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A Noiva do Turvo

Posted in Cinema, Entrevista, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 9, 2018 by canibuk

A Noiva do Turvo é um curta-metragem produzido no início de 2018 utilizando-se de um celular enquanto festejávamos a passagem de ano. Orçamento zero para contar uma lenda do rio Turvo que, meses antes, Loures Jahnke e sua filha Isabela haviam resgatado para um trabalho escolar que virou um fanzine de contos. Você pode ler o conto A Noiva do Turvo clicando no coletivo literário Maldohorror.

Segue relato dos envolvidos nas gravações:

Petter Baiestorf: O curta A Noiva do Turvo, escrito e dirigido por Loures Jahnke e filmado com seus filhos: Lorenzo de cinco, Isabela de dez, Vinicius de doze e Morgana de vinte anos. Loures, Elisiane Rodrigues, Carli Bortolanza e eu nos divertimos muito durante essa experiência fantasmagórica sessão livre onde respeitamos o ritmo de trabalho das crianças. Não quer dizer que eu vá produzir filmes em celulares, mas abrem-se algumas possibilidades com este formato, principalmente com suas câmeras de alta definição.

Lorenzo, 5 anos, assistente de direção

Loures Jahnke: Exatamente um ano depois da filmagem de Ándale!, na virada de 2017 para 2018, Baiestorf e Bortolanza voltaram para o Baixo Azul, trazendo na bagagem mais de 300 latas de cerveja – sim, eles sempre são exagerados. Não tinham o Toniolli, nem o Élio e nem a filmadora, mas Baiestorf estava com um celular com câmera bacana. Alguns meses antes dessa visita, ajudei minha filha Isabela em um trabalho escolar sobre mitos e lendas locais, o que resultou em um pequeno conto que publiquei no Maldohorror. Eu tinha o argumento e 4 filhos; Peter tinha um celular e o Bortolanza. O produto? A Noiva do Turvo.

Morgana, A Noiva do Turvo

Carli Bortolanza: Loures nos apresentou um texto que ele havia ajudado uma das filhas a escrever para um trabalho escolar que virou um livro coletivo dos alunos que estudavam na mesma sala de aula da filha dele. Sugerindo “Nós podíamos filmar este texto da Isabela, não?”. E “de balde”, por que não? E o primeiro impacto após termos lido o texto foi, “Como não tem câmera, vamos filmar pelo celular!”, única opção e sem nenhuma objeção. A iluminação foi outro empecilho, mas Loures comentou que um vizinho tinha uma bateria com uma lâmpada que fora improvisado para ser usado como uma mochila nas costas, com direito a alças e tudo. A escolha de quem faria o pescador também foi engraçada: Pedi para ser escolhido, pois estava com um pouco de frio e ai ficaria com a roupa manga longa e não precisaria ficar carregando o peso da bateria.

Teste de iluminação durante as gravações com Carli sendo abduzido

E. B. Toniolli: A história é linda, pulsante e real. O Loures mostrou-se um bom diretor, mas que não chega aos pés do Loures escritor, que é formidável.

Loures Jahnke: Filmar A Noiva foi uma das coisas mais divertidas que já fiz. Meus filhos foram batizados na Canibal Filmes – não com groselha, mas com o “espírito da coisa” -, todos riram muito, sofreram – principalmente Morgana e Isabela – e se encantaram. Até a Elisiane, minha companheira, diz que se divertiu muito sendo a produtora do filme – ela pagou um pote de minâncora e um lápis de olho, total de custos.

Carli Bortolanza: Uma coisa que ficou bem marcante foi a empolgação das crianças em participar!

Petter Baiestorf: Para A Noiva não tínhamos uma câmera, somente meu celular. Como eu havia acabado de filmar Beck 137 em Goiânia, GO, com ele, sabia que dava pra fazer algo minimamente bacana. Também deu pra testar o uso de iluminação mínima em espaços abertos – boa parte do curta foi filmado numa plantação de soja que invadimos. De certo modo o uso da iluminação foi uma continuidade do que havia pensado para A Cor que Caiu do Espaço.

Loures Jahnke: Já tinha visto alguns trabalhos feitos com celular, mas A Noiva do Turvo foi para muito além das expectativas, considerando que a maioria das cenas foram noturnas, que a iluminação foi feita com um troço adaptado para caçar lebres tomado emprestado de um vizinho, que os áudios da narração e da trilha sonora  – brilhantemente composta pelo Vinicius, de 12 anos – foram todos gravados em celular e que o Bortolanza passou uma tarde toda catando lenha pra assar carne.

A Noiva se preparando para entrar em cena

Elio Copini: Quanto A Noiva, não participei das filmagens, assisti e gostei muito dele. Despertou uma inveja por não estar lá também.

Loures Jahnke: Toniolli acho que também se divertiu muito, um tempo depois, comigo e com o Baiestorf na casa dele num final de semana inteiro durante a edição do Noiva.

E. B. Toniolli: A Noiva do Turvo já chegou em minhas mãos filmado e só faltando a edição. Dessa vez tínhamos o Loures Jahnke como diretor e ele é uma pessoa muito inteligente, que sabe o que quer e sabe valorizar o trabalho em equipe, deixando todos participarem do processo de maneira ativa. Assim considero esse curta mais coletivo do que as obras naturais da Canibal Filmes, que são a visão do Baiestorf, basicamente.

Morgana e Carli em A Noiva do Turvo

Loures Jahnke: A Noiva do Turvo é quase um filme infantil, inocente, mas que explora um universo cultural muito vasto que são os causos, os mitos e lendas que preenchem o imaginário – e a vida! – das populações camponesas sertões afora.

E. B. Toniolli: Fiquei muito contente em editar o material filmado com celular. Considero que o cinema feito de celular é a evolução natural do processo: Não estamos reféns dos grandes estúdios, das câmeras caras e dos “profissionais” da arte. Cinema é para todos, não para uma elite intelectual que trata a todos como gado intelectual, onde quem não comunga de sua maneira bitolada de ver o mundo, é excluído.

fotos e entrevistas para o post por Petter Baiestorf.

Assista ao curta-metragem aqui:

CineBarca Trash em Xanxerê

Posted in Arte e Cultura, Cinema, Entrevista, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on setembro 4, 2018 by canibuk

Nessa quinta-feira, dia 06 de setembro, estarei na cidade de Xanxerê, no Oeste de Santa Catarina, exibindo alguns de meus filmes no SOS Bar, em sessão organizada pelo fantástico coletivo ABarca.

No mês que a Canibal Filmes completa seus 27 anos de resistência underground no cinema brasileiro, nada melhor do que uma sessão realizada aqui no Oeste, local onde tudo começou em 1991. Na sessão que programamos com ABarca vamos exibir filmes de todas as épocas da Canibal (2000 Anos Para Isso? é de 1996, enquanto Ándale! é de 2017), junto de filmes escritos e dirigidos por outros integrantes de nosso grupo, como O Último Dia no Inferno (2017), de E.B. Toniolli, Até Que… E Deu Merda (2017), de Carli Bortolanza, e, A Noiva do Turvo (2018), de Loures Jahnke. Após a sessão deverá rolar um debate comigo, acompanhado de Loures Jahnke e os atores Elio Copini e PC.

Resolvi fazer uma divulgação diferente deste evento que exibirá meus filmes em Xanxerê, ao invés de ser entrevistado por eles para a divulgação, resolvi entrevistar a Eloisa Almeida, que faz parte do coletivo ABarca, e divulgar este projeto lindo que está rolando na cidade de Xanxerê desde 2016 e que acho que todos deveriam apoiar/prestigiar!

Petter Baiestorf: O que é o coletivo ABarca? Seus objetivos e quem faz parte?

Eloisa Almeida: Fundado em julho de 2016, o Coletivo Cultural Abarca foi instituído com o intuito de desenvolver projetos e atividades culturais na cidade de Xanxerê e região. O coletivo surgiu com o interesse de um grupo de amigos em aprender e produzir arte, com um viés social, e movimentar o cenário cultural na cidade. Tem como principal objetivo fomentar a cultura, e que ela seja acessível. Os eventos, ações, oficinas e atividades promovidas pelo coletivo são realizadas em espaços independentes e também com o intuito torná-los públicos, considerando que todo espaço é cultural. Hoje o coletivo conta com 16 membros e está aberto a quem tiver interesse e disponibilidade para participar das ações culturais, e aberto para novas experiências, participando de intervenções artísticas, desde apresentações de teatro, leitura dramática, cinema, poesia e outras formas de arte que estiverem ao alcance do nosso olhar.

Baiestorf: Conte sobre o projeto CineBarca Trash.

Eloisa: O CineBarca é um projeto do coletivo desde 2017, onde tem o objetivo de apresentar exibições cinematográficas em espaços públicos, procuramos valorizar a cena independente e trabalhos autorais da região para que também possam alcançar um maior público. O primeiro CineBarca teve como tema o Cinema Brasileiro em VHS, o qual foi realizado na Casa da Cultura Maria Rosa, em Xanxerê.

Neste ano, dando continuidade ao projeto com o tema Trash, o coletivo organizou quatro exibições, onde o SOS Bar nos abre as portas para o evento. O bar foi escolhido para o evento, justamente pela identificação do espaço com o tema, sendo considerado um ambiente underground que, além disso, se encaixa com o perfil do coletivo. No mês de agosto foram exibidos os filmes, todas as quintas-feiras a partir do dia 16, com seqüência de “Fome Animal” (Braindead), Evil Dead 1 e 2, e From Beyond. Os filmes foram escolhidos a partir do conhecimento que temos sobre o tema, considerando que se tivéssemos um conhecimento maior sobre esse tipo de trabalho regional, o intuito seria propor essas exibições locais. Para concluir as exibições do tema Trash, acontecerá no dia 06/09 um evento com a participação especial do cineasta Petter Baiestorf, o qual estará exibindo seus trabalhos e dando abertura a uma roda de conversa sobre o tema. O vídeo de abertura do projeto foi produzido pelos amigos do coletivo de forma independente, Murilo Salini e Jéssica Antunes.

Pretendemos dar continuidade ao CineBarca com outros temas seguintes, já estamos nos organizando para o próximo tema de “Futuro Distópico”, seguindo com a ideia de quatro exibições e na última, um evento especial, com a participação do nosso amigo Luis Kohl, apresentando seu trabalho musical autoral Antronic. Logo as datas serão divulgadas.

Em relação ao público, está sendo muito gratificante! Conseguimos atingir um público maior do que o esperado para o evento, e percebe que o nosso intuito em apresentar algo novo e despertar a curiosidade tem sido construtivo. Estamos com grandes expectativas para o dia 06/09, inclusive percebemos a ansiedade do público para este momento também.

Baiestorf: Como é o espaço para a cultura independente em Xanxerê?

Eloisa: Não temos um cenário muito bom para a cultura independente em Xanxerê, quando é pensado em formar um grupo cultural vemos que geralmente é procurado patrocínios ou apoio público. Talvez o interesse na cultura independente tenha relação além disso, com o interesse em não vincular diretamente essas instituições. Vê-se também que o público procura grupos prontos para participar ativamente, ao invés de formar um novo grupo.

Baiestorf: Acho extremamente interessante o intercâmbio cultural entre artista da região Oeste. Vocês tem planos de levar à Xanxerê mais cineastas aqui da região?

Eloisa: Temos um grande interesse em dar continuidade ao projeto, trazendo outros cineastas, porém há dificuldades em entrar em contato com essas pessoas, até pela questão financeira, considerando que somos um coletivo independente, para manter nossos projetos temos um caixa para contribuição dos membros e doações, e nem sempre temos um retorno positivo. Mas acreditamos que possa ser questão de organização e fazer acontecer.

Baiestorf: Num âmbito da cultura oficial/institucionalizada, como é o apoio da sociedade de Xanxerê? Minha pergunta é fazendo distinção entre cultura oficial e independente de modo proposital mesmo, visto o descaso com que a cultura é tratada no Brasil.

Eloisa: Vê-se que não apenas em Xanxerê, mas no Brasil, que a cultura institucionalizada recebe um menor apoio, comparando com a cultura oficial, a qual podemos chamar de popular. Mas acreditamos que a questão de ser uma cultura institucionalizada/independente já carrega esse interesse de não se tornar popular, de atingir as minorias e se manter no espaço underground. No caso do nosso coletivo, levamos em consideração isso também, o fato de não nos vincular à outras instituições as quais teriam interesses capitais através da arte, e o nosso interesse é realmente em propor a arte de uma forma livre e independente. Além disto, a sociedade conhece culturalmente daquilo que se tem acesso, e na maioria das vezes comercializado, pois é dessa forma que essas informações chegam a ela, através da grande massa, do que se é mais popular. Em Xanxerê, apesar disso existe um público considerável que aprecia a arte independente, e acreditamos que isso tem relação à esse público estar aberto para o novo, a formas diferentes de arte, e também o motivo pelo qual a grande parte dos xanxerenses não dar tanto apoio a cena independente, por estar acomodado com o que somente o seu meio social proporciona.

Baiestorf: Este Cinebarca acontece numa semana pesada à cultura/ciência/educação, em que o Museu Nacional foi literalmente reduzido às cinzas. O que você gostaria de falar sobre isso, sobre este descaso secular do brasileiro à cultura, ao saber, à ciência, à educação.

Eloisa: Acreditamos que existem maiores interesses por trás deste descaso, pois a cultura no Brasil sempre foi utilizada como um jogo político, embora existam vários meios de se introduzir a cultura para a sociedade, olhando por esse lado não é espantoso a realidade em que nos encontramos. O caso do Museu Nacional só nos mostra a importância que a cultura tem para o país. Sabemos que a única maneira de preservar a história do país é tendo acesso a ela. Talvez seja necessário para o brasileiro, e principalmente ao poder público, compreender que para se construir um futuro é preciso conhecer e reconhecer o passado, através dele se tem muitas respostas da situação que vivemos hoje, saber que a cultura é algo que vai sendo construído, que para existir o novo é preciso do velho como base para novas concepções.  É lamentável saber que a cultura no Brasil cada vez mais perde o seu valor, mas aí cabe a nós resistirmos e lutarmos por ela, pois a cultura faz parte da essência do homem.

Baiestorf: Pequenas ações, como o projeto A Barca, acabam sendo atos de resistência ao sucateamento da cultura no Brasil?

Eloisa: Quando se pergunta o que é arte, logo vemos que a sociedade vê e aceita aquilo que está dentro dos seus padrões. Conhecer e produzir arte, seja vindo de um sujeito ou coletivo, já por si é um ato de resistência, pois ele está propondo algo novo para o mundo, tudo o que é novo de início traz um certo estranhamento social, para os acomodados é difícil se abrir para o novo. Ser resistência é continuar movimentando a diversidade cultural, é fugir dos padrões sociais, e esse é nosso intuito como coletivo independente.

Baiestorf: O Espaço é seu Eloisa. Convide as pessoas para o Cinebarca dessa quinta-feira:

Eloisa: HEY ESQUISITO! Nesta quinta-feira 06/09 o bar mais underground do velho oeste abre as portas mais uma vez para o CineBarca Trash. Venha fazer parte da resistência da cultura independente, venha dar o seu apoio à cultura que se encontra oculta em nosso país. Teremos a participação especial do cineasta Petter Baiestorf exibindo seu trabalho cinematográfico independente e abrindo uma roda de conversa sobre o tema Trash. Levante do seu caixão e vá até o SOS bar, junte-se com os demais zumbis da sociedade nessa experiência trasheira que tem início às 21h, esperamos por você!

Programação do CineBarca deste dia 06 de setembro (início 21 horas):

A Noiva do Turvo (2018, 5’) de Loures Jahnke.

O Último Dia no Inverno (2017, 4’) de E.B. Toniolli.

Até Que… E Deu Merda (2017, 5’) de Carli Bortolanza.

Ándale! (2017, 4’) de Petter Baiestorf.

2000 Anos Para Isso? (1996, 12’) de Petter Baiestorf.

Primitivismo Kanibaru na Lama da tecnologia Catódica (2003, 12’) de Petter Baiestorf.

Zombio 2: Chimarrão Zombies (2013, 83’) de Petter Baiestorf.

A Independência de Contos da Morte 2

Posted in Cinema, Entrevista, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on agosto 16, 2018 by canibuk

Em 2016 Vinícius Santos organizou e lançou o longa-metragem episódico “Contos da Morte”, que reunia os diretores Ulisses da Motta, Thiago Moyses, Rodrigo Brandão, Kayo Zimmermam, Julio Wong, Jeziel Bueno, Ivo Costa, Helvecio Parente, Calebe Lopes, Bruno Benetti e Ana Rosenrot, e que já está disponível no youtube para ser visto grátis:

Agora, Vinícius reuniu novos diretores, Ana Rosenrot, Cíntia Dutra, Danilo Morales, Diego Camelo, Janderson Rodrigues, Larissa Anzoategui e Lula Magalhães, para a segunda parte de “Contos da Morte”. O lançamento deste SOV que já nasce obrigatório está programado para outubro deste ano e o trailer já está disponível:

Fiz uma entrevista com os diretores da continuação:

Petter Baiestorf: Conte um pouco da sua trajetória nas produções brasileiras:

Vinícius Santos: Minha história com o cinema independente começou por acaso, em 2008 fiz meu primeiro curta caseiro e trash, com toques de humor negro. Foi o “Cereal Killer”, que ganhou alguns prêmios na época aqui em Jacareí, depois peguei uma paixão pelo cinema, ainda mais eu que adoro filme trash, então não vi dificuldade alguma pra realizar meus filmes trash. Fiz vários curtas desde então, alguns longas como “Steve Cicco”, “Iandara”, “Exorcistas Carinhosos”. Realizei meu sonho de conhecer  José Mojica Marins, o eterno Zé do Caixão, até entregamos um prêmio a ele. Dirigi um documentário com Liz Marins e realizei um sonho  de dirigir um filme meu com a Monica Mattos, ex atriz pornô. Comecei a mandar e exibir meus filmes em alguns festivais nacionais e internacionais, conheci também cineastas que já admirava, como Petter Baiestorf e Rodrigo Aragão, fiz novas amizades e parcerias também, acabei sendo convidado para participar na produção de um longa-metragem co-produção Brasil e Londres em 2017, um filme indígena que mistura drama e fantasia chamado “Goitacá”, tive prazer de conhecer alguns atores como Luciano Szafir, Lady Francisco e Leandro Firmino (o Zé Pequeno de “Cidade de Deus”), isso tudo graças aos filmes trash que desenvolvo, então percebi que estou no caminho certo.

Ana Rosenrot: O cinema sempre fez parte da minha vida, sou cinéfila por natureza e minha curiosidade me levou a pesquisar o cinema como um todo, buscando entender a importância da sétima arte para a cultura mundial e sua influência sobre as pessoas. Mas percebi que eu precisava participar da criação cinematográfica e em 2011 passei a fazer pequenos curtas experimentais, tudo muito simples, com a cara e a coragem, assumidamente trash e não parei mais. O primeiro curta que enviei para um festival se chama “Mistérios Obscuros”, ele foi premiado com o Troféu Corvo de Gesso em 2013, selecionado na 15ª Mostra do Filme Livre em 2015 e escolhido para compor a vinheta de abertura da sessão “Trash ou Cinema de Gênero?” da mostra. Em 2013, fui convidada para escrever sobre cinema para uma publicação Suíça, a Revista Varal do Brasil e criei a Coluna CULTíssimo, especializada em cinema e universo Cult. Também em 2013 juntei forças com a Vproduções Cinematográficas e participei como diretora, produtora e atriz em curtas e longas. Destaque para o longa-metragem “Steve Cicco – Missão Popoviski”, o curta-metragem “Samantha” (que dirigi com o Vinícius e protagonizei), as duas edições da Mostra Monstro e o projeto “Contos da Morte”. Em paralelo, me dedico a criação e a divulgação literária e continuo com minhas produções pessoais, rodando os festivais com curtas experimentais e vídeo poemas voltados para o ativismo cultural e as causas femininas. Já ganhei sete prêmios, participei de muitos festivais e mostras e pretendo seguir acreditando no cinema nacional e feminino apesar de todos os obstáculos.

Cíntia Dutra: Certamente assim como todos os envolvidos no “Contos da Morte”, sempre fui apreciadora do cinema de horror, independente da nacionalidade. Na verdade, me considero muito mais fã e pesquisadora do gênero horror, que realizadora. Mas isso, juntamente com a minha formação (em Fotografia) trouxe a possibilidade de realizar alguns projetos. Onde em 2007 dirigi o curta “Obsessão”, posteriormente em 2008, “Extrato”, em 2015 o “Retratos” e agora o “Entre Nós” que fará parte do projeto.

Danilo Morales: Em 2012 meu primeiro filme em HD foi “Adega de Sangue”. Em 2015 veio o projeto “Trilogia do Terror” com os filmes media metragem “Telecinesia – Entre a Cruz e o Balaço” e “A Corrente de Menon”. A produção de curtas foi intensa. Uma media de três por ano. Em 2016 “Astarte- O Assassino do enforc a Gato” e “Até que a Morte nos Separe”. Em 2017 “Quiromania Ninfomaníaca” e “O Lago”. Em 2018 “Vilarejo Libertino”, “Casa de Xangô” – o filme longa metragem “Cemiterio das Moscas”, antologia de três diretores. E “Contos da Morte 2”. Antologia com vários diretores envolvidos. Os filmes estão correndo festivais nacionais e internacionais.

Larissa Anzoategui: Eu comecei a experimentar o audiovisual em, acho que, 2008, quando fiz um curta maluco chamado “Zumbis do Espaço de lá” para o meu TCC do curso de artes visuais. Depois de um tempo fui morar em São Paulo para estudar fotografia e lá entrei em contato com outras pessoas que tinham vontade de produzir e tinham grana zero como eu. Nos juntamos gravamos um curta, o “Limerence’, com roteiro de Paula Febbe, que só foi ficar pronto mesmo no final do ano passado, mas estava gravado esperando finalização desde 2012. Gravo sempre quase com a mesma equipe desde o “Limerence”: Pedro Rosa na direção de fotografia, Renato Ramos Batarce ajudando na produção e o meu marido, Ramiro Giroldo, que hoje escreve todos os roteiros da Astaroth Produções. Até agora temos lançados quatro curtas (“Red Hookers”, “Natal Vade Retro”, “Limerence” e “A Janela da Outra”) e um longa (“Astaroth”). Tem agora o “Fatal” também, que faz parte do “Contos da Morte 2”. Meus filmes são de terror, minhas inspirações são aquelas produções dos anos 80, principalmente as que eram feitas para o mercado de VHS. Busco um terror meio aventura, algo divertido. Monstros que não existem. Nas minhas produções a força e o foco estão sempre nas personagens femininas. Afinal de contas, elas sempre estiveram presentes nos filmes de terror, mas ao invés de ser apenas mais uma vitima, a mocinha bonita gritando, aqui elas levantam e enfrentam o monstro que as vezes é a monstra também.

Diego Camelo: Sou Estudante de Cinema do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade de Fortaleza, meu primeiro curta metragem foi o “Tirarei as Medidas do seu Caixão” que é um filme-homenagem ao personagem mais icônico do Terror brasileiro, que é o Zé do Caixão. O filme foi muito bem recebido por onde passou, consegui inclusive espaço para exibição do curta no Canal Brasil no programa “Pausa para o Café” e é também dos filmes que realizei até aqui, o que mais circulou por festivais afora. Ainda dirigi e produzi os curtas metragem “A Incrível História do Gorila” e “O Vampiro”. Todos os curtas estão disponíveis na internet.

Lula Magalhães: Comecei em 2013 com o filme “Mandala Night Club”. De lá pra cá não parei mais, sempre venho mantendo uma média de uma a duas produções por ano. Sempre produzi na esfera do terror e sempre produções 100% independentes, ou seja, sem dinheiro público.

Janderson Rodrigues: Comecei trabalhando em produtoras independentes até abrira minha há quatro anos. E estou tentando sobreviver até então.

Dor (Lula Magalhães)

Baiestorf: Como surgiu o projeto de Contos da Morte 2?

Vinícius Santos: Eu já havia feito projetos em parceria com cineastas de outras localidades e regiões, inclusive fora do país, sempre tive vontade de fazer algo parecido com o ‘’ABC da Morte’’ e resolvi convidar alguns cineastas para uma antologia chamada ‘’Contos da Morte’’, lançado em 2016. A idéia para o “Contos da Morte 2” surgiu dentro do Festival Boca do Inferno no lançamento do primeiro filme, durante um bate-papo, após a exibição me perguntaram se haveria uma continuação, deixei a possibilidade em aberto, mas muita gente pediu essa continuação e então resolvi juntar uma galera, a idéia era não repetir os cineastas do primeiro, e, ao invés de 12, nesse segundo seria apenas 10. Mas no fim muita gente não deu conta e desistiu, eu acabei tendo que entrar nos momentos finais do projeto devido ao prazo de entrega, não teríamos mais tempo de convidar novos cineasta pra se juntar ao grupo. Então esse segundo “Contos da Morte” conta com sete histórias e oito cineastas do cinema independente.

Ana Rosenrot: O projeto surgiu no Festival Boca do Inferno, durante o lançamento da primeira edição, quando o criador do projeto “Contos da Morte”, Vinícius J. Santos, foi questionado sobre a possibilidade de uma continuação e após o festival ele entrou em contato com outros realizadores e decidiram fazer uma sequência. Primeiramente a ideia era não repetir nenhum dos diretores do primeiro filme, mas, devido a algumas desistências, o Vinícius decidiu participar com um segmento e me convidou para dividirmos a direção. São ao todo sete filmes e oito cineastas participantes.

Cíntia Dutra: Em 2016, ao enviar o curta “Retratos” para algumas mostras, o Vinicius Santos o viu e fez o convite para realizar um novo curta para integrar o projeto.

Danilo Morales: O Vinicius me fez o convite. Ele fez o “Contos da Morte 1” e queria fazer uma sequência com novos diretores.

Diego Camelo: Fui convidado pelo idealizador do projeto Vinícius Santos, eu não conhecia o projeto e não tinha visto o filme anterior, mas curti bastante a proposta e quando rolou o convite aceitei de pronto, gosto dessa iniciativa da Antologia, juntar diretores de locais diferentes, fazendo filmes completamente diferentes sobre o mesmo assunto.

Lula Magalhães: Conheci o Vinicius quando meu filme “Invasor” participou da Mostra Monstro em Jacareí, SP. Surgiu o convite de participar da segunda edição e eu adorei a ideia.

Janderson Rodrigues: Estava fazendo a fotografia do filme “Cinco Cálices” quando o Vinicius me chamou para participar do projeto. Já tinha visto o primeiro em festivais e fiquei super feliz de participar do 2. Ai meu editor, na época, me pediu para escrever o roteiro, então falei que eu queria uma história que se passa na favela.

Diagnose Danação (Diego Camelo).

Baiestorf: Como chama seu episódio e qual a história?

Vinícius Santos: O segmento eu dirigi, junto da diretora Ana Rosenrot, também aqui de Jacareí, se chama “A Marca do Diabo’’ e é sobre uma moça que adquire um quadro de uma criança chorando, e coisas bizarras começam a acontecer até que ela descobre que aquele quadro tem uma história maligna por trás envolvendo pacto demoníaco e sacrifícios. História inspirada na lenda urbana dos Quadros das Crianças Chorando, muito famosa no Brasil na década de 80.

Ana Rosenrot: O episódio que dirijo com o Vinícius J. Santos se chama “A Marca do Diabo”, e é inspirada na maior lenda urbana dos anos 80: “Os Crying Boys” (quadros das Crianças Chorando). Ele conta a história de uma garota que depois de sofrer um terrível acidente, está internada num hospital e ao ser interrogada por policiais alega ter sido marcada pelo diabo após comprar um quadro de uma criança chorando.

Cíntia Dutra: O episódio chama-se “Entre Nós”, e conta a história de um casal, com uma relação um pouquinho turbulenta, regada a sangue e insanidade.

Entre Nós (Cíntia Dutra).

Danilo Morales: “Heterocromia”. Simmel sofre preconceito por ter heterocromia. Seu alter ego maligno, representado pelo olho azul, é desperto quando o demitem do serviço. Filme experimental em primeira pessoa, de humor negro, uma crítica social da crise em nosso país.

Larissa Anzoategui: Meu episódio é o “Fatal”. Conta a história de um rapaz que lança cantadas online e acha que vai se dar bem, mas acaba se metendo em uma enrascada.

Diego Camelo: O nome é “Diagnose Danação” e é livremente inspirado no livro Frankenstein da Mary Shelley, pode até ser temerário dizer que é livremente inspirado, por que imagino que alguém possa tentar fazer comparações ao livro, eu tinha acabado de reler a história quando o Vinicius chegou com o convite, alguns elementos da história da Shelley estavam muito vivo na minha memória por isso tentei pegar o mote central da história e adaptar. Fui atrás do filme Frankenstein da Hammer Filmes, com o Peter Cushing, e fiz algumas modificações. A história é basicamente a relação de um médico e um paciente que não queria ser salvo, depois de vários anos sofrendo de uma doença autoimune, o paciente tenta tirar a própria vida, mas o médico o salva, o paciente acredita que estar vivo é uma espécie de punição e culpa o médico, passando então a persegui-lo.

Diagnose Danação (Diego Camelo).

Janderson Rodrigues: O filme se chama “Morro dos Mortos”. A historia de Bento que fica preso durante 10 anos e ao sair tenta uma vida nova, mas os fantasmas das pessoas que ele matou voltam para cobrar algo .

Lula Magalhães: Se chama “Dor”. O filme narra a trajetória de três psicopatas insanos que alimentam uma estranha criatura com carne humana.

Dor (Lula Magalhães).

Baiestorf: Como foram as filmagens dele?

Vinícius Santos: Tivemos seis meses de gravações, até que foi bem rápido, não tivemos tanta dificuldade por ter muitas cenas com poucos diálogos, algumas locações bacanas como um antiquário e um hospital, que nem imaginávamos se conseguiríamos ou não, mas no fim deu tudo certo com o apoio da Prefeitura Municipal de Jacareí. Até achávamos que teríamos dificuldade, pois filme de terror não é visto com bons olhos em Jacareí, mas arte é arte e conseguimos até fazer as cenas com um Diabo por lá.

Ana Rosenrot: Até que foram bem tranquilas; claro que tivemos algumas dificuldades, o que é muito comum quando falamos em cinema independente, pois, trabalhar com baixo ou nenhum orçamento, equipe pequena e locações sem controle externo, sempre acarreta alguns atrasos ou imprevistos (a greve dos caminhoneiros nos afetou um pouco). O importante é ser capaz de improvisar quando é necessário e poder contar com pessoas engajadas no projeto e nisso tivemos muita sorte, os atores e a equipe estavam maravilhosos.

Bastidores de uma das cenas do filme:

Cíntia Dutra: As filmagens aconteceram na metade do ano passado (2017), em um final de semana bem corrido, onde tudo teve que ser filmado por conta dos recursos disponíveis. A equipe formada por amigos da faculdade e parentes, que tenho que agradecer por ter trabalhado por três xis burguers, é a mesma equipe que trabalhou no curta anterior, “Retratos”, o que tornou o processo muito agradável.

Danilo Morales: Foi um desafio. Nunca tinha gravado nada em primeira pessoa. O episodio foi gravado em um dia e teve um verdadeiro banho de sangue. Um boneco foi confeccionado para ter a cabeça esmagada. Ficou fantástico a cena da cabeça partida. Infelizmente a câmera travou nesse momento. A solução foi refazer a cena de forma desfocada, pois o boneco já estava estourado. Mas foi bem divertido. O episódio não foi feito para ser levado a sério. Tem muito humor negro e critica social.

Larissa Anzoategui: Foi muito rápido, em um dia gravamos tudo. Mas foi rápido assim porque reaproveitei uma cena do “Astaroth” que não ficou no corte final. Mas mesmo assim, tem o começo que está no corte final do longa e está também lá no curta, bem plena e cara de pau. Para fechar uma história com este reaproveitamento, tiramos um dia do final de semana para gravar. Equipe bem reduzida, eu dirigi, filmei, montei a luz e o cenário, o Ramiro ajudou bastante, sendo o assistente em todas essas funções. A terceira pessoa da equipe era a maquiadora, Palmira Nogueira, que sempre trabalha com a gente. Para compensar o elenco era maior que a equipe: Sete atrizes e um ator.

Diego Camelo: Foi bem caótico (risos). Muito por que tivemos muitos atrasos em relação a locações, principalmente. Tivemos problemas pra conseguir a locação do hospital, por exemplo. Lembro que num dos dias de gravação Fortaleza passou por uma onda de ataques a ônibus e isso dificultou todo tipo de transporte na cidade, atrasando bastante o dia de filmagem. O importante pra que tudo desse certo foi ter uma equipe e elenco que mesmo nas dificuldades se dispôs a fazer as filmagens darem certo.

Lula Magalhães: Foi bem louco. Muito cansativo. Quatro dias de gravações intensos. Gravar de forma independente exige muito mais da equipe porque os recursos são mínimos. Mas tudo muito satisfatório no final.

Janderson Rodrigues: Vou deixar o trailer do filme.

Baiestorf: Algo curioso que rolou nas gravações que pode contar para nós?

Vinícius Santos: Tem um fato curioso que aconteceu durante a escolha das locações, em uma das cenas do filme foi filmada em um antiquário. Tínhamos um bem chique, estava tudo certo para filmar, toda equipe aguardando no local, mas por algum motivo o dono da loja não apareceu e tivemos que adiar. O jeito foi utilizar nosso plano B, outro antiquário, era mais simples, mas acabou que combinou muito mais, pois o filme era inspirado em uma lenda dos anos 70 e 80 e o antiquário tinha peças da época, no fim. Deu super certo essa mudança de planos.

Ana Rosenrot: Estávamos numa locação e o nosso ator estava maquiado e pronto para entrar em cena. Enquanto aguardava ele ficou ensaiando e se movendo pelo local. Foi quando percebemos que um senhor que passava na rua estava olhando pela vidraça, ele ficou parado, com os olhos arregalados, horrorizado. E ficou ali por um tempo, indeciso, depois baixou a cabeça e saiu. Ele percebeu que era somente uma pessoa maquiada, pensou que era algum tipo de pegadinha, ou acreditou que estava vendo uma entidade demoníaca? Nunca saberemos, mas o episódio rendeu boas risadas e mostrou que, pelo menos, a maquiagem estava assustadora.

Carolina Venturelli em A Marca do Diabo (Vinícius Santos e Ana Rosenrot).

Cíntia Dutra: Há uma cena no curta que foi filmada em um hospital real, e foi necessário realizá-la na correria, pois segundo o médico que cedeu o leito hospitalar, em final de semana com feriado o risco de precisarem do quarto as pressas era grande. Por sorte não fomos interrompidos. Pagamos 50 reais pelo aluguel de um vestido de brechó. Isso é todo o orçamento do filme!

Elenco de Entre Nós com a diretora Cíntia Dutra.

Danilo Morales: O mecanismo utilizado para esguichar sangue do pescoço da vitima foi feito de forma bem arcaica e barato. Uma mangueira de nível acoplada a uma bomba de encher bicicletas foi a responsável, para de forma mecânica, esguichar o sangue. A faca utilizada era retrátil.

Diego Camelo: Não sei se responde bem a pergunta, mas houve algo engraçado durante as filmagens, fomos gravar uma das cenas mais importantes pro filme e do lado da nossa locação tava rolando uma missa a céu aberto e isso atrapalhou bastante principalmente na questão do som, aí a nossa atriz Gabriela Willis, maquiada com sangue no rosto, foi lá pedir gentilmente pra que os fiéis baixassem o volume (risos).

Lula Magalhães: Sempre digo que fazer filme de terror é muito mais divertido do que fazer filmes de comédia. Foram vários momentos hilários durante as filmagens. Fica até difícil de falar de um específico.

Janderson Rodrigues: No primeiro dia de filmagem estava marcado para começar as 17:30 e terminar as 20:30 e o ator principal não apareceu e ninguém conseguiu falar com ele, então quando estava para cancelar, ele apareceu com o joelho todo inchado e mão enfaixada porque tinha sofrido um acidente de moto e estava no hospital.

Larissa Anzoategui: Olha, as meninas tiveram que passar o dia semi nuas e com maquiagem de efeito na cara. Aí virou uma grande piada tudo o que elas faziam, elas mesmas ficavam tirando sarro umas das outras. Em certo momento, num intervalo, uma das meninas estava agachada olhando o celular, passou a Simone Galassi, que é super piadista e soltou: “Olha! O demônio cagando!”. Só coisas assim mesmo, acho que foi engraçado para quem estava lá. Meio que piada interna. Não aconteceu nada de sobrenatural, nada de luzes caindo ou pessoas levitando (risos).

Diagnose Danação (Diego Camelo).

Baiestorf: Como estão os preparativos (e expectativas) para o lançamento em Outubro?

Vinícius Santos: Estamos já mandando pra festivais nacionais e internacionais, aproveitando que logo o Halloween está aí, e o que mais rola é festivais de horror. Mas a expectativa é grande pra fazer a primeira exibição pública, pra ter um feedback da galera.

Ana Rosenrot: Estamos nos concentrando na divulgação, que deve ser muito bem coordenada com todos os outros diretores e esperamos que o público goste de todos os segmentos, aprecie a diversidade de estilo dos diretores, se assuste e se divirta muito com nossos contos mortais.

Cíntia Dutra: A expectativa é grande, por fazer parte de um projeto tão bacana e com gente super qualificada (falo dos outros curtas – risos). E claro, sempre há a vontade de conferir pessoalmente a estréia, se a rotina e a distância permitirem.

Danilo Morales: A expectativa é alta. Sabemos que o cenário de guerrilha independente não é fácil. A solução é a união dos diretores. Não somos adversários, somos parceiros em prol do fortalecimento do cinema de gênero na região.

Diego Camelo: Estamos ansiosos pro lançamento do “Contos da Morte 2” e vamos fazer um novo corte com mais cenas pro curta, já que havia um tempo limite pra cada curta metragem, muito provavelmente vamos disponibilizar direto pra internet.

Larissa Anzoategui: Eu não vejo a hora de ver todas as histórias! No grupo do facebook a gente ficava trocando informações, postando fotos de bastidores, testes, trailers. Tô muito curiosa para assistir os outros curtas que estão no projeto.

Lula Magalhães: As melhores possíveis. Parte dos outros integrantes são meus amigos e estou muito feliz com a participação e trabalhos deles.

Janderson Rodrigues: Bom, os preparativos estão por conta do Vinicius, e a expectativa é grande porque as pessoas envolvidas são muito boas e também estou muito feliz porque o filme “Cemitério das Moscas” vai ser lançado esse mês e depois vem o lançamento dos “Contos da Morte”.

Dor (Lula Magalhães).

Baiestorf: O público terá o filme disponível para venda em mídia física (ou link online) quanto tempo após o lançamento?

Vinícius Santos: O filme será exibido apenas em festivais em um primeiro momento, após o prazo de um ano. A V Produções Cinematográficas está planejando um terceiro “Contos da Morte”, pra fechar a trilogia e quem sabe a gente possa lançar um box dos três em DVD.

Cíntia Dutra: Espero que haja mídia física sim, afinal é sempre bom ter mais um filme na prateleira.

Diego Camelo: Aí vai depender do tempo que o longa metragem “Contos da Morte 2” ficar em circulação e exibição por festivais e mostras, mas assim que passar essa fase com a Antologia, vamos lançar uma nova versão do curta na internet.

Janderson Rodrigues: O filme vai correr festivais e depois não sei se vai ser lançado em mídia, mas por mim eu lançamos em mídia física sim, ainda sou das antigas.

A Marca do Diabo (Vinícius Santos e Ana Rosenrot).

Baiestorf: No momento você está trabalhando em algum novo projeto? Pode falar sobre ele?

Vinícius Santos: Estou desenvolvendo mais dois novos longas, um é o ‘’Steve Cicco – A Última Porrada’’, um filme paródia de espionagem, a terceira parte de uma trilogia. E também estou finalizando o roteiro do ‘’Sexo, Pizzas e Filmes de Terror’’ que será uma antologia da V Produções com três histórias malucas ambientadas nos anos 80. É um filme que presta uma homenagem a filmes trash da época.

Ana Rosenrot: Atualmente estou me dedicando mais a literatura e ao ativismo cultural. Em 2017 criei a Revista LiteraLivre, uma publicação voltada para a divulgação de autores que escrevem em Língua Portuguesa, de todas as partes do mundo e a experiência tem sido incrível. Também estou planejando o lançamento de um e-book com as edições da Coluna CULTíssimo, no período de 2013 até 2016; continuo escrevendo novas edições da coluna, agora para a LiteraLivre e me dedicado ao meu gênero de escrita predileto: contos e poemas de terror, que pretendo divulgar um pouco mais. Claro que ainda tenho vários projetos cinematográficos, uns curtas inacabados que pretendo finalizar, convites pendentes, enfim, com certeza ainda vem muito mais por aí.

Cíntia Dutra: Projetos sempre existem, nem que seja no âmbito da imaginação. Mas estamos elaborando um novo roteiro, que ainda está em uma fase bem inicial.

Larissa Anzoategui: No final do ano passado e começo deste reuni uma galera aqui em casa para fazer uma maratona de gravações. Em duas semanas gravamos material para quatro curtas e um longa. Dessa produção tem um só pronto: “Janela da Outra”. Mas como eu e o Ramiro somos malucos, acabamos gravando outro longa agora no meio do ano. Era para ser só um curta e para ele pedimos para um artista, o Joni Lima, transformar nossa sala em uma cripta, usando papel e tinta mesmo. Quando ficou pronto ficamos tão empolgados, o Ramiro mais ainda porque estava numas piras com as obras de Byron, que resolvemos gravar mais uns curtas. E no final das contas virou um longa de antologia. Para amarrar todas as histórias gravamos uma quinta e dessa vez eu me meti a atuar também. Oremos! (risos). Este longa de antologia vai se chamar “Domina Nocturna”.

Domina Nocturna (Larissa Anzoategui).

Danilo Morales: Sim. Com previsão de lançamento para 2019. “Cemitério das Moscas II – Os 7 Pecados Capitais”. Sete diretores, cada um dirige o segmento de um pecado. (“Cemiterio das Moscas” está sendo lançado no dia 17 Agosto 2018). Filme longa metragem ainda tem meu filme “Poço Profano”, faz parte de uma dobradinha de diretores. Será gravado em preto e branco.

Diego Camelo: Estou me preparando pra rodar meu primeiro longa metragem, um documentário, mas não posso falar mais sobre por que ainda estamos na fase de pesquisa.

Lula Magalhães: No momento estou fazendo a pós-produção do filme que rodei no ano passado. Acabei de lançar um filme de bruxas chamado “O Pequeno Baú” que rolou no POE – Festival de Cinema Fantástico de São José dos Campos – SP e vai rolar no Cine Horror em Salvador – BA em outubro. Final do ano sai uma ficção científica com horror chamada “O Cavalo Marinho” e início de janeiro um filme que rodei em 2013, chamado “Incógnito”, também estará sendo lançado.

Janderson Rodrigues: No momento estou editando o curta “Povo das Sombras”, com a Lane ABC no papel mais normal dela; e fazendo a fotografia do curta “Não Vacile”, do diretor Ricardo Corsetie. Comecei a pré-produção do longa “Contos”, título provisório.

Baiestorf: Se quiser divulgar seu último filme já lançado, o espaço é seu:

Vinícius Santos: Meu último filme ‘’Steve Cicco: Missão Popoviski’’:

E esse ano ainda lançaremos ‘’Exorcistas Carinhosos’’, trailer já disponível:

Ana Rosenrot: Meus últimos filmes lançados foram “O Atalho”, que dirigi em 2017 (este filme recebeu o Troféu Corvo de Gesso e foi selecionado e exibido no 13º Cinefest Gato Preto); e também participei como produtora, diretora de arte e atriz no curta “Dia de Exorcismo” (2018), dirigido pelo Vinícius J. Santos. Deixo aqui os links do trailer do filme e também do meu site para quem quiser conhecer um pouco mais sobre o meu trabalho:

http://cultissimo.wixsite.com/anarosenrot

Larissa Anzoategui: “A Janela da Outra”. Quase um filme mudo, gravado em uma tarde, equipe muito pequena: Eu, Ramiro, Juciele Fonseca no som e a atriz, a maravilhosa Larissa Maxine. Sinopse: Quem está do outro lado da janela? O delírio, a paranoia e a fusão.

Cíntia Dutra: “Retratos” foi lançado em 2015 e felizmente foi exibido em algumas mostras.

Danilo Morales: Vou deixar o trailer do “Cemitérios das Moscas”.

Janderson Rodrigues: No momento não tenho eles disponíveis, entretanto, até o final do ano será lançado um DVD com os cinco filmes que dirigi.

Lula Magalhães: Acabo de lançar “O Pequeno Baú”, um filme de bruxas que narra uma versão da história de Lilith e de sua influência na vida de duas irmãs. O filme foi todo gravado dentro de uma garagem com fundos escuros, num esquema quase teatral.

Diego Camelo: Meu último filme foi “O Vampiro”, foi o filme que mais curti fazer e o que menos circulou, o filme já está a algum tempo disponível na internet, vejam por favor, foi feito com muito esmero. Segue o link:

Baiestorf: Obrigado pela entrevista e deixe aqui dicas para pessoal que esteja querendo fazer seu primeiro filme:

Ana Rosenrot: Eu é que agradeço pelo espaço e o apoio ao nosso trabalho e ao cinema independente. Sempre digo que o primeiro passo para fazer um filme é fazer um filme! Veja filmes (todo tipo de filmes, seja eclético), pesquise (temos muito material disponível na internet), estude (existem cursos ótimos, com bons preços e até gratuitos) e depois pegue sua câmera (de qualquer tipo) e filme o que der vontade, experimente, vá criando seus roteiros, chame os amigos, faça sozinho, mas faça, não fique a vida toda “pensando” em fazer. Não tenha medo de criar, seja paciente, não fique preso a falta de recursos, não se importe com o amadorismo, aprenda com seus erros, esteja preparado para suportar a crítica (que vai bater sem dó), insista até descobrir seu estilo, aceite que nunca agradará a todos e depois, é só deixar sua marca no mundo.

Vinícius Santos: A dica que dou pra quem está começando, ou pretende fazer seu primeiro filme, é pegar uma idéia, ou um roteiro, mesmo que simples e não pensar demais e nem inventar desculpas demais. É pegar e fazer. Não tem equipamento ou câmera? Faça com o seu celular, ou câmera emprestada, mas faça. Use o que tem na mão e sua criatividade, o importante é não desistir e fazer o que gosta!

Cíntia Dutra: Primeiramente eu que agradeço a oportunidade de divulgar o nosso trabalho, com certeza feito com muito carinho. E para o pessoal que deseja realizar seu filme, basicamente é: Vai e faz.

Janderson Rodrigues: Curtam a pagina no facebook Estrada Films. E para quem estiver fazendo seu primeiro filme, nunca desista, você só vai aprender na prática e sempre esteja preparado para escutar críticas positivas e negativas porque não existe filme ruim e sim gostos diferentes.

Diego Camelo: Eu que agradeço pelo espaço! As dicas que posso dar é estudar bastante, ver muito filme, juntar uma equipe que queira muito fazer os filmes e as suas ideias acontecerem e não desistir nunca! É isso, abraços!

Lula Magalhães: Paciência, organização, objetivismo, garra, criatividade, respeito pela equipe e um pouco de sorte são os ingredientes principais pra tocar uma produção de guerrilha.

Danilo Morales: Não desanimar. Não dar desculpas. Faça o filme com o que tiver em mãos. Um celular, uma câmera usada.  Instale um programa de edição e sempre vá se aprimorando, buscando evoluir.

Larissa Anzoategui: Não espere a equipe perfeita ou fazer tudo certinho. Acumule funções mesmo! Faça como der, mas faça da melhor forma. Procure pessoas que realmente vão se compromissar com a produção, principalmente com parcerias que ninguém vai ganhar nada de dinheiro. Pesquise e teste gambiarras para fazer uma iluminação massa!

Canal Vproduções no youtube:

https://www.youtube.com/user/EquipeVProd/featured

Site da Revista LiteraLivre:

http://cultissimo.wixsite.com/revistaliteralivre

As Maquiagens Gore de Alice Austríaco

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A história da maquiagem gore no Brasil é bem recente, tem seus primórdios no SOV da década de 1990, com artistas como Júlio Freitas, Ricardo Spencer e Carli Bortolanza em seus trabalhos em vídeo pela Canibal Filmes. Só no século XXI que o país começou a ganhar grandes artistas dos efeitos melequentos e corpos dilacerados que levaram os efeitos sangrento para outro patamar. Em 2008 Rodrigo Aragão surgiu como o principal nome com seu “Mangue Negro”, junto de artistas como Kapel Furman que, em São Paulo, já estava realizando muitas maquiagens extremas. No sul surgiu Ricardo Ghiorzi e Caroline Tedy, ambos realizando maquiagens lindas. Em Vila Velha surgiu Alexandre Brunoro, que agora também está se especializando em fazer máscaras e próteses e acabou de lançar seu último trabalho, “Você, Morto”, com direção de Raphael Araújo. No Rio de Janeiro Jorge Allen é outro nome cujos trabalhos merecem ser visto. Em Goiânia Hérick João tem realizado make-ups ótimas e tive o privilégio de dirigi-lo no curta “Beck 137” e o cara é rápido sob pressão.

Um novo nome para ficar atento é Alice Austríaco (pretendo trabalhar com ela e Alexandre Brunoro no meu próximo filme), da cidade de Contagem/MG, pertinho de Belo Horizonte. Alice é assistente social formada pela Universidade Una, área em que atuou por dois anos, até que percebeu que não precisa de um emprego formal e que poderia se dedicar em tempo integral para as artes. Formada também em artes gráficas pela Escola Saga, além de maquiadora gore, também tatua, faz ilustrações e desenha roupas.

No momento Alice está realizando as maquiagens gore de um projeto fotográfico envolvendo crianças zumbis em situações de extrema violência, que também deverá se tornar um curta-metragem. Para falar mais sobre este trabalho, entrevistei Alice Austríaco.

Alice Austríaco

Petter Baiestorf: Como surgiu seu interesse por efeitos e maquiagens gore?

Alice Austríaco: Como qualquer criança a influência dos pais foi agente principal pra construção da personalidade e dos gostos, assim a paixão pelo cinema surgiu de forma natural e praticamente imperceptível. Minha mãe admiradora dos grandes romances clássicos e, meu pai, um grande entusiasta do cinema Western, me ensinaram o valor e a importância do cinema ainda quando eu era bem nova. Era hábito alugar algumas fitas durante o final de semana e foi em um desses dias que tive meu primeiro contato com o gore, aos nove anos de idade.  Me lembro bem do “moço da locadora” (como eu o chamava) me recomendando Evil Dead (1981), não sei se com a intenção de me assustar, mas, se foi, não deu muito certo. Me apaixonei. Desde então filmes carregados de efeitos e maquiagens gore se tornaram prioridade, despertaram em mim curiosidade e o sentimento de um cinema repleto de possibilidades e sentimentos. Já mais velha, em contato com alguns filmes, incluindo O Monstro Legume do Espaço que tenho enorme apresso, desenvolvi o interesse pela parte técnica e busquei estudar e compreender o cinema atrás das câmeras, me encantando pela maquiagem. Programas como o Cinelab também fizeram parte desse processo e me mostraram alternativas baratas para o que, até então, parecia impossível.

Alice realiza seus testes de maquiagem em si própria

Baiestorf: Algo que adoro em suas maquiagens e testes gore é a pegada sujona que você imprime a elas. Quais são suas inspirações, tantos nacionais quanto internacionais?

Alice: Minhas inspirações são variadas, Lua Tiomi que é uma maquiadora sensacional e trabalha com muita delicadeza, Mimi Choi que, apesar de ser especialista em Bodypaint (que não é o meu estilo), me inspira bastante, Dick Smith e Greg Nicotero, que são grandes nomes internacionais, me inspiram e uso de referência pra muitos dos meus trabalhos. Entretanto, acredito que o aspecto “sujo” seja uma identidade própria, quase como uma assinatura que desenvolvi ao longo do tempo e tem muito da estética que eu considero bonita no gore.

Baiestorf: Efeitos e maquiagens práticas ou digitais? Ou uma harmonização entre os dois estilos usando o melhor de cada técnica?

Alice: Ainda que eu tenha me inserido no mundo do cinema tardiamente, em que os efeitos digitais já estavam mais comuns, minha preferência sempre será pelas maquiagens e efeitos práticos. Acredito que, dessa forma, toda a produção fica mais orgânica e impactante. Não abomino o uso dos efeitos digitais e sei da sua importância, mas se possível que seja usado por necessidade e não como principal ferramenta na produção. Acredito também que o efeito prático envolve o set numa atmosfera divertida, gerando um resultado final real e vívido.

Baiestorf: Você testa bastante, inclusive utilizando de materiais baratos e fáceis de encontrar. Como funciona seu processo de criação?

Alice: Testar maquiagens é uma das coisas que mais gosto de fazer no dia a dia. A necessidade de usar materiais baratos veio da intenção de produzir sem dinheiro, através desses testes aprendi que é possível usar qualquer material e conseguir um resultado interessante. Comecei usando papel higiênico de qualidade duvidosa, garrafas de plástico, guache e até tinta aquarela que eu havia guardado de um trabalho de pintura em papel. A partir daí comecei a testar farinha, café, beterraba e qualquer outra coisa que fosse possível extrair cor ou uma textura que fosse necessária no momento. Também uso material específico para maquiagem, mas sei que em qualquer situação de necessidade, após uma feira e uma ida ao mercado, consigo fazer um gore impactante e, o mais importante, gastando pouco. Já o processo de criação sempre vem de formas variadas. Quando é um trabalho que o cliente tem exatamente o que quer em mente, geralmente busco imagens reais (um ferimento, por exemplo) e, apesar de desconfortável, busco enxergar os detalhes e reproduzir de maneira fiel. Já quando tenho liberdade de criação, costumo fazer uns storyboards mal feitos, apenas pra que eu não esqueça o meu objetivo, uma vez que, quando me empolgo, começo a fazer muita coisa e me esqueço da principal intenção e o que era pra ser uma ferida pequena se transforma numa autópsia completa. Além disso, independente do que seja o trabalho eu sempre testo em mim, primeiro porque acho necessário ajustar detalhes e compreender o que pode ou não ser feito no dia da produção e segundo porque gosto de saber como o modelo/ator vai se sentir no dia e até onde posso ir sem que se torne desagradável para quem estiver sendo maquiado.

Baiestorf: Como é o espaço em MG para trabalhar com maquiagens gore e cinema de gênero? Há espaço?

Alice: Em Minas Gerais infelizmente o gore ainda é pouco explorado, existe um carinho pelo cinema documental por aqui, principalmente em Belo Horizonte. Já o gore é pouco considerado, o público além de ser muito específico não busca fomentar o gênero, assim os locais públicos que fazem mostras de cinema raramente trazem a temática e reproduzem esses filmes. Por isso não existe espaço para quem deseja trabalhar na área. O lado bom disso é que onde não tem espaço, é possível criar um, e isso tem sido um fator motivacional para prosseguir – mesmo que exista uma vontade de ir para São Paulo, ainda acredito que seja possível começar a movimentar as coisas por aqui, em MG. Outro aspecto que venho observando é que o impacto que o gore causa torna os profissionais envolvidos temerosos quanto as suas participações. Muitos ficam receosos de se envolverem com o gênero e receberem julgamentos desagradáveis, afinal, o gore pode trazer desconforto e sempre vai ter alguém para apontar e achar tudo isso um absurdo, até mesmo usar de preceitos religiosos para fazer críticas ácidas e desproporcionais, o que já aconteceu e exigiu bastante jogo de cintura para contornar a situação. Optar por trabalhar com isso em Minas Gerais é assumir riscos, passar por julgamentos e ter que buscar outras maneiras de ter uma renda minimamente aceitável, uma vez que o retorno financeiro é pouco, mas confesso que tem sido muito prazeroso esse processo e tenho conhecido pessoas sensacionais, empenhadas e dispostas.

Baiestorf: Você esteve participando do Cinelab Aprendiz. Pode contar como foram as gravações? Como foi trabalhar com o Kapel, Armando e Raphael?

Alice: O Cinelab Aprendiz foi um divisor de águas e me impulsionou a tomar decisões que vêm mudando o meu rumo profissional desde então. As gravações aconteceram em São Paulo, cidade que havia visitado uma única vez e não conhecia absolutamente nada. Foi um risco que resolvi correr e, apesar da timidez, compreendi que seria necessário enfrentar, uma vez que me enriqueceria não somente no âmbito profissional, mas também pessoal. Todos os dias de gravação foram intensos e os programas exigiam, além de conhecimento na maquiagem, uma necessidade de conhecer também um pouco de cada função desempenhada no set . Tudo isso fez com que eu aprendesse e explorasse tudo o que sabia e não sabia, aprendi muito com meus companheiros de equipe e até mesmo das equipes adversárias, existindo ali um clima de companheirismo e uma troca intensa de saberes. Conhecer os mentores, Kapel, Armando e Raphael, foi o real prêmio pra mim, uma vez que são pessoas que já nutria uma admiração absurda, não só por causa do programa, mas também por seus projetos, dos quais acompanhava muito antes de participar do reality show. Os três estavam empenhados em nos ajudar e ensinar o que fosse necessário para que pudéssemos desenvolver e aprender. Aproveito o espaço para agradecer o Raphael Borghi, que foi o meu mentor durante as gravações e me ensinou muito. Todas as dicas que me passou vêm sendo colocadas em prática constantemente, inclusive foi fundamental para que eu reafirmasse meu senso de coletividade e me mostrou a necessidade de ter sempre comigo uma equipe coesa, que acredita minimamente nas mesmas coisas que eu, de forma que qualquer trabalho seja prazeroso e respeitoso com todos os envolvidos. Contudo, saí do programa empenhada a trabalhar com cinema, desenvolver projetos e me dedicar ainda mais à maquiagem, especificamente com o gore.

Baiestorf: Algum história envolvendo os efeitos/maquiagens durante o Cinelab Aprendiz que você possa contar?

Alice: As maquiagens eram sempre feitas na pressa por causa do tempo das provas e eu sempre saía com o sentimento de que poderia ter feito melhor, mas em uma das provas a equipe resolveu se dedicar integralmente na caracterização e todos estavam focados em fazer o melhor possível. Gabriel Niemietz e eu ficamos durante toda a prova dedicando à maquiagem de extraterrestre que foi feita no Gustavo Saulle que, no final, ficou irreconhecível. Essa maquiagem foi feita com papel higiênico e látex que, com ajuda de um soprador térmico, secou a tempo para que pudéssemos pintar de verde. Fazer isso foi extremamente desgastante ao Gustavo que ficou com dificuldades de respirar em alguns momentos devido ao cheiro forte do látex, o que nos levou a improvisar um canudo que colocou na boca, a fim de aliviar e facilitar a respiração dele. Durante essa prova recebemos o desafio surpresa de realizar também um estripamento e, desesperada por causa do tempo, no momento em que fui montar o efeito cortei o microfone de lapela que estava presa ao corpo do Gustavo. Isso apenas me mostrou a importância de não deixar o desespero e a pressa me guiarem. Confesso que hoje dou risadas do episódio, mas no dia fiquei em pânico.

Alien do Cinelab realizado por Alice e companheiros de equipe.

Baiestorf: Como foi sua percepção quanto ao mercado paulista de vídeo?

Alice: Tive um choque com a diferença do mercado e do interesse das pessoas em produzir em relação à Minas Gerais. No pouco tempo que estive em São Paulo conheci pessoas maravilhosas que estavam empenhadas em colocar “a mão na massa” (ou no sangue, nesse caso) e me convidaram para participar de projetos independentes, trabalhar e manter estadia em São Paulo. Ainda acredito que seja um objetivo e sei que terei mais facilidade em me dedicar na área, mas tudo precisa de planejamento e isso requer uma atenção e cuidado, considerando que o mercado da arte (que nunca foi valorizado), tende a oscilar e decisões precisam ser tomadas visando também o futuro. A maior diferença que encontrei é o risco que as pessoas estão dispostas a correr para colocar um projeto em prática, mesmo que seja assustador ou chocante, o mercado paulista não se inibe. Talvez pelo gore ser mais explorado ou por ser uma cidade com um público diverso, de forma que sempre haverá consumidor pra qualquer gênero que seja, ainda que cause estranheza em muitos lugares.

Baiestorf: Você tem feito maquiagens em vídeo clips, pode falar deles?

Alice: Trabalhar com vídeo clips tem sido uma experiência maravilhosa. Como o mercado pro gore no cinema ainda é escasso em Belo Horizonte, os clips são uma forma de apresentar às pessoas essa possibilidade e mostrar também que o gore pode ser usado de diversas maneiras. O trabalho nesse sentido se difere de um curta, por exemplo, por ser muito rápido. Em um dia tudo tem que estar pronto e geralmente no mesmo dia que começa, termina. São trabalhos rápidos, mas que exigem muita colaboração do set e cumplicidade dos envolvidos, inclusive da banda que está focada na sua parte e precisa confiar nos demais e, principalmente, na maquiagem. Só assim o trabalho consegue ser desenvolvido de maneira fluida e resultar em algo que agrade os fãs da banda, os músicos e as demais pessoas que trabalharam na produção.

Baiestorf: Você está realizando um ensaio fotográfico, em parceria com o artista Maxwell Vilela, que envolve crianças interpretando zumbis em situações de extremo gore. Como está sendo a realização deste trabalho? Pode contar situações dos bastidores?

Alice: A ideia surgiu de uma conversa despretensiosa e foi se transformando conforme desenvolvíamos o diálogo. Trabalhar com o Max é sensacional, assim como toda a equipe presente (Cadu Passos e Éric Andrada), que são pessoas dedicadas e empenhadas. Tive muita liberdade pra desenvolver a maquiagem desse projeto, as ideias foram tomadas junto com o Max, mas toda a identidade, o sangue e a construção foram pensadas por mim, onde pude desenvolver uma maquiagem agressiva, mesmo que tenha sido feita em uma criança de 9 anos, a Ayla. A pequena modelo demonstrou muita personalidade ao abraçar a ideia e não se incomodou com o sangue ou até mesmo pelo fato de ter seu coração “arrancado” de seu corpo. A foto abaixo foi feita em um parque público e, como imaginávamos, as pessoas naturalmente se espantaram, até então era compreensível, afinal, não é sempre que você encontra uma garotinha segurando o próprio coração por aí, o incômodo real surgiu dos comentários infelizes de algumas senhoras que usaram a religião de subterfúgio para proferir comentários ácidos sobre o trabalho (como dizer que ela estava horrível, que aquilo não era de Deus e coisas mais absurdas), o que gerou um desconforto não só na equipe, mas também na Ayla, que decidiu encerrar e darmos continuidade em outro momento. Temos como objetivo chocar, causar estranheza, mas acima de tudo questionar a adultização da infância, uma vez que maquiagens pesadas em garotinhas, sexualização, privação da infância dentre outras coisas são naturalizadas e não assustam. Destruir a idealização da princesinha encantada foi um objetivo comum e, com certeza, alcançado.

Baiestorf: Quando e onde sairá este ensaio?

Alice: Todos os envolvidos são artistas multitarefas a fim de manter a subsistência, por isso as datas são incertas, precisamos terminar o que começamos e pra isso temos a necessidade de abrir mão de trabalhos rentáveis, mas temos planos para lançar isso em breve! Inclusive novas ideias surgiram nesse processo e, com certeza, esse projeto se tornará maior do que a proposta inicial. De inicio vamos expor onde nos couber, pensamos em expor uma das fotos no metrô de Belo Horizonte o que causará um impacto em quem passa diariamente por lá e as vezes fica alheio ao meio. Talvez seja o momento de sacudir e chocar um pouco.

Baiestorf: Além do ensaio será editado também um curta? Pode falar sobre isso?

Alice: O curta tem sido um exemplo do cinema de guerrilha. Sem verba, sem uma grande equipe, mas muita motivação e esforço pessoal de cada envolvido. O acordo é que manteríamos suspense, por isso só posso adiantar que vai ter muito sangue. Tem sido um processo divertido, mas sujo!

Baiestorf: Além de maquiadora você também realiza ilustrações, tatua e cria roupas. Como é conciliar tudo no seu dia a dia?

Alice: As pessoas tendem a padronizar comportamentos, profissões e até a rotina se faz necessária. Por causa dessa construção demorei a compreender que é sim possível fazer tudo o que tenho vontade, basta ter organização e paciência, já que às vezes as coisas parecem sair um pouco do controle. Contudo, trabalhar com arte requer jogo de cintura e quase te obriga a explorar novas áreas, de maneira que seja possível ter um retorno financeiro aceitável. O que torna tudo mais prazeroso e possível é que são trabalhos dos quais tenho liberdade de horários, flexibilidade de organização e remanejamento. Acredito sim na possibilidade de trabalhar com aquilo que ama e, mesmo que sejam muitas tarefas, nada é desgastante, mas sempre muito divertido. Me envolver em áreas distintas permite que eu conheça muitas pessoas e aprenda diariamente, cada conhecimento adquirido pode auxiliar em outros projetos e, desta forma, sinto que consigo estabelecer uma conexão entre todas as áreas que resolvi me envolver.

Baiestorf: Algum projeto envolvendo ilustrações?

Alice: Constantemente projeto ideias para as ilustrações, mas ironicamente elas nunca saíram do papel. Imagino mil possibilidades com as ilustrações, mas nunca consegui estruturar algo para elas, senão me auxiliar na tatuagem, encomendas ou alguns storyboards mal feitos, dos quais esboço de forma bem simplista as maquiagens que tenho que fazer. Algumas anotações que faço costumam acompanhar pequenos esboços e rabiscos, que foi uma forma que encontrei de memorizar tarefas e me organizar no dia a dia. Tenho a pretensão de desenvolver algum projeto voltado para as ilustrações, mas ainda preciso pensar a respeito.

Baiestorf: Você ainda não está trabalhando com látex e animatrônicos em seus projetos, certo? Algum plano, ou testes, nessa direção?

Alice: Os trabalhos com látex e animatrônicos tem sido o meu principal objetivo na maquiagem, venho estudando e testando as próteses de látex e glicerina, o que tem gerado bons resultados. Já sobre os animatrônicos ainda não tive oportunidade de começar a desenvolver, mas pretendo até o final do ano ter dado início aos estudos e testes, de maneira que, em 2019, eu consiga me dedicar integralmente às maquiagens.

Baiestorf: Como o pessoal faz para acompanhar seu trabalho?

Alice: Sempre publico as maquiagens nas redes sociais e venho tentado dialogar com quem acompanha. Instagram: www.instagram.com/aliceaustriaco Facebook: www.facebook.com/aliceafm

Baiestorf: Como te contratar para futuros projetos?

Alice: Sempre respondo todos através das redes sociais, mas para trabalhos e afins disponibilizo o e-mail: aliceaustriaco@gmail.com

Baiestorf: Alice, gostaria de te agradecer pela entrevista. O espaço é seu para falar sobre algo que eu não tenha perguntado.

Alice: Petter, gostaria de agradecer o espaço e a consideração por mim e pelo meu trabalho. Suas produções sempre me motivaram, principalmente em trabalhar com o gore, me mostrando que é sim possível valorizar o gênero em solo nacional. Seus trabalhos construíram parte da minha identidade dentro da maquiagem e sigo me espelhando e aprendendo constantemente com o que me oferece. É uma grande honra fazer parte disso e ter essa oportunidade. Muito obrigada!

Dica de Alice:

ingredientes para a massa:

Vaselina sólida

Pó compacto da cor desejada

Amido de Milho

para o sangue:

Glucose de milho

Corante em pó vermelho

Corante em pó marrom (ou achocolatado em pó)

Corante em pó preto

modo de preparo:

Em uma vasilha acrescente duas colheres de vaselina sólida, pó compacto em pequena quantidade (até que alcance a cor desejada) e, aos poucos, o amido de milho. A consistência final é uma massa moldável e firme.

Para o sangue basta misturar na glucose de milho, o corante vermelho e, aos poucos, acrescentar o corante marrom. As quantidades podem variar de acordo com a cor desejada pela pessoa, por isso é necessário acrescentar todos os ingredientes devagar, sempre misturando e conferindo a cor.

Espalhe a massinha e, com ajuda do dedo úmido, molde de acordo com o formato do corpo. Com um lápis ou palito úmido faça pequenos furos na massa.

Com um pincel espalhe o sangue por toda a massa de maneira desuniforme, deixando alguns pedaços sem e outros buraquinhos que foram feitos com o lápis preenchidos de vermelho. Por fim, com o auxilio de uma esponja úmida, dê pequenas batidinhas por toda a maquiagem com o corante em pó preto, até que chegue a um resultado satisfatório.

Canibuk Apresenta: A Arte de Pomba Claúdia

Posted in Arte e Cultura, Cinema, Entrevista, Ilustração, Pinturas, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on março 13, 2018 by canibuk

Conheci a Pomba tem uns 15 anos em andanças por Porto Alegre. Possivelmente nos conhecemos em algum boteco cultural. Ou em alguma mesa de bar pós-exibições de filmes transgressores onde meus filmes eram programados, não lembro. Mas uma coisa é certa, assim que comecei a conhecer o trabalho de Pomba fui ficando fã e acompanhando na butuca.

Pomba faz de tudo. Além de desenhista, já fez música (“Pedra” é um punk hilário), curtas-metragens (“Pé de Cabra” é um dos episódios de “13 Histórias Estranhas” e agora está produzindo “Monstro”, de Magnum Borini), escreve contos e poesias. E desde 2006 participa do grupo de cartunistas GRAFAR, que edita diversos livros de cartuns (sempre coletivos). Mas para viver Pomba é professora de português e literatura.

Já tem livros publicados, participa do evento de cartum Cartucho em Santa Maria e atualmente gosta de desenhar coelhos. Fiquem com a entrevista que realizei com Pomba, é fantástico poder divulgar o pensamento iconoclasta desta fantástica artista livre.

Pomba Claúdia

Petter Baiestorf: Gostaria que você contasse como começou seu interesse pela arte e, também, sobre seus primeiros trabalhos.

Pomba Claúdia: Eu acho que sempre tive uma pira por tudo fora da realidade. A realidade consistia em ver meus pais brigando, horários políticos, notícias de televisão (mesmo que fossem mentira) ou tudo que tivesse alguma relação com o chato e burocrático mundo adulto. Fui uma criança solitária, filha única, guria de apartamento, criada pela televisão. Uma menina gordinha comendo milhopã na cama bagunçada aguardando os adultos voltarem do trabalho. Mas os adultos nem sempre foram esses monstros que estou pintando. Meu pai gostava (e gosta) muito de filmes, de desenhos animados e também de videogames… Absorvi estes gostos. Aos sete ou oito anos comecei a ganhar fitas VHS dos desenhos da Disney. Ao final do desenho animado da Branca de Neve tinha o making off do filme… Eu pirei com aquilo, foi tipo a primeira paixão platônica. Era aquilo que eu queria fazer. Mas aquilo mexeu muito comigo. Revi diversas vezes. Não me interessava o príncipe, não me interessava os sete anões (isso eu já assistia no “Histórias que Nossas Babás não Contavam”). Meu primeiro trabalho surgiu nessa época, na 1ª série, quando a professora levou meu desenho inspirado na música da “Dona Aranha” para a TV Cultura local junto com o de outros colegas. Eu liguei a TV por acaso e ela estava mostrando meu desenho. Isso me deixou muito feliz, pois eu não era uma criança lá muito enturmada e me senti valorizada. Acho que aí comecei a descobrir quem eu era… Mas ao falar para os meus pais, exaustos do trabalho, de saco cheio, que eu tinha decidido ser artista/desenhista/criadora de jogos e desenhos, eles me disseram que aquilo era coisa pra gente rica e que eu não teria me sustentar com aquilo. Como toda paixão, esse foi meu primeiro soco na cara dos sonhos “oquevocêquerserquandocrescer” que eu levei (e levo até hoje… muitos ainda). Acredito que isso deva acontecer com muitas crianças, mas eu continuei recortando da realidade esses sonhos, essas piras… Meus melhores brinquedos eram os lápis de cor, minha melhor companhia eram os desenhos animados, gibis, livros ilustrados e os joguinhos da Atari. Desenhava compulsivamente. Se isso é arte? Só depois me disseram…

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Baiestorf: Sua arte sofre influências de quais artistas e escolas estéticas. Fale o que te atraí neles, se quiser falar sobre os porquês seria muito interessante.

Pomba: Minha arte sofre. E sofrer influências é um dilema. Porque quando vi já estava sofrendo, roubando, parafraseando, recortando, fazendo um mosaico de coisas bonitinhas e ogras. Acredito que os melhores artistas são as crianças e os bêbados. As melhores escolas estéticas são os bares. Mas tentando organizar o grande pobre roubo de ideias, posso retomar o lance da Disney. Falem o que quiser da Disney, foi ali o pontapé inicial. Mas é claro, você cresce, vira adolescente e quer queimar todos os discos da Xuxa, quer inverter a cruz, jogar o jogo do copo, beber cachaça com gemada.  Comigo não foi diferente. Por não ter amigos, nem internet, provavelmente o que influenciou foram os filmes que passavam na Sessão da Tarde e no Cinema em Casa. Podem rir, mas a estética de filmes de Tim Burton, assim como “Elvira – A Rainha das Trevas” e “A Família Addams” podem ter me inspirado… Minhas princesas perderam os braços, ganharam chifres. Meus quadros ganharam cores escuras. Eu pintava com qualquer coisa em qualquer lugar. Era libertador… Mas tudo foi jogado fora por mamãe. Só lá por 2001 comecei a organizar minhas influências e comecei a me identificar com a arte surrealista. A seguir, meus desenhos ainda tratando de temas mórbidos, começaram a ter um teor mais zueiro. Em 2004, busquei um curso de desenho animado que serviu para que finalmente conhecesse outras pessoas que desenhavam. Até ali não conhecia ninguém. Meu amigo e ilustrador Guilherme Moojen então me apresentou em 2006 a GRAFAR, um grupo de cartunistas e grafistas aqui de Porto Alegre que se reuniam semanalmente no bar Tutti Giorni. Apesar dos meus desenhos sem muita técnica, eles me acolheram e logo me convidaram para participar de um livro, chamado “Sem Trégua” em 2006. Considero esse boteco minha escola de arte. Esses senhores, Edgar Vasques, Eugênio Neves, Ubert, Hals, Ruben, Santiago, Pedro Alice, Lancast, Moa e, posteriormente, Carla Pilla, foram os meus primeiros e melhores professores. Inspirada no trabalho desses amigos meus desenhos sombrios ganharam cor, meu traço foi ganhando e ainda ganha a cada dia mais personalidade. Cada um com seu estilo me inspira de uma forma. O traço brusco do Ruben e a segurança da linha e simplicidade humorística do Santiago. O volume através das hachuras do Eugênio Neves, as aquarelas da Carla Pilla, enfim… Todas as terças eu saía desse bar mais inspirada e feliz de ter encontrado pessoas que gostam de desenhar enquanto conversam. O meu desenho, assim como textos, manteve um humor sádico, ácido e, em alguns casos, erótico. Descobria a cada encontro novas técnicas, novos estilos e novas inspirações como as ilustrações fodas da Mariza Dias e as putarias da Melinda Gebbie.

Baiestorf: Com sua arte você está aberta a todo tipo de trabalho ou gostaria de se especializar somente em uma área? Por quê?

Pomba: Quem me conhece sabe que também curto fazer filmes, músicas, poemas, contos, produzir eventos… Além de ser professora de português (o que pode parecer chato pra caralho, mas como envolve linguagem tá valendo). Então acabo diversificando meu trabalho em outras áreas também. É um surubão de áreas. Um estilo esquizofrênico. Por isso, sou bem aberta (rará). Sendo o espaço para arte independente (que é meu caso) tão limitado financeiramente, eu curto mesmo é chutar o balde. Às vezes me sinto uma fraude. E acho que isso faz parte de mim e justifica por eu ter trabalhos tão diferentes uns dos outros… Além disso, acho uma lindeza essa coisa de misturar cheiros, gostos, texturas, barulhos… Animação, cinema, música, uma explosão sensorial. Acredito que quebrar um estereótipo artístico ajude a tirar esse bundamolismo da arte. A arte teria que ser o grito de expressão, arte é cortar a orelha e brigar no bar, arte é chorar em cima da tinta e borrar tudo… Arte teria que ser algo que te atinja individualmente, mas que também atinja os outros, seja para agradar ou para incomodar. Algumas pessoas acreditam que primeiro você aprende a técnica e depois você cria. Eu prefiro brincar com as ideias, jogá-las no papel, na tela, no caderno e depois pensar no que pode ser feito – ou não. Elevar o padrão limita a criação. Há liberdade na ignorância, assim você se inspira de forma mais inocente e inconsequente. Se eu me especializasse em uma área, creio que perderia um pouco disso.

Assista o curta-metragem Pé de Cabra:

Baiestorf: Conte sobre suas exposições e como produtores poderiam levá-la para suas cidades/estados.

Pomba: Até agora só fiz exposições coletivas. Muitas em Santa Maria, em um evento de cartunistas chamado Cartucho, organizado pelo querido Máucio Rodrigues.  Devo ter participado de pelo menos umas cinco exposições lá. Todos os anos é sorteado um tema e a gente faz cartuns sobre aquilo em 24 horas. É bem massa. Pra falar a verdade, tenho poucos desenhos para expor. Os melhores estão em cadernos pautados ao lado de anotações de aula ou em guardanapos de bar… Para uma exposição de folhas pautadas rabiscadas e guardanapos sujos com desenhos eu teria muita coisa. Mas às vezes vêm momentos de luz e faço algo a mais, um quadro com objetos colados, uma aquarela bonitinha… Daí esses guardo, reproduzo em forma de imã, zine e o que mais for… Eu romerobritizo minha arte. Mas no fundo eu sou a desenhista de bar, ou de alguma sala de aula… Faço desenho e dou de presente. Talvez eu devesse omitir essas coisas, mas acho que é um traço da essência do que faço, um desapego. Até porque, não tenho espaço para acervo, moro num apartamento de 30m²… Se alguém tiver um espaço para eu pintar grandes quadros e paredes, ficarei muito feliz. Quem quiser me chamar pruma exposição, propor um tema ou juntar meus esboços e artes existentes meu email é claudiadrb@gmail.com ou pelo telefone 55 51 992792662. Meu trabalho pode ser visto no meu site https://claudiadrb.wixsite.com/borborini/copia-inicio, na página do Facebook: https://www.facebook.com/pombadesenhos/ e alguma coisa no Instagram: @pombaclaudia

Baiestorf: Como é realizar trabalhos artísticos aqui no Brasil? Há reconhecimento? Oportunidades?

Pomba: Como eu disse, meus pais me deram o soco de realidade aos sete anos quando falei com inocência que eu gostaria de ser artista. E cresci com esse pensamento. Pra não me iludir acabei virando professora de língua portuguesa, o que também não tem reconhecimento (risos). Então o que move minhas criações não é bem o reconhecimento, mas a necessidade de criar, de me sentir parte de algo que eu goste, que me faça me sentir eu. Claro que quando ganho dinheiro com meus desenhos, meus filmes ou meus textos eu me sinto incrivelmente feliz pelo reconhecimento, ao mesmo tempo em que acho estranho, pois, como eu disse, isso não foi construído em mim. E confesso que não me orgulho de ser assim, gostaria de poder falar com firmeza o valor de um quadro e passar um orçamento convicto de uma ilustração. Ainda assim, as oportunidades não caem no colo. Vejo uma galera muito mais talentosa e empenhada do que eu, investindo, trampando muito pra poder aperfeiçoar e assim conseguir um retorno de sua arte, ainda mais quando se trata da arte impressa, tendo em vista que hoje em dia temos muita coisa pronta no computador, que é só imprimir e pendurar na parede da sala. Portanto, considero desproporcional o número de oportunidades para a arte em relação ao desejo de se investir nisso. Acaba que muitos trabalhos fodas e autorais acabam virando logos com cara de trampo de design gráfico, assim como muito filme independente fica com a maior pinta de propaganda publicitária. Por essas e outras, eu me pego vergonhosamente acreditando que pra ganhar grana com arte você já precisa ter grana. Conheço gente que só pinta com material caríssimo, eu uso guache, pinto no papelão, uso a sobra da tinta que usei pra pintar a parede da sala de casa… Acabo me inscrevendo em concursos e festivais gratuitos, catando oportunidades de graça e tentando me enfiar onde dá. Mas os reconhecimentos e oportunidades são que nem uma cova, tem que cavar para achar algo.

Zumbizinhu Inédito

Baiestorf: Você está com trabalhos em finalização? Poderia falar sobre eles e como o público poderá acompanhá-los?

Pomba: Meu próximo e mais desejável trabalho é sobre Coelhos. Não tenho como falar muito sobre ele no momento, mas vou colocar o primeiro quadro que me inspirou a desenvolver uma série sobre esse rico animalzinho.

Baiestorf: E seus projetos? É possível sabermos um pouquinho deles?

Pomba: Esse ano pretendo montar junto a outras garotas um coletivo chamado Útero Underground. É uma ideia que ainda está no útero (rá), mas que em breve será melhor desenvolvida e que consistirá não apenas nas artes visuais, mas também na elaboração de músicas, barulhos, vídeos e o que mais vier ao encontro de construir um espaço libertador e sem tantos pudores em relação ao que a gente entende por arte. Paralelo a isso, estou aguardando o contato de alguns amigos da GRAFAR para a pintura de painéis, pretendo fazer um desenho animado e uma exposição de coelhos tarados.

Baiestorf: Geralmente a arte no Brasil é produzida de forma independente e é difícil conseguir se manter. O que você gostaria de observar sobre isso.

Pomba: Cara, acho que é o que falei antes… A gente se enfia onde dá, claro, em alguns casos a gente pensa nos princípios e não vai se enfiar de cabeça quando estão envolvidas pessoas escrotas que só pensam em explorar e lucrar a custa dos outros. Fora isso, nem todo mundo tem a oportunidade de fazer uma faculdade de arte. Vou falar da de cinema também, pois sabemos que cinema é caro pra cacete. Daí a gente acaba fazendo muita coisa de graça na troca de experiência, para apoiar os amigos que também não tem grana e isso vira um grande ciclo da horripilante mágica de se fazer arte de graça sem ganhar nada em troca. Acho que essas iniciativas como o teu blog, assim como rádios online, coletivos independentes, financiamentos coletivos, formas preliminares da gente sair do limbo e começarmos a desenvolver uma estrutura que pague nossas contas. Mas não só isso. O que eu vejo e que pouca gente comenta é como o artista independente muitas vezes está alienado do povo, da galera da periferia que também faz parte da outra margem independente da arte, como é caso da pixação, grafite, stencil chamem como quiser. O perfil da galera “independente” “underground” muitas vezes é branco, classe média, universitário. E a outra área independente? Fico pensando que louco seria toda essa galera se reunindo, aprendendo uns com os outros, compartilhando cultura, técnica, fugindo dessa aprendizagem acadêmica muitas vezes elitista e enfadonha. Exposição de arte é aquele perfil de homem de coque, magrinho, segurando a taça de Salton e conversando com a garotinha esnobe que admira pra caralho Miró, ambos intrigados com a popularidade do Romero Britto, expondo algo dito independente . Enquanto do lado de fora do prédio algum garoto leva um pau da polícia por fazer um desenho em um muro. Talvez o que falte para a arte independente conseguir se manter é incomodar um pouco, ter uma voz mais ousada, mais politizada, mais envolvente e que convide diferentes grupos ditos independentes a se observarem. Enfim, é manjado, mas é isso, a união faz a força.

Boteco de Ideias

Baiestorf: O espaço é seu para as considerações finais:

Pomba: Eu gostaria de agradecer ao Petter Baiestorf por essa oportunidade de eu falar sobre minha arte. Às vezes não sei como consegui conhecer tanta gente foda e incrível, pois soa estranho pra mim ser chamada de “artista”. Sempre achei que artista fosse ou Picasso, Salvador Dalí, ou na contemporaneidade alguma Big Brother que pousou nua. Então essa palavra me deixa com uma certa crise de personalidade. Alguns lugares dão desconto se você diz que é da “classe artística” aqui em Porto Alegre. Acho isso um sarro, pois o que te faz artista? Se eu colocar meu dedo no nariz e dizer que é uma performance serei artista? É muito louco isso. Outra coisa que muitas vezes me deixa desconfortável com o termo artista é quanto ao rebuscamento da arte em relação ao gênero. Tem homens que limpam a bunda e expõem em uma parede e afirmam seguramente que é “arte”. Mulheres desenham a sujeira da unha da modelo-vivo e se questionam se a sujeira está na proporção correta ao tamanho da unha. Eu não sei as outras, mas sinto essa pressão ao perfeccionismo. Você não pode ousar dirigir, tocar guitarra, desenhar, fazer um filme se você não fizer algo incrivelmente bem. Você não pode tocar os acordes errados ou errar o local da luz em um quadro.  Confesso que isso me incomodava, pois muitas vezes deixei de fazer as coisas por não me sentir boa o bastante, por não me sentir pronta o bastante, enquanto simplesmente eu deveria ter feito e mandado todo mundo à merda com suas técnicas, medidas e manuais.

Contatos de Pomba Claúdia:

email: claudiadrb@gmail.com

Telefone: 55 51 992792662.

Site: https://claudiadrb.wixsite.com/borborini/copia-inicio

Facebook: https://www.facebook.com/pombadesenhos/

Instagram: @pombaclaudia

facebook: https://www.facebook.com/claudia.pigeon

Mais: https://claudiadrb.wixsite.com/borborini/sobre

Artes de Pomba Claúdia:

Canibuk Apresenta: A Arte de Daniela Távora

Posted in Arte e Cultura, Ilustração, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on março 1, 2018 by canibuk

Conheci a Daniela Távora por conta do Cine Bancários de Porto Alegre, onde ela é gerente e eu, geralmente, faço a primeira exibição de meus novos filmes. Pouco depois tomei contato com a arte de Daniela através de um fanzine sem título que ela lançou (aliás, sem nenhuma palavra escrita, somente imagens) e que passei a admirar os traços dela. Daniela é das minhas, nada contra a corrente e não tá interessada em entregar as coisas para o público de mão beijada.

Daniela é formada em Artes Visuais pela UFRGS e um tempo atrás começou a experimentar em todo o tipo de arte, inclusive vídeo e fotografia, como essa abaixo, de uma série ainda inédita feita em parceria com o Itapa Rodrigues.

Daniela Távora

Atualmente produz vídeos, fotografias, zines, histórias em quadrinhos, ilustrações e baralhos de tarô. Sua pesquisa artística se apropria da linguagem cinematográfica de horror, terror e suspense, norteadas por abordagens fantásticas e micro narrativas pessoais.

Fiz uma entrevista com Daniela para apresentá-la aos leitores do Canibuk. Se você gostou do trabalho dela, entre em contato e encomende alguma peça.

Petter Baiestorf: Gostaria que você contasse como começou seu interesse pela arte e, também, sobre seus primeiros trabalhos.

Daniela Távora: Meu interesse pela arte surgiu logo após os primeiros esculachos que a vida fez comigo. Revolta, frustração e sentimento de impotência, ainda na adolescência, me fizeram sacar que se eu xingasse todos os escrotos que haviam ao meu redor, em uma folha de papel, apesar de nada acontecer com os alvos da minha raiva, eu poderia ter alguns textos mais ou menos interessantes. Tentei o teatro, mas era muito tímida, não deu certo. Além da escrita, descobri no desenho uma maneira de expressar o que sentia. Sempre tive a mente muito poluída pelas porcarias que passavam na televisão, logo comecei a ver muitos filmes, o que aos poucos foi me despertando o interesse pelo vídeo e fotografia.

Baiestorf: Sua arte sofre influências de quais artistas e escolas estéticas. Fale o que te atraí neles, se quiser falar sobre os porquês seria muito interessante.

Daniela: Praticamente tudo na minha vida aconteceu por acidente inclusive a arte. Quando pequena por algum motivo, eu estava entediada e abri um livro, que era da minha mãe, da Gnosis (aquela seita esquisita), onde haviam várias ilustrações da divina comédia. Fiquei apaixonada e apavorada. Eu era tão preguiçosa que nem me prestei a ler o nome do cara que tinha feito os desenhos. Tarde demais, eu já tinha aquelas imagens tão profundamente impressas no meu cérebro que só conseguia desenhar coisas muito parecidas. Muito tempo depois que fui descobrir que eram do Gustave Doré. Mais tarde conheci Eddie Campbell, Hitoshi Iwaaki, Harry Clarke, Jake e Dinos Chapman e William Kentridge que me influenciaram muito. Meus filmes preferidos sempre foram os mais baratos, diferentes ou com roteiro doidão. O Bandido da Luz Vermelha e Abismo de Rogério Sganzerla, Os Idiotas de Lars Von Trier, Filme Demência de Carlos Reichenbach, A Noite dos Mortos-Vivos, de George Romero foram muito importantes para mim, praticamente uma escola. Vendo filmes de Zé do Caixão, da Boca do Lixo, pornochanchadas e Petter Baiestorf descobri que o que eu queria estava muito perto de mim, e que eu poderia fazer o vídeo que eu quisesse, onde eu bem entendesse, com a câmera de qualquer amigo e a participação de todos os malucos (que eu amo) que estão só esperando um convite para fazer cenas de terror, morte e nudez. O terror me interessou mais, pois temas como família, convivência em sociedade, egoísmo, solidão, desigualdade e amor são explorados a partir de rupturas sinistras com a realidade. Histórias do universo White Trash, a burrice e a tosquice das pessoas, dramas comuns a adultos frustrados, adolescentes feios e sem perspectiva de futuro e crianças largadas aos próprios cuidados, pertencentes a famílias dissolvidas pelo capitalismo é como se fossem histórias feitas em homenagem a mim, meus amigos de infância e meus irmãos.

Baiestorf: Com sua arte você está aberta a todo tipo de trabalho ou gostaria de se especializar somente em uma área? Porque?

Daniela: Prefiro estar aberta a todo o tipo de loucura. Por meu próprio interesse fiz desenho, fotografia e vídeo. Ok. Mas por força da vida e convite de amigos doidos já me envolvi com serigrafia, música, cinema, até cover da Gretchen já acabei fazendo. Ou seja, acho que aprendo (e me divirto) mais quando foco menos.

Baiestorf: Conte sobre suas exposições e como produtores poderiam levá-la para suas cidades/estados.

Daniela: Quando comecei a expor os trabalhos eram em desenhos/ilustrações e foto, e as galerias eram em Porto Alegre. Hoje eu produzo mais vídeos do que coisas físicas, o que facilita, pois é só mandar o link com os arquivos para qualquer lugar do Brasil onde for rolar a exibição. Isso acontece bastante com festivais de cinema, que abrem muito mais espaço para vídeo experimental do que galerias de arte, diga-se de passagem.

Baiestorf: Como é realizar trabalhos artísticos aqui no Brasil? Há reconhecimento? Oportunidades?

Daniela: Só vejo trabalho requentado em galerias de arte, pois é mais fácil de vender. E eu entendo. Tem que ser muito corajoso ou corajosa para montar uma galeria pensando em exibir arte autoral, sabendo que o público é saudosista e que só vai comprar coisas já legitimadas há no mínimo uns 30 anos, ou cópias atuais de obras que fizeram sucesso há 30 anos. Faço minhas coisas de teimosa mesmo e não estou nem aí. E tenho muito pouca inserção, pois ainda não se descobriu como vender vídeos em galerias de arte. Às vezes me inscrevo em editais de espaços públicos e festivais de cinema com programação para vídeo experimental, e acabo sendo selecionada em alguns, pois nesse tipo de local é mais comum existir interesse pelo trabalho artístico de pesquisa, não pelo que é mais comercializável. Reconhecimento e oportunidades: de amigos queridos que valem ouro, fazem as coisas em parceria, ajudam, divulgam e compram. Ano passado tive a alegria de ser convidada para participar de uma mostra por alguém que não era diretamente um amigo de bar, “Ao lado dela, do lado de lá”, que aconteceu no Instituto Goethe, em Porto Alegre. Fiquei muito feliz.

Baiestorf: Você está com trabalhos em finalização? Poderia falar sobre eles e como o público poderá acompanhá-los?

Daniela: Tenho um vídeo sendo construído em parceria com a Pomba Claudia e Itapa Rodrigues que se chama “O estranho caso do rato que se achava águia”. Também estou produzindo uma série fotográfica com muito sangue, nudez e simbologias que nem eu mesma entendo, que ainda não tem nome, talvez quando eu terminar tenha um nome. Mas por enquanto, tem este site aqui que está em construção https://danielatavorao.wixsite.com/arte onde se pode ver o que tenho pesquisado nos últimos anos.

Baiestorf: E seus projetos? É possível sabermos um pouquinho deles?

Daniela: Meus projetos tem a mania de aparecer na minha cabeça do nada, e eu vou fazendo e então vão ficando bem diferentes do que imaginei conforme o processo, que faz com que fiquem mais maravilhosos. Além do vídeo com a Pomba e Itapa que estou montando e das fotos, estou interessada por pesquisar as personagens de mulheres monstruosas do cinema japonês, e agregar este “conceito” às minhas personagens, em vários suportes, como vídeo, desenho e foto.

Baiestorf: Geralmente a arte no Brasil é produzida de forma independente e é difícil conseguir se manter. O que você gostaria de observar sobre isso.

Daniela: Eu tenho um emprego para poder manter minhas necessidades básicas. O dinheiro que me sobra eu torro com equipamentos, tintas, figurinos, maquiagens e cenários para minhas ideias de arte. Ainda não vejo uma forma de conseguir se manter com trabalhos artísticos no sistema atual. Por um lado é ruim, pois se faz arte quando se consegue (grana, espaço, tempo, energia mental…). Ao mesmo tempo me sinto livre para fazer coisas esquisitas sem me preocupar em “pentear” meu trabalho para que ele se torne mais comercializável. Quanto a tentar editais para projetos de arte, sinceramente, tenho preguiça. Independente é mais gostoso para mim.

Baiestorf: O espaço é seu para as considerações finais:

Daniela: Gosto do feio, do sujo e do mal acabado. Ponto. Para mim é um modo de romper e de me expressar além de cânones estéticos vigentes. Não me importa o que os outros estão fazendo, vou fazer o que eu quiser fazer, pois a vida já nos obriga a fazer coisas chatas e por obrigação demais. Para mim é libertador trabalhar com o que quero e não me dobrar para tendências artísticas contemporâneas. Só se vive uma vez, já diria a canção do escroto do Roberto Carlos. Eu quero é decolar toda a manhã (Arnaldo Baptista).

Siga Daniela Távora no youtube:

https://www.youtube.com/channel/UCCSykLJu4vHHhftw-c33wuA/featured

Contatos de Daniela:

E-mail: daniela.tavora.o@gmail.com

Fone: 51 996061060

https://danielatavorao.wixsite.com/arte

danielatavora.tumblr.com

Artes de Daniela Távora:

Dedo Semovente

Cartazes de Ándale!

Posted in Cinema, Posters, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , on novembro 11, 2017 by canibuk

“Ándale!” (2017, 4 min.) – Escrito e dirigido por Petter Baiestorf. Produção: Petter Baiestorf, Carli Bortolanza, E.B. Toniolli e Elio Copini. Produção Executiva: Carli Bortolanza. Direção de fotografia: Uzi Uschi. Edição: E.B. Toniolli. Com: Elio Copini.

Cartaz oficial:

Ándale_Poster1_Oficial

Cartaz Opcional:

Ándale_Poster2_Oficial