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Canibuk Apresenta: A Arte de Thais Rizzolli

Posted in Arte e Cultura, Entrevista, Ilustração, Pinturas with tags , , , , , , , , , , , , , , , on março 19, 2018 by canibuk

Thais Rizzolli, 21 anos, é natural de Concórdia/SC, atualmente residindo em Chapecó/SC onde estuda publicidade. Chapecó é uma cidadezinha catarinense que tem uma gama de artistas independentes bem interessantes e, não faço ideia de quando, ainda pretendo me debruçar sobre a produção underground alternativa da cidade para registrar a riqueza de estilos.

Thais, além de ser ilustradora, pinta com tinta a óleo, flertando com surrealismo, temáticas ocultistas e inspirada pela música como forma de libertação do seu “eu” interior, responsável pela criação de suas obras.

Conheça mais de Thais e suas obras soturnas lendo a entrevista abaixo, assistindo ao ótimo vídeo-entrevista “Thais Rizzolli” e curtindo/comprando seus trabalhos.

Thais Rizzolli

Entrevista com Thais Rizzolli:

Petter Baiestorf: Gostaria que você contasse como começou seu interesse pela arte e, também, sobre seus primeiros trabalhos.

Thais Rizzolli: Desde muito pequena, foi uma coisa que a minha mãe sempre me incentivou. Ela me dava muitos materiais, como lápis, canetas, cadernos, argila. Para que eu deixasse minha imaginação trabalhar. Mas a coisa que me deixava mais curiosa, era quando ela se trancava numa despensa pra pintar panos de pratos. Eu ficava maluca pra ver ela pintar, mas ela não me deixava por conta dos níveis tóxicos do material.

Baiestorf: Sua arte sofre influências de quais artistas e escolas estéticas. Fale o que te atraí neles, se quiser falar sobre os porquês seria muito interessante.

Thais: Eu sofro uma influência muito forte do surrealismo, eu acho fantástico o trabalho estético que o Dalí realizou. A forma fascinante como trabalhava com arte, estética e ciência.  Das mais lindas pinturas pré-rafaelitas de mulheres em meio à natureza, a destruição do padrão estético, a destruição da figura. O que é beleza? Eu sofro influência muito direta do ocultismo. Os anos 60, 70… Música, muita música. Do velho Black Sabbath, Doors, a Unlce Acid… A galera que ta aqui, agora, fazendo uma sonzeira brasuca e com várias influências iguais as minhas, Macaco Bong, Monstro Amigo, Ruínas de Sade. O próprio Ars Moriendee que fez a arte deles, o Victor Bezerra.  Um outro amigo meu lá de Porto Alegre, o Leo Dias de Los Muertos, baíta escultor.

Inédito (em desenvolvimento).

Baiestorf: Com sua arte você está aberta a todo tipo de trabalho ou gostaria de se especializar somente em uma área?

Thais: Eu pinto o que eu sinto. Geralmente eu faço as coisas pra mim. Quando eu to desenhando é um momento único e de estudo pra mim, cada coisa que eu faço é diferente. Me modifica como pessoa, foi pensada e inserida em um espaço -tempo de vida minha. É a materialização do meu eu.

Baiestorf: Conte sobre suas exposições e como produtores poderiam levá-la para suas cidades/estados.

Thais: Na minha primeira exposição eu fiquei muito envergonhada. Era algo novo pra mim e realmente é se mostrar “pro mundo”, “pras pessoas”. Dê um momento intimo desenhando em casa, coisas da tua cabeça, à rua, com as pessoas olhando os teus trabalhos e interagindo contigo. É muito louco.

Baiestorf: Como é realizar trabalhos artísticos aqui no Brasil? Há reconhecimento? Oportunidades?

Thais: As pessoas gostam de arte. Mas, não tem a valorização devida. Geralmente é um perrengue. Principalmente pro pessoal do meio mais underground, muita coisa ainda assusta as pessoas. Elas não estão preparadas para receber aquilo, aquele tipo de comunicação. Mas esse choque pra mim é o mais gostoso, é realmente confrontar a pessoa, tirar ela do comodismo.

Baiestorf: Você está com trabalhos em finalização? Poderia falar sobre eles e como o público poderá acompanhá-los?

Thais: Eu to desenvolvendo um material junto com uns amigos. Estamos trabalhando no álbum de estréia da banda deles, Kosmische Ritual.

Baiestorf: E seus projetos? É possível sabermos um pouquinho deles?

Thais: Eu pretendo continuar no ramo da ilustração e pintura. Mas meu coração pende muito pra tatuagem, quem sabe um dia, vocês vão me ver tatuando ainda.

Baiestorf: Geralmente a arte no Brasil é produzida de forma independente e é difícil conseguir se manter. O que você gostaria de observar sobre isso.

Thais: Por mais difícil que seja, meus amigos, vamos continuar produzindo. Só assim, batendo na tecla que a gente vai conseguir transformar a cultura em que estamos inseridos.

Baiestorf: O espaço é seu para as considerações finais:

Thais: Eu queria agradecer ao Petter e a toda a galera que apóia e a valoriza o meio underground e a cena autoral.

Contatos de Thais Rizzolli:

E-mail: thaisrzzll@gmail.com

Celular: 55 49 999204454

Artes de Thais Rizzolli:

Canibuk Apresenta: A Arte de Pomba Claúdia

Posted in Arte e Cultura, Cinema, Entrevista, Ilustração, Pinturas, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on março 13, 2018 by canibuk

Conheci a Pomba tem uns 15 anos em andanças por Porto Alegre. Possivelmente nos conhecemos em algum boteco cultural. Ou em alguma mesa de bar pós-exibições de filmes transgressores onde meus filmes eram programados, não lembro. Mas uma coisa é certa, assim que comecei a conhecer o trabalho de Pomba fui ficando fã e acompanhando na butuca.

Pomba faz de tudo. Além de desenhista, já fez música (“Pedra” é um punk hilário), curtas-metragens (“Pé de Cabra” é um dos episódios de “13 Histórias Estranhas” e agora está produzindo “Monstro”, de Magnum Borini), escreve contos e poesias. E desde 2006 participa do grupo de cartunistas GRAFAR, que edita diversos livros de cartuns (sempre coletivos). Mas para viver Pomba é professora de português e literatura.

Já tem livros publicados, participa do evento de cartum Cartucho em Santa Maria e atualmente gosta de desenhar coelhos. Fiquem com a entrevista que realizei com Pomba, é fantástico poder divulgar o pensamento iconoclasta desta fantástica artista livre.

Pomba Claúdia

Petter Baiestorf: Gostaria que você contasse como começou seu interesse pela arte e, também, sobre seus primeiros trabalhos.

Pomba Claúdia: Eu acho que sempre tive uma pira por tudo fora da realidade. A realidade consistia em ver meus pais brigando, horários políticos, notícias de televisão (mesmo que fossem mentira) ou tudo que tivesse alguma relação com o chato e burocrático mundo adulto. Fui uma criança solitária, filha única, guria de apartamento, criada pela televisão. Uma menina gordinha comendo milhopã na cama bagunçada aguardando os adultos voltarem do trabalho. Mas os adultos nem sempre foram esses monstros que estou pintando. Meu pai gostava (e gosta) muito de filmes, de desenhos animados e também de videogames… Absorvi estes gostos. Aos sete ou oito anos comecei a ganhar fitas VHS dos desenhos da Disney. Ao final do desenho animado da Branca de Neve tinha o making off do filme… Eu pirei com aquilo, foi tipo a primeira paixão platônica. Era aquilo que eu queria fazer. Mas aquilo mexeu muito comigo. Revi diversas vezes. Não me interessava o príncipe, não me interessava os sete anões (isso eu já assistia no “Histórias que Nossas Babás não Contavam”). Meu primeiro trabalho surgiu nessa época, na 1ª série, quando a professora levou meu desenho inspirado na música da “Dona Aranha” para a TV Cultura local junto com o de outros colegas. Eu liguei a TV por acaso e ela estava mostrando meu desenho. Isso me deixou muito feliz, pois eu não era uma criança lá muito enturmada e me senti valorizada. Acho que aí comecei a descobrir quem eu era… Mas ao falar para os meus pais, exaustos do trabalho, de saco cheio, que eu tinha decidido ser artista/desenhista/criadora de jogos e desenhos, eles me disseram que aquilo era coisa pra gente rica e que eu não teria me sustentar com aquilo. Como toda paixão, esse foi meu primeiro soco na cara dos sonhos “oquevocêquerserquandocrescer” que eu levei (e levo até hoje… muitos ainda). Acredito que isso deva acontecer com muitas crianças, mas eu continuei recortando da realidade esses sonhos, essas piras… Meus melhores brinquedos eram os lápis de cor, minha melhor companhia eram os desenhos animados, gibis, livros ilustrados e os joguinhos da Atari. Desenhava compulsivamente. Se isso é arte? Só depois me disseram…

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Baiestorf: Sua arte sofre influências de quais artistas e escolas estéticas. Fale o que te atraí neles, se quiser falar sobre os porquês seria muito interessante.

Pomba: Minha arte sofre. E sofrer influências é um dilema. Porque quando vi já estava sofrendo, roubando, parafraseando, recortando, fazendo um mosaico de coisas bonitinhas e ogras. Acredito que os melhores artistas são as crianças e os bêbados. As melhores escolas estéticas são os bares. Mas tentando organizar o grande pobre roubo de ideias, posso retomar o lance da Disney. Falem o que quiser da Disney, foi ali o pontapé inicial. Mas é claro, você cresce, vira adolescente e quer queimar todos os discos da Xuxa, quer inverter a cruz, jogar o jogo do copo, beber cachaça com gemada.  Comigo não foi diferente. Por não ter amigos, nem internet, provavelmente o que influenciou foram os filmes que passavam na Sessão da Tarde e no Cinema em Casa. Podem rir, mas a estética de filmes de Tim Burton, assim como “Elvira – A Rainha das Trevas” e “A Família Addams” podem ter me inspirado… Minhas princesas perderam os braços, ganharam chifres. Meus quadros ganharam cores escuras. Eu pintava com qualquer coisa em qualquer lugar. Era libertador… Mas tudo foi jogado fora por mamãe. Só lá por 2001 comecei a organizar minhas influências e comecei a me identificar com a arte surrealista. A seguir, meus desenhos ainda tratando de temas mórbidos, começaram a ter um teor mais zueiro. Em 2004, busquei um curso de desenho animado que serviu para que finalmente conhecesse outras pessoas que desenhavam. Até ali não conhecia ninguém. Meu amigo e ilustrador Guilherme Moojen então me apresentou em 2006 a GRAFAR, um grupo de cartunistas e grafistas aqui de Porto Alegre que se reuniam semanalmente no bar Tutti Giorni. Apesar dos meus desenhos sem muita técnica, eles me acolheram e logo me convidaram para participar de um livro, chamado “Sem Trégua” em 2006. Considero esse boteco minha escola de arte. Esses senhores, Edgar Vasques, Eugênio Neves, Ubert, Hals, Ruben, Santiago, Pedro Alice, Lancast, Moa e, posteriormente, Carla Pilla, foram os meus primeiros e melhores professores. Inspirada no trabalho desses amigos meus desenhos sombrios ganharam cor, meu traço foi ganhando e ainda ganha a cada dia mais personalidade. Cada um com seu estilo me inspira de uma forma. O traço brusco do Ruben e a segurança da linha e simplicidade humorística do Santiago. O volume através das hachuras do Eugênio Neves, as aquarelas da Carla Pilla, enfim… Todas as terças eu saía desse bar mais inspirada e feliz de ter encontrado pessoas que gostam de desenhar enquanto conversam. O meu desenho, assim como textos, manteve um humor sádico, ácido e, em alguns casos, erótico. Descobria a cada encontro novas técnicas, novos estilos e novas inspirações como as ilustrações fodas da Mariza Dias e as putarias da Melinda Gebbie.

Baiestorf: Com sua arte você está aberta a todo tipo de trabalho ou gostaria de se especializar somente em uma área? Por quê?

Pomba: Quem me conhece sabe que também curto fazer filmes, músicas, poemas, contos, produzir eventos… Além de ser professora de português (o que pode parecer chato pra caralho, mas como envolve linguagem tá valendo). Então acabo diversificando meu trabalho em outras áreas também. É um surubão de áreas. Um estilo esquizofrênico. Por isso, sou bem aberta (rará). Sendo o espaço para arte independente (que é meu caso) tão limitado financeiramente, eu curto mesmo é chutar o balde. Às vezes me sinto uma fraude. E acho que isso faz parte de mim e justifica por eu ter trabalhos tão diferentes uns dos outros… Além disso, acho uma lindeza essa coisa de misturar cheiros, gostos, texturas, barulhos… Animação, cinema, música, uma explosão sensorial. Acredito que quebrar um estereótipo artístico ajude a tirar esse bundamolismo da arte. A arte teria que ser o grito de expressão, arte é cortar a orelha e brigar no bar, arte é chorar em cima da tinta e borrar tudo… Arte teria que ser algo que te atinja individualmente, mas que também atinja os outros, seja para agradar ou para incomodar. Algumas pessoas acreditam que primeiro você aprende a técnica e depois você cria. Eu prefiro brincar com as ideias, jogá-las no papel, na tela, no caderno e depois pensar no que pode ser feito – ou não. Elevar o padrão limita a criação. Há liberdade na ignorância, assim você se inspira de forma mais inocente e inconsequente. Se eu me especializasse em uma área, creio que perderia um pouco disso.

Assista o curta-metragem Pé de Cabra:

Baiestorf: Conte sobre suas exposições e como produtores poderiam levá-la para suas cidades/estados.

Pomba: Até agora só fiz exposições coletivas. Muitas em Santa Maria, em um evento de cartunistas chamado Cartucho, organizado pelo querido Máucio Rodrigues.  Devo ter participado de pelo menos umas cinco exposições lá. Todos os anos é sorteado um tema e a gente faz cartuns sobre aquilo em 24 horas. É bem massa. Pra falar a verdade, tenho poucos desenhos para expor. Os melhores estão em cadernos pautados ao lado de anotações de aula ou em guardanapos de bar… Para uma exposição de folhas pautadas rabiscadas e guardanapos sujos com desenhos eu teria muita coisa. Mas às vezes vêm momentos de luz e faço algo a mais, um quadro com objetos colados, uma aquarela bonitinha… Daí esses guardo, reproduzo em forma de imã, zine e o que mais for… Eu romerobritizo minha arte. Mas no fundo eu sou a desenhista de bar, ou de alguma sala de aula… Faço desenho e dou de presente. Talvez eu devesse omitir essas coisas, mas acho que é um traço da essência do que faço, um desapego. Até porque, não tenho espaço para acervo, moro num apartamento de 30m²… Se alguém tiver um espaço para eu pintar grandes quadros e paredes, ficarei muito feliz. Quem quiser me chamar pruma exposição, propor um tema ou juntar meus esboços e artes existentes meu email é claudiadrb@gmail.com ou pelo telefone 55 51 992792662. Meu trabalho pode ser visto no meu site https://claudiadrb.wixsite.com/borborini/copia-inicio, na página do Facebook: https://www.facebook.com/pombadesenhos/ e alguma coisa no Instagram: @pombaclaudia

Baiestorf: Como é realizar trabalhos artísticos aqui no Brasil? Há reconhecimento? Oportunidades?

Pomba: Como eu disse, meus pais me deram o soco de realidade aos sete anos quando falei com inocência que eu gostaria de ser artista. E cresci com esse pensamento. Pra não me iludir acabei virando professora de língua portuguesa, o que também não tem reconhecimento (risos). Então o que move minhas criações não é bem o reconhecimento, mas a necessidade de criar, de me sentir parte de algo que eu goste, que me faça me sentir eu. Claro que quando ganho dinheiro com meus desenhos, meus filmes ou meus textos eu me sinto incrivelmente feliz pelo reconhecimento, ao mesmo tempo em que acho estranho, pois, como eu disse, isso não foi construído em mim. E confesso que não me orgulho de ser assim, gostaria de poder falar com firmeza o valor de um quadro e passar um orçamento convicto de uma ilustração. Ainda assim, as oportunidades não caem no colo. Vejo uma galera muito mais talentosa e empenhada do que eu, investindo, trampando muito pra poder aperfeiçoar e assim conseguir um retorno de sua arte, ainda mais quando se trata da arte impressa, tendo em vista que hoje em dia temos muita coisa pronta no computador, que é só imprimir e pendurar na parede da sala. Portanto, considero desproporcional o número de oportunidades para a arte em relação ao desejo de se investir nisso. Acaba que muitos trabalhos fodas e autorais acabam virando logos com cara de trampo de design gráfico, assim como muito filme independente fica com a maior pinta de propaganda publicitária. Por essas e outras, eu me pego vergonhosamente acreditando que pra ganhar grana com arte você já precisa ter grana. Conheço gente que só pinta com material caríssimo, eu uso guache, pinto no papelão, uso a sobra da tinta que usei pra pintar a parede da sala de casa… Acabo me inscrevendo em concursos e festivais gratuitos, catando oportunidades de graça e tentando me enfiar onde dá. Mas os reconhecimentos e oportunidades são que nem uma cova, tem que cavar para achar algo.

Zumbizinhu Inédito

Baiestorf: Você está com trabalhos em finalização? Poderia falar sobre eles e como o público poderá acompanhá-los?

Pomba: Meu próximo e mais desejável trabalho é sobre Coelhos. Não tenho como falar muito sobre ele no momento, mas vou colocar o primeiro quadro que me inspirou a desenvolver uma série sobre esse rico animalzinho.

Baiestorf: E seus projetos? É possível sabermos um pouquinho deles?

Pomba: Esse ano pretendo montar junto a outras garotas um coletivo chamado Útero Underground. É uma ideia que ainda está no útero (rá), mas que em breve será melhor desenvolvida e que consistirá não apenas nas artes visuais, mas também na elaboração de músicas, barulhos, vídeos e o que mais vier ao encontro de construir um espaço libertador e sem tantos pudores em relação ao que a gente entende por arte. Paralelo a isso, estou aguardando o contato de alguns amigos da GRAFAR para a pintura de painéis, pretendo fazer um desenho animado e uma exposição de coelhos tarados.

Baiestorf: Geralmente a arte no Brasil é produzida de forma independente e é difícil conseguir se manter. O que você gostaria de observar sobre isso.

Pomba: Cara, acho que é o que falei antes… A gente se enfia onde dá, claro, em alguns casos a gente pensa nos princípios e não vai se enfiar de cabeça quando estão envolvidas pessoas escrotas que só pensam em explorar e lucrar a custa dos outros. Fora isso, nem todo mundo tem a oportunidade de fazer uma faculdade de arte. Vou falar da de cinema também, pois sabemos que cinema é caro pra cacete. Daí a gente acaba fazendo muita coisa de graça na troca de experiência, para apoiar os amigos que também não tem grana e isso vira um grande ciclo da horripilante mágica de se fazer arte de graça sem ganhar nada em troca. Acho que essas iniciativas como o teu blog, assim como rádios online, coletivos independentes, financiamentos coletivos, formas preliminares da gente sair do limbo e começarmos a desenvolver uma estrutura que pague nossas contas. Mas não só isso. O que eu vejo e que pouca gente comenta é como o artista independente muitas vezes está alienado do povo, da galera da periferia que também faz parte da outra margem independente da arte, como é caso da pixação, grafite, stencil chamem como quiser. O perfil da galera “independente” “underground” muitas vezes é branco, classe média, universitário. E a outra área independente? Fico pensando que louco seria toda essa galera se reunindo, aprendendo uns com os outros, compartilhando cultura, técnica, fugindo dessa aprendizagem acadêmica muitas vezes elitista e enfadonha. Exposição de arte é aquele perfil de homem de coque, magrinho, segurando a taça de Salton e conversando com a garotinha esnobe que admira pra caralho Miró, ambos intrigados com a popularidade do Romero Britto, expondo algo dito independente . Enquanto do lado de fora do prédio algum garoto leva um pau da polícia por fazer um desenho em um muro. Talvez o que falte para a arte independente conseguir se manter é incomodar um pouco, ter uma voz mais ousada, mais politizada, mais envolvente e que convide diferentes grupos ditos independentes a se observarem. Enfim, é manjado, mas é isso, a união faz a força.

Boteco de Ideias

Baiestorf: O espaço é seu para as considerações finais:

Pomba: Eu gostaria de agradecer ao Petter Baiestorf por essa oportunidade de eu falar sobre minha arte. Às vezes não sei como consegui conhecer tanta gente foda e incrível, pois soa estranho pra mim ser chamada de “artista”. Sempre achei que artista fosse ou Picasso, Salvador Dalí, ou na contemporaneidade alguma Big Brother que pousou nua. Então essa palavra me deixa com uma certa crise de personalidade. Alguns lugares dão desconto se você diz que é da “classe artística” aqui em Porto Alegre. Acho isso um sarro, pois o que te faz artista? Se eu colocar meu dedo no nariz e dizer que é uma performance serei artista? É muito louco isso. Outra coisa que muitas vezes me deixa desconfortável com o termo artista é quanto ao rebuscamento da arte em relação ao gênero. Tem homens que limpam a bunda e expõem em uma parede e afirmam seguramente que é “arte”. Mulheres desenham a sujeira da unha da modelo-vivo e se questionam se a sujeira está na proporção correta ao tamanho da unha. Eu não sei as outras, mas sinto essa pressão ao perfeccionismo. Você não pode ousar dirigir, tocar guitarra, desenhar, fazer um filme se você não fizer algo incrivelmente bem. Você não pode tocar os acordes errados ou errar o local da luz em um quadro.  Confesso que isso me incomodava, pois muitas vezes deixei de fazer as coisas por não me sentir boa o bastante, por não me sentir pronta o bastante, enquanto simplesmente eu deveria ter feito e mandado todo mundo à merda com suas técnicas, medidas e manuais.

Contatos de Pomba Claúdia:

email: claudiadrb@gmail.com

Telefone: 55 51 992792662.

Site: https://claudiadrb.wixsite.com/borborini/copia-inicio

Facebook: https://www.facebook.com/pombadesenhos/

Instagram: @pombaclaudia

facebook: https://www.facebook.com/claudia.pigeon

Mais: https://claudiadrb.wixsite.com/borborini/sobre

Artes de Pomba Claúdia:

Canibuk Apresenta: A Arte de Leyla Buk

Posted in Arte e Cultura, Entrevista, Ilustração, Pinturas with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on março 8, 2018 by canibuk

Hoje é o dia internacional da Mulher e a série do Canibuk não podia deixar de apresentar a arte de uma das mulheres mais fortes, criativas e completas que já tive o prazer de conhecer.

Acompanho o trabalho de Leyla Buk faz, pelo menos, uma década, e cada nova fase dela me surpreendo com a franca evolução de seus trabalhos. Leyla é inquieta, está sempre na ânsia pela busca de se superar.

Autorretrato, 2018 (inédito).

Leyla, nascida em Recife/PE, é artista autodidata e desde a infância já se interessava por desenhos e pintura. Há pelo menos 9 anos trabalha em tempo integral, de modo profissional, com sua arte, experimentando vários meios, estilos e técnicas. É uma artista curiosa e dona de uma arte fenomenal, seja como desenhista, pintora ou escultora, fazendo um Monku, ou uma Buky, personagens que criou para explorar essa técnica – o que não a impede de aceitar encomendas com seu personagem preferido. Suas esculturas já estão em inúmeros países da América – USA e Canadá – e Europa – Finlândia, Inglaterra, Suécia e outros.

Já realizou exposições por vários estados do Brasil. Também foi capista da Editora Estronho e realizou cartazes para filmes, estando sempre aberta às mais variadas encomendas.

Agora Leyla se prepara para uma importante exposição coletiva em Porto Alegre que irá acontecer no mês de Maio próximo, ao lado de importantes artistas brasileiros. Em breve divulgarei aqui essa exposição e em maio estarei lá fazendo a cobertura. Adianto que é imperdível e tem a ver com o FantasPoa 2018.

Leyla Buk

Segue a entrevista que realizei com Leyla para o Canibuk.

Petter Baiestorf: Gostaria que você contasse como começou seu interesse pela arte e, também, sobre seus primeiros trabalhos.

Leyla Buk: Me interesso por arte desde que me entendo por gente. Minhas memórias mais fortes da infância são aquelas que envolvem algum tipo de arte, em casa ou no colégio. Não lembro muito dos meus primeiro trabalhos, mas eu desenhava o tempo todo. Eu fui uma criança estranha e que não se encaixava muito nas coisas. Desenhar me libertava. A arte pra mim é e sempre foi uma necessidade, uma busca por respostas, por algum tipo de salvação. E me salva. Sempre me salvou.

Buky

Baiestorf: Sua arte sofre influências de quais artistas e escolas estéticas. Fale o que te atraí neles, se quiser falar sobre os porquês seria muito interessante.

Leyla: A lista de influência é grande, de varias escolas, varias épocas e lugares, por varias razões. Eu bebo de muitas fontes, de renascentistas à artistas pop do “momento”, todos têm uma importância e fazem ou fizeram parte de algum momento meu. Eu gosto muito dos expressionistas do começo do século XX, quanto movimento, quanto proposta, quanto resposta. Artistas como Schiele sempre me influenciaram demais, pela coragem, pelo sentimento, pela angústia, pelo peso psicológico, pelo estilo. Sempre tive na arte um lugar onde posso buscar respostas e exorcizar meus demônios. Um lugar onde me encaixo e posso ser livre. Por isso me identifico muito com artistas assim. Picasso é um cara que tem uma importância enorme pra mim, porque com ele eu aprendi que não tem problema mudar, não tem problema ter muitas fases, não tem problema ser livre nesse sentido. Que meu compromisso maior é com o que sinto e com minha verdade. E eu tenho muitas fases, quem me acompanha sabe. Talvez um dia alguém vai nomear cada uma delas como fizeram com ele? “Essa é a fase preta”, “essa é a fase ocre”, “essa é a fase niilista” e arrumar justificativas pra cada uma (risos). Apenas deixem ser. Mas pra falar mais alguns nomes cito caras como da Vinci, Rembrandt, Caravaggio, Hans Memling, Bosch, Botticelli, Klimt, Van Gogh, Modigliani, Rothko. Muitos outros. Sempre da medo de esquecer alguém muito importante. E sei que esqueci. O mundo a minha volta, as pessoas com as quais eu convivo e sempre me ensinam algo, família, amigos próximos, quem eu amo e qualquer pessoa que faça o que gosta com vontade e paixão me inspira. Pode ser o maior artista vivo ou o tiozinho da esquina que vende pipoca. Gentileza, empolgação e sonhos me motivam. Inocência idem. Cinema, literatura e música também têm forte influência sobre meu trabalho, desenhos, pinturas, esculturas… Estão presentes em absolutamente tudo. Mas eu vou parar por aqui senão não vai acabar nunca essa resposta.

Stillness, 2018

Baiestorf: Com sua arte você está aberta a todo tipo de trabalho ou gostaria de se especializar somente em uma área? Porque?

Leyla: Assim, dentro da minha área eu estou aberta a tudo, porém cada coisa no seu tempo. Eu me interesso por muitas coisas, mas eu não me vejo fazendo varias coisas de áreas diferentes, eu jamais conseguiria fazer bem todas elas. Eu sou intensa demais no que eu faço então eu gasto toda energia naquilo, não conseguiria fazer isso com varias coisas. Algo sairia mal feito ou não teria a mesma atenção e cuidado que merece e eu iria sucumbir também, certamente (risos).

Baiestorf: Conte sobre suas exposições e como produtores poderiam levá-la para suas cidades/estados.

Leyla: Acho que minha primeira exposição foi em 2010, em Maceió. Num bar que reuniu vários artistas undergrounds de vários estilos. Na época eu estava forte na fase erótica e tinha acabado de começar a pintar (olha eu já definindo minhas fases tipo Picasso – risos). Depois expus em outros lugares também, todas exposições coletivas. Todas importantes, mas lembro com muito amor da exposição na Mondo Estronho que aconteceu em 2015 em Curitiba, onde expus umas 20 peças inspiradas no cinema de horror das décadas de 20 a 50, filmes que tem grande influência na minha vida e na minha arte. Depois, em 2016, expus em alguns eventos em Porto Alegre também. Se alguém tiver interesse em promover alguma exposição com meus trabalhos pode entrar em contato comigo pelo e-mail bukleyla@gmail.com e podemos acertar todos os detalhes.

Edgar Allan Poe, 2017

Baiestorf: Como é realizar trabalhos artísticos aqui no Brasil? Há reconhecimento? Oportunidades?

Leyla: Eu me sinto privilegiada por poder trabalhar com o que eu amo em tempo integral e me dedicar apenas a isso, isso pra mim já vale por qualquer reconhecimento, fama, o que for, porque eu sei que essa não é a realidade da maioria. Eu já trabalho nisso ha algum tempo e estou incansavelmente fazendo alguma coisa. A gente tem que abraçar qualquer oportunidade que apareça. A divulgação é nossa maior amiga nisso tudo e a internet oferece muitos meios pra isso. Eu tento aproveitar cada um deles.

Baiestorf: Você está com trabalhos em finalização? Poderia falar sobre eles e como o público poderá acompanhá-los?

Leyla: Eu sempre estou com trabalhos em andamento. No momento, estou trabalhando em algumas ilustrações novas e finalizando dolls de algumas encomendas. Quem quiser obter informações ou fazer pedidos (eu aceito encomendas das BukDolls, dos Monkus, das Bukys, de pinturas e de ilustrações também) pode entrar em contato através do e-mail bukleyla@gmail.com ou pelas minhas redes sociais no Instagram @leylabuk e Facebook @LeylaBukArt.

Mary Shaw (Dead Silence), 2018

Baiestorf: E seus projetos? É possível sabermos um pouquinho deles?

Leyla: Entre os outros trampos em andamento estou trabalhando também numas peças pra uma exposição que vai acontecer em maio. Darei mais detalhes em breve.

Baiestorf: Geralmente a arte no Brasil é produzida de forma independente e é difícil conseguir se manter. O que você gostaria de observar sobre isso.

Leyla: A gente tem que aprender a lidar com os altos e baixos disso tudo. Pesa mais pra gente quando pesa pra todo mundo. Mas o amor pelo o que faço é o que me move. Eu realmente não sei se saberia fazer outra coisa da minha vida! Então fica tudo muito pequeno quando penso no prazer que é poder fazer o que faço.

Baiestorf: O espaço é seu para as considerações finais:

Leyla: Obrigada, Petter, pelo espaço e pelo apoio sempre! Isso é muito importante quando a gente faz tudo por conta própria e não tem patrono, não tem arte em grandes galerias ou não morreu ainda pra que a obra, quem sabe, passe a valer alguma coisa. Valorizem os artistas enquanto vivos! Consumam sua arte! Divulguem! Apreciem! A arte salva.

Monkus, 2016

Contatos de Leyla Buk:

Email:  bukleyla@gmail.com

Instagram: @leylabuk

Instagram: @_monku_

Facebook: @LeylaBukArt

Artes de Leyla Buk:

 

Cat, 2018

Pennywise – It, 2018

Vampira e Bride of Frankenstein, 2017

Mina (Bram Stoker’s Dracula), 2017

Vanessa Ives – Possession, 2017

Edward Scissorhands Black and White, 2017

Vampira, 2016

Canibuk Apresenta: A Arte de Kell Candido

Posted in Arte e Cultura, Entrevista, Ilustração with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on março 5, 2018 by canibuk

Kell Candido, 31 anos, residente em Sumaré/SP, é ateia, fã de Black Metal, leitora de literatura de horror e possuidora de um traço que explora a Dark Art. O que destoa, talvez, seja sua paixão pelo time colorado – Internacional – do Rio Grande do Sul.

Kell também desenha aliens espetaculares e foi por conta de seus aliens – sou um apaixonado pela temática sci-fi e ufologia – que comecei a segui-la nas redes sociais a fim de acompanhar a evolução de seus trabalhos. Aliás, acredito que Kell seria uma capista fantástica para bandas de Black Metal, Heavy Metal e afins do gênero.

Apesar de não ser uma profissional das artes, acho o trabalho dela interessante, tanto que a convidei para essa série de entrevistas com artistas gráficas que admiro. E não sou somente eu que admiro os trabalhos de Kell, ultimamente ela usa “marca d’água” em suas ilustrações porque costumeiramente tem seus trabalhos roubados. Pessoal que rouba ilustrações, uma dica, valorize o trabalho dos artistas pagando o justo por suas criações.

Conheça um pouco mais de Kell Candido e seu trabalho na entrevista abaixo:

Kell Candido

Petter Baiestorf: Gostaria que você contasse como começou seu interesse pela arte e, também, sobre seus primeiros trabalhos.

Kell Candido: Desde muito pequena eu sempre “desenhei”. Sempre lia livros de terror/ horror e botava no papel o que eu sempre imaginava sobre as estórias que lia. Sempre tive a imaginação um tanto fértil. Meus primeiros desenhos foram por volta dos meus 7, 8 anos de idade. Hoje eu nem lembro mais quais foram os primeiros.

Baiestorf: Sua arte sofre influências de quais artistas e escolas estéticas. Fale o que te atraí neles, se quiser falar sobre os porquês seria muito interessante.

Kell: Eu não tenho um artista preferido. Quando descubro algum que faz mais ou menos o mesmo tipo de arte obscura, eu passo a seguir nas redes sociais. Hoje em dia eu sigo mais tatuadores gringos que fazem blackworks. Quanto mais sombria e sem cor for a arte do sujeito, mais me agrada.

Baiestorf: Com sua arte você está aberta a todo tipo de trabalho ou gostaria de se especializar somente em uma área? Porque?

Kell: Meu interesse é na dark art. Desde que me entendo por gente, na verdade. É claro que ás vezes eu dou uma variada, coloco cores em algumas coisas. Já pintei livros de colorir (aliás, foi com eles que “aprendi a colorir com lápis de cor”), mas se você prestar atenção, até nos livros de colorir “fofinhos” eu vou colocar algum elemento do mal.

Baiestorf: Conte sobre suas exposições e como produtores poderiam levá-la para suas cidades/estados.

Kell: Nunca expus minha arte. Mas seria interessante um dia eu ter uma coleção legal de aliens, demônios, olhos (minha fixação), e sei lá que outros espectros saírem da minha mente, e poder mostrar.

Baiestorf: Como é realizar trabalhos artísticos aqui no Brasil? Há reconhecimento? Oportunidades?

Kell: Não existe reconhecimento. Você viver de arte aqui no Brasil, com exceção de alguns que ralaram muito, é querer morrer de fome. As pessoas raramente dão valor no seu trampo, a maioria das pessoas pedem desenhos de graça como se o material de desenho brotasse lindamente do chão. Não é assim. O material é caro, e o tempo do artista também tem que ser muito valorizado. Arte é sentimento. Eu desenho apenas por prazer, muito raro presentear algum amigo querido com minha arte, porque não são todos que conseguem enxergar além do ato de rabiscar numa folha de papel.

Baiestorf: Você está com trabalhos em finalização? Poderia falar sobre eles e como o público poderá acompanhá-los?

Kell: Eu estou sempre com algum desenho em progresso. Ás vezes no meio do trampo a inspiração some e eu guardo pra continuar depois.
Podem me acompanhar pelo meu deviantart: www.kellcandido.deviantart.com ou pelo meu instagram @kellcandido.

Baiestorf: E seus projetos? É possível sabermos um pouquinho deles?

Kell: No momento estou apenas trabalhando e estudando, então estou com o tempo bem apertado pros meus projetinhos. Mas de vez em quando eu apareço com algum olho ou ET recém saído da minha imaginação doentia.

Baiestorf: Geralmente a arte no Brasil é produzida de forma independente e é difícil conseguir se manter. O que você gostaria de observar sobre isso.

Kell: Conheço alguns artistas que hoje conseguem se manter, mas depois de anos de muita dificuldade. Admiro quem arrisca e tenta a duras penas viver de arte. Mas também tenho pena pela arte no geral ter pouca atenção no país. País sem cultura e educação é isso, Petter: a massa só consome lixo. E o artista sempre sendo visto como vagabundo.

Baiestorf: O espaço é seu para as considerações finais:

Kell: Eu quero agradecer á você por esse reconhecimento e carinho. Fiquei muito feliz pelo convite e espero que a galera curta minhas rabisqueiras.
Quero agradecer á todos que me incentivam, que gostam do meu trabalho.
Não sou profissa, o que faço é porque gosto e me faz bem rabiscar.
Bom 2018 á todos 😊

Contatos com Kell Candido:

https://kellcandido.deviantart.com

instagram: @kellcandido

Artes de Kell Candido:

Canibuk Apresenta: A Arte de Ariane Nunes

Posted in Arte e Cultura, Entrevista, Pinturas with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on fevereiro 26, 2018 by canibuk

Ariane Nunes é mineira, natural de Governador Valadares, apaixonada por desenhos, filmes e boa música (em suas palavras, “cara, heavy metal é uma loucura!”), começou a trabalhar sua arte, bastante original, a pouco tempo – aproximadamente um ano atrás. Se mantém trabalhando num escritório de advocacia enquanto faz faculdade de enfermagem. Mas não seria incrível e gratificante se artistas pudessem viver se dedicando somente à sua arte?

Conheci Ariane por conta dos filmes que produzo e passei a acompanhar seus perfis de redes sociais para acompanhar a evolução de seus trabalhos. Sou um grande apreciador da técnica de pintura envolvendo linhas e ondas, então imaginem minha alegria/satisfação quando ela resolveu pintar O Monstro Legume do Espaço, talvez minha personagem mais conhecida no underground nacional.

O Monstro Legume

Segue uma pequena entrevista que realizei com Ariane, ao fim das perguntas deixo os contatos dela para quem gostar dos trabalhos poder entrar em contato e fazer encomendas.

Petter Baiestorf: Gostaria que você contasse como começou seu interesse pela arte e, também, sobre seus primeiros trabalhos.

Ariane Nunes: Sempre me interessei pela arte em suas diversas vertentes, seja música, filmes, teatros, e ilustrações, é claro! Comecei a fazer como forma de terapia e passar tempo, a fim de me tornar uma pessoa mais paciente e com menos vontade de explodir a cidade em que moro. Peguei meu caderno de anatomia (que comprei pra faculdade e usei apenas 10 folhas) e comecei a fazer desabafos, com imagens, nas folhas que restaram. Isso me fez gostar cada vez mais de desenhar e colocar no papel tudo aquilo que a boca queria gritar e não conseguia. Então, conheci uma pessoa que me mostrou essa técnica cheio de linhas e ondas que podem se transformar na viagem que eu quiser! A partir daí, comecei a fazer telas, e me encantei com essa coisa de dimensões, universos, abismos e devaneios. Meu primeiro trabalho foi um quadro referenciando o filme “Pulp Fiction”, do Tarantino. Gostei do resultado e não parei mais de rabiscar aquelas linhas simetricamente perturbadoras! Posso dizer que meu real interesse por fazer arte começou quando percebi que ela substituiria um bom psiquiatra. Desde então, as paredes da sala da minha casa podem causar tonturas.

Ariane Nunes

Baiestorf: Sua arte sofre influências de quais artistas e escolas estéticas. Fale o que te atraí neles, se quiser falar sobre os porquês seria muito interessante.

Ariane: Aprendi essa técnica de linhas e ondas com um grande amigo do coração, então diria que ele foi um fragmento de influência. Procuro referências na música, na natureza, filmes, no meu estado mental… não procuro me espelhar em ninguém, mesmo parecendo ser presunçoso juro que não é! Os trabalhos que faço tem fragmentos de minha alma. São artes com sentimentos bem pessoais. Procuro colocar na tela o que minhas mãos e mente pedem na hora. Por exemplo, quando me encomendam um quadro referenciando algum personagem, uso, e o resto é viagem. Feito sem rascunho, livre, como tem que ser! Mas gosto bastante da arte expressionista abstrata, gosto do que faz a cabeça sair do corpo e entrar em transe! Gosto de obras perturbadoras, que mexem com o estado de espírito (não que eu faça exatamente e exclusivamente isso).

Baiestorf: Conte sobre suas exposições e como produtores poderiam levá-la para suas cidades/estados.

Ariane: Faço minhas exposições online, através de Instagram e Facebook. Ainda não fiz uma exposição física, não tem muito tempo que comecei a divulgar meus trabalhos. Meu tempo, aqui na cidade mais quente do Brasil, é um pouco limitado. Estou me formando agora em um outro tipo de arte (de cuidar das pessoas), por isso existe essa limitação. Mas caso surja interesse de algum produtor, é só entrar em contato através de redes sociais. Seria um prazer e também seria minha primeira vez em alguma exposição.

Baiestorf: Como é realizar trabalhos artísticos aqui no Brasil? Há reconhecimento? Oportunidades?

Ariane: Difícil, pessoalmente dizendo. Tudo que é um pouco diferente do comum as pessoas têm certa resistência em aceitar, principalmente se tratando de trabalhos manuais que não tem o valor reconhecido por muitos. Porém, meu trabalho tem me deixado satisfeita. Já mandei telas para algumas cidades no sudeste e nordeste, e já tenho encomendas para o sul! Apesar de achar difícil realizar trabalhos independentes aqui no país, acredito que mesmo com os obstáculos e falta de ‘’ empurrões’’, a oportunidade quem faz somos nós!

Baiestorf: Você está com trabalhos em finalização? Poderia falar sobre eles e como o público poderá acompanhá-los?

Ariane: Sim! Tenho trabalhado em uma tela que estou apaixonadíssima em fazer! Estou finalizando esse trabalho que tem sido um dos meus maiores desafios. Tem a ver com noite, castelo, almas e florestas. Parece um tema clichê pra caramba, mas estou tentando buscar uma atmosfera única, bela e sombria. Eu só publico nas redes sociais quando está pronto, porque cada traço me dá uma ideia, e quando termino, as vezes sai algo completamente diferente da ideia inicial. Como disse anteriormente, gosto de deixar a mente guiar as mãos. Mas assim que terminar, vou estar postando no Instagram e espero ter boa aceitação e resultado.

Baiestorf: E seus projetos? É possível sabermos um pouquinho deles?

Ariane: Claro! Estou com a ideia de um projeto ‘’ Senhores do Horror’’, onde farei 6 telas em tamanho 30×40 com personagens dos filmes clássicos do terror. Já decidi todos os personagens que usarei, e espero que vá para parede de um fã incondicional dos clássicos do medo. Esse projeto já está na minha cabeça a algum tempo, mas só agora vou conseguir concretiza-lo. Estou ansiosa para ver o resultado! Posteriormente, quero realizar em apenas uma tela, um trabalho com várias referências musicais. Um mix de bandas clássicas com uma atmosfera psicodélica. Vamos ver…

Baiestorf: Geralmente a arte no Brasil é produzida de forma independente e é difícil conseguir se manter. O que você gostaria de observar sobre isso.

Ariane: Existem políticas de apoio à arte no país, mas o público está cada vez mais desinteressado, no meu ponto de vista. As pessoas também estão desistindo de fazer, seja pelo desânimo ou mesmo pela falta de retorno de seus investimentos. Não generalizando, claro. Hoje em dia se faz música no computador, monta desenhos, imprime e emoldura, faz efeitos especiais, mudam vozes, acrescentam dragões. Isso é bom, óbvio. É ótimo ter recursos para melhorar o trabalho de um artista, mas por outro lado, o público desvaloriza financeiramente falando, o trabalho manual de quem ainda o faz, aquele trabalho que não são feitos de pixels. A maior dificuldade é ainda a falta de retorno, principalmente financeiro. Isso acaba desanimando muita gente fazendo com que o artista desista do seu sonho e faça da arte apenas um hobbie, e não um trabalho.

Baiestorf: O espaço é seu para as considerações finais:

Ariane: Gostaria de agradecer pela oportunidade de estar divulgando meu trabalho através do blog. É extremamente gratificante esse reconhecimento e foi de grande prazer responder cada pergunta. Principalmente, quando se trata de alguém o qual tem minha total admiração pelos trabalhos realizados! Espero contribuir de alguma forma com o crescimento do seu trabalho, e também do meu. Agradeço também, antecipadamente, a todos que lerão essa entrevista, gostando ou não! Não sou muito boa em palavras, então é isso! Vida longa a todos, e que a loucura sempre esteja presente na vida de cada um.

Contatos de como comprar/encomendar (e acompanhar) seu trabalho:

E-mail: Ariane-nr@hotmail.com

Tel/whatsapp: 033 991995704

Facebook: https://www.facebook.com/ariane.nunes.1238

Instagram: @arianenr6

Trabalhos de Ariane Nunes:

Canibuk Apresenta: A Arte de Talita Abreu

Posted in Arte e Cultura, Entrevista, Ilustração, Pinturas with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on fevereiro 19, 2018 by canibuk

Talita Abreu é uma artista que acompanho a algum tempo e me impressiona sua dedicação às artes gráficas, sempre em constante evolução em seus trabalhos que são bem ecléticos – algo que admiro muito nos artistas gráficos – e que vão de trabalhos infantis até ilustrações fetichistas de BDSM, como essa abaixo que ela fez exclusivamente para o Canibuk.

BDSM

Nascida em 1984 no Rio de Janeiro/RJ, ainda jovem fixou residência em Resende/RJ, cidade próxima de São Paulo, a capital paulista onde passou a frequentar inúmeros cursos de arte.

Talita realiza trabalhos de freelancer aceitando encomendas de quadros, grafite, ilustrações para livros e contos, ilustração editorial, capas, incluindo até encomendas pessoais de apreciadores e colecionadores de arte.

Paralelamente cursa a faculdade de licenciatura em Artes Visuais a fim de complementar seu trabalho como professora de artes, desenhos e pinturas para adultos, crianças e pessoas com necessidades educativas especiais.

Abaixo uma pequena entrevista que realizei com Talita Abreu para apresentá-la aos leitores do Canibuk. Se você gostou da arte de Talita ao final da entrevista deixo os contatos para que possa encomendar as artes originais desta brilhante artista.

Talita Abreu

Petter Baiestorf: Gostaria que você contasse como começou seu interesse pela arte e, também, sobre seus primeiros trabalhos.

Talita Abreu: Eu simplesmente sinto que nasci artista, e não que me tornei uma. Ballet, fotografia, violino, escrita, teatro, desenho, tudo isso sempre fez parte do meu dia-a-dia, então eu não sei onde eu começo ou a arte termina. Transformar isso em uma profissão é que é a batalhe dos séculos. Com os anos fui me aprimorando e isso é uma constante, acredito que deva ser. Me dedico a cursos e à horas intermináveis de estudo, até que comecei a conseguir realizar projetos e me expressar melhor através da mídia que eu queria. Eu sei que precisamos almejar coisas grandiosas, mas eu sou simplesmente muito feliz trilhando o caminho.

Baiestorf: Sua arte sofre influências de quais artistas e escolas estéticas. Fale o que te atraí neles, se quiser falar sobre os “porquês” seria muito interessante.

Talita: Eu amo o que vai além da cópia perfeita, gosto de sentir a textura dos lápis e das tintas, das estilizações com proporções harmoniosas, distorcidas ou não, do movimento, da fluidez da composição de um desenho ou pintura, de composições cromáticas perfeitas, mas acima de tudo da criatividade. Uma boa ideia que foi bem executada pode te levar a uma reflexão infindável, pode te fazer se apaixonar instantaneamente.
Dos artistas que mais me inspiram a suma maioria são mulheres fantásticas: Chiara Bautista, Loish, Michael Huassar, Chris Hong, Lora Zombie, Bianca Nazari e Ursula Dourada.

Baiestorf: Com sua arte você está aberta a todo tipo de trabalho ou gostaria de se especializar somente em uma área?

Talita: Não consigo olhar pra mim mesma e me encaixar em uma área só. Eu amo tudo e tenho curiosidade por tudo! A ilustração é minha área de atuação e mesmo dentro dela eu adoro transitar entre materiais diferentes e conhecer e estudar tudo o que eu puder. Essa é a beleza de uma mente que não para, mesmo que a gente precise se forçar ao extremo para segurar o foco no topo da lista.

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Baiestorf: Conte sobre suas exposições e como produtores poderiam levá-la para suas cidades/estados.

Talita: De aquarelas de todos os temas, ilustrações e histórias infantis, ilustrações de horror, BDSM, retratos femininos de modelo vivo, séries de pinturas de personagens Star Wars, aulas e workshops de desenho e aquarela, eu possuo um acervo que pode agradar a públicos do 8 ao 80 e estou sempre aberta a propostas e projetos. Basta entrar em contato e com certeza algo bacana nasce.

Baiestorf: Como é realizar trabalhos artísticos aqui no Brasil? Há reconhecimento? Oportunidades?

Talita: É muito complicado e não acredito que isso seja segredo pra ninguém. A coisa vem com muita luta, pouco apoio, pouquíssimo reconhecimento. É legal que trabalhemos por amor, mas pagar as contas não é uma condição que a gente possa abrir mão. A maioria das “oportunidades” são na verdade pessoas oportunistas querendo trabalho de graça, mas também existem algumas poucas pessoas incríveis que sabem dar oportunidades reais a artistas.
Precisamos de uma conscientização maior sobre o que é viver de arte para que as pessoas entendam que não é um caminho fácil… Ouvir coisas do tipo “você só desenha ou trabalha também?” mostra o quanto o brasileiro ainda está meio que “lá atrás” quando se trata de arte, ver a galera pagando 500 reais no ingresso do artista internacional tal mas não consegue despender 50 conto no livro do amigo que mora na tua cidade, diz muito sobre como a nossa mentalidade alcança um ponto limitado às vezes. Precisamos muito de reconhecimento, sim, mas mais oportunidades de ser o que somos.

Trio de Doces

Baiestorf: Você está com trabalhos em finalização? Poderia falar sobre eles e como o público poderá acompanhá-los?

Talita: Estou terminando um livro que espero que seja lançado até o final de 2018 e ilustrando para um autor de horror maravilhoso e pretendemos lançar em Setembro também desse ano. Não posso falar muito desses, mas logo logo uma coisa ou outra começa a apontar por aí.

Faço atualizações constantes nas minhas redes sociais que são minha página no facebook e instagram: @talitaabreu.art

Pra comprar material meu, fazer encomendas ou falar sobre projetos, as pessoas podem entrar em contato comigo por essas redes sociais ou irem direto no site:
http://www.capitaodoce.com.br

Baiestorf: E seus projetos? É possível sabermos um pouquinho deles?

Talita: Tenho um projeto em andamento com mulheres voluntárias que posam para mim e contam suas histórias de abuso e uma série de ilustrações sobre BDSM também em andamento. Qualquer mulher que queira participar do projeto Ser Mulher, pode entrar em contato via e-mail:
talitaabreu.art@gmail.com

Baiestorf: Geralmente a arte no Brasil é produzida de forma independente e é difícil conseguir se manter. O que você gostaria de observar sobre isso.

Talita: A arte independente depende de vários fatores e pra ser um apoiador, claro que você pode comprar os produtos, mas a divulgação não custa nada e também é fundamental. Se você gosta de um artista, divulgue a arte dele, fale dele pros seus amigos, comente e compartilhe suas postagens, vá a seus eventos, mostre ele por aí, porque assim você não só faz a arte circular e se tornar algo vivo, como ajuda a gerar renda para esses artistas para que eles continuem fazendo arte! Assim você literalmente faz a arte existir.

Sad Devil 2

Baiestorf: O espaço é seu para as considerações finais:

Talita: Queria primeiro agradecer ao Petter por todo o carinho e consideração com os artistas. É difícil ver alguém que não gira em torno dos próprios projetos e está sempre procurando uma forma nova de entrar em contato com os outros e fazer a arte deles crescer. É de pessoas assim que podemos fazer um país onde a arte prospere e se expanda. A oportunidade de estar aqui no seu blog e inaugurar esse hall de entrevistas me põe um baita sorriso no rosto… Obrigada Petter! Se você é um aspirante a artista, eu só posso te dizer… Lute pela sua arte, mas antes de mais nada, estude, estude sempre, estude MUITO!!! A gente nunca vai ser o melhor no que fazemos, então a humildade é um órgão vital a partir do momento em que você se compromete com você mesmo e com a verdade. Fale com outros artistas, saia da sua zona de conforto. E obrigada a você que leu minha entrevista e se deu uma oportunidade de ver as coisas desse ponto de vista. Queria deixar o canal aberto para a comunicação comigo por qualquer meio que te for mais confortável. E não se esqueça… Apoie os artistas!

Contatos:

Facebook: http://www.facebook.com/talitaabreu.artwork
Instagram: @talitaabreu.art

site: www.capitaodoce.com.br

e-mail: talitaabreu.art@gmail.com

Artes de Talita Abreu:

Marie Antoinette

 

Nosferatu

 

Sketchbook page 2017-2018 – 5G-E

 

Suculentas

Remake, Remix, Rip-Off: Cem Kaya fala sobre o Inspirador Cinema Popular Turco

Posted in Cinema, Entrevista with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 3, 2016 by canibuk

“Remake, Remix, Rip-Off: About Copy Culture & Turkish Pop Cinema” (2014, 96 min.), de Cem Kaya, ganha exibição neste dia 04 de outubro no Interzona Cineclube (Cine Odeon, Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, no Rio de Janeiro), às 20:30 com ingresso online sendo vendido aqui no CCLSR.

interzona

 

“Remake, Remix, Rip-Off” conta a história do Cinema Turco entre as décadas de 1960 e 1970, quando a  Turquia ostentava o título de um dos maiores polos produtores de cinema do mundo, apesar de sua indústria de cinema sofrer de um déficit criativo crônico: a falta de roteiristas. A fim de manter o fluxo de filmagens, produtores turcos copiavam roteiros e argumentos de produções internacionais. Assim, para qualquer título de sucesso, como Tarzan, Drácula ou Star Trek, passou a existir uma versão turca. Este documentário nos apresenta a época de ouro do cinema popular turco, quando os diretores deviam ser rápidos e os atores resistentes.

Aproveitando essa exibição no Rio de Janeiro entrei em contato com o diretor Cem Kaya e solicitei uma entrevista sobre seu documentário e a indústria cinematográfica turca e fui prontamente atendido. Cem Kaya é extremamente simpático e seu filme, “Remake, Remix, Rip-Off” um dos mais divertidos e inspiradores documentários que tive o prazer de assistir nos últimos tempos. O cinema Turco e o cinema brasileiro são irmãos bastardos e possuem muitas coisas em comuns, como Kaya atesta na entrevista.

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Cem Kaya

Baiestorf: Sou um grande fã do cinema realizado na Turquia entre os anos 60 e 80 e seu documentário expandiu ainda mais  meus horizontes de cinéfilo. Como surgiu a idéia de documentar este período do cinema de seu país?

Cem Kaya: Eu nasci na Alemanha, em uma comunidade de trabalhadores expatriados turcos na década de 70. Então, não assisti os Yesilçam movies nos cinemas da Turquia e sim em VHSs lançados na Alemanha. Por falta de conteúdo turco na TV alemã, o surgimento dos aparelhos de VHS abriu um imenso mercado para distribuidores de filmes turcos. Vídeo clubes surgiram em todos os lugares. Meu padrasto, que tinha uma mercearia, possuía num cantinho uma sessão de vídeos turcos. Então tive acesso imediato a estes filmes. Nestas lojas não havia somente filmes turcos, mas também muitas produções de Bollywood e Hong Kong dubladas em turco. Os filmes turcos eram de todos os tipos, de melodramas em preto e branco dos anos 60, passando por comédias sexuais dos anos 70, ultra brutais filmes de vingança tipo os dirigidos por Çetin Inanç nos anos 80, até filmes de arte de diretores como Yilmaz Güney. Anos mais tarde, na faculdade, escrevi minha tese de mestrado sobre remakes turcos e, a partir de minha pesquisa acadêmica, desenvolvi o roteiro de “Remake, Remix, Rip-Off”.

Baiestorf: Parece-me que há muitas produções deste período ainda esperando parar serem descobertas pelo resto do mundo.

 

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Íntíkamci

Kaya: O Turkploitation é conhecido por seus notórios remakes, ou reinterpretações como “3 Dev Adam”, “Star Wars Turco” ou o “Turkish Exorcist”. Mas há muito mais remakes ou re-imaginações turcas do que se pode imaginar, porque os roteiristas trabalhavam muito remodelando as histórias. As vezes, assistindo um filme, eu acho que sei para onde a história vai ir, mas, em certo ponto, há uma torção e, de repente, estou numa nova história. Além disso há alguns diretores, não tão cultuados quanto Çetin Inaç ou Yilmaz Atadeniz (que nós amamos), que devemos assistir duas vezes. Um deles é Yilmaz Duru que realmente tinha estilo próprio, outro é Cevat Okçugil (e seu irmão Nejat Okçugil) e meu diretor favorito no cinema turco, Aykut Düz. Por exemplo, há um filme de Aykut Düz chamado “Muhtesem Serseri” (“O Maladro Grandioso”) que nada mais é do que um remake de “3:10 to Yuma” (“Galante e Sanguinário”, 1957) misturado com “Midnight Run” (“Fuga À Meia-Noite”, 1988) que foi lançado no mesmo ano. Ele se desenvolve na Turquia contemporânea  e é engraçadíssimo porque a dupla de atores do filme ((Cüneyt Arkin e o próprio Aykut Düz) e comportam como Terence Hill e Bud Spencer. Os diálogos são hilários e as filmagens beiram o documentário, retratando fielmente os distritos de Luz Vermelha em Istanbul. Você não encontra este filme nas listas de remakes turcos.

 

Baiestorf: Foi fácil encontrar e convencer os velhos cineastas à darem depoimentos? Aqui no Brasil a velha geração de cineastas fica desconfiada quando novos cineastas tentam entrevista-los.

Kaya: A maioria dos cineastas foram bastante amigáveis e estavam prontos para contar suas histórias. O Yesilçam Cinema é considerado cinema industrial convencional sem valor artístico. Então, quando um cara vem da Alemanha e está seriamente interessado em registrar este cinema, mesmo os céticos ficam lisonjeados e aceitam dar entrevista. Fizemos uma centena de entrevistas, das quais cerca de cinquenta estão no filme. Talvez no Brasil também tenha que vir alguém de fora registrar o cinema popular brasileiro.

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Baiestorf: É possível você apresentar um pouco da indústria cinematográfica turca para os cinéfilos do Brasil.

Kaya: Mesmo com o atraso em vários aspectos culturais do Império Otomano, os equipamentos cinematográficos chegaram cedo ao país através de um empresário chamado Sigmund Weinberg  . Mas infelizmente o cinema não se desenvolveu completamente até a década de 1950. Escolas de cinema não existiram até meados de 1970, ironicamente, surgiram num momento em que o Yesilçam Cinema entrou em crise. Aprender a fazer cinema só era possível artesanalmente ou assistindo a produções estrangeiras que eram exibidas dubladas nos cinemas das grandes cidades. Na década de 30 existiu apenas um diretor, Muhsin Ertugrul, que teve alguma educação sobre cinema no exterior. Na década de 40 alguns novos cineastas surgiram, como Baha Gelenbevi e Faruk Kenç, mas estes tiveram que lidar com os efeitos econômicos da segunda guerra mundial que tiveram um grande impacto na Turquia. Existem três razões principais pelas quais uma indústria cinematográfica como a de Yeşilçam possa surgir do nada:

1- Em 1948 o imposto de entretenimento foi reduzido para os filmes turcos, mas não para os filmes estrangeiros. Então a produção de filmes tornou-se lucrativa;

2- O governo do Partido Democrático (eles não eram democráticos em tudo), na década de 1950, estimulou a economia e levou eletricidade para muitas regiões da Anatólia, onde, em seguida, vários cinemas surgiram;

3- Os importadores de cinema estrangeiro não tinham redes de distribuição na Anatólia.

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Kilink Istanbul’da

Essas circunstâncias criaram um mercado no interior da Anatólia. Assim, de repente, cineastas turcos tinham de produzir centenas de filmes para o público rural com fome de histórias nacionais. Para ser capaz de alimentar o mercado, o cinema de Yesilçam (que é o nome de uma rua em Istanbul onde as empresas tiveram seus escritórios, comparável a Boca do Lixo paulista) teve de produzir histórias rápidas e baratas, sob medida para o gosto de seu público rural. Devido a falta de pessoal competente, roteiristas muitas vezes adaptavam histórias que tinham visto em faroestes. Devido a falta de leis e acordos internacionais de direitos autorais, a indústria local estava “autorizada a emprestar” roteiros, trilhas sonoras e, muitas vezes, até mesmo trechos de filmes ocidentais de sucesso que foram, elegantemente, editados com o material filmado pelos cineastas. Quando, por exemplo, tinham de mostrar terremotos, perseguições de carros ou um combate espacial, filmes de sucesso forneciam o material de arquivo. Mas muitos cineastas turcos também fizeram filmes importantes, cineastas como Metin Erksan ou o curdo Yilmaz Güney, produziram filmes de ação baratos e melodramas de doenças terminais para as massas, mas também cinema sério sobre temas socialmente relevantes, a maioria dos quais hoje clássicos do cinema turco. O cinema de Yesilçam teve seu auge na década de 70 com suas comédias sexuais, muito semelhantes à pornochanchada realizada na Boca do Lixo paulista. Dois golpes militares (1971 e 1980), censura severa e, finalmente, com o advento da televisão no final dos anos 60, o cinema foi perdendo força. 1989/1990 são considerados os últimos anos do cinema de Yesilçam. Com o surgimento da TV a cabo uma nova forma de entretenimento apareceu: Os seriados de TV. Turquia, assim como o Brasil, é um dos maiores produtores de novela do mundo.

 

Baiestorf: Assistindo seu documentário temos uma ideia de como os cineastas sofriam com a censura. E nos dias de hoje? Como funciona a censura, há mais liberdade para se fazer filmes?

Kaya: Desde seu início o cinema turco sofreu com a censura. O conselho de censura que foi fundado nos anos 30 tinha de liberar os roteiros e depois conferir os filmes produzidos. Os membros do conselho eram representantes da polícia, militares, o ministério da educação e assim por diante. Assim, os cineastas precisavam pensar em roteiros que fossem aprovados pelo conselho, desnecessário dizer que eles não eram muito corajosos. Eles tinham que ter muito cuidado para não colocar assuntos sociais ou políticos em seus filmes. Nada contra o sistema político poderia aparecer, sob risco de serem considerados propaganda esquerdista e, portanto, proibidos. Muitos filmes estavam autorizados a serem exibidos apenas na Turquia porque o governo temia que eles poderiam denegrir a imagem do país no exterior. Muitos filmes só puderem ser exibidos após terem ganhado processos contra o conselho de censura na suprema corte. A censura hoje é muito pior do que nos tempos do cinema de Yesilçam. Estamos vivendo sob uma ditadura muçulmano radical com agenda neo liberal na Turquia. Todas as formas de cultura (cinema, imprensa, teatro, artes, literatura, até a vida social) estão sofrendo muito com a censura cada vez mais forte. Isso incluí o cinema, do financiamento até a distribuição. É muito triste.

Baiestorf: Você pode contar algo que não está no documentário? Talvez sobre o filme “Dünyayi Kurtaran Adam” (“Star Wars Turco”), que acredito que seja o filme de seu país mais conhecido aqui no Brasil.

tarzan-istanbuldaKaya: “Dünyayi Kurtaran Adam” foi filmado no rescaldo do golpe militar de 12 de Setembro de 1980, quando a Turquia ainda era governada sob lei marcial, assim como nos dias de hoje. Çetin Inanç e sua equipe, no entanto, estavam filmando em Cappadocia que tem uma geografia muito peculiar para se parecer com outro planeta. Nas cenas dentro das cavernas necessitava-se iluminação, mas eles não podia colocar lá a iluminação porque o gerador não funcionava devido a umidade. Então eles decidiram construir um sistema de espelhos que trazia a luz para dentro das cavernas. Você pode perceber, claramente, alguns pontos de luzes em algumas cenas. Çetin Inanç havia construído um cenário para as cenas de efeitos especiais no espaço, mas elas foram destruídas com um vendaval. Após a destruição de seu cenário que ele decidiu usar cenas de “Star Wars” em sua produção. O cérebro por trás das cenas de found footage era Kunt Tulgar, dono de um estúdio de dublagem e diretor de “Supermen Dönüyor” (“Superman Returns”, 1979). Seu pai, Sabahattin Tulgar, era importador de filmes estrangeiros e foi diretor de “Tarzan Intanbulda” (“Tarzan in Istanbul”, 1952). Em seu porão ele tinha os rolos de todos os filmes que importou, um grande tesouro na era não-digital. Desta forma, além de “Star Wars”, eles puderam pegar trechos de “Black Hole” da Disney, “The Magic Sword” (1962) de Bert I. Gordon, alguns italianos de sci-fi menos conhecidos e, até, filmagens da NASA que encontraram em documentários. As fantasias e monstros foram inspiradas pelo filme de Hong Kong “Inframan” (“Zhong Guo Chao Ren”, 1975) de Shan Hua. Conheci o designer do cartaz do filme em Istanbul que me contou que a promoção para o filme era maior do que o habitual. Havia dois cartazes diferentes, um em inglês, o que significa que desde o início eles já planejavam vender para o exterior e, outro, em turco. O filme também teve uma quantidade maior de lobby cards.

Baiestorf: Ao assistir “Remake, Remix, Rip-Off” me dei conta de que a indústria cinematográfica turca e a brasileira são muito parecidas. Como está a produção de filmes hoje? Você poderia indicar ao público brasileiro alguns divertidos filmes atuais?

Kaya: Hoje temos uma produção de filmes de arte, bem diferentes do cinema de Yesilçam. Estes diretores vem de uma tradição que negligencia o cinema de Yesilçam por suas próprias razões. Muitos dos cineastas de cinema de arte de hoje foram inspirados pelos pioneiros do cinema turco independente dos anos 80, como o já mencionado Yilmaz Güney e Ömer Kavur ou, cineastas dos anos 90 como Yesim Ustaoglu e Zeki Demirkubuz. Eles realizaram filmes com pouco dinheiro e equipe reduzida e, mesmo assim, tiveram reconhecimento internacional em festivais de todo o mundo. Os anos 90 foram uma época difícil para os cineastas curdos. Após a implantação da política Islã com o governo islâmico radical AKP no poder, fazer cinema independente está se tornando cada vez mais difícil. Além disso, o cinema comercial e a TV comercial estão florescendo. Diz-se que há mais câmeras Arri em Istanbul do que em toda a Europa. No cinema de gênero “Baskin” (2015), o filme de estreia de Can Evrenol, foi uma verdadeira surpresa. É um filme de horror que atraiu público no mundo todo. O próprio diretor é um fã dedicado do cinema fantástico turco. Outro filme bem divertido que gosto bastante é “Vavien” (2009) dos irmãos Taylan, sobre um cara que quer matar sua esposa com uma abordagem Coen Brothers para a história. Dos documentários turcos gosto de “Bakur” (2015), sobre combatentes do PKK curdo nas montanhas de Kandil ou “Iki Dil Bir Bavul” (2008), sobre um professor de escola primária turca que tenta ensinar a língua turca para crianças curdas, estão entre os dez melhores documentários turcos para se assistir. Outro filme importante é “Tepecik Hayal Okulu” (2015), documentário sobre o diretor Ahmet Uluçay, recentemente falecido, um cineasta único que tem minha simpatia por ser um visionário e possuir uma maneira única de narrar suas histórias. Seu filme de ficção “Karpuz Kabugundan Gemiler Yapmak” (“Boats of Watermelon Rinds”, 2004) é uma ode ao cinema DIY (do it yourself).

Baiestorf: Como está sendo a carreira comercial de seu documentário? Ele foi lançado em muitos países? Sei que foi sensação em várias mostras de cinema pelo mundo.

Kaya: “Remake, Remix, Rip-Off” foi exibido em cerca de cem festivais em todo o mundo, incluindo Locarno, Rotterdam e o Festival de Berlin. Também foi exibido em muitos festivais de cinema de gênero, como Fantastic Fest, Fantasia e Sitges.  No Brasil estávamos no Festival do Rio e outros dois que esqueci o nome (shame on me!). O lugar mais longe em que foi exibido foi no Hawaii e o mais perto (de onde vivo) Munique. Ele também tem uma versão mais curtas exibida na TV alemã ZDF, que também financiou uma grande parte do filme. No momento estamos trabalhando para o lançamento em DVD e, também, lançamentos nas plataformas de VOD.

Baiestorf: Assisti seu filme no festival A Vingança dos Filmes B, em Porto Alegre. Sessão lotada e o público rolando de rir. Foi uma ótima sessão, com o público muito feliz e inspirado ao final da sessão. Cem, obrigado pela entrevista e, mais importante, obrigado por ter feito este documentário tão divertido e informativo.

Kaya: Muito obrigado pra ter a chance falar sobre o meu filme.

Veja o trailer de “Remake, Remix, Rip-Off” aqui:

Quando: dia 04/10, as 20:30 no Odeon.

Interzona Cineclube e Cine Odeon – Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro apresentam a sessão de Remake Remix Rip-Off – O fantástico cinema popular turco!, o sensacional documentário dirigido por Cem Kaya sobre umas das filmografias mais divertidas e ensandecidas do planeta: o cinema popular turco!!

Cultuado por colecionadores e pesquisadores de filme B, é difícil pensar nos turcos sem lembrar em cinema de gênero, especialmente no gênero fantástico. Com poucos recursos, mas ricos em criatividade, nada era impossível para os realizadores destes filmes. Donos de um fazer cinema orquestrado por profissionais apaixonados, acostumaram a trabalhar rápido, com baixo orçamento, muito improviso e em escala industrial.

Nesse liquidificador cultural entrava de tudo: quadrinhos, westerns italianos, novelas pulp, naves espaciais, cientistas malucos, robôs, monstros, super heróis, vilões, vikings, fadas, cowboys, justiceiros, gangsters, dramalhão, muito nonsense e soluções inusitadas devido ao pouco tempo e dinheiro. O resultado desta mistura maluca é a mais pura diversão e inventividade.

A sessão contará com apresentação do pesquisador Fábio Vellozo e um debate após a sessão: “As delicias do maravilhoso cinema popular turco” contando com Fábio Vellozo, Christian Caselli e Gurcius Gewdner, 3 fanáticos pelo mundo maluco e divertido dos cineastas turcos.