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Cani Arrabbiati

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on julho 30, 2012 by canibuk

“Cani Arrabbiati” (1974, 96 min.) de Mario Bava. Com: George Eastman, Riccardo Cucciolla, Lea Lander e Don Backy. Também conhecido como “Semaforo Rosso” ou “Kidnapped”.

Se tem um filme em que você deve confiar na indicação sem maiores perguntas e sem se informar muito, é este clássico “Cani Arrabbiati”, mais conhecido como “Rabid Dogs”, do fantástico diretor italiano Mario Bava. Na minha opinião o melhor trabalho de Bava em uma carreira repleta de grandes momentos. O mais incrível é que este filmaço, na época em que foi finalizado, não teve distribuição nos cinemas porque a produtora responsável por ele entrou em falência e foi impedida, legalmente, de lança-lo. Somente no ano de 1995 (alguns dizem 1998, não lembro direito e pesquisando achei informações desencontradas, mas vi ele em 1999 em cópia pirata conseguida pelo colecionador Thómaz Albornoz) que o filme ganhou distribuição por insistência de Lea Lander, atriz do filme (que em algumas produções assinava com o nome de Lea Kruger para lucrar com a fama de seu primo Hardy Krüger, ator em clássicos como “Barry Lyndon” (1975, Warner) de Stanley Kubrick, “A Bridge too Far/Uma Ponte Longe Demais” (1977) de Richard Attenborough ou “The Wild Geese/Selvagens Cães de Guerra” (1978) de Andrew V. McLaglen).

O que você deve saber da trama é o seguinte: Quatro ladrões tentam assaltar um carro blindado. Um deles é morto durante o assalto e os três restantes precisam fugir pegando duas mulheres de reféns (uma logo é morta) e roubando um carro que estava parado num semáforo (o motorista, Richard, diz desesperado que está levando seu filho doente ao hospital, mas não consegue sensibilizar os bandidos). Logo o trio de maníacos começa a torturar psicologicamente seus reféns (a ação do filme se desenvolve, com maestria, dentro de um carro), com um dos ladrões querendo estuprar a mulher, Maria (Lea Lander), a todo custo. Saber mais do que isso estraga as ótimas surpresas que o roteiro nos proporciona. Posso assegurar que você vai se deparar com um dos melhores finais da história do cinema (dependendo de qual versão do filme você estiver vendo, pois existem pelo menos seis cortes de “Cani Arrabbiati” circulando no mercado mundial).

Com base numa história de Ellery Queen (pseudônimo usado pelos primos de origem judaica, Frederic Dannay e Manfred Bennigton Lee) publicada pela Arnoldo Mondadori Editore através da série policial “Il Giallo Mondadori”, os roteiristas Alessandro Parenzo e Cesare Frugoni, com algumas intervenções de Mario Bava, criaram uma tensa peça sobre o sadismo humano e sua capacidade de maldades em nome de lucro fácil, com um final extremamente niilista. Mario Bava nunca esteve tão a vontade e sarcástico em um filme, dá prá sentir ele se divertindo enquanto fazia o filme. “Cani Arrabbiati” era seu filme preferido dos que fez.

Mario Bava (1914-1980) foi técnico de efeitos, diretor de fotografia, roteirista e diretor, filho do escultor Eugenio Bava, um dos pioneiros do cinema italiano, responsável por trucagens e direção de fotografia de inúmeros filmes mudos. Mario, em 1956, foi contratado pelo diretor Riccardo Freda para fazer a fotografia de “I Vampiri”, filme que Freda abandonou no meio da produção deixando a oportunidade para Bava finalizá-lo. Seu primeiro filme solo é o clássico “La Maschera del Demonio/Black Sunday/A Maldição do Demônio” (1960, London Films) com Barbara Steele no elenco. Em seguida dirigiu uma série de filmes bastante influentes como “Sei Donne per L’Assassino/Blood and Black Lace” (1964) sobre modelos assassinadas; “Terrore Nello Spazio/Planet of the Vampires” (1965) que mostra astronautas lutando contra criaturas em planeta hostil, que serviu de inspiração para “Alien” (1979) de Ridley Scott e foi plagiado por “Pitch Black/Eclipse Mortal” (2000) de David Twohy; “Operazione Paura/Kill, Baby, Kill” (1966), horror gótico bastante imitado; “Diabolik” (1968), uma adaptação adulta inspirada em histórias em quadrinhos, dando uma nova perspectiva ao gênero e “Reazione a Catena/A Bay of Blood/A Mansão da Morte” (1971, também conhecido como “Twitch of the Death Nerve” ou “Ecologia del Delitto”), slasher exemplar que, alguns anos depois, foi descaradamente copiado em “Sexta-Feira 13 – Parte 2”. Decepcionado com a distribuição de seus últimos filmes como “Lisa e il Diavolo” (1974) e “Cani Arrabbiati”, Bava realizou ainda “Schock” (1977) e se aposentou. Lamberto Bava é seu filho e seguiu a tradição familiar, sem grande destaque, na produção de filmes.

Um dos atores do filme é Luigi Montefiori (George Eastman) que se tornou conhecido por sua longa parceria com Joe D’Amato. Trabalhou com vários grandes diretores italianos como Enzo G. Castellari, Enzo Barboni, Umberto Lenzi e até Federico fellini (ele está no elenco de “Satyricon” (1969), clássico felliniano imperdível). Foi ator e produtor do clássico “Antropophagus” (1980) dirigido por seu amigo D’Amato. Outro ator de destaque no elenco é Riccardo Cucciolla, um dublador (também diretor de dublagens) que eventualmente trabalhava como ator. Cucciolla também está no elenco de “Sacco e Vanzetti” (1970) de Giuliano Montaldo, um dos mais belos filmes políticos dos anos 70.

“Cani Arrabbiati” nunca teve um lançamento no Brasil. Espero que saia uma versão nacional com material extra como um clássico destes pede (e que não seja lançado pela Continental, lógico!). A título de curiosidade: escrevi o roteiro de “Raiva” (2000) inspirado em “Cani Arrabbiati”.

por Petter Baiestorf.

Veja “Cani Arrabbiati/Rabid Dogs” aqui:

Zsa Zsa: A Pequena Orfã que fez Justiça com os Próprios Peitos

Posted in Musas with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on julho 5, 2012 by canibuk

“Eu não era uma garota estúpida com um peito grande!”, diz Lillian Stello, uma simpática senhora com peitos enormes que nos anos de 1960/1970 causou furor nas casas noturnas americanas como dançarina exótica que atendia pelo nome de Zsa Zsa, posteriormente, seguindo a sugestão de um proprietário destas casas de espetáculos burlescos, modificado para Chesty Morgan.

Chesty Morgan nasceu em 1937 na Polônia e ainda muito pequena tem sua vida modificada para sempre quando as tropas nazistas invadem a Varsóvia e seus pais perdem sua loja, sendo obrigados à viver no gueto da cidade. Logo perde sua mãe, que foi enviada a um campo de concentração, e também seu pai, morto pouco depois à tiros numa revolta que aconteceu no gueto. A pequena orfã, assim que acaba a guerra, é enviada para Israel onde passa a viver em orfanatos. Ao completar 20 anos conhece um americano e, cinco dias depois já casados, partem para os Estados Unidos. Como em um dramalhão cinematográfico, em 1965 o bondoso marido de Chesty é assassinado por ladrões dentro de seu açougue. Com pouco dinheiro, dívidas, falando um inglês carregado de sotaque polonês, ela não sabe como ganhar a vida naquela terra tão estranha. Por ser bonita, vários homens fazem propostas de casamento, mas Chesty resolve tentar a sorte como dançarina exótica numa esfumaçada boate de terceira categoria.

Seus peitos naturais que, segundo a edição de 1988 do “Guinness Movie Facts and Feats”, são os maiores já registrados numa atriz de cinema, garantem casas noturnas lotadas de homens excitados com a possibilidade de verem ela dançar e se desnudar. Logo a diretora de sexploitations Doris Wishman se interessa pela dançarina e a contrata para estrelar dois filmes, os hoje cults “Double Agent 73” e “Deadly Weapons”. No primeiro Chesty é uma agente secreta chamada Jane Genet que se infiltra numa organização criminosa e, com uma câmera fotográfica implantada em seus peitos gigantes, levanta provas para prender os criminosos. Já em “Deadly Weapons”, que conta com o ator pornô Harry Reems no elenco, Chesty interpreta Crystal, uma mulher que se vinga de mafiosos que surraram seu namorado se utilizando de seus enormes atributos mamários para fazer justiça com os próprios peitos. Seguindo a tradição das produções de Wishman, estes dois filmes são produções de orçamento irrisório e técnica amadora, mas extremamente divertidos.

Quando Federico Fellini estava em New York promovendo seu clássico “Amarcord” viu um show de Chesty e a convida para uma pequena participação em “Fellini’s Casanova” (1976), seu novo filme, infelizmente as cenas com Chesty acabaram não sendo incluídas na edição final, privando o mundo da visão dos famosos seios da dançarina exótica que enchia casas noturnas na América. No IMDB há menção de um quarto filme na filmografia de Zsa Zsa, “Dai Dai Feng Liu Dai Dai Chun, Di San Zhi Shou” (1981) de Mu Chu e Yao Hua Wen, mas é um filme que não vi e não tenho maiores informações, então não posso opinar.

No final dos anos 70 se casou novamente, desta vez com Richard Stello (de quem herdou o sobrenome que usa até hoje em seus documentos oficiais), um árbitro da liga profissional de beisebol. O casamento dura pouco com a separação acontecendo em 1979. Os dois continuaram bons amigos até 1987, ano em que Richard foi atropelado por um carro. John Waters, o papa do kitsch, escreveu um papel especialmente pensado para Chesty Morgan em seu “Flamingos Forever”, filme nunca realizado. Anos depois ele a homenageou em seu filme “Serial Mom/Mamãe é de Morte” (1994, lançado em DVD no Brasil pela Spectra Nova).

Hoje em dia ela vive numa casa em Tampa Bay e está aposentada do showbizz, mas suas formas estão imortalizadas no “Burlesque Hall of Fame”, na Califórnia, ao lado de outras mulheres incríveis como Mae West e Bettie Page.

La Bestia Nello Spazio

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on junho 4, 2012 by canibuk

“La Bestia Nello Spazio” (“The Beast in Space”, 1980, 92 min.) de Alfonso Brescia. Com: Sirpa Lane, Vassili Karis, Lucio Rosato, Maria D’Alessandro e Marina Lotar.

“La Bête” (1975), dirigido pelo mestre do erotismo Walerian Borowczyk, sobre um casamento arranjado entre duas famílias burguesas onde a noiva, para que possa receber a herança de seu falecido pai, precisa se casar com um homem deformado que cria cavalos, foi um marco do cinema erótico com suas ousadas cenas de sexo entre uma mulher (Sirpa Lane) e um monstro (a título de curiosidade: A seqüência do sonho onde o monstro estupra/é estuprado pela mulher foi filmado para ser um dos seis episódios do filme “Contes Immoraux/Contos Imorais” (1974), obra anterior de Borowczyk, mas na edição ele e outro episódio ficaram no chão da sala de montagem e o diretor resolveu usa-lo em seu grande clássico). “La Bête” e a tradição da bela sendo estuprada pela fera, que vem do inconsciente branco-cristão europeu antes mesmo da invenção do cinema, serviram de inspiração para a produção de “La Bestia Nello Spazio” de Alfonso Brescia (não confundir com a dupla de diretores Brescia do Brasil).

“La Bestia Nello Spazio” é uma mistura entre “Star Wars” (apesar que produções sci-fi européias sempre ficam mais prá “Barbarella” do que para “Star Wars”) e “La Bête” que conta a história de um grupo de soldados espaciais que recebem a missão de ir ao planeta Lorigon obter Antalium (o elemento chave para a construção da bomba de neutron). Assim que a equipe começa a missão, Sondra (Sirpa Lane, do elenco de “La Bête”) começa a ter sonhos envolvendo sexo violento. Logo chegam ao seu destino e pousam no planeta (o pouso da espaçonave lembra os filme de sci-fi de 30 anos antes, de tão tosco e mal executado). Para poupar dinheiro com cenários, logo o grupo de corajosos desbravadores encontra um bosque igualzinho à qualquer bosque aqui do planeta terra e sua primeira visão perturbadora em Lorigon é ver dois cavalos fazendo sexo (em cenas de stock footage, outra referência explícita à “La Bête”), visão essa que deixa as mulheres do grupo excitadas. Depois desta cena gratuita de sexo animal, encontram uma casa de design alienígena onde seu moderno equipamento detecta Antalium. Em uma entrada triunfal ficam conhecendo Onaph, o anfitrião do planeta, que lhes conta a história de Lorigon e do super computador Zocor. No banquete que é servido de boas-vindas, todos comem, bebem e ficam tarados, vítimas de uma alucinação sexual coletiva, e a pegação entre a tripulação tem início. Onaph se revela um fauno bestial movido a sexo e torna os pesadelos de Sondra reais com cenas de sexo onde as penetrações explícitas foram enxertadas (casualmente todos os closes de penetrações nas vaginas foram feitos na mesma buceta, reconhecível pelo pentelhos pavorosos). Assim que todos conseguem sair da alucinação, escapam da casa e travam uma batalha com robôs lorigonianos, culminando numa cena de absoluta cara de pau onde sacam seus sabres de luz a la “Star Wars”. No meio desta batalha nossos heróis encontram tempo para destruir Zocor, o super computador que se alimenta de Antalium, e até o próprio planeta (a explosão mal feita do planeta fecha o filme com chave de ouro).

Os cenários e figurinos são pobres, mas de cores chamativas como todo bom filme barato que se preze deve ter. As armas são um achado com seus canos montados sobre lanternas, a cada tiro a ponta da arma se acende e os inimigos caem mortos. Os efeitos especiais parecem ter sido feitos para um filme dos anos 60 de tão precários. O roteiro escrito por Brescia, com uma ajudinha de Aldo Crudo, é uma grande bobagem com a missão de mostrar cenas de sexo que são bem filmadas (a versão que assisti tem 92 minutos e mais 3 minutos adicionais de cenas de sexo explícito que acabaram ficando de fora da versão final, mas cuidado, há versões deste filme rodando por aí com duração variando entre 73 e 86 minutos). O super computador é uma caixa gigante colorida com luzes vermelhas que piscam, nada melhor para um filme que não se leva a sério em nenhum momento, dá prá notar que os atores estão se divertindo. A trilha sonora do filme foi composta por Marcello Giombini (sob pseudônimo de Pluto Kennedy).

Alfonso Brescia (nascido em 1930 e falecido em 2001) é mais conhecido pelo pseudônimo de Al Bradley (ou Bradly Al) e se tornou famoso por seus filmes de sci-fi de baixo orçamento (na linha dos filmes de Antonio Margheriti como “Assignment: Outer Space/Destino: Espaço Sideral” (1960) ou “Il Pianeta Degli Uomini Spenti/Battle of the Worlds/O Planeta dos Desaparecidos” (1961), ambos lançados em DVD double feature pela London Films) que valem a pena serem conhecidos. Filmes como “Battaglie Negli Spazi Stellari” (1977), “Anno Zero – Guerra Nello Spazio” (1977), “La Guerra dei Robot” (1978) e “Sette Oumini D’Oro Nello Spazio” (1979) foram todos produzidos para lucrar em cima do sucesso de “Star Wars”, mas são muito mais divertidos, com aquele sabor especial que somente os filmes vagabundos tem. Exploitation man por natureza, começou dirigindo peplum movies. “La Rivolta dei Pretoriani” (1964) e “Il Magnifico Gladiatore” (1964) são sua visão do império romano que, nos anos 60, estavam na moda. Versátil como todos os diretores de exploitations, foi mudando de gênero conforme o gosto do consumidor mudava. Já em 1966 abandonou a produção de peplum para se dedicar ao western e realizou “La Ley del Colt”, na cola do sucesso dos filmes de Sergio Leone. Seu melhor filme no gênero western foi “Killer Calibro 32” (1967). Quando os filmes de faroeste começaram a dar sinais de cansaço, fez o drama “Nel Labirinto de Sesso” (1969) e o filme de guerra “Uccidete Rommel” (1969), para ver qual caminho seguir. Nenhum, nem outro! No início dos anos 70 era o horror que começava a chamar atenção do público, assim fez “Il Tuo Dolce Corpo da Uccidere” (1970), estrelado por Eduardo Fajardo (figurinha fácil dos spaghetti westerns) e “Ragazza Tutta Nuda Assassinata nel Parco” (1972). Depois de algumas comédias onde destaco “Superuomini, Superdonne e Superbotte” (1975), que zoava com o mundo dos super-heróis, e de seus filmes de sci-fi já citados, Brescia teve problemas com Joe D’Amato ao lançar “Ator 3: Iron Warrior” (1986) sem autorização de D’Amato, verdadeiro dono da série. No final dos anos 80 lançou uma imitação barata de “Rambo” chamada “Fuoco Incrociato/Cross Mission/Missão Mortífera” (1988) que tentava lucrar com o gênero ação. Brescia é um diretor pouco citado por trashmaníacos, mas merece destaque por sua carreira cheia de obras muito bagaceiras com alto grau de diversão.

No elenco de “La Bestia Nello Spazio” temos atores/atrizes que topavam tudo que é tipo de filme para pagar o aluguel. Sirpa Lane foi lançada no cinema por Roger Vadim com o filme “La Jeune Fille Assassinée” (1974), thriller erótico que destacou a beleza da jovem e fez com que Borowczyk a chamasse para viver Romilda de L’Esperance, sua personagem mais famosa no cinema, em “La Bête”. Em 1978 Joe D’Amato realizou “Papaya dei Caraibi/Papaya – Love Goddess of the Cannibals” e lhe deu o papel de Sara. Nos anos 80 trabalhou em mais dois filmes que merecem destaque, “Le Notti Segrete di Lucrezia Borgia” (1982) de Roberto Bianchi Montero e “Giochi Carnali” (1983), dirigido por Andrea Bianchi, mesmo diretor dos cults “Malabimba” (1979) e “Le Notti del Terrore/Burial Ground” (1981). Vassili Karis já havia trabalhado com Brescia em “Battaglie Negli Spazi Stellari” e “Anno Zero – Guerra Nello Spazio” antes deste “Bestia”. Outros filmes onde Karis dá as caras são “È Tornato Sabata… Hai Chiuso Un’Altra Volta/O Retorno de Sabata” (1971, disponível em DVD pela MGM Vídeo) de Gianfranco Parolini, um divertido western estrelado por Lee Van Cleef; “Casa Privata per le SS/SS Girls” (1977), asneira nazixploitation de Bruno Mattei; “Le Porno Killers” (1980), comédia de humor negro de Roberto Mauro e “Scalps” (1987) da dupla Claudio Fragasso e Bruno Mattei, um western gore chato, mas lindo. Outro ator de “Battaglie Negli Spazi Stellari” que aparece nesta produção é Lucio Rosato que, como todos os atores italianos em atividade nos anos 60, 70 e 80, teve a oportunidade de trabalhar em muitos filmes divertidos. Não deixe de ver Rosato em ação nos filmes “Gli Specialisti” (1969), western do mestre Sergio Corbucci; “Carcerato” (1981), um drama musical onde foi novamente dirigido por Brescia e “The Barbarian” (1987), um adorável lixo cinematográfico de Ruggero Deodato.

Atentem ainda para a presença da pornostar sueca Marina Hedman Bellis (também conhecida pelos nomes Marina Frajese, Marina Lotar ou Marina Lothar) no elenco. Marina era modelo quando Lucio Fulci lhe deu um pequeno papel (não creditado) na comédia “La Pretora” (1976), estrelado por Edwige Fenech. Logo em seguida apareceu já em sua primeira cena de sexo hardcore no cult movie “Emanuelle in America” (1977) do esperto Joe D’Amato, que com este filme chamou atenção por usar algumas cenas que seriam de torturas reais (mas que sob olhar atento percebemos que são trucagens). Ainda com D’Amato ela fez outros filmes, como a comédia “Il Ginecologo Della Mutua” (1977) e “Immagini di un Convento” (1979), nunsploitation com seqüências de sexo explícito. Depois de trabalhar com D’Amato foi descoberta pelos diretores italianos e trabalhou com vários caras bons. “Pasquale Festa Companile a contratou para “Gegè Bellavista” (1978) e “Come Perdere una Moglie e Trovare un’Amante” (1978); com Dino Risi fez o drama “Primo Amore” (1978); o atento Jesus Franco a chamou para um papel na comédia “Elles Font Tout” (1979), estrelado por sua musa Lina Romay, lógico; e Federico Fellini a chamou para sua obra-prima “La Città Delle Donne/Cidade das Mulheres” (1980), divertido clássico estrelado por Marcello Mastroianni e Anna Prucnal (que faz a personagem Anna Planeta no cult absoluto “Sweet Movie” (1974) de Dusan Makavejev). Fazer cinema na Europa dos anos 70/80 era algo realmente mágico. Depois deste começo de carreira promissor, Marina Hedman resolveu seguir o caminho dos filmes de horror e hardcore e fez o terror adulto “Orgasmo Esotico” (1982) de Mario Siciliano, “La Bimba di Satana/Satan’s Baby Doll” (1972) de Mario Bianchi, “La Bionda e La Bestia” (1985) de Arduino Sacco, “The Devil in Mr. Holmes” (1987) de Giorgio Grand, entre muitos outros pornôs europeus.

Dificilmente “La Bestia Nello Spazio” será lançado em DVD no Brasil, mas deixo aqui a dica para quem quiser conhecer essa pequena peça do selvagem cinema italiano que, quando faliu, deixou saudades. O estilo de filmar dos cineastas italianos sempre foi uma grande bagunça que no fim dava certo e rendia ótimos filmes.

por Petter Baiestorf.

“La Bestia Nello Spazio” copiando a arte de “Zardoz” descaradamente.

Bardot, Deneuve & Fonda – As Memórias de Roger Vadim

Posted in Cinema, Literatura with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on abril 6, 2012 by canibuk

Eu estava de bobeira por Florianópolis no último dia do Festival de Cinema Catavídeo (novembro de 2011) e entrei num sebo de livros prá matar tempo. Mexe em livro aqui, mexe ali, acabei encontrando essas memórias do cineasta Roger Vadim que fiquei na dúvida se comprava devido a sua capa horrível (digno das piores “Sabrinas” e “Júlias”). Como sou um grande fã de seu filme “Barbarella” (1968), resolvi arriscar e comprá-lo para minha coleção de livros sobre os bastidores do cinema mundial, com aquela esperança de encontrar algumas boas histórias no livro.

Como pensei, este livro de memórias de Vadim é leitura fácil, rasteira e uma espécie de guia de “quem comeu quem” na França das décadas de 1950 e 1960.

Playboy do cinema, conquistador de beldades, fazedor de alguns poucos filmes bons, Roger Vadim traçou como filosofia de vida de que trabalharia apenas para conquistar o prazer máximo que a vida poderia lhe oferecer. Quando ainda era assistente de Marc Allégret, descobriu a bela ninfeta Brigitte Bardot (então com uns 15 anos) e a moldou como atriz, tornando-a uma lenda sexual dentro e fora da França. Acabou casando com Brigitte, com quem fez o clássico “Et Dieu… Créa la Femme/… E Deus Criou a Mulher” (1956), filme que rendeu inúmeras polêmicas quando de seu lançamento. Alguns anos depois, já separado de Bardot, conheceu Catherine Deneuve e a inspirou a virar atriz de cinema. Acabaram casando, mas a medida que Deneuve foi ficando famosa e adquirindo controle de sua vida e carreira, ela mesma tratou de se livrar de Vadim para alçar vôos mais altos (acabou realizando dois clássicos dos anos 60, “Repulsion/Repulsa ao Sexo” (1965) de Roman Polanski e “Belle de Jour/A Bela da Tarde” (1967) do mestre Luiz Buñuel). Para esquecer Deneuve, Vadim conheceu a, então, desconhecida Jane Fonda e, depois de casados (Vadim fazia questão de casar sempre), realizaram o grande clássico “Barbarella”.

Sempre freqüentando a alta classe européia, Vadim nos conta inúmeras passagens envolvendo a burguesia local da época. Nesta passagem uma reflexão dele envolvendo capitalista, comunista, católico e putas:

“Juntaram-se a nós o prefeito Mario Panazo, o padre Ênio Farzi e o marquês Simone de San Clemente. O prefeito explicou às senhoritas que numa sociedade verdadeiramente socialista elas jamais teriam que vender seus favores. O sacerdote disse a elas que o prefeito tinha razão, mas que a religião poderia substituir o dinheiro. Simone de San Clemente observou que as pessoas com dinheiro eram sempre úteis para aqueles que nada possuíam. E todos concordaram.

O prefeito continuou comunista; o padre, católico; San Clemente, marquês; e as prostitutas, prostitutas.

Tivemos um excelente desjejum.”

Sobre as filmagens de “Barbarella” ele nos conta uma história hilária:

“O bilhete, num italiano ruim e cheio de erros de ortografia, dizia assim: ‘Se você não vier à esquina da Piazza Navona com a avenida, no domingo ao meio-dia, acho que mamãe vai matar o papai. Meu nome é Stefania. Estarei lá’.

Como a maioria das pessoas famosas, eu recebia inúmeras cartas de gente maluca. Mas esse bilhete obviamente fora escrito por uma criança. Assim, fui à Piazza Navona no domingo, no horário marcado.

Um garoto puxou-me pela manga da camiseta, chamando-me de dottore Vadim. Na Itália os diretores recebem o título honorário de dottore.

– Sim?

– Fui eu quem escrevi para o senhor.

– Você é Stefania? – indaguei, surpreso.

– Não – respondeu o garoto – Mas achei que não iria se incomodar por um menino.

Só mesmo um pequeno romano teria uma idéia assim.

– Bem, então qual é o seu nome, Stefania? – perguntei, achando um pouco de graça.

– Franco.

– Muito bem, Franco. O que está querendo? Dinheiro? Quanto?

– Nunca digo ‘não’ para dinheiro. Mas o que quero mesmo é que minha mãe não mate meu pai.

– E o que eu tenho a ver com isso?

– O senhor… nada, dottore. É sua mulher… La Fonda.

(…)

O maquilador-chefe, que cobria o corpo de jane com uma base a cada manhã, adoeceu. Foi substituído por seu assistente que, certa noite num restaurante, ao exceder-se na bebida, começou a se gabar de que acariciara as nádegas, os peitos e a parte interna das coxas da divina Fonda.

Os ecos dessa história chegaram aos ouvidos da esposa do maquilador-assistente, uma calabresa cuimenta como uma tigresa. Comprou um revólver e disse à filha mais velha que pretendia transformar seu infiel marido numa peneira. Apavorada, a filha falou com o irmão, Franco, que resolveu me escrever.

Perguntei o que eu poderia fazer para ajudá-lo.

– Fale com minha mãe.

Levou-me até uma igreja em Trastevere, onde ficamos esperando pelo término da missa. Quando os fiéis saíram, ele me apresentou à sua mãe. Era uma mulher dominadora, com uma expressão intensa e severa nos olhos, e pude acreditar quando me disse que o único motivo pelo qual não matara seu marido foi que não conseguira munição para a arma. Acrescentou que, apesar do respeito devido à minha esposa, todas as atrizes eram umas vagabundas e todos os diretores emissários de Satã. Prometi a ela que, a partir de segunda-feira de manhã, seu marido seria encarregado de maquilar somente os figurantes. Com isso, ela concordou em adiar a vendetta familiar.

Não comentei o incidente com Jane porque a teria deixado preocupada. Além disso, o maquilador-chefe estava de volta ao trabalho na segunda-feira pela manhã.”

Sobre seu episódio no “Histoires Extraordinaires” (os outros episódios foram dirigidos por Federico Fellini e Louis Malle), ele conta:

“Para dirigir ‘Barbarella’ tive de adiar as filmagens de outro filme, ‘Histoires Extraordinaires’. Quando assinamos o contrato com Dino de Laurentiis sabíamos que seria preciso sair de Roma às pressas, imediatamente após a filmagem da última seqüência de ‘Barbarella’. Passamos apenas vinte e quatro horas em nossa casa em Houdan antes de partirmos para Roskoff, na Bretanha, onde a equipe de ‘Histoires Extraordinaires’ estava à nossa espera.

O filme era estruturado com um tríptico. Eram três histórias curtas de Edgar Allan Poe, transpostas para a tela por três diretores: Louis Malle, com Brigitte Bardot; Fellini, com Terence Stamp; e eu. Meus dois intérpretes principais tinham o mesmo sobrenome: Fonda. Um era Peter; o outro Jane. Era a primeira vez, e até o momento foi a única, que os dois irmãos faziam um filme juntos. Na minha opinião era um filme original e interessante. Com freqüência é exibido na televisão e nos cinemas de arte do mundo inteiro. Não pensei nisso na época, mas deve ter sido muito estranho para Jane passar, sem qualquer transição, das roupas futuristas para os vestidos medievais. Na verdade, meu episódio em ‘Histoires Extraordinaires’ era adaptado de um pequeno conto medieval chamado ‘Mezergenstein’. É também o único filme em que Jane aparece com roupas de época.

Peter era um exemplar quase perfeito da nova geração de americanos dos anos 60. Adorava rock, cantores políticos como Bob Dylan, maconha, cogumelos psicodélicos e conhecia todo o jargão hippie. Seu respeito pelo dólar e sua praticidade nos negócios harmonizavam-se com sua filosofia pacifista e uma atitude espiritual de colorido vagamente hinduísta. Peter foi o instigador e o catalisador do filme ‘Easy Rider/Sem Destino’ (1969), de grande sucesso. Trabalhou em seu set no roteiro desse filme, entre as filmagens, juntamente com Terry Southern, autor do best-seller erótico ‘Candy’ e co-autor de ‘Dr. Strangelove/Dr. Fantástico’ (1963). As noites em Roskoff, durante as filmagens de ‘Histoires Extraordinaires’, eram divertidas demais para serem desperdiçadas com trabalho.”

Outra passagem divertida é sobre Godard (um diretorzinho francês que fez uns três filmaços e depois se perdeu em sua própria grandeza) ameaçando Jane Fonda, onde ficamos sabendo o quanto Godard era egocêntrico e mesquinho:

“(…)

Jane tinha sérias dúvidas com relação ao roteiro. Não concordava com seu conteúdo político. Sabendo disso, Jean-Luc Godard não perdeu tempo e enviou seu sócio, Jean-Pierre Gorin, para se encontrar com ela. Passadas duas horas da chegada de Jane em Megève, Gorin estava na sala da casa que eu alugara para o verão despejando explicações político-artísticas acerca da significação histórica do script de ‘Tout Va Bien’. Jane, que tinha acabado de chegar de Genebra, não dormira por vinte e quatro horas, exausta da viagem. Estava surpresa e um pouco irritada com a insistência quase histérica do emissário de Godard.

– Se não se incomoda, vou pôr minha filha na cama agora – ela disse. – Não a vejo há dois meses.

Depois de dar um beijo em Vanessa e cantar uma canção de ninar para que adormecesse, Jane desceu as escadas ansiando por comer em paz um pouco de aipo e algumas fatias de queijo. Mas Gorin esperava por ela, firmemente plantado diante da geladeira. E a atormentou por três horas. Jane estava tão cansada que mal tinha forças para responder. Ele ameaçou destruir sua imagem caso ela se recusasse a fazer ‘Tout Va Bien’.

– Godard vai cortar suas asas. Você não terá mais respeitabilidade política em parte alguma. Nunca mais. Se recusar a fazer este filme, estará cometendo um erro do qual vai se arrepender por muito tempo.

Com medo das represálias de Godard, Jane acabou concordando em fazer ‘Tout Va Bien’. Como ela havia previsto, foi um desastre comercial e seu oportunismo político irritou as alas radicais.”

Com uma vida cheia de festas e badalações, Vadim cometia algumas gafes hilárias, como essa:

“(…)

Os embarques (das crianças) foram marcados de maneira que as crianças partissem praticamente ao mesmo tempo. Fiquei ‘orfão de meus filhos’ e me encaminhei à saída do aeroporto. Estava quase deixando o aeroporto quando escutei meu nome: ‘Roger Vadim, favor se apresentar no escritório da Air France’.

Pode-se imaginar o resto.

Nas passagens da Air France vinha escrito ‘crianças Vadim’ seguida de uma inicial. Duas delas foram endossadas pela Pam Am e pela TWA. Um pouco distraído, como de costume, mandei a criança errada para a mãe errada.

Nathalie, que deveria estar voltando para sua mãe em Roma, estava a caminho de Londres, onde Jane Fonda esperava por Vanessa.

Vanessa estava voando a Paris, onde Deneuve esperava por Christian.

Passei a noite inteira e a madrugada no telefone ligando para as três capitais para avisar as mães de que elas não estariam recebendo as crianças certas.”

Roger Vadim não foi um gênio da sétima arte, mas deixou sua marca na indústria cinematográfica francesa, ora descobrindo talentosas atrizes, ora realizando pequenos grandes filmes. Nos anos entre 1980 e 1997 passou dirigindo filmes para televisões. Faleceu em 2000. Após sua morte, sua filha Nathalie afirmou: “Jane [Fonda] era o amor da vida de meu pai!”. Vadim viveu mais para o amor do que para o cinema!

“Bardot, Deneuve & Fonda – As Memórias de Roger Vadim” (1986, 365 páginas, editora Best Seller) de Roger Vadim.

por Petter Baiestorf.