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Guaru Fantástico

Posted in Cinema, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on agosto 29, 2012 by canibuk

A segunda edição da mostra Guaru Fantástico acontecerá nos dias 30 e 31 de agosto, mas antes, no dia 29 (nesta quarta-feira) vai acontecer uma sessão em homenagem ao Carlos Reichenbach no Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, onde serão exibidos vários curtas que, de algum modo, tinha ligação com o Carlão. Abaixo Leopoldo Tauffenbach, curador da sessão, explica o porque de cada um dos filmes selecionados:

Sangue Corsário (Carlos Reichenbach, 1979): um dos curtas mais emblemáticos de Carlão, traduz muito bem seus questionamentos e a ideologia corsária, uma de suas características mais marcantes. Com colaboração de jairo Ferreira no roteiro, o curta é estrelado por duas figuras emblemáticas do universo reichenbachniano: o crítico e poeta Orlando Parolini e o ator Roberto Miranda.

Olhar e Sensação (Carlos Reichenbach, 1994): excelente obra experimental que trata de uma das personagens mais marcantes e constantes nas obras de Reichenbach: a cidade. Produzido por Sara Silveira, sócia, parceira e amiga de Carlão por mais de 30 anos e fotografado pelo também amigo e diretor Conrado Sanchez.

Aventura, Amor e Transporte Público (Bruno de André, 1991): curta de Bruno de André, crítico, diretor, ator, parceiro e amigo de Carlão, além de frequentador das Sessões do Comodoro. A ideia inicial era incluir outro curta, A Origem dos Andamentos, mas por sugestão do próprio Bruno foi escolhido este que traz fotografia de Carlos Reichenbach e montagem de Andrea Tonacci.

O Guru e os Guris (Jairo Ferreira, 1973): primeiro curta do difusor da crítica de invenção e do cinema de invenção, trata de atividades cinéfilas como posição de resistência. Fotografado por Carlos Reichenbach e montado pelo crítico Inácio Araújo, um de seus amigos mais próximos.

Hi-Fi (Ivan Cardoso, 1999): ousada obra experimental sobre o movimento concreto paulistano, inspirado nas obras dos irmãos Campos e de Décio Pignatari, fonte de inspiração a muitos dos cineastas da Boca do Lixo, incluindo Carlão.

Primitivismo Kanibaru na Lama da Tecnologia Catódica (Petter Baiestorf, 2003): obra do cineasta independente e iconoclasta Petter Baiestorf, de Santa Catarina, criador do Manifesto Canibal. Carlão foi um dos principais divulgadores do trabalho de Baiestorf em São Paulo e grande admirador de sua posição transgressora.

Freddy Breck Ballet (Gurcius Gewdner, 2010): Gurcius Gewdner, parceiro de Petter Baiestorf em diversos filmes, dedica esta obra a Carlos Reichenbach, dividindo com ele sua paixão por um dos maiores cantores populares da Alemanha. Poucas pessoas sabem que Carlão também era músico e dedicado arqueólogo de raridades musicais,como este Freddy Breck.

Esta sessão histórica acontece no dia 29 de agosto, às 22 horas, de graça no CineSESC, rua Augusta 2075 (Estação Consolação).

E nos dias 30 e 31 de agosto acontece o segundo Guaru Fantástico de Guarulhos/SP, no Anfiteatro do Prédio F da Universidade de Guarulhos (praça Tereza Cristina 1, centro). Guaru Fantástico, em sua primeira edição, deu três prêmios para meu filme “Ninguém Deve Morrer” (melhor filme, melhor direção e melhor montagem), então já dá prá sacar que eles primam por exibir o máximo possível de obras independentes feitas sem dinheiro público.

Neste ano, no dia 30 rola um bate-papo de abertura com o pessoal do site Boca do Inferno, com o cineasta Alex Sandro Moletta, o dramaturgo Sérgio Pires e a exibição dos filmes “Desalmados”, “Duas Vidas Para Antonio Espinoza“, “Moroi”, “Não Servimos Zumbis”, “Necrochurume”, “O Ogro“, “O Terno do Zé”, “Pandemônio”, “Retratos”, “Tutti Maria” e “Vontade“.

No dia 31 tem bate-papo com a escritora Bernadette Lyra e os fazedores de filmes Fernando Rick e este que vos escreve, seguido dos curtas “A Vida da Morte”, “Abner, o Papa Zumbis”, “De Saco Cheio”, “Desalmados – O Vírus“, “DR”, “Estranha“, “Horário Nobre ou Banquete para Zumbis”, “Inquérito Policial #0521/09”, “Instantâneo”, “Morte e Morte de Johnny Zombie” e “Velho Mundo” (clique nos links para ler resenhas que fiz deles).

Se programe para essas três noitadas de muito cinema independente de todas as épocas!!!

Jairo Ferreira Entrevista Diomédio M. numa Ensolarada Tarde de Sábado Paulistano

Posted in Cinema, Entrevista with tags , , , , , , , , on maio 12, 2011 by canibuk

No “Brazilian Trash Cinema” número 2 eu entrevistei o Jairo Ferreira que gostou tanto da proposta do fanzine que se tornou colaborador no terceiro número entrevistando o cineasta mais que marginal Diomédio de Moraes, entrevista essa que resgato aqui na íntegra em memória desta pessoa fantástica que foi Jairo Ferreira. A entrevista foi realizada em 2001 e publicada no “Brazilian Trash Cinema” número 3, última edição do fanzine, infelizmente (mas nada impede, num futuro não muito distante, que eu e Coffin Souza retornemos dos mortos com a edição deste fanzine no formato de uma revista independente de cinema. Investidores se manifestem).

Jairo Ferreira: Eu sou o Vampiro da Cinemateca e estou entrevistando o Diomédio de Moraes. Você já fez um filme de longa-metragem chamado “Urubuzão”. Fale um pouquinho sobre como você chegou ao “Urubuzão”:

Diomédio de Moraes: Em 1996, com a necessidade de realizar um longa-metragem, juntamos um pessoal e uns atores e fizemos uma pequena assembléia onde ficou decidido fazer um longa e o pessoal via necessidade de estar junto nos finais de semana para fazer este filme…

Ferreira: Foi em 1996? Você juntou uma equipe grande para realiza-lo?

Diomédio: 52 pessoas, entre equipe-técnica e atores.

Ferreira: O roteiro era seu mesmo?

Diomédio: Sim! O negócio é o seguinte: Nós tínhamos um roteiro de longa pronto, daí surgiu a idéia de juntar 3 histórias do Júlio Shimamoto que resultaram no “Urubuzão”. A primeira história é baseada no “O Ogro”…

Ferreira: Seria um filme em 2 ou 3 episódios?

Diomédio: Eu juntei as 3 histórias e deu numa única história…

Ferreira: Baseada nos quadrinhos do…

Diomédio: … Júlio Shimamoto!!! Uma das histórias se chama “O Ogro” e é o comedor de cadáveres nos cemitérios aqui de São Paulo. Como personagens tem um caçador de vampiros, Zatan Polanski, a amante dele…

Ferreira: Quais são as personagens principais mesmo?

Diomédio: É o Urubuzão, o comedor de cadáveres…

Ferreira: Quem faz o Urubuzão?

Diomédio: É o Castor Guerra… E o Zatan Polanski é feito pelo Costa Senna, grande poeta de cordel e apaixonado pelo Raul Seixas. É um elenco desconhecido do grande público, mas que são profissionais de teatro.

Ferreira: Você filmou em 35mm?

Diomédio: 35mm!!!

Ferreira: Isso é um luxo prá um filme trash?

Diomédio: Filmei em 35mm, com 2 câmeras… Aqui em São Paulo e na cidade de São José dos Campos.

set de filmagens de Diomédio M.

Ferreira: O filme tá terminado?

Diomédio: O filme ta concluído, ta pré-montado e a gente ta batalhando a 4 anos dinheiro para sonorizar. Mas a medida que a gente ta avançando com este projeto, nós começamos à fazer um outro filme…

Ferreira: Fale um pouco deste outro filme? Você não terminou o “Urubuzão” e já começa um outro? Fala deste outro, como é o título deste outro???

Diomédio: É a história de um grupo de cineastas malucos que resolve fazer filmes baratos e eles não passam de bruxos porque eles estão com aquela magia de realizar filmes. Então é a labuta de todos os cineastas que lutam para fazer seus filmes. Seja ele trash ou comercial… A porcaria que vier… Mas o que nos interessa mesmo é realizar nossos filmes. Em película ou vídeo, enfim, em qualquer suporte que pode surgir daqui prá frente…

Ferreira: O que você quer falar mais?

Diomédio: Huuummm!!!

Ferreira: Bom, continuamos a entrevista e o Diomédio vai dar mais detalhes sobre o “Urubuzão”… E a curtição do trash que é um lance crítico em relação ao Brasil de hoje. O Brasil é um lixo!! O Brasil que é trash. O que você acha disso Diomédio?

Diomédio: O Brasil é o lixo dos lixos dos lixos dos países do terceiro mundo. Aqui é a patuléia da patuléia…

Ferreira: É cobra comendo cobra?

Diomédio: Cobra engolindo cobra! Aliás, tem um dito popular, pelo menos nestas bandas, que diz: “A gente mata o pau… (pausa)… A gente mata a cobra e mostra o pau!”, mas na verdade a gente tem que mostrar a cobra morta, coisa do… Hã!… (… nova pausa para pensar…) … O cara que não gosta do meio ambiente mesmo, tem que mostrar a cobra morta! No nosso caso a gente não mostra bichinho, a gente procura mima-lo, domina-lo, porque a gente tem necessidade de todos os seres-vivos, né? Para que a gente possa fazer as nossas criações…

Ferreira: Você defende o direito dos animais?

Diomédio: Sem dúvida… E aqui a gente ta contente devido a gente ter uma nova administração… E isso é muito importante falar, viu Jairo… Administração que vai abrir espaço prá cultura alternativa, pelo menos aqui na cidade de São Paulo, né? Com essa nova prefeita que a gente conquista depois de 8 anos de ditadura, de roubo, de furtos… E a nossa cultura massacrada…

Ferreira: São Paulo é trash!!!

Diomédio: E a gente tem um pessoal muito maluco, muito trash… Pelo menos na área do áudio-visual que a gente milita mais, né? Mas a gente tem conhecimento a pequena distância dos outros setores de Cultura, onde vem desenvolvendo uma série de atividades boas… Trash mesmo, mas que tem conteúdo, né?… Uma linguagem diferente e os projetos não param por aí porque a gente tem uma equipe de gente que ta fazendo cinema e todos eles estão com projetos e um vai trabalhar no projeto do outro, né?… E a gente vai partir prá fazer, agora também, um documentário em P&B, feito em película sobre a cidade de São Paulo que chama-se “São Paulo Via Postal”, onde mostra o surrealismo, o abstrato de São Paulo, sem aquela tradição de mostrar entrevistas e aquela baboseira… É só imagem, é só poesia… Imagem e música, imagens e música da cidade de São Paulo…

Ferreira: Mas é um documentário trash também?

Diomédio: Trash!!!

Ferreira: Você sempre atua na área trash?

Diomédio: Trash no bom sentido, quer dizer, eu exploro a linguagem…

Ferreira: O que é trash prá você?

Diomédio: Trash é a condição de se fazer um filme barato, sem aquela coisa tradicional de grande produção, que é aquela colagem de televisão… O que se faz de cinema no Brasil hoje é aquela bosta, que é com atores globais…

Ferreira: … Pasteurizada?

Diomédio: Pasteurizada, coisa americanizada… Então, nós temos a nossa própria cultura, os nossos enquadramentos, a nossa estética, a nossa linguagem e a gente soma tudo isso para poder realizar nossos trabalhos, né?

Ferreira: Você acha que até o final de 2001 você vai estar com o primeiro projeto concluído, o “Urubuzão”?

Diomédio: Não só o “Urubuzão, mas este que a gente ta rodando… O “Urubuzão” já entregamos prá um grupo maluco de americanos que ficaram interessados em concluir o projeto e a gente ta aguardando uma resposta… Paralelo a isso a gente vem desenvolvendo o “Vesperal dos Bruxos”, né?

Ferreira: Fala um pouquinho do “Vesperal dos Bruxos”, inclusive, parece que eu tive uma pequena participação no roteiro, né?

Diomédio: É, o “Vesperal dos Bruxos” só tem bruxos, nasceu na casa do Jairo Ferreira, assim, eu e ele em torno do computador, não… A gente começou a elaborar as cenas e foi crescendo, foi crescendo, aí foi pintando pessoas do nosso meio, dando opinião, eram 8… Bem, ficaram sendo no total 8 roteiristas, colaboradores… É a trajetória de um jovem cineasta que sai com seu roteiro embaixo do braço prá tentar realizar… Mas ele entra em crise e ele é aficcionado por National Kid e ele se transforma em National Kid e simula seu próprio seqüestro para obter dinheiro para finalizar seu filme e a medida que ele vai avançando ele confunde as personagens dele com a própria existência dele, então ele vai filmando fragmentos aleatoriamente porque ele entra em crise de criação e ele seduz grandes poeta românticos…

Ferreira: … Por falar em poetas, fala um pouco sobre o projeto que você tem sobre o Álvares de Azevedo, que prá nós o “Macário” é um trash Cult…

Diomédio: O “Macário” já ta pronto o roteiro, é o próximo projeto que a gente pretende rodar no segundo semestre deste ano…

Ferreira: Você fez o roteiro sozinho???

Diomédio: Sozinho!!!

Ferreira: Você basicamente é o roteirista?

Diomédio: Eu escrevo… Eu tenho uns 15 roteiros que eu escrevi nestes 3 últimos anos, né? Mas eu to procurando agora é realiza-los aos poucos e o “Macário” é um grande projeto prá esse ano, ou seja, grande no sentido…

Ferreira: O que você acha deste poeta, Álvares de Azevedo? É trash ou mais que trash? É visionário?

Diomédio: Visionário!!! Um dos mais malditos que surgiram na história da literatura brasileira…

Montagem de Ivan Cardoso

Ferreira: Dá uma geral da filosofia, da poesia do seu cinema:

Diomédio: É, a idéia…

Ferreira: O que você pretende hoje no Brasil? Revolucionar, subverter, anarquizar… Qual é a sua?

Diomédio: Pois é… A idéia em geral, nós temos a idéia de desenvolver todos esses projetos no sentido sempre marginal, sempre maldito, porque todos os meus personagens são anjos… Anjos malditos, meus personagens não morrem, eles dão vida à outros personagens… O Kid, o National Kid do “Vesperal dos bruxos”, é um anjo… Um anjo bruxo, como Kenneth Anger, né?

Ferreira: O Kenneth Anger?

Diomédio: Exatamente, o grande poeta dos anjos malditos!!!

Ferreira: Sim, mas o Kenneth Anger do underground americano, né?

Diomédio: Exatamente, o poeta dos anjos malditos dos USA… A gente se inspira muito nesse trabalho independente que há no mundo inteiro, né?

Ferreira: Fala!!! (pausa)… Vamos ficar por aqui? Ou vamos fazer uma mensagem final, sobre o Brasil, sobre o cinema do Brasil de hoje em dia… A mensagem final trash do grande cine-poeta Diomédio de Moraes… Por sinal, citado no meu livro “Cinema de Invenção”, né? No capítulo sobre “O Vampiro da Cinemateca” foi o Diomédio quem me entrevistou e agora estou devolvendo a peteca… Mensagem final:

Diomédio: É, o Petter… Gostei muito do trabalho de vocês, conheço o trabalho através da imprensa, né? Chegou à mão da gente aqui o fanzine de vocês, fiquei encantado pelo fanzine e eu também já publiquei nos anos 80 e 90 fanzine sobre cinema, em pequena escala. Eu acho que vocês tem mais é que dar continuidade, o Brasil não se resume à São Paulo e Rio de Janeiro, eles que vão prá puta que o pariu, eles fazem o mesmo cinema de sempre. Cinema é o que vocês fazem aí em Santa Catarina, faz no Rio Grande do Sul, os independentes malditos. Aqueles que fazem no Mato Grosso, os Pernambucanos, enfim, o resto do Brasil tá’í, não o Brasil que é centralizado no eixo Saó Paulo/Rio…

Ferreira: É o Brasil não oficial?

Diomédio: Exatamente, meu próximo passo depois destes trabalhos todos é picar a mula desta merda de São Paulo, disso aqui a gente ta com o saco cheio, a gente tem que mostrar mais a cara do Brasil que não se resume a São Paulo e Rio, eles é que vão prá puta que o pariu!!!

Jairo Ferreira: Falô Diomédio, especial para Petter Baiestorf, entrevista feita por Jairo Ferreira, num sábado ensolarado, efeito estufa… (pausa)… Vamos ver se gravou bem, ein? (barulinho característico de “stop” num aparelho de gravar)…

nota do Canibuk: pedimos desculpas pela falta de imagens com o cineasta Diomédio de Moraes, mas imagens dele são mais raras que seus filmes.

O Vampiro da Cinemateca

Posted in Cinema with tags , , , , on abril 2, 2011 by canibuk

No Brazilian Trash Cinema número 3 (2001) publiquei uma entrevistei que fiz com o grande Jairo Ferreira, autor do livro “Cinema de Invenção” (pode ler as duas edições do livro que ambas tem muita coisa a dizer) e cineasta de curtas como “O Guru e os Guris” (1973), “Ecos Caóticos” (1975), do média-metragem “Horror Palace Hotel” (1978) e dos longas “O Vampiro da Cinemateca” (1975/77) e “O Insignificante” (1980). Jairo era uma grande figura, está fazendo falta na arte brasileira.

Baiestorf: Afinal, quem é o Vampiro brasileiro? Você ou o Ivan Cardoso?

Jairo Ferreira: Eu sou o legítimo Drácula de Brahma Stockler desde meu curta “O Guru e os Guris” (1973), curta em 35mm em que cito “O Vampiro de Dreyer”. Ivan é o criador do Ivampirismo & seu “Nosferatu” tem mais haver com Torquato Neto.

Baiestorf: Você acabou de lançar uma versão atualizada de seu livro “Cinema de Invenção”, como está sendo a repercussão?

Jairo Ferreira: O Brasil em vez de andar, carangueja. A nova edição está linda, mas o editor não soube divulgar e quase virei um personagem de Polanski no “A Dança dos Vampiros”.

Baiestorf: O que você acha dos novos fazedores de filmes do Brasil???

Jairo Ferreira: Sou muito sintético. Todo homem e toda mulher é uma estrela. Cada um de nós somos um microcosmo. Freud dizia que cada cabeça é um mundo. Há uma correspondência entre micro & macro, certo?

Baiestorf: Fale um pouco sobre a “paranóia de 68”, quando cineastas neuróticos destruiam seus filmes (como Parolini, co-autor do destruido e inesxistente “Via Sacra”):

Jairo Ferreira: Essa pergunta é boa. Abra meu livro na página 126: Temos aí Orlando Parolini em “Via Sacra”. Uma foto vale por mil palavras. (nota do Canibuk: página 126 da segunda edição do “Cinema de Invenção”, segue scanner da foto de Parolini, na página 126 da primeira edição você irá encontrar duas fotos: 1) “Stenio Garcia e Clarice Piovesan em O Pornógrafo”; 2) “Deglutição antropofágica do Cinema Noir”).

Baiestorf: Mizumoto Kokuro, proprietário do jornal “São Paulo Shimbun” onde você tinha uma coluna que falava sobre cinema, também era o distribuidor dos filmes do estúdio Nikkatsu, certo? Você e o pessoal udigrudi paulista acompanhavam os filmes japoneses? Havia influência?

Jairo Ferreira: Muita, porém sutil. Em 1965 fiz um roteiro chamado “A Geração dos Insetos”. Era influência de “A Mulher Inseto” (nota do Canibuk: “Nippon Konchûki”, 1963, de Shôhei Imamura). Eu era da Comissão de Cinema do Juizado e convidei Luiz Sérgio Person para assisti-lo. Carlão Reichenbach eu também já conhecia desde 1964. Amavámos cinema nipônico.

Baiestorf: Fale sobre “O Vampiro da Cinemateca”.

Jairo Ferreira: Olha Baiestorf, você é a flor do mal baudelaireano que vem de Palmitos. Intuo que você seja um anjo da guarda. Eu já estava pensando em suícidio  via Cioran. Então lhe digo: Esse meu filme está sendo telecinado pelo Itaú Cultural num lance de resgate nacional do Super 8, com curadoria do professor Rubens Machado, do ECA. Faz parte de amplo projeto de resgate do Super 8 e começa com udigrudi por ser uma coisa apaixonante, mas eu sou muito esotérico & tenho que me manter desapaixonado.

Baiestorf: Quando veremos um novo filme feito por Jairro Ferreira?

Jairo Ferreira: Estou rodando o vídeo “Cinema de Invenção 2001” que terá 22 minutos e ficará pronto no equinócio de Setembro. Não se trata de documentário babaca, pois misturo entre os entrevistados os 22 arcanos maiores do Tarot.

Baiestorf: É a favor dessas leis de incentivo ao cinema?

Jairo Ferreira: Detesto burocracia, sou anarquista. Não precisamos mais dessas leis repressivas prá pegar grana e fazer bosta. A única lei que me orienta é a lei do forte, a lei do Nietzsche, a lei de Crowley, a lei de Raul Seixas.

Baiestorf: Fale um pouquinho de seu romance “Só por Hoje”.

Jairo Ferreira: Olhe, foi escrito entre janeiro e outubro de 2000. Aí comecei a reler e fui modificando, acrescentando, alterando na medida da minha inspiração que melhora quando puxo um fumo. Não gosto de destilado, não gosto de cocaína: meu santo é a coisa natural sativa… Você já viu alguém morrer de overdose de maconha? Quero uns 10 ou 15 anos mais prá realizar coisas de maturidade. Atualmente tenho sobrevivido graças a minha mãe que me compreende, mas ela se mudou prá Minas Gerais. O romance é em prosa poética e vou reintegrando todo meu universo, da infância aos dias atuais.  Hermes Trismegisto: o que está em cima é semelhante ao que está embaixo. Jairo Ferreira: estou sempre com os pés no chão e a cabeça nas estrelas. Sou Cine-Mago.

foto-montagem de Ivan Cardoso.