Arquivo para anticlero

O Caso Idalina

Posted in Anarquismo with tags , , , , , , , on fevereiro 12, 2011 by canibuk

Entre 1910 a 1912, destacou-se na imprensa anticlerical e anarquista a campanha de denúncias sobre o desaparecimento de uma menina de dez anos, Idalina de Oliveira, que se encontrava internada no Orfanato Cristóvão Colombo, em São Paulo.

Os jornais La Battaglia e A Lanterna, seguidos por outros jornais libertários, acusaram o padre Stefani de ter estuprado a menina, e que ela teria sido morta a golpes de pá na cabeça pelo padre Faustino Consoni, diretor do orfanato, ao tentar fugir.

Os jornais que denunciaram o estupro e a ocultação do cadáver, publicaram vários números especiais sobre o caso. Cartas de ex-alunos da escola foram enviadas às redações, denunciando novos crimes cometidos no orfanato-escola e em outras instituições religiosas. Os redatores, nas suas manchetes insistiam: “Onde está Idalina?” Os grupos anticlericais convocaram uma série de manifestações e comícios de protesto, exigindo o fechamento do estabelecimento e a punição dos envolvidos. Os responsáveis pelo inquérito policial foram acusados de conivência com os envolvidos e de não procurarem apurar com afinco o episódio.

A Igreja reagiu, chamando a polícia para reprimir as manifestações e recebendo o apoio da grande imprensa diária. Os denunciantes foram acusados de difamadores, procurando com suas ideologias exóticas denegrir a Santa Madre Igreja. Vários padres, procurando resguardar a reputação da Igreja e absolver os implicados no caso, partiram para o ataque. Artigos nos jornais e panfletos foram publicados produrando desmoralizar os “hereges anarquistas”. Entre os folhetos publicados, encontrava-se um do frei Pedo Sinzig, que apesar de ter como principal preocupação, impedir a criação de uma Escola Racionalista em Petrópolis e denunciar a pedagogia de Ferrer, acabava refutando a versão dos anticlericais sobre o ocorrido no orfanato Cristóvão Colombo.

– Muito bem, vamos a Idalina! Pensa o Sr. que são os católicos que têm de fugir da discussão? Vamos. Sabe como foi o fato, a calúnia? Foi esta: “o padre Stefani fez mal a Idalina em junho de 1907.” Foi ou não foi assim que disseram?

– Foi sim.

– Pois bem, o padre Stefani, nesta data estava na Itália, como podia fazer mal a uma menina em São Paulo?

Vamos ao segundo ponto. Sua imprensa lá, A Lanterna, que de luz não tem nada, afirmou…

– A Lanterna é uma luz verdadeira.

– Sim, como uma vela ao lado do sol rutilante. Vamos ao caso. Sua imprensa afirmou que “depois Idalina fora morta pelo padre Faustino Consoni, diretor do estabeleciemnto.

– Como o padre Faustino Consoni podia matá-la se ele estava muito longe, na fazenda S. Martinho!

O jornal A Lanterna retrucou as colocações do padre Sinzig com um agressivo artigo, cujo título era: “Fustigando um miserável Tartufo – resposta ao pé da letra ao frade Pedo (sic) Sinzig, que publicou um imundo folheto difamando a memória do grande mártir.”

Frei Pedo, o autor de tal moxinifada, é um ser anormal, de temperamento doentio, irritável, perigoso. Ele odeia mortalmente a todos os homens livres, a todas as iniciativas tendentes a instruir e educar racionalmente o povo, e, para impedir o progresso das idéias novas, a golpe de audácia, inverter a ordem natural das coisas.

Apesar de toda agitação, os padres acusados não foram castigados. Pelo contrário, a polícia prendeu Edgard Leuenrouth, diretor do jornal A Lanterna, e Oresti Ristori, diretor do La Battaglia.

O caso chegou aos tribunais. O frade Dr. J. de Souza Carvalho “pede 30 anos de prisão para O. Ristori e E. Leuenrouth, como reparo moral ao seu colega Faustino Consoni, por não existir pena de morte no Brasil”.

Apenas o crescimento dos protestos, a injustiça da acusação e os esforços do advogado e anarquista Benjamim Mota – que havia sido fundador do jornal A Lanterna – permitiram com que os prisioneiros fossem libertados.

escrito por Eduardo Valladares, parte do livro “Anarquismo e Anticlericalismo” (editoras Imaginário, Nu-Sol e Coletivo Anarquista SOMA). 

Nota do Blog: Pelos menos nos dias de hoje, aos poucos, os padres pedófilos estão (as vezes) pagando por seus crimes. A Igreja Católica dos U.S.A. já gastou mais de 3 bilhões de dólares para defender seus padres pedófilos.

O Combate aos Padres

Posted in Anarquismo, Literatura with tags , , , on novembro 15, 2010 by canibuk

A Expressão anarquista anticlerical:

a) luta contra os padres, para mostrar as contradições de suas vidas com as doutrinas que professam; o sacerdócio como profissão, tendo o interesse material como base;

b) luta contra a influência política da Igreja pela ação direta e pela propaganda extraparlamentar;

c) denúncia do poder econômico da Igreja, da Igreja como empresa, como auxiliar de exploração capitalista, como fator do crumirismo.

Esse é o anticlericalismo dos anarquistas.

A maior influência dos anarquistas se deu nos países latinos, onde a presença do catolicismo era mais forte. O choque entre duas concepções tão antagônicas foi inevitável. O radicalismo dos discursos anticlericais cresceu conforme foi aumentando o tom irado dos padres. Toda ocasião era aproveitada para repudiar o cristianismo e os membros do clero. Bakunin, no artigo O Estado: alienação e natureza, assim como em outras ocasiões, destacou a necessidade de se combater a Igreja Católica:

Todos os Estados onde os povos ainda podem respirar, são, do ponto de vista ideal do Estado, incompletos, como são todas as Igrejas em comparação com a Igreja Católica.

Ante a ameaça do inferno pregada pelos padres a todos aqueles que se desviassem do reto caminho de Cristo, os anarquistas apontavam que entre a vida levada pelas exploradas classes trabalhadoras e o local da penação bíblica a diferença era, talvez, apenas de grau.

A religião era compreendida pelos anarquistas

como um conjunto de preceitos, que estabelece a dependência do pobre ao rico, do trabalhador ao capitalista, do povo ao governo, ao Estado, que santifica a dependência do escravo ao tirano.

O conceito da Igreja nunca foi dos mais altos.

Ora, a Igreja é capitalista, proprietária, açambarcadora: logo, os interesses dela são contrários, opostos e adversos aos interesses dos trabalhadores.

O clero era sempre atacado com ferocidade.

o Clero Católico é uma vasta associação religiosa-política-social, cujos fins se afastam da civilização contemporânea, cujos membros, pela característica de seus modos de vida, afastando-se da realidade constituem uma ameaça constante ao progresso e à civilização, à moral e aos bons costumes.

Ou ainda:

Os clérigos, esses instrumentos cegos dos ricos, esses parasitas que somente servem para embrutecer ao povo, conservando-o no maior obscurantismo, dizem a seus ouvintes: Filhos! Trabalhai, sofrei, respeitai aos nossos patrões, aos poderosos, porque quanto mais sofreis na terra tanto mais gozarás no céu!

Os papas, como chefes máximos da Igreja, eram acusados de serem a cabeça da serpente. A mudança do herdeiro do trono de São Pedro, em 1903, mereceu comentários ácidos na imprensa anarquista, com os redatores ironizando o papa falecido e não vendo a menor possibilidade de mudança com o novo sumo pontífice.

Morreu o Papa Leão XIII. A mentira convencional e a hipocrisia interesseira traçam neste momento encomiásticas necrologias do velho inútil que expirou no Vaticano, em dias da semana que hoje se finda. Durante 25 anos Joaquim Pecci ocupou o sólio pontifício e neste longo reinado nada fez do que mentir àqueles que esperavam ouvir de sua boca a suprema verdade!

O novo papa foi saudado da seguinte forma:

Artigo: Pio X

“Annuntio vobis gaudium

Magnun, habemos papa”

Será Pio X sodomita, ladrão, incestuoso, envenador como Pio VI, ou hipócrita como Pio IX?

Dará ele a palavra de ordem por uma nova noite de São Bartolomeu, como Pio V, ou morrerá depois de alguns meses de pontificado, vítima de veneno, como Pio III?

Quem sabe?

Mas, bom ou mau que seja este novo vigário de Cristo, nada nós devemos esperar dele pelo bem.

O Espírito Santo, o divino malaquias das eleições… não fluminenses, mas apostólicas, não escolheu ao acaso no seio do seu conclave.

Ou ele, Pio X, é um tolo, destinado a ser polichinelo dos RR. PP. da C.D.G., ou é um grandíssimo farsante que mostro-se longamente humilde como Xisto V, e depois, chegando ao fim almejado, manifestou-se aquele que é geralmente um padre.

Mas mesmo que ele fosse um fenômeno, um evento da velha estampa, um cristão austero e convicto… nada aproveitaria a humanidade de tudo isso. O cristianismo é a religião da renúncia, o culto da cobardia.

A Bíblia era considerada

literatura de dominadores, destinada a celebrar os tiranos e suas leis e a ensinar o povo a resignação e a obidiência; a Bíblia expõe o mecanismo da escravidão em termos claros, quase cândidos – à luz da hipocrisia democrática moderna.

Apesar de um tom muitas vezes profético e irado, é inegável que a sátira e o sarcasmo ferino também eram componentes importantes no discurso libertário. A burguesia e seus acólitos não cansavam de repetir que a agitação operária era promovida por militantes estrangeiros, verdadeiros indivíduos anti-sociais que procuravam introduzir no país ideologias violentas e totalmente importadas. O anticlericalismo era acusado de afrontar a mentalidade do povo brasileiro, que possuía sangue católico nas veias e era totalmente avesso a essas excentricidades perigosas e atéias. Os anarquistas, como bons internacionalistas que eram, gozavam da retórica nacional-ufanistas dos seus opositores. Não esqueciam de lembrar que esses distintos cidadãos, que se apresentavam como verdadeiros vestais das tradições patrióticas, eram totalmente submissos ao imperialismo. Ao responderem as objeções de que valores libertários eram estrangeirismos, lembravam de maneira corrosiva que o cristianismo não era nativo da América e que o número de padres estrangeiros aumentava rapidamente no Brasil no início do século XX.

escrito por Eduardo Valladares (trecho do livro “Anarquismo & Anticlericalismo”).