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Harry Thomas: Monstros Bananas à Preços Idem

Posted in Cinema, Museu Coffin Souza with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on novembro 18, 2011 by canibuk

O norte americano Harry Thomas, nascido na Pensylvania em 22 de setembro de 1909, se envolveu com a indústria do cinema primeiro como figurante em filmes como “Pardon Us” (1931), com a dupla humorística Laurel & Hardy (O Gordo & O Magro) e depois se interessou por maquiagem, sendo treinado por William Tutle e Jack Dawn, chefes do departamento da MGM. Durante a fase clássica de filmes de terror da Universal, trabalhou sob ordens de Jack Pierce, que ele considerava seu verdadeiro mestre. Sua vocação para trabalhos rápidos e de baixo custo o levou a televisão, onde foi responsável pela maquiagem em 52 episódios da série “Adventures of Superman” (1951-1954) e pelo filme de cinema realizado para divulgar o programa “Superman and The Mole Man” (1951) de Lee Sholem. Nesta aventura tipicamente “B”, o super-herói vindo do planeta Krypton (vivido pela primeira vez por seu mais famoso intérprete George Reeves) enfrenta a ameaça dos terríveis homens toupeiras, que surgem do fundo da terra para ameaçar os humanos com suas armas de raios. As criaturas, que no final estavam apenas protegendo seu habitat, foram vividas por anões com falsas cabeças pontudas e grossas sobrancelhas. Harry Thomas estava criando seu estilo. Em “Cat Women of the Moon” (“As Mulheres-Gato da Lua”, 1953 em 3D) de Arthur Hilton,Thomas precisou construir duas aranhas gigantes com chifres, já que as telepáticas mulheres-gato da lua que tentavam dominar astronautas terrenos, eram garotas com uniformes colantes pretos com quase nada que lembrasse gatos ou felinos na maquiagem, a não ser longas unhas feitas de pedaços de celulóide cortados e pintados. Sua primeira criação mais complexa surgiu no terror “The Neanderthal Man” (“O Homem Fera”, 1953) de E.A. DuPont, sobre um cientista maluco que desenvolve um soro que o faz regredir a um estágio pré-histórico. A cena de transformação, realizada quadro a quadro, enquanto Thomas ia maquiando o ator Robert Shayne, ao estilo das maquiagens de Jack Pierce para a série de lobisomens dos anos 40, é bastante eficiente, mas destoa totalmente em visual com a pesada (e sem movimentos) máscara feita com algodão, cola, pelos e cascas de laranja secas (fazendo os dentes disformes), além de uma peruca ridícula, construída para o dublê e treinador de animais que precisava no final enfrentar um também muito falso tigre-de-dentes-de-sabre.

Harry Thomas conta no livro “Nightmare of Ecstasy – The Life and Art of Edward D. Wood, Jr.” (Feral House Books, 1992) de Rudolph Grey, que foi convidado pelo jovem cineasta para ir até sua casa para receber o roteiro de seu novo filme. “Eu peguei o endereço e bati na porta. Uma mulher alta, bem vestida me atendeu , mandou sentar e me serviu uma xícara de chá. Eu perguntei se Eddie estava em casa e ela me disse: ”Eu sou Ed Wood”. E eu estava chocado e perguntei “Oh! Você não é a irmã de Ed?“ -“Não, eu sou realmente Ed. É desta forma que quero aparecer em “Glen or Glenda””. Assim, o maquiador acostumado apenas com filmes de ficção científica e monstros teve que trabalhar com cosméticos femininos e embelezar Wood Jr. em seu épico sobre travestismo “Gen or Glenda?” (1953). Além disto, Thomas faz uma ponta na cena em que o personagem Glen tem um pesadelo onde várias pessoas e o demônio (Captain De Zita) o atormentam (ele é o personagem de bigodes, creditado como: “Man in nightmare”). “Glen or Genda estava divorciado completamente do que eu fazia, mas foi divertido.”

Então Harry foi contratado para criar os alienígenas do planeta Astron Delta, que dominam um cientista (Peter Gaves) para ser seu espião no ultra-barato “Killers From Space” (“Mundos Que Se Chocam”, 1954) de W.Lee Wilder. Completamente sem orçamento, ele colocou o que se convencionou chamar de “olhos-de-ping-pong” em senhores de meia idade com macacões pretos e cintos coloridos. Na verdade Thomas utilizou as cavidades de caixas de ovos de plástico pintadas e com pequenos orifícios para os pobres extras poderem enxergar e disfarçou-as com espessas sobrancelhas, sua marca pessoal.

Acostumado com as extravagâncias de Ed Wood, Harry Thomas recebeu um roteiro promissor, afinal “The Bride of the Monster” (1955) prometia Bela Lugosi como um cientista louco com um assistente deformado chamado Lobo (o lutador Tor Johnson), um polvo gigante e etc. Mas novamente as imposições de orçamento foram mais fortes, e as pressas nas filmagens ficam visíveis na maquiagem de Tor, que muda de cena para cena e o polvo na verdade foi roubado do depósito de um estúdio, numa história hoje já clássica. Thomas acabou ficando amigo da trupe mambembe de Wood, e além de confidente das lamúrias do pobre Lugosi, passou a freqüentar a casa de Tor Johnson, onde conta ele teve que certa vez fugir para não passar mal ao acompanhar a família do gigante suíço em uma refeição: “… eles tinham cadeiras especiais para sentar, já que cadeiras comuns quebrariam. O tempo todo Tor dizia – “Comam, comam, comam para ficarem grandes e fortes”. Eu já não agüentava tanta comida e ele queria que eu comesse a metade de uma melancia, quando recusei ele me informou que depois de uma breve soneca teríamos mais um lanche! Eles se pareciam com uma família de grandes ursos!” (R. Grey.). Num dos últimos filmes da produtora classe “Z” Republic, “The Unearthly” (na TV: “O Extraordinário”, 1957) de Brooke L.Peters, John Carradine vivia pela enésima vez um cientista louco, agora fazendo experimentos com transplantes glandulares auxiliado por seu assistente gigante-retardado chamado… Lobo (Tor Johnson, é claro!). Se Johnson atuou ao natural, apenas com seu físico avantajado, no final seu personagem redimido, ajuda a linda mocinha (Allison Hayes) a escapar de um grupo de mutantes deformados que o médico escondia no porão. O principal deles, com uma maquiagem grotesca (no “bom” sentido) feita por Harry Thomas com pedaços de látex e adesivos cirúrgicos era um jovem gigante chamado Carl Johnson, o “little Karl”, filhinho comilão de Tor.

Nesta época, Harry Thomas trabalhou brevemente junto com outra lenda das maquiagens e efeitos vagabundos: Paul Blaisdell (o maquiador preferido de Roger Corman). Em “Voodoo Woman” (1957) de Edward L. Cahn, eles tiveram que reciclar uma fantasia criada por Blaisdell um ano antes para “She Creature” do mesmo Ed Cahn. O antes monstro marinho feminino, ganhou uma nova cabeça, semelhante a uma caveira deformada, uma peruca loira (!) e um vestido feito de sacos de linhagem. No bizarro “From Hell It Came” (“Veio do Inferno”, 1957) de Dan Milner, um príncipe de uma ilha do Pacífico sul reencarna em uma árvore que caminha e ataca pessoas e é chamada de Tabonga. O monstro vegetal parece o pesadelo de uma criança de 5 anos, ou poderia ter saído de algum conto de fadas mais sinistro. Durante muitos anos, lendas sobre a construção/concepção da criatura apareceram em diversas publicações e entrevistas, mas J.J. Johnson no espetacular livro “Cheap Tricks and Class Acts” (McFarland Books, 1996) esclarece o mistério: Paul Baisdell desenhou , a fábrica de máscaras de Halloween e objetos de cena para filmes Don Post Studios, fabricou e Harry Thomas pintou e fez acabamentos no monstro, além de ter feito todas as maquiagens dos nativos da história.

“The Bride and the Beast” (1958) de Adrian Weiss parece uma história escrita por Ed Wood… e é! Precisando de dinheiro, ele vendeu seu roteiro sobre uma mulher (Charlotte Austin) que durante um safári na África, descobre aos poucos que é a reencarnação de uma gorila, para no final reverter ao seu estado primitivo e ir viver feliz no meio das selvas com seus parentes! Como o dublê e performance de gorilas Steve Calvert, já possuía sua fantasia pronta, coube a Harry adicionar mais pêlos, fazer alguns ajustes nos olhos e repintar o primata para ele não parecer exatamente igual a por exemplo “Bride of the Gorilla”(1951), onde já havia sido utilizado.

Finalmente um Clássico! Em 1956, Ed Wood Jr., teve uma idéia brilhante: utilizar umas poucas cenas que havia rodado com seu recém falecido amigo Bela Lugosi para um filme que seria chamado “The Vampire’s Tomb” em uma produção totalmente diferente sobre alienígenas que conseguiam ressuscitar cadáveres humanos para dominar a terra. “Grave Robbers from Outer Space” teria além da participação póstuma de Lugosi, vários outros colaboradores da trupe habitual de Ed, além da presença de uma apresentadora de um programa de filmes de terror da TV chamada Maila Nurmi, mais conhecida como Vampira. Depois de ser financiado por um pastor de uma igreja evangélica, o filme seria renomeado “Plan 9 From Outer Space”(1956/1959) e muito já foi dito e escrito sobre suas filmagens, lançamento e trajetória, que o levaram a fama de ser um dos piores filmes da história do cinema. Fama injusta, já que é muito divertido e extremamente criativo, mas a parte que nos cabe retomar aqui foi contada por Harry Thomas em “Nightmare of Ecstasy” e também no ótimo documentário “Flying Saucers Over Hollywood: Plan 9 Companion” (1992) de Mark P. Carducci. Munido do roteiro, Thomas foi até Ed Wood cheio de idéias sobre a aparência dos alienígenas e argumentou que com adesivo cirúrgico e alguns cosméticos poderia mudar sua cor, olhos e faces, além de saber como alterar suas vozes para não parecerem tão humanos. A resposta de Ed foi clara e precisa e ofendeu o econômico fazedor de monstros: “Harry, nós não temos tempo, nem dinheiro” (ponto final.)

O trabalho de Harry Thomas não era ruim por incompetência sua, mas por tempos reduzidos e orçamentos apertados. Ele se dedicava a desenvolver maquiagens de qualidade, mas a parte financeira e a pressa de diretores e produtores dos filmes vagabundos para que era contratado comprometiam seu trabalho. Quando foi chamado para fazer “Frankenstein’s Daughter” (“A Filha de Frankenstein”, 1958) de Richard E. Cunha, Thomas trabalhou sem um roteiro, criando uma make up bastante expressiva cheia de deformações e cicatrizes para o corpulento ator Harry Wilson. O que o produtor se esquecera de informar era que a criatura seria uma fêmea, vivida antes da transformação pela atriz Sally Todd. Como já havia maquiado para o mesmo filme a jovem Sandra Knight (com sua combinação clássica: dentes enormes deformados mais sobrancelhas peludas), acreditou que ela seria a tal “monstra”! Assim, a solução foi colocar uma enorme quantidade de batom nos lábios deformados do monstro, que para piorar usava uma roupa que parecia a de um Papai-Noel espacial! Para providenciar uma sessão dupla para o lançamento de “A Filha de Frankenstein”, Richard Cunha reescreveu sua história básica terráqueos-enfrentam-uma-raça-de-mulheres-alienígenas gostosas (vista antes em “Cat Women of the Moon”) e Thomas foi encarregado de ajudar a criar uma dupla de homens-rocha e a disfarçar uma aranha gigante fabricada pela Universal para promover seu clássico “Tarântula” (1955), fazendo-a agora a principal ameaça para as garotas da Lua. Uma nova cara e um acréscimo de pêlos só fizeram piorar os já limitados movimentos do bicho movido a fios de nylon. E assim nasceu, então, “Missile to the Moon” (1958), disponível em DVD no Brasil.

Harry Thomas voltou a trabalhar para Ed Wood e criou uma maquiagem deformada para a volta do personagem Lobo (Tor Johnson) do mundo dos mortos em “Night of the Ghouls”, filmado em 1958 e nunca lançado nos cinemas. Um médium picareta chamado Dr.Acula promete fazer contato com entes queridos falecidos de seus clientes, mas acaba provocando a vingança dos mortos (seu título original “Revenge of the Dead”). A confusa seqüencia de acontecimentos sobrenaturais vividas entre cenários de papelão teve “ajuda” na edição de Phil Tucker (de “Robot Monster”, outro épico Trash clássico) e foi o penúltimo filme de Ed Wood Jr.

Harry Thomas esteve na equipe que fez “The Little Shop of Horrors” (1960) de Roger Corman, mas apenas fazendo maquiagens faciais. Teve sua oportunidade de fazer suas próprias recriações dos monstros clássicos (Drácula, o lobisomem e a criatura de Frankenstein) no filme adulto “House on Bare Mountain” (1962) de R.Lee Frost, mas o orçamento para o mais caro filme “Nudie” feito naquela época (72.000 dólares) tinha pouco disponível para maquiagens decentes, principalmente porque o que mais interessava era os corpos nus das belas garotas de uma escola para moças assombrada.

Talvez por já se envolver uma vez com uma árvore que caminhava (em “Veio do Inferno”), o esforçado Thomas foi convocado para ajudar “The Navy Vs. the Night Monsters” (“A Marinha Contra os Monstros”, 1966) dirigido pelo roteirista Michael Hoey. No meio da Antártida, a marinha americana descobre uma zona de calor, e nela estranhas plantas que caminham e devoram seres humanos. Além de ser responsável pelo acabamento nos monstros vegetais, nosso amigo criou uma série de cicatrizes e ferimentos de queimaduras bastante realistas, utilizando materiais baratos. Thomas foi um dos pioneiros na substituição de produtos caros utilizados em maquiagens especiais por materiais caseiros, encontrados principalmente em cozinhas: farinha de trigo com água, calda de chocolate, gelatina e Karo. Ele nunca admitiu a utilização destes produtos por razões financeiras, dizia que muitos atores e atrizes eram alérgicos a certos químicos presentes em certas fórmulas de maquiagens, assim os materiais naturais e comestíveis seriam a melhor opção.

O produtor/diretor Arch Oboler, um entusiasta da 3D (Terceira Dimensão) desde os anos 50 (“Bwana Devil”, 1952) desenvolveu um sistema próprio revolucionário, chamado Space Vision, e escreveu para demonstrá-lo uma ficção científica chamada “The Bubble” (“A Bolha”, 1966), sobre uma pequena cidade em que os habitantes são escravizados por uma estranha bolha de energia que flutua sobre o local (e dentro das salas de cinemas, claro). Harry Thomas foi responsável por desenvolver a bolha plástica alienígena e a aparência zumbificada de suas vítimas. (Assisti a uma reprise deste filme no cinema durante a moda do 3D dos anos 80 e sim, a bolha parecia flutuar na sala de projeção, mas de resto era uma enorme chatice, sem graça e sustos…)

Harry Thomas ainda voltaria a sua criação clássica ao transformar a bela Claire Brennan numa aberração com meio rosto deformado, dentes monstruosos, orelha pontuda e um olho de “ping-pong” em “She Freak” (1966) de Byron Mabe, uma refilmagem picareta de “Freaks” (1932) pelo produtor/roteirista David Friedman, um dos reis do “sexploitaition”. Pena que sua criação apenas apareça poucos minutos no final do filme. Voltou então para a televisão e trabalhou em inúmeras séries e programas, mas nunca foi esquecido pelos diretores e produtores de filmes de horror de baixo orçamento, tanto é que Oliver Stone em sua segunda realização “The Hand” (em vídeo “A Mão”, 1981) o chamou para dar vida à personagem título: a mão decepada de um cartunista que ganha vida própria e comete vários crimes. Algum gore, e com pouco dinheiro… uma mão que parece uma luva de borracha caseira.

Harry Thomas faleceu em 21 de outubro de 1996.

Filmografia Parcial:

Superman and the Mole Man (1951); Invasion U.S.A. (1952); Cat-Women of the Moon (1953); The Neanderthal Man (1953); Port Sinister (1953); Project Moonbase (1953); Glen or Glenda? (1953); Monster from the Ocean Floor (1954); Jail Bait (1954); Killers from Space (1954); Bride of the Monster (1955); Plan 9 from Outer Space” (1956/1959); The Unearthly (1957); Voodoo Woman (1957); The Bride and the Beast (1958); Night of the Ghouls (1958); Terror in the Haunted House (1958); Frankenstein’s Daughter (1958); Missile to the Moon (1958); The Little Shop of Horrors (1960); Raiders from Beneath the Sea (1961); House on Bare Mountain (1962); Space Probe Taurus (1965); The Navy Vs. The Night Monsters (1966); She Freak (1966), The Bubble (1966); Logan’s Run (1976); The Hand (1981).

Texto e pesquisa de Coffin Souza.

Vincent Price: O Vilão mais Carismático de todos os Tempos

Posted in Cinema, Entrevista with tags , , , , , , on maio 27, 2011 by canibuk

No dia 27 de maio de 1911 nasceu Vincent Leonard Price Jr. na família de Vincent Clarence Price, seu avô, que já tinha garantido a fortuna da família Price ao inventar o “Magic Baking Powder” (também conhecido como “Dr. Price’s Baking Powder”), o primeiro fermento em pó de creme de tártaro.

A vida acadêmica de Vincent Price foi normal e sua vida pessoal tranqüila. Acabou no cinema quando fez sua estréia no filme “Service de Luxe” (1938) de Rowland V. Lee e se firmou como ator no clássico “Laura” (1944) de Otto Preminger. Mas foi fazendo filmes de horror, sci-fi e suspense que Price se tornou uma lenda. Seu primeiro filme de horror foi ao lado de Boris Karloff e Basil Rathbone no longa “Tower of London” (1939) de Rowland V. Lee, que Roger Corman fez uma re-leitura, novamente estrelada por Vincent Price, nos anos 60.

Nos anos 50 que Vincent Price se tornou a estrela dos filmes de horror ao estrelar o remake “House of Wax” (“O Museu de Cera”, 1953) de André De Toth, uma refilmagem em 3D do filme “Mystery of the Wax Museum” (“Os Crimes do Museu”, 1933) de Michael Curtiz, que entrou no top 10 das bilheterias americanas daquele ano (a título de curiosidade: Um jovem Charles Bronson faz um de seus primeiros papéis no cinema neste “House of Wax”, como assistente de Vincent Price. Eles voltaram a contracenar em 1961 no clássico de aventura “Master of the World” (“Rubor – O Conquistador”) de William Witney). Depois de “House of Wax”, que foi lançado em DVD no Brasil pela Warner Bros., Price estrelou diversos filmes de sci-fi/horror, como “The Mad Magician” (1954) de John Brahm, “The Fly” (“A Mosca da Cabeça Branca”, 1958, Fox Filmes) de Kurt Neumann, “Return of the Fly” (1959) de Edward Bernds, “The Bat” (“A Mansão do Morcego”, 1959, London Films) de Crane Wilbur e suas parcerias hilárias com o lendário diretor/produtor William Castle: “House on Haunted Hill” (“A Casa dos Maus Espíritos”, 1959, NBO Editora) e o cult-movie “The Tingler” (“Força Diabólica”, 1959, Columbia Pictures), exibido com o novíssimo aparelho Percepto, onde a cada 10 poltronas do cinema era instalado este equipamento que era impulsionado por um pequeno motor ligado à cabine de projeção que, com o projecionista sendo guiado por pequenas marcas impressas no filme, acionava um interruptor que acionava uma vibração e uma pequena descarga elétrica nas poltronas, assustando os espectadores desavisados. “The Tingler” tem uma das primeiras (se não for a primeira) citações ao LSD no cinema. Robb White, o roteirista, tinha ouvido sobre o ácido lisérgico de Aldous Huxley e foi até a UCLA para experimentar o alucinógeno em si mesmo (antes de se tornar ilegal) e introduziu a droga no roteiro do filme. Este pequeno filme de William Castle, que custou cerca de 400 mil dólares, faturou mais de 2 milhões de dólares. Nestes filmes de Castle, ambos com um senso de humor negro delicioso, temos Vincent Price completamente a vontade em seus papéis, já dando mostras de como iria atuar nas décadas seguintes, sempre trabalhando sério mas se divertindo nas produções.

Já em 1960, Vincent Price estrelou uma série de filmes de baixo orçamento do diretor Roger Corman e da produtora American International Pictures (A.I.P.), filmes estes que resgataram Peter Lorre, Basil Rathbone, Boris Karloff e o escritor Edgar Allan Poe para uma nova geração de espectadores. O primeiro filme do pacote foi “Fall of the House of Usher” (“O Solar Maldito”, 1960) e ao seu sucesso seguiu-se “The Pit and the Pendulum” (1961, co-estrelado por Barbara Steele), “Tales of Terror” (“Muralhas do Pavor”, 1962, co-estrelado por Peter Lorre e Basil Rathbone), “The Raven” (“O Corvo”, co-estrelado por Boris Karloff, Peter Lorre, Hazel Court e o joven ator Jack Nicholson, lançado no Brasil pela Playarte), “The Haunted Palace” (“O Castelo Assombrado”, 1963, com roteiro baseado em H.P. Lovecraft, mas que entrou no pacote Poe, e co-estrelado por Lon Chaney Jr.), “The Masque of the Red Death” (“A Orgia da Morte”, 1964, co-estrelado por Hazel Court) e “The Tomb of Ligeia” (“Túmulo Sinistro”, 1964). Aliás, nos anos de 1960 Vincent Price trabalhou muito e esteve a frente do elenco em inúmeros filmes de horror que se tornaram clássicos, vale a pena relembrar/rever sempre “Tower of London” (1962) de Roger Corman, “Confessions of an Opium Eater” (1962) de Albert Zugsmith, o fantástico “The Comedy of Terrors” (“Farsa Trágica”, 1963) de Jacques Tourneur, que além de Price no elenco, ainda trazia os atros Boris Karloff, Peter Lorre, Basil Rathbone e Joe E. Brown, “The Last Man on Earth” (“Mortos que Matam”, 1964, Flashstar Vídeo) de Ubaldo Ragona, a comédia “Dr. Goldfoot and the Bikini Machine” (1965) de Norman Taurog e o sério “Witchfinder General” “O Caçador de Bruxas”, 1968) de Michael Reeves.

Na década de 1970 Vincent Price estrelou mais alguns clássicos como “Scream and Scream Again” (“Grite, Grite Outra Vez!”, 1970) de Gordon Hessler, os clássicos (e meus preferidos de toda a carreira dele) “The Abominable Dr. Phibes” (“O Abominável Dr. Phibes”, 1971) e “Dr. Phibes Rises Again” (“A Câmara de Horrores do Abominável Dr. Phibes”, 1972), ambos dirigidos por um Robert Fuest inpiradíssimo e com um elenco de apoio muito bem escolhido (na segunda parte até Peter Cushing dá as caras), verdadeiros exercícios macabros de humor negro. No mesmo clima dos filmes do Dr. Phibes, Price estrelou “Theatre of Blood” (“As Sete Máscaras da Morte”, 1973, Playarte Filmes) de Douglas Hickox.

Nos anos 80, estrelou ao lado de John Carradine e Donald Pleasence o filme “The Monster Club” (1981) de Roy Ward Baker, fez a narração do curta-metragem “Vincent” (1982) do então ainda desconhecido Tim Burton (com quem realizou também seu último papel no cinema no “Edward Scissorhands” de 1990), “House of the Long Shadows” (“A Mansão da Meia-Noite”, 1983) de Pete Walker, que merece uma espiada por conta de elenco formado, além de Price, pelas também lendas Christopher Lee, Peter Cushing e John Carradine, narrou o vídeo-clip “Thriller” (1983) de John Landis para Michael Jackson, “Bloodbath at the House of Death” (1984) de Ray Cameron, “The Offspring” (“Do Sussuro ao Grito”, 1987) do sempre incompetente Jeff Burr e o drama “The Whales of August” (“Baleias de Agosto”, 1987) de Lindsay Anderson, seu último grande papel no cinema. Seus últimos trabalhos, já nos anos 90, foram narrações para filmes produzidos diretamente para a televisão.

Vincent Price foi casado 3 vezes, era colecionador de arte (com seus cachês vivia comprando quadros e esculturas e doando dinheiro à escolas de arte), fumante inveterado e no fim da vida sofria de enfisema e da doença de Parkinson (o que fez com seu papel no “Edward Scissorhands” fosse reduzido). Morreu de câncer no pulmão em 25 de outubro de 1993.

Como Roger Corman fez vários filmes com o Vincent Price, resolvi postar aqui um trecho da entrevista que Corman concedeu aos jornalistas Charles Flynn e Todd McCarthy no dia 6 de setembro de 1973 e que foi publicada no catálogo da retrospectiva de filmes do Roger Corman realizada pela Cinemateca Portuguesa que aconteceu nos anos 80 do século passado (a edição do catálogo é de 1985).

“Gas-s-s” resume mais ou menos a sua atitude no que diz respeito aos filmes do Poe ou há algum filme da série Poe que considere como a sua opinião definitiva?

Corman: Não, nenhum em particular. Eu diria que cada um é uma tentativa para lidar com cada conto de Poe. Em nenhuma altura tentei pô-los juntos, de modo a formarem um todo. Deixo cada um falar por si. E “Gas-s-s” não era assim tão relacionado com os da série Poe. A idéia de lá por Poe foi posterior.

Você também mandou uma piada à série Poe em “The Trip” (1967).

Corman: Sim.

De fato, muitos filmes da série Poe não são para se levar completamente a sério.

Corman: Lá para o fim, sim. “The Fall of the House of Usher” (1960), “The Pit and the Pendulum” (1961), “The Masque of the Red Death” (1964), embora este fosse mais tardio, eram filmes sérios. A coisa começou com “Tales of Terror” (1962), que era um filme em episódios e que já foi feito com uma certa dose de humor. “The Raven” nós fizemo-lo para rir.

Considera-se um criador de humor negro?

Corman: Provavelmente sim. Levando-se em consedireção “A Bucket of Blood” (1959), “The Little Shop of Horrors” (1960), “Creature from the Haunted Sea” (1961) e, mais recentemente, “Gas-s-s” (1970), eu diria que eles são de humor negro. Nós os fizemos antes dol termo “humor negro” ser usado. Mas estão, de algum modo, dentro do gênero.

Os filmes da série Poe parecem visualmente muito mais elaborados do que seus filmes que vieram antes ou depois.

Corman: Acho que é verdade e há duas razões para isso. Uma era que para os filmes do Poe eu tinha um calendário de 3 semanas que foi, sem dúvida, o tempo mais longo que alguma vez tive! Tinha então muito tempo para filmar num estilo elaborado. Os filmes anteriores, “The Little Shop of Horrors” foi filmado em dois dias, “Bucket of Blood” em cinco e a maior parte dos outros entre cinco e dez dias. Não havia, portanto, tempo para um estilo cinematográfico elaborado. Eu tinha que filmar muito rápido e de maneira simples, embora tivesse por eles 0 maior interesse possível, respeitando o prazo. Com um prazo de 3 semanas para os filmes do Poe, tive um pouco mais de tempo para trabalhar a câmera. E, além disso, senti que o assunto se prestava a isso. Os filmes que vieram depois, por exemplo “The Wild Angels” (1966), eram também filmes de 3 semanas, mas eu procurava um estilo mais realista e, então, voltei deliberadamente a um movimento de câmera propositalmente mais simples.

Porque filmou os dois últimos filmes da série Poe, “The Masque of the Red Death” e “The Tomb of Ligeia”, na Inglaterra?

Corman: Simplesmente por questões econômicas. Tínhamos ofertas da Inglaterra, o plano Eddy, que era um grande subsídio  do governo inglês e por isso filmamos lá.

É verdade que usou os cenários que ficaram de “Beckett”?

Corman: Sim, para “The Masque of the Red Death” e para “Ligeia” também. Já não me lembro para qual deles foi, mais sei que utilizamos coisas pertencentes a grandes filmes ingleses e um deles foram cenários e objetos de cena do “Beckett”.

CURIOSIDADES SOBRE VINCENT PRICE

Nasceu no mesmo dia que Christopher Lee (27 de maio de 1922) e um dia antes de Peter Cushing (26 de maio de 1913).

Cozinhar era um de seus hobbies e escreveu vários livros de culinária.

Em 1951 fundou a Galeria Vincent Price no campus da East Los Angeles College para incentivar os outros a desenvolver a paixão pela arte.

Costumava ir as exibições de seus filmes trajando a roupa do personagem para atender aos pedidos dos fãs para fotos.

Possuí 2 estrelas na calçada da fama, uma referente ao seu trabalho na TV (optei por ignorar a carreira na televisão nesta postagem por ser extensa demais) e outra relacionada ao cinema.

Fez uma pequena narração na música “The Black Widow” do álbum “Welcome to My Nightmare”  (1975) de Alice Coopee, notório admirador de Vincent Price.

Interpretou o “espírito do pesadelo” no especial para TV, “Alice Cooper: The Nightmare” (1975).

Reza a lenda (possivelmente uma mentira) que quando Price e Peter Lorre  foram no funeral de Bela Lugosi em 1956 e viram o morto vestido com a capa de Drácula, Lorre teria perguntado se não deveriam enfiar uma estaca no coração, por via das dúvidas.

Participou da noite de abertura da primeira produção de Richard O’Brien, o clássico “The Rocky Horror Picture Show” (a peça, não o filme).

Nas filmagens de “The Raven” o ator Peter Lorre improvisou muitas de suas linhas de humor no filme, freqüentemente pegando os sempre sérios Price e Karloff desprevenidos.

TRAILERS DOS FILMES IMPERDÍVEIS DE VINCENT PRICE

UMA ENTREVISTA COM VINCENT PRICE

James Plath: Como você caracterizaria a arte americana? Você disse que nós apenas começamos a encontrar uma identidade?

Vincent Price: Sabe, na minha profissão, quando eles removeram a censura dos filmes, ficou apenas sexo e violência, o que é lamentável. Porque enquanto alguns dos filmes são tecnicamente maravilhosos, eles se tornam aborrecidamente realistas. E há um tipo de coisa maior no drama – Ibsen e os realistas – onde há um formulário que é brilhante, artístico, e ainda de alguma forma maior que a vida. Parece-me que um dos nossos problemas como os artistas americanos é que nós estávamos tocando para o menor denominador comum. A televisão é o principal exemplo disso. Para mim, arte é tudo. Tudo que o homem faz, conforme discriminado a partir das obras da natureza. A expressão máxima do homem é a arte.

Plath: Você esteve envolvido em um bom número de produçõies baseadas em Edgar Allan Poe (na série do Roger Corman e A.I.P.), penso que apenas “The Fall of House of Usher” e “The Masque of the Red Death” foram fiéis aos contos de Poe.

Price: É realmente muito díficil transformar um conto em um filme (risos).

Plath: Como no “The Pit and the Pendulum” que tem uma cena só do livro e o resto foi esticado ao máximo para se ter o filme.

Price: Exatamente. Você tem que explicar como chegou lá! Igual o “Tomb of Ligeia”, era um conto sobre necrofília, mas é muito arriscado você falar só de necrofília num filme. Tinha que ser apenas sugerido. Mas acho os melhores filmes aqueles que fiz que zombavam de si mesmos.

Plath: Porque?

Price: (risos) Porque ele não se levan à sério. Porque Roger Corman não se leva à sério. Quando fizemos “The Raven” pegamos apenas o título do poema do Poe, porque é impossível fazer um filme daquele poema!

Enxertos da entrevista realizada com Vincent Price por James Plath, 1985, para o fanzine “Clockwatch Review”.

E para finalizar este post em homenagem ao aniversário do Vincent Price, um ator que tenho verdadeira adoração/veneração, segue três entrevistas com ele:

Jayme Cortez e o Finis Hominis

Posted in Posters with tags , , , , , , , on fevereiro 20, 2011 by canibuk

Encontrei na revista “O Grande Livro do Terror!” número 1 (que apesar do nome é uma revista em quadrinhos) da editora Argos, lançada em 1978, um importante depoimento do desenhista Jayme Cortez sobre a elaboração do cartaz do filme “Finis Hominis” (O Fim do Homem) de José Mojica Marins. Segue abaixo texto do próprio Jayme Cortez que na revista se chamava “O Cartaz no Filme de Terror”:

“A idéia para um cartaz de cinema é baseada no tema e no clima do filme. Geralmente o produtor fornece as melhores fotos de cena e uma sinópse da história onde o artista se inspira para criar o cartaz.

O caminho mais profissional e eficiente seria assistir ao copião do filme e criar uma proposição gráfica que despertasse o interesse do espectador e, como na maioria dos cartazes estrangeiros, principalmente dos filmes norte-americanos, produzir fotos especiais dentro das necessidades da criação, que nem sempre são atendidas com as fotos de cena.

O autor do cartaz, após um layout da composição dos elementos, dos efeitos da iluminação e da colocação dos letreiros, supervisionaria a produção das fotos  dentro das suas proposições, sugeridas no layout aprovado. Esse tipo de esquema não é difícil se a produção do filme, na sua fase final, ainda com todos os elementos em ação, produzisse as fotos especiais para o cartazista contratado.

Durante a produção das fotos, o autor dirige a composição dos modelos no clima da luz, construída para dar os efeitos estudados. Várias fotos são tiradas, com variações para uma seleção final. É necessária a colaboração técnica do diretor de fotografia, além da assistência da produção do filme. Todo o esquema de luz das figuras centrais é mudado para a foto do close do rosto.”

Nesta altura do texto Jayme Cortez começa a falar dos cartazes nacionais que ele fez pro “The Curse of the Cat People” (“Maldição do Sangue de Pantera”, 1944, dirigido por Gunther Von Fritsch e Robert Wise) e “Isle of the Dead” (“Ilha dos Mortos”, 1945, dirigido por Mark Robson), distribuidos aqui no Brasil, na época deste texto, pela Polifilmes. Achei melhor só transcrever o texto até na parte que continha referências ao cartaz do “Finis Hominis” do Mojica.

Abaixo uma seleção de fotos da produção do ensaio fotográfico que serviu de base para a feitura do cartaz (retirado da capinha do “Finis Hominis”, lançado em DVD pela distribuidora Cinemagia, que estavam com impressão melhor do na revista) e na seqüência o cartaz pronto em preto e branco e depois colorido.