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O Pântano, O Fim das Coisas & Nimbus: Poesias de Augusto dos Anjos

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , on dezembro 19, 2016 by canibuk

O Pântano

Podem vê-lo, sem dor, meus semelhantes!…

Mas, para mim que a Natureza escuto,

Este pântano é o túmulo absoluto,

De todas as grandezas começantes!

.

Larvas desconhecidas de gigantes

Sobre o seu leito de peçonha e luto

Dormem tranqüilamente o sono bruto

Dos superorganismos ainda infantes!

.

Em sua estagnação arde uma raça,

Tragicamente, à espera de quem passa

Para abrir-lhe, às escâncaras, a porta…

.

E eu sinto a angústias dessa raça ardente

Condenada a esperar perpetuamente

No universo esmagado da água morta!

.

O Fim das Coisas

Pode o homem bruto, adstrito à ciência grave,

Arrancar, num triunfo surpreendente,

Das profundezas do Subconsciente

O milagre estupendo da aeronave!

.

Rasgue os broncos basaltos negros, cave,

Sôfrego, o solo sáxeo; e, na ânsia ardente

de perscrutar o íntimo do orbe, invente

A Lâmpada aflogística de Davy!

.

Em vão! Contra o poder criador do Sonho

O Fim das Coisas mostra-se medonho

Como o desaguadouro atro de um rio,

.

E quando, ao cabo do último milênio,

A humanidade vai pesar seu gênio

Encontra o mundo, que ela encheu, vazio!

.

Nimbus

Nimbos de bronze que empanais escuros

O santuário azul da Natureza,

Quando vos vejo negros palinuros

Da tempestade negra e da tristeza,

.

Abismados na bruma enegrecida,

Julgo ver nos reflexos da minh’alma

As mesmas nuvens deslizando em calma,

Os nimbos das procelas desta vida;

.

Mas quando céu é límpido, sem bruma

Que a transparência tolda, sem nenhuma

Nuvem sequer, então, num mar de esperança,

.

Que o céu reflete, a vida é qual risonho

Batel, e a alma é a flâmula do sonho,

Que o guia e leva ao porto da bonança.

por Augusto dos Anjos.

“Eu & Outras Poesias Vol. 2”, editora Civilização Brasileira, 1982.

Entrevista com: Augusto dos Anjos.

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A Obsessão do Sangue

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , , , on abril 1, 2012 by canibuk

Acordou, vendo sangue… Horrível! O osso

Frontal em fogo… Ia talvez morrer,

Disse. Olhou-se no espelho. Era tão moço,

Ah! Certamente não podia ser!

.

Levantou-se. E, eis que viu, antes do almoço,

Na mão dos açougueiros, a escorrer

Fita rubra de sangue muito grosso,

A carne que ele havia de comer!

.

No inferno da visão alucinada,

Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,

Viu vísceras vermelhas pelo chão…

.

E amou, com um berro bárbaro de gozo,

O monocromatismo monstruoso

Daquela universal vermelhidão!

Poesia de Augusto dos Anjos.

(Leia entrevista com Augusto dos Anjos clicando aqui)

Necrofília Zine

Posted in Fanzines with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on março 21, 2012 by canibuk

“Necrofília” foi um fanzine de número único que editei em 1992. Resolvi resgatar aqui as HQs que haviam sido divulgadas nele. “Divirta-se, Sádico!” é um poeminha adolescente de autoria minha com arte de Renato Pereira Coelho; “O Deus Verme” é uma poesia de Augusto dos Anjos ilustrada por Itamar Pessoa; “Necrofagia” é uma HQ com texto e arte de Ero (me desculpem, mas passados 20 anos não lembro mais quem era Eros) e a tirinha cômica “I.M.L.” deAnderson. Divirta-se, Sádico!

O Coveiro, A Louca e O Ébrio: Poesias de Augusto dos Anjos

Posted in Literatura with tags , , , , , on dezembro 6, 2011 by canibuk

O Coveiro

Uma tarde de abril suave e pura

Visitava eu somente ao derradeiro

Lar; tinha ido ver a sepultura

De um ente caro, amigo verdadeiro.

.

Lá encontrei um pálido coveiro

Com a cabeça para o chão pendida;

Eu senti a minh’alma entristecida

E interroguei-o: “Eterno companheiro

.

Da morte, quem matou-te o coração?”

Ele apontou para uma cruz no chão,

Ali jazia o seu amor primeiro!

.

Depois, tomando a enxada, gravemente,

Balbuciou, sorrindo tristemente:

– “Ai, foi por isso que me fiz coveiro!”

.

A Louca

Quando ela passa: – a veste desgrenhada,

O cabelo revolto em desalinho,

No seu olhar feroz eu adivinho

O mistério da dor que a traz penada.

.

Moça, tão moça e já desventurada;

Da desdita ferida pelo espinho,

Vai morta em vida assim pelo caminho,

No sudário da mágoa sepultada.

.

Eu sei a sua história. – Em seu passado

Houve um drama d’amor misterioso

– O segredo d’um peito torturado –

.

E hoje, para guardar a mágoa oculta,

Canta, soluça – o coração saudoso,

Chora, gargalha, a desgraçada estulta.

.

O Ébrio

Bebi! Mas sei porque bebi!… Buscava

Em verdes nuanças de miragens, ver

Se nesta ânsia suprema de beber,

Achava a Glória que ninguém achava!

.

E todo o dia então eu me embriagava

– Novo Sileno, – em busca de ascender

A essa Babel fictícia do Prazer

Que procuravam e que eu procurava.

.

Trás de mim, na atra estrada que trilhei,

Quantos também, quantos também deixei,

Mas eu não contarei nunca a ninguém.

.

A ninguém nunca eu contarei a história

Dos que, como eu, foram buscar a Glória

E que, como eu, ira-o morrer também.

poesias de Augusto dos Anjos.

Soneto ao Corvo

Posted in Fanzines, Ilustração, Nossa Arte, Quadrinhos with tags , , , , , on maio 26, 2011 by canibuk

Resolvi postar hoje um soneto que escrevi quando era adolescente inspirado em Augusto dos Anjos e que o desenhista Rui ilustrou em 1993. Originalmente publiquei ele no “Arghhh” número 3.

Entrevista com Augusto dos Anjos

Posted in Entrevista, Literatura with tags , , , , , on novembro 4, 2010 by canibuk

Uma das raríssimas entrevistas concedidas pelo poeta simbolista Augusto dos Anjos que achei interessante disponibilizar na net como documento histórico de nossa literatura. Entrevista cedida à Dr. Licínio Santos em 1912 (em 1914 Dr. Licínio Santos publicou seu livro “A Loucura dos Intelectuais”, com teorias contrárias as de Max Nordau).

1- O que pode adiantar sobre sua infância?

Augusto: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos, relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento, numa atmosfera de rigorosíssima moralidade, da chamada vida física.

2- Quais os autores que mais o impressionaram?

Augusto: Shakespeare e Edgar Allan Poe.

3- Como faz o seu trabalho intelectual?

Augusto: Durante o dia, quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou a noite deitado. Conservo de memória tudo quanto produzo. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir.

4- O que sente de anormal quando está produzindo?

Augusto: Uma série indescritível de fenômenos nervosos, acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar.

5- Em que idade começou a produzir?

Augusto: Se não me falha o poder da reminiscência, presumo, comecei a produzir muito antes dos nove anos.

6- Quais os trabalhos que deu a luz até a presente data?

Augusto: Um livro de versos, “Eu”.

7- Sofre de insônia, cefaléia ou amnésia?

Augusto: Até esta data não sofro de amnésia. Tenho insônia raras vezes, mas a cefalalgia persegue-me constantemente.

8- Tem continuado os sonhos fantásticos?

Augusto: Quanto a sonhos fantásticos, é também muito raramente que os tenho.

9- Faz uso excessivo de algum excitante intelectual?

Augusto: Sou contra os excessos, o que não me impede de abusar um pouco do café.

Abaixo o poema “O Deus Verme” escrito por Augusto dos Anjos e ilustrado pelo desenhista Itamar Pessoa, originalmente publicado no fanzine “Necrofília”, número único, que editei em 1992.

E abaixo o poema “Imortal Poeta da Morte” escrito por Denilson L. Hermes e ilustrado pelo desenhista Reno, originalmente publicado no fanzine “Arghhh” número 5.

E, por último, uma adaptação do desenhista Caique para o poema “As Cismas do Destino” de Augusto dos Anjos, originalmente publicado no fanzine “Arghhh” número 22.