Midnight Movie Massacre

“Midnight Movie Massacre” (“Aconteceu à Meia-Noite”, 1988, 82 min.) de Mark Stock e Laurence Jacobs. Com: Robert Clarke, Ann Robinson, David Staffer e um bando de desconhecidos.

É noite de sábado numa pequena cidade americana dos anos 50 e todos vão para o cinema se divertir, paquerar e comer guloseimas. Neste cinema está sendo exibido a série “Space Patrol” que é produzida pela Republick (uma brincadeira com a Republic Pictures, inclusive com um urubu no lugar da águia original). Enquanto as pessoas se acomodam, na tela são exibidos trailers das próximas atrações: “Cat-Women of the Moon” (1953) de Arthur Hilton e “Devil Girl From Mars” (1954) de David McDonald (aqui rebatizado como “Sweater Girls From Mars” para uma piadinha com uma das personagens). Logo começa o filme dentro do filme com o tal “Space Patrol – Chapter 2 – Back From the Future”, onde um cientista inventa uma máquina do tempo e viaja ao passado para colocar seu plano maligno em prática. Assim um grupo de três cadetes precisam persegui-lo e deter seu plano viajando, também, para o passado. A máquina do tempo é uma espécie de disco-voador, operada por um cérebro, que viaja através do espaço sideral para voltar ao planeta Terra dos anos 50. Logo nossos heróis pousam numa pequena cidade e um casal de namorados e um voyeur (mais um menino de uma fazendo próxima) testemunham o pouso. Os viajantes do tempo roubam as roupas civis dos terraqüeos e logo vão para um cinema, onde está sendo exibido “Invaders From Mars” (1953) de William Cameron Menzies, pedir informações sobre Tonga, uma dançarina exótica, que seria a esposa do cientista louco. Neste meio tempo o menino que viu a máquina do tempo pousando, entra nela e conversa (como se fosse a coisa mais natural do universo) com o cérebro piloto que o manda com a missão de encontrar o comandante da missão e abortá-la. Traídos pela dançarina exótica todos os tripulantes da máquina do tempo são capturados pelo cientista louco que apresenta à todos a sua criação: Robôs ridículos operados por cérebros. O cientista ordena que seus engraçados robôs de latão matem o menino xereta (alguns dos ridículos robôs descobrindo e dançando ao som de rock’n’roll rendeu uma ótima cena) e no climax, onde o menino iria ser desmembrado por facões, o episódio chega ao fim e o narrador do seriado anuncia “Space Patrol – Chapter 3 – Up To Uranus” que será exibido na próxima semana. Será que o menino xereta escapará dos robôs ridículos?

Paralelo ao filme “Space Patrol” que é exibido pelo cinema, os espectadores aqui enfrentam um marciano violento que pousou atrás do cinema e quer comer o máximo de humanos possível. Quase ao mesmo tempo que pousou, o monstrengo do planeta vermelho já come um mendigo na rua, a vendedora de bilhetes e o gerente do cinema (que tem uma morte bem violenta e depois os restos de seu cadáver são molestados por uma criança de uns seis anos de idade que rouba seu olho e guarda-o em seu saco de bolinhas de gude e mergulha seu pirulito nas gosmas do monstro que ficaram ao redor do corpo desmembrado). Ao atacar a vendedora de doces do cinema finalmente podemos visualizar o ótimo design do alien, que é uma espécie de aranha espacial com tentáculos no lugar de braços, sua boca parece uma vagina dentadae seus olhos são também antenas. Em seguida o projecionista do filme é decepado e, quando o filme que estava sendo exibido termina, o monstro espacial ataca uma espectadora que ficou dormindo e que é salva por uma dona de casa de 135 quilos que come tudo que vê pela frente em uma referência explícita ao episódio 07 da primeira temporada do Monty Python e seu “Science Fiction Sketch”).

“Midnight Movie Massacre” (também conhecido como “Attack From Mars” ou “The Blob 2 – Le Retour du Monstre”, tentativa ridícula dos franceses de relaciona-lo ao “The Blob/A Bolha”) é um filme de baixo orçamento onde as coisas deram erradas. Originalmente Laurence Jacobs estava realizando o “Space Patrol”, mas ficou tão ruim que Mark Stock foi chamado ao projeto para transformar “Space Patrol” no filme exibido dentro de seu “Midnight Movie Massacre” e tentar fazer as coisas funcionarem. Já li muitas críticas negativas ao resultado final deste pequeno clássico da ruindade artística, mas gosto muito desta bela e sincera homenagem às sessões de cinema classe “Z” que rolavam pelo mundo inteiro antes de existir os cinemas de shopping que, na minha opinião, foram os responsáveis por destruir o cinema como eu curtia. Filmado em 1984, “Midnight Movie Massacre” só conseguiu distribuição em 1988.

Wade Williams, o produtor desta adorável tranqueira, é um milionário fanático por filmes de sci-fi que detém a maior biblioteca independente de filmes de ficção científica e distribuí seus títulos no mundo inteiro. Também, por anos, ajudava a manter revistas como “Starlog”, “Filmfax”, entre outras. Em 1964 dirigiu “Pussycat Pussycat”, um nudie movie relançado pela distribuidora Something Weird. Em 1969 escreveu, produziu e dirigiu “Terror From the Stars”, trasheira que o fez desistir de dirigir filmes (voltou a dirigir somente em 1992, quando comandou a produção de baixo orçamento “Detour”, uma homenagem ao cinema noir de hollywood dos anos 30/40). Em 1970 produziu o pseudo-documentário “The Helter Skelter Murders”, dirigido por Frank Howard, que explorava os assassinatos da Manson Family. Nos anos 80 foi o grande incentivador para que “Invaders From Mars” (1953) fosse refilmado com Tobe Hooper no comando da produção. Com roteiro de Dan O’Bannon, produção da Golan-Globus e efeitos das criaturas marcianas elaborados por Stan Winston, o remake foi extremamente mal nas bilheterias. Apaixonado por cinema fantástico, Wade Williams ainda deve aos fãs do gênero um filme bem produzido. “Midnight Movie Massacre” é divertido, mas temo que apenas trashmaníacos encontrem valor no filme.

Os diretores do filme, Laurence Jacobs e Mark Stock, pouco representam ao gênero. Jacobs ganha a vida como editor de TV (editava o “The Oprah Winfrey Show”, por exemplo), técnico de som (fez o som do clássico de horror “Tourist Trap” (1979) de David Schmoeller) e escritor. Antes de dirigir as cenas de “Space Patrol” que foram transformadas no filme assistido em “Midnight Movie Massacre”, ele havia dirigido apenas um curta-metragem chamado “Late Curtain” (1982), produção de 50 mil dólares filmada em preto e branco. Mark Stock nunca mais dirigiu filme nenhum após “Midnight Movie Massacre”. Em 1994 ele reapareceu criando o argumento do filme “Fleshstone/Instinto de Sedução” de Harry Hurwitz, thriller erótico na linha daquelas produções exibidas pelas TVs nas madrugadas. Nos anos 2000 retornou atuando em alguns filmes, como o drama familiar “Pure” (2004) de Dale Richard Howard e no curta-metragem “The Butler’s in Love” (2008), dirigido pelo ator David Arquette, onde faz o papel de um mágico.

Em “Space Patrol” temos a participação especial de dois atores cults, Robert Clarke e Ann Robinson. Clarke, nascido em 1920 e falecido em 2005, apareceu em muitos clássicos de sci-fi dos anos 50, delícias como “The Man From Planet X” (1951) de Edgar G. Ulmer, sobre um enigmático visitante espacial no planeta Terra; “Captive Women” (1952) de Stuart Gilmore, onde uma New York pós-apocalíptica é palco de batalhas de três tribos de mutantes; “The Astounding She-Monster” (1957) de Ronald V. Ashcroft, com uma bela e letal alien que caiu no planeta Terra; “The Incredible Petrified World” (1957) de Jerry Warren, sobre aventureiros descendo às profundezas do oceano e descobrindo redes de cavernas que levam à um novo mundo; “From the Earth to the Moon” (1958) de Byron Haskin, baseado em Jules Verne onde Clarke faz a narração e “The Hideous Sun Demon” (1959), dirigido pelo próprio ator em parceria com Tom Boutross, ficção sobre os efeitos trágicos da exposição à radiação. Clarke apareceu em inúmeras séries de TV como “The Lone Ranger”, “The Cisco Kid” e “Hawaii Five-O”. Trabalhou em outros filmes de Jerry Warren como “Terror of the Bloodhunters” (1962) e “Frankenstein Island” (1981). Em 2005, pouco antes de falecer, apareceu na comédia “The Naked Monster” de Wayne Berwick e Ted Newson, uma divertida homenagem aos filmes B, estrelado pela scream queen Brinke Stevens e com Ann Robinson reprisando seu papel de Sylvia Van Buren (aliás, o elenco de “The Naked Monster” é lindo, com figurinhas do cinema B como Forrest J. Ackerman, John Agar, Michelle Bauer, Bob Burns, Paul Marco, Linnea Quigley e muitos outros). Ann Robinson nasceu em 1935 e seu papel mais famoso é o de Sylvia Van Buren no clássico “The War of the Worlds” (1953) de Byron Haskin, onde pela primeira vez ela pode interpretar uma personagem principal. Trabalhou em várias séries de TV como “Rocky Jones, Space Ranger”, “Perry Mason” e “Peter Gunn”. Repetiu o papel de Sylvia Van Buren na fraca série de TV “War of the Worlds” nos anos 80 e em 2005 Steven Spielberg, ao refilmar “The War of the Worlds/Guerra dos Mundos”, lhe deu uma pequena participação especial como uma avó (mãe da personagem vivida por Tom Cruise).

“Midnight Movie Massacre” é um trash-movie esforçado que tenta divertir o espectador com suas piadas com o universo do cinema B. Aqui no Brasil foi lançado em VHS pela distribuidora FJ Lucas Vídeo com o título de “Aconteceu à Meia-Noite”. Outros 10 filmes que possuem o mesmo clima de diversão de “Midnight Movie Massacre” são: “Drive-In Massacre” (1977) de Stu Segall sobre assassinatos num drive-in; “Screamplay” (1985) de Rufus Butler Seder, sobre o louco mundo do cinema vagabundo estrelado por George Kuchar e distribuído pela Troma; “American Drive-In” (1985) de Krishna Shah, com jovens se divertindo com “Hard Rock Zombies” num drive-in; “Popcorn” (1991) de Mark Herrier, sobre uma marratona de filmes de horror num cinema fuleiro; “Matinee” (1993) de Joe Dante, inspirado em William Castle; “Ed Wood” (1994) de Tim Burton, cinebiografia sobre Edward D. Wood Jr. e sua gang de desajustados filmmakers; “Bikini Drive-In” (1995) de Fred Olen Ray, sobre um drive-in sendo re-inaugurado com as gostosas funcionárias vestindo bikinis, “Terror Firmer” (1999) de Lloyd Kaufman, delírio gore sobre o modo de vida Troma; “Cecil B. DeMented” (2000) de John Waters, sobre um grupo de cineastas transgressores realizando um filme e “Torremolinos 73/Da Cama para a Fama” (2003) de Pablo Berger, uma teoria de como seria um cineasta fã de Bergman filmando como Jesus Franco com uma super-8 e sua esposa pelada.

por Petter Baiestorf.

Assista “Midnight Movie Massacre” aqui:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: