarteirão para ver o lançamento dos filmes do Stallone e Arnold Swarzzeneger e isso contaminou um pouco o jeito de gravar e cortar demais. Não acho ruim, penso que cinema é edição e se cortar mais, chego mais onde quero.  Freqüentando um circuito de filmes independentes e o MIS-CAMPINAS e tendo acesso a diretores europeus e passei a ver outro cinema que me fez gravar planos fixos e longos no inicio e no final do “Talvez Amanhã “. No entanto quando produzo um filme não sinto uma influência básica, mas uma apropriação de várias formas de filmar e montar. Gosto muito do “plongee” e de enquadramentos de onde não seria comum olhar, essa mistura de influências ou de nenhuma influência especifica pode ser bem positiva e produzir filmes interessantes.
Baiestorf: Porque fazer filmes, uma arte complicada e cara?
Clério: Já foi muito mais caro, e quase utópico fazer filmes! Veja o Glauber e outros cineastas da época o que passaram para fazer cinema? Depois que vi cidade de Deus senti que o cinema brasileiro seria mais possível e acessível, sobretudo por conta da tecnologia digital que possibilitou um custo beneficio bem mais interessante que chegar na película, as pessoas passaram a aceitar outra textura de imagem por conta da internet e fazer filmes em digital não causou tanto impacto, cobrar a qualidade da película é coisa de uma minoria e de quem faz. É comum as pessoas ao saber que estou fazendo filmes perguntarem, mas isso da dinheiro e vejo logo que não entenderam que minha alma esta nisso e que o dinheiro é a conseqüência dessa entrega. Gasta-se muito dinheiro para fazer cinema e ganha-se muito dinheiro para fazer cinema, sabemos que á difícil e complicado chegar lá,  difícil e complicado quase toda atividade é, com perseverança e criatividade as coisas vão acontecer.  No mínimo o prazer de passar a vida fazendo aquilo esta no coração haverá de retorno, mas acredito em mais que isso, o que se faz co a alma reflete forte e o retorno é grande em todos os sentidos. Não há mais como conter de contar historias que possam entreter e influenciar as pessoas para de alguma forma mostrar algumas saídas para uma vida melhor mesmo que as vezes seja a alegria de rir se envolver na historia de um filme. Vejo o cinema com esta função que tem a arte de melhorar a vida das pessoas. Faço filmes porque não posso evitar este impulso, a vida faz mais sentido.
Baiestorf: Nos últimos anos o Brasil vê o surgimento de toda uma nova geração de cineastas independentes, na sua opinião de produtor e divulgador de filmes, a que se deve isso? E essa produção tente à aumentar?
Clério: Petter, quero esclarecer que é a primeira vez que faço um Ciclo de Exibição e que estou pensando muito sobre fazer novamente. O retorno é positivo, entrei em contato com diversos cineastas, diretores e pude ver que filmes de baixo orçamento podem ter qualidade e ser impressionantes. Fui inserido nesta comunidade cinematográfica e sem duvida este é o maior do retorno que tive. O prazer de divulgar esses diretores não tem preço e as pessoas precisam saber deles. Ouvi muito as pessoas dizerem na sala de exibição: – Nossa que qualidade, que domínio da linguagem e a gente nem sabe desses diretores!  Esta produção vai aumentar, em quantidade e qualidade e avançar  para o circuito convencional, o brasileiro tem criatividade para isto. Como disse antes, hoje existe um cinema possível, digital, a internet contribui muito.  O mercado esta de olho em novas idéias e linguagens. Vejo um futuro prospero no cinema nacional e devemos juntar forças para seguir caminho e fazer acontecer.

Baiestorf: Fale sobre seus novos projetos:
Clério: Dois longas e um curta estão na fila de espera. O Curta foi inscrito no Edital de Paulínia que esta enrolado e provavelmente não sai. Quando não sai via edital, produzo  assim mesmo. Os longas estão no roteiro, no tempo certo vou começar produzir.  Sinto uma motivação para continuar  com o Ciclo de Cinema Fantástico anualmente. No universo cinematográfico as cosas acontecem quase que involuntariamente, quando vi estava gravando o ”Talvez Amanhã” – http://www.youtube.com/watch?v=fWWoAaM9wmQ –  e percebi que é preciso analisar melhor o que filmar, principalmente porque filmar determinado roteiro. Quase todos envolvidos no curta tinham um texto e queria ver se a gente não queria produzir, não é simples, da um trabalho enorme e precisa ser um tempo gasto com algo que realmente tenha tocado o coração.  Estou muito interessado nas parcerias, quando for possível, para produzir com maior qualidade e apresentar filmes empolgantes. Uma regra básica é estar sempre produzindo.  Muito agradecido ao Petter Biestorf e ao Canibuk. Avante Cinema Independente!

Deus – O Matador de Sementinhas & Poesia Visceral

Posted in Nossa Arte, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on abril 15, 2012 by canibuk

Gurcius Gewdner acabou de colocar no Vimeo dois curtas antigos onde tenho participações, “Deus – O Matador de Sementinhas” (1997), que co-dirigi em parceria com C.B. Rot e “Poesia Visceral”, uma palhaçada coletiva de 2004 que eu nem lembrava mais que tinha participado!

“Deus – O Matador de Sementinhas” (1997, 3 min.) de Petter Baiestorf e C.B. Rot foi um curtinha sobre religião que parecia pedir prá sair de nossas cabeças. Ateus, Rot e eu, resolvemos, por um pequeno momento, imaginar se Deus existia e como ele escutaria e se comportaria ouvindo as preces e pedidos dos desesperados humanos. Na época destas filmagens estávamos rodando o longa-metragem “Super Chacrinha e seu Amigo Ultra-Shit em crise Vs. Deus e o Diabo na Terra de Glauber Rocha” (1997) e testando inúmeras possibilidades de chocar espectadores (depois deste curta bolamos ainda o trio de filmes escrotos “Boi Bom”, “Gore Gore Gays” e “Sacanagens Bestiais dos Arcanjos Fálicos”, todos feitos e lançados em 1998). Este curta-metragem foi lançado em Porto Alegre/RS durante o festival de música Made in China (organizado pelo Marcelo Birck e Plato Divorak, se não me falha a memória) e já na primeira exibição deu problemas. Depois disso conseguimos exibí-lo em poucos botecos e virou extra em VHSs/DVDs que lançamos. Assista logo porque tenho a impressão de que não vai durar muito tempo no Vimeo.

“Poesia Visceral” (2004, 6 min.) de Canibais Etílicos é um curta muito ruim feito entre o pessoal que andava comigo no ano de 2004, que foi um dos piores anos da produtora, com toda nossa produção na época parada por falta de condições de trabalho. Para este “Poesia Visceral”, onde nada foi pensado ou planejado antes, realizamos um churrasco (numa época em que eu ainda comia animais mortos), botamos gasolina na cerveja do Ivan Pohl e ficamos incentivando ele a vomitar gostoso. A trilha sonora eu escolhi de acordo com o que escutávamos na época e a edição tosca, se não me falha a memória, fui eu quem fez. Este curta nunca teve lançamento, nem exibições públicas porque antes de ser um filme, é uma bagunça besta entre bêbados. Também não pretendo colocar este curta de extra em nenhum futuro lançamento em DVD.

Sei que estes dois curtas não são o melhor cartão de visitas para as produções que realizei via Canibal Filmes, mas se você curte filmes gores, sexploitations e roteiros sem noção, pode comprar os filmes que estamos sempre lançando, basta pedir informações via e-mail baiestorf@yahoo.com.br

Temos disponível os seguintes títulos:

– O Monstro Legume do Espaço (partes 1 e 2 e vários extras): R$ 10,00 + R$ 5,00 de despesas postais.
– Eles Comem Sua Carne/Zombio (double feature e vários extras): R$ 10,00 + R$ 5,00 de despesas postais.
– A Curtição do Avacalho (com o documentário “Baiestorf – Filmes de Mulher Pelada e Sangueira” de extra): R$ 10,00 + R$ 5,00 de despesas postais.
Arrombada – Vou Mijar na Porra do seu Túmulo!!! (com vários extras): R$ 10,00 + R$ 5,00 de despesas postais.
Vadias do Sexo Sangrento (DVD duplo com vários extras): R$ 15,00 + R$ 5,00 de despesas postais.

Lifeforce: Vampiras Peladas e seus Zumbis Elétricos

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on abril 13, 2012 by canibuk

“Lifeforce” (Força Sinistra, 1985, 116 min.) de Tobe Hooper. Com: Mathilda May, Steve Railsback, Peter Firth e Frank Finlay.

Primeiro dois fatos introdutórios: Em 1986 eu tinha 12 anos e na época éramos bombardeados pela imprensa sobre a aparição do cometa Halley que iria acontecer em breve, minha geração (na época tudo pré-adolescente) ficou empolgada e ansiosa pela expectativa do aparecimento do cometa que “visita” nossa órbita a cada 76 anos. Lembro que naquele ano o objeto de desejo de todo pré-adolescente era uma luneta. Pulo para 1989 (ou 1990, não lembro mais as datas) quando a rede Globo exibiu “Força Sinistra” em sua programação, meninos que em 1985/1986 tinham 11/12 anos, agora estavam com seus 15/16 anos, já colecionavam filmes de horror e sci-fi em suas memórias (os videocassetes ainda não eram tão populares), os mistérios do cometa Halley ainda estavam frescos em suas cabeças e toda essa geração se surpreendeu com a mistura gore, horror, sci-fi e erotismo que a dupla O’Bannon-Hooper havia levado às telas com “Lifeforce”.

A história do filme é um primor: Após investigar o cometa Halley, os tripulantes do ônibus espacial Churchill encontram uma espaçonave alienígena escondida na corona do cometa e dentro da nave três criaturas humanóides nuas em animação suspensa (entre elas Mathilda May, então no auge de sua beleza), que são levadas à bordo do ônibus espacial. Na viagem de regresso o controle da missão perde contato e uma missão de resgate é enviada, encontrando o ônibus espacial completamente destruido, com excessão dos três aliens. Já no Planeta Terra, cientistas e militares se preparam para estudar os corpos dos aliens quando descobrem que eles estão vivos e se alimentam de energia vital dos seres humanos. Logo a vampira gostosa está andando livre (e nua, para nossa felicidade) por Londres e, para desespero de todos, os cientistas descobrem que as vítimas dela, depois de duas horas, voltam como vampiros zumbis, eslhando pelas ruas de Londres caos e destruição, em magníficas seqüências envolvendo muito gore e violência.

“Lifeforce” foi o primeiro de três filmes que Hooper realizou para a Cannon Group (dos picaretas Menahem Golan e Yoram Globus), os outros dois foram “Invaders from Mars”, refilmagem do filme homônimo de William Cameron Menzies, de 1953) e “The Texas Chainsaw Massacre 2” (1986). O roteiro de “Lifeforce” toma como base o livro “The Space Vampires” (1976) de Colin Wilson e teve o orçamento de 25 milhões de dólares (uma quantia muito alta para os anos 80), se transformando num mega-fracasso de bilheteria. Várias cenas previstas para serem filmadas acabaram sendo suspensas porque o estúdio ficou sem dinheiro durante a produção. Mesmo assim Hooper tentou, em vão, lançar uma versão de 128 minutos (que acabou sendo podada para essa versão de 116 minutos que tanto adoramos). Antes de Hooper entrar no projeto, o filme tinha sido oferecido à Michael Winner (diretor do clássico “Death Wish/Desejo de Matar”). Um dos roteiristas do filme é Dan O’Bannon, responsável pela direção do clássico “The Return of the Living Dead/A Volta dos Mortos-Vivos” (1985) e por ter escrito grandes clássicos da sci-fi, como “Dark Star” (1974) de John Carpenter, “Alien” (1979) de Ridley Scott e “Total Recall/O Vingador do Futuro” (1990) de Paul Verhoeven.

Tobe Hooper ficou mundialmente conhecido em 1974 quando lançou o cult “The Texas Chainsaw Massacre/O Massacre da Serra-Elétrica”. Nascido em 1943 na cidade de Austin, Texas, começou a chamar atenção já com seus curtas “The Heisters” (1965) e “Eggshells” (1969). Quando juntou 60 mil dólares com amigos e colegas de faculdade para filmar “The Texas Chainsaw Massacre”, já havia trabalhado em mais de 60 documentários. Com o sucesso deste pequeno filme de horror, Hooper acabou conseguindo realizar “Eaten Alive” (1977), seu primeiro filme com aval finaceiro de Hollywood. Em 1981 dirigiu outro clássico do gênero horror, “Funhouse/Pague para Entrar, Reze para Sair”, filme bastante elogiado que o aproximou de Steven Spielberg que lhe ofereceu um roteiro de invasão alienígena chamado “Night Skies”, sobre uma família sendo atacada por aliens. Hooper recusou e “Night Skies” acabou virando “ET – The Extra-Terrestre” (1982). Juntos a dupla Hooper-Spielberg realizou “Poltergeist”, um dos mais xaropes filmes de Tobe, na minha opinião. Depois dos filmes que dirigiu para a Cannon Group, Hooper nunca mais realizou nenhum filme relevante (apesar de continuar na ativa dirigindo filmes medíocres).

Em 1979 a Cannon Group foi comprada pelos primos israelenses Menahem Golan e Yoram Globus e ganharam muito dinheiro nos anos de 1980 produzindo clássicos de ação estrelados por Chuck Norris (“The Delta Force”, “Invasion USA”, entre muitos outros) e as seqüências de “Death Wish” (estreladas por Charles Bronson em grande forma). Golam-Globus, como eram conhecidos, produziam todo tipo de filmes, de “Barfly” (inspirado em Bukowski) até “The Last American Virgin/O Último Americano Virgem”, passando por filmes de horror, sci-fi, romances, musicais, policiais e qualquer outro gênero que lhes parecesse lucrativo, chegando a produzirem 43 filmes em 1986. Claro que uma produção tão intensa assim teve inúmeros fracassos comerciais e, em 1988, a francesa Pathé Communications tomou controle da Cannon Group, depois do fracasso “Superman IV: The Quest for Peace”.

“Lifeforce” foi lançado em DVD no Brasil, sem extras, pela MGM DVD logo no começo do mercado de DVD’s brasileiros. É imperdível!

por Petter Baiestorf.

JK – O Artista do Impossível

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , , on abril 12, 2012 by canibuk

“JK – O Artista do Impossível” (Ed. Objetiva, Coleção Ponto de Leitura, 1063 páginas) escrito por Claudio Bojunga é uma daquelas biografias monstros meio paternalistas que pinçam as “coisas boas” que o biografado fez (mais ou menos igual o filme sobre o Lula), tanto que a panelinha aplaudiu e o livro ganhou o prêmio Jabuti de 2002 de melhor biografia.

Bojunga começou as pesquisas sobre a vida de Juscelino Kubitschek em 1990, nas palavras do próprio: “Foram dois anos de pesquisas de campo, 4 anos de escrita, entremeados de viagens a Diamantina, Belo Horizonte, São Paulo e Brasília, pesquisas em bibliotecas, jornais, cerca de 150 entrevistas, reformulações, mais três anos de distanciamento e repouso, e finalmente um ano e meio de ajuste final na lapidação do texto.”

O livro conta a história recente de nosso país dominado pelas vontades de umas 30 famílias, como atesta a passagem:

“(…)

O casamento com Sarah (de Souza Lemos) inseria Juscelino na grande parentela mineira: nosso médico ingressava numa tradicional família política do estado. No seu clássico “Famílias Governamentais de Minas Gerais”, o historiador Cid Rebelo Horta mostrou como uma pequena rede de 30 famílias com muitas ramificações passou a ter o imemorial domínio do estado, do nível local ao nacional. Formadas pelo entrelaçamento de três núcleos principais, as chamadas “Famílias Extensas” formavam o que ele chamou de círculos endogãmicos – cada um deles abrangeando a área social de uma ampla parentela contígua num vasto domínio de terra.

(…)”

Como todo político (de qualquer parte do mundo), Juscelino começou logo sua carreira de corrupto falsificando sua idade para poder prestar exames, é aquela velha idéia de polítco, “crio leis para os outros obedecerem, não eu!”:

“(…)

JK e Alkmin viveram, entre seus 17 e 20 anos, uma corrida de obstáculos pela instrução e pelo sustento. Como em toda história de sucesso, ocorrem oportunidades inesperadas, auxílios imprevistos, acidentes de percurso e arranjos providenciais que encurtam o acesso à linha de chegada. No caso de Juscelino, o primeiro caso favorável foi um subproduto da epidemia de “gripe espanhola” que espalhou milhares de mortos pelo Brasil em 1918, esvaziando os colégios de norte a sul do país. Um projeto do senador capixaba Jerônimo Monteiro previa a promoção dos alunos impedidos de prestar exames por causa da epidemia. Posteriormente, a medida foi ampliada pelo senador carioca Paulo de Frontin, instituindo “exames de decreto”: bastava o aluno estar matriculado e requerer o certificado que receberia automaticamente quatro créditos.

Álvaro Mata Machado chamou a atenção de Juscelino para a oportunidade, que se inscreveu imediatamente. Como não tinha dinheiro para a viagem, enviou os papéis a Belo Horizonte por seu primo João Kubitschek, que estava de partida para a capital. Cada certificado custava 11 mil-réis, o total da operação ficava em 44 mil-réis. Dona Júlia recorreu ao pé-de-meia. Muito espertamente, Juscelino requereu os exames de álgebra e aritmética – matérias detestadas – além de português e latim. Faltavam oito exames, que só poderiam ser feitos em Belo Horizonte. Era preciso ganhar dinheiro.

(…)

Foi preciso um jeitinho suplementar: Juscelino ainda não tinha completado os 18 anos – idade mínima exigida pelo concurso. Entra então em cena o velho amigo Ninico, oficial de registro público, que deu uma mexida nos papéis. Isso explica por que os documentos escolares de Juscelino Kubitschek o registram com dois anos a mais. José Maria Alkmin seguira para a capital na frente do amigo: antes mesmo dos exames, conseguiu ser nomeado mensageiro interino através do pistolão de um cunhado.

(…)”

Típico dos políticos essa idéia de falsificar tudo e vencer enganando as pessoas. E até quando político realiza atos de grandeza, os fazem por interesses próprios:

“(…)

Maristela tinha então quatro anos. Juscelino e Sarah nunca esconderam dela a adoção. A menina costumava visitar seus pais e irmãs de sangue. Seus novos pais nunca fizeram diferença entre as filhas – mas só Ma´rcia falava mamãe e papai, Maristela os chamava de padrinhos. O constrangimento desapareceu no dia 10 de dezembro de 1957, quando Maristela completou 15 anos. O presente de aniversário do pai presidente foi dos mais elegantes: um decreto permitindo que filhos adotivos tivessem o mesmo direito dos legítimos, inclusive o de usar o nome de família de seus respectivos pais. Sarah mostrou à filha o texto do cecreto. Ao terminar a leitura, Maristela foi ao gabinete de Juscelino, deu-lhe um beijo e disse: “Obrigada, papai.”

(…)”

“JK – O Artista do Impossível” é um livro perfeito para alunos do segundo grau tomarem intimidade com a história política brasileira. Eles se sentirão tristes em saber que no Brasil cargos políticos ficam na mão das mesmas famílias de geração para geração, os mesmos sobrenomes que assombraram o Brasil de antigamente, continuam ainda hoje nos noticiários com escândalos de corrupção, subornos e outras cositas mas.

Sei que a indicação deste livro aqui no Canibuk soa um pouco estranha, mas façam um favor a si mesmos (aprender mais sobre a história nunca fez mal à ninguém) e vão até uma biblioteca pública, retirem este livro e percebam que nas próximas eleições vocês não podem sair de casa, nós brasileiros não merecemos continuar elegendo estes políticos que só pensam em si próprios.

Em tempo: Este livro serviu de base para o roteiro daquela série ridícula (com o muito ruim José Wilker no papel de Juscelino) produzida pela TV Globo.