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A Chegada de Lampião no Céu

Posted in Cordel with tags , , , , , , , , , , , , on dezembro 22, 2013 by canibuk

A Chegada de lampião no ceu

Foi numa Semana Santa

tava o céu em oração

São Pedro estava na porta

refazendo anotações

daqueles santos faltosos

quando chegou Lampião.

.

Pedro pulou da cadeira

do susto que recebeu

puxou as cordas do sino

bem forte nele bateu

uma legião de santos

ao seu lado apareceu.

.

São Jorge chegou na frente

com sua lança afiada

Lampião baixou os óculos

vendo aquilo deu risada

Pedro disse: Jorge expulse

ele da santa morada.

.

Tocou Jorge a corneta

chamando sua guarnição

numa corrente de força

cada santo em oração

pra que o santo Pai Celeste

não ouvisse a confusão.

.

O pelotão apressado

ligeiro marcou presença

Pedro disse a Lampião:

Eu lhe peço com licença

saia já da porta santa

ou haverá desavença.

.

Lampião lhe respondeu:

Mas que santo é o senhor?

Não aprendeu com Jesus

excluir ódio e rancor?…

Trago paz, nesta missão

não precisa ter temor.

.

Disse Pedro: Isso é blasfêmia

é bastante astucioso

pistoleiro cangaceiro

esse povo é impiedoso

não ganharão o perdão

do santo Pai Poderoso.

.

Inda mais tem sua má fama

vez por outra comentada

quando há um julgamento

duma alma tão penada

porque fora violenta

em sua vida é baseada.

.

– Sei que sou um pecador

o meu erro reconheço

mas eu vivo injustiçado

um julgamento eu mereço

pra sanar as injustiças

que só me causam tropeço.

.

Mas isso não faz sentido

falou São Pedro irritado

por uma tribuna livre

você aqui foi julgado

e o nosso Onipotente

deu seu caso encerrado.

.

– Como fazem julgamento

sem o réu estar presente?

Sem ouvir sua defesa?

Isso é muito deprimente.

Você Pedro está mentindo

disso nunca esteve ausente.

.

Sobre o batente da porta

Pedro bateu seu cajado

de raiva deu um suspiro

e falou muito exaltado:

Te excomungo Virgulino

cangaceiro endiabrado.

.

Houve um grande rebuliço

naquele exato momento

São Jorge e seus guerreiros

cada qual mais violento

gritaram pega o jagunço

ele aqui não tem talento.

.

Lampião vendo o afronto

naquela santa morada

disse: Deus não está sabendo

do que há na santa morada

bateu mão no velho rifle

deu pra cima uma rajada.

.

O pipocado de bala

vomitado pelo cano

clareou toda a fachada

do reino do Soberano

a guarnição assombrada

fez Pedro mudar de plano.

.

Em um quarto bem acústico

nosso Senhor repousava

o silêncio era profundo

que nada estranho notava

sem dúvida o Pai Celeste

um cansaço demonstrava.

.

Pedro já desesperado

ligeiro chamou São Pedro

lhe disse sobressaltado:

Vá chamar Cícero Romão

pra acalmar seu afilhado

que só causa confusão.

.

Resmungando bem baixinho

pra raiva poder conter

falou para Santo Antônio:

Não posso compreender

este padre não é santo

o que aqui veio fazer?!

.

Disse Antônio: Fale baixo

de José é convidado

ele aqui ganhou adeptos

por ser um padre adorado

no Nordeste brasileiro

onde é “santificado”.

.

Padre Cícero experiente

recolheu-se ao aposento

fingindo não saber nada

um plano traçava atento

pra salvar seu afilhado

daquele acontecimento.

.

Logo João bateu na porta

lhe transmitindo o recado

Cícero disse: Vá na frente

fique despreocupado

diga a Pedro que se acalme

isso já será sanado.

.

Alguns minutos o padre

com uma bíblia na mão

ao ver Pedro lhe indagou:

O que há para aflição?

Quem lá fora tenta entrar

é também um ser cristão.

.

São Pedro disse: Absurdo

que terminou de falar

mas Cícero foi laxativo:

Vim a confusão sanar

só escute o réu primeiro

antes de você julgar.

.

Não precisa ele entrar

nesta sagrada mansão

o receba na guarita

onde fica a guarnição

com certeza há muito anos

nos busca aproximação.

.

Vou abrir esta exceção

falou Pedro insatisfeito

o nosso reino sagrado

merece muito respeito

virou-se para São Paulo:

Vá buscar este sujeito.

.

Lampião tirou o chapéu

descalço também ficou

avistando o seu padrinho

aos seus pés se ajoelhou

o encontro foi marcante

de emoção Pedro chorou.

.

Ao ver Pedro transformado

levantou-se e foi dizendo:

Sou um homem injustiçado

e por isso estou sofrendo

circula em torno de mim

só mesmo o lado ruim

como herói não estão me vendo.

.

Sou o capitão Virgulino

guerrilheiro do sertão

defendi o nordestino

da mais terrível aflição

por culpa duma polícia

que promovia malícia

extorquindo o cidadão.

.

Por um cruel fazendeiro

foi meu pai assassinado

tomaram dele o dinheiro

de duro serviço honrado

ao vingar a sua morte

o destino em má sorte

da “lei” me fez um soldado.

.

Mas o que devo a visita

Pedro fez indagação

Lampião sem bater vista:

Vê padim Ciço Romão

pra antes do ano novo

mandar chuva pro meu povo

você só manda trovão.

.

Pedro disse: É malcriado

nem o diabo lhe aceitou

saia já seu excomungado

sua hora já esgotou

volte lá pro seu Nordeste

que só o cabra da peste

com você se acostumou.

Fim.

escrito por José Pacheco.

Ateu Graças A Deus

Posted in ateísmo, Literatura with tags , , , , , , , , , , , , , , on setembro 5, 2013 by canibuk

O acaso é o grande senhor de todas as coisas. A necessidade só vem depois. Não tem a mesma pureza. Se entre meus filmes tenho uma ternura particular por Le Fantôme de la Liberté, é talvez porque ele aborda esse tema inabordável.

O roteiro ideal, com o qual sonhei muitas vezes, procederia de um ponto de partida anódino, banal. Por exemplo: um mendigo atravessa uma rua. Vê uma mão que se estende pela janela aberta de um carro de luxo e joga no chão a metade de um charuto. O mendigo para bruscamente para pegar o charuto. Outro carro o atropela e mata.

A partir desse acidente pode ser feita uma série infinita de perguntas. Por que o mendigo e o charuto se encontraram? Que fazia o mendigo àquela hora na rua? Por que o homem que fumava o charuto o jogou fora naquele momento? Cada resposta dada a essas perguntas gerará outras perguntas, cada vez mais numerosas. Nós nos encontraremos diante de encruzilhadas cada vez mais complexas, levando a outras encruzilhadas, a labirintos fantásticos, onde teremos que escolher nosso caminho. Assim, seguindo causas aparentes que na realidade são apenas uma série, uma profusão ilimitada de acasos, poderíamos remontar cada vez mais longe no tempo, vertiginosamente, sem uma interrupção, através da história, através de todas as civilizações, até os protozoários originais.

Claro está que é possível tomar o roteiro pelo outro sentido e ver que o fato de jogar um charuto pela janela de um carro, provocando a morte de um mendigo, pode mudar totalmente o curso da história e conduzir ao fim do mundo.

Encontro um magnífico exemplo desse acaso histórico num livro claro e denso que representa para mim a quintessência de uma determinada cultura francesa, Ponce Pilate de Roger Caillois. Pôncio Pilatos, conta-nos Caillois, tem todas as razões para lavar suas mãos e deixar que Cristo seja condenado. É essa a opinião de seu conselheiro político, que teme perturbações na Judéia. É esse também o pedido de Judas, para que se realizem os desígnios de Deus. É essa até a opinião de Marduk, o profeta da Caldéia, que imagina a longa sequência de acontecimentos que ocorrerão depois da morte do Messias, acontecimentos que já existem, uma vez que ele os vê e é profeta.

A todos os argumentos Pilatos só pode opor sua honestidade, seu desejo de justiça. Após uma noite de insônia, toma sua decisão e liberta Cristo. Este é recebido com alegria por seus discípulos. Continua sua vida, seu ensinamento e morre bastante idoso, considerado um homem muito santo. A seu túmulo, durante um ou dois séculos, acorrerão peregrinos. Depois será esquecido.

E a história do mundo, naturalmente, será inteiramente diferente.

Esse livro me fez meditar durante muito tempo. Sei bem tudo o que podem dizer-me sobre o determinismo histórico ou sobre a vontade todo-poderosa de Deus, que levaram Pilatos a lavar suas mãos. Recusando a pia e a água, ele mudaria toda a sequência dos tempos.

Quis o acaso que lavasse as mãos. Não vejo, como Caillois, nenhuma necessidade nesse gesto.

Claro está, se nosso nascimento é totalmente fortuito, devido ao encontro acidental de um óvulo com um espermatozoide (por que exatamente este entre milhões?), o papel do acaso desaparece quando se constroem as sociedades humanas, quando o feto e depois a criança se acham submetidos a essas leis. E assim ocorre com todas as espécies. As leis, os costumes, as condições históricas e sociais de uma determinada evolução, de um determinado progresso, tudo o que pretende contribuir para o estabelecimento, o avanço, a estabilidade de uma civilização à qual pertencemos pela boa ou má sorte de nosso nascimento, tudo isso surge como uma luta quotidiana e tenaz contra o acaso. Nunca totalmente aniquilado, vigoroso e surpreendente, ele tenta conformar-se à necessidade social.

Mas creio que é preciso evitar ver, nessas leis necessárias que nos permitem viver juntos, uma necessidade fundamental, primordial. Parece-me, na realidade, que não é necessário que este mundo exista, que não é necessário que estejamos aqui vivendo e morrendo. Já que somos apenas os filhos do acaso, a terra e o universo poderiam ter continuado sem nós, até à consumação dos séculos. Imagem inimaginável, a de um universo vazio e infinito, teoricamente inútil, que nenhuma inteligência poderia contemplar, que existiria sozinho, caos duradouro, abismo inexplicavelmente privado de vida. Talvez outros mundos, que não conhecemos, sigam assim seu curso inconcebível. Atração pelo caos que às vezes sentimos profundamente em nós mesmos.

Alguns sonham com um universo infinito, outros o apresentam a nós como finito no espaço e no tempo. Eis-me entre dois mistérios, um e outro igualmente impenetráveis. De um lado a imagem de um universo infinito é inconcebível. Do outro, a idéia de um universo finito, que um dia já não existirá, torna a mergulhar-me num Nada impensável, que me fascina e me horroriza. Perambulo de um a outro. Nada sei.

Imaginemos que o acaso não existe e que toda a história do mundo, bruscamente tornada lógica e previsível, possa resumir-se em algumas fórmulas matemáticas. Nesse caso, seria necessário acreditar em Deus, supor, como inevitável, a existência ativa de um grande relojoeiro, de um ser supremo organizador.

Mas Deus, que tudo pode, não teria podido criar, por capricho, um mundo entregue ao acaso? Não, respondem-nos os filósofos. O acaso não pode ser uma criação de Deus, já que ele é a negação de Deus. Esses dois termos são antinômicos. Excluem-se mutuamente.

Não tendo fé (e persuadido de que a fé, como todas as coisas, nasce frequentemente do acaso), não vejo como sair desse círculo. É por isso que não penetro nele.

A consequência que disso extraio, para uso próprio, é muito simples: crer e não crer dá no mesmo. Se me provassem, neste instante, a luminosa existência de Deus, isso não modificaria rigorosamente em nada meu comportamento. Não posso crer que Deus me vigie permanentemente, que se ocupe de minha saúde, de meus desejos, de meus erros. Não posso crer, e de toda maneira não aceito isso, que ele pudesse punir-me por toda a eternidade.

Que sou eu para ele? Nada, um vestígio de lama. Minha passagem é tão rápida que não deixa marca alguma. Sou um pobre mortal, não conto nem no espaço nem no tempo. Deus não se ocupa de nós. Se existe, é como se não existisse.

Raciocínio que resumi no passado nesta fórmula: “Sou ateu, graças a Deus.” Uma fórmula que só aparentemente é contraditória.

Luis Buñuel, retirado de seu livro “Mon Dernier Soupir”.

Buñuel.

Buñuel.