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A Putinha Retalhada e o Vagabundo com uma Espingarda

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on julho 18, 2012 by canibuk

“Hobo With a Shotgun” (“O Vingador”, 2011, 85 min.) de Jason Eisener. Com: Rutger Hauer, Molly Dunsworth e Brian Downey.

Tudo que “Machete” e “Death Proof” gostariam de ter sido e não conseguiram “Hobo With a Shotgun” consegue ser, uma verdadeira homenagem alucinada, debochada e violenta ao delicioso mundo dos psychotronic movies dos anos 70 com um pé na demência da Troma. O pecado de filmes como os citados “Machete” e “Death Proof” foi tentar homenagear o cinema vagabundo usando inúmeros astros fálidos de Hollywood (sem contar os roteiros de ambos os filmes que são ruins demais) para atrair este público sem bagagem cinematográfica de salas de shopping, aguentar xaropes como Robert De Niro ou dondocas como Jessica Alba no lugar de algum desconhecido talentoso e insano é dose. Rodrigues e Tarantino até podem parecer violentos quando comparados ao cinemão de Hollywood, mas quando pisam no terreno do selvagem cinema sleaze classe Z (ou psychotronic ou grindhouse, como queiram), não conseguem acrescentar nada à este subgênero tão querido e cultuado.

Sem enrolações ou maiores pretensões, um vagabundo (Rutger Hauer em momento inspiradíssimo) chega numa cidade dominada por um chefão (Brian Downey) e seus filhos sádicos e já presencia a execução pública do irmão do chefão em uma inventiva cena envolvendo o correto uso das tampas de bueiros e uma puta tomando banho num chafariz de sangue. A população toda da cidade parece não prestar (lembra a população do clássico “Straight to Hell/À Caminho do Inferno” (1987) de Alex Cox), a força policial inteira é corrupta e a população se esconde em sua individualidade egoísta. O vagabundo sonha em comprar um cortador de grama para começar seu próprio pequeno negócio, mas o sonho é interrompido no momento em que ele salva uma puta que seria estuprada por um dos filhos psicopatas do chefão. Daí em diante o ritmo do filme, que já era alucinado, fica mais demente ainda com o vagabundo comprando uma espingarda (a maneira como ele consegue o dinheiro é um momento lindo do cinema vagabundo mundial) e fazendo justiça com as próprias mãos, virando uma espécie de Charles Bronson de “Death Wish” às avessas, mais selvagem e acertadamente menos reflexivo. Os dois filhos do chefão, em um ato de selvageria extrema, se armam de um lança-chamas e dois rádios modelo anos 80 e fritam um ônibus escolar cheio de criancinhas. Com sua cabeça à prêmio o vagabundo precisa encontrar um jeito de se mandar da violenta cidade ou enfrentar todos num banho de sangue envolvendo dois guerreiros vestindo armaduras, a puta e seu cortador de grama, castrações, pescoços serrados, um hospital cheio de recém nascidos, divertidas carnificinas e um desfecho comovente.

“Hobo With a Shotgun” era, inicialmente, um trailer falso dirigido por Jason Eisener para o concurso internacional para promover o lançamento mundial do double feature “Grindhouse” (que tinha “Death Proof” de Tarantino e “Planet Terror” de Rodrigues). Tendo vencido o concurso, o trailer falso de “Hobo” começou a ser exibido junto de “Grindhouse” e foi a deixa para ser transformado num longa. O diretor Jason Eisener ainda é jovem demais para qualquer previsão de carreira, o mais certo é que acabe cooptado pelo cinemão americano e acabe fazendo filminhos mornôs para algum estúdio (torço para que isso não aconteça porque Jason Eisener foi um dos únicos jovens diretores que realmente me deixou empolgado com as possibilidades de um cinema mais virulento e ainda assim cheio de bom humor doente). Antes de “Hobo” ele já havia dirigido o horror “The Teeth Beneath” (2005) em parceria com Zach Tovey e os curtas “The Pink Velvet Halloween Burlesque Show!” (2006) e o genial “Treevenge” (2008) sobre árvores de natal se vingando dos humanos que merece virar um longa tão alucinado e incorreto quanto “Hobo With a Shotgun”. Seu último trabalho foi dirigindo um segmento no longa ainda não lançado “The ABCs of Death” que reune uns 25 diretores considerados a “nata” da nova geração do horror mundial e fico na esperança que seja insano e inventivo, que fuja do lugar comum que o atual cinema de horror se tornou.

O diretor de fotografia de “Hobo” é Karim Hussain que estreiou na direção de longas com o pretencioso “Subconscious Cruelty” (2000), um filme que tenta chocar o público com suas pretensas cenas fortes mas que só aborrece (apesar que gosto muito da cena envolvendo Jesus Cristo). Em seguida realizou “Ascension” (2002), uma fantasia dramática de horror; “La Belle Bête” (2006), um drama sobre os conflitos entre beleza e feiura (neste mesmo ano ele produziu o suspense “The Abandoned” de Nacho Cerdà) e “The Theatre Bizarre” (2011), longa em episódios de diretores como Tom Savini, Richard Stanley, Douglas Buck, Karim e outros. Karim Hussain é um canadense nascido em 1974 e ainda deve produzir muito filme interessante, é bom não perdê-lo de vista.

“Hobo With a Shotgun” foi lançado em DVD aqui no Brasil pela distribuidora Califórnia com o manjado título de “O Vingador”. Eu prefiro chama-lo de “A Putinha Retalhada e o Vagabundo com uma Espingarda” que acredito ser mais fiel ao espírito demente do filme e ao seu status de cult movie instantâneo. Um dos grandes clássicos do cinema atual.

por Petter Baiestorf.

Desejo de Matar

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , on outubro 19, 2011 by canibuk

“Desejo de Matar” (“Death Wish”, 1974, 93 min.) de Michael Winner, baseado no livro homônimo de Brian Garfield. Com: Charles Bronson, Vincent Gardenia, Hope Lange e Jeff Goldblum.

Paul Kersey (Charles Bronson em papel originalmente oferecido ao Steve McQueen) é um arquiteto pacifista que mora em New York e que começa a rever seus valores quando sua esposa é morta e sua filha estuprada por 3 marginais (entre os vagabundos vemos o ator Jeff Goldblum em sua estréia no cinema). Após perceber que a polícia não fará nada para investigar a morte de sua esposa e o estupro de sua filha (que ficou traumatizada com a violência sexual onde foi obrigada a fazer uma felação, modalidade sexual considerada nojenta pela extrema direita branca cristã), Paul Kersey viaja ao Arizona (para um trabalho para um rico fazendeiro branco de extrema direita) onde Kersey percebe que quase toda a população anda armada e a criminalidade é mínima. Lá Paul Kersey assiste um show de velho oeste numa cidade cinematográfica, o que o faz indagar sobre os pioneiros dos USA (brancos cristãos escravocratas), que se defendiam usando armas e, ao ganhar de presente um revólver dado pelo rico fazendeiro, volta para New York onde se transforma num vigilante e começa sua caçada aos vagabundos, matando todo e qualquer bandido que cruzar seu caminho (mas é engraçado perceber que Paul Kersey mata muito mais negros do que brancos).

Clássico do gênero policial, temos Charles Bronson perfeito (e muito a vontade) no papel do vigilante Paul Kersey (que era o nome real de um dos figurantes do filme, que emprestou o nome com a condição de aparecer em cenas sempre que possível), a direção segura de Michael Winner, responsável por filmaços como “Chato’s Land/Renegado Impiedoso” (1972, também estrelado por Charles Bronson), “The Mechanic/Assassino a Preço Fixo” (1972, também com Bronson), “The Stone Killer” (1973, outro estrelado por Bronson), “The Sentinel/A Sentinela dos Malditos” (1977), “The Big Sleep/A Arte de Matar” (1978), entre outros.

“Desejo de Matar” foi produzido por Dino de Laurentiis (as continuações foram produzidas pela dupla de picaretas Golan-Globus da The Cannon Group Inc., responsáveis pelos filmes do Chuck Norris nos anos de 1980, o que explica Paul Kersey ter se tornado uma espécie de Braddock urbano nas seqüências do filme original), distribuido pela Paramount Pictures e, na época do lançamento, recebeu várias críticas negativas por seu tema polêmico e por defender tão abertamente os vigilantes, iniciando uma série de discussões sobre o tema na sociedade americana (e até justificando/preparando terreno para produções posteriores, como “Taxi Driver” de Martin Scorsese).

Com a Cannon Group assumindo o controle do título, 4 seqüências foram produzidas: “Desejo de Matar 2/Death Wish 2” (1982, de Michael Winner) que é uma espécie de repeteco da história do primeiro; “Desejo de Matar 3/Death Wish 3” (1985, de Michael Winner) onde Kersey vira o Braddock urbano, promovendo uma verdadeira guerra civil em plena New York; “Desejo de Matar 4: Operação Crackdown/Death Wish 4: The Crackdown” (1987, de J. Lee Thompson, especialista em dirigir continuações, tendo em seu currículo filmes como “Conquest of the Planet of the Apes/Conquista do Planeta dos Macacos”, 1972 e “Battle for the Planet of the Apes/A Batalha do Planeta dos Macacos”, 1973) onde Kersey enfrenta traficantes e a culpa pelas crianças da classe-média branca cristã estarem usando cocaína, segundo o filme, não é das famílias e sim dos traficantes e “Desejo de Matar 5: A Face da Morte/Death Wish 5: The Faces of Death” (1994, de Allan A. Goldstein) o mais fraco de toda a série. As continuações do “Death Wish” original tem em destaque o exagero (uma hilária característica das produções Cannon Group) com  Charles Bronson despachando vagabundos pro inferno usando metralhadoras, bombas e até lança-mísseis.

A distribuidora Spectra Nova lançou no Brasil um box contendo os 5 filmes da série (a qualidade é meia-boca, não tem extras, mas o baixo valor cobrado pelo box faz valer a pena para uma revisão nos filmes da série).

Trailers dos filmes: