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Declaração Prévia

Posted in Anarquismo, Arte e Cultura, Surrealismo with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on setembro 5, 2012 by canibuk

Surrealistas, não cessamos de consagrar à trindade Estado-Trabalho-Religião, uma execração que amiúde nos levou ao encontro dos camaradas da Federação Anarquista. Essa aproximação conduz-nos hoje a nos exprimir no Libertaire. Felicitamo-nos ainda mais porque acreditamos que esta colaboração nos permitirá extrair algumas das grandes linhas de força comuns a todos os espíritos revolucionários.

Estimamos que uma ampla revisão das doutrinas se impõe com urgência. Esta só será possível se os revolucionários examinarem juntos todos os problemas do socialismo com o objetivo, não de encontrar ali uma confirmação de suas próprias idéias, mas dali fazer surgir uma teoria capaz de dar um impulso novo e vigoroso para a revolução social. A libertação do homem não poderia, sob pena de se negar imediatamente após, ser reduzida apenas ao plano econômico e político, mas deve ser estendida ao plano ético (saneamento definitivo das relações dos homens entre si). Está ligada à tomada de consciência, pelas massas, de suas possibilidades revolucionárias e não pode, sob nenhuma condição, levar a uma sociedade em que todos os homens, como o exemplo da Rússia, seriam iguais na escravidão.

Irreconciliáveis com o sistema de opressão capitalista, quer se exprima sob a forma dissimulada da “democracia” burguesa e odiosamente colonialista, quer assuma o aspecto de um regime totalitário nazista ou stalinista, não podemos deixar de afirmar uma vez mais nossa hostilidade fundamental para com os dois blocos. Como toda guerra imperialista, a que eles preparam para resolver seus conflitos e aniquilar as vontades revolucionárias não é a nossa. Dela só pode resultar um agravamento da miséria, da ignorância e da repressão. Esperamos exclusivamente da ação autônoma dos trabalhadores a oposição que poderá impedi-la, e conduzir à subversão – no sentido de remanejamento absoluto – do mundo atual.

Esta subversão, o surrealismo foi e permanece o único a empreendê-la no terreno sensível que lhe é próprio. Seu desenvolvimento, sua penetração nos espíritos colocaram em evidência a falência de todas as formas de expressão tradicionais e mostrou que elas eram inadequadas à manifestação de uma revolta consciente do artista contra as condições materiaise morais impostas ao homem. A luta pela substituição das estruturas sociais e a atividade desenvolvida pelo surrealismo para transformar as estruturas mentais, longe de se excluírem são complementares. Sua junção deve apressar a vinda de uma época liberada de toda hierarquia e opressão.

Manifesto de Jean-Louis Bédouin, Robert Benayoun, André Breton, Roland Brudieux, Adrien Dax, Guy Doumayrou, Jacqueline Duprey, Jean-Pierre Duprey, Jean Ferry, Georges Goldfayn, Alain Lebreton, Gérard Legrand, Jehan Mayoux, Benjamin Péret, Bernard Roger, Anne Seghers, Jean Schuster, Clovis Trouille no Le Libertaire de 12 de outubro de 1951.

O Sonho e a Revolução

Posted in Anarquismo, Literatura with tags , , , , on dezembro 12, 2010 by canibuk

O sonho não é o contrário da realidade. Ele é um aspecto real da vida humana, assim como a ação; e um e outra, bem longe de excluírem-se, completam-se. Todavia, este aspecto, negligenciado ou voluntariamente relegado ao plano das superstições perigosas pela civilização atual (a das casernas, das igrejas e das delegacias) contém os fermentos de revolta mais violentos por serem os mais profundamente humanos. Compreende-se que a vontade de obscurantismo dos mestres-pensadores seja sempre manifestada por um desprezo total em relação ao sonho. Sua inteligência limitou-se a tolerar (e talvez a favorecer) a difusão das “chaves dos sonhos”, obras desnaturadas, de caráter puramente supersticioso, fantasioso ou idiota. Mas os povos que o odioso bom senso europeu obstina-se em denominar “primitivos” (primitivos porque nunca conhecerão os segredos da bomba atômica, ou simplesmente da hipocrisia diplomática) concedem ao sonho um lugar de primeiro plano.

Freud, desvelando o mecanismo do sonho, interpretando-o, demonstrou que ele constituía o perfeito revelador das tendências e dos desejos mais secretos dos homens. Sabe-se agora que não existe sonho gratuito, que pelo simples fato de sonhar o homem muda seu destino, mesmo que essa mudança permaneça imperceptível. Desperto, o homem aprende do mundo o que sua razão e seus sentindos bem quiserem deixar-lhe aperceber, isto é, uma ínfima parte do que realmente é; em sonho, os objetos, os sentimentos, as relações mais audaciosas tornam-se-lhes lícitas, familiares. Desceu ao coração de si mesmo, ao coração das coisas.

Isto é válido tanto para as coletividades quanto para os indivíduos. Se o sonho é a expressão do desejo, se a explicação de um pode preludiar, numa certa medida, a realização do outro, o maior desejo coletivo é a revolução. G.C. Lichtenberg lamentava que a história fosse feita unicamente da narrativa dos homens espertos. Quando, numa noite, todos os explorados sonharem que é preciso acabar e como acabar com o sistema tirânico que os governa, aí então, talvez, a aurora surgirá em todo o mundo, sobre barricadas.

escrito por Jean Schuster (parte do livro “Surrealismo & Anarquismo” lançado aqui no Brasil pela editora Imaginário).