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Arrepios Sangrentos do Cinema (1960-1980)

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on agosto 8, 2018 by canibuk

O cinema sempre foi terreno fértil para a exploração do corpo. Se nas décadas de 1950 e 1960 o cinema era mais sugestivo do que apelativo (mas com a sci-fi e seus monstros e aliens deformados já apontando os rumos que a nova audiência exigia), foi na ressaca da contracultura, nos anos de 1970, que o cinema foi tratando de ficar mais explícito e cínico, culminando numa explosão de corpos monstruosos/pegajosos nas telas do cinema da década de 1980, onde a crítica social-niilista-pessimista da década anterior cedeu lugar à auto paródia do terrir.

Podemos afirmar que a auto paródia que o cinema dos anos de 1980 viveu, principalmente o americano, tem suas raízes nos filmes da dupla H. G. Lewis e David F. Friedman, principalmente na trinca de goremovies “Banquete de Sangue” (Blood Feast, 1963), “2000 Maníacos” (2000 Maniacs, 1964) e “Color Me Blood Red” (1965), que aproveitaram para extrapolar, para deleite do jovem público de drive-ins, o bom gosto estético, aproveitando até mesmo idéias de mortes exageradas dadas por seus filhos pré-adolescentes. O corpo humano deixava de ser um templo sagrado e, agora, estava disponível para todo o tipo de mutilações que os técnicos de efeitos especiais conseguissem elaborar. E mais, agora o tabu do canibalismo também caia por terra e o corpo humano servia de alimento às sádicas personagens.

No final dos anos de 1950 e início dos anos de 1960, a cinematografia gore ainda foi discreta, com obras como “First Man Into Space (1959), de Robert Day, sobre um astronauta que começa a derreter e que foi a inspiração para a produção do clássico “O Incrível Homem Que Derreteu” (The Incredible Melting Man, 1977, de William Sachs. “Inferno” (Jigoku, 1960), de Nobuo Kakagawa, tomou como inspiração o inferno concebido por Dante e ousou mostrar, em cores, os horrores explícitos de um purgatório onde os pecadores sofriam todo tipo de violência na carne. “Six She’s and A He” (1963), de Richard S. Flink, contava a história de um astronauta feito de prisioneiro por uma tribo de lindas mulheres que costumavam realizar incríveis banquetes com os membros decepados de seus algozes. “Six She’s and A He” é uma espécie de irmão bastardo dos filmes da dupla Lewis-Friedman, já que seu roteirista é o ator William Kerwin, que atuou em “Blood Feast” e “2000 Maniacs” usando o pseudônimo de Thomas Wood. “Está Noite Encarnarei no teu Cadáver” (1967), de José Mojica Marins, à exemplo de “Jigoku”, também mostrava em cores os horrores do inferno com muitos membros decepados, sofrimentos diversos e inventivos demônios feito com parte dos corpos de seus alunos de curso de cinema.

No ano seguinte o horror ficou ainda mais explícito com duas obras seminais: Mojica realizou um banquete canibal em seu longa de episódios “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” (1968), no episódio “Ideologia”, e o Cult “A Noite dos Mortos-Vivos” (The Night of the Living Dead, 1968), de George A. Romero, que trazia o canibalismo explícito para as telas com a virulenta modernização dos zumbis, desta vez se deliciando com tripas e toda variedade de carne humana, de crua à carbonizada, dando apontamentos do caminho que o cinema de horror viria a tomar nos anos seguintes.

Jigoku (1960)

Charles Manson e a Família haviam acordado a América de seu “American Way of Life” e os horrores do Vietnã eram televisionados nos jornais do café da manhã, toda uma geração insatisfeita queria voz. Na década de 1970 o cinema de horror ficou mais insano, pessimista e violento para com as instituições oficiais. Jovens cineastas perceberam, ensinados por H.G. Lewis e George A. Romero, que o cinema independente era o caminho natural para adentrar no mundo das produções cinematográficas, e o melhor, o horror niilista tinha público fiel ávido por “quanto pior melhor”.

Tom Savini em Dawn of the Dead (1978)

Inspirados por Charles Manson e “A Noite dos Mortos-Vivos”, no Canadá, a dupla Bob Clark e Alan Ormsby profanaram os defuntos com seu clássico “Children Shouldn’t Play With Dead Things” (1972), podreira sobre um grupo de degenerados comandados por uma espécie de guru fake a la Manson que desenterram alguns corpos num cemitério isolado e realizam um verdadeiro show de barbaridades e imaturidade. Aliás, Ormsby deve ser atraído por personalidades problemáticas, já que na seqüencia realizou o clássico “Confissões de um Necrófilo” (Deranged, 1974), co-dirigido por Jeff Gillen, inspirado na figura do psicopata Ed Gein e que, na minha opinião, é a melhor abordagem cinematográfica já feita sobre Gein, que inspirou, entre outros, também os clássicos “Psicose” (Psycho, 1960), de Alfred Hitchcock, e “O Massacre da Serra-Elétrica” (The Texas Chainsaw Massacre, 1974), a obra-prima de Tobe Hooper, realizado no mesmo ano de “Deranged” e que contava com efeitos do ex-fotografo de guerra Tom Savini, que se inspirava nos horrores reais que presenciou para criar as maquiagens mais podreiras possíveis. Os corpos dos mortos agora não eram mais sagrados, podiam alimentar psicopatas dementes ou, até, se tornarem grotescas obras de arte ou peça de happenings.

O público clamava por histórias mais adultas, além da violência explícita, o sexo também gerava curiosidade. Andy Warhol e Paul Morrissey foram para a Europa filmar, com ajuda do italiano Antonio Margherity, “Carne para Frankenstein” (Flesh for Frankenstein, 1974), uma releitura sexual-splatter de Frankenstein de Mary Shelley, com litros de sangue, referências à necrofília e abordagem erótica da história do cientista que brincava de Deus, dando especial atenção ao detalhes sórdidos e eróticos. No Canadá David Cronenberg previa as epidemias de doenças sexualmente transmissíveis ao realizar “Calafrios” (Shivers, 1975), com roteiro sério que discutia o sexo, sem deixar de incluir taras, fetiches e doenças como a pedofília em roteiro genial (o final do filme continua poderoso).

De volta à América, o cineasta underground Joel M. Reed lançou em 1976 o perturbador e doentio “Bloodsucking Freaks” (The Incredible Torture Show), com a personagem de Sardu, ajudado por um anão tarado, que raptava jovens mulheres que se tornavam deliciosas iguarias para seus banquetes explícitos onde até mesmo sanduíches de pênis era devorados. Ainda em 1976, os exageros do cinema gore se encontraram com a falta de limites do mundo da pornografia e o jovem Michael Hugo cometeu o, ainda hoje, obscuro “Hardgore”, uma carnificina envolvendo sexo explícito com todo o tipo de perversões na história de uma inocente mocinha internada numa instituição mental. “Hardgore” parecia preparar terreno para “Cannibal Holocaust” (1980), do italiano Ruggero Deodato, produção que extrapolou qualquer limite do bom gosto ao assassinar, em frente às câmeras, todo tipo de animais, incluindo a famosa cena da tartaruga, filmada com verdadeiros requintes de crueldade.

Mas um pequeno curta independente, filmado em super 8 por um grupo de amigos, anunciava que o cinema de horror voltaria a ficar mais artístico (sem assassinatos reais ou pornografia): “Within the Woods” (1978), de Sam Raimi, produzido com os amigos Robert Tapert e Bruce Campbell, era um ensaio para a produção do Cult “A Morte do Demônio” (Evil Dead, 1981), que influenciaria meio mundo nos anos de 1980 e 1990 com sua ensandecida história envolvendo jovens possessados por demônios numa cabana isolada. O cinema de horror começava a sair dos cinemas pulgueiros para tomar de assalto toda uma nova geração que descobriria os filmes malditos com o videocassete.

De certo modo “Evil Dead” preparava o público para a exploração do corpo que o cinema da década de 1980 realizou. Nunca na história da indústria cinematográfica tivemos outra época tão rica na exploração de anomalias, doenças, mutações e toda uma rica gama de deformações genéticas. Era a época da disco, da cocaína acessível e barata, do “viva rápido, morra jovem”, então… Pro inferno com a seriedade, o negócio agora era a auto paródia e o cinema de horror, principalmente o americano, soube não se levar em sério e por toda a década de 1980 cineastas como Lloyd Kaufman, Stuart Gordon, Dan O’Bannon, Fred Deker, Roger Corman, Fred Olen Ray, Jim Wynorski, entre outros, conseguiram passar através de seus filmes o clima de curtição que os anos de 1980 possuíam.

por Petter Baiestorf

Veja os trailers aqui:

Outros Posters:

The Incredible Melting Man

Kwaidan Eiga: O Cinema de Horror do Japão

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on março 7, 2012 by canibuk

Quando se fala em cinema de horror e fantástico, sempre se comenta a produção made in USA, Inglaterra, Itália ou Espanha, ou seja, o cinema Ocidental, ignorando-se quase completamente o gênero originário do extremo Oriente como China ou o cinema Japonês.

O cinema fantástico japonês é mais conhecido no ocidente por seus monstros de borracha que esmagam cidades e são imitados pelos gringos com mais dinheiro e menos imaginação, ou seja, pelos Kaiju Eiga (“filmes de monstros”) onde reina absoluto Gojira (nome certo do Godzilla). Mas trataremos aqui dos chamados Kwaidan Eiga. A palavra Kwaidan (ou Kaidan) significa “tamanho” ou “grandeza”, mas escrita com um ideograma diferente que dizer “Histórias de Fantasmas”, e por extensão, “histórias de horror”, se considerar-mos que a maioria das histórias assombrosas japonesas são ghost stories. Assim, partindo da literatura clássica de fantasmas nipônicos (Kaidan Mono) e seu sub-gênero mais popular, o Bake Neko Mono (“histórias de gatos fantasmas) o gênero passou para o cinema dando origem aos Kaidan (ou Kwaidan) Eiga, ao Bake Neko Eiga, ao Kyuketsuki Eiga (filmes de vampiros), etc.

Oficialmente o Kaidan Eiga nasceu em 1899 quando foi realizado o filme “Momijigari”, o mais antigo filme japonês totalmente conservado, e que só foi apresentado ao público em 1903. Na verdade é o registro em celulóide de uma peça de teatro “Kabuki” que continha elementos fantasmagóricos na trama. O gênero se desenvolveu muito e teve seu auge entre os anos de 1950 e 1970, gerando vários clássicos como: “Kaidan Kasanegafuchi” (The Ghost os Kasane, 1957) de Nobuo Nakagawa (1905-1984), um dos maiores diretores do gênero; “Jigoku” (Hell/Retrato do Inferno, 1960) também de Nakagawa, um dos filmes precursores do gênero Splatter; “Kyofu Nikei Ningen” (The Horror of Malformed Men, 1969) de Teruo Ishii, uma versão de uma história de Edogawa Rampo (1894-1965), maior escritor nipônico de terror e que inventou seu pseudônimo baseado no som do nome de Edgar Allan Poe; além dos filmes de vampiros de Michio Yamamoto, como “Chi o Suu Ningyo” (A Noite do Vampiro, 1970), “Chi o Suu Me” (O Lago de Drácula, 1971) e “Chi o Suu Bara” (O Inferno de Drácula, 1974) que foram exibidos nos cinemas brasileiros na época. Hoje em dia, apesar dos avanços de linguagem e efeitos especiais, quase nada aporta por aqui, nem mesmo em DVD.

Kwaidan – O Filme (1964), vencedor do prêmio especial do júri no festival de Cannes de 1965, onde também foi exibido outro clássico japonês, “Onibaba” (Devil Woman/Onibaba – O Sexo Diabólico, 1964) de Kaneto Shindo.

“Kwaidan” (Ghost Stories/As Quatro Faces do Medo, 1964) dirigido por Masaki Kobayashi é claramente um filme de arte com produção requintada. Com cenários deliberadamente artificiais e design na tradição do teatro “Nô”, adaptando técnicas do “Kabuki” e do teatro de boneco “Bunaraku”. O som do filme foi todo dublado em um estúdio adaptado em um hangar de aviões soando estranho e com ecos abafados ao longe. A trilha sonora composta pelo músico experimental Toru Takemitsu é recheada de efeitos sonoros pesados que lembram sons de madeira cortada, rochas caindo ou trovões. O roteiro adapta 4 histórias folclóricas coletadas e transcritas pelo escritor naturalizado americano Lafcadio Hearn (um europeu fascinado pela cultura oriental e que também escrevia com pseudônimo de Yakumo Koizumi) em seu “Kwaidan-Stories and Studies of Strange Things”.

Num exercicio estilístico, cada conto se passa numa estação do ano. “Kurokami” (Cabelos Pretos) conta sobre um jovem e pobre samurai que deixa sua mulher para se casar com a filha de um homem rico. Anos depois ele retorna arrependido e encontra tudo em ruínas, menos sua ex-esposa que parece intocada pelo tempo. Eles vivem uma noite de apaixonada reconciliação mas, ao acordar pela manhã, ele está abraçado a um cadáver com longos cabelos pretos que o envolvem. Em “Yukionna” (A Mulher da Neve) é uma linda mulher demônio que mata homens de frio. Um lenhador testemunha uma aparição mas é poupado sob a promessa de nunca contar o que viu. Anos depois ele é tentado a contar a sua maravilhosa e perfeita esposa o segredo, descobrindo então que se casara com a mística Mulher da Neve. “Miminashi Hoichi no Hanashi” (Hoichi – O Sem Orelhas) é o segmento mais espetacular. Há mais de 700 anos dois clãs, Genji e Heike, travam uma sangrenta batalha naval (num mar estilizado e com um céu vermelho digno das mais fantásticas pinturas) onde os Heike são dizimados. A imperatriz e seu filho suicidam-se jogando-se nas águas (e não há ruído da queda ou gritos, mas sons de rochas e madeira) fazendo com que o mar já vermelho de sangue fique assombrado e habitado por estranhos caranguejos com os rostos dos mortos em suas costas. Muito tempo depois os espíritos dos samurais não descansam, mas encontram alívio ao ouvirem o jovem músico cego Hoichi tocar o Biwa (instrumento primitivo) e recitar a saga do clã noite após noite. Os sacerdotes do templo onde o jovem mora desconfiam de seus passeios noturnos e descobrem o macabro público que ele agrada. Pintam então Hoichi com ideogramas de um livro sagrado da cabeça aos pés e o fazem ficar em silêncio trancado no templo para afastar os espíritos. O fantasma que vem busca-lo para a audição noturna não consegue vê-lo, mas os sacerdotes esqueceram de pintar suas orelhas. Para não sair de mãos abanando, o samurai espectral resolve levar só o que encontrou. Hoichi se livra da maldição e fica famoso e rico como menestrel cego-sem-orelhas e que conta tocando seu Biwa sua própria história de fantasmas. “Chawan no Nak” (Em uma Xícara de Chá) rola em torno da premissa que algumas histórias permanecem inacabadas por não terem um bom final. No dia do ano novo um samurai sedento vai tomar uma xícara de chá e vê o reflexo de um rosto sorridente que o assombra. Ele tenta contar o que aconteceu mas ninguém acredita nele. O fantasma chamado Heinai o persegue e o samurai o ataca fazendo-o desaparecer. Na noite seguinte ele é abrodado por três guerreiros que o desafiam em nome de Heinai e ele tem que lutar com os fantasmas. A história para por aí pois ninguém conseguiu lhe dar um final satisfatório. Um editor resolve procurar o autor da história em sua casa e o encontra… aprisionado no reflexo de uma xícara de chá.

Comentando o filme na época de seu lançamento nos USA (onde concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro), o crítico do New York Times escreveu: “Um filme de horror com extraordinária delicadeza e sensual qualidade, “Kwaidan” é uma sinfonia de cor e som sem comparação anterior!”.

escrito por Coffin Souza.