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Conexão Las Vegas: A Incrível História de Charles Nizet

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on julho 11, 2013 by canibuk

14855047Nascido em Seraing (Bélgica), em 1932, mas radicado em Las Vegas (EUA), Charles Louis Nizet dirigiu e produziu, a partir do fim da década de 1960, filmes de guerra e horror, sempre com orçamentos minúsculos. Pouco se sabe da sua vida antes de “Commando Squad” (1968), seu filme de estreia, um épico classe-Z ambientado na Segunda Guerra Mundial.

Ainda que não se possa acusá-lo de competente, seus filmes – todos inéditos nos cinemas brasileiros e com equipe e elenco praticamente desconhecidos – são muito divertidos.

help_me_im_possessed-posterPara os ‘não iniciados’, vale dizer que o cinema ‘exploitation’ de Nizet segue a mesma linha de diretores como Ray Dennis Steckler e Al Adamson, cujos trabalhos, sempre misturando muita nudez, violência e nenhum dinheiro, eram direcionados para o então próspero mercado dos ‘drive-ins’ norte-americanos. Em entrevista ao jornal ‘Pioneiro’ de Caxias do Sul, em 2002, afirmou ser discípulo do cineasta John Huston e que “filmes devem ser feitos de acordo com o QI do povo, devem ser fáceis. Como diz um ditado americano: não devemos dar bolo aos porcos”.

slaves-of-love-movie-poster-1970-1020209011Seu melhor filme, “Help Me… I’m Possessed!” (1976) – recém-lançado em DVD nos EUA -, é uma grande salada de velhos clichês do cinema de horror: médico maluco, o assistente corcunda e sádico, um castelo fajuto no meio do deserto, uma masmorra onde se praticam torturas medievais e assassinatos misteriosos; “The Ravager” (1970) é sobre um sujeito que retorna da Guerra do Vietnam e vira um estuprador explosivo – sim, ele explode suas vítimas e outros incautos; o argumento de “Slaves of Love” (1969) parece uma versão classe-Z do seriado “Lost”: uma tribo de mulheres usa um campo magnético para atrair aviões para sua ilha, tornando seus tripulantes escravos sexuais – uma desculpa para intermináveis sequências de ‘naturismo’; “Voodoo Heartbeat” (1972), aparentemente perdido – apesar do trailer circular por festivais e pela internet –, apresenta outro médico louco que, ao se injetar com um “elixir da juventude” – disputado por militares chineses para dar vida eterna ao líder Mao Tsé-Tung – vira uma criatura sedenta de sangue. No elenco, um “Mike Zapata” que, segundo a publicidade da época, era descendente do verdadeiro Zapata.

A história de Nizet fica ainda mais interessante a partir da década de 1990, após dirigir seu sétimo e último longa-metragem, “Rescue Force” (1990) – que conta com o veterano Richard Harrison no elenco, além dos militares Don S. Davis e James ‘Bo’ Gritz, famoso nos anos 1980 por tentar resgatar prisioneiros de guerra norte-americanos no Vietnam. Apesar de a trama se passar no Oriente Médio, o filme foi inteiramente rodado no deserto de Nevada (EUA), no quintal de Nizet.

possessed 1974 vhs front2Numa edição de novembro de 1993 do Jornal do Brasil (RJ), uma matéria do ‘Caderno B’ descreve os planos avançados de um belga (ele mesmo) em ressuscitar a Companhia Cinematográfica Vera Cruz (sim, aquela). Nizet – acompanhado de um sócio brasileiro – investiria “um milhão de dólares na recuperação de dois dos três estúdios”. Ainda segundo o jornal, o então “prefeito de São Bernardo (SP), Walter José Demarchi, tem um acordo verbal com o governo estadual [Luiz Antonio Fleury Filho] para, com verba do Banespa, financiar a produção de filmes brasileiros”. A intenção de Nizet era óbvia: baratear custos. “Nos EUA, se filmamos uma planta, temos que pagar um ecologista para acompanhar as filmagens”, afirmava. A primeira produção da “nova Vera Cruz” seria estrelada pelo conterrâneo de Nizet, o astro das artes marciais Jean Claude Van Damme.

Nunca mais se ouviu falar do assunto.

Supostamente, essa era a segunda investida do belga em terras brasileiras. Segundo reportagem do jornal ‘Pioneiro’, de Caxias do Sul (RS), Nizet contava aos amigos que, na década de 1950, comprara uma mina de ouro em Minas Gerais, mas foi ameaçado de morte pelos próprios sócios e obrigado a retornar a Las Vegas. Décadas depois, casou-se com uma brasileira, que conhecera no aeroporto de Guarulhos. Viveram em Las Vegas por dois anos, de 1998 a 2000, quando decide retornar ao Brasil.

É então que o nome do belga ressurge nos jornais brasileiros em grande estilo.

Nizet e seu sócio, David Morgan, adquirem uma imensa área de 94 hectares às margens da rodovia RS-122, no pequeno município gaúcho de São Sebastião do Caí (RS), de apenas 22 mil habitantes.

Preço: R$600 mil reais, pagos à vista.

Objetivo: construção do gigantesco Las Vegas Park, um parque temático que contaria com a maior montanha-russa do mundo, com 3,5 quilômetros de extensão e 175 metros de altura, construída ao redor de um hotel de 40 andares, no formato de uma garrafa de Coca-Cola (Ver primeira foto).

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O espaço ainda contaria com área para grandes shows e cinco hectares destinados à construção de estúdios cinematográficos.

Orçamento: R$ 535 milhões de reais.

Nizet apresentou o projeto para empresários locais e donos de outros parques brasileiros. A meta era fazer os interessados comprarem cotas do empreendimento, formando uma associação.

Fixou residência no município de Flores da Cunha (RS). Virou celebridade instantânea.

Help Me... I'm Possessed!

Help Me… I’m Possessed!

Alugou um ginásio de esportes local, onde, segundo o jornalista Róger Ruffato, do jornal ‘Pioneiro’, “descarregou os contêineres que traziam filmes e câmeras velhos, material de cenografia, livros antigos, copos, pratos, transformadores e até batedeira […] Tudo foi acondicionado no espaço trancado por cadeados e vigiado por câmeras que nunca funcionaram, apenas serviam para manter criminosos afastados. A mesma tática era empregada na casa onde Nizet vivia com a esposa e as enteadas”.

Apresentava-se na cidade como ex-agente da CIA. Levou um dos amigos que fez em Caxias do Sul (RS) para uma estada em Las Vegas, onde, segundo o hóspede, Nizet era dono de uma mansão, um Cadillac novo, camionetes, motos e um avião Cessna.

Voodoo Heartbeat

Voodoo Heartbeat

Seu colega de profissão, o falecido diretor Ray Dennis Steckler – outro morador do estado de Nevada – quando perguntado sobre o belga, o descreveu como “um sujeito misterioso, sempre muito bem vestido, com ternos e sapatos caros e acompanhado de belas mulheres”. “Não é bom que você me conheça”, teria dito Nizet a Steckler.

Na noite de 4 de fevereiro de 2003, Nizet recebeu um telefonema e saiu de casa. Ao voltar, percebeu que fora seguido por um carro até a porta de sua residência. Desceu de sua ‘Blazer’ armado, mas não teve como reagir ao primeiro disparo em sua direção. Seguiram-se mais dois tiros de pistola, o terceiro no rosto.

Nizet morreu na hora. Tinha 70 anos.

Dois suspeitos do crime foram presos. Meses antes do assassinato, um deles havia sido denunciado por Nizet por ameaça, supostamente após a assinatura da escritura da área do Las Vegas Park. A dupla foi inocentada em 2005, por falta de provas, e o inquérito foi arquivado.

O corpo de Nizet segue, até hoje, na capela da família de um amigo de Caxias do Sul (RS), Eliseu Marin, numa gaveta sem foto, nome ou qualquer indício de que seus restos encontram-se ali. Seu sócio voou dos EUA para acompanhar o enterro – as ex-esposas e filhos do cineasta não vieram – e levou os objetos estocados no ginásio. Não deu entrevistas.

Um investidor visionário? Um apaixonado por cinema? Um picareta? Nizet levou as respostas para o túmulo. Deixou um legado de filmes vagabundos e divertidos, além de um punhado de histórias mais estranhas que sua própria imaginação poderia criar.

escrito por Fábio Vellozo.

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The Ravager (1970)

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As Estrelas de Freaks

Posted in Cinema, Musas with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on julho 17, 2012 by canibuk

Hoje em dia é comum ver jovens saudáveis (principalmente via facebook e/ou outras redes sociais) reclamando da vida, cantando para todos, tais como rouxinóis mimados, suas depressões, suas amarguras, tudo prá chamar atenção. A maioria não passa de mancebos mimados por uma geração de pais sem voz ativa que os criou fazendo suas vontades e quando chegam à vida adulta percebem que não são o centro do mundo como sua família os fazia acreditar que eram. Inspirado por essas reclamações de mimadinhos depressivos de facebook resolvi publicar aqui uma pesquisa feita por Borja Crespo (dei uma pequena incrementada em alguns dados) sobre os atores com limitações físicas que trabalharam no filme “Freaks” (1931) de Tod Browning. Estes maravilhosos humanos cheios de problemas físicos não ficaram trancados em seus quartos choramingando, eles sairam e enfrentaram preconceitos, limitações e qualquer outro problema que se apresentava. Com vocês, as estrelas de “Freaks”, muito mais humanos do que muita gente saudável vegetando por aí na frente de alguma TV ou banco de alguma igreja dos dias de hoje!

Schlitze The Pinhead: Sua cabeça é muito pequena. Um crânio humano normal é de 1500 a 1700 centímetros cúbicos, mas alguém com microencefalia tem entre 400 e 1000. Quando realizou “Freaks” tinha aproximadamente 40 anos. Nasceu em Yucatán, México, em 1901. Seu nome real era Simon Metz (mas se apresentou a vida inteira vestido como mulher, mesmo porque vestir vestidos facilitava suas idas aos banheiros). Começou no showbizz como “Maggie, a última azteca” fazendo truques de magia e dançando em shows. Durante as filmagens de “Freaks”, ele gostava de ficar imitando o diretor Browning em tudo que ele fazia, incluíndo seus tons de voz. Era como uma criança pequena que nunca cresceu. Seu papel tem maior duração que as outras “Pinheads” do filme, Elvira e Jenny Lee Snow. Suas palavras na cena do vestido novo são díficeis de entender, mas seus gestos dizem tudo. Também participou de outros filmes, como “The Sideshow” (1928) e “Island of Lost Souls” (1932), ambos de Erle C. Kenton, “Tomorrow’s Children” (1934) de Crane Wilbur e “Meet Boston Blackie” (1941) de Robert Florey. Faleceu em 1971 com 70 anos de idade.

Peter Robinson, o Esqueleto Vivo: Nascido em 1874, falecido em 1947. Foi esqueleto vivo no circo Ringling Brothers durante muitos anos. Se casou com a mulher gorda do circo que pesava seis vezes mais do que ele. Em “Freaks” tem um filho com a mulher barbada e se mostra como um pai orgulhoso de seu rebento. “Freaks”, aparentemente, é seu único filme. Era um especialista em tocar gaitas e se casou com a artista Baby Bunny Smith, que também trabalhava em feiras nas areas rurais dos USA.

Harry e Daisy Earles: Eram irmãos (e tinha ainda mais duas irmãs anãs). Os quatro trabalharam profissionalmente em circos e espetáculos. Harry se chamava, na vida real, Kurt Schneider, nascido em 1902 na Alemanha (faleceu em 1985 na Flórida, USA). Se tornou amigo de Tod Browning quando trabalharam juntos em “The Unholy Three” (1925). Harry apareceu em 13 filmes (7 deles curtas), produções como “That’s My Baby” (1926) de William Beaudine, “Three-Ring Marriage” (1928) de Marshall Neilan, no remake sonoro de “The Unholy Three” (1930), desta vez dirigido por Jack Conway e no clássico “The Wizard of Oz/O Mágico de Oz” (1939) de Victor Fleming. Já Daisy atendia pelo nome real de Hilda E. Schneider. Nasceu em 1907, também na Alemanha e faleceu na Flórida em 1980). Geralmente trabalhando junto de seu irmão, apareceu ainda nos filmes “Three-Ring Marriage”, “The Wizard of Oz” e “The Greatest Show on Earth/O Maior Espetáculo da Terra” (1952) de Cecil B. DeMille, única produção que seu irmão não está junto.

Daisy e Violet Hilton: São irmãs siamesas unidas pela cintura com a mesma circulação sanguínea. Nasceram em Brighton, Inglaterra, em 1908, filhas de uma garçonete que as vendeu para agentes de shows bizarros explorarem elas em music-halls e feiras rurais. Ajudadas por um advogado conseguiram agendar seus próprios shows. Como não se sentiam diferentes de outras mulheres, tiveram inúmeros relacionamentos em sua vida. Também aparecem no filme “Chained for Life” (1951) de Harry L. Fraser. Após este filme as duas irmãs passaram por inúmeras dificuldades financeiras e foram encontradas, em 1969, mortas em seu apartamento.

Angelo Rossito: Nascido em 1908 e falecido em 1991, Rossito trabalhou em inúmeros filmes. Apesar de seu nome, Rossito é americano do estado de Nebraska. Fez sua estréia no cinema em “The Beloved Rogue” (1927) de Alan Crosland contracenando com John Barrymore e Conrad Veidt. Depois apareceu em mais de 80 filmes, com destaque para produções como “The Mysterious Island” (1929) de Lucien Hubbard, “Dante’s Inferno” (1935) de Larry Lachman, “A Midsummer Night’s Dream” (1935) de William Dieterle e Max Reinhardt, “The Corpse Vanishes” (1942) de Wallace Fox e estrelado por Bela Lugosi, “Mesa of the Lost Women” (1953) de Ron Ormond, “Invasion of the Saucer Man” (1957) de Edward L. Cahn, “Confessions of a Opium Eater” (1962) de Albert Zugsmith e estrelado por Vincent Price, “Dracula Vs. Frankenstein” (1971), “Brain of Blood” (1972) e “Cinderella 2000” (1977), trio de filmes com direção/produção do pior (mas muito divertido) cineasta que a indústria cinematográfica já teve: Al Adamson, “The Lord of the Rings/O Senhor dos Anéis” (1978) de Ralph Bakshi e “Galaxina” (1980) de William Sachs, entre inúmeros outros clássicos do cinema de baixo orçamento. Uma de suas últimas aparições foi em “Mad Max Beyond Thunderdome” (1985) de George Miller.

Frances O’Connor: Nasceu em 1914 no estado de Minnesota, USA, sem os braços desde o momento em que aprendeu a andar, começou a usar seus pés como mãos. Aprendeu a cozinhar, jogar bridge, se vestia, comia e fazia tudo usando apenas seus próprios pés. Sentia orgulho de conseguir fazer tudo sem ajuda de ninguém. No verão costumava trabalhar em shows, se recolhendo a sua casa em Wyoming durante o resto do ano. “Freaks” é sua única aparição cinematográfica. Frances nunca chegou a se casar, embora dizem que sua lista de admiradores não era pequena.

Koo Koo, A Garota Cega de Marte: Nasceu em 1880 com o nome de Minnie Woolsey. Quando se apresentava nos circos usava o nome Minnie Ha Ha. Também chegou a ser conhecida como “a garota de Marte” em alguma feiras. Tinha 52 anos quando participou de “Freaks” e muitos dos técnicos que trabalhavam no filme chegaram a acreditar que ela realmente era de Marte. Mas Minnie sofria da síndrome de Harper, que é uma forma de nanismo intra-uterina caracterizada por anomalias congênitas múltiplas. “Freaks” é seu único filme. Há poucos dados precisos sobre sua morte, mas fontes afirmam que ela faleceu atropelada por um automóvel em 1960 (se isso é correto ela teria vivido 80 anos).

Johnny Eck: John Eckhardt Jr. nasceu em Baltimore (terra de John Waters) em 1911, com um irmão gêmeo bem formado. Aprendeu a andar sobre suas mãos desde pequeno e era um excelente estudante, atleta e músico. Sua presença em “Freaks” é carismática e marcante, depois deste clássico apareceu em mais 3 filmes da série Tarzan: “Tarzan – The Ape Man” (1932) de W.S. Van Dyke, “Tarzan Escapes” (1936) e “Tarzan’s Secret Treasure” (1941), ambos dirigidos por Richard Thorpe. A canção “Table Top Joe” de Tom Waits é inspirada em Johnny e, desde 1990, um roteiro sobre sua vida, escrito por Caroline Thompson (“Edward Scissorhands”), circula por Hollywood sem conseguir investidores financeiros. Depois de suas aventuras pela terra do cinema, voltou para baltimore onde se tornou pintor de quadros, cujos trabalhos seguem abaixo, pós-artigo.

Prince Randian: Nasceu sem pernas, nem braços, em 1871 na Guiana Britânica e faleceu em 1934 em New York. Falava hindu, inglês, francês e alemão, foi casado e teve 5 filhos. Era capaz de escrever, acender cigarro, pintar, lavar-se e se arrumar para sair usando apenas sua boca. Dizem que possuia um grande sentido de humor e sempre viveu com a idéia de que não havia impedimentos físicos desde que dominasse sua própria mente. Sou um grande admirador de Randian, que provou ser possível fazer tudo mesmo quando a vida conspira contra você!

Pinturas de Johnny Eck: