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Decoder

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 11, 2011 by canibuk

“Decoder” (1984, 87 min.) de Muscha (e Klaus Maeck). Com: F.M. Einheit, William Rice, Christiane Felscherinow, William Burroughs e Genesis P-Orridge.

Decoder é a história de um jovem músico que experimenta sons em seu estúdio caseiro. Depois que ele cria um decoder, passa a criar músicas subliminares que instigam a população à revolta. Cansado de músicas de ambiente dos restaurantes fast-foods, o jovem começa a sabotar o sistema de som de todas as redes fast-food de Berlim e protestos tomam conta das ruas enquanto ele é caçado por um agente. As imagens de revolta popular que se vê no filme são reais, são tumultos que aconteceram em Berlim nos anos de 1980, quando o presidente americano Reagan visitou os alemães.

O visual do filme (cortesia da diretora de fotografia Johanna Heer) com seus tons azulados que conferem ao filme uma frieza tétrica, aliados aos cenários e figurinos espertos e à potente trilha sonora (composta por Dave Ball, F.M. Einheit e a banda Soft Cell), deixam “Decoder” com uma cara própria, inventiva, um visual de cinema Beat trepando animalescamente e seu maiores cuidados com o cinema Cyber Punk. “Decoder” segue a tradição de cineastas undergrounds como Anthony Balch, Ron Rice, Jack Smith e japoneses como Sogo Ishii (Gakuryu Ishii) e Shinya Tsukamoto que veio depois. Em tempo, a ótima trilha sonora do filme se encontra na net para download.

No elenco, temos F.M. Einheit (que foi percussionista na Einstürzende Neubauten) no papel do jovem músico, a junkye Christiane F. (aqui creditada com seu impronunciável sobrenome real) como uma stripper e o ator Bill Rice se destacando no papel do agente secreto que tenta achar o jovem músico. Há, também, a participação especial de William Burroughs (em rápida, mas marcante participação) e do lendário Genesis P-Orridge (no papel de um padre), um músico que antecipou o indústrial nos anos de 1960 e depois ficaria conhecido com a banda Psychic TV).

“Decoder” é uma alegoria orwelliana, uma crítica ao consumismo, à produção em massa, à idiotização que atingiu os jovens do século XXI. Se antes os jovens se escondiam consumindo drogas, hoje os jovens se escondem atrás da tecnologia. O Ópio agora é High Tech.

O filme está no youtube:

Christoph Schlingensief: O Messias do Caos!

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , on agosto 24, 2011 by canibuk

Nascido em 24 de outubro de 1960 na cidade de Oberhausen, Christoph Maria Schlingensief começou sua carreira como cineasta underground no porão de sua casa ainda criança. Já em 1968 fez seu primeiro curta intitulado “Mein 1. Film” com amiguinhos de sua vizinhança e desde aquela época já se considerava um artista provocador. Com “Tunguska – Die Kisten Sind Da”, seu primeiro longa-metragem produzido em 1984 e filmado em 16mm, realizou uma peça surrealista debochada e experimental com a qual já foi bem recebido pela crítica.

Sendo influênciado por cineastas como Fassbinder (filmou vários longas usando Udo Kier no elenco), Russ Meyer (usou Kitten Natividad no elenco de seu clássico “United Trash”), Buñuel e Werner Schroeter, o experimentalista Schlingensief soube criar seu próprio estilo cinematográfico, infelizmente ainda não descoberto aqui no Brasil (mas que homenageei no longa-metragem “A Curtição do Avacalho” em 2006). Seus filmes são histéricos, políticos (de visão libertária) e cheios de soluções criativas que podem não agradar aos puristas.

Com sua “germany trilogy”, composta de três longas: “100 Jahre Adolf Hitler – Die Letzte Stunde in Führerbunker” (1989), sobre as últimas horas de Hitler ensandecido no seu bunker; “Das Deutsche Kettensägen Massaker” (1990), genial refilmagem do “The Texas Chainsaw Massacre” transposto para a realidade alemã, mostrando a reunificação da Alemanha na história de uma família da Alemanha Oriental que atravessa a fronteira com a Alemanha Ociedental e são abatidos com motoserras por uma família de psicopatas da parte Ocidental; e, “Terror 2000 – Intensivstation Deutschland” (1994), sobre a violência xenófoba pós o processo de reunificação. Essa trilogia tornou-o um dos artistas mais respeitados e versáteis de seu país.

Em 1996 Schlingensief lançou o longa “United Trash”, uma histérica co-produção da Alemanha com Zimbabwe, estrelada por Udo Kier e Kitten Natividad, que re-encena o nascimento de Jesus Cristo. Anarquista por excelência, “United Trash” se apropria do estilo Russ Meyer de edição e destroí o cristianismo, a política dos brancos na África, a ONU e sua “ajuda humanitária”, USA e sua política externa, ditadores africanos e não deixa escapar nada com sua crítica feroz contra a manipulação de humanos por outros humanos (a título se curiosidade, logo nos créditos iniciais, preste atenção numa rápida cena onde a equipe-técnica deste filme aparece realizando uma ceia perto de uma aldeia). Clássico!!!

Sempre dado à polêmicas, em 1998 Schlingensief criou seu próprio partido político que se chamava “vote em si mesmo”, onde qualquer pessoa poderia se tornar candidato.

Paralelo ao cinema, Schlingensief encenou várias peças de teatro e óperas, como uma versão de Hamlet com o subtítulo “This is Your Family, Nazi-Line” onde questionava a “neutralidade” da Suiça em face ao crescente racismo e movimentos de extrema direita na Europa, com ex-membros de grupos neo-nazistas desempenhando personagens que exploravam suas próprias fraquezas. Sua última produção, “Mea Culpa”, era uma ópera onde Schlingensief encenava suas próprias experiências com o câncer, doença que lhe tirou a vida no dia 21 de agosto de 2010, em Berlim.

Longas dirigidos por Christoph Schlingensief:

1984- Tunguska – Die Kisten Sind Da

1986- Menu Total

1986- Egomania – Insel Ohne Hoffnung

1988- Mutters Maske

1989- 100 Jahre Adolf Hitler – Die Letzte Stunde im Führerbunker

1990- Das Deutsche Kettensägen Massaker

1994- Terror 2000 – Intensivstation Deutschland

1996- United Trash

1997- Die 120 Tage Von Bottrop

2004- Freakstars 3000

2008- The African Twintowers

Trailers & Fragmentos: