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Jairo Ferreira Entrevista Diomédio M. numa Ensolarada Tarde de Sábado Paulistano

Posted in Cinema, Entrevista with tags , , , , , , , , on maio 12, 2011 by canibuk

No “Brazilian Trash Cinema” número 2 eu entrevistei o Jairo Ferreira que gostou tanto da proposta do fanzine que se tornou colaborador no terceiro número entrevistando o cineasta mais que marginal Diomédio de Moraes, entrevista essa que resgato aqui na íntegra em memória desta pessoa fantástica que foi Jairo Ferreira. A entrevista foi realizada em 2001 e publicada no “Brazilian Trash Cinema” número 3, última edição do fanzine, infelizmente (mas nada impede, num futuro não muito distante, que eu e Coffin Souza retornemos dos mortos com a edição deste fanzine no formato de uma revista independente de cinema. Investidores se manifestem).

Jairo Ferreira: Eu sou o Vampiro da Cinemateca e estou entrevistando o Diomédio de Moraes. Você já fez um filme de longa-metragem chamado “Urubuzão”. Fale um pouquinho sobre como você chegou ao “Urubuzão”:

Diomédio de Moraes: Em 1996, com a necessidade de realizar um longa-metragem, juntamos um pessoal e uns atores e fizemos uma pequena assembléia onde ficou decidido fazer um longa e o pessoal via necessidade de estar junto nos finais de semana para fazer este filme…

Ferreira: Foi em 1996? Você juntou uma equipe grande para realiza-lo?

Diomédio: 52 pessoas, entre equipe-técnica e atores.

Ferreira: O roteiro era seu mesmo?

Diomédio: Sim! O negócio é o seguinte: Nós tínhamos um roteiro de longa pronto, daí surgiu a idéia de juntar 3 histórias do Júlio Shimamoto que resultaram no “Urubuzão”. A primeira história é baseada no “O Ogro”…

Ferreira: Seria um filme em 2 ou 3 episódios?

Diomédio: Eu juntei as 3 histórias e deu numa única história…

Ferreira: Baseada nos quadrinhos do…

Diomédio: … Júlio Shimamoto!!! Uma das histórias se chama “O Ogro” e é o comedor de cadáveres nos cemitérios aqui de São Paulo. Como personagens tem um caçador de vampiros, Zatan Polanski, a amante dele…

Ferreira: Quais são as personagens principais mesmo?

Diomédio: É o Urubuzão, o comedor de cadáveres…

Ferreira: Quem faz o Urubuzão?

Diomédio: É o Castor Guerra… E o Zatan Polanski é feito pelo Costa Senna, grande poeta de cordel e apaixonado pelo Raul Seixas. É um elenco desconhecido do grande público, mas que são profissionais de teatro.

Ferreira: Você filmou em 35mm?

Diomédio: 35mm!!!

Ferreira: Isso é um luxo prá um filme trash?

Diomédio: Filmei em 35mm, com 2 câmeras… Aqui em São Paulo e na cidade de São José dos Campos.

set de filmagens de Diomédio M.

Ferreira: O filme tá terminado?

Diomédio: O filme ta concluído, ta pré-montado e a gente ta batalhando a 4 anos dinheiro para sonorizar. Mas a medida que a gente ta avançando com este projeto, nós começamos à fazer um outro filme…

Ferreira: Fale um pouco deste outro filme? Você não terminou o “Urubuzão” e já começa um outro? Fala deste outro, como é o título deste outro???

Diomédio: É a história de um grupo de cineastas malucos que resolve fazer filmes baratos e eles não passam de bruxos porque eles estão com aquela magia de realizar filmes. Então é a labuta de todos os cineastas que lutam para fazer seus filmes. Seja ele trash ou comercial… A porcaria que vier… Mas o que nos interessa mesmo é realizar nossos filmes. Em película ou vídeo, enfim, em qualquer suporte que pode surgir daqui prá frente…

Ferreira: O que você quer falar mais?

Diomédio: Huuummm!!!

Ferreira: Bom, continuamos a entrevista e o Diomédio vai dar mais detalhes sobre o “Urubuzão”… E a curtição do trash que é um lance crítico em relação ao Brasil de hoje. O Brasil é um lixo!! O Brasil que é trash. O que você acha disso Diomédio?

Diomédio: O Brasil é o lixo dos lixos dos lixos dos países do terceiro mundo. Aqui é a patuléia da patuléia…

Ferreira: É cobra comendo cobra?

Diomédio: Cobra engolindo cobra! Aliás, tem um dito popular, pelo menos nestas bandas, que diz: “A gente mata o pau… (pausa)… A gente mata a cobra e mostra o pau!”, mas na verdade a gente tem que mostrar a cobra morta, coisa do… Hã!… (… nova pausa para pensar…) … O cara que não gosta do meio ambiente mesmo, tem que mostrar a cobra morta! No nosso caso a gente não mostra bichinho, a gente procura mima-lo, domina-lo, porque a gente tem necessidade de todos os seres-vivos, né? Para que a gente possa fazer as nossas criações…

Ferreira: Você defende o direito dos animais?

Diomédio: Sem dúvida… E aqui a gente ta contente devido a gente ter uma nova administração… E isso é muito importante falar, viu Jairo… Administração que vai abrir espaço prá cultura alternativa, pelo menos aqui na cidade de São Paulo, né? Com essa nova prefeita que a gente conquista depois de 8 anos de ditadura, de roubo, de furtos… E a nossa cultura massacrada…

Ferreira: São Paulo é trash!!!

Diomédio: E a gente tem um pessoal muito maluco, muito trash… Pelo menos na área do áudio-visual que a gente milita mais, né? Mas a gente tem conhecimento a pequena distância dos outros setores de Cultura, onde vem desenvolvendo uma série de atividades boas… Trash mesmo, mas que tem conteúdo, né?… Uma linguagem diferente e os projetos não param por aí porque a gente tem uma equipe de gente que ta fazendo cinema e todos eles estão com projetos e um vai trabalhar no projeto do outro, né?… E a gente vai partir prá fazer, agora também, um documentário em P&B, feito em película sobre a cidade de São Paulo que chama-se “São Paulo Via Postal”, onde mostra o surrealismo, o abstrato de São Paulo, sem aquela tradição de mostrar entrevistas e aquela baboseira… É só imagem, é só poesia… Imagem e música, imagens e música da cidade de São Paulo…

Ferreira: Mas é um documentário trash também?

Diomédio: Trash!!!

Ferreira: Você sempre atua na área trash?

Diomédio: Trash no bom sentido, quer dizer, eu exploro a linguagem…

Ferreira: O que é trash prá você?

Diomédio: Trash é a condição de se fazer um filme barato, sem aquela coisa tradicional de grande produção, que é aquela colagem de televisão… O que se faz de cinema no Brasil hoje é aquela bosta, que é com atores globais…

Ferreira: … Pasteurizada?

Diomédio: Pasteurizada, coisa americanizada… Então, nós temos a nossa própria cultura, os nossos enquadramentos, a nossa estética, a nossa linguagem e a gente soma tudo isso para poder realizar nossos trabalhos, né?

Ferreira: Você acha que até o final de 2001 você vai estar com o primeiro projeto concluído, o “Urubuzão”?

Diomédio: Não só o “Urubuzão, mas este que a gente ta rodando… O “Urubuzão” já entregamos prá um grupo maluco de americanos que ficaram interessados em concluir o projeto e a gente ta aguardando uma resposta… Paralelo a isso a gente vem desenvolvendo o “Vesperal dos Bruxos”, né?

Ferreira: Fala um pouquinho do “Vesperal dos Bruxos”, inclusive, parece que eu tive uma pequena participação no roteiro, né?

Diomédio: É, o “Vesperal dos Bruxos” só tem bruxos, nasceu na casa do Jairo Ferreira, assim, eu e ele em torno do computador, não… A gente começou a elaborar as cenas e foi crescendo, foi crescendo, aí foi pintando pessoas do nosso meio, dando opinião, eram 8… Bem, ficaram sendo no total 8 roteiristas, colaboradores… É a trajetória de um jovem cineasta que sai com seu roteiro embaixo do braço prá tentar realizar… Mas ele entra em crise e ele é aficcionado por National Kid e ele se transforma em National Kid e simula seu próprio seqüestro para obter dinheiro para finalizar seu filme e a medida que ele vai avançando ele confunde as personagens dele com a própria existência dele, então ele vai filmando fragmentos aleatoriamente porque ele entra em crise de criação e ele seduz grandes poeta românticos…

Ferreira: … Por falar em poetas, fala um pouco sobre o projeto que você tem sobre o Álvares de Azevedo, que prá nós o “Macário” é um trash Cult…

Diomédio: O “Macário” já ta pronto o roteiro, é o próximo projeto que a gente pretende rodar no segundo semestre deste ano…

Ferreira: Você fez o roteiro sozinho???

Diomédio: Sozinho!!!

Ferreira: Você basicamente é o roteirista?

Diomédio: Eu escrevo… Eu tenho uns 15 roteiros que eu escrevi nestes 3 últimos anos, né? Mas eu to procurando agora é realiza-los aos poucos e o “Macário” é um grande projeto prá esse ano, ou seja, grande no sentido…

Ferreira: O que você acha deste poeta, Álvares de Azevedo? É trash ou mais que trash? É visionário?

Diomédio: Visionário!!! Um dos mais malditos que surgiram na história da literatura brasileira…

Montagem de Ivan Cardoso

Ferreira: Dá uma geral da filosofia, da poesia do seu cinema:

Diomédio: É, a idéia…

Ferreira: O que você pretende hoje no Brasil? Revolucionar, subverter, anarquizar… Qual é a sua?

Diomédio: Pois é… A idéia em geral, nós temos a idéia de desenvolver todos esses projetos no sentido sempre marginal, sempre maldito, porque todos os meus personagens são anjos… Anjos malditos, meus personagens não morrem, eles dão vida à outros personagens… O Kid, o National Kid do “Vesperal dos bruxos”, é um anjo… Um anjo bruxo, como Kenneth Anger, né?

Ferreira: O Kenneth Anger?

Diomédio: Exatamente, o grande poeta dos anjos malditos!!!

Ferreira: Sim, mas o Kenneth Anger do underground americano, né?

Diomédio: Exatamente, o poeta dos anjos malditos dos USA… A gente se inspira muito nesse trabalho independente que há no mundo inteiro, né?

Ferreira: Fala!!! (pausa)… Vamos ficar por aqui? Ou vamos fazer uma mensagem final, sobre o Brasil, sobre o cinema do Brasil de hoje em dia… A mensagem final trash do grande cine-poeta Diomédio de Moraes… Por sinal, citado no meu livro “Cinema de Invenção”, né? No capítulo sobre “O Vampiro da Cinemateca” foi o Diomédio quem me entrevistou e agora estou devolvendo a peteca… Mensagem final:

Diomédio: É, o Petter… Gostei muito do trabalho de vocês, conheço o trabalho através da imprensa, né? Chegou à mão da gente aqui o fanzine de vocês, fiquei encantado pelo fanzine e eu também já publiquei nos anos 80 e 90 fanzine sobre cinema, em pequena escala. Eu acho que vocês tem mais é que dar continuidade, o Brasil não se resume à São Paulo e Rio de Janeiro, eles que vão prá puta que o pariu, eles fazem o mesmo cinema de sempre. Cinema é o que vocês fazem aí em Santa Catarina, faz no Rio Grande do Sul, os independentes malditos. Aqueles que fazem no Mato Grosso, os Pernambucanos, enfim, o resto do Brasil tá’í, não o Brasil que é centralizado no eixo Saó Paulo/Rio…

Ferreira: É o Brasil não oficial?

Diomédio: Exatamente, meu próximo passo depois destes trabalhos todos é picar a mula desta merda de São Paulo, disso aqui a gente ta com o saco cheio, a gente tem que mostrar mais a cara do Brasil que não se resume a São Paulo e Rio, eles é que vão prá puta que o pariu!!!

Jairo Ferreira: Falô Diomédio, especial para Petter Baiestorf, entrevista feita por Jairo Ferreira, num sábado ensolarado, efeito estufa… (pausa)… Vamos ver se gravou bem, ein? (barulinho característico de “stop” num aparelho de gravar)…

nota do Canibuk: pedimos desculpas pela falta de imagens com o cineasta Diomédio de Moraes, mas imagens dele são mais raras que seus filmes.