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Astaroth: A Mulher Esquecida, A Identidade Negada, O Filme Independente!

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Acabei de assistir o longa Astaroth, de Larissa Anzoategui, que acompanho desde o início da carreira e admiro bastante suas produções independentes. Com inspiração nas produções de Heavy Metal Horror da década de 1980, Larissa e sua equipe criaram um pequeno clássico do Metal Horror, com direito à musa Monica Mattos no papel da demônia sexy que vem em busca de corpos humanos.

Larissa Anzoategui

Larissa lançou o longa numa edição em DVD caprichada e aproveitei o lançamento para entrevistá-la sobre Astaroth e indicar aos leitores do blog a compra para incrementar suas coleções com um SOV muito bem produzido pelo cinema independente brasileiro.

Petter Baiestorf: Como surgiu a ideia para a produção de Astaroth?

Larissa Anzoategui: Surgiu primeiro a ideia de produzir um longa no mesmo esquema independente que fizemos os nossos curtas. O Ramiro tinha um argumento e desenvolveu o roteiro para o que seria o nosso longa, o nome era Embrião Maldito. Fomos atrás das locações, convidamos alguns amigos para atuar, enfim, demos inicio à pré-produção e no meio desse processo sentimos que não iríamos conseguir algumas coisas e resolvemos mudar de plano. Para parte da equipe não se dispersar e perder o ânimo, o Ramiro em pouquíssimos dias escreveu o roteiro do Astaroth e corremos atrás da nova pré-produção.

Baiestorf: Percebe-se uma inspiração oitentista nele, quais foram os filmes que te influenciaram?

Larissa Anzoategui: Nossa equipe (eu, Ramiro Giroldo, Pedro Rosa e Renato Batarce) cresceu assistindo as produções oitentistas, inclusive aquelas que iam direto para a locadora. Quando resolvemos fazer um longa, a primeira coisa definida era: inspiração nos filmes da década de 80. Acho que essa inspiração já aparece em todos os nossos filmes. De uma maneira geral posso citar alguns diretores/produtores que são grandes influências para mim: Stuart Gordon, Brian Yuzna, Frank Henenlotter, John Carpenter, Lloyd Kaufman, Charles Band, David DeCoteau. Têm alguns filmes específicos também: Night of the Demons, A Volta dos Mortos Vivos, Natal Sangrento, A Hora do Pesadelo, Evil Dead, A Hora do Espanto, Phantasm. Mas a inspiração para o Astaroth foram os Heavy Metal Horror. Alguns dos que mais me marcaram: Hard Rock Zombies, Black Roses, Trick or Treat, The Gate. Também pensei nos filmes de ação, de artes marciais, como o Ninja III.

Baiestorf: O roteiro, escrito por Ramiro Giroldo, apresenta uma versão de Astaroth. Quais foram as fontes para a criação da história e personagens? Você poderia falar sobre Astaroth?

Larissa Anzoategui: Vou deixar essa aqui para o próprio Ramiro: “A entidade Astaroth vem, como é mencionado no filme, da divindade ‘pagã’ Astarte, que era feminina. Na Idade Média, a Igreja Católica e seus demonologistas transformaram essa figura em um demônio masculino. Achei isso curioso e tentei fazer a Astaroth essa mulher que foi esquecida, que teve sua identidade negada. Ela tenta voltar, nada contente com esse nosso mundo. Mas procurei deixar isso de fundo, priorizando a história que queria contar.”

Roteiro

Baiestorf:  O trio de atrizes principais está fantástico. Fale um pouco sobre Jacqueline Takara, que está perfeita no papel, Ju Calaf e a Monica Mattos.

Larissa Anzoategui: Essas três mulheres são a encarnação desse conceito tão usado nas redes sociais : mulherão da  porra. Donas de si, inteligentes, talentosas. Levam o trabalho a sério e no que puderem contribuir para que a produção fique o melhor possível, contribuem. A Ju esteve presente desde a primeira empreitada da Astaroth Produções (antes chamada Vade Retro Produções), o curta Limerence. Desde sempre foi muito parceira, estava na equipe como atriz, mas no que precisasse ela ajudava. Inclusive fez altos rangos maravilhosos em todos os filmes que participou.Ela é comprometida com o trabalho, atua muito bem, ajuda a levantar o astral no set. Só não está nas produções mais recentes por ter ido embora do Brasil.

Ju

A Jacque e a Monica entraram nas nossas vidas com o Red Hookers. E já foram mostrando também grande comprometimento. No primeiro dia de gravação a Jacqueline teve uma aula rápida de pole dance, o que foi suficiente para fazer a cena dançando como se fosse especialista em dança exótica. Foi surpreendente! Para o Astaroth ela encarou algumas aulas de Ninjtsu. A Monica também é super comprometida e tem a melhor noção de continuidade do Planeta Terra! Crio junto com elas, explico o que penso das personagens, elas dão o ponto de vista que formaram e a gente vai moldando.

Jacque

Baiestorf: Com a Monica você já havia trabalhado em Red Hookers, como é tê-la nas produções?

Larissa Anzoategui: É ótimo! Sempre foi muito tranquilo, apesar de ser tudo o que é – talentosa, poderosa, linda, inteligente, uma atriz premiada- ela é super de boa. Está sempre com as falas decoradas e tem bastante paciência com nosso esquema independente de produção. A considero uma ótima atriz. Hoje ela está trabalhando como tatuadora. É assim, determinada. Quer fazer, faz: acho que não tem algo impossível pra ela.

Monica

Veja o Making Off aqui:

Baiestorf: O Renato Batarce está muito divertido no papel do gordinho tímido. Vocês trabalham juntos há um bom tempo, como iniciou essa parceria?

Larissa Anzoategui: Conheci o Renato em São Paulo, em algum evento ligado ao terror, e a gente se reencontrava nas mostras e festivais que envolviam o gênero.  Fizemos o curso do Lloyd Kaufman How to make your own damn movie e acho que foi lá que começou essa conversa de produzir alguma coisa. Eu e o Pedro já estávamos há um tempo tentando desenvolver algum roteiro viável, meio na dica Robert Rodrigues: a gente vê o que tem disponível e pensa no que dá para filmar com aquilo. Nesse período eu li um texto da escritora Paula Febbe e já fui pedindo permissão para adaptar, ela foi mais generosa ainda e escreveu o roteiro de Limerence, indicou a atriz (Ju Calaf), participou da pré-produção e fez até uma ponta atuando. Com esse roteiro em mãos reuni o Pedro, o Renato, o Fábio Moreira e também o Magnum Borini. Gravamos em dois finais de semana e a partir daí o Renato quase sempre esteve presente nas produções, mas atrás das câmeras. Quando o convidei para fazer o Josias, a primeira resposta foi um “não sei” muito puxado para o “não”. Depois mudou de ideia, ainda bem! Ninguém seria melhor do que ele.

O gordinho tímido

Baiestorf: Eu gostaria de destacar o trabalho de maquiagens do filme, principalmente a caracterização da demônia Astaroth. Como foi este processo?

Larissa Anzoategui: São dois os responsáveis pela concepção da demônia: Daniel Shaman, designer. Ele criou a imagem da nossa Astaroth, fez os desenhos, a concepção final. Quem deu vida a essas ideias foi o Fritz Hyde. Os dois já tinham trabalhado com a gente no Red Hookers. Na hora de gravar mudamos um detalhe: a demônia teria um rabo, mas não ficou funcionou muito bem e aí desistimos dessa ideia.

Fritz & Criatura

Baiestorf: Outro destaque é a trilha sonora. Achei a escolha das bandas bastante interessante, principalmente porque reforçaram em muito o climão de Heavy Metal and Horror anos 80. Apresente as bandas da trilha e seus contatos.

Larissa Anzoategui: Vou começar com as bandas locais (Campo Grande –MS):

Hollywood Cowboys –Este ano estão comemorando 10 anos de formação, tocam hard rock. Começaram com covers e depois passaram a apresentar composições próprias. Em 2014 abriram o show do ex-vocalista do Iron Maiden, BlazeBailey.

https://www.facebook.com/HollywoodCowboysOfficial/

Labore Lunae – Atualmente estão dando um tempo, mas, se procurar no YouTube, tem vários vídeos da banda. Foram mais ou menos 15 anos se dedicando ao death/doom. Também começaram com covers e logo passaram a compor as músicas do repertório. Chegaram a gravar um álbum que está disponível online neste link: https://www.youtube.com/watch?v=bViNRxEL0SQ&t=630s

https://www.facebook.com/LaboreLunae/

Shadows Legacy: Fundada em 2016, a proposta do caras é tocar heavy metal tradicional. Também abriram para o Blaze Bailey, inclusive o vocalista faz participação em uma das faixas do disco  “You’re Going Straight To Hell”. Este mês lançam o segundo álbum chamado “Lost Humanity”. Gravamos já três videoclipes para eles.

https://www.facebook.com/shadowslegacy/

http://www.metalmedia.com.br/shadowslegacy/index.php

A trilha original foi composta pelo Aldo Carmine, um cara genial e muito sensível para criar o clima que o filme pedia. Ele é um grande fã de metal, inclusive teve várias bandas, mas compõe em qualquer estilo. Digo isso porque já escutei outras trilhas em que ele trabalhou.

Contato do Aldo: https://www.facebook.com/anubishomestudio/

Outra banda que colaborou com a trilha sonora foi o Disorder of Rage, de death/thrash. Com 18 anos de existência, a banda tem ep, cd e colaborações nas trilhas de outros filmes independentes como Era dos Mortos e Vadias do Sexo Sangrento.

https://disorderofrage.bandcamp.com/

https://www.facebook.com/disorderofrage/

Destaco também a inglesa Demon, banda clássica ainda em atividade com verdadeiro espírito underground. Formada em 1979, é um dos maiores nomes da New Wave of British Heavy Metal.

http://the-demon.com/

https://www.facebook.com/DemonBandOfficial/

Filmando Astaroth

Baiestorf: Também gostei muito do trabalho de som do filme. Gostaria de acrescentar algo sobre a captação, edição de som e efeitos sonoros de Astaroth?

Larissa Anzoategui: Muitas pessoas captaram o som nas gravações. Em torno de 5 pessoas diferentes, até o Batata (Renato) entrou nessa. Mas os dois principais responsáveis foram o Fábio Moreira de Carvalho e o Leonardo Copetti. A tarefa de costurar tudo, mixar e criar os efeitos sonoros ficaram também para o Leo. Maior trabalheira! Ele criou sons cortando/esmagando frutas e legumes, entre outros truques. Pensou em cada detalhe. Eu tinha uma lista de sons que estavam faltando e ele conseguiu “enxergar” vários outros.

Filmando Astaroth

Baiestorf: Quero histórias de bastidores:

Larissa Anzoategui: As gravações aconteceram em Sampa e em Campo Grande (MS), então ou eu e Ramiro íamos até São Paulo, ou o povo vinha em peso pra cá. Todas as gravações aconteceram em finais de semana espalhados, e muitos imprevistos aconteceram. O roteiro foi sendo adaptado para resolver tudo o que acontecia entre uma gravação e outra. Mas foi tudo bastante divertido, no final das contas, e todos saíram bastante satisfeitos com a experiência.

Equipe de Astaroth

Baiestorf: Como está sendo a carreira do filme por festivais e mostras?

Larissa Anzoategui: Está rolando. Até agora o filme foi selecionado, entre mostras e festivais, para ser exibido em 10 eventos, quatro deles internacionais.

Baiestorf: Fora do Brasil existe uma cena muito boa, e que valoriza as produções, para os SOVs de Horror. Como está sendo a divulgação/distribuição de seu filme fora do Brasil?

Larissa Anzoategui: Festivais e agora lançamos tanto o Astaroth quanto os outros filmes no VOD do Vimeo (https://vimeo.com/user14899326/vod_pages). O retorno está vindo de fora, a maioria do pessoal que aluga é dos Estados Unidos, Noruega e Alemanha. Os caras assistem um filme e já vão alugando os outros. Acho que é um bom sinal.

Larissa Anzoategui

Baiestorf: Preciso destacar a ótima edição em DVD de Astaroth. Quando recebi minha cópia fiquei bastante empolgado, pois é bom demais ter o filme em mídia física na coleção. Diga como foi elaborada essa edição e, também, como os leitores do Canibuk podem comprá-lo para suas coleções.

Larissa Anzoategui: A parte mais difícil na produção do DVD foi encontrar um lugar que fizesse as cópias no tal esquema prensado. Tive dor de cabeça com algumas cópias do Red Hookers que foi apenas duplicado, em um lugar profissional e tudo o mais, mesmo assim deu problema. Enfim, além de exigir que fossem DVDs prensados e dual layer para que todo o material ficasse bonitão na tela, também corremos atrás de um designer (parceiro costumeiro Daniel Shaman/Bermudas estúdio) para criar a arte da capa, da bolacha e dos menus. Falando assim, até parece que foi tudo fácil, mas demorou vários meses. Depois de ter a arte pronta, ter achado uma empresa que iria fazer as cópias, tive um perrengue com o programa de edição, não conseguia exportar um arquivo decente, no formato para DVD. Enfim, quem salvou minha vida foi uma mina que também trabalha com audiovisual aqui de Campo Grande, a Catia Santos. Obrigada, Catia!

Para adquirir o DVD: https://astarothproducoes.com.br/pt/loja/dvds/dvd-astaroth/

Caso o frete assuste (estou pesquisando um meio de adicionar uma opção mais viável) pode entrar em contato comigo e comprar por depósito bancário. Consigo enviar com um frete mais camarada. E-mail: larissa.anzo@gmail.com

Um dos demônios de Astaroth

Baiestorf: Como está a produção/edição de seu novo filme, Domina Nocturna?Pode contar um pouco dos bastidores e previsão de lançamento?

Larissa Anzoategui: Tem um primeiro corte e muitos detalhes para mexer ainda. Era para ser um curta chamado Pallidus Domina. Chamamos um amigo (Joni Lima) para montar o cenário na sala de casa, que ficou tão legal que inspirou o Ramiro a escrever outras três histórias. Quando a gente viu o projeto de curtinha virou um longa de antologia e até eu acabei atuando. Esse filme tem um clima expressionista, não há diálogos, a ação fica por conta da expressão corporal e do som (trilha, efeitos sonoros). Não vejo a hora de vê-lo finalizado, o que provavelmente  vai acontecer em algum mês de 2021.

Monica sendo transformada em Astaroth

Baiestorf: Projetos?

Larissa Anzoategui: Além do Domina Nocturna, temos outros filmes em pós-produção. No começo deste ano rolou um acampamento produtivo aqui em casa. Formamos uma equipe com pessoas daqui, de São Paulo, do Rio e de Brasília. A maioria era o pessoal que trabalhou no Astaroth, a novidade no elenco foi a multi talentosa Larissa Maxine. Em duas semanas gravamos um longa e quatro curtas. Um dos curtas está finalizado rodando os festivais: A Janela da Outra. Pretendo lançar mais um dos curtas ano que vem e o longa Abissal, em 2020. Outro projeto é lançar um DVD com os curtas: Limerence, Red Hookers e A Janela da Outra.

Ninja Girl

Baiestorf: Seus filmes são produções independentes, sem uso de dinheiro público. Como você vê as políticas para a cultura brasileira, que irão aniquilar a produção, anunciadas pelo novo governo que deverá assumir o país em 2019?

Larissa Anzoategui: Estou preocupada com os rumos que a arte e a cultura podem tomar.Talvez este governo venha ser o ápice da atitude conservadora que a gente viu aparecer no Queermuseu. Soma-se a isso a perspectiva de acabar com os fomentos e a possibilidade de censura. Boom! Será que vai tudo pelos ares? Eu sei que muita gente produz com a grana de editais, o que está certo. É um trabalho danado fazer uma produção artística! Fico revoltada com pessoas que chamam artista de vagabundo. Mas acho que a gente vai ter que dar nossos pulos para não deixar a produção morrer. Vai ter que ser produção como uma forma de resistência.

Astaroth

Baiestorf: Você é diretora de filmes de horror. Ou seja, mulher e aborda assuntos considerados satânicos pelos evangélicos. Está sofrendo algum tipo de preconceito com sua obra?

Larissa Anzoategui: Às vezes os jornais locais fazem uma nota, ou matéria sobre os filmes da Astaroth Produções. Em uma dessas, li uns comentários bem de fanático religioso, dizendo que o filme é do capeta, que só Jesus salva. Eu nem me senti ofendida, dei risada. Só que no fundo dá um certo desespero constatar a falta de conhecimento das pessoas. Parece que a Idade Média permanece. Os líderes religiosos se aproveitam dessa falta de conhecimento, ao invés de mostrar as possibilidades de interpretação da bíblia, falam só do que acham que é o certo ou do que querem convencer seus seguidores. Eu sou cristã, mas não vou em igreja nenhuma, não dá, não bate minhas ideias. Só pra começar: faz muito sentido pra mim as pessoas escolherem ser ateias. Acho que desviei o assunto… Quanto ao machismo, provavelmente tem gente que acha algum defeito nos filmes ou julgam qualquer certa incapacidade por eu ser mulher. Nunca vieram me falar nada, só que eu não duvido. O mundo é machista e ponto.O que já aconteceu foi outra mulher dizer que meu filme, no caso, o Red Hookers, é machista. Já falaram que meu olhar ali é masculino por sexualizar as mulheres. Sei lá, não posso colocar a arte em uma caixinha e dizer: – Não, esse filme é isso e só!- as pessoas trazem as reflexões e vivências delas. Mas posso me defender. Minhas influências cinematográficas são cheias de peitos femininos e eu considero o corpo da mulher algo muito poderoso, um poder que vai além dessa ideia de só objetificação. Confesso que esses comentários sobre o Red Hookers me fizeram ficar pensando nessa questão do nu e filmes de terror. Tanto que agora estou desenvolvendo uma pesquisa num programa de mestrado sobre o assunto.

Larissa conferindo a fotografia

Baiestorf: Obrigado pela entrevista Larissa e, também, por ter feito um filme tão divertido. O Espaço é seu para considerações finais:

Larissa Anzoategui: Eu que agradeço a oportunidade! Agradeço pelo apoio desde que fiz aquela bagaceira de Zumbis do Espaço de Lá. Vou deixar aqui alguns links para quem quiser saber mais sobre a Astaroth Produções, como o endereço do nosso site. Lá tem informações sobre os filmes, ensaios fotográficos lindíssimos e produtos à venda para a gente pegar essa grana e transformar em novos filmes.

https://www.facebook.com/astarothprod/

https://astarothproducoes.com.br

Invoque Astaroth

Carniça & Lama: Uma Entrevista com Rodrigo Ramos

Posted in Entrevista, Quadrinhos, revistas independentes brasileiras with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on novembro 1, 2018 by canibuk

Rodrigo Ramos é designer, especializado em Marketing Farmacêutico. Em 2016 lançou, seu primeiro livro, Medo de Palhaço, pela Generale, junto de outros membros do Boca do Inferno, o maior portal da América Latina sobre o gênero fantástico, onde atuou como responsável pela sessão de quadrinhos entre 2010 e 2017.

Em 2017 estreou na ficção com o conto Penitência para a antologia Narrativas do Medo, pela editora Autografias, e participou da antologia digital Assombrada BR com o conto Coulromania. No mesmo ano, roteirizou Carniça, sua primeira HQ, produzida ao lado do artista Marcel Bartholo. Em 2018 publicou o conto Clarice no segundo volume da antologia Narrativas do Medo, publicado pela Copa Books.

Atualmente atua como crítico e articulista para os sites 101 Horror Movies e Terra Zero, e prepara sua segunda HQ, Lama, ao lado de Marcel Bartholo.

Fonte: Guia dos Quadrinhos.
Segue uma entrevista que realizei com Rodrigo sobre seus lançamentos, projetos e rumos futuros do mercado independente brasileiro.

Petter Baiestorf: Como foi a recepção ao Carniça? Onde comprá-lo?

Rodrigo Ramos: Por ser meu primeiro trabalho como roteirista de histórias em quadrinhos, fiquei realmente satisfeito com a recepção. Todas as críticas que recebemos foram, em sua grande maioria, bastante positivas. Alguns pontos de melhoria foram apontados aqui e ali e concordamos com todos eles. Quando você trabalha tanto tempo como crítico de quadrinhos e parte para produzir o seu, você tem que estar preparado para os comentários que vão fazer sobre sua obra. Felizmente os comentários foram ótimos! Principalmente aqueles que entendem a obra de uma maneira totalmente diferente daquela que você imaginou. É muito legal ver o seu trabalho ganhando vida própria através da interpretação dos leitores. Quem quiser adquirir a sua cópia autografada pelo correio, pode entrar em contato através da nossa página no Facebook (@CarnicaHQ), ou fisicamente nas lojas Monstra, Ugra, CoffinFangStore e Quinta Capa.

Baiestorf: Lama é seu segundo trabalho com quadrinhos, novamente em parceria com Marcel. Como está sendo essa parceria?

Rodrigo Ramos: O Marcel é um monstro. O cara desenha como poucos e numa velocidade absurda. Quem o acompanha pelo Facebook sabe. Toda hora ele está fazendo um projeto novo, sem parar! Além disso rolou uma sintonia muito boa. Nossas mentes pensam de maneira criativa muito parecida e isso é ótimo quando você está trabalhando num projeto em dupla. Quase todas as ideias que temos são aceitas, um pelo outro, de imediato. São poucas as coisas que conversamos para ajeitar e chegar a um consenso. Eu não poderia ter parceiro melhor.

Baiestorf: Como está a distribuição destes trabalhos? Como acompanhar?

Rodrigo Ramos: Basicamente estamos fazendo o circuito independente de feiras e eventos de quadrinhos. Temos alguns exemplares em uma ou outra loja parceira, mas basicamente estamos fazendo a maior parte da venda e distribuição do nosso trabalho. Com esta recente crise no mercado editorial, tive algumas experiências que não se deram da melhor maneira, então abraçamos de vez o mercado independente. E estamos satisfeitos. Das 500 edições impressas de Carniça, já vendemos quase tudo, talvez se esgotando na ComicCon no final do ano. Mas pra quem quer acompanhar o nosso trabalho, é só nos seguir nas redes sociais. Sempre postamos novidades quanto aos nossos projetos e vamos dizendo onde estaremos nos próximos eventos para a galera aparecer, trocar uma ideia e conhecer nossos quadrinhos.

Capa de Lama

Baiestorf: O rompimento da barragem em Mariana foi a inspiração para Lama? Fale sobre o que te levou a escrever Lama, que é um assunto extremamente relevante.

Rodrigo Ramos: A ideia inicial de lama surgiu como um conto sobre um agricultor que encontra um monstro na sua horta. Sempre fui fã de croatiras como o Gill-man ou Monstro do Pântano, inclusive você me deu várias recomendações no Facebook sobre filmes do gênero, e queria escrever uma história com uma criatura destas, mas totalmente nacional. Durante minhas pesquisas, encontrei as lendas sobre o ipupiara, e era exatamente o que eu procurava. Bolando o background do conto, o desastre de Mariana era o cenário perfeito, já que estes monstros na ficção geralmente aparecem devido a algum desequilíbrio ambiental. Mas aí a história já estava grande demais pra continuar como um conto e apresentei a ideia pro Marcel. O cenário aqui não é exatamente Mariana, apesar das referências serem claras, mas também trouxe um pouco do cenário polarizado da nossa política pra história. Tem muita coisa da insatisfação com o que está acontecendo pelo país há algum tempo, mas ao invés de eleger um maluco, prefiro transformar essa insatisfação em arte. Mas não é um material panfletário. As ideias ficam no subtexto, nas entrelinhas, assim como os zumbis de Romero, apesar de eu não merecer a comparação. Carniça é uma releitura de Edgar Allan Poe passada no Brasil com uma forte pegada de Body-Horror e folclore, Lama é um conto lovecraftiano sobre forças da natureza ancestrais que habitam os rios brasileiros. São histórias de horror passadas no Brasil e isso reflete nosso contexto histórico como toda história já produzida pela humanidade.

Página de divulgação de Lama

Baiestorf: Você tem escrito alguns contos também, como nas antologias Narrativas do Medo Vol. 1 e 2. E também escreve sobre cinema. Literatura, quadrinhos e cinema, o que te atraí nessas artes?

Rodrigo Ramos: Eu cresci no interior de São Paulo cercado de causos que meus avós e meus tios contavam. Sempre que o verão chegava, ficávamos na varanda da casa da minha avó até tarde contando e ouvindo histórias do passado. E nessas histórias não faltavam fantasmas, lobisomens, demônios, saci, mula-sem-cabeça e toda a sorte de criaturas infernais folclóricas. Foi ali que comecei a tomar gosto por histórias de terror. Então descobri o cinema de horror e encontrei uma espécie de extensão daqueles contos que minha família contava, passei pra literatura e só depois de algum tempo, quando descobri o Monstro do Pântano do Alan Moore, pros quadrinhos. E como todo mundo que gosta muito de alguma coisa, queremos falar sobre isso o tempo todo, foi assim que acabei escrevendo artigos e críticas sobre obras do gênero, até surgir a oportunidade de produzir minha própria ficção. O horror possui muito do espírito contestador e do faça você mesmo do punk rock, e isso sempre me fascinou. Acho que o horror é muito passional, quem gosta de histórias de terror é um viciado. Talvez pela adrenalina, talvez pelo gostinho que o gênero nos dá de um mundo fantástico, sobrenatural, muito diferente desse mundo chato e perigoso em que vivemos.

Baiestorf: No site 101 Horror Movies você tem publicado alguns textos mais politizados, como um sobre a censura no gênero horror. Como tem sido a repercussão? Dá medo os rumos que nosso país tem tomado, muito em virtude de sua falta de memória coletiva, ignorância de sua história recente?

Rodrigo Ramos: O 101 Horror Movies é uma das minhas maiores alegrias dentro do gênero do horror. Desde que entrei pra equipe do site no começo do ano, sempre conversamos bastante sobre as coisas que acontecem ao nosso redor. Sobre como o mundo tá se tornando cada vez mais esquisito e como essa sensação tem gerado filmes incríveis. Nossa posição política é muito alinhada e isso sempre transparece em nossas críticas. Mas de uns tempos pra cá, quase sempre aparece alguém pra falar “nada a ver misturar política com isso ou aquilo” e isso está bem longe da verdade. O horror é talvez ao lado da ficção científica, o gênero mais político de todos. Por isso ele é tão perseguido e menosprezado. O horror tá aí desde sempre questionando o status quo, a igreja, a violência e o sistema. Romero, Carpenter, Craven… Todos eles sempre falaram muito de política em suas obras e ver uma galera nova que não entende ou não enxerga essa proximidade, reduzindo o valor do gênero a jumpscares e efeitos especiais gráficos é algo que não poderia deixar passar em branco. Daí surgiu uma trilogia de textos sobre horror e política, que, felizmente teve uma ótima repercussão. Sempre tem o maluco do meme e da hashtag que não sabe debater que vem, posta uma bobagem e some, mas no geral nossos leitores gostaram bastante e até agradecem por nos posicionarmos e nos juntarmos à luta. Algumas pessoas do meio que respeito muito também curtiram e compartilharam os textos e essas coisas deram um gás pra suportar o peso dessa eleição por saber que estamos do lado certo. O futuro do país é incerto e bastante perigoso se lermos todos os sinais e seu contexto, pelo menos nós que não somos adeptos do revisionismo histórico, do negacionismo ou das correntes de Whatsapp, mas o horror vai estar sempre aí para criticar e apontar o dedo na cara da sociedade. E a internet e os meios de auto publicação só vieram para reforçar este aspecto punk rock do horror. Se for censurado na sua editora, publique online, jogue seu curta no Youtube, mas faça sua voz ser ouvida. Não deixem suas ideias morrerem na gaveta por medo de um governo totalitário e religioso. Precisaremos do horror como nunca, daqui pra frente.

Página de divulgação de Lama

Baiestorf: Como é escrever num país que não lê?

Rodrigo Ramos: Pior do que escrever num país que não lê, é escrever no país do jeitinho. Escrever é algo que todo mundo sabe onde vai dar. Acho difícil alguém, hoje em dia, que comece nesse meio para ficar rico ou se tornar uma celebridade. As chances beiram ao zero. Mas mesmo quando você encontra alguém que aposta no seu trabalho e faz com que suas obras cheguem ao mercado, sempre vai ter alguém que vai querer ler de graça, vai pedir link pra download, vai piratear seu trabalho… Sem falar nas livrarias que estão postergando pagamentos às editoras que postergam os pagamentos dos escritores… No fundo eu acho que as pessoas estão lendo bastante hoje em dia, ainda que menos do que gostaríamos, mas tem muita coisa sendo publicada por aqui que eu nunca imaginei que veria em uma livraria. O problema é que o horror é um nicho, e o horror independente mais nicho ainda. A dificuldade é chegar nas massas e cativar um público maior.

Página de divulgação de Lama

Baiestorf: Gostaria de saber se você tem se mantido positivo em relação ao futuro do Brasil?

Rodrigo Ramos: Eu sou um pessimista por natureza. Pelo menos não acredito nessa realização apoteótica que todo mundo espera que surja na figura de um “messias” para salvar o Brasil de “tudo isso que tá aí”. Infelizmente o sistema vigente não permite que você resolva o problema de todo mundo, não sem ferir os interesses de uns de ou outros. Ou você atende a maioria, ou a minoria. Não há consenso. E se não há consenso, não há solução. Eu sempre vou estar do lado da maioria, mas enquanto a minoria estiver no comando, vai ser difícil ter alguma vitória sem antes derrubar o sistema. Como vamos fazer isso? Não faço ideia. Mas faço histórias onde tento revelar essas figuras abjetas para o maior número de pessoas possível.

Baiestorf: A arte como forma de resistência?

Rodrigo Ramos: A arte é a última trincheira na resistência contra o sistema. As pessoas não respeitam mais o professor, a religião segue interesses escusos… Então resta à arte o papel de abrir os olhos da população. Por isso a onda conservadora insiste em atacar e diminuir o que eles não consideram arte. Se você produz algo que as pessoas apreciam e colocar alguma mensagem nisso, essas pessoas vão receber essa mensagem. Se elas te respeitam como artista, talvez respeitem o que você diz, já que nem os livros de história e ciência respeitam mais.

Carniça

Baiestorf: Livros, quadrinhos e filmes que você indica para os jovens que gostariam de saber mais sobre nossa história?

Rodrigo Ramos: Por mais absurdo que isso seja, hoje em dia eu acho que a ficção pode surtir um efeito muito mais impactante na galera do que os livros de história, já que tem quem não acredite mais neles. Então de cara vou indicar um dos meus livros preferidos de todos os tempos, 1984 de George Orwell, bem como A Revolução dos Bichos, do mesmo autor; Farenheit 451 do Ray Bradbury; Nos quadrinhos Maus do Art Spiegleman; Ditadura No Ar, de Raphael Fernandes e Rafael Vasconcelos; V de Vingança, de Alan Moore e David Loyd; Teocrasília do Denis Mello; Deus Ama, O Homem Mata de Chris Claremont e Brent Anderson, Surfista Prateado – Parábola, de Stan Lee e Moebius; na TV e cinema, Além da Imaginação, a série clássica, Star Wars, Matrix, O Senhor dos Anéis… Todas essas obras de ficção possuem raízes fortíssimas na nossa história recente e servem de alerta para não repetirmos os mesmos erros.

Carniça

Baiestorf: Obrigado Rodrigo, suas considerações finais:

Rodrigo Ramos: Muito obrigado pelo espaço, espero mesmo que não tenha ficado parecendo um comício, mas eu realmente acredito que toda oportunidade que temos para falar algo sobre aquilo em que acreditamos, temos que aproveitar. Se você não pode falar em público as coisas em que acredita, ou tem algo muito errado com o entorno, ou com o que você acredita. Sigam a gente nas redes sociais onde estamos postando todo o processo de produção de Lama, que aliás fica pronta em breve e será lançado oficialmente na CCXP 2018. Passem lá na mesa G37 no Artist’sAlley para gente bater um papo! Vai ser um prazer.

Fascismo Verde Amarelo: O Mito do Silva

Posted in Cinema, Entrevista, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 26, 2018 by canibuk

Conheci o Fabiano Soares quando ministrei uma oficina de vídeo no Rio de Janeiro em 2012, parte da programação da Mostra do Filme Livre. Juntos bolamos o curta Perdigotos da Discórdia, que envolvia necrofilia e outras peripécias cremosas, como sexo pervertido com membros de plástico realistas que acabaram dando problemas com o Banco do Brasil, patrocinador da Mostra naquele ano. Tivemos que explicar um boquete que Gurcius fazia explicitamente no tal pinto de plástico que fazia as vezes do membro pulsante de Pablo Pablo. Logo em seguida ele dirigiu o ótimo curta O Terno do Zé, com integrantes da banda Gangrena Gasosa e o Carlo Mossy no elenco, e, também, foi diretor de segunda unidade do longa Desagradável, do diretor Fernando Rick. Depois dirigiu A Revolta do Boêmio, vídeo clip para a banda Uzômi, com Angelo Arede e Gurcius Gewdner nas personagens principais. Agora em 2018, ano literalmente tenebroso na vida política do Brasil, Fabiano retorna com O Mito do Silva, curta que sintetiza de maneira quase didática – e brutal – o que está rolando no país do Pau Brasil.

Segue uma entrevista com ele sobre O Mito do Silva e suas observações sobre este conturbado momento em que o povo brasileiro se entocou. E, também, link para assistir o primeiro corte de O Mito do Silva e sua filmografia completa:

Petter Baiestorf: O Mito do Silva é um retrato do Brasil atual, como foram as filmagens do curta, da concepção do roteiro até as filmagens? Alguma história curiosa das gravações?

Fabiano Soares: Eu tinha escrito em 2016 um texto sobre o assunto, o “Mito”, utilizando como base um político que tava se destacando pelas merdas que falava, mas que, naquele ano, parecia bastante exagerada a ideia de o cara se candidatar a presidente. Então, partindo desse prenúncio de distopia, eu convidei o cineasta Marcos Lamoreux, daqui do Rio, para me ajudar a transformar em roteiro, acrescentando ou retirando trechos que ele achasse necessários. O Marcos é um amigo, ativista, negro, artista em diversas áreas, e topou. Nessa transformação do texto em roteiro, além das transformações estruturais, recebi algumas aulas dele, desde pequenas mudanças lingüísticas para não ofender sem querer, a origens de palavras como “linchar”, que acabaram dando um conceito mais forte ao filme. Então um cara, o Marcelo Paes, que me deu aula, decidiu entrar como produtor cedendo a câmera e alguns acessórios, além de dar uma ajuda na parte de produção.

Nossa bandeira jamais será vermelha.

Como eu faço um cinema com amigos, alguns velhos amigos se juntaram em suas áreas, e foi assim que o Thor Weglinski veio ajudar na produção e na assistência de direção; o Caio Cesar Loures topou fazer o som direto; o Gabriel P. Almeida fez a arte; e o Ricardo Schmidt, a fotografia. Tudo gente que quem já viu algum filme meu, já conhece de créditos. Chamei a Fany Coelho, uma maquiadora de gore fodona daqui, que abraçou a ideia; e o Marcos Lamoreux foi essencial também para conseguir os figurantes. E teve o Juan, que deu uma ajuda no set quando pôde. Sem essa galera aí, eu estaria fodido, porque fiz mais um filme sem dinheiro, só convidando as pessoas e tentando mostrar o roteiro, pra ver se topavam; e porque a Luciana estava trabalhando na época, o Edgar com 5 meses quando eu comecei esse processo de roteirização, e achei que conseguiria facilmente cuidar dele, decupar o roteiro, ensaiar com atores, ter reuniões de equipe, e finalizar um livro que estou escrevendo, só porque eu estava de férias. Eu mal conseguia cagar sem ficar pensando nas minhas responsabilidades de pai, e tinha só a partir das dez da noite para resolver tudo em relação ao curta. A Luciana, a namorada com quem casei e tive um filho (porque acho brega escrever “esposa” ou “minha mulher”), aliás, não pôde participar tanto desse curta diretamente, mas o fez cuidando do Edgar quando chegava em casa, permitindo que me dedicasse ao curta nesses momentos, e fazendo a comida pra batalhão na diária que teria, segundo minhas contas, 40 pessoas. Ah, e sempre, mesmo torcendo o nariz para algumas ideias minhas, meus pais dão uma força: figuração, transporte, comida. Uma observação: sempre rola uma opção vegana de comida, geralmente uma caponata de berinjela feita pela minha mãe, já que tem uma galera vegana / vegetariana entre esse pessoal que topa participar dessas coisas que eu invento.

O Mito em sala de aula

Para escolher o ator, procurei um ator amador, amigo meu, o Moisés, cuja primeira pergunta que fiz foi: “O que você acha do “político X” (o Brandão do filme)?” Quando ele respondeu, dizendo que não estava entendendo morador de favela apoiando esse cara, decidi que seria ele. O Marcelo foi arrumar o cara pra fazer o político, e a primeira opção dele, um ator com visual meio milico, declinou por um motivo óbvio: ele era eleitor do cara. Segundo o Marcelo, foi a primeira vez que ele achava alguém do círculo de contatos dele demonstrando apoio ao cara, foi quando ele viu que aquela piada ruim poderia ser mais assustadora do que era. Estávamos em junho de 2018. E contei mais uma vez com a participação do ex-galã da Globo, agora doutor em filosofia e ator de produções menos ostentatórias, Marc Franken, um cara gente boníssima!

Cara, filme independente sempre tem perrengue, e esse não foi diferente. O drone, que tinha uma utilização estética para simular celular gravando de um prédio, zicou e ficamos sem. Os 30 figurantes que confirmaram para a cena de agressão ao Silva, só apareceram uns 10, 12; pessoal no Rio é daqueles “Vamos marcar, borá!”, e furam. Aí entraram meus pais, o namorado da Fany, quem estava de bobeira no set virou figurante. E muita gente parava para perguntar o que estava acontecendo, achando ser real o Moisés ensanguentado. Além dos contratempos de chuva, intervenção federal, que atrapalharam bastante o cronograma, teve também as desistências de equipe e figurantes no último segundo, que rolou bastante, mas nada que abalasse o andar da carruagem, só desesperava um pouquinho, até conseguir dar um jeito.

Figurantes

Ah, e de última hora, o Leo Miguel, que fez assistência de direção no dia mais complicado, a externa da agressão, ficou enrolado pra fazer a edição do filme, e aí outro Leo, o Miranda, que editou já muita coisa minha, assumiu o posto. E nisso, uma coincidência que achei doida demais: no primeiro corte, o Leo botou uma música clássica. Eu estava lendo O Selvagem da Ópera, do Rubem Fonseca, que fala sobre a vida do Carlos Gomes, e é uma base de roteiro para um filme sobre o maestro e compositor brasileiro, que enfrentou uns casos de racismo na Itália por ser negro e brasileiro. Quando ouvi a música – eu não conheço muito de música clássica, embora ouça muito no trabalho, não é algo que eu grave ou escute em casa –, perguntei “É Carlos Gomes?”, e o Leo me disse que não. Fiquei pensando “Que idiotice, só porque eu tô lendo um livro sobre o cara, tudo o que é música clássica vou achar que é ele…”; aí quando terminamos de ver o corte, a música, que ele tinha pego aleatoriamente no catálogo do Domínio Público, ele viu “Ah, é sim, Antônio Carlos Gomes!”. Achei bizarra a coincidência, e disse ao meu ceticismo: “É um sinal!” Melhor ouvir o universo e ficar com a trilha de Carlos Gomes! Lógico que o fato de não ter ninguém para compor uma trilha sonora em dois dias, de graça, ajuda bastante…

Baiestorf: Achei ele bem ilustrativo para aqueles que se negam em enxergar o que está acontecendo no país. Foi opcional essa narrativa tão didática? Porque?

Fabiano Soares: Pô, eu acho que eu faço sempre um cinema por diversão, é bem quadrado na estética, eu gasto minha piração com o texto. Eu não sou cineasta, né? Eu faço uns filmes, é diferente; é como se eu fosse um cara que faz paródias subversivas de uma novela mexicana, mas não falando de paixões desencontradas, mas de filhadaputice humana. Acho que meus filmes são tudo sobre o pior lado do ser humano, mostrar que deu tudo errado. Mas a didática não tem nada a ver com isso, é só de talvez eu ser um roteirista que quer ver aquela merda numa tela, e como ninguém em sã consciência vai querer fazer isso, acabo fazendo. Aí não tenho aquela intimidade com a linguagem cinematográfica a ponto de saber subverter e dar certo. Aí eu faço o meu feijãozinho com arroz, batata frita e bife, e taco um pouquinho de sangue pra dar um gosto. O foda é que eu gosto muito de uns filmes mais doidos, que brincam mais com a linguagem, mas não consigo fazer. Deve ser medo de entropia, do público comum não pescar sobre o que eu estou falando. Acho que me preocupo muito em explicar didaticamente pro público.  Vou tentar pensar mais nesse assunto.

Fabiano e Moisés em O Mito do Silva

Baiestorf: Alguma observação sobre os eleitores do “mito” Brandão? Sobre essa “cegueira” coletiva (ou mau caratismo mesmo)?

Fabiano Soares: Cara, andando na Uruguaiana, um mercado popular no centro do Rio, vi muito camelô vendendo camisas do cara que inspirou o personagem, vendido como o salvador da pátria, e só fiquei pensando: esse cara não entendeu que ele vai se foder com o discurso de ódio. Que ele é visto pela elite como um vagabundo, trambiqueiro, e no que puderem usar de força bruta contra eles, usarão. Será que vale esse lucro? É como se, na atual conjuntura, eu topasse fazer um vídeo para um político evangélico, que eu sei que vai foder com qualquer possibilidade de uso correto da máquina pública, que já é uma merda. Poderia ganhar um dinheiro, adiantar o meu lado, da maneira mais egoísta possível.

E cara, eu tô realmente ficando mal com esse assunto. Você precisa explicar o óbvio, e após toda uma didática infantil, bem explicadinha, na falta de argumentos, os cegos só mandam memes e “fora PT”. Mas eu nem tô falando do PT, ô caralha! E tem muita gente cega mesmo, que não foi criada para pensar, mas para reproduzir discursos, que acaba indo na onda. Mas óbvio que sempre existe aquele mau-caráter, que esperou na moita o momento em que poderia falar abertamente sobre seus preconceitos e incentivá-los, porque agora naturalizou-se isso, passou a ser apenas um ponto de vista, que deve ser respeitado. Porra, intolerância não é aceitável, e  não podemos ser tolerantes com intolerantes, sem medo de parecer incoerentes. Essa naturalização do machismo, da homofobia, do racismo, vindo de gente que deveria representar o povo, é assustadora. Fazendo uma analogia idiota, é como a música de um churrasco com gente dos mais diferentes gostos musicais: o cidadão pode chegar e colocar, sem medo ou vergonha, Maiara e Maraísa (e realmente pode, um espaço democrático em geral), outro coloca Molejo, outro entra no Melhor do Axé, e depois de você ouvir isso tudo, você decide colocar um som que você gosta, um Black Sabbath (para citar um exemplo até mainstream): será repreendido, porque naturalizou-se a ideia de que só pode tocar música “que todos vão gostar” – só esquecem que nem todos gostam das outras músicas. A mesma lógica vale para os assuntos cotidianos. A pessoa acha que pode puxar um papo com você falando sobre não gostar de “ver viado andando junto”, sem nem saber seu pensamento sobre isso, porque naturalizou-se o “ninguém gosta de homossexual, até tolera, mas não gosta”. Esquecem que os gays que gostam de andar juntos fazem parte da sociedade. E assim vão tentando excluir cada vez mais o que os incomoda, chamando de minorias, através da supressão da fala, impondo a opinião preconceituosa como se fosse o pensamento comum. E esse discurso vai sendo naturalizado pelo cidadão comum, que nem é mau-caráter, mas reproduz isso. É a favor de morte para bandido, mas esquece do filho que vende droga, do irmão que instala gato de luz, da vez em que subornou um guarda, etc.

Cidadão de Bens

Baiestorf: Você produziu o curta no RJ, que já é uma cidade que vive sob uma ditadura evangélica radical. Você pode falar sobre as transformações da vida cultural carioca nos últimos anos.

Fabiano Soares: Cara, a vida cultural sobrevive em pontos de resistência, centros culturais independentes de verbas do município. Aqui tem muita gente, muito grupo agitando suas correrias, então não tem do que reclamar. Mas do ponto de vista político… Bom, eu estou realmente preocupado com essas eleições presidenciais. Você vem lembrar do pastor que é prefeito do Rio. Bom, eu sou a favor de acabar com essa merda de misturar política e religião. Não dá certo. Você acredita em Deus, foda-se, vai pra porra da igreja e converse com seus amiguinhos, todo mundo com o mesmo amigo imaginário, e sejam felizes! Eu não me importo com a religião das pessoas, desde que não queiram fazer leis que têm como base crenças religiosas. Vou voltar a falar da merda da naturalização: pessoal acha normal falar “vai com Deus”, mas fica abismado se receber de volta um “Satã te ilumine”, “fica com Exu”. Então vai pra puta que o pariu com a sua crença se você não aceita a do outro. E essa contaminação evangélica que tem acontecido não só no Rio, como no Brasil, busca cada vez mais reger a vida de todos tomando como natural os ensinamentos cristãos, “porque a maioria pensa assim”. Eu já estou me preparando para comprar muita briga com professor acéfalo que for passar doutrina religiosa pro meu filho em escola. Uma coisa é ensino religioso, onde você vai falar da diversidade religiosa no mundo; outra é falar que uma religião é a certa, que deve-se seguir isso ou aquilo. E falei porra nenhuma da vida cultural no Rio. Cara, tem vida cultural, deve estar escoando muito dinheiro da prefeitura para igrejas, pecinha de igreja deve estar recebendo milhões, patrocinada pelo pastor do Rio, o prefeito da Universal, Crivella. Mantendo-se longe disso, tem uma galera boa movimentando arte de verdade. Tá, julgamento de valor meu, mas foda-se. Arte que questiona algo.

Fany maquiando em O Mito do Silva

Baiestorf: A personagem principal é um negro seduzido pelo discurso de “bandido bom é bandido morto”, quais suas observações sobre isso?

Fabiano Soares: Algumas pessoas não estão entendendo o que está acontecendo, esqueceram chacinas, apagaram da memória casos recentes de racismo. E é apenas para exemplificar: poderia ser misoginia, homofobia. Pessoas que são naturalmente privilegiadas apoiarem um cara como esse, eu não acho certo, mas é compreensível: não quer largar de ser mimado; o garotinho branco, rico, quer que continuem governando para ele, protegendo-o de qualquer risco que possa correr. Mas uma pessoa que encontra-se em um dos grupos atacados, concordar com ele, é masoquismo. Mas o ódio é apaixonante, né? Eu lembro que eu com 13, 14 anos, achava lindo tudo o que eu estava estudando e pregava violência: Hitler, Mussolini, Robespierre, Mao Tsé-Tung… Eu era um idiota e achava que ser revoltado era fazer apologia à violência, tinha que matar todo mundo. Felizmente me dei conta rápido que não era bem assim, mas possivelmente, em 99, 2000, eu seria um passador de vergonha na internet, compartilhando meme de “mimimi”, cheio das confusões identitárias de raça.

O Mito do Silva

Se você pega um lugar movimentado, pega dois atores, um loiro e um negro, e bota os dois para correr ao mesmo tempo, separados por alguns metros lateralmente, e um terceiro gritando “pega ladrão!”, eu não tenho dúvidas que a maior parte ia olhar e escolher o negro como o ladrão. E isso é uma construção social perversa, que fez, ao longo dos anos, vítimas da escravidão serem vistas como marginais da sociedade após libertadas. Construção social, mais uma vez, desculpa, sou chato mesmo, naturalizada. Então a pessoa vê um menino negro em um sinal (semáforo, farol, faroleiro, chame como quiser aquela merda de três luzes), e fecha a janela do carro, porque tem medo. Tem medo de um menino magro que tenta conseguir um trocado para comer, provavelmente. A mesma irracionalidade leva uma pessoa negra a concordar em dar mais poder à polícia militar, por exemplo, que no Rio de Janeiro metralhou com mais de cem tiros um carro com cinco meninos que tinham saído para dar uma volta. Meninos que não estavam armados, nem atropelaram alguém. Mas eram negros. O filho do Eike Batista atropelou e matou uma pessoa. A polícia não deu tiros no carro dele. Por que? Enfim, ter uma opinião isenta sobre racismo é estar do lado do opressor. O dia em que você perceber que você não é branco, ou que sua sobrinha, seu filho, ou quem quer que seja na sua família ou círculo de amizade, dançou exclusivamente por conta de um julgamento pela cor dele(a), acho que será tarde demais para entender.

Baiestorf: Acho a personagem do professor um tanto apática aos comentários de seus alunos em sala de aula, sem tomar uma posição mais firme, talvez um retrato fiel de como se comportaram os professores nos últimos anos. Como competir com as fakes news? Como os professores podem fazer a diferença numa época em que os alunos “fabricam” suas verdades?

Fabiano Soares: Eu sou um cara do “copo vazio”, sou derrotista mesmo. Desisto fácil, e não culpo a apatia de professores: como lutar quando o mundo está contra você? Como explicar o óbvio e não ficar puto quando for chamado de doutrinador? Se eu fosse professor já teria desistido. Mas façam o que eu digo, não façam o que eu faço. Professores fazem diferença ao sugerir leituras, ao mostrar ao aluno que as ideias dele podem e devem evoluir. Eu lembro de um professor de artes que eu tive, e em um passeio a um museu, tinha um quadro com dois homens se beijando, e ele foi falar do quadro, e eu falei Que viadagem! (nessa época aí, de 13 anos, eu quase um nazipardo desses… Por isso digo que adolescentes podem mudar muito, independente das merdas que falem. Mas burro velho eu não tenho paciência). Ele mandou na mesma hora “Viadagem por quê?”, e eu falei provavelmente um “Porque sim!”, esse argumento valiosíssimo nos dias de hoje. E ele mandou eu ver o quadro, meio que me desafiou, e eu me neguei, e ele falando pra eu olhar, e a turma vendo isso… Resolvi olhar. Era um quadro no qual o artista tinha duplicado a fotografia dele e simulava um beijo entre ele e ele mesmo. Aquilo me deu um baque, foi o primeiro, quando eu vi que eu era burro. E que eu não podia falar das coisas sem saber, sem ver do que eu tô falando. Esse professor nem sabe, mas ele provavelmente me ajudou a mudar o pensamento de certeza sobre tudo sem nem precisar ver o outro lado; e é nisso que os professores são essenciais, não em explicar a verdade absoluta, mas a ensinar os alunos a questionarem-se, a botar dúvidas no lugar de certezas. Isso muda vidas. É desanimador, por conta das fake news multiplicadas sem filtro, só com um botãozinho; mas é uma luta essencial pela humanidade. Que botem a pulga atrás da orelha sobre essas notícias de whatsapp nos alunos. Muitos poderão rir, mas vai ter um que vai duvidar de fake news, que vai duvidar de isenção jornalística nos grandes meios de comunicação. E só por esse, já vai ter valido a pena.

Reunião de equipe

Baiestorf: O papel da arte é ser resistência? O que tu acha dos artistas “isentões”, que não estão tomando posição neste momento tão crítico de nossa história?

Fabiano Soares: Porra, pergunta pra textão. Não, o papel da arte não é ser resistência. Mas o papel da arte que eu gosto, sim. Eu acho que a arte eleva seu potencial de ser relevante ao ser resistência, porque junta ao estético o conceito e a ideia de mudança social. Mas não sei se seria o papel da arte, se eu estaria usando muito o meu juízo de valores. No entanto, se não bota o dedo na ferida, se não cutuca, eu deixo para ser fruída por outros, tenho mais o que fazer. Artistas isentões não existem. Não se posiciona, está do lado do mais forte. Ouve falar que tem que bater em homossexual e não diz nada? Está apoiando. Tá vendo, se é artista, faz arte, mas se é isentão, provavelmente eu não me interesso pela arte que ele faz. Ou se me interesso, diminuo o apreço agora…

Baiestorf: Com o Supremo, com tudo?

Fabiano Soares: As pessoas estão cegas, surdas e loucas. Tá aí, né? Depois desse “acordão”, muito facilitado pelo posicionamento dos deputados e senadores, para passar o impeachment, fico realmente espantado com o número de deputados que o partideco do “Brandão” conseguiu eleger. Vários militares. O golpe virá, e o pior é que será pelas vias legais… Espero que seja apenas uma distopia, culpa do meu pessimismo constante. Assim como em 2016 o “Mito” era…

Fabiano Soares dirige O Mito do Silva

Baiestorf: Brasil, país de racistas enrustidos de antes a país de racistas assumidos (violentos) de agora? Para onde vamos?

Fabiano Soares: Ladeira abaixo. Todo o tipo de preconceito e discurso de ódio vindo à tona, e o pessoal achando que é zoação, é só mais um HUEHUEBR. Acho que tem uma galera descrente de eleição que tá votando pensando que é voto de protesto. Mas esse Macaco Tião é perigoso…

Baiestorf: O espaço é seu Fabiano.

Fabiano Soares: O espaço é nosso, e não deve ser cerceado. Independente de sofrer ou não racismo, homofobia, misoginia, tenhamos um pouco de empatia. Ninguém deve ter medo de andar nas ruas por achar que sua cor, seu credo, sua orientação sexual ou seu gênero o coloquem em um estado de risco. O mundo já está uma merda, o ser humano já é escroto por natureza, não precisa ser incitado a isso. Pensem, não tenham certezas, leiam, leiam, leiam. E ouçam. Não dá pra você viver tranqüilo em uma sociedade que elege religioso pra representar o povo. Principalmente esse câncer que é a bancada evangélica, um sintoma de uma sociedade doente que quer ser ovelha a todo momento. Por isso, defendo ser radical contra a mistura de política e religião (principalmente se for uma religião hegemônica, no nosso caso, cristã) assim como contra esse novo fascismo, que não por acaso vem ganhando forças sendo carregado em uma cama de “Deus acima de todos”. Eu tenho um filho para experimentar muita coisa na vida, e não pode ser calado por um governo que flerta abertamente com a ditadura, apoia torturador. Pensem nas crianças que vocês dizem gostar tanto. Tá ficando meio Zé do Caixão, né?

E se tudo der certo, “O Mito do Silva” será um episódio de um longa-metragem. Isso se eu não desanimar e desistir, porque vou te falar, tá foda… E sem isenção, dia 28 agora é 13 contra o fascismo! E ser humano deveria vir antes de ser anti-PT, portanto, não há desculpa.

Fany trabalhando

Filmografia Completa de Fabiano Soares:

2008 – O Dia do Folclore; 2009 – Acertos Errados; 2009 – Boneco de Pano; 2011 – SolidariedAIDS (co-direção); 2012 – O Terno do Zé; 2012 – Thrash Star; 2012 – Perdigotos da Discórdia (Co-direção); 2013 – Desagradável (diretor de 2ª Unidade); 2014 – Churrasco Misto (animação, co-direção); 2014 – Eu Aceito; 2015 – Primeiro Ato (co-direção); 2015 – Eleven Years (Videoclipe); 2015 – Olho Maldito (animação); 2015 – Par ou Ímpar (co-direção); 2015 – Vegetal (co-direção); 2016 – A Revolta do Boêmio (Videoclipe); 2016 – Paterno; 2016 – Sacrifício; 2018 – O Mito do Silva.

Assista aqui, também, estes outros trabalhos do diretor:

2009- Boneco de Pano

2012- Perdigotos da Discórdia

2012 – O Terno do Zé

2013 – Desagradável (diretor de segunda unidade)

2014- Eu Aceito

2015- Par ou Ímpar

https://vimeo.com/130901429

2016- A Revolta do Boêmio

2016- Paterno

 

As Lendas Folclóricas de Ikarow

Posted in Entrevista, Quadrinhos, revistas independentes brasileiras with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 17, 2018 by canibuk

Ikarow é autor e ilustrador independente de Brasília que tem se especializado em “mobile digital art”. Não só isso, Ikarow é um pesquisador do folclore brasileiro e tem criado quadrinhos inspirados em lendas e mitos indígenas que são essenciais para quem quiser conhecer um pouco mais do riquíssimo universo de lendas nacionais.

No momento o quadrinista está divulgando o catarse de O Monstro, levantando o dinheiro necessário para a publicação de seu quadrinho inspirado na lenda do Mapinguary.

Abaixo uma entrevista que realizei com ele e o endereço do catarse de O Monstro, onde você que nos lê pode se tornar um colaborador financeiro. Nestes tempos obscuros do Brasil, onde cultura e arte estão abandonadas, os artistas agradecem.

Petter Baiestorf: Gostaria que você apresentasse seu trabalho, suas influências e seus lançamentos.

Ikarow: Eu sou o Ikarow quadrinista independente de Brasília, apaixonado pelo folclore brasileiro e por histórias de terror. Sempre viu no folclore brasileiro estes personagens mágicos, como a Cuca, Saci ou o Curupira, criaturas que desafiam a lógica e os limites da realidade. Monstros, Sereias, duendes das florestas que, de acordo com crenças populares, ainda habitam este mundo, isolados no último refúgio dos mitos, a inóspita Floresta Amazônica. Assim, tento colocar em todos os seus quadrinhos um pouco dessa visão misturada ao clima dos contos de horror lovecraftianos. Não poderia também deixar de citar a influência de Alan Moore, Neil Gaiman, Warren Ellis, Grant Morrinson entre outros, que sempre me inspiraram a escrever e produzir meus quadrinhos. Até agora já lancei são 4 títulos, todos inspirados em elementos reais ou não explicados, com ligações aos mitos ancestrais do Brasil.

Em Rio Negro, por exemplo, o leitor descobre que, em 1997, uma pesquisadora do INPA (o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) encontrou um único exemplar de uma nova espécie de peixe. Diferente de tudo que já foi visto, foi chamado de “Peixe Misterioso”. Você vai acompanhar a viagem de uma das expedições que tentava encontrar mais espécimes dessa criatura sem saber que os perigos da Amazônia vão muito além dos reais. Os antigos mitos ainda habitam no Rio Negro. O “peixe misterioso” só foi registrado em 2017, 30 anos após sua descoberta, com a publicação do artigo científico do INPA. Rio Negro Vol. 01 já foi publicado na revista húngara de horror The Black Aether. Recentemente, teve sua segunda edição 113% financiada pelo Catarse e tem recebido elogios por quem lê, como no vídeo do Alexandre Callari, do Pipoca e Nanquim.

Já em A Bruxa, um quadrinho em 2 lados, é revelada a verdade por trás da triste e inocente canção da Cuca, musa eterna do folclore brasileiro. O único quadrinho a já revelar a origem dessa personagem. Agora, na CCXP 18, Ikarow lançará um novo quadrinho, O Monstro, inspirado nas lendas amazônicas dos antigos povos e de acordo com testemunho dos sobreviventes aos ataques da criatura, o Mapinguari, o titã da Amazônia. Saiba mais em: www.facebook.com/rionegrohq

Baiestorf: Como é produzir cultura no Brasil?

Ikarow: Olha, eu particularmente acho bem Difícil. Primeiro porque boa parte do material que consulto sobre folclore é derivado de material acadêmico, de forma a dar mais credibilidade as fontes da pesquisa. Muito desse material, por mais incrível que pareça, é encontrado em inglês. Muitos dos livros que registram a cultura oral dos indígenas são republicações antigas de edições escritas pelos padres jesuítas e encontram-se fora de catálogo. Sorte que a internet mantém alguns arquivos online. Mas o pior é que a cada dia tenho impressão de que as pessoas não tem interesse no folclore brasileiro, ou mesmo na literatura, ou qualquer tipo de leitura na verdade. Mas no que tange a cultura brasileira essa tem sido dizimada. Poucas publicações ou editoras tem investido na replicação do nossa cultura. Livrarias e editoras estão fechando simplesmente porque as pessoas não leem. Especificamente dentro do segmento dos quadrinhos, existem também outros fatores, como a concorrência dos quadrinhos americanos de super heróis com enormes tiragens que inviabiliza ao autor independente, concorrência em termos de preço final/ tiragem/alcance/publicidade e divulgação. As pessoas conhecem Thor, Zeus, Horus, Anubis e até mesmo entidades do folclore asiático e ignoram que os povos que viveram nessa terra, também cultuavam personagens incríveis e poderosos como o Jurupari, Jaci, Guaraci entre outros. Eu sinto que a cultura brasileira é menosprezada, mas é como uma mina de criatividade esperando para ser explorada. Em breve deverá sair uma produção americana inspirada na lenda do Saci. Espero que isso ajude o brasileiro a perceber a riqueza da cultura e folclore brasileiro.

Baiestorf: Você está tendo incentivos para a produção de seu trabalho? Como?

Ikarow: Não. Incentivos mesmo só dos apoiadores e dos amigos. Meu trabalho é totalmente independente e os 2 primeiros títulos foram 100% financiados por mim mesmo. Recentemente fiz meu primeiro catarse que para mim significou uma grande vitória.

Baiestorf: E a distribuição? Há espaços? Como o leitor do Canibuk pode fazer para comprar sua produção?

Ikarow: Como autor independente não existe distribuição exceto em contato direto com o autor. Eu tenho uma loja virtual https://ikarow.lojaintegrada.com.br/ (mas que se encontra pausada em função da campanha de O Monstro, no catarse www.catarse.me/monstro) mas a partir de dezembro, deverá ser reativada.

O Monstro

Baiestorf: Mas elas não ficam somente no folclore nacional, certo? Rio Negro mistura com elementos lovecraftiano. Como é isso?

Ikarow: Na verdade, desde que conheci os mitos lovecraftianos, vi nelas uma grande similaridade com as entidades criadas por Lovecraft. Na mitologia indígena nos encontramos entidades de poder inimaginável e criaturas que o homem moderno não tem capacidade de visualizar sem um alto preço pela sua sanidade. A partir desses pontos foi fácil fazer a adequação dos mitos lovecraftianos com os mitos indígenas brasileiros.

Baiestorf: Sobre o que é seu novo projeto?

Ikarow: O Monstro é um quadrinho sobre uma das lendas mais impressionantes da Amazônia. Não somente pela criatura em si, mas pelos testemunhos e documentos que defendem sua existência. No final do sec. 19, a criatura foi chamada de “fóssil vivo” pelo paleontólogo argentino Florentino Armeghinoe, que defendeu a tese de que o monstro seria a ligação viva com um passado pré histórico. As populações da região do rio Badajóso chamam de Isnashi (fera que grita), Owjo (comedor de gente) ou Kida (coisa da cara preta), mas entre as populações urbanas do norte do país ele é conhecido como o Mapinguary, o monstro ciclópico e selvagem com a boca na barriga capaz de devorar homens. O monstro é inspirado nos relatos dos sobreviventes do primeiro encontro com essa lenda viva. Um quadrinho diferente com dois lados da história, em um, a versão do monstro, do outro, do homem. Ao final você vai encontra as páginas negras que revelam o que há de fatos sobre o misterioso Mapinguary.

Andamento nos trabalhos de O Monstro

Baiestorf: Como fazer para colaborar com este projeto?

Ikarow: Visite o site www.catarse.me/monstro e escolha sua recompensa. A campanha estará no ar até 05 de novembro.

O Monstro

Baiestorf: Obrigado pela entrevista, o espaço é seu.

Ikarow: Eu que agradeço a oportunidade. Aproveito também para divulgar a fanpage do projeto Rio Negro, quadrinho inspirado na lenda do Jurupari, que é uma das recompensas da campanha, www.facebook.com/rionegrohq e a minha página pessoal www.facebook.com/Ikarow.

A Noiva do Turvo

Posted in Cinema, Entrevista, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 9, 2018 by canibuk

A Noiva do Turvo é um curta-metragem produzido no início de 2018 utilizando-se de um celular enquanto festejávamos a passagem de ano. Orçamento zero para contar uma lenda do rio Turvo que, meses antes, Loures Jahnke e sua filha Isabela haviam resgatado para um trabalho escolar que virou um fanzine de contos. Você pode ler o conto A Noiva do Turvo clicando no coletivo literário Maldohorror.

Segue relato dos envolvidos nas gravações:

Petter Baiestorf: O curta A Noiva do Turvo, escrito e dirigido por Loures Jahnke e filmado com seus filhos: Lorenzo de cinco, Isabela de dez, Vinicius de doze e Morgana de vinte anos. Loures, Elisiane Rodrigues, Carli Bortolanza e eu nos divertimos muito durante essa experiência fantasmagórica sessão livre onde respeitamos o ritmo de trabalho das crianças. Não quer dizer que eu vá produzir filmes em celulares, mas abrem-se algumas possibilidades com este formato, principalmente com suas câmeras de alta definição.

Lorenzo, 5 anos, assistente de direção

Loures Jahnke: Exatamente um ano depois da filmagem de Ándale!, na virada de 2017 para 2018, Baiestorf e Bortolanza voltaram para o Baixo Azul, trazendo na bagagem mais de 300 latas de cerveja – sim, eles sempre são exagerados. Não tinham o Toniolli, nem o Élio e nem a filmadora, mas Baiestorf estava com um celular com câmera bacana. Alguns meses antes dessa visita, ajudei minha filha Isabela em um trabalho escolar sobre mitos e lendas locais, o que resultou em um pequeno conto que publiquei no Maldohorror. Eu tinha o argumento e 4 filhos; Peter tinha um celular e o Bortolanza. O produto? A Noiva do Turvo.

Morgana, A Noiva do Turvo

Carli Bortolanza: Loures nos apresentou um texto que ele havia ajudado uma das filhas a escrever para um trabalho escolar que virou um livro coletivo dos alunos que estudavam na mesma sala de aula da filha dele. Sugerindo “Nós podíamos filmar este texto da Isabela, não?”. E “de balde”, por que não? E o primeiro impacto após termos lido o texto foi, “Como não tem câmera, vamos filmar pelo celular!”, única opção e sem nenhuma objeção. A iluminação foi outro empecilho, mas Loures comentou que um vizinho tinha uma bateria com uma lâmpada que fora improvisado para ser usado como uma mochila nas costas, com direito a alças e tudo. A escolha de quem faria o pescador também foi engraçada: Pedi para ser escolhido, pois estava com um pouco de frio e ai ficaria com a roupa manga longa e não precisaria ficar carregando o peso da bateria.

Teste de iluminação durante as gravações com Carli sendo abduzido

E. B. Toniolli: A história é linda, pulsante e real. O Loures mostrou-se um bom diretor, mas que não chega aos pés do Loures escritor, que é formidável.

Loures Jahnke: Filmar A Noiva foi uma das coisas mais divertidas que já fiz. Meus filhos foram batizados na Canibal Filmes – não com groselha, mas com o “espírito da coisa” -, todos riram muito, sofreram – principalmente Morgana e Isabela – e se encantaram. Até a Elisiane, minha companheira, diz que se divertiu muito sendo a produtora do filme – ela pagou um pote de minâncora e um lápis de olho, total de custos.

Carli Bortolanza: Uma coisa que ficou bem marcante foi a empolgação das crianças em participar!

Petter Baiestorf: Para A Noiva não tínhamos uma câmera, somente meu celular. Como eu havia acabado de filmar Beck 137 em Goiânia, GO, com ele, sabia que dava pra fazer algo minimamente bacana. Também deu pra testar o uso de iluminação mínima em espaços abertos – boa parte do curta foi filmado numa plantação de soja que invadimos. De certo modo o uso da iluminação foi uma continuidade do que havia pensado para A Cor que Caiu do Espaço.

Loures Jahnke: Já tinha visto alguns trabalhos feitos com celular, mas A Noiva do Turvo foi para muito além das expectativas, considerando que a maioria das cenas foram noturnas, que a iluminação foi feita com um troço adaptado para caçar lebres tomado emprestado de um vizinho, que os áudios da narração e da trilha sonora  – brilhantemente composta pelo Vinicius, de 12 anos – foram todos gravados em celular e que o Bortolanza passou uma tarde toda catando lenha pra assar carne.

A Noiva se preparando para entrar em cena

Elio Copini: Quanto A Noiva, não participei das filmagens, assisti e gostei muito dele. Despertou uma inveja por não estar lá também.

Loures Jahnke: Toniolli acho que também se divertiu muito, um tempo depois, comigo e com o Baiestorf na casa dele num final de semana inteiro durante a edição do Noiva.

E. B. Toniolli: A Noiva do Turvo já chegou em minhas mãos filmado e só faltando a edição. Dessa vez tínhamos o Loures Jahnke como diretor e ele é uma pessoa muito inteligente, que sabe o que quer e sabe valorizar o trabalho em equipe, deixando todos participarem do processo de maneira ativa. Assim considero esse curta mais coletivo do que as obras naturais da Canibal Filmes, que são a visão do Baiestorf, basicamente.

Morgana e Carli em A Noiva do Turvo

Loures Jahnke: A Noiva do Turvo é quase um filme infantil, inocente, mas que explora um universo cultural muito vasto que são os causos, os mitos e lendas que preenchem o imaginário – e a vida! – das populações camponesas sertões afora.

E. B. Toniolli: Fiquei muito contente em editar o material filmado com celular. Considero que o cinema feito de celular é a evolução natural do processo: Não estamos reféns dos grandes estúdios, das câmeras caras e dos “profissionais” da arte. Cinema é para todos, não para uma elite intelectual que trata a todos como gado intelectual, onde quem não comunga de sua maneira bitolada de ver o mundo, é excluído.

fotos e entrevistas para o post por Petter Baiestorf.

Assista ao curta-metragem aqui:

A Coletiva das Mina

Posted in Arte e Cultura, Entrevista, Pinturas with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 1, 2018 by canibuk

Coletiva das Mina iniciou como um evento, mas não demorou muito para mudarmos o conceito e transformar isso num Movimento, onde queremos não só expor o trabalho e talento de mulheres como também queremos ser o pontapé inicial para que as mesmas consigam crescer e empreender dentro do seu próprio negócio. A ideia do Coletiva é dar vazão a diversidade, mostrar que somos mulheres, podemos ser independentes e empreendedoras. E achamos muito importante propagar essa ideia de ter autonomia, onde elas percebam que são capazes de gerir seu negócio.

Coletiva das Mina.

Canibuk: O que é a Coletiva das Mina?

Coletiva das Mina: A Coletiva das Mina é um movimento que propõe reunir mulheres que precisam de um pontapé inicial para divulgar seus trabalhos/talentos e se posicionar dentro do mercado de trabalho.

Canibuk: Quem pode participar da Coletiva das Mina? E como fazer isso?

Coletiva das Mina: Todas as mulheres que querem empreender e ser donas do seu próprio negócio.  Para fazer parte da Coletiva, basta entrar em contato pela nossa página do Facebook.

Arte de Ana (feita com nanquim)

Canibuk: Está aberto a qualquer expressão artística?

Coletiva das Mina: Sim, mas não só artística. É um nicho que engloba várias ideias. Tem Mina que trabalha com stringArt, que produz caricatura, como também tem Mina que faz drinks, que trabalha com massagem por exemplo.

Canibuk: Você estão recebendo apoio para o evento?

Coletiva das Mina: Sim. No segundo dia de divulgação já conseguimos um apoio da coordenadora do Projeto Novos Talentos – SC Games e Canibuk.

Bruna Caricaturas

Canibuk: A Coletiva das Mina é um evento, mas ele pode se tornar permanente, como um ponto de divulgação e apoio às artistas?

Coletiva das Mina: Na verdade, começamos a divulgar como se fosse um evento, mas devido à procura em grande proporção, decidimos que se encaixaria melhor como sendo um movimento, que visa justamente essa divulgação e apoio a essas mulheres, futuras empreendedoras.

Canibuk: O Brasil vive um momento tenso, em que um político machista de extrema direita está dando voz aos fascistas e seu ódio contra artes e minorias. Gostaria de fazer algumas observações sobre isso?

Coletiva das Mina: Conversamos bastante sobre isso e chegamos a conclusão de que é um assunto bem delicado. Por isso, neste primeiro momento, estamos tentando não envolver a atual questão política do país, ainda que influencie (e muito) na ideia do nosso movimento. Queremos focar na estruturação dele, até isso ganhar força. Mas só pra reforçar: #EleNão.

Arte digital de Ana.

Canibuk: Como é ser artista independente no Brasil?

Coletiva das Mina: Difícil! Somos um nicho que carece muito na questão de valorização do trabalho. Nós, fundadoras do movimento, somos o próprio exemplo desta desvalorização.  A Ana, que trabalha com StringArt, e eu (Bruna), com caricaturas, sentimos muito na pele o que é você dar o preço do produto ao cliente e ele retrucar com um “Nossa, mas tá cobrando tão caro por uma “coisinha” tão simples!”. Mas ninguém leva em conta que por traz desse produto, estão o preço dos materiais utilizados, o tempo gasto em cima daquilo, o planejamento, a criatividade e principalmente o que todo cliente quer: a qualidade.

Canibuk: Paralelo ao Coletiva das Mina vocês estão com outros projetos?

Coletiva das Mina: Sim. Estamos na reta final do nosso curso de Design voltado para Jogos e Entretenimento Digital e estamos na correria trabalhando nos projetos de Trabalho de Iniciação Científica. Fora isso, somente a Ana está trabalhando em um projeto pessoal de curta metragem baseado em fragmentos do folclore de Florianópolis.

Vampira em stringArt por Ana

Canibuk: Fale um pouco sobre as produções das integrantes.

Coletiva das Mina: Ana e eu temos uma questão em comum: gostamos de experimentar. Apesar de gostar de produzir diversas coisas, aos poucos moldamos nossos focos. A Ana agora está focada nas produções com String Art. O foco dela é misturar técnicas, tipo pinturas. Ela ama pintura, desde criança, e vê em tudo isso uma forma diferente de poder “brincar” fazendo o que curte e ganhando dinheiro com isso.  E eu, Bruna, estou focada no Bruna Caricaturas, negócio que comecei no final de 2017 e desde então venho evoluindo. Inicialmente comecei apenas com caricaturas por encomenda, mas agora já estou perdendo o medo de me aventurar em eventos onde trabalho com caricaturas ao vivo. Acho importante dizer que a ideia do Movimento surgiu exatamente a partir disso, da nossa vontade de ganhar a vida trabalhando no que mais gostamos de fazer ao invés de ficar por aí procurando se encaixar em alguma vaga de emprego.

Bruna Caricaturas

Canibuk: Obrigada pela entrevista. O espaço é de vocês para considerações finais.

Coletiva das Mina: Nós agradecemos imensamente o espaço oferecido. É disso que precisamos neste começo, de apoio total para difundir essa ideia. Queremos levar esse movimento para outras cidades como um modelo de negócios futuramente, onde outras mulheres consigam contar com nosso apoio para ter mais autonomia como futura empreendedora. Quem quiser, pode nos contatar pela nossa página oficial no Facebook (https://www.facebook.com/coletivadasmina) ou pelo instagram(@coletivadasmina)e também pode deixar seu comentário, dicas e sugestões de como podemos fazer este negócio crescer ainda mais. Obrigado mesmo Canibuk, por abraçar as Mina neste começo tão importante.

Endereços para contatos:

Ana Camillo – Perfil de facebook.

Ana Camillo – StringArt no facebook.

Ana Camillo – StringArt no instagram.

Bruna Cristina – Perfil de facebook.

Bruna Caricaturas – Perfil de facebook.

Bruna Caricaturas – Perfil de instagram.

Bruna Cristina FC no instagram.

Maldohorror – O Coletivo do Pavor

Posted in Entrevista, Literatura with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on setembro 17, 2018 by canibuk

Maldohorror é um coletivo de escritores do gênero fantástico que foi criado em 2016 pela dupla E.B. Toniolli e Carli Bortolanza, habituais colaboradores na Canibal Filmes.

O coletivo conta com quase 50 colaboradores fixos, postando uma obra inédita em seu site a cada dois dias. Em tempos tão individualistas como se tornou o mundo pós-redes sociais, dá gosto ver um trabalho coletivo de apoio mútuo como este. Para falar mais sobre o coletivo, entrevistamos a dupla de idealizadores do projeto.

Para conhecer o coletivo Maldohorror, clique na figura abaixo:

Canibuk: Conte como surgiu o Maldohorror.

E.B. Toniolli: O Maldohorror surgiu da necessidade de termos um lugar onde divulgar nossos contos e poesias e fazer experimentações. Por nós, entenda-se por mim, Peter Baiestorf e Carli Bortolanza, amigos de longa data e parceiros em produções cinematográficas. Pensamos num formato diferente, onde publicaríamos 1 obra por dia, sempre a meia-noite. A idéia é atrair outros escritores e assim criando uma comunidade, um coletivo, onde os escritores se apóiam e dessa união esperasse o surgimento de livros, e-books e produtos diversos.

Carli Bortolanza: Estava estudando numa cidade vizinha e ia uma vez por semana de ônibus pra lá, e como o Toniolli mora perto da rodoviária, passava lá e ficávamos umas 4 horas jogando conversa fora, jantávamos e ai depois pegava o ônibus, e nessas conversas, o Toniolli veio um dia com uma a idéia de criar um site para publicar nossos escritos, não lembro bem qual era o nome, mas fomos conversando daqui e dali e nisso surgiu o título Maldohorror, em homenagem ao Isidore Ducasse. Fomos conversar com o Baiestorf que também “comprou” a idéia e ai surgiu o coletivo, mas no começo éramos só em três, e todo dia um texto estava no ar, ai convida daqui e dali, e começa a surgiu o quarto, o quinto, dando um alívio, pois foi uma tarefa árdua, manter todos os dias um texto no ar em poucos escritores.

Canibuk: O que é o Maldohorror? Qual o objetivo com este coletivo literário?

Toniolli: Maldohorror é inspirado no célebre personagem Maldoror, do excelente escritor, Isidore Ducasse, vulgo Conde de Lautréamont (escritor maldito uruguaio/francês no final do século XIX). A idéia foi fazer um trocadilho e aproveitar e inserir o termo Horror, que muito define e identifica os 3 primeiros membros do coletivo e, também, norteia a maioria dos escritores que fazem parte. Maldohorror nasceu com o objetivo principal de apoiar escritores, desde iniciantes até profissionais, desde poetas líricos até desvairados sexuais e dessa mistura emergir um cenário rico para nossos leitores.

Bortolanza: De início, acho que era a pra termos onde mostrar nossos trabalhos, mas não só nós, nós enquanto pessoas que escrevem e não tem onde publicar, e com o site, buscar encontrar essas pessoas como nós que temos muitos textos nas gavetas de casa e unirmos para demonstrar que mesmo no mundo dos sonhos, ninguém está sozinho.

Canibuk: Como fazer parte do coletivo?

Bortolanza: É muito fácil, basta escrever sobre fantasia ou textos malditos, que criticam as religiões, as políticas e esse sistema pobre em que vivemos. Com pelo menos 5 textos nesse estilo, encaminhar para o e-mail contato@maldohorror.com.br e alguém do grupo vai receber e encaminhar para um dos membros que é responsável pelas novas aprovações.

Toniolli: Temos uma comissão, que troca de tempos em tempos, que analisa as obras e aprova a entrada ou responde com críticas positivas para a melhoria das obras. Temos uma posição forte contra qualquer tipo de racismo, sexismo, etc, por que consideramos que a cultura serve pra unir e construir uma sociedade melhor

Canibuk: Como funciona o site? As obras inéditas são lançadas de quanto em quanto tempo?

Toniolli: Hoje, as publicações no Maldohorror são feitas de 2 em 2 dias, através de ciclos. Por ciclo entenda-se repassar todas as obras de nossos autores em ordem alfabética inversa. Os autores enviam suas obras para o editor, atualmente o Carli Bortolanza, que analisa e repassa para uma equipe de revisores. Em seguidas as obras são enviadas para a equipe de publicação, que faz a postagem no site e a divulgação nas redes sociais. Dessa forma vamos executando as atividades de forma coletiva, que é a essência do Maldohorror.

Bortolanza: No começo do site era lançados um texto por dia, todos os dias, embora tenhamos muitos escritores hoje, os textos estão sendo lançados a cada dois dias, para que cada um dos autores possa escrever com mais calma e cada vez melhor e também ter um tempo maior para estar divulgando.

para ler o conto coletivo, basta clicar na imagem abaixo:

Canibuk: Maldohorror funciona como um laboratório aos escritores?

Toniolli: Na minha maneira de ver, sim! Todos os envolvidos estão ligados a arte e arte é experimentação e nada melhor do que uma ferramenta online para testar e já receber feedbacks.

Bortolanza: Alguns escritores já são profissionais, digo, escrevem muito bem e muito, com livros publicados. Mas também tem autores que suas primeiras publicações foram no Maldohorror, e que nesse convívio de escritores, nos grupos sociais, estão se aperfeiçoando, pois no coletivo, um ajuda o outro e não só na escrita, mas também em parcerias. Tive participação em duas coletânea , uma de poesias “Sociedade dos poetas vivos” e outra de contos “O Mundo fantástico de R.F. Lucchetti” lançado esse ano na Bienal em SP, pela editora Coerência, organizado pela Camila, que está no grupo  e me convidou. Outras pessoas do grupo também foram convidadas, assim como surge convite para outras participações aqui e ali, pra esse ou pra aquele participante do grupo. Uma forma de “quem é visto é lembrado”. Também alguns que acabaram se conhecendo pessoalmente.

Canibuk: Quais os e-books lançados pelo Maldohorror e como comprar?

Bortolanza: Lançamos três até agora, um de contos e um de poesias que foram publicados no site, e um terceiro com obras inéditas, sobre final de ano e que esses dias inclusive, em comemoração aos 2 anos do lançamento do site, disponibilizamos os 3 de forma gratuita. Mas podem acessar: Entrando no site da amazona: https://www.amazon.com.br/ só digitar Maldohorror que aparecerá os 03 livros, a 1,99 cada.

Canibuk: E o livro físico? Planos?

Toniolli: Pra 2019 estará saindo o livro físico. Está sob organização de Petter Baiestorf e vai ser lançado em março de 2019. Estamos na fase de seleção do pessoal, orçamentos, etc…

Bortolanza: Desde o início, a idéia era publicar um livro físico por ano, e em cada espelho do livro uma letra do Maldohorror, para que quando o projeto termina-se (projeto inicial é de 11 anos) teríamos 11 livros na estante e que pudéssemos ler a palavra inteira. Mas as mudanças são necessárias e até pelo fato de sempre estarmos em movimento, e não sermos uma coisa fechada. A idéia é publicar o primeiro livro físico no primeiro semestre do ano que vem, e depois pensaremos, como será feito os demais, mas certamente não será só um. Inclusive pessoalmente estou pensando daqui a 9 anos, fazer um meu, com todos os meus textos publicados no site, em ordem de publicação (já tenho esse controle e que até agora, foram 62 textos publicados) como uma forma de registrar fisicamente o projeto.

Canibuk: Como tem sido a recepção do público para com o coletivo?

Toniolli: Temos uma recepção boa com o público. Não temos a intenção de provocar uma nova onda transformadora da cultura brasileira, mas sim servir de canal para a divulgação das obras dos autores. Como a totalidade de nossos escritores escrevem temáticas malditas ou fantásticas, temos um público bastante fiel, apesar de restrito.

Bortolanza: A primeira maravilha é que estamos espalhados por quase todo o Brasil, e talvez o que falta é compartilharmos essas receptividades entre o grupo, comigo, está sendo muito bom, uns me mandam e-mail, mensagens pelo watts, me encontram e me pedem, como “inventam isso”, ou “me deu nojo” “não dormi a noite”. Assim como já fui também convidado pra falar do Maldohorror em sala de aula na universidade, em evento do Sesc (grande parceiro da artes independentes em Chapecó – SC). No trabalho volta e meia um colega diz, “Hó, o cara do bebê que sobe em árvore!”, referindo-se ao texto “Assim Nasce o Cantos dos Tubarões de Ducasse“.

Canibuk: Que observações gostariam de fazer sobre o cenário da literatura fantástica no Brasil?

Toniolli: Nossa barreira inicial é a concorrência com grandes nomes da literatura brasileira e mundial. É o mesmo que acontece com a música: bandas novas concorrem com nomes já consagrados. Mas esse é o cenário é a persistência sempre dá resultados.

Bortolanza: Ao mesmo tempo em que vejo uma expansão, vejo também uma “limitação”. Muitos, embora tenham um ótimo domínio da escrita, parece que falta criatividade para escrever, li algumas coletâneas e é um e outro texto que se destaca, na grande maioria, se descobre todo o enredo já no começo. Teve um em especial, que achei que era o mesmo texto escrito por vários autores, sem nada de novo, parodiando, sexta feira 13 parte 01, 02, 03… Acho que o que falta é o transbordar, viajar, pegar uma bacia com letras e espalhar no ventilador. E pela qualidade dos escritores, sei que todos podem colocar uma nave espacial no meio do nada ou um mostro que se tele transporta e entra em cena surpreendendo o leitor.

Se você está gostando dessa entrevista, entre na página do Maldohorror no facebook e acompanhe as novidades:

Canibuk: É possível um autor seguir carreira literária no Brasil de hoje?

Toniolli: Sim. Com persistência, investimento e, principalmente, obras com identidade e criatividade. Ajuda muito se a pessoa for comunicativa e, novamente, persistente.

Bortolanza: Seguir sim, afinal há muitos espaços para expor os trabalhos, porém se manter financeiramente eu acredito que ainda não há possibilidades, mas está no caminho certo.

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Canibuk: Quem são os autores do coletivo? Gostaria de destacar alguns trabalhos solos de membros do grupo para que os leitores do Canibuk pudessem correr atrás?

Bortolanza: Pra fãs de filmes, tem 06 escritores, além do próprio Baiestorf, que já trabalharam em algum momento nas produções da Canibal Filmes, Eu, E.B. Toniolli, Loures Jahnke, Leomar Waslawick, Alan Cassol e César Souza (espero não ter esquecido alguém). E acredito que muitos outros não estão só ligados a literatura, mas em outras áreas culturais, música, dança… Gostaria de deixar evidenciado, apenas que o conjunto da obra é maravilhoso, se acompanhar o site, dois meses apenas, se enxaguará com textos bons, uns maravilhosos, outros surpreendentes, outros que te deixaram perdidos, outros tão corriqueiros que fará você, ao passar pelas ruas, se deparar com cenas parecidas e lembra-se do desfeche que o autor criou, outras ainda tão cruéis/ perturbadoras que gostaria de não ter lido ou lhe deixá-los-á com brilhos nos olhos de felicidades.

Toniolli: Não gostaria de citar nenhum autor especificamente por que temos quase 50 escritores e todos tem uma maneira de escrever, temáticas próprias. Temos escritores em níveis diferentes: alguns mais viscerais, com uma escrita coloquial e outros estudiosos da língua e que a tratam uma argila a ser moldada. Acho que cada escritor merece uma lida com atenção.

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Canibuk: Qual a importância do Maldohorror dentro do cenário literário nacional?

Bortolanza: Acredito que seja uma porta de entrada e uma maneira de estar no meio de escritores e poder respirar literatura. Também uma maneira de poder crescer na arte de escrever e trocar experiências e amadurecer cada vez mais, evitando os erros que outrem já realizaram.

Toniolli: Eu vejo o Maldohorror como um coletivo de fomento de obras e de experimentações. Nosso editor está sempre cobrando novas obras dos autores e isso acaba incentivando a produção. Fizemos alguns testes com obras compostas coletivamente e esses experimentos são uma oportunidade ímpar de aprendizado e interação. Vale salientar que temos uma comunidade ativa, conversamos, trocamos idéias, fomentamos outros projetos solos dos autores, divulgação de música, cinema e dessa forma vamos criando um cenário e propenso a ebulição de novos projetos.

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Canibuk: Considerações finais:

Toniolli: Obrigado pelo espaço. Fico muito feliz pelo apoio que você dá pras ações e projetos undergound e é disso que precisamos: união. Separados somos fracos e podemos fazer poucos, mas unidos em prol de uma ideal em comum podemos alcançar resultados extraordinário. E é muito legal acessar o site e ver que em 2 anos temos mais de 800 obras pros nossos leitores curtirem. E tem muita coisa que vai surpreender aos leitores do Canibuk. Estamos de página abertas esperando vocês.

Bortolanza: Tem muitos textos que é só adaptar e o roteiro de um filme está pronto, ou um novo enredo nos holofotes do palco teatral ou na sinfonia das guitarras e dos contra baixos.

Clique na imagem abaixo e vá para o Maldohorror: