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Nos Domínios do Amor Perverso

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 5, 2012 by canibuk

“Twice-Told Tales” (“Nos Domínios do Terror”, 1963, 120 min.) de Sidney Salkow. Com: Vincent Price, Joyce Taylor, Sebastian Cabot e Beverly Garland.

Este filme deveria se chamar “Nos Domínios do Amor Perverso”. Com três histórias baseadas em contos do escritor Nathaniel Hawthorne, “Twice-Told Tales” é um filme em episódios que explora o sadismo do amor relacionando-o ao macabro e a ciência. Roteirizado e produzido por Robert E. Kent, somos introduzidos no universo amoroso-tétrico de Hawthorne. No primeiro segmento, intitulado “A Experiência do Dr. Heidigger”, somos apresentados a dois amigos idosos que estão bebendo e relembrando o passado enquanto uma pesada tempestade castiga a noite. Ao fim da tempestade eles percebem que a tumba onde está enterrada Sylvia há 30 anos está aberta e resolvem ir lá ver se a tempestade não causou danos. Assim os dois velhos amigos descobrem que a morta está perfeitamente conservada no caixão e o ex-noivo, agora um renomado médico, desconfia que a água que pinga sobre o cadáver seja o responsável pela conservação do corpo. Após rápidos testes, onde a dupla reanima uma rosa seca, ambos bebem o precioso líquido coletado na tumba e voltam a ser jovens. Animados com o líquido milagroso, injetam no corpo da defunta que volta a vida revelando detalhes sórdidos, macabros e sujos de um triângulo amoroso mortal.

No segundo segmento, “A Filha de Rappaccini”, um pai mantém sua filha prisioneira em seu jardim, até o dia em que um jovem vizinho da casa ao lado se apaixona pela moça e descobre que ela foi vítima de experimentos de seu pai, um renomado cientista que no passado foi traído pela esposa libidinosa, e que transformou sua bela filha numa criatura radioativa que não pode encostar em nada vivo sem matá-lo horrivelmente queimado. Perdidamente apaixonado pela mortal beldade o vizinho tenta de tudo para salvar sua amada da loucura paterna (seu pai fez o que fez para evitar que a filha seguisse os passos pecadores da mãe). Ludibriado pelo cientista o jovem apaixonado é transformado em uma criatura radioativa tal como sua amada (assim nenhum dos jovens poderia trair o parceiro com relacionamentos extra-casamento) e um final explosivo, nos moldes de “Romeu e Julieta” só que mais atômico, acontece na melhor história do longa.

O terceiro segmento, e mais fracos, é “A Casa dos Sete Telhados”, sobre um picareta que volta à casa assombrada de sua família em busca de um cofre maldito que teria o dinheiro necessário para ele pagar suas dívidas de jogo. Sua esposa, que nada sabe, parece ser a resposta para a assombração que persegue aquela maldita casa à gerações. Aos poucos o expectador fica sabendo detalhes da história de amor por traz da maldição da casa dos sete telhados e de como a família do viciado em jogos conseguiu ficar com a casa (através de denúncias de bruxaria, onde o patriarca da família teria “roubado” a propriedade, traçando paralelos com a vida pessoal do escritor Hawthorne). Não sou chegado em historinhas espíritas de fantasminhas, talvez por isso eu não tenha curtido tanto este episódio final.

Vincent Price faz o papel principal (e a narração) em todos os episódios e nos lega interpretações fantásticas, se revelando em grande forma. Filmado no início dos anos de 1960, “Twice-Told Tales” tem aquele climão gótico dos filmes que Roger Corman fez baseado em contos de Edgar Allan Poe para a AIP, e assim como todos estes filmes de Corman, “Twice-Told Tales” faz excelente uso dos cenários belíssimos que são explorados de maneira bem criativa (cada episódio se passa num único cenário), aliados aos efeitos especiais, atuações, roteiro e figurinos que funcionam de modo colaborativo para que o filme seja uma grande diversão macabra do mais alto nível. O título de trabalho do filme foi “The Corpse Makers”, depois alterado para “Twice-Told Tales”, título de um livro coletânea de contos de Hawthorne (que trazia em suas páginas apenas o conto “A Experiência do Dr. Heidigger”). Nos USA o filme foi lançado em um DVD double feature com o clássico “Tales of Terror” (1962) de Roger Corman, verdadeiro objeto de orgasmo aos fãs fanáticos de Vincent Price.

Nathaniel Hawthorne (1804-1864) foi um romancista/contista descendente de John Hathorne (sem o “w”), único juiz envolvido nos julgamentos das bruxas de Salem que nunca se arrependeu de suas ações. Bom material para o escritor Hawthorne, que acrescentou o “w” em seu nome a fim de ocultar essa relação. Seu livro mais famoso, “The Scarlet Letter/A Letra Escarlate” foi publicado em 1850 depois de alguns livros que não fizeram sucesso. “A Letra Escarlate” foi um dos primeiros livros produzidos em massa nos USA e, nos primeiros dez dias após o lançamento, vendeu mais de 2500 cópias. O sucesso deu estabilidade à carreira de escritor e Hawthorne pode se dedicar a literatura, lançando na seqüência os livros “The House of the Seven Gables/A Casa dos Sete Telhados” (1851), que serviu de inspiração para o terceiro segmento de “Twice-Told Tales”, e “The Blithedale Romance” (1852), além de livros coletâneas de contos. No início da Guerra Civil Americana conheceu Abraham Lincoln e usou essas experiências políticas para compor o ensaio “Principalmente Sobre Assuntos da Guerra”, publicado em 1862. “Twice-Told Tales”, que empresta seu nome para este filme, foi lançado em 1837. Hawthorne faleceu enquanto dormia em 1864.

O diretor Sidney Salkow (1909-1998) dirigiu mais de 70 filmes e era pau prá toda obra, bem ao estilo dos diretores clássicos de Hollywood. Durante a Segunda Guerra Mundial Salkow chegou ao posto de major na marinha americana e assim que deu baixa do exército voltou a trabalhar como diretor, alternando filmes B com séries de TV. Seu primeiro filme foi o suspense “Four Days’ Wonder” (1936), seguido de vários outros filmes sem grande importância. Em 1952 chamou atenção com sua direção no filme “The Golden Hawk”, aventura estrelada por Sterling Hayden, e em 1954 dirigiu o ótimo western “Sitting Bull/Touro Sentado”. Depois de trabalhar em muitas séries de TV (coisas como “Lassie”, “Maverick” e “77 Sunset Strip”), foi contratado para dirigir “Twice-Told Tales”, um de seus melhores trabalhos. Ficou amigo de Vincent Price e o co-dirigiu novamente, em parceria com Ubaldo Ragona, no clássico “The Last Man on Earth/Mortos que Andam” (1964), com base no livro “I Am Legend” de Richard Matheson (embora o nome de Sidney Salkow não apareça creditado nas versões em italiano do filme). Depois destes dois grandes filmes do cinema fantástico Salkow realizou mais alguns westerns e se aposentou com apenas 59 anos e passou a viver de cursos de cinema que ministrava em faculdades da California.

O produtor e roteirista Robert E. Kent começou trabalhando para o lendário Sam Katzman na Columbia Pictures, até que formou, em parceria com Audie Murphy, a Admiral Productions e passou a produzir seus próprios filmes. Kent produziu alguns clássicos do horror e sci-fi como “It! The Terror from Beyonf Space” (1958), que mostrava uma expedição a Marte que era atacada por uma estranha forma de vida; “Curse of The Faceless Man” (1958), sobre uma curiosa maldição de um monstro de pedra; “Invisible Invaders” (1959), sobre aliens reanimando mortos humanos; “Beauty and the Beast” (1962), inspirado em “A Bela e a Fera”, este quatro filmes dirigidos por Edward L. Cahn, verdadeiro especialista em criar bons filmes de baixo orçamento; “Jack the Giant Killer/Jack – O Matador de Gigantes” (1962) de Nathan Juran, fantasia envolvendo dragões e princesas; “Diary of a Madman” (1963) de Reginald Le Borg, horror inspirado em história de Guy de Maupassant e estrelado por Vincent Price. Seu último filme foi “The Christine Jorgensen Story” (1970) de Irving Rapper, drama que contava a história de troca de sexo de Jorgensen (para quem não lembra, Christine Jorgensen foi a inspiração para Ed Wood escrever, produzir, dirigir e atuar em “Glen or Glenda?“).

“Twice-Told Tales” foi lançado em DVD no Brasil com o título “Nos Domínios do Terror” pela distribuidora Flashstar, a qualidade de imagem está ótima.

por Petter Baiestorf.

Veja “Twice-Told Tales” aqui:

The Tingler

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on maio 17, 2012 by canibuk

“The Tingler” (“Força Diabólica”, 1959, 82 min.) de William Castle. Com: Vincent Price, Judith Evelyn, Phillip Coolidge, Darryl Hickman e Patricia Cutts.

Um patologista (Vincent Price, hilário) descobre que, quando o ser humano sente medo extremo e não pode gritar, um parasita chamado Tingler se desenvolve na coluna vertebral. Este parasita se alimenta do medo humano, cresce e se enrola na sua coluna vertebral, podendo matar o hospedeiro. Tingler desaparece/morre se o hospedeiro gritar alto e com vontade, dando vazão ao seu medo. O dono de um cinema (Phillip Coolidge) chama o patologista depois que sua esposa surda-muda (Judith Evelyn) morre em circunstâncias misteriosas e durante a autópsia ele consegue isolar o parasita (porque um mudo não pode gritar) que se parece com uma grande centopéia alienígena de borracha. Depois de algumas revelações divertidas (que não convêm contar aqui), Tingler – o parasita sapeca – escapa e ataca dentro do cinema de Coolidge, dando abertura à uma genial seqüência de metalinguagem do cinema: O parasita entra no feixe de luz que leva as imagens para a tela de cinema e a película queima ficando tudo escuro, com a potente voz de Price pedindo aos espectadores do cinema que gritem com vontade para que o Tingler seja morto. Quando as luzes se acendem o monstrengo já era!

Após o estrondoso sucesso de “House on Haunted Hill/A Casa dos Maus Espíritos” (também de 1959), a dupla Castle-Price ganhou sinal verdeda Columbia Pictures para a produção de “The Tingler”, que além de sua história completamente nonsense, trazia uma das primeiras viagens de LSD mostrada num filme (o roteirista Robb White havia experimentado LSD na UCLA quando ainda era uma droga legalizada, lógico que a interpretação que Vincent Price dá quando chapado é de uma canastrice exemplar, nem de longe lembrando alguém que esteja “viajando”) e o uso do “Percepto!”, um gimmick de William Castle que dava choques em algumas poltronas dos cinemas onde o filme era exibido. Estes choques no público eram ativados justamente na cena onde o parasita havia escapado para o cinema (nesta cenas todas as luzes do cinema exibidor ficavam desligadas, aumentando a tensão) e o público ficava levando choques e gritando feitos loucos para “matar” tingler. Para ter uma idéias melhor da diversão que era essas exibições, veja o filme “Matinee” (1993) de Joe Dante, onde John Goodman faz o papel de um cineasta inspirado em William Castle.

William Schloss (que significa “Castle/Castelo” em alemão), nascido em 1914 e falecido em 1977, começou a dirigir filmes no início dos anos 40, foi assistente de Orson Welles em “The Lady from Shanghai” (1947). Chamou atenção do público depois que começou a utilizar gimmicks para atrair espectadores no filme “Macabre” (1958), onde um seguro de mil dólares era oferecido a cada pessoa do público em caso de mrote por medo durante o filme, além disso, enfermeiros e um carro funerário ficava estacionado na frente do cinema.  Em “13 Ghosts” (1960), filmado em “Illusion-o”, em determinados momentos o público deveria usar um apetrecho feito de celofane azul/vermelho para ver os fantasmas no filme, lógico que quem optava por não usar o apetrecho continuava vendo os fantasmas do mesmo jeito. Em “Homicidal” (1961) seu gimmick promocional era tão complicado que muitos donos de cinema se recusaram a reservar espaço para o filme. Em 1968 William Castle produziu um clássico do cinema de horror mundial, “Rosemary’s Baby/O Bebê de Rosemary”, dirigido por Roman Polanski.

Segundo o texto de John Waters que vem no encarte do DVD de “The Tingler” lançado no Brasil pela Columbia Pictures, “Percepto era um equipamento bastante caro (seu custo foi de mais de 250 mil dólares). Em cada dez poltronas, um era instalado, impulsionado por um pequeno motor, que ligados à cabine de projeção, o projecionista se guiava por pequenas marcas impressas no filme. Seguindo as instruções, um interruptor acionava uma vibração e uma pequena descarga de eletricidade nas poltronas. Decidido a testar Percepto antes da estréia de “The Tingler, Castle fez um acordo com o proprietário do cinema Van Nuys, da Califórnia, para permitir a instalação numa exibição no início da noite. A mão de algum gaiato, contudo, acionou o interruptor em um dos momentos mais trágicos de “Uma Cruz à Beira do Abismo”, filme em exibição naquele momento. As inesperadas ondas de vibração causaram pânico”.

por Petter Baiestorf