Arquivo para cinema de baixo orçamento

Conexão Las Vegas: A Incrível História de Charles Nizet

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on julho 11, 2013 by canibuk

14855047Nascido em Seraing (Bélgica), em 1932, mas radicado em Las Vegas (EUA), Charles Louis Nizet dirigiu e produziu, a partir do fim da década de 1960, filmes de guerra e horror, sempre com orçamentos minúsculos. Pouco se sabe da sua vida antes de “Commando Squad” (1968), seu filme de estreia, um épico classe-Z ambientado na Segunda Guerra Mundial.

Ainda que não se possa acusá-lo de competente, seus filmes – todos inéditos nos cinemas brasileiros e com equipe e elenco praticamente desconhecidos – são muito divertidos.

help_me_im_possessed-posterPara os ‘não iniciados’, vale dizer que o cinema ‘exploitation’ de Nizet segue a mesma linha de diretores como Ray Dennis Steckler e Al Adamson, cujos trabalhos, sempre misturando muita nudez, violência e nenhum dinheiro, eram direcionados para o então próspero mercado dos ‘drive-ins’ norte-americanos. Em entrevista ao jornal ‘Pioneiro’ de Caxias do Sul, em 2002, afirmou ser discípulo do cineasta John Huston e que “filmes devem ser feitos de acordo com o QI do povo, devem ser fáceis. Como diz um ditado americano: não devemos dar bolo aos porcos”.

slaves-of-love-movie-poster-1970-1020209011Seu melhor filme, “Help Me… I’m Possessed!” (1976) – recém-lançado em DVD nos EUA -, é uma grande salada de velhos clichês do cinema de horror: médico maluco, o assistente corcunda e sádico, um castelo fajuto no meio do deserto, uma masmorra onde se praticam torturas medievais e assassinatos misteriosos; “The Ravager” (1970) é sobre um sujeito que retorna da Guerra do Vietnam e vira um estuprador explosivo – sim, ele explode suas vítimas e outros incautos; o argumento de “Slaves of Love” (1969) parece uma versão classe-Z do seriado “Lost”: uma tribo de mulheres usa um campo magnético para atrair aviões para sua ilha, tornando seus tripulantes escravos sexuais – uma desculpa para intermináveis sequências de ‘naturismo’; “Voodoo Heartbeat” (1972), aparentemente perdido – apesar do trailer circular por festivais e pela internet –, apresenta outro médico louco que, ao se injetar com um “elixir da juventude” – disputado por militares chineses para dar vida eterna ao líder Mao Tsé-Tung – vira uma criatura sedenta de sangue. No elenco, um “Mike Zapata” que, segundo a publicidade da época, era descendente do verdadeiro Zapata.

A história de Nizet fica ainda mais interessante a partir da década de 1990, após dirigir seu sétimo e último longa-metragem, “Rescue Force” (1990) – que conta com o veterano Richard Harrison no elenco, além dos militares Don S. Davis e James ‘Bo’ Gritz, famoso nos anos 1980 por tentar resgatar prisioneiros de guerra norte-americanos no Vietnam. Apesar de a trama se passar no Oriente Médio, o filme foi inteiramente rodado no deserto de Nevada (EUA), no quintal de Nizet.

possessed 1974 vhs front2Numa edição de novembro de 1993 do Jornal do Brasil (RJ), uma matéria do ‘Caderno B’ descreve os planos avançados de um belga (ele mesmo) em ressuscitar a Companhia Cinematográfica Vera Cruz (sim, aquela). Nizet – acompanhado de um sócio brasileiro – investiria “um milhão de dólares na recuperação de dois dos três estúdios”. Ainda segundo o jornal, o então “prefeito de São Bernardo (SP), Walter José Demarchi, tem um acordo verbal com o governo estadual [Luiz Antonio Fleury Filho] para, com verba do Banespa, financiar a produção de filmes brasileiros”. A intenção de Nizet era óbvia: baratear custos. “Nos EUA, se filmamos uma planta, temos que pagar um ecologista para acompanhar as filmagens”, afirmava. A primeira produção da “nova Vera Cruz” seria estrelada pelo conterrâneo de Nizet, o astro das artes marciais Jean Claude Van Damme.

Nunca mais se ouviu falar do assunto.

Supostamente, essa era a segunda investida do belga em terras brasileiras. Segundo reportagem do jornal ‘Pioneiro’, de Caxias do Sul (RS), Nizet contava aos amigos que, na década de 1950, comprara uma mina de ouro em Minas Gerais, mas foi ameaçado de morte pelos próprios sócios e obrigado a retornar a Las Vegas. Décadas depois, casou-se com uma brasileira, que conhecera no aeroporto de Guarulhos. Viveram em Las Vegas por dois anos, de 1998 a 2000, quando decide retornar ao Brasil.

É então que o nome do belga ressurge nos jornais brasileiros em grande estilo.

Nizet e seu sócio, David Morgan, adquirem uma imensa área de 94 hectares às margens da rodovia RS-122, no pequeno município gaúcho de São Sebastião do Caí (RS), de apenas 22 mil habitantes.

Preço: R$600 mil reais, pagos à vista.

Objetivo: construção do gigantesco Las Vegas Park, um parque temático que contaria com a maior montanha-russa do mundo, com 3,5 quilômetros de extensão e 175 metros de altura, construída ao redor de um hotel de 40 andares, no formato de uma garrafa de Coca-Cola (Ver primeira foto).

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O espaço ainda contaria com área para grandes shows e cinco hectares destinados à construção de estúdios cinematográficos.

Orçamento: R$ 535 milhões de reais.

Nizet apresentou o projeto para empresários locais e donos de outros parques brasileiros. A meta era fazer os interessados comprarem cotas do empreendimento, formando uma associação.

Fixou residência no município de Flores da Cunha (RS). Virou celebridade instantânea.

Help Me... I'm Possessed!

Help Me… I’m Possessed!

Alugou um ginásio de esportes local, onde, segundo o jornalista Róger Ruffato, do jornal ‘Pioneiro’, “descarregou os contêineres que traziam filmes e câmeras velhos, material de cenografia, livros antigos, copos, pratos, transformadores e até batedeira […] Tudo foi acondicionado no espaço trancado por cadeados e vigiado por câmeras que nunca funcionaram, apenas serviam para manter criminosos afastados. A mesma tática era empregada na casa onde Nizet vivia com a esposa e as enteadas”.

Apresentava-se na cidade como ex-agente da CIA. Levou um dos amigos que fez em Caxias do Sul (RS) para uma estada em Las Vegas, onde, segundo o hóspede, Nizet era dono de uma mansão, um Cadillac novo, camionetes, motos e um avião Cessna.

Voodoo Heartbeat

Voodoo Heartbeat

Seu colega de profissão, o falecido diretor Ray Dennis Steckler – outro morador do estado de Nevada – quando perguntado sobre o belga, o descreveu como “um sujeito misterioso, sempre muito bem vestido, com ternos e sapatos caros e acompanhado de belas mulheres”. “Não é bom que você me conheça”, teria dito Nizet a Steckler.

Na noite de 4 de fevereiro de 2003, Nizet recebeu um telefonema e saiu de casa. Ao voltar, percebeu que fora seguido por um carro até a porta de sua residência. Desceu de sua ‘Blazer’ armado, mas não teve como reagir ao primeiro disparo em sua direção. Seguiram-se mais dois tiros de pistola, o terceiro no rosto.

Nizet morreu na hora. Tinha 70 anos.

Dois suspeitos do crime foram presos. Meses antes do assassinato, um deles havia sido denunciado por Nizet por ameaça, supostamente após a assinatura da escritura da área do Las Vegas Park. A dupla foi inocentada em 2005, por falta de provas, e o inquérito foi arquivado.

O corpo de Nizet segue, até hoje, na capela da família de um amigo de Caxias do Sul (RS), Eliseu Marin, numa gaveta sem foto, nome ou qualquer indício de que seus restos encontram-se ali. Seu sócio voou dos EUA para acompanhar o enterro – as ex-esposas e filhos do cineasta não vieram – e levou os objetos estocados no ginásio. Não deu entrevistas.

Um investidor visionário? Um apaixonado por cinema? Um picareta? Nizet levou as respostas para o túmulo. Deixou um legado de filmes vagabundos e divertidos, além de um punhado de histórias mais estranhas que sua própria imaginação poderia criar.

escrito por Fábio Vellozo.

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The Ravager (1970)

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Nos Domínios do Amor Perverso

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 5, 2012 by canibuk

“Twice-Told Tales” (“Nos Domínios do Terror”, 1963, 120 min.) de Sidney Salkow. Com: Vincent Price, Joyce Taylor, Sebastian Cabot e Beverly Garland.

Este filme deveria se chamar “Nos Domínios do Amor Perverso”. Com três histórias baseadas em contos do escritor Nathaniel Hawthorne, “Twice-Told Tales” é um filme em episódios que explora o sadismo do amor relacionando-o ao macabro e a ciência. Roteirizado e produzido por Robert E. Kent, somos introduzidos no universo amoroso-tétrico de Hawthorne. No primeiro segmento, intitulado “A Experiência do Dr. Heidigger”, somos apresentados a dois amigos idosos que estão bebendo e relembrando o passado enquanto uma pesada tempestade castiga a noite. Ao fim da tempestade eles percebem que a tumba onde está enterrada Sylvia há 30 anos está aberta e resolvem ir lá ver se a tempestade não causou danos. Assim os dois velhos amigos descobrem que a morta está perfeitamente conservada no caixão e o ex-noivo, agora um renomado médico, desconfia que a água que pinga sobre o cadáver seja o responsável pela conservação do corpo. Após rápidos testes, onde a dupla reanima uma rosa seca, ambos bebem o precioso líquido coletado na tumba e voltam a ser jovens. Animados com o líquido milagroso, injetam no corpo da defunta que volta a vida revelando detalhes sórdidos, macabros e sujos de um triângulo amoroso mortal.

No segundo segmento, “A Filha de Rappaccini”, um pai mantém sua filha prisioneira em seu jardim, até o dia em que um jovem vizinho da casa ao lado se apaixona pela moça e descobre que ela foi vítima de experimentos de seu pai, um renomado cientista que no passado foi traído pela esposa libidinosa, e que transformou sua bela filha numa criatura radioativa que não pode encostar em nada vivo sem matá-lo horrivelmente queimado. Perdidamente apaixonado pela mortal beldade o vizinho tenta de tudo para salvar sua amada da loucura paterna (seu pai fez o que fez para evitar que a filha seguisse os passos pecadores da mãe). Ludibriado pelo cientista o jovem apaixonado é transformado em uma criatura radioativa tal como sua amada (assim nenhum dos jovens poderia trair o parceiro com relacionamentos extra-casamento) e um final explosivo, nos moldes de “Romeu e Julieta” só que mais atômico, acontece na melhor história do longa.

O terceiro segmento, e mais fracos, é “A Casa dos Sete Telhados”, sobre um picareta que volta à casa assombrada de sua família em busca de um cofre maldito que teria o dinheiro necessário para ele pagar suas dívidas de jogo. Sua esposa, que nada sabe, parece ser a resposta para a assombração que persegue aquela maldita casa à gerações. Aos poucos o expectador fica sabendo detalhes da história de amor por traz da maldição da casa dos sete telhados e de como a família do viciado em jogos conseguiu ficar com a casa (através de denúncias de bruxaria, onde o patriarca da família teria “roubado” a propriedade, traçando paralelos com a vida pessoal do escritor Hawthorne). Não sou chegado em historinhas espíritas de fantasminhas, talvez por isso eu não tenha curtido tanto este episódio final.

Vincent Price faz o papel principal (e a narração) em todos os episódios e nos lega interpretações fantásticas, se revelando em grande forma. Filmado no início dos anos de 1960, “Twice-Told Tales” tem aquele climão gótico dos filmes que Roger Corman fez baseado em contos de Edgar Allan Poe para a AIP, e assim como todos estes filmes de Corman, “Twice-Told Tales” faz excelente uso dos cenários belíssimos que são explorados de maneira bem criativa (cada episódio se passa num único cenário), aliados aos efeitos especiais, atuações, roteiro e figurinos que funcionam de modo colaborativo para que o filme seja uma grande diversão macabra do mais alto nível. O título de trabalho do filme foi “The Corpse Makers”, depois alterado para “Twice-Told Tales”, título de um livro coletânea de contos de Hawthorne (que trazia em suas páginas apenas o conto “A Experiência do Dr. Heidigger”). Nos USA o filme foi lançado em um DVD double feature com o clássico “Tales of Terror” (1962) de Roger Corman, verdadeiro objeto de orgasmo aos fãs fanáticos de Vincent Price.

Nathaniel Hawthorne (1804-1864) foi um romancista/contista descendente de John Hathorne (sem o “w”), único juiz envolvido nos julgamentos das bruxas de Salem que nunca se arrependeu de suas ações. Bom material para o escritor Hawthorne, que acrescentou o “w” em seu nome a fim de ocultar essa relação. Seu livro mais famoso, “The Scarlet Letter/A Letra Escarlate” foi publicado em 1850 depois de alguns livros que não fizeram sucesso. “A Letra Escarlate” foi um dos primeiros livros produzidos em massa nos USA e, nos primeiros dez dias após o lançamento, vendeu mais de 2500 cópias. O sucesso deu estabilidade à carreira de escritor e Hawthorne pode se dedicar a literatura, lançando na seqüência os livros “The House of the Seven Gables/A Casa dos Sete Telhados” (1851), que serviu de inspiração para o terceiro segmento de “Twice-Told Tales”, e “The Blithedale Romance” (1852), além de livros coletâneas de contos. No início da Guerra Civil Americana conheceu Abraham Lincoln e usou essas experiências políticas para compor o ensaio “Principalmente Sobre Assuntos da Guerra”, publicado em 1862. “Twice-Told Tales”, que empresta seu nome para este filme, foi lançado em 1837. Hawthorne faleceu enquanto dormia em 1864.

O diretor Sidney Salkow (1909-1998) dirigiu mais de 70 filmes e era pau prá toda obra, bem ao estilo dos diretores clássicos de Hollywood. Durante a Segunda Guerra Mundial Salkow chegou ao posto de major na marinha americana e assim que deu baixa do exército voltou a trabalhar como diretor, alternando filmes B com séries de TV. Seu primeiro filme foi o suspense “Four Days’ Wonder” (1936), seguido de vários outros filmes sem grande importância. Em 1952 chamou atenção com sua direção no filme “The Golden Hawk”, aventura estrelada por Sterling Hayden, e em 1954 dirigiu o ótimo western “Sitting Bull/Touro Sentado”. Depois de trabalhar em muitas séries de TV (coisas como “Lassie”, “Maverick” e “77 Sunset Strip”), foi contratado para dirigir “Twice-Told Tales”, um de seus melhores trabalhos. Ficou amigo de Vincent Price e o co-dirigiu novamente, em parceria com Ubaldo Ragona, no clássico “The Last Man on Earth/Mortos que Andam” (1964), com base no livro “I Am Legend” de Richard Matheson (embora o nome de Sidney Salkow não apareça creditado nas versões em italiano do filme). Depois destes dois grandes filmes do cinema fantástico Salkow realizou mais alguns westerns e se aposentou com apenas 59 anos e passou a viver de cursos de cinema que ministrava em faculdades da California.

O produtor e roteirista Robert E. Kent começou trabalhando para o lendário Sam Katzman na Columbia Pictures, até que formou, em parceria com Audie Murphy, a Admiral Productions e passou a produzir seus próprios filmes. Kent produziu alguns clássicos do horror e sci-fi como “It! The Terror from Beyonf Space” (1958), que mostrava uma expedição a Marte que era atacada por uma estranha forma de vida; “Curse of The Faceless Man” (1958), sobre uma curiosa maldição de um monstro de pedra; “Invisible Invaders” (1959), sobre aliens reanimando mortos humanos; “Beauty and the Beast” (1962), inspirado em “A Bela e a Fera”, este quatro filmes dirigidos por Edward L. Cahn, verdadeiro especialista em criar bons filmes de baixo orçamento; “Jack the Giant Killer/Jack – O Matador de Gigantes” (1962) de Nathan Juran, fantasia envolvendo dragões e princesas; “Diary of a Madman” (1963) de Reginald Le Borg, horror inspirado em história de Guy de Maupassant e estrelado por Vincent Price. Seu último filme foi “The Christine Jorgensen Story” (1970) de Irving Rapper, drama que contava a história de troca de sexo de Jorgensen (para quem não lembra, Christine Jorgensen foi a inspiração para Ed Wood escrever, produzir, dirigir e atuar em “Glen or Glenda?“).

“Twice-Told Tales” foi lançado em DVD no Brasil com o título “Nos Domínios do Terror” pela distribuidora Flashstar, a qualidade de imagem está ótima.

por Petter Baiestorf.

Veja “Twice-Told Tales” aqui:

Rubens Mello – Canções dos Guarus

Posted in Música with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on setembro 23, 2012 by canibuk

Rubens Mello – “Canções dos Guarus” (CD), 11 músicas.

Este post é para indicar o CD de meu amigo Rubens Mello. Não sou muito bom no quesito “resenhar discos”, ainda mais num estilo – POP – que não tenho afinidade nenhuma, já que boa parte da minha vida fui um perseguidor de sons extremos como grindcore ou bandas obscuras estranhas.

O CD do Rubens, “Canções dos Guarus”, é feito para aquele público que curte um barzinho onde rola um músico ao vivo com seu violão e um banquinho. É Pop/MPB para se curtir conversando com amigos entre uma e outra taça de vinho. É som para pessoas de bom gosto. Rubens apresenta o CD, “Canções dos Guarus propõe uma viagem sonora através de composições de artistas guarulhenses consagrados e novos talentos, mesclando diferenças e homogeneizando de forma harmoniosa em seu próprio estilo“, escreve ele no encarte. Há vários sons com um instrumental elétrico, mas penso que se fosse somente voz e violão teriam ficado mais poderosas, como as canções “Cinza e Rosa”, “Teoria” ou “Madalena”. As canções “Encontro Marcado”, “Sai Daqui” e “Alguém” grudam na mente, como uma boa música pop deve ser.

Rubens Mello foi o vencedor do concurso do Mojica que escolhia o sucessor do Zé do Caixão, depois apareceu em alguns filmes importantes como “Encarnação do Demônio” (2008) de José Mojica Marins, onde interpretou um dos assistentes do Zé, e “Ivan” (2011) de Fernando Rick, onde interpretou um travesti de maneira brilhante. Criado no teatro, na cidade de Guarulhos/SP, Rubens aprendeu a cantar e encantar com seu timbre de voz único. Paralelo a sua carreira de ator de teatro/cinema e músico, Rubens também dirigiu alguns interessantes curtas de horror (assim que for possível farei entrevista com ele sobre seus filmes), como “Lâmia” (2004), “A História de Lia (2009) e “Vermibus” (2012). Também é o organizador e incentivador da Mostra Guarú Fantástico, evento de cinema que prima pela exibição de filmes brasileiros independentes.

Fica aqui a dica do CD do Rubens Mello, se você curte um pop bem executado, com uma pegada de MPB, é imperdível. Para comprar o CD, ou contratar o Rubens Mello para shows, entre em contato com ele via facebook ou pelo fone (11) 97403-2797. Cinco sons do Rubens podem ser conferidos no seu My Space.

Discutir a Relação: A Sogra Metendo o Dedo na Ferida do Casal

Posted in Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on setembro 7, 2012 by canibuk

“DR” (2012, 10 min.) de Joel Caetano e Felipe Guerra. Com: Dona Oldina, Mariana Zani e Joel Caetano.

Não há nada pior num relacionamento em crise do que gente de fora dando pitaco. “DR”, curta-metragem que marca a primeira parceria entre Joel Caetano e Felipe Guerra, fala justamente sobre isso: Um casal em crise (Joel e Mariana, casados na vida real) vai discutir sua relação com a sogra (Dona Oldina) não só presente, como no papel de mediadora. A sogra e a esposa despejam acusações contra o marido que escuta tudo pacientemente calado (logo depois descobrimos que ele não se defende porque está amarrado e amordaçado), logo o que era violência verbal se torna violência física e sexual com a sogra abusando do genro imobilizado, assim que a tortura física tem início dentes e dedos quebrados vão surgindo num crescendo de violência que culmina num ataque de fúria do marido contra a sogra. Nada mais atual nos dias de hoje, quando a violência tomou lugar do diálogo. Não sei se foi intencional, mas o modo como o roteiro do filme trata do ciúme possessivo é de longe uma das melhores abordagens do tema que já vi no cinema independente brasileiro. Lógico que o filme se revela meio machista, colocando a culpa de tudo nas mulheres, como se o homem fosse uma vítima do casamento e da tirania da sogra, excluindo-o do fato de, no filme, ficar claro que ele traia a esposa. Fácil de entender quando pensamos que o roteirista é Felipe Guerra, gaúcho tradicional dos pampas. Como o filme não é sério em momento algum, este “machismo” de brincadeira não atrapalha. Não posso falar muito mais sobre a história, mas é um grande acerto da dupla de diretores.

Dividindo a direção, a dupla desenvolveu um argumento que Felipe Guerra havia escrito para filmar em apenas um dia aproveitando que Dona Oldina, sua vó, estaria em São Paulo. “Já tinha colocado minha vó como fantasma, tarada e assassina serial nos meus outros filmes e queria que ela novamente fizesse um papel onde pudesse surpreender o público. Foi quando tive a idéia de “DR”. Porque todo mundo faz filme com vampiro, assassino mascarado, zumbi, mas duas das coisas mais assustadoras da “vida real”, e creio que para ambos os sexos, são sogras e discussões de relação. Imagine que se discutir a relação já é foda, com a sogra junto é duas vezes pior. Então pensei nesse negócio de uma DR em que a sogra passasse um pouco dos limites e o curta tornou-se uma experiência meio “torture porn”, aqueles filmes em que uma personagem passa o tempo todo sendo torturado.”, nos conta Guerra, enquanto Joel explica como foram as filmagens: “Ano passado Dona Oldina veio para São Paulo para acompanhar o Cinefantasy e o Felipe me mandou uma mensagem dizendo que tinha uma idéia que dava para filmar em um dia, num apartamento e com três atores, no caso Dona Oldina, eu e Mariana Zani. Nem precisei ler o roteiro para aceitar a proposta e, depois que li, fiquei muito feliz pois era uma ótima idéia. Assim surgiu o “DR”. O filme foi feito todo de forma colaborativa. O sangue foi cedido de uma oficina que o Rodrigo Aragão estava ministrando na época (um sangue, como ficamos sabendo mais tarde, que seria descartado por não ter funcionado direito). Além de nós quatro também estavam a Daniela Monteiro e a mãe do Felipe, dona Neusa Guerra. Eu e Felipe ficamos na direção, eu mais preocupado com a direção de atores e ele com a direção de cena. O Felipe fez a câmera e fizemos juntos a iluminação. Daniela e Neusa cuidaram da captação direta do som e eu fiquei com os efeitos especiais também”. Aliás, os efeitos especiais estão extremamente convincentes, o que imprime uma força narrativa de maior intensidade ao filme. Joel Continua, “Me orgulho do efeito do dedo se quebrando, simplesmente comprei uma mão falsa, cortei o dedo dela, escondi o meu e quando a mariana dobra é o dedo falso que se move para trás, a sonorização e o corte rápido fizeram o resto, ficou bem convincente, vi algumas pessoas pulando da cadeira no cinema, o que acontece também na cena dos dentes que se quebram, eu mesmo fiquei agoniado com aquilo vendo na tela”.

“DR” é um filme onde tudo está bem realizado e aproveitado, provando que não é necessário grandes orçamentos para se produzir um bom filme. Mas Dona Oldina é quem rouba o filme para si, de longe é sua melhor interpretação e ela está fantástica como a sogra perturbada e violenta. Felipe nos conta como foi trabalhar com ela: “Com 82 anos de idade minha vó topou todas as cenas numa boa e em nenhum momento ficou escandalizada com a violência, porque ela entendia que era algo exagerado e absurdo para divertir e não para chocar. Ela não tem dificuldades com as cenas físicas, seu maior problema é lembrar as falas. Fizemos uns 20 takes só dela tentando falar a frase “discutir a relação”, porque na hora ela se embananava e falava “a questão da relação”. Dona Oldina só ficou preocupada com a possibilidade do filme ser exibido em Carlos Barbosa/RS, que é uma cidadezinha de 25 mil habitantes, e ela tem medo de ser expulsa do grupo da igreja. Minha vó também fez um improvisso hilário em que dá um rápido beijo na boca do Joel, felizmente quando ele está amordaçado”. E Joel completa rindo, “Até hoje o Felipe me chama de vô!”.

A edição do curta foi decidida também em conjunto pela dupla de diretores. “Foi uma edição em conjunto, eu estava operando o software e o Felipe do meu lado, todas as decisões de cortes foram tomadas por nós dois. A montagem só demorou mais porque em determinados momentos, principalmente na cena em que eu chuto a personagem da Dona Oldina, eu tinha crises de riso. O Felipe tinha que me sacudir para eu parar de rir!”, conta Joel. O resultado final deste trabalho em conjunto, além de impressionar o espectador, deixou ambos os diretores satisfeitos, como define Felipe ao dizer “Foi interessante fazer esse projeto em conjunto com o Joel, um cara cujo trabalho eu respeito muito com o qual tenho bastante afinidade. É difícil você encontrar alguém que tope fazer uma parada assim, sem dinheiro e filmada na raça, num único dia”, enquanto Joel dá pistas para o futuro da parceria, “Espero poder repetir a dose em breve!”.

Por enquanto “DR” pode ser visto apenas em mostras e festivais, mas espero que em breve ambos os diretores tomem vergonha na cara e lancem um box com toda sua filmografia, tanto Caetano quanto Guerra estão devendo o lançamento de seus filmes para que o público de outras regiões do Brasil possa tomar contato com suas obras.

Por Petter Baiestorf.

Clique em “Joel Caetano e seu Cinema de Recurso Zero” para ler a entrevista que fiz com ele.

Clique em “Necrófilos em Ação: O Cinema de Felipe Guerra na Terra da Polenta” para ler a entrevista que fiz com ele.

As Dançarinas Fogosas da Boate Infernal na Ilha das Aranhas Gigantes

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on agosto 12, 2012 by canibuk

“Ein Toter Hing Im Netz” (“Horrors of Spider Island”, 1960, 75 min.) de Fritz Böttger. Com: Helga Franck, Helga Neuner, Harald Maresch e grande elenco de bichos peludos peçonhentos.

A história deste pequeno clássico da tranqueira cinematográfica é das mais vagabundas possíveis: Um grupo de dançarinas de uma boate de New York voa para Singapura onde vão se apresentar num inferninho local. Ao sobrevoar o Oceano Pacífico o avião pega fogo e cai (salvando-se apenas as dançarinas e Gary, o dono da boate). Após alguns dias desidratando num bote salva-vidas, o grupo avista uma ilha. Explorando o terreno eles descobrem água fresca e, também, um estranho martelo que lhes dá esperança de que a ilha seja habitada. Logo em seguida avistam uma cabana e a alegria contagia o grupo de beldades que poderiam estar mais semi-nuas, mas ao abrir a porta se deparam com um homem morto pendurado numa teia de aranha gigante. Lendo o diário as dançarinas descobrem que o morto era um professor que estava procurando urânio (com seu martelo?) e percebem que há comida na cabana para cerca de um mês. Gary resolve explorar o resto da ilha sozinho e é picado por uma inacreditável aranha gigante, se tornando um bestial homem-aranha e, seguindo seus instintos mais primitivos, mata uma das dançarinas. Um mês depois dois homens chegam a ilha com suprimentos para o professor e dão de cara com as meninas que explicam tudo aos heróis e, tendo que esperar o navio voltar no dia seguinte para pegá-los, resolvem comemorar a última noite com uma festa. Nada mais natural, lógico!

Não se iluda com o título do filme, a aranha que pica Gary transformando-o numa besta-fera mistura entre homem e aranha, não aparece nem três minutos na produção (mas sua aparição é motivo de risos involuntários) e Gary, depois de transformado em homem-aranha, não se parece com uma aranha, lembrando mais um lobisomem depilado do que qualquer outra coisa. Aliás, o título original, que significa “Um Cadáver Pendurado na Teia”, tem mais haver com o roteiro. A pobreza da produção é gritante, mera desculpa para colocar lindas atrizes com poucas roupas numa ilha deserta, mas como trashmaníacos não estão atrás de tratados intelectuais filmados, “Ein Toter Hing Im Netz” cumpre bem sua função de divertir, com diálogos ridículos espirituosos onde as mal dirigidas atrizes nunca tem a reação de pânico que a história exige. O filme foi lançado duas vezes nos USA, a primeira em 1962 com o título “It’s Hot in Paradise” e uma segunda vez em 1965 com o título modificado para “Horrors of Spider Island”. Quando lançado em vídeo ganhou o nome de “Girls of Spider Island”.

“Horrors of Spider Island” é dirigido pelo roteirista Fritz Böttger (1902-1981) que se mostra completamente amador e sem criatividade no comando da produção (em 1953 ele tinha assinado outros dois filmes como diretor, “Die Junggesellenfalle” e “Auf Der Grünen Wiese”, que não consegui assistí-los). Como roteirista assinou mais de 35 filmes, principalmente comédias leves e musicais jovens como “Liebe, Jazz und Übermut” (1957) de Erik Ode e “Hula-Hopp, Conny” (1959) de Heinz Paul. Em 1963 passou a escrever roteiros para filmes produzidos pela TV alemã. O filme foi produzido pela dupla Gaston Hakim e Wolf C. Hartwig, ambos especializados em nudie-movies e sexploitation de baixo orçamento e gosto duvidoso. Hakim produziu lindezas como “The Naked Venus” (1959), drama erótico dirigido por Edgar G. Ulmer e “Her Bikini Never Got Wet” (1962), tão vagabundo que não tem nem diretor creditado. Em 1964 se aventurou na direção com “A French Honeymoon”, uma comédia erótica das mais estúpidas possíveis. Hartwig teve carreira repleta de êxitos finaceiros, como “Die Nackte und Der Satan/The Head” (1959) de Victor Trivas, sobre um cientista que inventa um soro capaz de manter a cabeça de um cão viva e, depois de sua morte, é obrigado a ajudar sua enfermeira corcunda numa bizarra experiência; “The Bellboy and the Playgirls” (1962) de Fritz Umgelter, com cenas adicionais escritas e dirigidas por um jovem Francis Ford Coppola; a série sexploitation “Schulmädchen-Report”, que teve 13 filmes entre 1970 e 1980; e o clássico de guerra “Cross of Iron/Cruz de Ferro” (1977) de Sam Peckinpah. A direção de fotografia de “Horrors os Spider Island” é do veterano Georg Krause (1901-1986) que, entre outros, assinou a fotografia de “Paths of Glory/Glória Feita de Sangue” (1957) de Stanley Kubrick. Os efeitos pavorosos desta simpática bomba cinematográfica são de autoria do maquiador Irmgard Forster, sempre incompetente que, em 1968, trabalhou em “Necronomicon – Geträumte Sünden/Succubus”, do genial Jesus Franco.

“Ein Toter Hing Im Netz” conquista por seus defeitos. Coffin Souza me enviou o poster de cinema brasileiro de “Horrors of Spider Island”, que aqui no Brasil de chamou “Um Homem na Rêde”. No próximo post publicaremos a versão dele em fotonovela lançada no Brasil pela revista “Ultra Ciência” (número 6) com o título de “A Ilha do Terror“.

por Petter Baiestorf.

Assista “Horrors of Spider Island” aqui:

Vontade

Posted in Cinema, Entrevista, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on agosto 8, 2012 by canibuk

“Vontade” (2012, 10 min.) de Fabiana Servilha. Com: Alexandre Rabello, Douglas Domingues e Marina Ballarin.

Rapaz perturbado com insônia (Alexandre Rabello) se levanta após dizer a enigmática frase: “Vou acabar com isso!”. Pega uma garrafa de vodka na geladeira, uma faca na cozinha, e sai pela cidade com seu carro. Estaciona num mercadinho, fica seguindo um gordo barbudo (Douglas Domingues) que lá fazia compras e logo em seguida seqüestra-o. O rapaz perturbado fica dando voltas sem rumo enquanto os gritos apavorados do gordo barbudo ecoam por sua mente. Num impulso estaciona o carro e liberta o seqüestrado que sai dali correndo. O rapaz, mais perturbado ainda por ter falhado em sua missão, volta para casa com o gosto amargo do fracasso na boca e arranca, com a faca, a carne da batata de sua própria perna, num ótimo momento de auto-mutilação. O desfecho do curta é digno das melhores piadas de humor negro que já tive o prazer de presenciar. Sutil, cômico e porradão!

O roteiro de “Vontade”, de autoria da própria diretora Fabiana Servilha, brinca de maneira soberba com os clichês do cinema de horror ao construir um clima macabro onde explora as várias possibilidades narrativas sem entregar mais do que o espectador deve saber. Num primeiro momento somos levados a acreditar que o jovem com insônia armado da faca e da garrafa de vodka, após a frase “Vou acabar com isso hoje!”, está em busca de sua namorada que pode estar lhe traindo com outro homem. A perseguição ao gordo no mercadinho reforça essa idéia, mas ao mesmo tempo deixa no ar a dúvida: E se o jovem perturbado é somente um psicopata em busca de sua primeira vítima? Após o jovem libertar o gordo, num momento de arrependimento, somos levados a acreditar que o surto psicótico chegou ao fim sem vítimas, sem derramamento de sangue. Ledo engano, aqui Servilha introduz uma linda cena de auto-mutilação gore com o perturbado rapaz colhendo um sucolento pedaço de sua própria carne. O final do curta de Servilha é um delicioso momento de humor negro (não amigo, o perturbado não vai comer sua própria carne não), com a moral às avessas de “Quem ama faz sacrifícios”. É uma bela história que nos faz refletir.

O curta de Fabiana Servilha, de algum modo, faz com que nos lembremos da fixação de William Seabrook e sua ânsia em conseguir algumas gramas de tão preciosa iguaria tabu. Seabrook resolveu o problema subornando um funcionário do hospital de Paris, não tendo sido tão extremo/insano quanto a personagem principal deste belo curta. Aliás, a primeira vista não gostei do título do curta (confesso que tenho queda por títulos mais mirabolantes), mas o desfecho genial do curta é tão lindo que não vejo nome mais apropriado ao curta do que “Vontade”.

Fabiana Servilha é formada em cinema e tem uma grande vontade de realizar cinema de gênero e tentar uma re-aproximação do cineasta com o público. É tarefa árdua, mas a julgar por seus curtas ela (e toda uma nova e jovem geração de cineastas independentes) está conseguindo. Seu filme de TCC foi o curta “Estrela Radiante”, seguido de “Aqueles Olhos” filmado em 16mm. Depois ajudou na realização dos ótimos “Caixa Preta” e “Eternitá”. Para a realização de “Vontade” ela escalou bons atores e técnicos talentosos, como o iluminador/diretor de fotografia Henrique Rodrigues que deu um climão doentio ao curta, as maquiagens gore do Rodrigo Aragão (diretor dos clássicos “Mangue Negro” e “A Noite do Chupacabras”) e a edição dinâmica de André Coletti (que também sempre é assistente de direção dos filmes de Servilha).

“Vontade” está sendo selecionado em inúmeros festivais de cinema, fica a dica para aqueles que gostam de conferir os rumos que nosso cinema está tomando e este novo trabalho de Fabiana Servilha precisa ser apreciado pelo máximo de público possível. Imperdível!

Abaixo uma mini-entrevista que realizei com Fabiana sobre seus curtas e sua maneira de pensar cinema.

Petter Baiestorf: Você estudou na Film Works da Academia Internacional do Cinema, fale como foi este período. Você se interessou por cinema quando?

Fabiana Servilha: Cresci vendo filmes de terror, principalmente os da década de 80, tem uma locadora bem do lado de casa e o setor que eu mais freqüentava era o do terror/suspense, desde que me conheço como gente lembro que reservava do dinheiro da bomboniere para ter como locar “The Return of the Living Dead”. O japonês da locadora dizia: – “Mas você já locou este semana passada… outra vez?” (risos). Minha infância era literalmente: parar a bicicleta e contar muito bem para amigas de bairro tudo que eu via na TV, como “Tales From the DarkSide”. Eu fazia até os efeitos sonoros e as garotas morriam de medo, pois eu esperava anoitecer para contar de propósito. O que elas não sabiam era que eu também me cagava de medo, mas vendo o medo delas, aliviava o meu (risos). Certa vez a mãe de uma dessas garotas toca a campainha de casa para brigar com minha mãe, dizendo: – “Sua filha tem 10 anos! A minha tem 7 e se impressiona com O Exorcista!!!! Não quero que a Fabiana fique mostrando essas coisas a ela! As rodas da bicicleta estão com terra de cemitério!!!” (risos). Isso porque eu costumava pegar amoras no cemitério para fazer suco, coisa bizarra de criança (risos). Com uns 12 anos comecei a ler Stephen king e a escrever roteiros, lembro que eram todos longas metragens!!! Hoje dou risada disso, pois não é uma tarefa tão fácil como uma menina de 12 pensava que fosse , mas só gravei com uns 16 anos um curta para escola, era de aula de educação artística. Cada grupo devia escolher um gênero, eu levantei voando para garantir que o de terror fosse o meu. E ficou bacana mesmo editando na época no vídeo cassete, o resultado foi um plágio da abertura do “Night of the Creeps” (risos), só inverti a situação para anos 70 pois havia conseguido uma brasília emprestada para gravar. Eu ia no cinema praticamente todos os dias, pagava um filme e assistia 3, ou 4 com a famosa ida ao banheiro para entrar nas outras de graça. Comecei a fazer cursos gratuitos de cinema pelas oficinas culturais,  posteriormente conheci Eduardo Aguilar, e fazia curso com o José Mojica Marins, mas nessa época eu fazia um milhão de coisas envolvendo arte, eu me envolvia com teatro, música, dança, e acabei deixando o cinema de lado e estudando Artes Visuais na Belas Artes. Eu já estava no segundo ano, quando o professor de desenho fala: – “Agora peguem o carbono e risquem o vazio e vejam o que encontram, potencializem essa coisa”. E eu pensei: “Que caralho que eu to fazendo aqui? eu queria fazer filme de terror!”. Até que surgiu uma bolsa pela Academia Internacional de Cinema e aproveitei para largar tudo, só que lá eu teria um novo problema, cinema se faz com um grupo e eu teria dificuldades em achar outros alunos que também gostassem de cinema de gênero, então me sentia deslocada, queria apenas ficar ali disfarçando no som e os roteiros eram chatos pra mim, alguns davam vontade de se dar um tiro na boca na sala de aula. Desanimei bastante no começo. Foi a partir dai que surgiu o Cinema do Medo pelo Cine Galpão onde eu poderia trazer pessoas com o mesmo objetivo que eu.

Baiestorf: O que foi o projeto “Cinema do Medo” que você desenvolveu com o Cine Galpão? Quem é o Cine Galpão e qual a proposta do grupo?

Servilha: Eu sentia uma pitadela de preconceito com a galera que estudava cinema, entortavam o nariz pra mim se eu não tivesse visto “Linha de Passe”, pois eu tinha de ver mais cinema nacional e blá blá blá, mas eu não podia entortar o nariz também de eles nem saberem quem é Ivan Cardoso. Sentia que terror no geral era visto como se fosse um gênero inferior e francamente, de fato muita porcaria é feita com o gênero, o que faz piorar essa visão. Mas pessoas esquecem de grandes roteiros, diretores, atores que estiveram sim em filmes de horror. Até hoje tenho espécies de pastores querendo me converter a fazer outros gêneros; o que eles não entendem é: eu não tenho nada contra gênero algum, o que me importa é a estória me interessar. Tem certos filmes de gênero inclusive que o assunto é tão batido e ninguém traz nada de novo que eu nem quero ver, por exemplo, filmes de casa mal assombradas, espíritos, filmes de tema zumbi então nem se fala, muitos eu nem quero ver porque o povo só faz a mesma estória de sempre, parece que voltamos ao cinema mudo, estamos indo ver “A Chegada do Trem na Estação” e é exatamente o que vamos ver, apenas um trem chegando na estação. Filme de zumbi é tudo o que eu já sei, é desinteressante, me diga, me conte algo de novo que partiu de você, algo que eu já não saiba, o que me importa em filmes é algo que me atraia. E eu sou o tipo de pessoa que se interessa mais quando tem elementos fantásticos, para mim “Existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”. Dirigir é sua forma de enxergar as coisas. Poderia dirigir um drama ou comédia? Sim, mas é igual futebol, eu entendo tudo do jogo, mas eu acrescento mais ao time sendo goleiro! Então me deixem em paz! (risos) Henrique Rodriguez era meu professor em um curso no Senac e sempre me via resmungando sobre isso, na época ele e Carla Monteiro iriam fundar o Cine Galpão, um espaço de uso coletivo voltado a estudos e produções audiovisuais, eles dão abertura para qualquer um que chegue com alguma proposta bacana e precise de apoio, teríamos equipamentos e auxilio, não havia mais desculpas para não se gravar. Foi então que eu chamei André Coletti para fundarmos um grupo nosso voltado apenas para estudo e produção de filmes de terror: Cinema do Medo, aberto para o público, lá então poderíamos reunir pessoas com os mesmos objetivos e deixar ser integrante, começamos com o projeto “Vontade”. Posso parecer muito idealista e romântica, mas de fato o que eu queria era uma galera para produções constantes de gênero e fazer varredura na galera independente para sermos uma produtora grande de gênero unificada, acolhidos pelo Cine Galpão. Era o nosso paraíso, pois, os cursos de cinema acabavam mas o Cine Galpão continuaria e poderíamos fazer crescer.

Baiestorf: “Estrela Radiante” foi o filme que você realizou para seu TCC. Fale como foi a realização deste curta. Como foi a distribuição dele?

Servilha: “Estrela Radiante” foi uma loucura, haviam outros 2 estudantes da AIC que o abandonaram como projeto de TCC deles, e eu até entendo. Na verdade por volta de 30 pessoas abandonaram o filme ou mais, muitas eu nem conto porque nunca acrescentaram em nada, nem conto como “passaram pelo filme”, teve diversos produtores que pularam fora quando a corda apertou e muitos pioravam mais que ajudavam e faltando uma semana para gravar eu me encontrei sozinha com a produção,  não tinha praticamente nada e as pessoas só desistiam pois sabiam que não seria fácil e muito arriscado. Convenhamos, ir pro meio do mato para passar sufoco não é muito animador. Eu não estava dando conta e sem dinheiro era pior ainda! perdi o departamento inteiro de fotografia e o de produção faltando uma semana, era complicado, não tínhamos dinheiro, nem tempo, tudo era difícil, elenco complicado, gravar no mato, arte complicada, estória bizarra misturando ficção científica com horror made in Brasil. Não sei bem identificar o gênero, eu costumo chamar de “A Gororoba da Fabi” (risos). Lembro que precisava de várias larvas para o filme e um dia antes de ir para o interior gravar, as larvas fugiram dos potes, quando eu e André Coletti acordamos, estávamos rodeados de trocentas larvas e desesperados começamos a pegar uma a uma do chão para colocar de volta aos potes, o André disse: – “Isso não vai abalar o orçamento, apenas 6 larvas morreram na jornada Fabi, não vai afetar a cena.” (risos) Parávamos na Rua Augusta para procurar figuração negra para levar até Ibiuna, era tão absurdo conseguir que chegamos a falar com moradores de rua para participar do filme! Como eles moravam na rua, e não tinham telefone celular falávamos: – “Hey! Esteja na porta do Ecléticos na Augusta sexta próxima as 19 horas para irmos gravar!” (risos). Lembrei bastante da palestra que fui ver do Lloyd Kaufman aqui em São Paulo sobre produções independente. Faltando uma semana e eu sem nada e com pouquíssimas pessoas do meu lado, comecei a desistir de chamar pessoas ligadas a cinema e aceitar ajuda de qualquer pessoa normal, e de fato vieram para somar e foram excelentes produtores pois não faziam corpo mole, não me chamavam de louca, e não vinham com vícios ou achavam que TUDO seria impossível de ser feito dentro daquelas condições, foi a melhor atitude que fiz, gente que nunca havia trabalhado com cinema estavam dando um show de produção e força de vontade, me surpreenderam e eu não teria conseguido nada sem elas; lembro que postei uma imagem de S.O.S no facebook, faltando 1 semana eu pensei em desistir também, não conseguia dormir mais, chorando de raiva eu até escrevi um diário e escrevi que eu conseguiria fazer essa porra sozinha mesma e assim o fiz. Devo muito a todos que aparecerão nos créditos finais cada um vinha com um pequeno milagre e era um leão diferente pra matar a cada 30 minutos. Até a atriz Débora Muniz vendo minha cara de exausta me incentivava nas gravações; tive muita sorte pois não poderia ter um elenco melhor, André Cecatto, Fábio Neppo, Débora Muniz, Valdano Sousa,  todos estavam muito compreensivos comigo e estavam ali para ajudar em qualquer coisa que fosse. Foi uma puta experiência de superação e saber transformar o lodo em pérola. Ficará pronto no final do ano, e em 2013 estará nos telões com muito orgulho!!

Baiestorf: Você não acha que as faculdades de cinema deveriam ter uma distribuidora de filmes para escoar ao público estes filmes produzidos para TCCs?

Servilha: Sim, seria ótimo; muitos curtas ficam encalhados e os realizadores devem parar um pouco e se perguntar a razão de o porque de tudo isso, e a atenção em relação a isso deve partir de lá de trás, na escolha do roteiro, de atores, tudo vai influenciar para que o filme seja bom, e quanto mais rico for o filme, mais vai ser favorável para que você consiga estender o prazo de vida dele posteriormente, é óbvio. Este ano fiquei sem gravar nada pois sofri na pele a dificuldade que é exibir e distribuir sozinha, o filme literalmente morre se você deixar, você acaba desistindo, é um trabalho de cão, acaba se enjoando dele, de saco cheio já, ou partindo para a produção de outro. E NÃO!!! Isso está errado! Vai ser muito difícil eu gravar outra coisa na loucura por impulso, quero analisar na frente tudo que farei com o material pronto pois eu desejo filmes que sobrevivam e se estendam o máximo que puder. É uma delícia gravar, a parte chata é justamente o que fazer com o filme depois de pronto, ele precisará de cuidados e esse tipo de pensamento desde o começo é para seu próprio bem, justamente para te ajudar a gravar ainda mais, você verá que além de gravar, é uma delícia também ele estar em festivais, sendo visto, e o melhor! Te dar uns trocados para você gravar o próximo, para que você não desista.

Baiestorf: “Aqueles Olhos” você fez em 16mm, qual foi o orçamento do curta? Você acha necessário filmar em película nos dias de hoje?

Servilha: Deve ter dado por volta de 1.300 reais, a película partiu da própria AIC; um rolo de nem 13 minutos para tirar um filme final de 5 minutos, eu tinha medo até de bater claquete e ser demorado. A experiência com película foi boa para ver a diferença do digital, no digital eu sou um inferno, nunca tá bom, faço takes demais, a equipe mesmo fala: – “Este está igualzinho ao anterior Fabi, chega!”. No digital acabamos gravando muitas coisas as vezes desnecessárias o que fica até perigoso de perder o foco da tua narrativa, você não está registrando, você está narrando algo! Onde eu coloco a câmera agora? Na película você não é nenhum milionário que pode ficar se aventurando, então te força a focar realmente direto ao necessário, você visualiza seu trabalho de decupagem muito mais porque é literalmente película valiosa torrando. Os dois tem seus pontos positivos e negativos, aplicar o pensamento econômico de se filmar em película para o digital vai ser bom pra seu plano de filmagem e sua decupagem e não sair correndo por ai disparando o REC.

Baiestorf: Como foi a recepção de “Aqueles Olhos”? Ele te abriu algumas portas para a produção de novos filmes?

Servilha: O bacana do curta foi ver em diversas exibições a reação do público, toda hora que aparecia o demônio no bolo a platéia provocava um som, isso é muito maravilhoso, saber que você atingiu a intenção; ele foi exibido no SP TERROR no Reserva, CineSesc, no MIS Festival AIC, Halloween Casa das Rosas, Guaru Fantástico e no Cinefantasy, não havia mandado a muitos lugares na época, engraçado que quando fomos selecionados ao Cinefantasy fomos parar na categoria Novos Rumos e dai eu pensei: “Que tipo de filme eu ando fazendo? Não é terror, não é surrealismo. Novos rumos?! Isso é bom? Que diabo significa isso?” (risos). Fiquei muito surpresa em o filme ser premiado no Cinefantasy na categoria “Estímulo a Estudante”, ele me abriu portas internas eu diria, me diverti muito fazendo na época, eu e André fizemos pensando na gente, pra gente, eu não estava nem um pouco preocupada com o que falariam na banca da AIC e acho que fizemos tão sem pretensões e tão verdadeiro que a banca acabou sendo ótima na escola e as pessoas sempre gostavam do curta quando assistiam, foi dai que arrisquei a enviar a alguns lugares.

Baiestorf: Acabei de assistir teu ótimo curta “Vontade” e o senso de humor negro que você imprimiu ao curta, de maneira sutil, me deixou impressionado. Sua direção é bem segura, com um grande trabalho de decupagem das cenas. Como surgiu a idéia para o roteiro de “Vontade” e sua posterior filmagem? Foi complicado filmá-lo?

Servilha: Que bom que curtiu petter, fico feliz. Eu tenho muitos roteiros em casa que escrevo, tem longa também mas tenho que admitir que amo contos, estórias curtas, e adoro quando a idéia me surge pelo plot, como aconteceu no “Vontade”, infelizmente não tenho $$ para gravar tudo e gosto de escrever roteiros mais malucos, o que piora de realizá-los. Estou tentando fazer estórias mais simples em questão de produção para facilitar a vida e “Vontade” é este caso, uma produção simples, e barata. Sempre fico atenta a coisas pequenas que aparecem ao redor e sou a típica pessoa que dá ouvidos aos loucos sim! Acho que um gesto, uma palavra que a pessoa coloca, um tropeço pode me surgir uma boa idéia, tem coisas bizarras que acontecem ao nosso redor o tempo inteiro e simplesmente não damos atenção, muito que escrevo parte do real. A idéia do “Vontade” era entrarmos em uma busca mistériosa, uma corrida no meio de uma madrugada de um personagem que precisa encontrar coragens de cometer um homicídio para satisfazer uma vontade emergencial e incontrolável. Um Thirller com pouquíssimos diálogos. Fiquei surpresa de ver o filme sendo indicado a Melhor Roteiro do Festival Art Deco Cinema e mais 2 indicações.

Baiestorf: Qual foi o orçamento de “Vontade” e nos conte como foram as filmagens do curta.

Servilha: Deve ter dado por volta de 1.500. O maior gasto foi com a maquiagem do filme, equipamentos eu teria com o apoio do Cine Galpão, Cinema de Guerrilha, e eu iria aproveitar a vinda do cineasta Rodrigo Aragão ao Cinefantasy para gravar quando ele estivesse em São Paulo por conta da maquiagem do filme. Acabou batendo exatamente nos mesmos dias que eu estava filmando Aqueles Olhos pela Academia Internacional de Cinema. Foi exaustivo gravar 2 curtas tão colados, mas para economizar e ter o Aragão só podia ser deste jeito. “Vontade” na verdade é um remake de nós mesmos, eu havia tido a idéia, e no dia seguinte chamei 2 amigos, essa era a “equipe do filme”, entre eles André Coletti, chamei o ator Alexandre Rabello e gravamos em uma mini dv em poucas horas. Eu nem havia feito decupagem alguma e eu mesma fiz a maquiagem e até fui atriz no filme. Quando editamos no dia seguinte vi onde erramos e o que acertamos e vi que aquilo tinha potencial para ser gravado melhor. Quando precisamos inaugurar o Cinema do Medo no Cine Galpão pegamos o Vontade logo de cara para regravá-lo.

Baiestorf: Gostei bastante dos atores e da equipe-técnica que trabalhou no “Vontade”. Fale um pouco como você reuniu este talentoso grupo e como outros produtores fazem prá trabalhar com eles.

Servilha: Algumas pessoas já eram meus amigos, e a sede de reuniões era no Cine Galpão. Carla Monteiro e Henrique Rodriguez vestiram a camisa sendo integrantes da equipe, eu havia feito teatro com o ator Alexandre Rabello que topa qualquer parada, a atriz Marina Baillarin era amiga do André Coletti, consegui trazer algumas pessoas da AIC para o grupo, quem caiu de pára-quedas atuando foi o Douglas Domingues que foi lá ajudar de ultima hora porque estávamos sem um ator, ele acabou fazendo parte do Cinema do Medo depois. Stefanne Marion acabou entrando e cuidando da arte que estava sozinha, conheci o Vitor Melloni pelo festival SP Terror e ele acabou se interessando pelo projeto e ajudou muito na produção do filme, também fico muito feliz com a equipe final, pequena, e funcional. As vezes não precisamos armar um circo de pessoas, o importante é elas funcionarem. Também teve várias entradas e saídas de pessoas pelo Cinema do Medo, manter um grupo andando não é fácil e as pessoas não entendem e preferem botar a culpa em você, não bastava ter equipamentos e achar que tínhamos a faca e o queijo na mão, cinema dependia das pessoas, queria reunir pessoas apaixonadas por filme de gênero de verdade, era a minha tática para animá-las a segurar o tranco de dificuldades que todo cinema independente passa.

Baiestorf: “Vontade” está sendo selecionado em diversos festivais de cinema aqui do Brasil e exterior. Você pode adiantar os lugares onde seu curta estará sendo exibido nos próximos meses para que os leitores do Canibuk possam assisti-lo?

Servilha: Tudo tem sido bacana e com muito sangue meu, tenho trabalhado demais por ele, o filme foi para 3 indicações e levei o Premio Jovem Talento Feminino Brasileiro pelo Festival Art Deco Cinema aqui em São Paulo, com um filme Thriller! (risos). Isso me deixou muito feliz, geralmente eu tenho até medo de mandar filme de gênero competindo com os demais e a abertura e recepção que tive neste festival foi fantástica. Este mês foi uma surpresa ver que o filme será exibido em agosto 7 vezes Em São Paulo na Espantomania, Guaru Fantástico; no Rio de Janeiro, na Rio Fan; no Festival Macabro no México, entre outros. Estou muito contente pela repercussão do filme, todos podem acompanhar as notícias pela página “Vontade Filme” no Facebook. Tive uma recepção ótima de festivais na Califórnia, o primeiro será em Novembro 2012, inclusive tem festivais de cinema de gênero voltado apenas para direção feminina! (risos). Achei genial e estou feliz com tudo isso. Em São Paulo este mês teremos uma mostra especial da galera integrante do Cinema do Medo na ECLA, estaremos lá. Vale a pena conhecer quem se interessou pelo grupo, ou o Cine Galpão.

Baiestorf: Antigamente (até meados de 2005) nós produtores independentes praticamente não tínhamos festivais/mostras para apresentar nossos curtas, nem os canais de divulgação da Internet, tudo era divulgado em eventos undergrounds (bares e botecos com telão) ou fanzines com os filmes sendo enviados via correio. Daquela época prá cá a divulgação melhorou mas o sistema de distribuição dos filmes continua precária e amadora. Como você está distribuindo teus filmes? Eles estão se pagando? Há alguma coletânea em DVD com teus trabalhos para quem quiser tê-los em casa?

Servilha: Eu tenho muiiiiitooo o que aprender, estou no começo de tudo mesmo, tem um mundo por trás disso, e eu estou tendo que aprender na marra e sozinha, agora que eu estou entendendo melhor o que fazer com um filme e até onde eu posso ir com ele, estou me aliando com pessoas experientes no assunto que vêem me orientando. Ando pegando nichos e tem como ter uma sobrevivência independente sim. Quando acabar o período de festivais e mostras pretendo distribuir para DVD e televisão.

Baiestorf: Sou um eterno defensor/divulgador do cinema independente e pela primeira vez sinto que o Brasil tem uma cena de filmes independentes que estão tecnicamente bem elaborados/finalizados. Você acha que o caminho a seguir é continuar na produção independente ou pretende tentar alguns editais para captação de recursos mais polpudos?

Servilha: eu acho que você tem que reconhecer a qualidade daquilo que você tem na mão primeiramente, se tiver potencial até a forma independente só tende a dar bons resultados porque o trabalho é bom, acho que é possível as duas coisas, é só o cinema independente pensar mais sério que o retorno será mais sério. Fazer da sua melhor maneira possível e sempre procurar evoluir, graças a Deus criatividade é gratuito. Tem lugares, como o Cine Galpão, que buscam ser co-produtores, há bons atores por ai que ainda topam sim trabalhar de graça se ver qualidade e seriedade no que você está propondo, assim como outras pessoas de parte técnica. Desistentes e gente que provavelmente vão pular do barco, ou largar pois arrumou um outro trabalho vai ter, mas se você tiver perseverança você consegue fazer acontecer.

Baiestorf: Vi você defendendo o cinema de gênero. Você acredita que pode ser alcançado um público maior com o cinema de gênero? Como fazer para que os filmes cheguem ao povão já que hoje o cinema de bairro e/ou de calçada praticamente está extinto e o cinema de shopping exibe apenas cine-sonífero estrangeiro (ou aquelas chatices Globo Filmes)?

Servilha: Claro, porque não? Para chegar no “povão” filmes nacionais de gênero o método talvez seria trilhar um caminho pelas beiradas, é muito difícil você chegar a um adulto forçando-o comer verdura se desde criança ele não tinha costume em comer, não é da cultura brasileira, digo isso por mim que só via filmes gringos desde criança e pra mim Zé do Caixão era um apresentador do Cine Trash apenas. Eu nem tinha acesso aos próprios filmes nacionais de terror nas locadoras, isso é lamentável.

Baiestorf: Projeto futuro? Há algo em pré-produção “made in” Fabiana Servilha?

Servilha: Tem sim, até com HQs estou me envolvendo (risos). Melhor do que deixar estórias jogadas na gaveta (risos). Estou empolgada com 2013, tem um projeto de longa metragem muito bacana a caminho e um programa infanto juvenil de gênero que ando cuidando para dar certo; tenho muito trabalho pela frente, cuidando do “Vontade”, preparando o “Estrela Radiante”, tem sido uma loucura.

fotos de Juliana Cupini e Luciano Abe.

La Montagna del Dio Cannibale

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“La Montagna del Dio Cannibale” (1978, 103 min.) de Sergio Martino. Com: Ursula Andress, Stacy Keach, Claudio Cassinelli e Franco Fantasia.

“A Montanha dos Canibais” começa com Susan Stevenson (Ursula Andress) tentando encontrar, com ajuda de seu irmão (Antonio Marsina) e do professor Edward Foster (Stacy Keach), seu marido nas selvas da Nova Guiné. Como acreditam que o marido de Susan desapareceu numa montanha amaldiçoada, que ainda abrigaria uma tribo de canibais selvagens, eles só podem contar com a ajuda de outro explorador, Manolo (Claudio Cassinelli), para tentar chegar até a terrível montanha. Enfrentando sucuris, jacarés, tarantulas, cobras, pernilongos, plantas venenosas e outras armadilhas mortais da selva, o grupo chega até a missão do padre Moses (Franco Fantasia, sempre inspirado) onde atrapalham a paz do dia-a-dia da comunidade religiosa comandada pelo padre. São os instintos carnais do homem civilizado batendo de frente com os instintos primitivos de índios domesticados pela mão do cristianismo branco que vê pecado em tudo. Logo o grupo precisa deixar a comunidade religiosa e chega à montanha onde são capturados pelo índios canibais. Finalmente ficamos sabendo que a montanha é constituida de urânio que Ursula Andress deseja mais ardentemente do que seu marido (agora um cadáver com um contador Geiger batendo no lugar de seu coração e adorado pelos selvagens como se fosse um Deus). Manolo é torturado e Susan despida e preparada para ser a Deusa viva da tribo, enquanto os outros viram o ingrediente principal do banquete de sangue para a Deusa branca da montanha dos canibais.

Com uma produção de baixo orçamento, mas bem cuidada, “La Montagna del Dio Cannibale” é mais violento do que “Il Paese del Sesso Selvagio/Man From Deep River/Mundo Canibal” (1972, Ocean Pictures em DVD) de Umberto Lenzi, mas bem comportado se comparado aos sádicos filmes de Ruggero Deodato de mesmo tema como “Ultimo Mondo Cannibale/O Último Mundo dos Canibais” (1977, Omni Vídeo em VHS) ou “Cannibal Holocaust” (1980, Platina Filmes em DVD). É engraçado ver uma atriz com fama, como era o caso de Ursula Andress, no elenco deste filme. Ela fica pelada boa parte das cenas, faz sexo e é vítima de todo tipo de abusos físicos típicos de uma produção italiana deste período. “A Montanha dos Canibais” foi roteirizado pelo diretor Martino e Cesare Frugoni (entre outros trabalhos, ajudou nos roteiros de filmaços como “Cani Arrabbiati” (1974) de Mario Bava; “I Guerrieri Dell’Anno 2072/New Gladiators” (1984) de Lucio Fulci ou “Inferno in Direta/Cut and Run” (1985) de Ruggero Deodato), sempre confrontando o civilizado com o primitivo.

Sergio Martino (1938) nasceu em Roma, Itália. É neto do cineasta Gennaro Righelli (que tem o mérito de ter dirigido o primeiro filme sonoro do cinema italiano, “La Canzone Dell”Amore”, em 1930). Começou realizando documentários no final de 1960. Em 1970 dirigiu o western “Arizona si Scatenò… E li Fuori Tutti/O Retorno de Arizona Colt”, estrelado pelo brasileiro Anthony Steffen. Logo se especializou na produção de Giallos, a maioria escritos pelo roteirista Ernesto Gastaldi e estrelados por sua cunhada Edwige Fenech (que era casada com seu irmão Luciano, também produtor deste “A Montanha dos canibais”), dos quais destaco o maravilhoso “I Corpi Presentano Tracce di Violenza Carnale/Torso” (1973, Continental em DVD). Antes da realização de seu filme de canibais, voltou a realizar um western de destaque: “Mannaja/A Man Called Blade” (1977). Em 1979 escalou a gostosa Barbara Bach para levar alguns sustos no maravilhoso “L’Isola Degli Uomini Pesce/Island of the Fishmen”. No rastro do sucesso de “Escape from New York” (1981, Universal Home Video em DVD) de John Carpenter, realizou a sci-fi de ação “2019 – Dopo la Caduta di New York” (1983), estrelado por George Eastman. Com o cinema italiano entrando em falência, Martino migrou para a televisão onde produz até hoje. A título de curiosidade, para o lançamento de “La Montagna del Dio Cannibale” seu irmão usou o pseudônimo de Darryl F. Zanuch, a picaretagem do cinema italiano tem muito que ensinar ao cinema bom-moço brasileiro.

Nunca fui fã da atriz Ursula Andress (1936), mas neste filme ela está fantástica como a megera branca querendo roubar as riquezas naturais dos povos primatas. Andress é suiça e virou sex symbol depois de ser a primeira Bond girl em “Dr. No/007 Contra o Satânico Dr. No” (1962) de Terence Young. Daí em diante apareceu em inúmeros filmes de Hollywood como “Fun in Acapulco/Seresteiro de Acapulco” (1963) de Richard Thorpe, estrelado por Elvis Presley; “4 for Texas/Os Quatro Heróis do Texas” (1963) de Robert Aldrich, com a lindíssima Anita Ekberg e a dupla de conquistadores baratos Frank Sinatra e Dean Martin; “She” (1965) de Robert Day, uma interessante fantasia sobre uma cidade perdida com produção da Hammer e Peter Cushing batendo ponto no elenco; “What’s New Pussycat/O Que é que Há, Gatinha?” (1965) de Clive Donner com roteiro de Woody Allen e Peter Sellers no elenco; “Soleil Rouge/Sol Vermelho” (1971) de Terence Young, com Charles Bronson e Toshirô Mifune e “Africa Express” (1976) de Michele Lupo até que, acredito eu, deve ter perdido alguma aposta com os irmãos Martino e acabado em “La Montagna del Dio Cannibale”. Depois disso sua carreira de atriz não trouxe nada de relevante (só uma aparição meia boca no engraçado “Clash of the Titans/Fúria de Titãs” (1981) de Desmond Davis, com efeitos de stop motion do mestre Ray Harryhausen.

Já o ator Stacy Keach (1941) saiu do set de “La Montagna del Dio Cannibale” diretamente para o set de “Up in Smoke/Queimando Tudo” (1978) de Lou Adler com a dupla Cheech Marin e Tommy Chong (ele também dá as caras em “Nice Dreams/Altos Sonhos de Cheech e Chong” (1981) de Tommy Chong). Keach apareceu em muito filme bom, como “The Long Riders/Cavalgada dos Proscritos” (1980) de Walter Hill no papel do vilão boa praça Frank James; “Roadgames/Enigma na Estrada” (1981) de Richard Franklin; “Body Bags/Trilogia do Terror” (1993, London Films em DVD) e “Escape From L.A./Fuga de Los Angeles” (1996, Paramount Home Video em DVD), ambos de John Carpenter. Outro ator que merece destaque é Franco Fantasia (1924-2002), que participou de mais de 130 filmes (em “La Montagna del Dio Cannibale” ele, além de atuar, também foi assistente de direção), inúmeras produções que viraram cults nos dias de hoje, como os clássicos “Space Men/Assignment: Outer Space” (1960) de Antonio Margheriti; “Un Dollaro Bucato/O Dólar Furado” (1965) de Giorgio Ferroni; “Justine de Sade” (1972) de Claude Pierson; “Zombie 2” (1979, London Films em DVD); “Mangiati Vivi!/Os Vivos Serão Devorados” (1980) de Umberto Lenzi e “Vendetta del Futuro/Keruak – O Exterminador de Aço” (1986) também de Sergio Martino, em participação não-creditada.

Em tempo, a trilha sonora de “La Montagna del Dio Cannibale” é assinada por Guido e Maurizio de Angelis, os irmãos responsáveis por soundtracks sensacionais para filmaços como “… Continuavano a Chiamarlo Trinità/Trinity Ainda é Meu Nome” (1971, New Line Video em DVD) de Enzo Barboni, estrelado pela genial dupla Bud Spencer e Terence Hill; “Valdez – Il Mezzosangue/Chino” (1973, Studio T Home Video em DVD) de John Sturges e Duilio Coleti, estrelado por Charles Bronson; “Zorro/A Marca do Zorro” (1975) de Duccio Tessari; “Keoma” (1976, USA Filmes em DVD) de Enzo G. Castellari, com Franco Nero; “Killer Fish/O Peixe Assassino” (1979, Abril Video em VHS) de Antonio Margheriti; “Alien 2 – Sulla Terra” (1980) de Ciro Ippolito e “Banana Joe” (1982, Paris Filmes em DVD) de Steno, comédia sobre a burocracia do estado genialmente estrelada por Bud Spencer em grande forma. A dupla trabalhou compondo trilhas para praticamente todos os grandes diretores italianos dos anos 70/80, que iam de Umberto Lenzi, passando por gente como Ruggero Deodato, Sergio Corbucci, Bruno Corbucci, Marino Girolami, Sergio Sollima, até Michele Lupo.

“La Montagna del Dio Cannibale” foi lançado em DVD no Brasil pela Cult Classic em cópia com alguns minutos  a mais de Ursula Andress pelada do que a cópia em VHS da distribuidora Pole Vídeo que circulava por aqui antes. Não é o melhor filme do ciclo de filmes de canibais italianos, mas mesmo assim garante momentos de diversão. Obrigatório!

por Petter Baiestorf.

Assista “La Montagna del Dio Cannibale” aqui:

“La Montagna del Dio Cannibale” pelo mundo: