Arquivo para amor sexo e outras bebidas delirantes

Hediondo

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , , on setembro 29, 2012 by canibuk

I.

Não quero mais ser humano. Odeio está vil humanidade e não quero mais fazer parte dela. Sou desprezível pelo simples fato de ter nascido humano, pelo simples fato de ter a aparência destes racionais irracionais comandados pela insanidade coletiva. Não quero mais ser humano, não quero mais ser racional. Meu eventual fim acabará com a eterna maldição de ter nascido com está desgraçada forma.

II.

Não quero mais ser humano. Não quero mais ser racional. Quero apenas meu aniquilamento completo. Estou preparado para meu extermínio, para meu suspiro final, para minha decomposição derradeira. Hoje decidi que finalmente irei padecer. E somente após minha morte é que deixarei de vegetar sobre este planetinha que apenas me trouxe angustias e tormentos malditos. Hoje comerei fezes de porcos até passar mal, daí então, vomitarei minhas entranhas sobre o chão sujo de algum cubículo mal iluminado, transformando-o em meu túmulo. Feliz irei apodrecer. Feliz serei o banquete de seres insignificantes. Feliz serei esquecido por estas pessoas vazias que hão de continuar lutando por sonhos capitalistas devidamente estúpidos e desnecessários, anseios fúteis ótimos para grandes corporações neoliberais…

Por Uzi Uschi.

Na Lama, Sujo Solitário, Me Lembrava

Posted in Literatura, Nossa Arte with tags , , , , , , , , on maio 14, 2012 by canibuk

Pela terceira vez naquela noite eu deixava meu cabelo cair sobre os olhos. Estava com meu olhar vazio fixo na chuva que despencava torrencialmente. Os pensamentos galopavam distantes da realidade. Sentia os respingos da chuva fria e deixava o vento furioso bater contra o rosto. Uma sensação de perda havia me pego de surpresa. Queria chorar mas não sabia mais como faze-lo, havia me esquecido. Ou simplesmente tinha vergonha de misturar o salgado das lágrimas ao doce da chuva. Eu estava sentindo algo muito maior do que a vida, algo que deixava-me com  o cérebro acordado, pulsando inquieto, misturando lembranças vividas com paixão à lembranças que fazia questão de esquecer, que me doíam na alma, que custavam caras ao meu espírito rebelde de transgressor imaturo e me traziam de volta a realidade tão odiada. Sentia os respingos da chuva fria contra o rosto e pensava que se algum amigo estivesse ali junto de mim, certamente estaria eu esbanjando uma falsa alegria. Sabia até que estaria fingindo alegria se o motivo de minha tristeza estivesse ali.

Me lembrava de como

aprendi a ser forte,

de como aprendi

a não demonstrar os sentimentos

para não parecer um fraco.

Me lembrava das vezes que caminhei na chuva para disfarçar as lágrimas, das vezes que preferi ficar escondido na solidão para não me machucar com a rejeição. Me lembrava de como treinei meu sarcasmo para esconder o sentimentalismo barato que se gruda, tal como um carrapato, no coração dos apaixonados. E escutava o vento urrar com fúria. E sentia a chuva lavar minhas lágrimas.

E já estava

novamente

a preparar frases de efeito,

sarcásticas,

frias como a chuva,

irônicas,

para não deixar

ninguém

perceber o quanto eu sofria.

de Petter Baiestorf (2001, “Amor, Sexo & Outras Bebidas Delirantes”). Ilustração de Leyla Buk (2012, “Atrophy”).

Sujeira em Lamaçais Cinematográficos

Posted in Literatura, Nossa Arte with tags , , , , , , , , , , , , , , , on janeiro 16, 2012 by canibuk

A caixinha de leite caiu vazia no chão recoberto por larvas fecais. Duas ninfetas olhavam para as formas coloridas que se movimentavam de modo retangular na escuridão. Sujeira, o sujeito guru dos andróginos grelhados, fumava seu baseado olhando para as mocinhas. Bicos de seios excitados pela dança das cores, com mamilos durinhos que agradavam ao Sujeira, eterno perdido que tentava encontrar seu tão aguardado Eu Individual para deixa-lo batendo um papo com sua alma. Teria, talvez, neste momento, se aproximado do ideal procurado. Cogumelos do Sol Clandestino e cartelas de ácido, reunidos para sua alma atravessar o enorme muro e encontrar o Eu. Ninfetas lésbicas se esfregavam agora ao ritmo das formas coloridas. Sujeira, o guru de negro sentava todas as tardes sobre colinas do Sol e com as chamas ultra-violetas deixava-se viajar aos gritos mudos que surgiam das entranhas do padre que nunca sorriu, traficante malicioso que usava seu confessionário para entregar suas encomendas. Os drogadinhos cristãos adoraram a novidade. Ninfetas se contorciam, Sujeira babava e o padre ficava milionário com a classe-média desiludida. Vaginas conversavam soltando suspiros de histeria cósmica. Cores vivas dançavam na escuridão, pairavam sobre o gelo abissal e Sujeira flutuava na complexidade dos seios durinhos, esculpidos com amor e carinho. Sujeira agora era celestial, iluminado, ser vivo vibrante, amigo das delicias do padre traficante, profundo conhecedor dos mistérios individuais, explorador da própria alma, mistérios que o acompanhavam desde o quebrar dos ovos de onde as ninfetas nasceram enroladas em meleca espectral especial.

Unhas cravadas nas costas !!!

Garanhões unidimensionais fazem amor na pocilga.

Seus pênis se entrelaçam e seus rostos se tornam um,

Apenas um,

No eterno momento do gozo,

Gozo anatomicamente perfeito !!!

escrito por Petter Baiestorf.

Grandes Problemas não representam Grandes Problemas

Posted in Buk & Baiestorf, Literatura, Nossa Arte with tags , , , , , , , , , , on dezembro 13, 2011 by canibuk

O ser sem inspiração sentou-se diante do espelho e olhou longamente seus próprios olhos. Deixou que o vento desarranjasse seus cabelos e se perdeu em devaneios nostálgicos, onde pensou:

“Sou prisioneiro de mim mesmo. Vivo vinte e quatro horas por dia preso a minha existência medíocre. E minha mediocridade existencial é meu purgatório. E vegeto com a certeza de não ter como fugir de mim mesmo. E vou viver por infinitas eternidades. E serei torturado por mim mesmo até o fim dos tempos. E tentarei, a todo custo, esquecer como pensar. E talvez então, com a mente vazia, me tornarei a felicidade pura e simples…”

Os quatro manguaceiros do apocalipse olhavam o ser sem inspiração e cada qual, a sua maneira única, tinha sua opinião sobre a tristeza quase contagiante que rondava os humanos ainda pensantes.

E o sensato pensou:

“Os prazeres intelectuais não me são suficientes!”

E o ateu resmungou:

“O Vazio é a lei que domina o homem movido pela fé!”

E o puro de coração falou:

“Eu nasci para rir da humanidade!”

E o niilista otimista gritou:

“Por favor, alguém destrua a humanidade, não servimos para nada!”

E o ser sem inspiração ficou ali, em silêncio, para todo o sempre até criar raízes e se tornar uma frondosa árvore solitária em uma planície também solitária.

E eu pensei no quanto achava triste as pessoas que desistem de lutar, que se entregam ao comodismo, que deixam de experimentar novas sensações por medo, vergonha, timidez; que deixam de tentar a expansão da mente e se entregam de corpo e alma aos casulos que prometem uma vida pacata cheia de uma felicidade que pode ser comprada com seu trabalho escravo e sua cabeça baixa. E eu me lembrei de uma frase, não sei de quem, escrita no livro “Sociobiologia ou Ecologia Social ?” do Murray Bookchin que dizia “Ficar alheio, mesmo conscientemente, ao mundo, ou não ficar e intervir, é uma opção de cada um.”. E tinha certeza de que continuar a luta pela igualdade dos seres, para qualquer homem ainda pensante, era uma questão de honra, uma virtude pela qual vale a pena lutar.

escrito por Petter Baiestorf.

O autor em momento de brinde supremo.

Um Balde de Felicidade

Posted in Literatura, Nossa Arte with tags , , , , , , , , on novembro 13, 2011 by canibuk

Um capro hirsuto de longas barbas brancas parou a minha frente encarando-me nos olhos. Deixava que o pus escorresse de sua boca e a cada gargalhada de deboche respingava suas impurezas sobre minha face suja de hoatchi. Mas acho que estava tudo bem, já que fui eu quem o convidou para vir até minha casa. Bêbado sempre faço coisas estúpidas como convidar um capro hirsuto teratóide teomaníaco de longas barbas brancas para beber a saidera em minha casa. Libélulas brilhantes abandonavam as longas barbas de meu companheiro de copo. Cenouras esverdeadas flutuantes, com leves bolores de mofo, entoavam cantigas da antigüidade. Equinodermos de tegumento coriáceo e corpos cilíndricos conversavam sobre a linfagioma que conquistou uma bela fada de cor azul. Os marinheiros do Caos Caótico – um navio chinês, é preciso que se diga – estavam no meu banheiro vomitando uns sobre os outros. Não saberia dizer se também estavam bêbados ou se seria algum tipo de enjôo de terra firme. Após pegar mais um balde de cerveja não encontro mais o capro hirsuto. Um dos marinheiros me diz que estou tendo alucinações alcoólicas, delírios de bêbado e afirmou rindo:

“Não existem capros falantes de longas barbas brancas !”.

Bebo cerveja do balde.

“Que diabos !!!”, pensei mais grogue do que o habitual, “Cada um imagina o que quer ou, pelo menos, o que consegue !!!”, e então vou prá cama dormir com um porco à paraguaia sionista já assado, e meu balde de cerveja , lógico !!!

escrito por Petter Baiestorf (1998).

ilustração de Reginaldo (1999).

Auto-Suficiente

Posted in Literatura, Nossa Arte with tags , , , , , , , on outubro 18, 2011 by canibuk

O mendigo está com fome.

O mendigo despe-se.

O mendigo se agacha e faz força, até geme.

O mendigo defeca suas fezes magras.

O mendigo come.

O mendigo saciou sua fome impertinente.

O mendigo quer mais.

O mendigo quer a sobremesa.

O mendigo enfia dois dedos na garganta.

O mendigo regurgita em jorros.

O mendigo agora também tem a sobremesa.

poesia de Petter Baiestorf.

Bebendo Café durante a Nevasca Gelatinosa

Posted in Literatura, Nossa Arte with tags , , , , , on outubro 9, 2011 by canibuk

Na montanha sagrada de Jodo, durante uma magnífica tempestade de neve gelatinosa, continuo bebendo o café enegrecido pela total falta de sentimentos que cultivo em meu âmago. Sentado à mesa permaneço em silêncio, apenas olhando os seres que se atacam por todo o sempre, viciados em discussões inúteis e trocas de socos hilários. Essa agitação toda faz com que eu me esqueça de minha dor interior. Faz com que eu permaneça numa calmaria pessoal que até assusta meus inimigos mais ousados. A desgraça alheia diverte mais do que minha própria desgraça. Me alucina e me faz querer beber grandes quantidades de café quente, tão quente que molesta até mesmo as lindas fadas que me tornaram uma hiena infeliz de riso forçado. Fadas funcionais, belíssimas máquinas modernas com cavidades orais onde podemos ver seus receptáculos de espermatozóides transparentes prontas para então sugarem mais alguns atormentados da minha raça. Tão logo a tempestade de neve gelatinosa se acalma, resolvo usar um mínimo da vontade e me levanto. No horizonte uma Deusa Excluída berra alto com a gentalha que lhe servia de capacho e ao me ver, acena sem sorrir. Somos dois estranhos em auto-exílio na montanha sagrada. Essa Deusa Excluída às vezes tenta me ajudar. Mas como ajudar alguém que não faz questão de ser ajudado? Aceno para a Deusa, um aceno completamente apagado e ridículo, mas que (ela sabe disso) significa que hoje não quero conversar, prefiro curtir minha infelicidade de modo solitário, dando atenção apenas para minhas tempestades cerebrais. E ali permaneço encantado com este interminável devaneio, onde uma tonelada de idéias esmagam a infelicidade reinante e me trazem de volta o sarcasmo amigo. Duas semanas depois já estou melhor, o mesmo humano amargo de sempre. Confiante em meu poder supremo de pisar sobre os outros vou então, ao som de um tango executado por escravos judeus de ternos bem cortados, ver uma fada cujo brilho de seu sorriso me cativou. Mas tal candidata à musa me parece pobre (em todos os sentidos), doença essa que é totalmente contra minhas convicções de pequeno burguês nojento. Esnobando-a por completo, volto a me sentar em minha mesa. Uma amiga insensível senta-se junto a mim. Me conta suas aventuras onde nada foi como deveria ter sido.  Gargalhamos de nós mesmos. E ali vamos ficar por toda a eternidade, um se deliciando com a desgraça do outro, sem tempo para mudarmos, nem nos arrependermos.

escrito por Petter Baiestorf (1998).