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Confinópolis – A Terra dos Sem Chave

Posted in Cinema, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on março 2, 2012 by canibuk

“Confinópolis – A Terra dos Sem Chave” (2011, 16 min.) de Raphael Araújo. Maquiagens de Alexandre Brunoro, Projeto Gráfico de Alex Vieira, Animação de Felipe Mecenas, Narração de Daniel Boone e Fonzo Squizzo. Com: Daniel Boone, Fonzo Squizzo e Leonardo Prata. Uma produção da Camarão Filmes.

“O medo é uma droga incrível!” diz uma das personagens de “Confinópolis” a certa altura, sobre as pessoas que se deixam manipular pelos líderes, sejam políticos, religiosos ou militares (na maioria das vezes essas três racinhas desprezíveis estão em parceria nos levantes contra o povo).

“Confinópolis” é um curta de Raphael Araújo com base em uma HQ dele mesmo que havia sido publicada na revista Prego anos atrás. A HQ virou um filme político de primeira grandeza, teorizando sobre um povo que se deixa governar por um tirano (que pode ser qualquer político, mesmo os políticos “bonzinhos”). Aqui vemos um lugar fictício onde as criaturas possuem uma fechadura no lugar do rosto e todos tem a esperança de que a salvação virá na figura de uma chave. Essa é a pequena deixa para que Araújo teorize sobre a manipulação política, sobre a televisão (um lindo flashback em animação – cortesia do artista Felipe Mecenas – explica como a sociedade ficou hipnotizada por milhares de caixas de luz hipnótica) e sobre como ações individuais podem fazer a diferença em uma sociedade. Quem fica em silêncio concorda com as atrocidades cometidas por políticos, religiosos, militares e imprensa, que sempre caminham de mãos dadas pelo jardim da tirania.

“Confinópolis” é sobre o Brasil. É uma alegoria sobre nosso povo “ordeiro e pacato”. As cenas do curta onde vemos o exército na rua controlando e descendo o cacete no povo remete de forma direta aos tempos da ditadura (ou, mais recentemente, aos morros cariocas sendo tomados pela polícia para a implantação das unidades de polícia pacificadora, onde foram relatados inúmeros casos de abuso de poder por parte da polícia e, também, remete de forma direta à força repressora do estado brasileiro à casos como a desocupação de Pinheirinho). Sai o crime organizado, entra o crime ligitimizado pelo estado!

O curta contou com o apoio de muitas figurinhas de Vitória/Vila Velha (ES), como o ator e músico Fonzo Squizzo (que é figura obrigatória nos filmes do Rodrigo Aragão), Alex Vieira (editor da Revista Prego), Guido Imbroisi (músico) e o maquiador – e também músico – Alexandre Brunoro (que trabalhou no longa “A Noite do Chupacabras” (2011) de Rodrigo Aragão e faz parte da incrível I Shit on Your Face, banda de grindcore fenomenal). Toda a parte técnica e de produção do curta “Confinópolis” está muito bem executada e resolvida. Araújo conseguiu compôr, mesmo com orçamento minguado, várias seqüências grandiosas e inesquecíveis. Em tempos onde as bancadas evangélicas do congresso brasileiro pretendem até “curar” gays, recomendo este curta que é um ótimo exemplar do novo cinema independente brasileiro, pensante e com o que dizer!

Para assistir o curta você precisa da senha: semchave

Abaixo uma pequena entrevista com o maquiador Alexandre Brunoro sobre a produção de “Confinópolis”.

Petter Baiestorf: Como surgiu o convite para você fazer as maquiagens do curta?

Alexandre Brunoro: Na verdade não houve o que poderíamos chamar de convite, até porque sou um dos idealizadores do projeto também. Já tinha experiência nesse tipo de trabalho, pois além da Camarão Filmes, desenvolvo um trabalho com a Fábulas Negras também, usei bastante do que aprendi trabalhando na pré-produção e no set de filmagens de “A Noite do Chupacabras”, posso afirmar que esse conhecimento foi crucial pra que eu pudesse assumir os efeitos especiais e maquiagens de Confinópolis.

Baiestorf: Achei a parte técnica e a produção do curta bem profissional. Qual foi o orçamento? Você pode trabalhar nas maquiagens com calma e dinheiro?

Brunoro: A produção custou pouco menos de 5 mil reais. Posso dizer que tive muita calma pra fazer este trabalho, pude experimentar algumas coisas, improvisar em outras, tínhamos material suficiente pra fazer tudo e mais ou pouco, além de termos usado lixo em boa parte das cenografias, dá prá se fazer coisas incríveis usando papelão e betume.

Baiestorf: Fale sobre seu processo de criação das maquiagens.

Brunoro: Meu processo de criação começa na hora de escrever o roteiro, tudo tem que ser pensado antes de ir pro set de filmagens. De acordo com a necessidade de cada cena eu escolho o melhor mecanismo a ser usado. Quanto ao visual dos cidadãos de Confinópolis, decidimos que seria mais fácil usar máscaras de tecido, o que facilitou bastante a minha vida, pois a maquiagem só se fez necessária em cenas onde havia sangue. O design foi baseado nas máscaras mexicanas de “lucha libre”, o que mudou foi o tipo de tecido e algumas coisas no corte, pra que a máscara pudesse se adaptar em qualquer tipo de rosto e tamanho de cabeça. Em breve estaremos disponibilizando as máscaras para serem vendidas.

Baiestorf: O preto e branco deu um visual ótimo ao filme e realçou melhor tuas maquiagens. Havia a opção de se fazer o filme colorido ou o preto e branco sempre foi a opção inicial? Porque?

Brunoro: A primeira coisa que decidimos quando estávamos escrevendo o roteiro era que o filme seria todo em preto e branco, achamos mais coerente com a ambiência que queríamos imprimir no curta, além de tornar o processo muito mais simples e barato.

Baiestorf: Numa cena uma das personagens se transmuta e o ator veste uma maquiagem de corpo inteiro com um ótimo visual. Fale sobre a criação desta cena:

Brunoro: Esta cena foi a mais difícil de filmar, pois não sabíamos direito ainda como seria a montagem, filmamos a maioria de ângulos que pensamos na hora, aproveitando bastante o ator também, que sem ensaiar conseguiu criar uma movimentação ótima. A fantasia foi composta em sua grande maioria de lixo que catamos na rua e no lixo de uma fábrica de roupas, apenas a máscara foi esculpida. Esse monstro surgiu depois de algumas pesquisas que fizemos, posso te dizer que me inspirei bastante nos monstros de programas Sentai japoneses.

Baiestorf: Fale um pouco sobre a HQ original publicada na revista “Prego”. Você se baseou nela para o design de algumas maquiagens?

Brunoro: Sim, sem dúvidas o HQ original foi a maior referência que tínhamos pra compor o visual do curta. Tivemos que adaptar algumas coisas, criar outras, cortar algumas, mas no final das contas acho que adaptamos bem a história no vídeo, prás pessoas que leram o quadrinho o filme vai soar bem fiel. O curta valorizou bastante a história do HQ, além de trazer pra vida os personagens de Confinópolis, ainda tivemos a oportunidade de finalizar a história que estava faltando o último número.

Baiestorf: O curta está sendo distribuído? Está sendo exibido em festivais de cinema? Como as pessoas podem assisti-lo?

Brunoro: Ainda estamos começando esse processo, já nos inscrevemos em alguns festivais e estamos esperando a aprovação da curadoria. Será produzido um DVD em breve, onde estaremos disponibilizando na internet pra que seja comprado, copiado, pirateado e assistido.

Assistam o quanto antes o vídeo que dispobilizamos exclusivamente aqui no Canibuk, ele não deverá ficar muito tempo online!!!