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A Independência de Contos da Morte 2

Posted in Cinema, Entrevista, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on agosto 16, 2018 by canibuk

Em 2016 Vinícius Santos organizou e lançou o longa-metragem episódico “Contos da Morte”, que reunia os diretores Ulisses da Motta, Thiago Moyses, Rodrigo Brandão, Kayo Zimmermam, Julio Wong, Jeziel Bueno, Ivo Costa, Helvecio Parente, Calebe Lopes, Bruno Benetti e Ana Rosenrot, e que já está disponível no youtube para ser visto grátis:

Agora, Vinícius reuniu novos diretores, Ana Rosenrot, Cíntia Dutra, Danilo Morales, Diego Camelo, Janderson Rodrigues, Larissa Anzoategui e Lula Magalhães, para a segunda parte de “Contos da Morte”. O lançamento deste SOV que já nasce obrigatório está programado para outubro deste ano e o trailer já está disponível:

Fiz uma entrevista com os diretores da continuação:

Petter Baiestorf: Conte um pouco da sua trajetória nas produções brasileiras:

Vinícius Santos: Minha história com o cinema independente começou por acaso, em 2008 fiz meu primeiro curta caseiro e trash, com toques de humor negro. Foi o “Cereal Killer”, que ganhou alguns prêmios na época aqui em Jacareí, depois peguei uma paixão pelo cinema, ainda mais eu que adoro filme trash, então não vi dificuldade alguma pra realizar meus filmes trash. Fiz vários curtas desde então, alguns longas como “Steve Cicco”, “Iandara”, “Exorcistas Carinhosos”. Realizei meu sonho de conhecer  José Mojica Marins, o eterno Zé do Caixão, até entregamos um prêmio a ele. Dirigi um documentário com Liz Marins e realizei um sonho  de dirigir um filme meu com a Monica Mattos, ex atriz pornô. Comecei a mandar e exibir meus filmes em alguns festivais nacionais e internacionais, conheci também cineastas que já admirava, como Petter Baiestorf e Rodrigo Aragão, fiz novas amizades e parcerias também, acabei sendo convidado para participar na produção de um longa-metragem co-produção Brasil e Londres em 2017, um filme indígena que mistura drama e fantasia chamado “Goitacá”, tive prazer de conhecer alguns atores como Luciano Szafir, Lady Francisco e Leandro Firmino (o Zé Pequeno de “Cidade de Deus”), isso tudo graças aos filmes trash que desenvolvo, então percebi que estou no caminho certo.

Ana Rosenrot: O cinema sempre fez parte da minha vida, sou cinéfila por natureza e minha curiosidade me levou a pesquisar o cinema como um todo, buscando entender a importância da sétima arte para a cultura mundial e sua influência sobre as pessoas. Mas percebi que eu precisava participar da criação cinematográfica e em 2011 passei a fazer pequenos curtas experimentais, tudo muito simples, com a cara e a coragem, assumidamente trash e não parei mais. O primeiro curta que enviei para um festival se chama “Mistérios Obscuros”, ele foi premiado com o Troféu Corvo de Gesso em 2013, selecionado na 15ª Mostra do Filme Livre em 2015 e escolhido para compor a vinheta de abertura da sessão “Trash ou Cinema de Gênero?” da mostra. Em 2013, fui convidada para escrever sobre cinema para uma publicação Suíça, a Revista Varal do Brasil e criei a Coluna CULTíssimo, especializada em cinema e universo Cult. Também em 2013 juntei forças com a Vproduções Cinematográficas e participei como diretora, produtora e atriz em curtas e longas. Destaque para o longa-metragem “Steve Cicco – Missão Popoviski”, o curta-metragem “Samantha” (que dirigi com o Vinícius e protagonizei), as duas edições da Mostra Monstro e o projeto “Contos da Morte”. Em paralelo, me dedico a criação e a divulgação literária e continuo com minhas produções pessoais, rodando os festivais com curtas experimentais e vídeo poemas voltados para o ativismo cultural e as causas femininas. Já ganhei sete prêmios, participei de muitos festivais e mostras e pretendo seguir acreditando no cinema nacional e feminino apesar de todos os obstáculos.

Cíntia Dutra: Certamente assim como todos os envolvidos no “Contos da Morte”, sempre fui apreciadora do cinema de horror, independente da nacionalidade. Na verdade, me considero muito mais fã e pesquisadora do gênero horror, que realizadora. Mas isso, juntamente com a minha formação (em Fotografia) trouxe a possibilidade de realizar alguns projetos. Onde em 2007 dirigi o curta “Obsessão”, posteriormente em 2008, “Extrato”, em 2015 o “Retratos” e agora o “Entre Nós” que fará parte do projeto.

Danilo Morales: Em 2012 meu primeiro filme em HD foi “Adega de Sangue”. Em 2015 veio o projeto “Trilogia do Terror” com os filmes media metragem “Telecinesia – Entre a Cruz e o Balaço” e “A Corrente de Menon”. A produção de curtas foi intensa. Uma media de três por ano. Em 2016 “Astarte- O Assassino do enforc a Gato” e “Até que a Morte nos Separe”. Em 2017 “Quiromania Ninfomaníaca” e “O Lago”. Em 2018 “Vilarejo Libertino”, “Casa de Xangô” – o filme longa metragem “Cemiterio das Moscas”, antologia de três diretores. E “Contos da Morte 2”. Antologia com vários diretores envolvidos. Os filmes estão correndo festivais nacionais e internacionais.

Larissa Anzoategui: Eu comecei a experimentar o audiovisual em, acho que, 2008, quando fiz um curta maluco chamado “Zumbis do Espaço de lá” para o meu TCC do curso de artes visuais. Depois de um tempo fui morar em São Paulo para estudar fotografia e lá entrei em contato com outras pessoas que tinham vontade de produzir e tinham grana zero como eu. Nos juntamos gravamos um curta, o “Limerence’, com roteiro de Paula Febbe, que só foi ficar pronto mesmo no final do ano passado, mas estava gravado esperando finalização desde 2012. Gravo sempre quase com a mesma equipe desde o “Limerence”: Pedro Rosa na direção de fotografia, Renato Ramos Batarce ajudando na produção e o meu marido, Ramiro Giroldo, que hoje escreve todos os roteiros da Astaroth Produções. Até agora temos lançados quatro curtas (“Red Hookers”, “Natal Vade Retro”, “Limerence” e “A Janela da Outra”) e um longa (“Astaroth”). Tem agora o “Fatal” também, que faz parte do “Contos da Morte 2”. Meus filmes são de terror, minhas inspirações são aquelas produções dos anos 80, principalmente as que eram feitas para o mercado de VHS. Busco um terror meio aventura, algo divertido. Monstros que não existem. Nas minhas produções a força e o foco estão sempre nas personagens femininas. Afinal de contas, elas sempre estiveram presentes nos filmes de terror, mas ao invés de ser apenas mais uma vitima, a mocinha bonita gritando, aqui elas levantam e enfrentam o monstro que as vezes é a monstra também.

Diego Camelo: Sou Estudante de Cinema do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade de Fortaleza, meu primeiro curta metragem foi o “Tirarei as Medidas do seu Caixão” que é um filme-homenagem ao personagem mais icônico do Terror brasileiro, que é o Zé do Caixão. O filme foi muito bem recebido por onde passou, consegui inclusive espaço para exibição do curta no Canal Brasil no programa “Pausa para o Café” e é também dos filmes que realizei até aqui, o que mais circulou por festivais afora. Ainda dirigi e produzi os curtas metragem “A Incrível História do Gorila” e “O Vampiro”. Todos os curtas estão disponíveis na internet.

Lula Magalhães: Comecei em 2013 com o filme “Mandala Night Club”. De lá pra cá não parei mais, sempre venho mantendo uma média de uma a duas produções por ano. Sempre produzi na esfera do terror e sempre produções 100% independentes, ou seja, sem dinheiro público.

Janderson Rodrigues: Comecei trabalhando em produtoras independentes até abrira minha há quatro anos. E estou tentando sobreviver até então.

Dor (Lula Magalhães)

Baiestorf: Como surgiu o projeto de Contos da Morte 2?

Vinícius Santos: Eu já havia feito projetos em parceria com cineastas de outras localidades e regiões, inclusive fora do país, sempre tive vontade de fazer algo parecido com o ‘’ABC da Morte’’ e resolvi convidar alguns cineastas para uma antologia chamada ‘’Contos da Morte’’, lançado em 2016. A idéia para o “Contos da Morte 2” surgiu dentro do Festival Boca do Inferno no lançamento do primeiro filme, durante um bate-papo, após a exibição me perguntaram se haveria uma continuação, deixei a possibilidade em aberto, mas muita gente pediu essa continuação e então resolvi juntar uma galera, a idéia era não repetir os cineastas do primeiro, e, ao invés de 12, nesse segundo seria apenas 10. Mas no fim muita gente não deu conta e desistiu, eu acabei tendo que entrar nos momentos finais do projeto devido ao prazo de entrega, não teríamos mais tempo de convidar novos cineasta pra se juntar ao grupo. Então esse segundo “Contos da Morte” conta com sete histórias e oito cineastas do cinema independente.

Ana Rosenrot: O projeto surgiu no Festival Boca do Inferno, durante o lançamento da primeira edição, quando o criador do projeto “Contos da Morte”, Vinícius J. Santos, foi questionado sobre a possibilidade de uma continuação e após o festival ele entrou em contato com outros realizadores e decidiram fazer uma sequência. Primeiramente a ideia era não repetir nenhum dos diretores do primeiro filme, mas, devido a algumas desistências, o Vinícius decidiu participar com um segmento e me convidou para dividirmos a direção. São ao todo sete filmes e oito cineastas participantes.

Cíntia Dutra: Em 2016, ao enviar o curta “Retratos” para algumas mostras, o Vinicius Santos o viu e fez o convite para realizar um novo curta para integrar o projeto.

Danilo Morales: O Vinicius me fez o convite. Ele fez o “Contos da Morte 1” e queria fazer uma sequência com novos diretores.

Diego Camelo: Fui convidado pelo idealizador do projeto Vinícius Santos, eu não conhecia o projeto e não tinha visto o filme anterior, mas curti bastante a proposta e quando rolou o convite aceitei de pronto, gosto dessa iniciativa da Antologia, juntar diretores de locais diferentes, fazendo filmes completamente diferentes sobre o mesmo assunto.

Lula Magalhães: Conheci o Vinicius quando meu filme “Invasor” participou da Mostra Monstro em Jacareí, SP. Surgiu o convite de participar da segunda edição e eu adorei a ideia.

Janderson Rodrigues: Estava fazendo a fotografia do filme “Cinco Cálices” quando o Vinicius me chamou para participar do projeto. Já tinha visto o primeiro em festivais e fiquei super feliz de participar do 2. Ai meu editor, na época, me pediu para escrever o roteiro, então falei que eu queria uma história que se passa na favela.

Diagnose Danação (Diego Camelo).

Baiestorf: Como chama seu episódio e qual a história?

Vinícius Santos: O segmento eu dirigi, junto da diretora Ana Rosenrot, também aqui de Jacareí, se chama “A Marca do Diabo’’ e é sobre uma moça que adquire um quadro de uma criança chorando, e coisas bizarras começam a acontecer até que ela descobre que aquele quadro tem uma história maligna por trás envolvendo pacto demoníaco e sacrifícios. História inspirada na lenda urbana dos Quadros das Crianças Chorando, muito famosa no Brasil na década de 80.

Ana Rosenrot: O episódio que dirijo com o Vinícius J. Santos se chama “A Marca do Diabo”, e é inspirada na maior lenda urbana dos anos 80: “Os Crying Boys” (quadros das Crianças Chorando). Ele conta a história de uma garota que depois de sofrer um terrível acidente, está internada num hospital e ao ser interrogada por policiais alega ter sido marcada pelo diabo após comprar um quadro de uma criança chorando.

Cíntia Dutra: O episódio chama-se “Entre Nós”, e conta a história de um casal, com uma relação um pouquinho turbulenta, regada a sangue e insanidade.

Entre Nós (Cíntia Dutra).

Danilo Morales: “Heterocromia”. Simmel sofre preconceito por ter heterocromia. Seu alter ego maligno, representado pelo olho azul, é desperto quando o demitem do serviço. Filme experimental em primeira pessoa, de humor negro, uma crítica social da crise em nosso país.

Larissa Anzoategui: Meu episódio é o “Fatal”. Conta a história de um rapaz que lança cantadas online e acha que vai se dar bem, mas acaba se metendo em uma enrascada.

Diego Camelo: O nome é “Diagnose Danação” e é livremente inspirado no livro Frankenstein da Mary Shelley, pode até ser temerário dizer que é livremente inspirado, por que imagino que alguém possa tentar fazer comparações ao livro, eu tinha acabado de reler a história quando o Vinicius chegou com o convite, alguns elementos da história da Shelley estavam muito vivo na minha memória por isso tentei pegar o mote central da história e adaptar. Fui atrás do filme Frankenstein da Hammer Filmes, com o Peter Cushing, e fiz algumas modificações. A história é basicamente a relação de um médico e um paciente que não queria ser salvo, depois de vários anos sofrendo de uma doença autoimune, o paciente tenta tirar a própria vida, mas o médico o salva, o paciente acredita que estar vivo é uma espécie de punição e culpa o médico, passando então a persegui-lo.

Diagnose Danação (Diego Camelo).

Janderson Rodrigues: O filme se chama “Morro dos Mortos”. A historia de Bento que fica preso durante 10 anos e ao sair tenta uma vida nova, mas os fantasmas das pessoas que ele matou voltam para cobrar algo .

Lula Magalhães: Se chama “Dor”. O filme narra a trajetória de três psicopatas insanos que alimentam uma estranha criatura com carne humana.

Dor (Lula Magalhães).

Baiestorf: Como foram as filmagens dele?

Vinícius Santos: Tivemos seis meses de gravações, até que foi bem rápido, não tivemos tanta dificuldade por ter muitas cenas com poucos diálogos, algumas locações bacanas como um antiquário e um hospital, que nem imaginávamos se conseguiríamos ou não, mas no fim deu tudo certo com o apoio da Prefeitura Municipal de Jacareí. Até achávamos que teríamos dificuldade, pois filme de terror não é visto com bons olhos em Jacareí, mas arte é arte e conseguimos até fazer as cenas com um Diabo por lá.

Ana Rosenrot: Até que foram bem tranquilas; claro que tivemos algumas dificuldades, o que é muito comum quando falamos em cinema independente, pois, trabalhar com baixo ou nenhum orçamento, equipe pequena e locações sem controle externo, sempre acarreta alguns atrasos ou imprevistos (a greve dos caminhoneiros nos afetou um pouco). O importante é ser capaz de improvisar quando é necessário e poder contar com pessoas engajadas no projeto e nisso tivemos muita sorte, os atores e a equipe estavam maravilhosos.

Bastidores de uma das cenas do filme:

Cíntia Dutra: As filmagens aconteceram na metade do ano passado (2017), em um final de semana bem corrido, onde tudo teve que ser filmado por conta dos recursos disponíveis. A equipe formada por amigos da faculdade e parentes, que tenho que agradecer por ter trabalhado por três xis burguers, é a mesma equipe que trabalhou no curta anterior, “Retratos”, o que tornou o processo muito agradável.

Danilo Morales: Foi um desafio. Nunca tinha gravado nada em primeira pessoa. O episodio foi gravado em um dia e teve um verdadeiro banho de sangue. Um boneco foi confeccionado para ter a cabeça esmagada. Ficou fantástico a cena da cabeça partida. Infelizmente a câmera travou nesse momento. A solução foi refazer a cena de forma desfocada, pois o boneco já estava estourado. Mas foi bem divertido. O episódio não foi feito para ser levado a sério. Tem muito humor negro e critica social.

Larissa Anzoategui: Foi muito rápido, em um dia gravamos tudo. Mas foi rápido assim porque reaproveitei uma cena do “Astaroth” que não ficou no corte final. Mas mesmo assim, tem o começo que está no corte final do longa e está também lá no curta, bem plena e cara de pau. Para fechar uma história com este reaproveitamento, tiramos um dia do final de semana para gravar. Equipe bem reduzida, eu dirigi, filmei, montei a luz e o cenário, o Ramiro ajudou bastante, sendo o assistente em todas essas funções. A terceira pessoa da equipe era a maquiadora, Palmira Nogueira, que sempre trabalha com a gente. Para compensar o elenco era maior que a equipe: Sete atrizes e um ator.

Diego Camelo: Foi bem caótico (risos). Muito por que tivemos muitos atrasos em relação a locações, principalmente. Tivemos problemas pra conseguir a locação do hospital, por exemplo. Lembro que num dos dias de gravação Fortaleza passou por uma onda de ataques a ônibus e isso dificultou todo tipo de transporte na cidade, atrasando bastante o dia de filmagem. O importante pra que tudo desse certo foi ter uma equipe e elenco que mesmo nas dificuldades se dispôs a fazer as filmagens darem certo.

Lula Magalhães: Foi bem louco. Muito cansativo. Quatro dias de gravações intensos. Gravar de forma independente exige muito mais da equipe porque os recursos são mínimos. Mas tudo muito satisfatório no final.

Janderson Rodrigues: Vou deixar o trailer do filme.

Baiestorf: Algo curioso que rolou nas gravações que pode contar para nós?

Vinícius Santos: Tem um fato curioso que aconteceu durante a escolha das locações, em uma das cenas do filme foi filmada em um antiquário. Tínhamos um bem chique, estava tudo certo para filmar, toda equipe aguardando no local, mas por algum motivo o dono da loja não apareceu e tivemos que adiar. O jeito foi utilizar nosso plano B, outro antiquário, era mais simples, mas acabou que combinou muito mais, pois o filme era inspirado em uma lenda dos anos 70 e 80 e o antiquário tinha peças da época, no fim. Deu super certo essa mudança de planos.

Ana Rosenrot: Estávamos numa locação e o nosso ator estava maquiado e pronto para entrar em cena. Enquanto aguardava ele ficou ensaiando e se movendo pelo local. Foi quando percebemos que um senhor que passava na rua estava olhando pela vidraça, ele ficou parado, com os olhos arregalados, horrorizado. E ficou ali por um tempo, indeciso, depois baixou a cabeça e saiu. Ele percebeu que era somente uma pessoa maquiada, pensou que era algum tipo de pegadinha, ou acreditou que estava vendo uma entidade demoníaca? Nunca saberemos, mas o episódio rendeu boas risadas e mostrou que, pelo menos, a maquiagem estava assustadora.

Carolina Venturelli em A Marca do Diabo (Vinícius Santos e Ana Rosenrot).

Cíntia Dutra: Há uma cena no curta que foi filmada em um hospital real, e foi necessário realizá-la na correria, pois segundo o médico que cedeu o leito hospitalar, em final de semana com feriado o risco de precisarem do quarto as pressas era grande. Por sorte não fomos interrompidos. Pagamos 50 reais pelo aluguel de um vestido de brechó. Isso é todo o orçamento do filme!

Elenco de Entre Nós com a diretora Cíntia Dutra.

Danilo Morales: O mecanismo utilizado para esguichar sangue do pescoço da vitima foi feito de forma bem arcaica e barato. Uma mangueira de nível acoplada a uma bomba de encher bicicletas foi a responsável, para de forma mecânica, esguichar o sangue. A faca utilizada era retrátil.

Diego Camelo: Não sei se responde bem a pergunta, mas houve algo engraçado durante as filmagens, fomos gravar uma das cenas mais importantes pro filme e do lado da nossa locação tava rolando uma missa a céu aberto e isso atrapalhou bastante principalmente na questão do som, aí a nossa atriz Gabriela Willis, maquiada com sangue no rosto, foi lá pedir gentilmente pra que os fiéis baixassem o volume (risos).

Lula Magalhães: Sempre digo que fazer filme de terror é muito mais divertido do que fazer filmes de comédia. Foram vários momentos hilários durante as filmagens. Fica até difícil de falar de um específico.

Janderson Rodrigues: No primeiro dia de filmagem estava marcado para começar as 17:30 e terminar as 20:30 e o ator principal não apareceu e ninguém conseguiu falar com ele, então quando estava para cancelar, ele apareceu com o joelho todo inchado e mão enfaixada porque tinha sofrido um acidente de moto e estava no hospital.

Larissa Anzoategui: Olha, as meninas tiveram que passar o dia semi nuas e com maquiagem de efeito na cara. Aí virou uma grande piada tudo o que elas faziam, elas mesmas ficavam tirando sarro umas das outras. Em certo momento, num intervalo, uma das meninas estava agachada olhando o celular, passou a Simone Galassi, que é super piadista e soltou: “Olha! O demônio cagando!”. Só coisas assim mesmo, acho que foi engraçado para quem estava lá. Meio que piada interna. Não aconteceu nada de sobrenatural, nada de luzes caindo ou pessoas levitando (risos).

Diagnose Danação (Diego Camelo).

Baiestorf: Como estão os preparativos (e expectativas) para o lançamento em Outubro?

Vinícius Santos: Estamos já mandando pra festivais nacionais e internacionais, aproveitando que logo o Halloween está aí, e o que mais rola é festivais de horror. Mas a expectativa é grande pra fazer a primeira exibição pública, pra ter um feedback da galera.

Ana Rosenrot: Estamos nos concentrando na divulgação, que deve ser muito bem coordenada com todos os outros diretores e esperamos que o público goste de todos os segmentos, aprecie a diversidade de estilo dos diretores, se assuste e se divirta muito com nossos contos mortais.

Cíntia Dutra: A expectativa é grande, por fazer parte de um projeto tão bacana e com gente super qualificada (falo dos outros curtas – risos). E claro, sempre há a vontade de conferir pessoalmente a estréia, se a rotina e a distância permitirem.

Danilo Morales: A expectativa é alta. Sabemos que o cenário de guerrilha independente não é fácil. A solução é a união dos diretores. Não somos adversários, somos parceiros em prol do fortalecimento do cinema de gênero na região.

Diego Camelo: Estamos ansiosos pro lançamento do “Contos da Morte 2” e vamos fazer um novo corte com mais cenas pro curta, já que havia um tempo limite pra cada curta metragem, muito provavelmente vamos disponibilizar direto pra internet.

Larissa Anzoategui: Eu não vejo a hora de ver todas as histórias! No grupo do facebook a gente ficava trocando informações, postando fotos de bastidores, testes, trailers. Tô muito curiosa para assistir os outros curtas que estão no projeto.

Lula Magalhães: As melhores possíveis. Parte dos outros integrantes são meus amigos e estou muito feliz com a participação e trabalhos deles.

Janderson Rodrigues: Bom, os preparativos estão por conta do Vinicius, e a expectativa é grande porque as pessoas envolvidas são muito boas e também estou muito feliz porque o filme “Cemitério das Moscas” vai ser lançado esse mês e depois vem o lançamento dos “Contos da Morte”.

Dor (Lula Magalhães).

Baiestorf: O público terá o filme disponível para venda em mídia física (ou link online) quanto tempo após o lançamento?

Vinícius Santos: O filme será exibido apenas em festivais em um primeiro momento, após o prazo de um ano. A V Produções Cinematográficas está planejando um terceiro “Contos da Morte”, pra fechar a trilogia e quem sabe a gente possa lançar um box dos três em DVD.

Cíntia Dutra: Espero que haja mídia física sim, afinal é sempre bom ter mais um filme na prateleira.

Diego Camelo: Aí vai depender do tempo que o longa metragem “Contos da Morte 2” ficar em circulação e exibição por festivais e mostras, mas assim que passar essa fase com a Antologia, vamos lançar uma nova versão do curta na internet.

Janderson Rodrigues: O filme vai correr festivais e depois não sei se vai ser lançado em mídia, mas por mim eu lançamos em mídia física sim, ainda sou das antigas.

A Marca do Diabo (Vinícius Santos e Ana Rosenrot).

Baiestorf: No momento você está trabalhando em algum novo projeto? Pode falar sobre ele?

Vinícius Santos: Estou desenvolvendo mais dois novos longas, um é o ‘’Steve Cicco – A Última Porrada’’, um filme paródia de espionagem, a terceira parte de uma trilogia. E também estou finalizando o roteiro do ‘’Sexo, Pizzas e Filmes de Terror’’ que será uma antologia da V Produções com três histórias malucas ambientadas nos anos 80. É um filme que presta uma homenagem a filmes trash da época.

Ana Rosenrot: Atualmente estou me dedicando mais a literatura e ao ativismo cultural. Em 2017 criei a Revista LiteraLivre, uma publicação voltada para a divulgação de autores que escrevem em Língua Portuguesa, de todas as partes do mundo e a experiência tem sido incrível. Também estou planejando o lançamento de um e-book com as edições da Coluna CULTíssimo, no período de 2013 até 2016; continuo escrevendo novas edições da coluna, agora para a LiteraLivre e me dedicado ao meu gênero de escrita predileto: contos e poemas de terror, que pretendo divulgar um pouco mais. Claro que ainda tenho vários projetos cinematográficos, uns curtas inacabados que pretendo finalizar, convites pendentes, enfim, com certeza ainda vem muito mais por aí.

Cíntia Dutra: Projetos sempre existem, nem que seja no âmbito da imaginação. Mas estamos elaborando um novo roteiro, que ainda está em uma fase bem inicial.

Larissa Anzoategui: No final do ano passado e começo deste reuni uma galera aqui em casa para fazer uma maratona de gravações. Em duas semanas gravamos material para quatro curtas e um longa. Dessa produção tem um só pronto: “Janela da Outra”. Mas como eu e o Ramiro somos malucos, acabamos gravando outro longa agora no meio do ano. Era para ser só um curta e para ele pedimos para um artista, o Joni Lima, transformar nossa sala em uma cripta, usando papel e tinta mesmo. Quando ficou pronto ficamos tão empolgados, o Ramiro mais ainda porque estava numas piras com as obras de Byron, que resolvemos gravar mais uns curtas. E no final das contas virou um longa de antologia. Para amarrar todas as histórias gravamos uma quinta e dessa vez eu me meti a atuar também. Oremos! (risos). Este longa de antologia vai se chamar “Domina Nocturna”.

Domina Nocturna (Larissa Anzoategui).

Danilo Morales: Sim. Com previsão de lançamento para 2019. “Cemitério das Moscas II – Os 7 Pecados Capitais”. Sete diretores, cada um dirige o segmento de um pecado. (“Cemiterio das Moscas” está sendo lançado no dia 17 Agosto 2018). Filme longa metragem ainda tem meu filme “Poço Profano”, faz parte de uma dobradinha de diretores. Será gravado em preto e branco.

Diego Camelo: Estou me preparando pra rodar meu primeiro longa metragem, um documentário, mas não posso falar mais sobre por que ainda estamos na fase de pesquisa.

Lula Magalhães: No momento estou fazendo a pós-produção do filme que rodei no ano passado. Acabei de lançar um filme de bruxas chamado “O Pequeno Baú” que rolou no POE – Festival de Cinema Fantástico de São José dos Campos – SP e vai rolar no Cine Horror em Salvador – BA em outubro. Final do ano sai uma ficção científica com horror chamada “O Cavalo Marinho” e início de janeiro um filme que rodei em 2013, chamado “Incógnito”, também estará sendo lançado.

Janderson Rodrigues: No momento estou editando o curta “Povo das Sombras”, com a Lane ABC no papel mais normal dela; e fazendo a fotografia do curta “Não Vacile”, do diretor Ricardo Corsetie. Comecei a pré-produção do longa “Contos”, título provisório.

Baiestorf: Se quiser divulgar seu último filme já lançado, o espaço é seu:

Vinícius Santos: Meu último filme ‘’Steve Cicco: Missão Popoviski’’:

E esse ano ainda lançaremos ‘’Exorcistas Carinhosos’’, trailer já disponível:

Ana Rosenrot: Meus últimos filmes lançados foram “O Atalho”, que dirigi em 2017 (este filme recebeu o Troféu Corvo de Gesso e foi selecionado e exibido no 13º Cinefest Gato Preto); e também participei como produtora, diretora de arte e atriz no curta “Dia de Exorcismo” (2018), dirigido pelo Vinícius J. Santos. Deixo aqui os links do trailer do filme e também do meu site para quem quiser conhecer um pouco mais sobre o meu trabalho:

http://cultissimo.wixsite.com/anarosenrot

Larissa Anzoategui: “A Janela da Outra”. Quase um filme mudo, gravado em uma tarde, equipe muito pequena: Eu, Ramiro, Juciele Fonseca no som e a atriz, a maravilhosa Larissa Maxine. Sinopse: Quem está do outro lado da janela? O delírio, a paranoia e a fusão.

Cíntia Dutra: “Retratos” foi lançado em 2015 e felizmente foi exibido em algumas mostras.

Danilo Morales: Vou deixar o trailer do “Cemitérios das Moscas”.

Janderson Rodrigues: No momento não tenho eles disponíveis, entretanto, até o final do ano será lançado um DVD com os cinco filmes que dirigi.

Lula Magalhães: Acabo de lançar “O Pequeno Baú”, um filme de bruxas que narra uma versão da história de Lilith e de sua influência na vida de duas irmãs. O filme foi todo gravado dentro de uma garagem com fundos escuros, num esquema quase teatral.

Diego Camelo: Meu último filme foi “O Vampiro”, foi o filme que mais curti fazer e o que menos circulou, o filme já está a algum tempo disponível na internet, vejam por favor, foi feito com muito esmero. Segue o link:

Baiestorf: Obrigado pela entrevista e deixe aqui dicas para pessoal que esteja querendo fazer seu primeiro filme:

Ana Rosenrot: Eu é que agradeço pelo espaço e o apoio ao nosso trabalho e ao cinema independente. Sempre digo que o primeiro passo para fazer um filme é fazer um filme! Veja filmes (todo tipo de filmes, seja eclético), pesquise (temos muito material disponível na internet), estude (existem cursos ótimos, com bons preços e até gratuitos) e depois pegue sua câmera (de qualquer tipo) e filme o que der vontade, experimente, vá criando seus roteiros, chame os amigos, faça sozinho, mas faça, não fique a vida toda “pensando” em fazer. Não tenha medo de criar, seja paciente, não fique preso a falta de recursos, não se importe com o amadorismo, aprenda com seus erros, esteja preparado para suportar a crítica (que vai bater sem dó), insista até descobrir seu estilo, aceite que nunca agradará a todos e depois, é só deixar sua marca no mundo.

Vinícius Santos: A dica que dou pra quem está começando, ou pretende fazer seu primeiro filme, é pegar uma idéia, ou um roteiro, mesmo que simples e não pensar demais e nem inventar desculpas demais. É pegar e fazer. Não tem equipamento ou câmera? Faça com o seu celular, ou câmera emprestada, mas faça. Use o que tem na mão e sua criatividade, o importante é não desistir e fazer o que gosta!

Cíntia Dutra: Primeiramente eu que agradeço a oportunidade de divulgar o nosso trabalho, com certeza feito com muito carinho. E para o pessoal que deseja realizar seu filme, basicamente é: Vai e faz.

Janderson Rodrigues: Curtam a pagina no facebook Estrada Films. E para quem estiver fazendo seu primeiro filme, nunca desista, você só vai aprender na prática e sempre esteja preparado para escutar críticas positivas e negativas porque não existe filme ruim e sim gostos diferentes.

Diego Camelo: Eu que agradeço pelo espaço! As dicas que posso dar é estudar bastante, ver muito filme, juntar uma equipe que queira muito fazer os filmes e as suas ideias acontecerem e não desistir nunca! É isso, abraços!

Lula Magalhães: Paciência, organização, objetivismo, garra, criatividade, respeito pela equipe e um pouco de sorte são os ingredientes principais pra tocar uma produção de guerrilha.

Danilo Morales: Não desanimar. Não dar desculpas. Faça o filme com o que tiver em mãos. Um celular, uma câmera usada.  Instale um programa de edição e sempre vá se aprimorando, buscando evoluir.

Larissa Anzoategui: Não espere a equipe perfeita ou fazer tudo certinho. Acumule funções mesmo! Faça como der, mas faça da melhor forma. Procure pessoas que realmente vão se compromissar com a produção, principalmente com parcerias que ninguém vai ganhar nada de dinheiro. Pesquise e teste gambiarras para fazer uma iluminação massa!

Canal Vproduções no youtube:

https://www.youtube.com/user/EquipeVProd/featured

Site da Revista LiteraLivre:

http://cultissimo.wixsite.com/revistaliteralivre

Canibuk Apresenta: A Arte de Pomba Claúdia

Posted in Arte e Cultura, Cinema, Entrevista, Ilustração, Pinturas, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on março 13, 2018 by canibuk

Conheci a Pomba tem uns 15 anos em andanças por Porto Alegre. Possivelmente nos conhecemos em algum boteco cultural. Ou em alguma mesa de bar pós-exibições de filmes transgressores onde meus filmes eram programados, não lembro. Mas uma coisa é certa, assim que comecei a conhecer o trabalho de Pomba fui ficando fã e acompanhando na butuca.

Pomba faz de tudo. Além de desenhista, já fez música (“Pedra” é um punk hilário), curtas-metragens (“Pé de Cabra” é um dos episódios de “13 Histórias Estranhas” e agora está produzindo “Monstro”, de Magnum Borini), escreve contos e poesias. E desde 2006 participa do grupo de cartunistas GRAFAR, que edita diversos livros de cartuns (sempre coletivos). Mas para viver Pomba é professora de português e literatura.

Já tem livros publicados, participa do evento de cartum Cartucho em Santa Maria e atualmente gosta de desenhar coelhos. Fiquem com a entrevista que realizei com Pomba, é fantástico poder divulgar o pensamento iconoclasta desta fantástica artista livre.

Pomba Claúdia

Petter Baiestorf: Gostaria que você contasse como começou seu interesse pela arte e, também, sobre seus primeiros trabalhos.

Pomba Claúdia: Eu acho que sempre tive uma pira por tudo fora da realidade. A realidade consistia em ver meus pais brigando, horários políticos, notícias de televisão (mesmo que fossem mentira) ou tudo que tivesse alguma relação com o chato e burocrático mundo adulto. Fui uma criança solitária, filha única, guria de apartamento, criada pela televisão. Uma menina gordinha comendo milhopã na cama bagunçada aguardando os adultos voltarem do trabalho. Mas os adultos nem sempre foram esses monstros que estou pintando. Meu pai gostava (e gosta) muito de filmes, de desenhos animados e também de videogames… Absorvi estes gostos. Aos sete ou oito anos comecei a ganhar fitas VHS dos desenhos da Disney. Ao final do desenho animado da Branca de Neve tinha o making off do filme… Eu pirei com aquilo, foi tipo a primeira paixão platônica. Era aquilo que eu queria fazer. Mas aquilo mexeu muito comigo. Revi diversas vezes. Não me interessava o príncipe, não me interessava os sete anões (isso eu já assistia no “Histórias que Nossas Babás não Contavam”). Meu primeiro trabalho surgiu nessa época, na 1ª série, quando a professora levou meu desenho inspirado na música da “Dona Aranha” para a TV Cultura local junto com o de outros colegas. Eu liguei a TV por acaso e ela estava mostrando meu desenho. Isso me deixou muito feliz, pois eu não era uma criança lá muito enturmada e me senti valorizada. Acho que aí comecei a descobrir quem eu era… Mas ao falar para os meus pais, exaustos do trabalho, de saco cheio, que eu tinha decidido ser artista/desenhista/criadora de jogos e desenhos, eles me disseram que aquilo era coisa pra gente rica e que eu não teria me sustentar com aquilo. Como toda paixão, esse foi meu primeiro soco na cara dos sonhos “oquevocêquerserquandocrescer” que eu levei (e levo até hoje… muitos ainda). Acredito que isso deva acontecer com muitas crianças, mas eu continuei recortando da realidade esses sonhos, essas piras… Meus melhores brinquedos eram os lápis de cor, minha melhor companhia eram os desenhos animados, gibis, livros ilustrados e os joguinhos da Atari. Desenhava compulsivamente. Se isso é arte? Só depois me disseram…

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portfolio Cláudia

Baiestorf: Sua arte sofre influências de quais artistas e escolas estéticas. Fale o que te atraí neles, se quiser falar sobre os porquês seria muito interessante.

Pomba: Minha arte sofre. E sofrer influências é um dilema. Porque quando vi já estava sofrendo, roubando, parafraseando, recortando, fazendo um mosaico de coisas bonitinhas e ogras. Acredito que os melhores artistas são as crianças e os bêbados. As melhores escolas estéticas são os bares. Mas tentando organizar o grande pobre roubo de ideias, posso retomar o lance da Disney. Falem o que quiser da Disney, foi ali o pontapé inicial. Mas é claro, você cresce, vira adolescente e quer queimar todos os discos da Xuxa, quer inverter a cruz, jogar o jogo do copo, beber cachaça com gemada.  Comigo não foi diferente. Por não ter amigos, nem internet, provavelmente o que influenciou foram os filmes que passavam na Sessão da Tarde e no Cinema em Casa. Podem rir, mas a estética de filmes de Tim Burton, assim como “Elvira – A Rainha das Trevas” e “A Família Addams” podem ter me inspirado… Minhas princesas perderam os braços, ganharam chifres. Meus quadros ganharam cores escuras. Eu pintava com qualquer coisa em qualquer lugar. Era libertador… Mas tudo foi jogado fora por mamãe. Só lá por 2001 comecei a organizar minhas influências e comecei a me identificar com a arte surrealista. A seguir, meus desenhos ainda tratando de temas mórbidos, começaram a ter um teor mais zueiro. Em 2004, busquei um curso de desenho animado que serviu para que finalmente conhecesse outras pessoas que desenhavam. Até ali não conhecia ninguém. Meu amigo e ilustrador Guilherme Moojen então me apresentou em 2006 a GRAFAR, um grupo de cartunistas e grafistas aqui de Porto Alegre que se reuniam semanalmente no bar Tutti Giorni. Apesar dos meus desenhos sem muita técnica, eles me acolheram e logo me convidaram para participar de um livro, chamado “Sem Trégua” em 2006. Considero esse boteco minha escola de arte. Esses senhores, Edgar Vasques, Eugênio Neves, Ubert, Hals, Ruben, Santiago, Pedro Alice, Lancast, Moa e, posteriormente, Carla Pilla, foram os meus primeiros e melhores professores. Inspirada no trabalho desses amigos meus desenhos sombrios ganharam cor, meu traço foi ganhando e ainda ganha a cada dia mais personalidade. Cada um com seu estilo me inspira de uma forma. O traço brusco do Ruben e a segurança da linha e simplicidade humorística do Santiago. O volume através das hachuras do Eugênio Neves, as aquarelas da Carla Pilla, enfim… Todas as terças eu saía desse bar mais inspirada e feliz de ter encontrado pessoas que gostam de desenhar enquanto conversam. O meu desenho, assim como textos, manteve um humor sádico, ácido e, em alguns casos, erótico. Descobria a cada encontro novas técnicas, novos estilos e novas inspirações como as ilustrações fodas da Mariza Dias e as putarias da Melinda Gebbie.

Baiestorf: Com sua arte você está aberta a todo tipo de trabalho ou gostaria de se especializar somente em uma área? Por quê?

Pomba: Quem me conhece sabe que também curto fazer filmes, músicas, poemas, contos, produzir eventos… Além de ser professora de português (o que pode parecer chato pra caralho, mas como envolve linguagem tá valendo). Então acabo diversificando meu trabalho em outras áreas também. É um surubão de áreas. Um estilo esquizofrênico. Por isso, sou bem aberta (rará). Sendo o espaço para arte independente (que é meu caso) tão limitado financeiramente, eu curto mesmo é chutar o balde. Às vezes me sinto uma fraude. E acho que isso faz parte de mim e justifica por eu ter trabalhos tão diferentes uns dos outros… Além disso, acho uma lindeza essa coisa de misturar cheiros, gostos, texturas, barulhos… Animação, cinema, música, uma explosão sensorial. Acredito que quebrar um estereótipo artístico ajude a tirar esse bundamolismo da arte. A arte teria que ser o grito de expressão, arte é cortar a orelha e brigar no bar, arte é chorar em cima da tinta e borrar tudo… Arte teria que ser algo que te atinja individualmente, mas que também atinja os outros, seja para agradar ou para incomodar. Algumas pessoas acreditam que primeiro você aprende a técnica e depois você cria. Eu prefiro brincar com as ideias, jogá-las no papel, na tela, no caderno e depois pensar no que pode ser feito – ou não. Elevar o padrão limita a criação. Há liberdade na ignorância, assim você se inspira de forma mais inocente e inconsequente. Se eu me especializasse em uma área, creio que perderia um pouco disso.

Assista o curta-metragem Pé de Cabra:

Baiestorf: Conte sobre suas exposições e como produtores poderiam levá-la para suas cidades/estados.

Pomba: Até agora só fiz exposições coletivas. Muitas em Santa Maria, em um evento de cartunistas chamado Cartucho, organizado pelo querido Máucio Rodrigues.  Devo ter participado de pelo menos umas cinco exposições lá. Todos os anos é sorteado um tema e a gente faz cartuns sobre aquilo em 24 horas. É bem massa. Pra falar a verdade, tenho poucos desenhos para expor. Os melhores estão em cadernos pautados ao lado de anotações de aula ou em guardanapos de bar… Para uma exposição de folhas pautadas rabiscadas e guardanapos sujos com desenhos eu teria muita coisa. Mas às vezes vêm momentos de luz e faço algo a mais, um quadro com objetos colados, uma aquarela bonitinha… Daí esses guardo, reproduzo em forma de imã, zine e o que mais for… Eu romerobritizo minha arte. Mas no fundo eu sou a desenhista de bar, ou de alguma sala de aula… Faço desenho e dou de presente. Talvez eu devesse omitir essas coisas, mas acho que é um traço da essência do que faço, um desapego. Até porque, não tenho espaço para acervo, moro num apartamento de 30m²… Se alguém tiver um espaço para eu pintar grandes quadros e paredes, ficarei muito feliz. Quem quiser me chamar pruma exposição, propor um tema ou juntar meus esboços e artes existentes meu email é claudiadrb@gmail.com ou pelo telefone 55 51 992792662. Meu trabalho pode ser visto no meu site https://claudiadrb.wixsite.com/borborini/copia-inicio, na página do Facebook: https://www.facebook.com/pombadesenhos/ e alguma coisa no Instagram: @pombaclaudia

Baiestorf: Como é realizar trabalhos artísticos aqui no Brasil? Há reconhecimento? Oportunidades?

Pomba: Como eu disse, meus pais me deram o soco de realidade aos sete anos quando falei com inocência que eu gostaria de ser artista. E cresci com esse pensamento. Pra não me iludir acabei virando professora de língua portuguesa, o que também não tem reconhecimento (risos). Então o que move minhas criações não é bem o reconhecimento, mas a necessidade de criar, de me sentir parte de algo que eu goste, que me faça me sentir eu. Claro que quando ganho dinheiro com meus desenhos, meus filmes ou meus textos eu me sinto incrivelmente feliz pelo reconhecimento, ao mesmo tempo em que acho estranho, pois, como eu disse, isso não foi construído em mim. E confesso que não me orgulho de ser assim, gostaria de poder falar com firmeza o valor de um quadro e passar um orçamento convicto de uma ilustração. Ainda assim, as oportunidades não caem no colo. Vejo uma galera muito mais talentosa e empenhada do que eu, investindo, trampando muito pra poder aperfeiçoar e assim conseguir um retorno de sua arte, ainda mais quando se trata da arte impressa, tendo em vista que hoje em dia temos muita coisa pronta no computador, que é só imprimir e pendurar na parede da sala. Portanto, considero desproporcional o número de oportunidades para a arte em relação ao desejo de se investir nisso. Acaba que muitos trabalhos fodas e autorais acabam virando logos com cara de trampo de design gráfico, assim como muito filme independente fica com a maior pinta de propaganda publicitária. Por essas e outras, eu me pego vergonhosamente acreditando que pra ganhar grana com arte você já precisa ter grana. Conheço gente que só pinta com material caríssimo, eu uso guache, pinto no papelão, uso a sobra da tinta que usei pra pintar a parede da sala de casa… Acabo me inscrevendo em concursos e festivais gratuitos, catando oportunidades de graça e tentando me enfiar onde dá. Mas os reconhecimentos e oportunidades são que nem uma cova, tem que cavar para achar algo.

Zumbizinhu Inédito

Baiestorf: Você está com trabalhos em finalização? Poderia falar sobre eles e como o público poderá acompanhá-los?

Pomba: Meu próximo e mais desejável trabalho é sobre Coelhos. Não tenho como falar muito sobre ele no momento, mas vou colocar o primeiro quadro que me inspirou a desenvolver uma série sobre esse rico animalzinho.

Baiestorf: E seus projetos? É possível sabermos um pouquinho deles?

Pomba: Esse ano pretendo montar junto a outras garotas um coletivo chamado Útero Underground. É uma ideia que ainda está no útero (rá), mas que em breve será melhor desenvolvida e que consistirá não apenas nas artes visuais, mas também na elaboração de músicas, barulhos, vídeos e o que mais vier ao encontro de construir um espaço libertador e sem tantos pudores em relação ao que a gente entende por arte. Paralelo a isso, estou aguardando o contato de alguns amigos da GRAFAR para a pintura de painéis, pretendo fazer um desenho animado e uma exposição de coelhos tarados.

Baiestorf: Geralmente a arte no Brasil é produzida de forma independente e é difícil conseguir se manter. O que você gostaria de observar sobre isso.

Pomba: Cara, acho que é o que falei antes… A gente se enfia onde dá, claro, em alguns casos a gente pensa nos princípios e não vai se enfiar de cabeça quando estão envolvidas pessoas escrotas que só pensam em explorar e lucrar a custa dos outros. Fora isso, nem todo mundo tem a oportunidade de fazer uma faculdade de arte. Vou falar da de cinema também, pois sabemos que cinema é caro pra cacete. Daí a gente acaba fazendo muita coisa de graça na troca de experiência, para apoiar os amigos que também não tem grana e isso vira um grande ciclo da horripilante mágica de se fazer arte de graça sem ganhar nada em troca. Acho que essas iniciativas como o teu blog, assim como rádios online, coletivos independentes, financiamentos coletivos, formas preliminares da gente sair do limbo e começarmos a desenvolver uma estrutura que pague nossas contas. Mas não só isso. O que eu vejo e que pouca gente comenta é como o artista independente muitas vezes está alienado do povo, da galera da periferia que também faz parte da outra margem independente da arte, como é caso da pixação, grafite, stencil chamem como quiser. O perfil da galera “independente” “underground” muitas vezes é branco, classe média, universitário. E a outra área independente? Fico pensando que louco seria toda essa galera se reunindo, aprendendo uns com os outros, compartilhando cultura, técnica, fugindo dessa aprendizagem acadêmica muitas vezes elitista e enfadonha. Exposição de arte é aquele perfil de homem de coque, magrinho, segurando a taça de Salton e conversando com a garotinha esnobe que admira pra caralho Miró, ambos intrigados com a popularidade do Romero Britto, expondo algo dito independente . Enquanto do lado de fora do prédio algum garoto leva um pau da polícia por fazer um desenho em um muro. Talvez o que falte para a arte independente conseguir se manter é incomodar um pouco, ter uma voz mais ousada, mais politizada, mais envolvente e que convide diferentes grupos ditos independentes a se observarem. Enfim, é manjado, mas é isso, a união faz a força.

Boteco de Ideias

Baiestorf: O espaço é seu para as considerações finais:

Pomba: Eu gostaria de agradecer ao Petter Baiestorf por essa oportunidade de eu falar sobre minha arte. Às vezes não sei como consegui conhecer tanta gente foda e incrível, pois soa estranho pra mim ser chamada de “artista”. Sempre achei que artista fosse ou Picasso, Salvador Dalí, ou na contemporaneidade alguma Big Brother que pousou nua. Então essa palavra me deixa com uma certa crise de personalidade. Alguns lugares dão desconto se você diz que é da “classe artística” aqui em Porto Alegre. Acho isso um sarro, pois o que te faz artista? Se eu colocar meu dedo no nariz e dizer que é uma performance serei artista? É muito louco isso. Outra coisa que muitas vezes me deixa desconfortável com o termo artista é quanto ao rebuscamento da arte em relação ao gênero. Tem homens que limpam a bunda e expõem em uma parede e afirmam seguramente que é “arte”. Mulheres desenham a sujeira da unha da modelo-vivo e se questionam se a sujeira está na proporção correta ao tamanho da unha. Eu não sei as outras, mas sinto essa pressão ao perfeccionismo. Você não pode ousar dirigir, tocar guitarra, desenhar, fazer um filme se você não fizer algo incrivelmente bem. Você não pode tocar os acordes errados ou errar o local da luz em um quadro.  Confesso que isso me incomodava, pois muitas vezes deixei de fazer as coisas por não me sentir boa o bastante, por não me sentir pronta o bastante, enquanto simplesmente eu deveria ter feito e mandado todo mundo à merda com suas técnicas, medidas e manuais.

Contatos de Pomba Claúdia:

email: claudiadrb@gmail.com

Telefone: 55 51 992792662.

Site: https://claudiadrb.wixsite.com/borborini/copia-inicio

Facebook: https://www.facebook.com/pombadesenhos/

Instagram: @pombaclaudia

facebook: https://www.facebook.com/claudia.pigeon

Mais: https://claudiadrb.wixsite.com/borborini/sobre

Artes de Pomba Claúdia:

Canibuk Apresenta: A Arte de Daniela Távora

Posted in Arte e Cultura, Ilustração, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on março 1, 2018 by canibuk

Conheci a Daniela Távora por conta do Cine Bancários de Porto Alegre, onde ela é gerente e eu, geralmente, faço a primeira exibição de meus novos filmes. Pouco depois tomei contato com a arte de Daniela através de um fanzine sem título que ela lançou (aliás, sem nenhuma palavra escrita, somente imagens) e que passei a admirar os traços dela. Daniela é das minhas, nada contra a corrente e não tá interessada em entregar as coisas para o público de mão beijada.

Daniela é formada em Artes Visuais pela UFRGS e um tempo atrás começou a experimentar em todo o tipo de arte, inclusive vídeo e fotografia, como essa abaixo, de uma série ainda inédita feita em parceria com o Itapa Rodrigues.

Daniela Távora

Atualmente produz vídeos, fotografias, zines, histórias em quadrinhos, ilustrações e baralhos de tarô. Sua pesquisa artística se apropria da linguagem cinematográfica de horror, terror e suspense, norteadas por abordagens fantásticas e micro narrativas pessoais.

Fiz uma entrevista com Daniela para apresentá-la aos leitores do Canibuk. Se você gostou do trabalho dela, entre em contato e encomende alguma peça.

Petter Baiestorf: Gostaria que você contasse como começou seu interesse pela arte e, também, sobre seus primeiros trabalhos.

Daniela Távora: Meu interesse pela arte surgiu logo após os primeiros esculachos que a vida fez comigo. Revolta, frustração e sentimento de impotência, ainda na adolescência, me fizeram sacar que se eu xingasse todos os escrotos que haviam ao meu redor, em uma folha de papel, apesar de nada acontecer com os alvos da minha raiva, eu poderia ter alguns textos mais ou menos interessantes. Tentei o teatro, mas era muito tímida, não deu certo. Além da escrita, descobri no desenho uma maneira de expressar o que sentia. Sempre tive a mente muito poluída pelas porcarias que passavam na televisão, logo comecei a ver muitos filmes, o que aos poucos foi me despertando o interesse pelo vídeo e fotografia.

Baiestorf: Sua arte sofre influências de quais artistas e escolas estéticas. Fale o que te atraí neles, se quiser falar sobre os porquês seria muito interessante.

Daniela: Praticamente tudo na minha vida aconteceu por acidente inclusive a arte. Quando pequena por algum motivo, eu estava entediada e abri um livro, que era da minha mãe, da Gnosis (aquela seita esquisita), onde haviam várias ilustrações da divina comédia. Fiquei apaixonada e apavorada. Eu era tão preguiçosa que nem me prestei a ler o nome do cara que tinha feito os desenhos. Tarde demais, eu já tinha aquelas imagens tão profundamente impressas no meu cérebro que só conseguia desenhar coisas muito parecidas. Muito tempo depois que fui descobrir que eram do Gustave Doré. Mais tarde conheci Eddie Campbell, Hitoshi Iwaaki, Harry Clarke, Jake e Dinos Chapman e William Kentridge que me influenciaram muito. Meus filmes preferidos sempre foram os mais baratos, diferentes ou com roteiro doidão. O Bandido da Luz Vermelha e Abismo de Rogério Sganzerla, Os Idiotas de Lars Von Trier, Filme Demência de Carlos Reichenbach, A Noite dos Mortos-Vivos, de George Romero foram muito importantes para mim, praticamente uma escola. Vendo filmes de Zé do Caixão, da Boca do Lixo, pornochanchadas e Petter Baiestorf descobri que o que eu queria estava muito perto de mim, e que eu poderia fazer o vídeo que eu quisesse, onde eu bem entendesse, com a câmera de qualquer amigo e a participação de todos os malucos (que eu amo) que estão só esperando um convite para fazer cenas de terror, morte e nudez. O terror me interessou mais, pois temas como família, convivência em sociedade, egoísmo, solidão, desigualdade e amor são explorados a partir de rupturas sinistras com a realidade. Histórias do universo White Trash, a burrice e a tosquice das pessoas, dramas comuns a adultos frustrados, adolescentes feios e sem perspectiva de futuro e crianças largadas aos próprios cuidados, pertencentes a famílias dissolvidas pelo capitalismo é como se fossem histórias feitas em homenagem a mim, meus amigos de infância e meus irmãos.

Baiestorf: Com sua arte você está aberta a todo tipo de trabalho ou gostaria de se especializar somente em uma área? Porque?

Daniela: Prefiro estar aberta a todo o tipo de loucura. Por meu próprio interesse fiz desenho, fotografia e vídeo. Ok. Mas por força da vida e convite de amigos doidos já me envolvi com serigrafia, música, cinema, até cover da Gretchen já acabei fazendo. Ou seja, acho que aprendo (e me divirto) mais quando foco menos.

Baiestorf: Conte sobre suas exposições e como produtores poderiam levá-la para suas cidades/estados.

Daniela: Quando comecei a expor os trabalhos eram em desenhos/ilustrações e foto, e as galerias eram em Porto Alegre. Hoje eu produzo mais vídeos do que coisas físicas, o que facilita, pois é só mandar o link com os arquivos para qualquer lugar do Brasil onde for rolar a exibição. Isso acontece bastante com festivais de cinema, que abrem muito mais espaço para vídeo experimental do que galerias de arte, diga-se de passagem.

Baiestorf: Como é realizar trabalhos artísticos aqui no Brasil? Há reconhecimento? Oportunidades?

Daniela: Só vejo trabalho requentado em galerias de arte, pois é mais fácil de vender. E eu entendo. Tem que ser muito corajoso ou corajosa para montar uma galeria pensando em exibir arte autoral, sabendo que o público é saudosista e que só vai comprar coisas já legitimadas há no mínimo uns 30 anos, ou cópias atuais de obras que fizeram sucesso há 30 anos. Faço minhas coisas de teimosa mesmo e não estou nem aí. E tenho muito pouca inserção, pois ainda não se descobriu como vender vídeos em galerias de arte. Às vezes me inscrevo em editais de espaços públicos e festivais de cinema com programação para vídeo experimental, e acabo sendo selecionada em alguns, pois nesse tipo de local é mais comum existir interesse pelo trabalho artístico de pesquisa, não pelo que é mais comercializável. Reconhecimento e oportunidades: de amigos queridos que valem ouro, fazem as coisas em parceria, ajudam, divulgam e compram. Ano passado tive a alegria de ser convidada para participar de uma mostra por alguém que não era diretamente um amigo de bar, “Ao lado dela, do lado de lá”, que aconteceu no Instituto Goethe, em Porto Alegre. Fiquei muito feliz.

Baiestorf: Você está com trabalhos em finalização? Poderia falar sobre eles e como o público poderá acompanhá-los?

Daniela: Tenho um vídeo sendo construído em parceria com a Pomba Claudia e Itapa Rodrigues que se chama “O estranho caso do rato que se achava águia”. Também estou produzindo uma série fotográfica com muito sangue, nudez e simbologias que nem eu mesma entendo, que ainda não tem nome, talvez quando eu terminar tenha um nome. Mas por enquanto, tem este site aqui que está em construção https://danielatavorao.wixsite.com/arte onde se pode ver o que tenho pesquisado nos últimos anos.

Baiestorf: E seus projetos? É possível sabermos um pouquinho deles?

Daniela: Meus projetos tem a mania de aparecer na minha cabeça do nada, e eu vou fazendo e então vão ficando bem diferentes do que imaginei conforme o processo, que faz com que fiquem mais maravilhosos. Além do vídeo com a Pomba e Itapa que estou montando e das fotos, estou interessada por pesquisar as personagens de mulheres monstruosas do cinema japonês, e agregar este “conceito” às minhas personagens, em vários suportes, como vídeo, desenho e foto.

Baiestorf: Geralmente a arte no Brasil é produzida de forma independente e é difícil conseguir se manter. O que você gostaria de observar sobre isso.

Daniela: Eu tenho um emprego para poder manter minhas necessidades básicas. O dinheiro que me sobra eu torro com equipamentos, tintas, figurinos, maquiagens e cenários para minhas ideias de arte. Ainda não vejo uma forma de conseguir se manter com trabalhos artísticos no sistema atual. Por um lado é ruim, pois se faz arte quando se consegue (grana, espaço, tempo, energia mental…). Ao mesmo tempo me sinto livre para fazer coisas esquisitas sem me preocupar em “pentear” meu trabalho para que ele se torne mais comercializável. Quanto a tentar editais para projetos de arte, sinceramente, tenho preguiça. Independente é mais gostoso para mim.

Baiestorf: O espaço é seu para as considerações finais:

Daniela: Gosto do feio, do sujo e do mal acabado. Ponto. Para mim é um modo de romper e de me expressar além de cânones estéticos vigentes. Não me importa o que os outros estão fazendo, vou fazer o que eu quiser fazer, pois a vida já nos obriga a fazer coisas chatas e por obrigação demais. Para mim é libertador trabalhar com o que quero e não me dobrar para tendências artísticas contemporâneas. Só se vive uma vez, já diria a canção do escroto do Roberto Carlos. Eu quero é decolar toda a manhã (Arnaldo Baptista).

Siga Daniela Távora no youtube:

https://www.youtube.com/channel/UCCSykLJu4vHHhftw-c33wuA/featured

Contatos de Daniela:

E-mail: daniela.tavora.o@gmail.com

Fone: 51 996061060

https://danielatavorao.wixsite.com/arte

danielatavora.tumblr.com

Artes de Daniela Távora:

Dedo Semovente

Canibuk Apresenta: A Arte de Ariane Nunes

Posted in Arte e Cultura, Entrevista, Pinturas with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on fevereiro 26, 2018 by canibuk

Ariane Nunes é mineira, natural de Governador Valadares, apaixonada por desenhos, filmes e boa música (em suas palavras, “cara, heavy metal é uma loucura!”), começou a trabalhar sua arte, bastante original, a pouco tempo – aproximadamente um ano atrás. Se mantém trabalhando num escritório de advocacia enquanto faz faculdade de enfermagem. Mas não seria incrível e gratificante se artistas pudessem viver se dedicando somente à sua arte?

Conheci Ariane por conta dos filmes que produzo e passei a acompanhar seus perfis de redes sociais para acompanhar a evolução de seus trabalhos. Sou um grande apreciador da técnica de pintura envolvendo linhas e ondas, então imaginem minha alegria/satisfação quando ela resolveu pintar O Monstro Legume do Espaço, talvez minha personagem mais conhecida no underground nacional.

O Monstro Legume

Segue uma pequena entrevista que realizei com Ariane, ao fim das perguntas deixo os contatos dela para quem gostar dos trabalhos poder entrar em contato e fazer encomendas.

Petter Baiestorf: Gostaria que você contasse como começou seu interesse pela arte e, também, sobre seus primeiros trabalhos.

Ariane Nunes: Sempre me interessei pela arte em suas diversas vertentes, seja música, filmes, teatros, e ilustrações, é claro! Comecei a fazer como forma de terapia e passar tempo, a fim de me tornar uma pessoa mais paciente e com menos vontade de explodir a cidade em que moro. Peguei meu caderno de anatomia (que comprei pra faculdade e usei apenas 10 folhas) e comecei a fazer desabafos, com imagens, nas folhas que restaram. Isso me fez gostar cada vez mais de desenhar e colocar no papel tudo aquilo que a boca queria gritar e não conseguia. Então, conheci uma pessoa que me mostrou essa técnica cheio de linhas e ondas que podem se transformar na viagem que eu quiser! A partir daí, comecei a fazer telas, e me encantei com essa coisa de dimensões, universos, abismos e devaneios. Meu primeiro trabalho foi um quadro referenciando o filme “Pulp Fiction”, do Tarantino. Gostei do resultado e não parei mais de rabiscar aquelas linhas simetricamente perturbadoras! Posso dizer que meu real interesse por fazer arte começou quando percebi que ela substituiria um bom psiquiatra. Desde então, as paredes da sala da minha casa podem causar tonturas.

Ariane Nunes

Baiestorf: Sua arte sofre influências de quais artistas e escolas estéticas. Fale o que te atraí neles, se quiser falar sobre os porquês seria muito interessante.

Ariane: Aprendi essa técnica de linhas e ondas com um grande amigo do coração, então diria que ele foi um fragmento de influência. Procuro referências na música, na natureza, filmes, no meu estado mental… não procuro me espelhar em ninguém, mesmo parecendo ser presunçoso juro que não é! Os trabalhos que faço tem fragmentos de minha alma. São artes com sentimentos bem pessoais. Procuro colocar na tela o que minhas mãos e mente pedem na hora. Por exemplo, quando me encomendam um quadro referenciando algum personagem, uso, e o resto é viagem. Feito sem rascunho, livre, como tem que ser! Mas gosto bastante da arte expressionista abstrata, gosto do que faz a cabeça sair do corpo e entrar em transe! Gosto de obras perturbadoras, que mexem com o estado de espírito (não que eu faça exatamente e exclusivamente isso).

Baiestorf: Conte sobre suas exposições e como produtores poderiam levá-la para suas cidades/estados.

Ariane: Faço minhas exposições online, através de Instagram e Facebook. Ainda não fiz uma exposição física, não tem muito tempo que comecei a divulgar meus trabalhos. Meu tempo, aqui na cidade mais quente do Brasil, é um pouco limitado. Estou me formando agora em um outro tipo de arte (de cuidar das pessoas), por isso existe essa limitação. Mas caso surja interesse de algum produtor, é só entrar em contato através de redes sociais. Seria um prazer e também seria minha primeira vez em alguma exposição.

Baiestorf: Como é realizar trabalhos artísticos aqui no Brasil? Há reconhecimento? Oportunidades?

Ariane: Difícil, pessoalmente dizendo. Tudo que é um pouco diferente do comum as pessoas têm certa resistência em aceitar, principalmente se tratando de trabalhos manuais que não tem o valor reconhecido por muitos. Porém, meu trabalho tem me deixado satisfeita. Já mandei telas para algumas cidades no sudeste e nordeste, e já tenho encomendas para o sul! Apesar de achar difícil realizar trabalhos independentes aqui no país, acredito que mesmo com os obstáculos e falta de ‘’ empurrões’’, a oportunidade quem faz somos nós!

Baiestorf: Você está com trabalhos em finalização? Poderia falar sobre eles e como o público poderá acompanhá-los?

Ariane: Sim! Tenho trabalhado em uma tela que estou apaixonadíssima em fazer! Estou finalizando esse trabalho que tem sido um dos meus maiores desafios. Tem a ver com noite, castelo, almas e florestas. Parece um tema clichê pra caramba, mas estou tentando buscar uma atmosfera única, bela e sombria. Eu só publico nas redes sociais quando está pronto, porque cada traço me dá uma ideia, e quando termino, as vezes sai algo completamente diferente da ideia inicial. Como disse anteriormente, gosto de deixar a mente guiar as mãos. Mas assim que terminar, vou estar postando no Instagram e espero ter boa aceitação e resultado.

Baiestorf: E seus projetos? É possível sabermos um pouquinho deles?

Ariane: Claro! Estou com a ideia de um projeto ‘’ Senhores do Horror’’, onde farei 6 telas em tamanho 30×40 com personagens dos filmes clássicos do terror. Já decidi todos os personagens que usarei, e espero que vá para parede de um fã incondicional dos clássicos do medo. Esse projeto já está na minha cabeça a algum tempo, mas só agora vou conseguir concretiza-lo. Estou ansiosa para ver o resultado! Posteriormente, quero realizar em apenas uma tela, um trabalho com várias referências musicais. Um mix de bandas clássicas com uma atmosfera psicodélica. Vamos ver…

Baiestorf: Geralmente a arte no Brasil é produzida de forma independente e é difícil conseguir se manter. O que você gostaria de observar sobre isso.

Ariane: Existem políticas de apoio à arte no país, mas o público está cada vez mais desinteressado, no meu ponto de vista. As pessoas também estão desistindo de fazer, seja pelo desânimo ou mesmo pela falta de retorno de seus investimentos. Não generalizando, claro. Hoje em dia se faz música no computador, monta desenhos, imprime e emoldura, faz efeitos especiais, mudam vozes, acrescentam dragões. Isso é bom, óbvio. É ótimo ter recursos para melhorar o trabalho de um artista, mas por outro lado, o público desvaloriza financeiramente falando, o trabalho manual de quem ainda o faz, aquele trabalho que não são feitos de pixels. A maior dificuldade é ainda a falta de retorno, principalmente financeiro. Isso acaba desanimando muita gente fazendo com que o artista desista do seu sonho e faça da arte apenas um hobbie, e não um trabalho.

Baiestorf: O espaço é seu para as considerações finais:

Ariane: Gostaria de agradecer pela oportunidade de estar divulgando meu trabalho através do blog. É extremamente gratificante esse reconhecimento e foi de grande prazer responder cada pergunta. Principalmente, quando se trata de alguém o qual tem minha total admiração pelos trabalhos realizados! Espero contribuir de alguma forma com o crescimento do seu trabalho, e também do meu. Agradeço também, antecipadamente, a todos que lerão essa entrevista, gostando ou não! Não sou muito boa em palavras, então é isso! Vida longa a todos, e que a loucura sempre esteja presente na vida de cada um.

Contatos de como comprar/encomendar (e acompanhar) seu trabalho:

E-mail: Ariane-nr@hotmail.com

Tel/whatsapp: 033 991995704

Facebook: https://www.facebook.com/ariane.nunes.1238

Instagram: @arianenr6

Trabalhos de Ariane Nunes:

Canibuk Apresenta: A Arte de Talita Abreu

Posted in Arte e Cultura, Entrevista, Ilustração, Pinturas with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on fevereiro 19, 2018 by canibuk

Talita Abreu é uma artista que acompanho a algum tempo e me impressiona sua dedicação às artes gráficas, sempre em constante evolução em seus trabalhos que são bem ecléticos – algo que admiro muito nos artistas gráficos – e que vão de trabalhos infantis até ilustrações fetichistas de BDSM, como essa abaixo que ela fez exclusivamente para o Canibuk.

BDSM

Nascida em 1984 no Rio de Janeiro/RJ, ainda jovem fixou residência em Resende/RJ, cidade próxima de São Paulo, a capital paulista onde passou a frequentar inúmeros cursos de arte.

Talita realiza trabalhos de freelancer aceitando encomendas de quadros, grafite, ilustrações para livros e contos, ilustração editorial, capas, incluindo até encomendas pessoais de apreciadores e colecionadores de arte.

Paralelamente cursa a faculdade de licenciatura em Artes Visuais a fim de complementar seu trabalho como professora de artes, desenhos e pinturas para adultos, crianças e pessoas com necessidades educativas especiais.

Abaixo uma pequena entrevista que realizei com Talita Abreu para apresentá-la aos leitores do Canibuk. Se você gostou da arte de Talita ao final da entrevista deixo os contatos para que possa encomendar as artes originais desta brilhante artista.

Talita Abreu

Petter Baiestorf: Gostaria que você contasse como começou seu interesse pela arte e, também, sobre seus primeiros trabalhos.

Talita Abreu: Eu simplesmente sinto que nasci artista, e não que me tornei uma. Ballet, fotografia, violino, escrita, teatro, desenho, tudo isso sempre fez parte do meu dia-a-dia, então eu não sei onde eu começo ou a arte termina. Transformar isso em uma profissão é que é a batalhe dos séculos. Com os anos fui me aprimorando e isso é uma constante, acredito que deva ser. Me dedico a cursos e à horas intermináveis de estudo, até que comecei a conseguir realizar projetos e me expressar melhor através da mídia que eu queria. Eu sei que precisamos almejar coisas grandiosas, mas eu sou simplesmente muito feliz trilhando o caminho.

Baiestorf: Sua arte sofre influências de quais artistas e escolas estéticas. Fale o que te atraí neles, se quiser falar sobre os “porquês” seria muito interessante.

Talita: Eu amo o que vai além da cópia perfeita, gosto de sentir a textura dos lápis e das tintas, das estilizações com proporções harmoniosas, distorcidas ou não, do movimento, da fluidez da composição de um desenho ou pintura, de composições cromáticas perfeitas, mas acima de tudo da criatividade. Uma boa ideia que foi bem executada pode te levar a uma reflexão infindável, pode te fazer se apaixonar instantaneamente.
Dos artistas que mais me inspiram a suma maioria são mulheres fantásticas: Chiara Bautista, Loish, Michael Huassar, Chris Hong, Lora Zombie, Bianca Nazari e Ursula Dourada.

Baiestorf: Com sua arte você está aberta a todo tipo de trabalho ou gostaria de se especializar somente em uma área?

Talita: Não consigo olhar pra mim mesma e me encaixar em uma área só. Eu amo tudo e tenho curiosidade por tudo! A ilustração é minha área de atuação e mesmo dentro dela eu adoro transitar entre materiais diferentes e conhecer e estudar tudo o que eu puder. Essa é a beleza de uma mente que não para, mesmo que a gente precise se forçar ao extremo para segurar o foco no topo da lista.

Sad Devil 1

Baiestorf: Conte sobre suas exposições e como produtores poderiam levá-la para suas cidades/estados.

Talita: De aquarelas de todos os temas, ilustrações e histórias infantis, ilustrações de horror, BDSM, retratos femininos de modelo vivo, séries de pinturas de personagens Star Wars, aulas e workshops de desenho e aquarela, eu possuo um acervo que pode agradar a públicos do 8 ao 80 e estou sempre aberta a propostas e projetos. Basta entrar em contato e com certeza algo bacana nasce.

Baiestorf: Como é realizar trabalhos artísticos aqui no Brasil? Há reconhecimento? Oportunidades?

Talita: É muito complicado e não acredito que isso seja segredo pra ninguém. A coisa vem com muita luta, pouco apoio, pouquíssimo reconhecimento. É legal que trabalhemos por amor, mas pagar as contas não é uma condição que a gente possa abrir mão. A maioria das “oportunidades” são na verdade pessoas oportunistas querendo trabalho de graça, mas também existem algumas poucas pessoas incríveis que sabem dar oportunidades reais a artistas.
Precisamos de uma conscientização maior sobre o que é viver de arte para que as pessoas entendam que não é um caminho fácil… Ouvir coisas do tipo “você só desenha ou trabalha também?” mostra o quanto o brasileiro ainda está meio que “lá atrás” quando se trata de arte, ver a galera pagando 500 reais no ingresso do artista internacional tal mas não consegue despender 50 conto no livro do amigo que mora na tua cidade, diz muito sobre como a nossa mentalidade alcança um ponto limitado às vezes. Precisamos muito de reconhecimento, sim, mas mais oportunidades de ser o que somos.

Trio de Doces

Baiestorf: Você está com trabalhos em finalização? Poderia falar sobre eles e como o público poderá acompanhá-los?

Talita: Estou terminando um livro que espero que seja lançado até o final de 2018 e ilustrando para um autor de horror maravilhoso e pretendemos lançar em Setembro também desse ano. Não posso falar muito desses, mas logo logo uma coisa ou outra começa a apontar por aí.

Faço atualizações constantes nas minhas redes sociais que são minha página no facebook e instagram: @talitaabreu.art

Pra comprar material meu, fazer encomendas ou falar sobre projetos, as pessoas podem entrar em contato comigo por essas redes sociais ou irem direto no site:
http://www.capitaodoce.com.br

Baiestorf: E seus projetos? É possível sabermos um pouquinho deles?

Talita: Tenho um projeto em andamento com mulheres voluntárias que posam para mim e contam suas histórias de abuso e uma série de ilustrações sobre BDSM também em andamento. Qualquer mulher que queira participar do projeto Ser Mulher, pode entrar em contato via e-mail:
talitaabreu.art@gmail.com

Baiestorf: Geralmente a arte no Brasil é produzida de forma independente e é difícil conseguir se manter. O que você gostaria de observar sobre isso.

Talita: A arte independente depende de vários fatores e pra ser um apoiador, claro que você pode comprar os produtos, mas a divulgação não custa nada e também é fundamental. Se você gosta de um artista, divulgue a arte dele, fale dele pros seus amigos, comente e compartilhe suas postagens, vá a seus eventos, mostre ele por aí, porque assim você não só faz a arte circular e se tornar algo vivo, como ajuda a gerar renda para esses artistas para que eles continuem fazendo arte! Assim você literalmente faz a arte existir.

Sad Devil 2

Baiestorf: O espaço é seu para as considerações finais:

Talita: Queria primeiro agradecer ao Petter por todo o carinho e consideração com os artistas. É difícil ver alguém que não gira em torno dos próprios projetos e está sempre procurando uma forma nova de entrar em contato com os outros e fazer a arte deles crescer. É de pessoas assim que podemos fazer um país onde a arte prospere e se expanda. A oportunidade de estar aqui no seu blog e inaugurar esse hall de entrevistas me põe um baita sorriso no rosto… Obrigada Petter! Se você é um aspirante a artista, eu só posso te dizer… Lute pela sua arte, mas antes de mais nada, estude, estude sempre, estude MUITO!!! A gente nunca vai ser o melhor no que fazemos, então a humildade é um órgão vital a partir do momento em que você se compromete com você mesmo e com a verdade. Fale com outros artistas, saia da sua zona de conforto. E obrigada a você que leu minha entrevista e se deu uma oportunidade de ver as coisas desse ponto de vista. Queria deixar o canal aberto para a comunicação comigo por qualquer meio que te for mais confortável. E não se esqueça… Apoie os artistas!

Contatos:

Facebook: http://www.facebook.com/talitaabreu.artwork
Instagram: @talitaabreu.art

site: www.capitaodoce.com.br

e-mail: talitaabreu.art@gmail.com

Artes de Talita Abreu:

Marie Antoinette

 

Nosferatu

 

Sketchbook page 2017-2018 – 5G-E

 

Suculentas

Por um Punhado de Downloads

Posted in Cinema, Música, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 14, 2016 by canibuk

Atenção, muita atenção!

logo-canibal-001Você está penetrando no Mondo Trasho da Canibal Filmes, clicando em qualquer um destes links abaixo disponibilizados você adentrará num universo onde o mal feito é glorificado como o mais valioso dos objetos sagrados, onde a falta de talento é incentivada, onde até mesmo o faxineiro de um grande estúdio conseguiria virar diretor de uma produção. Aqui ninguém é excluído do sonhos de virar uma estrela de cinema. Todas a produções abaixo disponibilizadas foram realizada nos anos de 1990, quando ainda não existiam bons equipamentos de filmagem que fossem baratos e a edição era feita se utilizando de dois vídeo cassetes, o que torna estes filmes ainda mais mongoloides. Estejam avisados, estes links contem o pior do pior, se você acha que possuí bom gosto, clique somente no link da Cadaverous Cloacous Regurgitous. Os links para download estão nos títulos em letras maiúsculas.

Cadaverous Cloacous Regurgitous (1993)

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Demo-Tape

Antes de fazer um filme eu era fanático-radical por noise grind e, junto de meu amigo Toniolli, planejamos montar a banda mais suja do mundo, ou algo assim, afinal éramos apenas uns guris sem nada pra fazer. Eis que nas férias escolares de 1993 fomos para a casa dos pais de Toniolli e gravamos e mixamos a demo-tape “Ópera Indústrial” e intitulamos nossa banda de noise com o belo nome de “CADAVEROUS CLOACOUS REGURGITOUS“. Além de instrumentos tradicionais, também usamos folhas de zinco, motosserras, uma guitarra quebrada com uma corda e, no vocal, uma gravação que Toniolli tinha feito meses antes de porcos sendo castrados. Não satisfeito com essa primeira experiência envolvendo música, em 1999 – desta vez ajudado por meu amigo Carli Bortolanza – gravamos a demo-tape “Anna Falchi”, colocando pra funcionar um projeto de industrial harsh intitulado “Smelling Little Girl’s Pussy” que está junto no zip. “Smelling” não utilizou nenhum instrumento musical, todo o som é produzido com microfonias que criamos com estática de rádio, sujeira sonora e gravamos nos utilizando de uma ilha de edição de vídeo, muitos dos barulhos estranhos captados são oriundos de uma câmera de VHS apontando pra uma tela de TV.

 

Açougueiros (1994)

acougueiros

Petter Baiestorf em 1994

Logo após finalizar e lançar “Criaturas Hediondas” (1993), oficialmente minha primeira tentativa de fazer um filme, reunimos a mesma turma e fomos para uma casa abandonada (que depois foi reutilizada como cenário para as filmagens de “Eles Comem Sua Carne”) passar dois dias, tempo em que filmamos o “AÇOUGUEIROS“, sendo atacados por terríveis aranhas assassinas durante as madrugadas. Já na primeira noite percebemos que as aranhas era inteligentes e estavam a nossa espreita. Deitávamos em nossos colchonetes e, ligando as lanternas contra o chão, víamos as aranhas se aproximando de nossos corpos com suas oito patas famintas por carne humana. Não dormimos. No dia seguinte filmamos quase todas as cenas do “Açougueiros”, já montando o filme na própria câmera. Anoiteceu novamente. Com medo da volta das aranhas assassinas, todos da equipe dormimos em cima de uma mesa de sinuca. Tão logo desligamos as lanternas, já começamos a escutar os cochichos das malditas aranhas. A madrugada foi louca, com a gente correndo das aranhas pela casa e as eliminando sempre que possível. Lá pelas tantas as aranhas se tornaram mutantes com asas e vinham voando famintas contra a gente. O cozinheiro da produção foi o primeiro a tombar morto diante da fúria das aranhas malignas, tendo convulsões até desfalecer completamente sem vida. Sim, as aranhas haviam se organizado e queriam um banquete… E o banquete era nossa equipe!

 

Criaturas Hediondas 2 (1994)

criaturas-hediondas2_1994

Crianças Hediondas

Imediatamente após as filmagens de “Açougueiros”, resolvemos fazer uma continuação do primeiro filme e “CRIATURAS HEDIONDAS 2” tomou forma. As filmagens desta produção aconteceram no sítio de Walter Schilke, que entre outros, foi diretor de produção em “A Dama do Lotação” e de vários filmes de Os Trapalhões. Essas filmagens foram completamente sossegadas, com tudo dando certo e novos colaboradores aparecendo para ajudar o grupo. Após cada dia de filmagens todos retornávamos aos trailers da produção, ganhávamos massagens terapêuticas e participávamos de jantares de gala enquanto uma orquestra de querubins tocava sucessos de Beethoven. Depois de pronto foi exibido, no ano seguinte, na I HorrorCon em São Paulo com relativo sucesso. Neste mesmo ano explodiu a moda Trash no Brasil e ficamos bilionários fazendo filmes ruins.

 

2000 Anos Para Isso? (1996)

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Toniolli em banho de sangue

Sabe-se lá porque, até 1995 eu só pensava em fazer longas-metragens (devia ser algum problema de ego). Mas em 1995 fiz uma experiência em curta-metragem e realizei “Detritos” (curta que atualmente está perdido, mas que continuo tentando achar uma cópia para disponibilizar), gostando bastante da simplificação dos problemas que uma filmagem sempre tem. Então, logo no início de 1996 filmamos “Eles Comem Sua Carne” e um festival de curtas gore da Espanha, tendo assistido “O Monstro Legume do Espaço”, me escreveu solicitando um curta para incluir no festival. Como “Detritos” não era gore, resolvi montar algumas cenas do “Eles Comem Sua Carne” no formato de curta e, assim, surgiu este “2000 ANOS PARA ISSO?“, meu primeiro flerte com cinema experimental.

 

Assista “O Monstro Legume do Espaço” aqui:

Bondage 2 – Amarre-me, Gordo Escroto!!! (1997)

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Denise e Souza

Após as filmagens de “Blerghhh!!!” (1996), tive uma ideia fantástica que rendeu um belo punhado de reais: Fazer um filme de putaria assinado por uma diretora, então combinei com a atriz principal de “Blerghhh!!!”, Madame X, que ela iria assinar nosso próximo filme. Com orçamento mínimo escrevi um roteiro fácil de filmar (sob pseudônimo de Lady Fuck e Carla N. Toscan, afinal, melhor que uma mulher tarada, só três, não?). Fomos pra casa do Jorge Timm, nos trancamos lá durante uns quatro dias e cometemos “BONDAGE 2: AMARRE-ME, GORDO ESCROTO!!!“, com climão de filme de Boca do Lixo final dos anos 70. É uma produção extremamente simples, mas na época do lançamento alardeamos tanto que era escrito e dirigido por mulheres que todo mundo quis assistir.

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José Mojica Marins e seu livro preferido.

 

Fase 98 (1997-98)

Ácido (1997) – este curta filmamos durante as gravações de “Blerghhh!!!” e só montamos um ano depois. Os efeitos de cores sobre as imagens captadas foram inseridas via uma ilha de efeitos analógicos. Acredito que foi meu primeiro vídeo arte, a concepção deste vídeo foi desenvolvida em parceria com o Coffin Souza.

Deus – O Matador de Sementinhas (1997) – No ano de 1997 Carli Bortolanza e eu cuidávamos do castelo da Canibal Filmes, local onde todo o equipamento de filmagem, maquiagens, iluminação e figurinos estavam guardados. Como o tempo de tédio era muito enquanto montávamos guarda para que ninguém invadisse nosso estúdio para roubar ideias e bens materiais, começamos a filmar vários curtas experimentais inspirados em Andy Warhol e Paul Morrissey e, assim, surgiram pequenas brincadeiras como “Crise Existencial”, “O Homem Cu Comedor de Bolinhas Coloridas”, “A Despedida de Susana – Olhos e Bocas” (1998), “9.9 (nove.nove)” e este “Deus – O Matador de Sementinhas”.

“Boi Bom” (1998) – Possivelmente meu filme mais polêmico. Antes de me tornar vegetariano realizei este brutal filme sobre a figura do homem se valendo de assassinato para se alimentar em pleno século XX. Em uma bebedeira falei com Jorge Timm e Carli Bortolanza sobre minha intenção de rodar algo extremamente brutal sobre alimentação envolvendo a matança de animais, mas a ideia ficou ali. Alguns meses depois o Jorge Timm apareceu com tudo combinado, ele já tinha encontrado um abatedouro clandestino que iria nos deixar filmar desde que não identificássemos o local. Chamei o Bortolanza e o Claudio Baiestorf e fomos até o abatedouro filmar. Em tempo: a carne deste boi que aparece no filme foi vendida pra um restaurante – pelo abatedouro, não pela gente – após as filmagens, só vindo a reforçar o que acho da alimentação envolvendo assassinatos. Hoje eu não faria outro filme com este teor, mas não renego o curta, está feito, faz parte de uma fase que eu me preocupava mais em chocar. PACK ÁCIDO+DEUS+BOIBOM.

Assista “A Despedida de Susana – Olhos e Bocas” aqui:

Mantenha-se Demente!!! (2000)

mantenha-se-demente-fx

Bortolanza aplicando fx em Loures

Logo após lançar “Zombio” (1999) escrevi o roteiro insano de “Mantenha-se Demente!!!”, um longa gore que misturava a cultura da região oeste de SC com os delírios japoneses envolvendo putaria com tentáculos. Levantei uma parte do dinheiro necessário para as filmagens e chegamos até a rodar algumas cenas do filme. Mas tudo estava tão capenga e caótico que acabei abandonando o projeto para rodar o “Raiva” (2001). O material filmado acabou por se tornar o curta-metragem “FRAGMENTOS DE UMA VIDA“, montado em 2002. Particularmente, gosto bastante do resultado de surrealismo gore alcançado neste cura improvisado, o que sempre me faz pensar que poderia voltar, hora dessas, a realizar experiências nesta linha.

 

Entrevista com Petter Baiestorf no Set de Zombio 2 (2013)

Acabei de encontrar essa ENTREVISTA que o Andye Iore realizou comigo durante as filmagens de “Zombio 2” (2013). Estou visivelmente cansado mas até que bem lúcido falando sobre o caos que foram os primeiros 12 dias de filmagens de “Zombio 2”. Estou compartilhando com vocês essa entrevista de 17 minutos mais como uma curiosidade mesmo, ela deveria estar nos extras de “Zombio 2” mas por um estranho motivo foi esquecida durante a autoração do DVD oficial de “Zombio 2“. Enfim, palhaçadas de uma produtora de cinema completamente atrapalhada.

Memórias em tom de realismo fantástico de Petter Baiestorf.

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O Beco das Almas Famintas

Posted in Literatura, Livro with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 1, 2016 by canibuk

img022Acabei a leitura do romance “O Beco das Almas Famintas” de uma tacada só, curtinho e envolvente, escrito pelo Erivaldo Mattüs que por anos editou o fanzine “Spermental” e que já foi ator de Gurcius Gewdner no fantástico curta-metragem “Erivaldo – O Astronauta Místico”. Drogas, sexo e fanatismo religioso de um mundo pervertido contado em  linguagem direta e sem rodeios quase como se fosse um roteiro de um grindhouse transformado em romance.

Sinópse: “Quando alguns mendigos são misteriosamente assassinados no centro da Cidade Sereia, três cidadãos bem sucedidos têm suas vidas progressivamente destruídas: Antenor, um executivo playboy egoísta; Cláudio, um luxurioso técnico em eletrônica e Sauro, um pastor evangélico que tem a ganância por sobrenome. O enredo, mostra a escalada do trio rumo ao fracasso, de seu presente estável até suas quedas meteóricas; seguindo em narrativas paralelas até cruzar o destino dos personagens no abandonado e famigerado “Beco dos Invisíveis”, lugar no centro de Sereia onde as desgraças são mais cotidianas e inacreditáveis do que sonha nossa vã filosofia.”

O Beco das Almas Famintas é o primeiro romance de E. Mattüs. A narrativa traz elementos que vão desde a marginalidade de Bukowski ao horror de Edgar Allan Poe, tudo ambientado em um absurdo universo kafkiano. Em tiragem numerada de 150 exemplares, a edição usa e abusa de papéis de qualidade duvidosa e estética “trash”, ao longo de 48 páginas, encadernadas em costura de 3 pontos. O livro foi lançado pela editora independente recifense Livrinho de Papel Finíssimo e é o sexto volume da coleção romanesca LiteraTara.

O que?

O Beco das Almas Famintas. Autor: E. Mattüs. Editora: Livrinho de Papel Finíssimo. Ano: 2016. Preço: R$20,00 (Envio simples: 22,00; Carta Registrada: R$25,00). Contato: katarru_podre@hotmail.com/ (82) 99945-8090. Facebook: MattüsMattüs. Instagram: @mattus.ausente

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Abaixo o primeiro capítulo de “O Beco das Almas Famintas”:

Quando a esmola é uma chuva de balas.

Quem transita pelo centro da cidade Sereia pode encontrar tudo o que precisa para exercer o materialismo a rigor. De cama, mesa e banho a eletroeletrônicos e made in china, o comprador pode desfrutar de todas as visões necessárias para abrir a carteira e deixar parte de sua fortuna em qualquer recinto. Odor suave de esgoto pairando no calçadão das ofertas vazias. Queima de estoque. Ao comprar, o ser humano adquire existência. Todavia, aberta a embalagem, o sentimento de satisfação é transformado numa estranha sensação de engano ou frustração. Com a realização do desejo consumista, o objeto adquirido perde o encanto e cede sua vez a uma nova fantasia material.

Porém, nem todos os transeuntes têm o poder aquisitivo necessário para existir. E para esta estirpe maldita é reservado o chamado “Beco dos Invisíveis”. Um reduto dos ignorados, criaturas das quais não se pode vampirizar qualquer espécie de lucros. Habitat natural dos moradores de rua e criaturas inexistentes aos olhos bem sucedidos dos consumidores. Numa viela, ao final de um labirinto com ruas curtas, fica este ambiente inóspito. Um forte cheiro de esgoto misturado ao de eletrônicos embalados acaba resultando num cheiro de merda tão natural quanto a fumaça da combustão automotiva. Uma pocilga abandonada aos seus 6 residentes. Caixas de papelão formam casas. Carrinho de supermercado vira armário. Uniformes velhos e camisetas de políticos ditam a moda. Eis o bendito lar de Alex, José e Simão. Os três reis magros que, na melhor das hipóteses, podem ofertar ao mundo uma pequena faceta da miséria criada por uma sociedade cruel.

São dez da matina e uma chuva rasa antecede o Sol picante. O vapor se eleva do concreto criando uma sauna natural. Pessoas andam mais rápido, enquanto lojas de ar condicionado faturam mais. Alex devora meia quentinha, Zé tasca a primeira pedra do dia no cachimbo e Simão continua a soltar suas profecias esquizoides:

— Este beco é a chave da penitência humana. Toda dor e culpa desse mundo maldito veio parar aqui e nós pagamos o preço! Só estamos aqui por culpa de todos vocês, seus desgraçados! Vocês são os culpados! Berrava o velho vagabundo.

— Cala a boca, porra! Nem tá doido de cana e já está falando merda! Explodiu Zé, depois do primeiro beijo na lata.

E explodiu mesmo! A fumacinha com gosto de plástico invadia seu corpo de forma devastadora. Paranoia, alucinações e mania de perseguição por fora, mas dizem que o que conta é como somos por dentro. Quanto a isso, Zé se sentia o rei do mundo. Um príncipe em seu reinado a céu aberto. Sensação esta, semelhante à de Alex que não reclamava nem repreendia, apenas soltava pequenos arrotos em sinal de total satisfação.

Refeições, drogas e ideias expostas em mais um fatídico dia que chega à metade. O trio desventurado compartilha a primeira lata de cachaça, Simão era o mais alvoroçado. Cada gole descia com a urgência de um antídoto ao mais maldito de todos os venenos, a sociedade. Zé — Caralho! A fissura tá voltando, mas dá pra segurar com a cana. Simão — Maldito sejas tu que trocasses o néctar divino pela pedra do diabo! Alex — Essa porra tá me deixando enjoado, acho que vou deixar uma bacia aqui de lado porque, se eu vomitar, é só jogar uma farinha por cima que já tenho a janta…

Simão — A autossuficiência é o segredo do sucesso! Os três soltam uma gargalhada uníssona.

No horário de almoço, o trânsito humano aumenta. Os ébrios cabisbaixos nem percebem que alguém passa pela calçada em que descansam e atira em cima dos três uma verdadeira chuva de balas. Framboesa, morango e abacaxi. Acho que o indivíduo veio de mão cheia e simplesmente abriu a palma em cima de nossos heróis. Ao erguerem a vista, só perceberam o anônimo de costas prosseguindo seu destino. Usava uma camiseta estampada com flores, daquelas bem bregas que se compram em brechós. Apesar do mau gosto, abençoadas sejam as almas generosas que habitam a selva de pedra.

— Deus lhe dê em dobro! Alex foi cordial em nome do trio.

É óbvio que os doces viraram tira-gosto. Zé perambulou meia hora e já voltou com duas pedrinhas, sinal de que a sociedade era realmente caridosa… Em eliminá-lo!

— Ainda tem confeitinho?

— Claro! Segura aí!

Alex era um jovem de quase um metro e oitenta, beirando os trinta e portador de um ar amistoso. Graças às drogas e descuidos com a vaidade, ele aparentava quase quarenta. O Sol e o clima seco também corroíam sua aparência, igualzinho aos prédios do centro da cidade. Os cabelos loiros ficaram quase marrons. Algumas mechas se juntavam em dreads; o que para a grande maioria lhe dava uma aparência suja, fato negativo aos negócios de pedinte. Os amigos pouco sabiam de seu passado. Só existiam alguns boatos sobre ele ter vindo do interior do estado trabalhar como servente de pedreiro e ter arranjado uma mulher que destruiu sua vida. Um belo dia, ele chegou com uma trouxa de roupas e uma garrafa de vinho pela metade. Perguntou a Simão se poderia ficar no Beco e foi aceito de bom grado. Por ser o único habitante do recinto, o patriarca da ralé apenas ditou-lhe algumas regras de convívio e até ensinou a arte da mendicância ao recém-chegado.

Já José Silva era vítima dos químicos, a família bem que tentou, mas a paixão pela pedra falou mais alto. Zé estava largado no mundo e pedindo esmolas em prol de seu culto aos deuses da lata. Cara chupada. Metade dos dentes o abandonou. A gordura era pouca e as veias saltavam pelos braços até desparecerem nas falanges proximais. Talvez seus familiares estejam a sua espera, aguardam um desejo de abstinência ou a providência divina, mas quem fuma a unha do capeta assina um contrato com o tinhoso para se entregar de corpo e alma ao prazer.

Simão sempre existiu no Beco dos Invisíveis. Desde que a terra é terra, o mar é mar e a cachaça passou a ser vendida em latas. Ele vivia sozinho e largado pelo centro da cidade Sereia. Aparentava ser um homem de conhecimento, a longa barba amarelada pelo tabaco exibia a experiência de um ser que, caso não estivesse usando uma blusa do candidato perdedor a prefeito, bem que poderia se passar por sábio hindu. O cabelo branco simulava algodão, os dentes eram mais amarelos que o sol no fim de tarde e sua mente cansada somente questionava o sentido amargo da vida. Em alguma parte de sua existência, Deus o abandonou. Por manter as mesmas roupas por muito tempo, Simão tinha cheiro de urina envelhecida. Sempre profético em suas palavras, o álcool exorbitava suas filosofias. Bêbado, ele conseguia ser pior que muito pregador de praça, mas, com certeza, o pedinte dizia bem mais verdades que um pastor charlatão.

Drogas, esmolas para comida e mais entorpecentes. Estabelecimentos em horário comercial encerram seu expediente. Os outros habitantes do beco retornam ao lar. Em sua maioria, fazedores de bicos. Uns quatro ou cinco companheiros chegam com histórias, violão e caninha para adoçar o amargo da vida. O parceiro com violão toca Raul Seixas. Todos cantam os trechinhos que se recordam da música “Ouro de Tolo”. “Essa música explica o sentido da existência de todos que circulam por aqui com grana!” discursou Simão para a plateia desatenta. A mensagem musical era conceitual e poderia até mudar a vida de todos eles, mas a única mudança desejada era sair da caretice e adentrar a algum estado alterado de espírito. Companheirismo, boa música e aguardente descendo na garganta. Aos noiados, a lata de cachaça só servia vazia. E mesmo em pleno estado de paranoia, nunca se viu uma confusão, todo mundo seguia a lei da cordialidade. Caso contrário, o bagunceiro amanhecia com a boca cheia de formigas…

Eram quase 22 horas, quando uma estranha figura entrou no beco. Uma jovem mulher com aparência de tiazona derrubada. Pela cara chupada era óbvio que pertencia ao grupo dos “beija-lata”. Cambaleante e desnorteada, ela suplicava por sua paixão: — Dou a xoxota pra quem me der um pega na lata! Cadê os machos dessa merda? Eu quero só um peguinha… Deixa eu beijar a lata que eu beijo outra coisa bem gostosa depois!

Zé nem precisou de cavalheirismo. Apenas levantou a mão empunhando o recipiente metálico e sua deusa entendeu o recado. Depois de uma chupada na lata, a musa entregou-se ao amor paranoide. Fizeram tudo ali mesmo, numa caixa de papelão improvisada como palácio de Vênus. O pico do Zé. A mansão do amor abrigou aqueles dois corpos psicóticos por um breve delírio chamado felicidade. O amor de dois zumbis embalado por deliciosos tragos de cigarro Oscar no pós-coito. A fêmea sai estonteada com sua microssaia suja de areia e tentando pôr o que parecia um top. Ela caminha cambaleante sob o efeito do amor e da pedra. Os companheiros do beco sorriam para José em nome de sua sorte. Enquanto a jovem adicta dava seus passos, os outros mendigos enfiavam a mão direita dentro dos farrapos para homenagear a deusa do lixo com o sexo dos solitários.

Apesar do vazio das ruas, no centro da Sereia sempre existem olhos maldosos à espreita. O resultado disso foi que, menos de dez minutos após a saída da mulher do Zé, a polícia já chegou descendo o cacete em todo mundo que via no beco. Somente ouviam-se os gritos dos repressores seguidos de pancadas secas do cassetete. “Vaza cambada de vagabundo! Vão fazer gandaia na casa do caralho”. Exceto por Simão, que saiu assim que viu os praças ao longe, todos sentiram o bastão perseguidor tocar suas costelas de forma emocionante. Zé correu alucinado levando sua moradia na mão, enquanto Alex se escondeu dentro de uma pilha de lixo. As ruas não eram violentas, já seus protetores pareciam salivar por carne fresca para o espancamento.

Meia-noite, o relógio recomeça a contagem. Todos se dispersam, exceto os três companheiros. Eles resolvem voltar ao beco pela certeza do descanso ser tranquilo. A barra estava limpa. Nada de coxinhas. Um deserto de concreto e lixo, onde com alguns papelões, nossos reis mendicantes resguardavam suas existências na esperança de um dia com mais grana, drinks, pedras e Raul Seixas.

Por ainda ter a audição em bom estado, Simão deve ter sido o único que teve tempo de abrir os olhos no momento em que alguém passava pela calçada. Três balas na cabeça de cada um! Alex nem se mexeu e parecia prosseguir em seu sono, que duraria a eternidade. Zé abriu os olhos, mas já estava puxando ar num ato mecânico de seu corpo; vivenciando os últimos momentos de resistência biológica após a morte cerebral. Simão conseguiu ver seu algoz e teve tempo de gritar “Deus…” antes de cair em estado de óbito. Seus olhos pareciam perder a sabedoria e expressavam decepção. Sentimento que foi alimentado por reconhecer a mesma camisa florida que viu meio dia. O benfeitor virou malfeitor. E, pela permutação no estado de espírito, ele apenas trocou as balas.

Apoie os independentes comprando seus lançamentos!

Assista aqui ao curta “Erivaldo – O Astronauta Místico” (2013) de Gurcius Gewdner com Erivaldo Mattüs atuando:

A Cor que caiu do Espaço

Posted in Cinema, download, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on setembro 23, 2016 by canibuk

Em 2015 fui convidado para realizar um dos episódios do longa-metragem coletivo “13 Histórias Estranhas”. No mesmo dia comecei a pesquisar projetos abandonados do cinema mudo e me deparei com um projeto de curta que iria adaptar o conto “The Colour Out of Space” de H.P. Lovecraft no ano de 1928. O roteiro de tal projeto era escrito pelo próprio Lovecraft adaptando seu conto escrito no ano interior. Achei que seria uma boa tentar fazer uma versão baiestorfiana daquela ideia e assim comecei a pré-produção do episódio “A Cor que caiu do Espaço”.

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Como estava completamente sem dinheiro por aquelas épocas (por conta da produção de “Zombio 2: Chimarrão Zombies“), apresentei o projeto para minha amiga Shunna (que foi uma das investidoras de “Zombio 2”) e ela disponibilizou o dinheiro necessário para levantar a produção e pagar atores/técnicos envolvidos no projeto. Filmamos tudo em uma madrugada com uma equipe bem pequena (se não me falha memória, no set estavam comigo apenas Leyla Buk, Carli Bortolanza e os atores Coffin Souza, Elio Copini, Jessy Ferran e o Airton “Chibamar” Bratz) e depois editei com o E.B. Toniolli em mais uns dois dias de trabalhos no intuito de sujar as imagens (hoje me arrependo de não ter sujado ainda mais).

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Com “A Cor que caiu do Espaço” tentei realizar um mix entre cinema experimental, sci-fi e cinema marginal, que são três de minhas paixões. O resultado é este curtinha que vocês podem baixar aqui: A COR QUE CAIU DO ESPAÇO.

Quanto ao longa-metragem coletivo “13 Histórias Estranhas”, não faço ideia de quando será lançado oficialmente.

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Inscreva seu Filme no Festival Autorock 2014

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , on junho 5, 2014 by canibuk

autoEm 2013 o Festival Autorock (Campinas/SP), com curadoria de Gurcius Gewdner, exibiu 43 filmes em 5 dias. Foram maravilhas como “United Trash” de Christopher Schlingensief, “Desagradável” de Fernando Rick, “O Coelho” de Elloi Mattar, “The Mongreloid” de George Kuchar, “Zombio 2”, entre vários outros filmes imperdíveis. Confira os filmes que foram exibidos aqui na Bulhorgia.

Este ano a curadoria dos filmes está por minha conta e estou abrindo a possibilidade de cineastas independentes inscreverem seus filmes para possível seleção. Para tanto, mandem-me suas produções até dia 25 de julho e estarei assistindo todos os filmes para selecionar os mais degenerados/retardados e incríveis para alegrar o público cinéfilo do Autorock deste ano que vai acontecer em setembro no MIS de Campinas/SP.

Mande seu filme, em DVD, para:

Petter Baiestorf

Av. Brasil 1129, sala “A”

Centro

Palmitos/SC

89887-000

Pus Diet

Posted in Fanzines, Quadrinhos with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on setembro 9, 2012 by canibuk

“Pus Diet” foi um zine de humor que editei na primeira metade dos anos de 1990 que era bem curtinho, só prá se manter ocupado. “Pus Diet #1” era uma folha de ofício tamanho grande só com textos, acho que co-editado com Leomar Wazlawick ou Carli Bortolanza (ou Airton Bratz), não consigo lembrar. “Pus Diet #2” trazia 8 páginas com capa de Airton Bratz, textos de humor negro, a HQ “O Ser Eterno” de Gerson Mendes e algumas tirinhas de Bratz com um herói molenga criado por ele. “Pus Diet #3”, com capa de George Frizzo, trazia uma HQ desenhada com caneta BIC pelo Anderson, tiras de Sandro, Bratz, Laudo Ferreira Jr. e Anderson, mais textos de humor macabro e nenhuma pretensão de entrar prá história, era apenas um zininho que eu editava nas horas vagas entre um e outro número do “Arghhh”, meu fanzine principal.

Resolvi resgatar aqui as páginas ilustradas!

Petter Baiestorf.