Serge e Jane, Um Casal Pervertidamente Perfeito!

Serge Gainsbourg e Jane Birkin  protagonizaram uma das parcerias mais interessantes  da história da música e também do cinema. O casal uniu criatividade e ousadia e presenteou o mundo com uma arte provocante e apaixonada que até hoje é referência e segue sendo admirada em todo o mundo.

Jane Birkin, nasceu em Londres  em 14 de dezembro de 1946. Ousada,  ganhou notoriedade aos vinte anos ao fazer uma ponta no filme de Antonioni “Blow-up – Depois Daquele Beijo“, de  1966.  O Serge, nasceu em Paris em 1928, controverso, compulsivo por cigarros, álcool e mulheres, era um provocador nato e bom na arte de se auto promover. Entre suas estripulias estão a versão iconoclasta que compôs do hino francês, o que despertou a ira dos “grandes”, a provocação ao queimar 500 francos num programa de tv para denunciar a corrupção e ganância do governo e o vídeo hilário onde, completamente bêbado, ele canta de forma grotesca e descarada a Whitney Houston num programa de tv.

Mas Gainsbourg foi muito mais que um mero provocador sem limites. Sua importância para a cultura francesa é inestimável. Seu primeiro disco passou despercebido pelo público, mas agradou fortemente a crítica. Em pouco tempo ele já se desdobrava entre gravar suas canções e compô-las para outros. O sucesso começou a surgir quando conheceu sua primeira lolita, a cantora France Gall, de 18 aninhos. A ninfeta começou a aparecer na tv com um pirulito nas mãos enquanto cantava uma música composta pelo Serge que era recheada de duplo sentido “(…) Annie gosta de pirulitos, pirulitos de anis. Dê-lhe beijos de ânis. Veja quando ela o tem em sua língua (…)” que só não foi percebido pela mesma. Ao ser alertada  do sentido da letra, Frances  cortou relações com o Serge. E assim a França começava a prestar atenção nesse transgressor deliciosamente excessivo, provocador ferrenho dos puritanos, feio com cara de ressaca, defensor do hedonismo individual e conquistador das mais belas mulheres  que já cruzaram o seu caminho. Mais tarde tornaria-se  mentor e, em seguida, amante de Birkin que, ao contrário da Brigitte Bardot, não tinha nada de voluptuosa. Serge e Jane se conheceram durante as filmagens de “Slogan” 1969, de Pierre Grimblat. Num momento onde o Serge já era famoso e a Jane não passava de uma aspirante, ela passou por maus bocados ao enfrentar um teste de tela sem saber falar francês muito bem e ao ter de lidar com um parceiro de cena que ela não conhecia, mau humorado e que ainda tentava se recuperar da ruptura do relacionamento com a Brigitte Bardot. A coisa toda não andava, a Jane se desmanchava em lágrimas e o Serge ficava impaciente. Depois de reconhecer que ela merecia  ser a co-estrela do filme, o já grande e influente artista francês parou de implicar e a aceitou no papel.  Assim começava  o romance de um dos casais  mais ousados dos anos 70. Casaram-se no mesmo ano.

“Je T’Aime Moi Non Plus” (“Paixão Selvagem”, 1976, 83 min.) de Serge Gainsbourg. Com: Joe Dallesandro, Jane Birkin e Hugues Quester.

Uma introdução musical: No inverno de 1967 Brigitte Bardot pediu para Serge, então seu amante, que lhe escrevesse a mais linda canção de amor e ele criou a clássica e ofensiva (para recalcados) “Je T’Aime Moi Non Plus”, que trazia  um conteúdo fortemente sexual, com gemidos, sussurros, respiração ofegante, lembrando um orgasmo feminino. Mas assim que a notícia das gravações chegaram aos ouvidos do milionário cornudo Günter Sachs (então marido de Bardot, que ganhou fama mundial como documentarista e colecionador de arte), Bardot pediu para que Gainsbourg não lançasse a música. A versão com a Bardot ficou inédita por quase vinte anos.  Quando Serge começou a namorar com a inglesa Jane Birkin pediu para ela regravar a canção com ele (que topou por ciúmes de que ele procuraria outra cantora, coisa que ele fazia sempre, pois antes de Jane ele já havia convidado Marianne Faithfull, Valérie Legrange e Mireille Darc) e no ano seguinte chegava às lojas o single com “Je T’Aime Moi Non Plus”, com uma capa simples onde se lia a frase “Proibido para menores de 21 anos”. Como curiosidade, o título da canção foi inspirado numa frase de Salvador Dalí que dizia: “Picasso é espanhol, eu também. Picasso é um gênio, eu também. Picasso é comunista, nem eu”. A canção criou um escândalo enorme, tendo despertado a fúria do Vaticano que a considerou fortemente imoral e pediu ao governo Italiano que a proibisse de ser tocada nas rádios. Despontava-se um grande alvoroço e a canção foi  mesmo proibida não só na Itália, mas em vários outros países, incluindo Brasil, Suécia, Espanha e Portugal. Porém, ao contrário do que queriam as autoridades e moralistas nervosos, todo esse empenho para vetar a “imoralidade” aguçou ainda mais a curiosidadde das pessoas e fez a música  chegar ao topo de número de vendas.  Surgiram várias versões  da música, em japonês inclusive. Mesmo sem a divulgação das rádios a canção vendeu dois milhões de cópias em seis meses.  Bardot, por sua vez, só liberaria o lançamento da versão original em 1987 com a intenção de reverter todo o recurso obtido com as vendas para um instituto que até hoje mantém em defesa dos animais.

“Je T’Aime Moi Non Plus” Versão Serge e Jane (nossa preferida):

“Je T’Aime Moi Non Plus” Versão Serge e Bardot:

Em 1976 Serge Gainsbourg escreveu um roteiro inspirado na sua mais famosa canção. “Je T’Aime Moi Non Plus” conta a história de um casal de homosexuais que cruzam o caminho da garçonete Johnny (Jane Birkin), uma jovem mulher com visual masculino sem muitas perspectivas de futuro. Krassky (interpretado por Joe Dallesandro, que já era uma lenda no cinema underground por conta de seus filmes com Andy Warhol) tem um caso com Johnny para fazer ciúmes em seu parceiro Padovan (Hugues Quester). Sem conseguir ereção para o coito vaginal, as frustrações dos amantes vai crescendo até o momento em que Johnny se deita de modo que somente sua bunda masculinizada fica aparecendo, visão que enlouquece Krassky que tenta fazer sexo anal com ela. Mas a dor do sexo anal é tão grande para a jovem que seus urros de dor/prazer os fazem ser expulsos de todos os móteis decadentes onde tentam fazer amor.

“Je T’Aime Moi Non Plus” é um filme maldito, com clima sujo, narrativa lenta e uma história de provocação. O verdadeiro romance do qual o filme fala é entre Krassky e seu parceiro Padovan, que lutam contra os preconceitos e a mediocridade da sociedade impondo seu modo de viver. Abusados, estes homosexuais não são afeminados, ao contrário, são dois trabalhadores braçais que sabem como se defender. Johnny é apenas um instrumento usado por Krassky para fortalecer o fogo da paixão com seu parceiro. Serge fala sobre a escória humana, sobre pessoas cujos sonhos acabaram naquele ambiente meio rural/meio indústrial de periferia, onde a maior diversão dos trabalhadores braçais é assistir um striptease amador com mulheres reais feiosas, visivelmente constrangidas, num sábado a noite. Atentem para a participação especial de Gérard Depardieu no papel de um debochado homosexual (nos anos 80 ele viria a se tornar um dos atores franceses mais famosos do cinema).

“Je T’Aime Moi Non Plus” é o primeiro filme de Serge Gainsbourg (que já havia dirigido vários comerciais para a TV francesa). O interesse de Gainsbourg por cinema começou quando co-estrelou com Rhonda Fleming o épico italiano “La Rivolta Degli Schiavi” (1960) de Nunzio Malasomma, onde fazia o papel de Corvino, um dos soldados do imperador romano. Além de “Je T’aime Moi Non Plus”, dirigiu mais 3 longas: “Équateur” (1983), “Charlotte For Ever” (1986) e “Stan the Flasher” (1990), além de alguns documentários para a TV (como “Cinéma Cinémas” de 1982 e “Springtime in Bourges” de 1987) e alguns curta-metragens como “Le Physique et le Figuré”, 1981; “Scarface”, 1982 e “Bubble Gum”, vídeo minuto de 1985. Compôs mais de 40 trilhas para filmes e suas canções continuam sendo incluídas em filmes pelo mundo a fora. Em 1980 ele e Jane fizeram participações no cult “Egon Schiele Exzess” de Herbert Vesely, infelizmente não lançado aqui no Brasil em DVD. Em 2010 foi lançado o filmaço “Gainsbourg (Vie Héroïque)” de Joann Sfar que recomendo aos fãs e não-fãs do genial compositor.

Jane Birkin, após ter chamado atenção no clássico “Blow-Up” (1966) de Michelangelo Antonioni (nesta época ela era casada com John Barry, compositor do tema de James Bond), trabalhou no psicodélico “Wonderwall” (1968) de Joe Massot, com todos os maluquinhos de plantão da Londres dos anos 60. Mesmo sem falar francês, ganhou o papel em “Slogan”, uma sátira ao mundo dos publicitários. Depois de uma curta pausa na carreira de atriz, retornou como amante de Brigitte Bardot na comédia “Don Juan ou Si Don Juan Était une Femme” (1973) de Roger Vadim, que eu gostaria muito de saber como era o convívio no set de filmagens, com Roger Vadim (ex-esposo) e Serge Gainsbourg (ex-amante) encarando Bardot enquanto Birkin (esposa de Gainsbourg) a pegava na história do filme. Sempre trabalhando com diretores interessantes, Birkin construiu uma carreira de respeito que incluí clássicos como “La Morte Negli Occhi del Gatto” (1973) de Antonio Margheriti, “Death on the Nile” (1978) de John Guillermin, “La Fille Prodigue” (1981) de Jacques Doillon, “Evil Under the Sun” (1982) de Guy Hamilto, entre outros. Jane é mãe da também atriz Charlotte Gainsbourg que tem causado sensação nos filmes dirigidos por Lars Von Trier.

“Je T’Aime Moi Non Plus” no Brasil recebeu o título de “Paixão Selvagem” e já foi lançado em VHS pela distribuidora Vídeo Cassete do Brasil e em DVD pela Cult Classic, sem nada de material extra, lógico. Filme obrigatório a todos amantes de cinema maldito.

por Leyla Buk e Petter Baiestorf.

Veja os trailers:

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