Arquivo de joel caetano

Corroendo Pelas Beiradas

Posted in Arte e Cultura, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on junho 18, 2013 by canibuk

Mais um protesto na avenida Paulista marcado para essa semana: Cineastas independentes ganham vitrine para seus filmes na mostra Cinema de Bordas que vai acontecer entre os dias de 20 a 23 de junho no Itaú Cultural (Av. Paulista 149), com a exibição de 28 produções que não contam com dinheiro público em seus orçamentos.

Zombio 2_Católicos ZumbisNo Brasil existem inúmeros cineastas independentes que não se utilizam do dinheiro público para produzirem seus filmes. Estes cineastas criaram seus próprios mecanismos de produção e distribuição e tentam evoluir de filme para filme. A produção do cinema independente é um ato político onde cineastas amadores e profissionais se negam a usar dinheiro público para empregar na realização de filmes populares. Os cineastas independentes tem o privilégio de dizer um grande não às possibilidades de trabalhar com as esmolas do governo e criar, dentro de suas próprias condições, obras que o povão entende e aplaude.

Entre os 28 filmes que serão exibidos está meu novo longa-metragem, “Zombio 2: Chimarrão Zombies”, produzido nun sistema de cooperativa que reuniu as produtoras Canibal Filmes, El Reno Fitas, Camarão Filmes e Idéias Caóticas, Bulhorgia Filmes, Sui Generis Filmes, Projeto Zumbilly, Necrófilos Produções, Fábulas Negras, Gosma e mais uns 50 colaboradores, cada um ajudando a fazer o muito com o pouco que podia ajudar.

A mostra Cinema de Bordas vai exibir o primeiro corte de “Zombio 2″ (ainda falta mexer no som, efeitos sonoros, trilha sonora e cores do filme) no dia 23 de junho às 18 horas, no encerramento da mostra que prima por exibir o cinema mais autoral (e livre) produzido atualmente no Brasil.

Confira a programação aqui: Cinema de Bordas.

Petter Baiestorf.

Não deixa de acompanhar a mostra Cinema de Bordas

Não deixa de acompanhar a mostra Cinema de Bordas

Zombio 2_Américo Giallo

Zombio 2_Zumbis Podres em Festa 2

A Vingança dos Filmes B – Parte 2

Posted in Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on novembro 22, 2012 by canibuk

De 23 a 25 de novembro a Sala P. F. Gastal (3° andar da Usina do Gasômetro) recebe a segunda edição da mostra “A Vingança dos Filmes B”!

O termo “Filme B” surge durante os anos 1920 para classificar produções baratas de pequenos estúdios (westerns, suspenses, seriados de aventura), que serviam de complemento em sessões duplas para os filmes Classe A, ou seja, aqueles realizados pelos grandes estúdios com orçamentos milionários e grandes estrelas. Os “Filmes B” eram feitos a toque de corda, em poucos dias, com astros de terceira e orçamento irrisório. Existia uma área em Hollywood conhecida como Powerty Row (cinturão da pobreza), por reunir diversas produtoras independentes que forneciam filmes de baixo orçamento que eram comprados e distribuídos pelos grandes estúdios. Esse sistema funcionou até o final dos anos 1950, quando acaba a chamada “Era de Ouro de Hollywood”. Apesar da deturpação de seu contexto original, e das modificações na simbiose entre os grandes estúdios e os produtores independentes, o termo Filme B sobreviveu adquirindo conotações diferentes, mas ainda é uma boa definição para filmes de gênero realizados fora do sistema dos estúdios, com orçamento limitado, atores desconhecidos e temática fora dos padrões. Porém, hoje a tela dos cinemas é uma realidade distante para a maioria destas produções que lutam por um espaço público de exibição.

A mostra A Vingança dos Filmes B foi concebida para servir de vitrine para produções independentes que flertem com o cinema de gênero, funcionando como um espaço democrático onde coexistam os mais variados tipos de expressão cinematográfica, do horror à comédia, passando pelos filmes sci-fi e pelo cinema de ação, sem se importar com o orçamento investido (sejam produções rebuscadas ou de orçamento zero), ou com o suporte de realização. Produções em película, digital e VHS ocupando pacificamente o mesmo espaço. Um evento destinado ao resgate e a divulgação de filmes independentes, bizarros, engraçados ou assustadores, incentivando o público a dialogar com obras que dificilmente encontram espaço nas telas dos cinemas.

Chegou a hora dos independentes retomarem o seu espaço nas telas, mas não como meros coadjuvantes, e sim como atração principal! Está na hora da Vingança dos Filmes B-Parte 2!

escrito por Cristian Verardi, curador da Vingança dos Filmes B.

PROGRAMAÇÃO

A VINGANÇA DOS FILMES B – PARTE 2

(ENTRADA FRANCA / CLASSIFICAÇÃO: 16 ANOS)

 Sexta-Feira, 23 de Novembro.

19h30- Horror.Doc (72’), de Renata Heinz

(OBS: Após a sessão debate com Renata Heinz).

Sábado, 24 de novembro

15h- 20 Anos de Canibal Produções: Baiestorf – Filmes de Sangreira e Mulher Pelada (20’),Christian Caselli + Boi Bom (12’)  + Blerghhh!!! (50’). (Após a sessão debate com Petter Baiestorf)

17h30- Sessão Trash’O’Rama: Cachorro do Mato (15’), de Maurício Ribeiro + Amarga Hospedagem (60’), de Claúdio Guidugli. (OBS: Após a sessão debate com o realizador Cláudio Guidugli)

19h30- Sessão de Curtas I: O Solitário Ataque de Vorgon (6’), de Caio D’Andrea + Rango (6’), de Rodrigo Portela + Morte e Morte de Johnny Zombie (14’), de Gabriel Carneiro + Sangue e Goma (11’), de Renata Heinz + Vontade (10’), de Fabiana Servilha + Nove e Meia (20’), de Filipe Ferreira + Rigor Mortis (20’), de Fernando Mantelli e Marcello Lima. (OBS: Após a sessão debate com os realizadores)

(total: 87 minutos).

Domingo, 25 de Novembro

15h- A Noite do Chupacabras (95’), de Rodrigo Aragão

17h- Maldita Matiné: Testículos (15’), de Christian Caselli + Street Trash (1986)de Jim Muro (90’)

19h30- Sessão de Curtas II: Raquetadas Para a Glória (7’), de TV Quase + X-Paranóia (14’), de Cristian Cardoso e Felipe Moreira  + DR (10’),de Joel Caetano e Felipe Guerra + Confinópolis – A Terra dos Sem Chave (16’), de Raphael Araújo +  O Curinga (14’), de Irmãos Christofoli + Coleção de Humanos Mortos (20’), de Fernando Rick + Rackets in London- The Olympic Dream (7’), de TV Quase. (OBS: Após a sessão debate com os realizadores).

(Total: 89 minutos).

Para ler sobre os filmes que serão exibidos, acesse o blog de Verardi.

Discutir a Relação: A Sogra Metendo o Dedo na Ferida do Casal

Posted in Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on setembro 7, 2012 by canibuk

“DR” (2012, 10 min.) de Joel Caetano e Felipe Guerra. Com: Dona Oldina, Mariana Zani e Joel Caetano.

Não há nada pior num relacionamento em crise do que gente de fora dando pitaco. “DR”, curta-metragem que marca a primeira parceria entre Joel Caetano e Felipe Guerra, fala justamente sobre isso: Um casal em crise (Joel e Mariana, casados na vida real) vai discutir sua relação com a sogra (Dona Oldina) não só presente, como no papel de mediadora. A sogra e a esposa despejam acusações contra o marido que escuta tudo pacientemente calado (logo depois descobrimos que ele não se defende porque está amarrado e amordaçado), logo o que era violência verbal se torna violência física e sexual com a sogra abusando do genro imobilizado, assim que a tortura física tem início dentes e dedos quebrados vão surgindo num crescendo de violência que culmina num ataque de fúria do marido contra a sogra. Nada mais atual nos dias de hoje, quando a violência tomou lugar do diálogo. Não sei se foi intencional, mas o modo como o roteiro do filme trata do ciúme possessivo é de longe uma das melhores abordagens do tema que já vi no cinema independente brasileiro. Lógico que o filme se revela meio machista, colocando a culpa de tudo nas mulheres, como se o homem fosse uma vítima do casamento e da tirania da sogra, excluindo-o do fato de, no filme, ficar claro que ele traia a esposa. Fácil de entender quando pensamos que o roteirista é Felipe Guerra, gaúcho tradicional dos pampas. Como o filme não é sério em momento algum, este “machismo” de brincadeira não atrapalha. Não posso falar muito mais sobre a história, mas é um grande acerto da dupla de diretores.

Dividindo a direção, a dupla desenvolveu um argumento que Felipe Guerra havia escrito para filmar em apenas um dia aproveitando que Dona Oldina, sua vó, estaria em São Paulo. “Já tinha colocado minha vó como fantasma, tarada e assassina serial nos meus outros filmes e queria que ela novamente fizesse um papel onde pudesse surpreender o público. Foi quando tive a idéia de “DR”. Porque todo mundo faz filme com vampiro, assassino mascarado, zumbi, mas duas das coisas mais assustadoras da “vida real”, e creio que para ambos os sexos, são sogras e discussões de relação. Imagine que se discutir a relação já é foda, com a sogra junto é duas vezes pior. Então pensei nesse negócio de uma DR em que a sogra passasse um pouco dos limites e o curta tornou-se uma experiência meio “torture porn”, aqueles filmes em que uma personagem passa o tempo todo sendo torturado.”, nos conta Guerra, enquanto Joel explica como foram as filmagens: “Ano passado Dona Oldina veio para São Paulo para acompanhar o Cinefantasy e o Felipe me mandou uma mensagem dizendo que tinha uma idéia que dava para filmar em um dia, num apartamento e com três atores, no caso Dona Oldina, eu e Mariana Zani. Nem precisei ler o roteiro para aceitar a proposta e, depois que li, fiquei muito feliz pois era uma ótima idéia. Assim surgiu o “DR”. O filme foi feito todo de forma colaborativa. O sangue foi cedido de uma oficina que o Rodrigo Aragão estava ministrando na época (um sangue, como ficamos sabendo mais tarde, que seria descartado por não ter funcionado direito). Além de nós quatro também estavam a Daniela Monteiro e a mãe do Felipe, dona Neusa Guerra. Eu e Felipe ficamos na direção, eu mais preocupado com a direção de atores e ele com a direção de cena. O Felipe fez a câmera e fizemos juntos a iluminação. Daniela e Neusa cuidaram da captação direta do som e eu fiquei com os efeitos especiais também”. Aliás, os efeitos especiais estão extremamente convincentes, o que imprime uma força narrativa de maior intensidade ao filme. Joel Continua, “Me orgulho do efeito do dedo se quebrando, simplesmente comprei uma mão falsa, cortei o dedo dela, escondi o meu e quando a mariana dobra é o dedo falso que se move para trás, a sonorização e o corte rápido fizeram o resto, ficou bem convincente, vi algumas pessoas pulando da cadeira no cinema, o que acontece também na cena dos dentes que se quebram, eu mesmo fiquei agoniado com aquilo vendo na tela”.

“DR” é um filme onde tudo está bem realizado e aproveitado, provando que não é necessário grandes orçamentos para se produzir um bom filme. Mas Dona Oldina é quem rouba o filme para si, de longe é sua melhor interpretação e ela está fantástica como a sogra perturbada e violenta. Felipe nos conta como foi trabalhar com ela: “Com 82 anos de idade minha vó topou todas as cenas numa boa e em nenhum momento ficou escandalizada com a violência, porque ela entendia que era algo exagerado e absurdo para divertir e não para chocar. Ela não tem dificuldades com as cenas físicas, seu maior problema é lembrar as falas. Fizemos uns 20 takes só dela tentando falar a frase “discutir a relação”, porque na hora ela se embananava e falava “a questão da relação”. Dona Oldina só ficou preocupada com a possibilidade do filme ser exibido em Carlos Barbosa/RS, que é uma cidadezinha de 25 mil habitantes, e ela tem medo de ser expulsa do grupo da igreja. Minha vó também fez um improvisso hilário em que dá um rápido beijo na boca do Joel, felizmente quando ele está amordaçado”. E Joel completa rindo, “Até hoje o Felipe me chama de vô!”.

A edição do curta foi decidida também em conjunto pela dupla de diretores. “Foi uma edição em conjunto, eu estava operando o software e o Felipe do meu lado, todas as decisões de cortes foram tomadas por nós dois. A montagem só demorou mais porque em determinados momentos, principalmente na cena em que eu chuto a personagem da Dona Oldina, eu tinha crises de riso. O Felipe tinha que me sacudir para eu parar de rir!”, conta Joel. O resultado final deste trabalho em conjunto, além de impressionar o espectador, deixou ambos os diretores satisfeitos, como define Felipe ao dizer “Foi interessante fazer esse projeto em conjunto com o Joel, um cara cujo trabalho eu respeito muito com o qual tenho bastante afinidade. É difícil você encontrar alguém que tope fazer uma parada assim, sem dinheiro e filmada na raça, num único dia”, enquanto Joel dá pistas para o futuro da parceria, “Espero poder repetir a dose em breve!”.

Por enquanto “DR” pode ser visto apenas em mostras e festivais, mas espero que em breve ambos os diretores tomem vergonha na cara e lancem um box com toda sua filmografia, tanto Caetano quanto Guerra estão devendo o lançamento de seus filmes para que o público de outras regiões do Brasil possa tomar contato com suas obras.

Por Petter Baiestorf.

Clique em “Joel Caetano e seu Cinema de Recurso Zero” para ler a entrevista que fiz com ele.

Clique em “Necrófilos em Ação: O Cinema de Felipe Guerra na Terra da Polenta” para ler a entrevista que fiz com ele.

Quarta Edição do Cinema de Bordas

Posted in Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on julho 28, 2012 by canibuk

Do dia 01 a 05 de agosto o Itaú Cultural abre seu espaço para a mostra Cinema de Bordas que vai trazer ao público paulista cerca de 23 filmes de realizadores independentes. Cinema de Bordas (ou Cinema de Garage ou Cinema Trash ou Cinema Caseiro, tanto faz, é tudo rótulo bom prás vendas) é o cinema independente brasileiro que faz o tudo com o nada e, na base do improvisso mesmo, mantêm viva a possibilidade do fazer sem ajuda do Estado pai-patrão. Se no cinema independente brasileiro o improvisso é o que mais se destaca, note-se que não é uma opção dos diretores (todos estariam filmando com dinheiro se pudessem), mas sim uma triste realidade deste paisinho dominado por corruptos e ignorantes que não tem investidores financeiros, nem canais de distribuição, para estes filmes realizados aos trancos e barrancos que acabam tendo uma recepção de público mais calorosa do que a maioria das produções profissionais de cinema do Brasil.

Nesta edição destaque para a exibição de “A Maudição da Casa de Vanirim” (nota do Canibuk: Sim, “maudição” escrito assim mesmo!) de Seu Manoelzinho, longa produzido em 1987, em VHS, que estava sendo considerado perdido e que agora, finalmente, terá sua primeira exibição pública. “Vermibus” (2012) de Rubens Mello estará estreiando no evento. Rubens Mello, prá quem não sabe, foi ator em filmaços como “Encarnação do Demônio” (2008) de José Mojica marins, “Ivan” (2011) de Fernando Rick e é um dos organizadores do Guarú Fantástico.

Joel Caetano e sua esposa Mariana Zani estarão ministrando uma oficina sobre como fazer filmes sem grana nenhuma em paralelo ao evento. Antes da mostra, dia 31 de julho, rola um debate no programa de TV Jogo de Idéias com participação de Kika de Oliveira (“Mangue Negro”), Dona Oldina (“Extrema Unção”), Gisele Ferran (“O Doce Avanço da Faca“), Mariana Zani (“Estranha“) e o diretor Seu Manoelzinho.

E o mais lindo desta quarta edição da mostra é que vai rolar o lançamento do terceiro livro sobre realizadores de Cinema de Bordas que é uma fonte de pesquisa sempre bem vinda. Os realizadores independentes brasileiros merecem mais iniciativas como essa.

Um fã ao lado de Seu Manoelzinho (dir.)

PROGRAMAÇÃO

1 de agosto (quarta-feira)

20h -  Bate-papo com os curadores Bernadette Lyra, Gelson Santana eLaura Cánepa, seguido de exibição de seleção especial de filmes:

Onde Está Meu Rim?, de Renato Dib (1 min, Manaus, 2010)
Roquí Son Contra o Extermínio Ambiental, de Renato Dib (2 min, São Paulo e Manaus, 2012)
DR, de Felipe Guerra e Joel Caetano (12 min, Carlos Barbosa e São Paulo, 2012)
Vermibus, de Rubens Mello (25 min, Guarulhos, 2012)

2 de agosto (quinta-feira)

18h – Morte e Morte de Johnny Zombie, deGabriel Carneiro (14 min, São Paulo, 2011)
Entrega Especial, de Rodrigo Brandão (27 min, Juiz de Fora, 2006)
Fatman & Robada, de Rogério Baldino (32 min, Porto Alegre, 1997)
Brasil, um País de 5%, de Nerivaldo Ferreira e Johel Alvez Bright (36 min, Rio Real, 2011)

20h - Hipnose Para Leigos, deChico Lacerda (6 min, Recife, 2005)
Como Irritar Dandies do Hardcore, de Gurcius Gewdner (16 min, Rio de Janeiro, 2012)
Mais Denso que Sangue, de Ian Abé (15 min, Cabaceiras, 2011)
Jerônimo, O Herói do Sertão, de David Rangel (32 min, Paty do Alferes, 1996)
Seguido de bate-papo com David Rangel, mediado por Rogério Ferraraz

3 de agosto (sexta-feira)

18h - Antes/Depois, de Christian Caselli (9 min, Rio de Janeiro, 2005)
Bastar, de Gustavo Serrate (20 min, Brasília, 2010)
Black Power Jones, de Igor Simões Alonso (17 min, Osasco, 2012)
O Cabra Bode, de Milton Santos (45 min, Cícero Dantas, 2011)

20h - Necrochorume, de Geisla Fernandes (17 min, São Paulo, 2012)
Lua Perversa 2, de André Bozzetto Jr (18 min, Pinhalzinho, 2011)
A Lenda da Lagoa Vermelha II A Vingança, de Eutímio Carvalho (30 min, Cícero Dantas, 2012)
A Maudição da Casa de Vanirim, de Manoel Loreno (26 min, Mantenópolis, 1987)
Seguido de bate-papo do público com os curadores e realizadores presentes.

4 de agosto (sábado)

18h - A Lenda da Lagoa Vermelha II, de Eutímio Carvalho (30 min, Cícero Dantas, 2012)
Uma Vinchester Para Três Tumbas, de Arlindo Filho (91 min, Presidente Prudente, 2012)

20h - Lua Perversa 2, deAndré Bozzetto (18 min, Pinhalzinho, 2011)
Flor de Abril, de Cícero Filho (110 min, São Luiz, 2011)

5 de agosto (domingo)

16h - Jerônimo, O Herói do Sertão, de David Rangel (32 min, Paty do Alferes, 1996)
A Maudição da Casa de Vanirim, de Manoel Loreno (26 min, Mantenópolis, 1987)
Black Power Jones, de Igor Simões Alonso (30 min, Osasco, 2012)
DR, de Felipe Guerra e Joel Caetano (12 min, Carlos Barbosa e São Paulo, 2012)
Seguido de bate-papo entre os curadores e realizadores presentes.

18h - Vermibus, de Rubens Mello (25 min, Guarulhos, 2012)
A Noite do Chupacabras, de Rodrigo Aragão (95 min, Guarapari, 2011)

Cinema de Bordas 4

de 01 a 05 de agosto

Sala Itaú Cultural

Av. Paulista 149, Estação Brigadeiro do Metrô

Estacionamento gratuito para bicicletas.

Programa Jogo de Idéias

dia 31 de julho

horários 18h30 e 20h no Itaú Cultural.

Oficina Produzindo com Recurso Zero

de 02 a 04 de agosto

inscrições pelo fone (11) 2168-1779.

A Noite do Chupacabras em DVD

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , on abril 11, 2012 by canibuk

Nesta sexta-feira 13 (de abril) será, finalmente, lançado o DVD de “A Noite do Chupacabras” (o atraso todo aconteceu por culpa de um erro de prensagem da fábrica (i)responsável pela produção do DVD). O DVD sairá por R$ 19.90 e pode ser encomendado no site da Fabulas Negras ou pelo e-mail de trabalho da produtora: vendas@fabulasnegras.com, também foram lançadas algumas camisetas do filme, como essa acima com Ivan Carvalho (interpretado por este que vos escreve) que estão com uma qualidade fantástica. Imperdível!!!

A Noite do Chupacabras” (2011) é a segunda parte da trilogia gore de Rodrigo Aragão iniciada em 2008 com o clássico “Mangue Negro” e que será finalizada com “Mar Negro”, que atualmente está em pré-produção (em breve postarei aqui matéria bem completa sobre os fantásticos monstros marinhos que Rodrigo está construindo para este filme).

“A Noite do Chupacabras” (2011, 104 min.) de Rodrigo Aragão. Com: Walderrama dos Santos, Joel Caetano, Petter Baiestorf, Mayra Alarcón, Kika Oliveira, Cristian Verardi, Fonzo Squizo, Reginaldo Secundo, Ricardo Araújo e Markus Konká. Direção de Fotografia: Secundo Rezende. Som: Hermano Pidner. Maquiagens: Rodrigo Aragão e Murillo Ribeiro. Produção: Kika Oliveira e Mayra Alarcón. Produção Executiva: Hermann Pidner.

A Noite do Chupacabras

Posted in Cinema, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , on março 22, 2012 by canibuk

“A Noite do Chupacabras” (2011, 104 min.) de Rodrigo Aragão. Com: Walderrama dos Santos, Joel Caetano, Petter Baiestorf, Cristian Verardi e Mayra Alarcón.

“CHUPACABRAS”: Um caso raro de uma lenda sobre um monstro moderno. Foi a partir de 1995 que estranhas histórias sobre uma criatura monstruosa que atacava e devorava animais começaram a aparecer em Porto Rico e a imprensa faminta por bizarrices divulgou com avidez. Logo histórias populares similares começaram a aparecer no México, depois Estados Unidos e em vários países da América do Sul, incluindo o Brasil.

Porto Alegre, sul do Brasil. Uma noite muito fria de uma sexta-feira de junho de 2011. Sessão de abertura do festival Fantaspoa. Première internacional do segundo longa metragem de Rodrigo “Mangue Negro” Aragão: “A Noite do Chupacabras”. Sessão lotada aberta ao público. Todos atentos a história de Douglas Silva (Joel Caetano), que retorna ao seu berço familiar no interior do Espírito santo, acompanhado de sua namorada grávida (Mayra Alarcón). Mas as coisas não estão bem para sua família, a morte de vários animais, reacende um antigo conflito com seus vizinhos agressivos e rivais, os Carvalho. Um rotineiro conflito de bar, quebra a trégua na guerra familiar e entre agressões, tiros e facadas, todos vão descobrir que um mal muito maior está entre eles: uma monstruosa e faminta criatura escondida na mata. Os Silva e os Carvalho, vão se matar e serem mortos pelo monstro, e ainda encontrar no caminho a figura mítica e também perigosa do “Velho-do-Saco” (Cristian Verardi). Douglas vai ter que provar a força que não se transformou em típico rapaz covarde da cidade grande e enfrentar a fúria do Chupacabras (Walderrama dos Santos) e do perigoso e demente Ivan Carvalho (Petter Baiestorf). Novamente como em “Mangue Negro” (2008), Rodrigo Aragão assume a direção, roteiro e efeitos especiais de maquiagem com extrema competência e grande parte do elenco também se divide em múltiplas funções técnicas, típico do cinema independente e de guerrilha. Um elenco afinado (e principalmente, escolhido “a dedo”), cenários naturais e muito bem fotografados e uma trilha sonora composta por grupos regionais como Vida seca, Pé do Lixo, Manguerê e Panela de Barro, que acompanha a trama de vingança, suspense e ação, sem cair no lugar comum de músicas eletrônicas, Rock pesado ou música Clássica de arquivo . A trama se desenvolve de forma natural, e para os impacientes com a demora da entrada do personagem-título em cena, a magnífica e original maquiagem “full-body” e a performance de Walderrama dos Santos enche os olhos e mostra que apesar da trama central ser focada na guerra interiorana entre famílias, este é sim , um filme de Monstro! Um monstro nacional (ou nacionalizado) e com todas as chances de ter uma carreira internacional, como aliás já está acontecendo: devagar, sorrateiro como um ataque de um Chupacabras!

Fim da sessão no inverno Gaúcho. O público aplaude em pé o filme e o elenco presente. A produção ainda não estava acabada, faltando ajustes na montagem e som, mas o impacto foi bastante positivo. Depois de conhecer pessoalmente o Aragão, Mayra, Walderrama, Joel e outros comparsas e de conversarmos e “bebemorármos” juntos, fica difícil escrever com isenção, até porque eu já era” fã-de-carteirinha” do longa anterior da produtora Fábulas Negras e a muito ansiava por um verdadeiro e bem feito filme-de-monstro brasileiro. Conhecida minha longa associação com Petter Baiestorf, fica parecendo puxação-de-saco dizer que ele rouba a cena no filme… o público reconheceu isto no final da sessão… méritos para o Aragão pela escalação e direção dos atores (destaque também para o sempre bom Marcos Koncá, para Cristian Verardi como o Velho-do-saco comedor de fígado e o Agnaldo de Foca Magalhães). Para quem cresceu somente conhecendo Monstros gringos e japoneses, e para toda uma nova geração só acostumada com insípidos monstros digitais, uma noite com o Chupacabras é como uma revelação, uma… fábula negra!

escrito por Coffin Souza.

Morte e Morte de Johnny Zombie

Posted in Cinema, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on dezembro 12, 2011 by canibuk

“Morte e Morte de Johnny Zombie” (2011, 14 minutos) de Gabriel Carneiro. Maquiagens de Fritz Martiliano. Com: Joel Caetano, Charlene Chagas, Ana Luiza Garcia, Felipe Guerra e Mariana Zani.

Johnny trabalha num galpão onde é produzido o pesticida Romero e, durante um vazamento, é contaminado pelo produto, se tornando aos poucos um zumbi.

“Morte e Morte de Johnny Zombie” é o curta-metragem de estréia do jornalista e crítico de cinema Gabriel Carneiro na direção. Optando por um ritmo mais intimista, Gabriel conta uma história de zumbis sob a ótica do próprio zumbi, mostrando essa transformação aos poucos. Seus elaborados takes subjetivos ajudam a construir a morte do Johnny humano (interpretado pelo sempre ótimo Joel Caetano, herói no longa-metragem “A Noite do Chupacabras” (2011) de Rodrigo Aragão), até se tornar o clássico zumbi comedor de carne humana e enfrentar sua eventual nova morte como zumbi, filmada de maneira espetacular por Gabriel carneiro, que dá uma uma importante contribuição ao subgênero “zombie movies”. Não vou contar aqui como foi feita essa cena, ela precisa ser assistida no curta, mas posso dizer que fazia anos que eu não me surpreendia tanto com um final de filme independente brasileiro.

É importante dizer que o filme conta com atuações de ícones do cinema independente brasileiro, além de Joel Caetano, sua esposa e sócia na produtora Recurso Zero, Mariana Zani, faz uma participação especial e o diretor Felipe Guerra interpreta o incrível falastrão fã de cinema, ou seja, interpreta a si mesmo de maneira soberba.

Gabriel Carneiro, além de jornalista e crítico de cinema, é membro fundador da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), escreveu o guia de cinema “Quem Apertou o Botão de Pânico? – Como a Ficção Científica Cinematográfica Norte-Americana, de 1950 a 1964, Abusou da Guerra Fria e de seu Contexto para Ganhar Dinheiro”, ainda não publicado; também escreveu o capítulo “O Anjo Embriagado” do livro “Os Filmes que Sonhamos”, organizado por Frederico Machado, colabora com a Revista de Cinema, nos sites Cinequanon e Zingu! e, atualmente, faz a pesquisa para o longa documental “O Cinema de Ozualdo Candeias”.

Achei o curta de estréia de Gabriel Carneiro imperdível. Acho que merecia um lançamento em DVD coletânea contendo trabalhos de vários diretores independentes, sinto falta dessa união de produtores independentes na hora de distribuir seus trabalhos. E já poderia aproveitar o gancho colocando num mesmo DVD o “Morte e Morte de Johnnie Zombie”, “Estranha” (última direção de Joel Caetano), “Extrema Unção” (última direção de Felipe Guerra) e mais alguns curtas de outros diretores. Único pecado desta nova geração de realizadores está na distribuição de seus filmes que, quase sempre, ficam restritas à mostras, festivais ou net, privando o colecionador de filmes de ter uma cópia apresentável em sua casa. Só queria deixar aqui a opinião de um colecionador fanático por cinema undergournd de baixíssimo orçamento.

Segue uma entrevista que realizei com Gabriel Carneiro sobre a produção de “Johnnie Zombie”:

Petter Baiestorf: Como surgiu a idéia para filmar “Morte e Morte de Johnny Zombie”?

Carneiro: Tenho uma amiga que adora zumbis, a Marília Passos. Um dia ela veio me dizer que teve uma idéia para um filme de zumbi. Sabe esses filmes em que os zumbis são meros coadjuvantes da história para um bando de paspalhos? Pois bem, seria o contrário, uma história de um zumbi protagonista e de sua transformação. Eu já queria fazer um filme de gênero. Quando ela me contou essa idéia, logo me veio na cabeça: tem que ser mais que um zumbi protagonista, tem que ser a visão do zumbi sobre os acontecimentos, ele percebendo sua transformação. Pedi pra ela fazer um argumento, discutimos a história, mudamos algumas coisas e aí escrevi o roteiro, em três dias. Várias coisinhas foram mudadas nele, depois, mas a estrutura, a priori, sempre foi a mesma.

Baiestorf: Dá prá perceber que é uma produção modesta com um ótimo aproveitamento do material humano, como você conseguiu juntar todo este pessoal talentoso?

Carneiro: A idéia sempre foi fazer um filme o mais profissional possível, dentro das restrições orçamentárias. Para a produção em si, foram gastos pouco menos de R$ 700. Ninguém, obviamente, recebeu. Todo o equipamento foi emprestado, com exceção do shoulder pra câmera, que aluguei, e do gravador de áudio, que é meu. Não sou formado em cinema ou em rádio e TV, conheço minhas limitações. Queria pessoas que realmente entendessem o que estavam fazendo tecnicamente. Já era uma meta quando comecei o projeto, e fui caçando interessados. Fiz um anúncio no facebook e fui juntando gente, amigos que se interessaram pelo projeto e toparam fazer sem pagamento. Claro, veio também muito estudante e/ou recém-formados, mas vários deles já trabalham na área. O Fábio Yamaji, que fez a montagem, é amigo, colega de Cinequanon, já o entrevistei para a Revista de Cinema e tal. Ele é um animador super ocupado, que monta alguns filmes, e fez um curta que rodou o mundo todo chamado O Divino, de Repente. A Adriana Câmara, que foi assistente de direção, já dirigiu várias coisas para TV, como a série Sensacionalista, e foi assistente de direção de longa já, Desenrola. O Rafael Alves Ribeiro, que fez o som direto em duas das três diárias que teve captação de som direto, desempenhou o mesmo cargo nessa série do Canal Brasil sobre a Boca do Lixo. E por aí vai. Esse negócio de contato realmente funciona. Já tinha chamado o Pedro Ribaneto (fotografia), o Dênis Arrepol (produção) e a Adriana, que são mais próximos. O facebook me permitiu uma outra triagem, e muita gente angariei assim. E aí vieram os contatos dos contatos, ou seja, gente que estava na produção foi indicando pessoas para os cargos que faltavam. O Rafael Alves veio assim, é amigo do Dênis de faculdade de cinema. E, claro, não preciso nem falar que sem essa equipe sensacional, esse filme não chegaria perto do resultado que tem.

Baiestorf: E os cenários?

Carneiro: Quanto aos cenários, foram três locações. Em teoria, precisaria de dois, a fábrica, e a casa. Porém não consegui uma casa pra filmar que fosse espaçosa o suficiente para ter toda a movimentação que queria. Acabei optando então por fazer no apartamento da Adriana o cenário principal, que é o interior da casa. A Adriana se mudou pra São Paulo pouco antes do início da gravação e até hoje é meio assim, vazia de móveis e objetos, o que é excelente para usar o baita espaço a favor da movimentação do elenco, em especial na cena do ataque do Johnny. Isso também favoreceu muito nas subjetivas com outros atores, porque ficava o diretor de fotografia e o Johnny Zombie colados, fazendo os movimentos e interagindo com as demais pessoas. Filmei também numa fábrica em Atibaia, que era do irmão de uma das atrizes – e amiga minha de longa data, a pessoa que conheço há mais tempo de todos, ex-colega de colégio e de teatro, que é a Ana Luiza Garcia. Precisava de uma locação crível pra dar a impressão de que Johnny de fato poderia ter se contaminado lá. Ela me apresentou essa opção e foi ótimo. Já estava até meio desesperado. Cogitei várias alternativas e nenhuma se concretizava. Salvou o filme. E o local é ótimo, em termos de cor e espaço. Fica muito bonito no quadro e muito realista. Já o terceiro cenário foi a fachada da casa da tia da diretora de arte e figurinista Fernanda Fernandes. Queria que o último plano desse pra rua mesmo, de preferência pouco movimentada. Ficou ótimo.

Baiestorf: Rolou alguma história engraçada durante as filmagens?

Carneiro: Tem uma história ótima. Quando fomos gravar o plano final, obviamente, não tínhamos autorização alguma, nem nada. Simplesmente chegamos na locação, preparamos a cena e fomos filmar. Então tava lá um monte de gente ensangüentada, em especial uma menina deitada no chão, aparentemente inconsciente, com um monte de sangue na barrida, e tripas improvisadas com jornal saindo pra fora, e outra menina cheia de sangue na cara, subindo e descendo em direção à barriga. Aí teve um carro que passou desacelerando. De repente, ele dá uma ré, abaixa o vidro e fica perguntando: “Tá tudo bem, ai meu deus, precisam de carona, querem que ligue pra alguém?” Até alguém explicar que era um filme e que ele estava no meio da cena (risos).

Baiestorf: Como foi trabalhar com o casal Recurso Zero, Joel Caetano e Mariana Zani? Sou grande fã dos filmes deles e gostei muito de vê-los em outra produção.

Carneiro: Joel e Mariana são ótimos. Os conheci quando fui entrevistá-los para a Zingu!, em 2009, numa série de entrevistas feitas sobre o chamado Cinema de Bordas. Sempre foram super solícitos. E desde aquela época acompanho o trabalho deles. São sensacionais. Gosto demais de alguns de seus filmes. Na Mostra Cinema de Bordas, no Itaú Cultural, em 2011, fiz o convite oficial: não havia encontrado ninguém a altura deles para o papel. Eles são ótimos, mesmo. Não se importam de fazer tudo o que é solicitado, ficaram horas e horas gravando. Pobre Joel: fiz ele vestir uma calça de pijama super justa da qual ele morre de vergonha; ficou horas maquiando; besuntamos ele com óleo de cozinha para a água do suor não escorrer; ele caiu e bateu as costas; apanhou, etc. Não é à toa: Johnny Zombie não existiria sem Joel, ele é a alma do negócio. A Mariana tinha um papel menor, mas nem por isso menos dedicação. Acompanhou o Joel em todos os momentos – só não foi à fábrica por falta de verba da produção. Dei a ela um prêmio por conta disso: a oportunidade de se vingar de anos de abusos, mortes e espancamentos nos filmes dirigidos por Joel, dando uma cadeirada nele!

Baiestorf: E o Felipe Guerra? No pequeno papel que ele faz percebemos ele “interpretando” o Felipe Guerra. Tu quem pediu isso?

Carneiro: Sim. O Guerra foi uma das primeiras pessoas que se interessou em participar da produção. Nem tinha roteiro ainda e ele disse que queria fazer o filme. Então escrevi o personagem pensando nele. Foi o único personagem feito para alguém específico. E ele tá ótimo como ele mesmo.

Baiestorf: Gostei muito dos efeitos de maquiagens gore feitos pelo Fritz Martiliano. Ele foi aluno em uma das oficinas do Rodrigo Aragão e começou a fazer filmes, certo? Como foi trabalhar com ele? Tem uma cena dos efeitos que me incomodou, a cena onde o Joel aparece bem pálido, achei ele branco demais, isso foi problema na maquiagem ou iluminação errada?

Carneiro: Sim, é isso mesmo, Petter. O Fritz é ótimo. Conheci através do Guerra, precisava de alguém pra fazer a maquiagem de efeitos. Acho sensacional a maquiagem, especialmente quando Johnny vira morto-vivo. E conseguiu extrair o melhor da minha solicitação. Como Johnny era um zumbi recente, queria que as feridas e mutações ainda fossem recentes. Não queria próteses, porque dão a impressão de que o cara secou há muito. Queria manter uma certa vitalidade – e humanidade – no personagem, e Fritz conseguiu isso de maneira muito boa. Só com tinta. Foi ótimo. Quanto à questão do branco demais, assumo toda a responsabilidade. Foi falta de coordenação de minha parte. Começamos o filme gravando as cenas com todos reunidos na sala. Ou seja, a primeira vez que vemos Johnny, durante a filmagem, ele tá branco daquele jeito. Queria ele branco, mais branco do que é normalmente. Quando o Fritz me mostrou a maquiagem, pareceu boa. E na câmera também, apesar de a iluminação não ter agradado nem a mim e nem ao fotógrafo – foi a que mais demorou pra ser feita. Só que eu estava com muita pressa. Precisava filmar todas as cenas com elenco completo naquele mesmo dia, e ainda faltava todo o ataque, que tinha mais planos, mais ação, e era mais complexo. Fora as observações de Johnny no espelho. Então falei pra deixar como estava mesmo e gravei. Quando fomos gravar as outras cenas, Johnny não ficou branco gradualmente como eu queria por falta de continuidade. Parece que estava ok, mas quando foi montar, ficou esquisito. Ainda mais por que ele está branco, com camiseta branca e parede branca ao fundo, ou seja, a impressão do branco fica ainda maior. E não vi isso. Até pedi para o Rodrigo Mesquisa, que fez a correção de cor, dar uma escurecida ali, mas nada que salvasse o plano.

Baiestorf: “Morte e Morte de Johnny Zombie” é seu primeiro curta, a experiência foi satisfatória? Como foi o lançamento dele? Vai sair em DVD ou festivais?

Carneiro: Foi uma experiência muito enriquecedora e muito estressante. Durante as filmagens, quase cogitei largar tudo, abandonar no meio. Era muita pressão, tentar fazer o melhor tecnicamente, quase sem tempo ou sem dinheiro. Pessoas do elenco/equipe pedindo pra ir embora e eu tendo que terminar as gravações. E entendo que quisessem ir embora, estavam há quase 18 horas lá, mas eu tinha que terminar. E foi muito enriquecedora por isso também. Não tinha nenhuma experiência prática, então aprendi muito a planejar melhor, buscar soluções menos trabalhosas, deixar os planos rolarem, em outros ângulos, para não ter problema de edição – não deu nenhum, mas não deixei muitas opções… Acho que sem o Johnny, não estaria nem um pouco preparado para projetos mais ambiciosos. O filme existe em autoração caseira de DVD, com capinha e tal, mas sem prensagem. E nem pretendo fazer. Ninguém vai querer comprar um curta-metragem. E se começar a vender, logo aparece para download na internet e fode tudo. Tenho exibido apenas em festivais por enquanto. Até agora, passou em 7: Curta Cinema, Zinema Zombie Fest (na Colômbia), Mostra de Cinema Independente da CODE, Cinefantasy, Mostra Outros Cinemas, FIM e Autorock.

Baiestorf: Gostei dos takes com câmera subjetiva, isso tornou o curta mais intimista. Fale sobre a construção do filme e da personagem, percebi uma vontade muito grande sua de fazer cinema autoral, mas com um pé no filme de gênero:

Carneiro: Nem sei se a palavra é autoral. Tenho problemas com esse termo, especialmente pela maneira como foi apropriado pela intelectualidade. Nunca quis fazer um filme de zumbi igual a todos os filmes de zumbi. Queria que tivesse algo diferente. Para mim, MMJZ só existe por conta da subjetiva. É a graça dele, mostrar o processo de transformação através dos olhos do transformado. Mas é um filme de gênero, com uma história super convencional. E por isso ser super convencional, quis brincar com a direção, com a fotografia, com a trilha musical, para quebrar, criar anticlímax. Gosto de falar que MMJZ é um exercício com o gênero filme de zumbi, em que pude experimentar em diversos campos. Não queria que fosse convencional e não queria fazer uma paródia, não é uma comédia, mesmo que haja momentos de alívio cômico. Johnny Zombie para mim é uma vítima. É um pouco da lógica do cinema noir: em algum momento, o destino lhe resolve dar um tapa na cara, e você tem que lidar com isso. Só que no caso, por mais que julgue banal, ele está se zumbificando, e não há nada que pode fazer. Ele não morde os amigos porque é mau, mas porque um instinto é acionado. Tudo que ele quer é sair de casa, todos os seus movimentos são em direção à porta, mas sempre tem alguém que o para. É quando ele vai pra cima, morde. As referências para a personagem foram monstros clássicos do cinema: King Kong, Monstro da Lagoa Negra e Ymir (A Vinte Milhões de Milha da Terra), todos referenciados no filme fisicamente.

Baiestorf: O final de “Morte e Morte de Johnny Zombie” (que não vou revelar) eu achei muito inventivo, nunca tinha visto algo assim em um filme de zumbi e achei que foi uma colaboração bem interessante ao subgênero “zombie movies”. Como surgiu essa idéia?

Carneiro: Pô, Petter, fico lisonjeado com tuas palavras. Mesmo. O final foi muito discutido com a Marília na época que finalizávamos o argumento. Como terminar a história. Sabíamos que Johnny morreria de novo. Foi rejeitando idéias que pensei em fazer um final esperançoso (risos), em que a morte de Johnny não finalizasse com os zumbis, que mostrasse a continuidade da espécie (risos). A questão da subjetiva era a idéia principal do filme, então a última cena não poderia deixar de tê-la. É isso que conduz o término: como é um filme que mostra a percepção do Johnny, mostra sua percepção da própria morte, ele vislumbrado, caído, o horizonte. Para dar esse clima, quis que o único som audível fosse o das pancadas. O tempo também é o de sua morte.

Baiestorf: Seus Projetos?

Carneiro: Como jornalista, devo continuar na Zingu!, no Cinequanon e na Revista de Cinema, fazendo sempre que possível alguns freelas. Na produção audiovisual, devo filmar no próximo ano um clipe para a banda Drakula, de Campinas, e devo filmar outro projeto de ficção, do qual ainda não posso falar muito, que não tem nada a ver com terror e deve ser feito com grana. Tenho outros projetos que precisaria de dinheiro pra fazer, como alguns documentários, que envolveriam viagem e uma produção mais arrojada. Paralelamente a isso, continuo gravando quase todas entrevistas da Zingu! em vídeo. A Marília também está desenvolvendo uma idéia ótima para um próximo curta de horror – e dessa vez, ela diz, quer fazer o roteiro -, que se passa na Folia de Reis, e eu devo dirigir.

CineFantasy 2011: Programe-se Para o Horror

Posted in Arte e Cultura, Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , on novembro 19, 2011 by canibuk

Dia 22 de novembro rola a abertura, em São Paulo, do CineFantasy, festival de cinema fantástico que trará ao Brasil Ruggero Deodato, autor dos clássicos do canibalismo “Ultimo Mondo Canibale” e “Canibal Holocaust” (que serão exibidos na tela grande, acompanhados do “La Casa Sperduta nel Parco/House on the Edge of the Park”).

CineFantasy deste ano, além da homenagem ao Deodato, trás ainda homenagem ao fantástico cineasta mexicano Juan Lopez Moctezuma, oficina de maquiagens com Rodrigo Aragão, sessões especiais como a Fantasia Infantil, Desafio Mestre dos Gritos e a Dark Little Tales. As exibições do CineFantasy acontecem em 4 lugares (Centro Cultura São Paulo, Cinemateca, CineSesc e BB Viriato Correia) e serão exibidos 21 longas e 87 curtas, então o negócio é acompanhar a programação completa clicando aqui.

Sempre lembrando que o longa “A Noite do Chupacabras” (2011) de Rodrigo Aragão, filme onde interpreto o vilão Ivan Carvalho, será exibido dia 25 de novembro, 21h30, no CineSesc. NÃO PERCA!!!!!

Endereços e informações:

Quando: 22/11 a 04/12

Salas de Exibição:

Centro Cultural São Paulo – Rua Vergueiro, 1000

Quanto: R$ 1

Biblioteca Viriato Correia – Rua Sena Madureira, 298, V. Mariana

Quanto: Entrada Gratuita

CineSesc – Rua Augusta, 2075

Quanto: R$2,00 a R$8,00 (inteira)

Cinemateca Brasileira – Largo Senador Raul Cardoso, 207 – Vila Clementino

Quanto: R$ 8,00 (inteira) / R$ 4,00 (meia-entrada).

Estudantes de escola pública tem direito à entrada gratuita mediante apresentação de carteirinha.

Site Oficial

Estes Praticamente Estranhos Filmes de Horror Nacional

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Com um atraso incrível (as primeiras salas de exibição brasileiras surgiram em 1896 e as primeiras produções locais logo em seguida) num país sabidamente supersticioso e com um rico folclore, nossos primeiros filmes de terror e sobrenatural só apareceram durante os anos 1960, Assim sendo, a trajetória do gênero no Brasil se confunde com a de seu maior ícone: José Mojica Marins (1931). Paulista, neto de espanhóis, criado dentro de um pequeno cinema que seu pai gerenciava na Vila Anastácio, Lapa. Desde criança, se interessou por teatro, histórias em quadrinhos e principalmente cinema. Com a colaboração da família e amigos criou uma escola de atores/produtora mambembe e depois de rodar um faroeste nacional e um melodrama infantil criou o personagem Josefel Zanatas, mais conhecido como Zé do Caixão para o clássico “A Meia Noite Levarei a sua Alma” ( 1964). O próprio diretor/roteirista assumiu o papel do coveiro sádico em sua busca insana por uma mulher perfeita que lhe daria um filho superior e a imortalidade. Julgando ter encontrado a mulher ideal, Zé violenta a namorada virgem de um amigo seu. A garota desesperada se suicida, mas antes promete voltar dos mortos para buscá-lo. A figura sinistra de longas unhas, barba, cartola e capa preta iniciaria uma longa relação simbiótica entre criador-criatura/ator-personagem, que extrapolaria a mídia e criaria raízes no imaginário popular. “A Meia Noite Levarei a Sua Alma” dividiu a crítica da época, afinal a produção era recheada de blasfêmias, sexo, violência, filosofia de botequim, diálogos hilários e cenários de papelão. O terror e o trash nasceram juntos entre nós, e o público adorou. Estreando primeiro em São Paulo e depois no Rio de Janeiro, o filme foi um grande sucesso, mas por total falta de gerenciamento da produção, Mojica ficou sem nenhum centavo das bilheterias lotadas.

Em Belo Horizonte (MG), o veterinário Luiz Renato Brescia ( 1903-1988) realizador independente de pequenos documentários, também se aventurava em gêneros pouco comuns por aqui. Tentou rodar um Western em 1945 e sete anos depois produziu um Peplum (Épico romano) “Nos Tempos de Tibério César” com direção de seu filho Ettore. Com parcos recursos começou a rodar nos fins de semana, “Phobus, Ministro do Diabo” (1965), sobre um ser nascido com a missão de espalhar o mal sobre a terra. Realizado com um elenco de amadores, equipe técnica diminuta e contando com inúmeros “defeitos especiais” óticos desenvolvidos pelo próprio diretor, a obra só ficou pronta na década seguinte e recebeu um lançamento precário em 1974, encerrando a carreira de Brescia e lhe legando um status cult/trash digno de um Ed Wood nacional.

Após transferir seus modestos estúdios para uma sinagoga abandonada (e com fama de assombrada, um ótimo marketing!), Mojica entusiasmado com o sucesso de seu primeiro filme de terror, decide dar continuidade a história. Em “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1966), Zé do Caixão continua sua busca insana e com a ajuda de seu fiel criado, o corcunda Bruno rapta várias jovens e as submete a torturas que envolvem aranhas caranguejeiras e um poço com serpentes (exigindo realismo e poupando nos efeitos especiais, Mojica utilizou bichos de verdade, uma tortura verdadeira para o elenco feminino e técnicos). Atormentado pela culpa de ter assassinado uma mulher grávida, Zé sonha que é arrastado para um inferno gelado e a cores (o filme assim como o anterior era em p&b, com exceção desta seqüência antológica) e no fim acaba morrendo afogado e blasfemando. A rígida censura da época, já preocupada com as ousadias do diretor, o obrigou a realizar uma re-dublagem tosca mostrando o personagem amoral e agnóstico se convertendo no último instante. Promovido pela imprensa a superstar e paparicado pelos cineastas do movimento “Cinema Marginal” (Sganzerla, Reinchenbach e outros), José Mojica ganhou um programa na TV Bandeirantes: “Além, Muito Além do Além” (1967/1968) que tinha episódios de uma hora de duração com direção sua e tendo Zé do Caixão como mestre de cerimônias. O sucesso de audiência muito se deve as histórias escritas por Rubens Francisco Lucchetti (1934), autor de centenas de livros populares de bolso, histórias em quadrinhos e roteiros para cinema e TV. Baseado nas histórias de Lucchetti para o show, o produtor Antonio P. Galante (1934), astuto empresário da “Boca do Lixo”, investiu em um filme de episódios de terror. Mojica dirigiu “Pesadelo Macabro”, sobre catalepsia e enterro prematuro, enredo bastante influenciado pelo escritor americano Edgar Allan Poe (1809-1849). Ozualdo Candeias (1922) adaptou “O Acordo”, sobre um pacto com o capeta, e Luiz Sérgio Person (1936-1976) conduziu “A Procissão dos Mortos”aonde apareciam guerrilheiros fantasmas. Apesar do filme se chamar “Trilogia de Terror” (1967), as adaptações dos outros dois cineastas nada tinham de assustador, pendendo para o experimentalismo marginal e a crítica política (com um explícito chamamento às armas, numa época onde as esquerdas estavam abaladas pela morte do líder guerrilheiro Che Guevara). Mas Mojica gostou da fórmula de um filme em episódios e tocou a produção de “O Estranho Mundo De Zé do Caixão” (1968), que ele encomendara para R.F. Lucchetti antes ainda do programa televisivo. As três histórias macabras foram rodadas em apenas  17 dias, em cenários construídos na sinagoga. Em “O Fabricante de Bonecas”, marginais invadem a casa de um  artesão para roubar e abusar de suas filhas e descobrem da pior forma  como o velho conseguia olhos realistas para seus brinquedos; em “A Tara”, um pobre corcunda vendedor de balões é apaixonado por uma bela jovem e só consegue consumar sua paixão depois que ele morre; finalmente em “A Ideologia”, Mojica apresenta seu “novo” personagem, o Professor Oaxiac Odez, que desafiado em um programa de debates na TV a provar sua tese que o instinto supera a razão, tranca um casal em sua masmorra e os submete a torturas, humilhações e canibalismo, se o nome do professor era  Zé do Caixão ao contrário, suas idéias e métodos são muito parecidos e até mais cruéis. “Trilogia do Terror” e “O Estranho Mundo De Zé do Caixão” estrearam em 1968 com uma infinidade de cortes exigidos pela censura.

O formato de longa com histórias curtas foi utilizado em 1969 em “Incrível, Fantástico, Extraordinário”, adaptação de um programa radiofônico muito popular nos anos 50/60. Realizado por Adolpho Chadler (1931), com o astro-cantor Cyll Farney (1925) num elenco que vivia 4 histórias populares de sobrenatural: “A Ajuda”, sobre um motorista que é avisado por uma mulher de um trágico acidente e ao salvar o filho dela descobre que ela já estava morta; “O Sonho”, com uma garota que pode prever mortes em sonhos, inclusive a sua; “A Volta”, onde uma viúva é atormentada pelo retrato do falecido e “O Coveiro”, sobre um ladrão de túmulos que recebe o castigo merecido.

Chadler voltaria com outra antologia “O Impossível Acontece” (1970), agora com roteiro e co-direção dos famosos Anselmo Duarte (1936) e Daniel Filho (1937) e os episódios fantásticos ”O Acidente”, “Eu, Ela e o Outro” e “O Reimplante” (com os hilários Tião Macalé & Wilza Carla) ao estilo do seriado americano “Além da Imaginação” (Twilight Zone) com um tempero nacional. Uma sátira ao gênero, com a brasileiríssima fórmula da Chanchada trouxe em 1969 “Um Sonho de Vampiros” de Iberê Cavalcante (1935), O humorista Ankito (1923) vive o Dr. Pan, um velho médico da pacata cidade de Paraíso Tropical que faz um pacto secreto com a Morte e acaba se transformando em um vampiro que ataca e transforma as principais autoridades de sua pequena cidade. Fugindo da infestação de vampiros, um jovem casal de namorados vive várias aventuras.

José Mojica apesar de ter se transformado em um artista multimídia (cinema, TV, histórias em quadrinhos, disco de carnaval, marca de cachaça e até uma linha de perfumes!) continuava não administrando sua carreira e estava falido. Com a ajuda de seus alunos, amigos do Cinema marginal e um providencial financiamento bancário, decidiu rodar um filme radical, misturando horror, violência urbana, drogas e metalinguagem seguindo a onda sessentista de filmes psicodélicos. “Ritual dos Sádicos” escrito por Lucchetti e dirigido por Mojica, contava como um psicólogo utilizava quatro cobaias humanas, fazendo-as ter alucinações envolvendo Zé do caixão através de injeções de LSD. Rodado e divulgado em 1969, foi totalmente barrado pela censura e só liberado em 1983, já com o título de “O Despertar da Besta”, tendo lançamento apenas em festivais e mostras especiais.

A década de 70 foi a mais promissora para o Horror brazuca, o movimento Udigrudi (Underground verde-amarelo, também conhecido como Cinema Marginal) e a emergente produção da chamada “Boca do Lixo” providenciaram o estufo “B” necessário. “Os Monstros de Babaloo” de Elyseu  Visconti Cavallero (1939) e “A Possuída dos Mil Demônios” de Carlos Frederico (1945), ambos de 1970, são fantasias bizarras e simbólicas que tanto podem ser vistas como variações burlescas do terror, como alucinadas críticas a sociedade. O primeiro à sociedade burguesa com um humor negro pré John Waters nas desventuras de uma família grotesca em uma ilha; e o segundo à pobreza e ignorância de nossas favelas onde afloram superstições  e loucura à lá Passolini.

“Fantasticon, Os Deuses do Sexo”, de 1971 é mais um filme em episódios. “A Curtição” de Teresa Trautman (1951) e “Os Últimos” e “Kelak, A Bruxa” de José Marreco (1946), possuem toques de psicodelia, ficção científica e sobrenatural, respectivamente, e narrativas experimentais, em uma produção de baixíssimo orçamento realizada pelo casal com equipamentos emprestados.

“O Macabro Dr. Scivano” (1971) de Raul calhado(1938) e Rosalvo caçador (?), mostrava como um político fracassado se envolvia com magia negra e em troca de riqueza e poder se transformava numa espécie de vampiro tupiniquim. No final, depois de reduzido a pó pela força de uma cruz, um psicólogo diagnostica que ele era apenas um paranóico (em um final copiado descaradamente de “Psicose” de Alfred Hithcock de 1960). Promovido na época como “O Primeiro filme brasileiro de Ficção Científica” (?!), era na verdade uma tentativa de imitar o terror de Mojica, inclusive com o ator e co-diretor Calhado fazendo aparições públicas caracterizado como o seu personagem.

O ítalo-brasileiro Raffaele Rossi (1938), escreveu, dirigiu e estrelou uma fábula de horror questionando a autoridade paterna e a negligência familiar intitulada “O Homem Lobo” (1971), onde um professor de uma cidade do interior  descobre que seu filho adotivo, que fora criado longe dele  sofre de licantropia , e nas noites de lua cheia se transforma em uma criatura que ataca as mulheres da região. Primeiro ele tenta encobrir os crimes assumiando a culpa e depois decide caçar e eliminar o lobisomem.

Rituais de magia negra e cultos jovens com líderes ao estilo do americano Charles Mason são o tópico de “O Guru Das Sete Cidades” (1972) de Carlos Binni (1940), sobre um casal de milionários em crise que se envolve com uma seita hippie que exige sacrifícios humanos. Outro casal se enreda com o capeta e seus seguidores em “O Diabo tem Mil Chifres” (1972) de Penna filho (1936). Recém casados, eles recebem uma carta de uma misteriosa “corrente” e logo aparece um artista plástico determinado a seduzir e levar a mulher. O marido recebe uma proposta do demônio para resolver toda a questão… A Licantropia, tema presente em inúmeros relatos de nosso folclore e certamente trazido da Europa por nossos colonizadores, retornou a tela em 1974 com “Lobisomem, O Demônio da Meia Noite”. A pobreza da produção, a edição caótica e os diálogos beirando o surrealismo marcam outro udigrudi típico de Eliseu Cavallero. Wilson Grey (1923-1993) em seu primeiro papel principal, é um milionário exêntrico, que mora em  um chalé próximo a uma mata e que preside um culto de bebedores de sangue, se transformando em um lobisomem (que mais parece um vampiro), até ser exterminado por uma figura mística chamada Branca Justiça.

Já “Quem Tem Medo de Lobisomem?” de Reginaldo Faria (1938), do mesmo ano, brinca com o tema e coloca dois rapazes da cidade grande em busca de suas raìzes e da lenda do “lobisomem das sete encruzilhadas” e que acabam encontrando uma família do interior que parece asombrada por fantasmas e que tem seis filhas mulheres e um caçula que seria um homem lobo. Uma mistura confusa que seu diretor/ator definiu como “um filme de terror com bom humor”.

O suceso internacional do terror-católico “O Exorcista”, de 1973, levou o produtor Aníbal Massaini Netto (1945) a investir em um similar nacional : “Exorcismo Negro”(1974) de e com… José Mojica Marins. Na trama bolada por Lucchetti, o diretor Mojica descança na casa de campo de uma família tradicional e pacata (com um elenco Global da época) e acaba enfrentando uma bruxa (Wanda Kosmo), um filho do capeta e o próprio Zé do Caixão, que é convocado pela feiticeira para cobrar uma dívida infernal. Numa produção refinada e bem acabada para os padrões de Mojica, ele acabou representando uma auto-paródia, ao ser mostrado como um intelectual de muito sucesso. Numa jogada publicitária genial, o próprio Zé do Caixão improvisava comícios na frente dos cinemas que exibiam o filme gringo e anunciava “O diabo é nosso! O diabo brasileiro é melhor!”, conclamando o público a assistir sua versão.

Ainda em 1974 tivemos o surpreendente “O Anjo da Noite” de Walter Hugo Khoury (1929-2003), um drama de suspense e terror psicológico baseado em um fato verídico vivido por uma babá brasileira nos EUA (que também inspirou o americano John Carpenter  a criar seu clássico “Halloween” em 1978). Na história, premiada no Festival de Cinema Fantástico e de Terror de Sitges (Espanha), uma jovem universitária (a linda e expressiva Selma Egrei) aceita cuidar de duas crianças durante uma noite em uma mansão isolada. Pouco a pouco ela é assustada por misteriosos telefonemas e por uma presença sinistra dentro da casa. Uma pequena obra prima densa e perturbadora. O argentino Carlos Hugo Christensen (1914-1999) também fez uso do telefone como instrumento torturador em “Enigma para Demônios” (1975), baseado no conto de Carlos Drumond de Andrade “Flor, Telefone, Moça”. Monique Lafond vive uma mulher que após perder seu filho, volta para a casa da família. Depois de retirar uma rosa depositada em um túmulo, passa a ser aterrorizada por contínuos telefonemas, em que uma voz  pergunta “onde está a rosa que você tirou da minha sepultura?”. Ela refugia-se em um sítio onde não há telefone, mas outros fatos misteriosos parecem confirmar uma trama sobrenatural. Christensen voltaria ao suspense fantástico com “A Mulher do Desejo” (1976) baseado em idéias do escritor Nathaniel Hawthorne sobre a sobrevivência do espírito e com diálogos precisos de Orígenes Lessa. Recém casados vão morar em um casarão do sec.XVIII e o homem parece possuído pelo fantasma de seu tio, adquirindo até algumas características físicas do morto, o que obriga sua esposa a procurar um exorcista. Foi filmado sob o título de “A Casa das Sombras”, utilizando atores amadores e a arquitetura peculiar de Minas Gerais. “Seduzidas pelo Demônio”(1975) foi a volta de Raffaele Rossi (que faria fortuna anos depois ao iniciar o ciclo de sexo explícito com seu “Coisas Eróticas”) ao terror misturado com conflitos familiares tendo como pano de fundo o tema da moda, a possessão diabólica. Um universitário é possuido espírito do mal e provoca a morte de várias mulheres. Seu pai adotivo vem em seu auxílio e descobre que ele fora resgatado quando criança de um grupo de adoradores do diabo. O conflito final entre os dois é inevitável, assim como o uso de uma cruz como arma contra o Tinhoso…

Uma livre adaptação da história policial “O Caso dos Dez Negrinhos” da escritora Agatha Christie, gerou o suspense “O Signo de Escorpião” de Carlos Coimbra (1928). Um grupo de doze pessoas  é covidado por um famoso astrólogo a visitar sua ilha e passam a ser assassinados  um a um, de acordo com seus signos do Zodíaco. Em meio a um elenco de atores conhecidos, a presença sinistra de Wanda Kosmo; da gostosinha Kate Lyra e do famoso na época , astrólogo televisivo Omar Cardoso. A participação especial de Cardoso era um Gimmick para atrair telespectadores e dar uma certa credibilidade a história envolvendo o horóscopo, mas ele ficou parecendo uma versão tupiniquim de Criswell nos filmes Ed Wood Jr.

O discípulo de Mojica, Marcelo Motta (1952), dirigiu seu mestre  em “A Estranha Hospedaria dos Prazeres” (1976), sobre uma pousada mal-assombrada, que seria uma espécie de purgatório gerenciado pela própria morte (Mojica, trocando a cartola por um chapéu-côco). Em uma noite de tempestade, casais adúlteros, malandros, criminosos e um grupo de engraçados hippies motoqueiros  acabam se refugiando no local e encontrando a danação eterna. A pobreza e o amadorismo da produção (Mojica enfrentava sérissimos problemas financeiros e pessoais) se repetiram em “Inferno Carnal” (1976), uma refilmagem de um episódio televisivo de sua série de 1969. Tentando acertar com um terror mais tradicional, Mojica acabou fazendo um Trash muito parecido com os melodramas sobrenaturais mexicanos dos anos 60, com uma história clichê de um cientista traído e deformado que se vinga  da esposa e sócio adúlteros. Um dos acertos do filme foi a escalação da linda Helena Ramos (1955), a futura “Rainha do cinema erótico brasileiro” no papel de uma garota sexy, mas ingênua protegida pelo cientista atormentado.

“Excitação” (1976), de Jean Garret (José Antônio N.G. Silva, 1947-1996, português de nascimento), por detrás de mais um título com chamariz sexual, é uma mistura de macumba, reencarnação  e fenômenos parapsicológicos. Uma mulher (Kate Hansen) vai morar em uma casa de praia para se recuperar de uma crise nervosa, passando a ter visões com um suicida e enlouquecendo quando aparelhos eletrodomésticos passam a funcionar sózinhos e a ameaçam. A produção paulista “A Virgem da Colina”(1977), de Celso Falcão (?) chegou a ser lançada nos Estados Unidos com o título de “The Ring of Evil”, contando o caso de um anel que pertencera a uma prostituta com poderes sobrenaturais e que divide a personalidade de uma jovem noiva (Cristina Amaral) e acaba deformando seu rosto obrigando-a a usar uma máscara.

Um curioso mix de subgêneros surgiu no argumento criado pelo produtor  Antônio  P. Galante  (1934) para “Escola Penal de Meninas Violentadas” (1977) de Antonio Meliande (1945): Garotas marginais são recolhidas para uma escola penal dirigida por um grupo de freiras. Um cadáver encontrado nas redondezas trás a tona uma série de crimes e torturas ocorridas no local. Um policial veterano descobre que a tirânica madre superiora é na verdade uma psicopata fugitiva que assassinara e tomara o lugar da religiosa, transformando a instituição num lugar infernal. Um carcereiro brutamontes e mudo, uma freira possuída pelo diabo, detentas com pouca (ou nenhuma ) roupa e a presença dos ótimos Sergio Hingst e Zilda Mayo e de uma muito jovem Nicole Puzzi no elenco, completam o coquetel.

O prolífico diretor-produtor Fauzi Mansur (1941) flertou com o gênero a primeira vez com “Belas e Corrompidas” (1977), sobre uma psicopata (Maria Izabel de Lizandra) que se diverte seduzindo homens para depois assassina-los de maneiras variadas, sempre com a ajuda de sua fiel assistente corcunda Tula (contrapartida feminina do personagem clichê “Ygor”) num suspense erótico que tinha o saudável sub-título de “Sexta-Feira as Bruxas Ficam Nuas”.

Inspirados por manchetes sensacionalistas sobre um gênero de filmes onde atores desavisados seriam mortos em frente às câmeras, Claudio Cunha e Carlos Reichenbach escreveram “Snuff – Vítimas do Prazer” (1977) dirigido por Cunha, onde uma dupla de produtores de filmes pornográficos americanos aporta em nosso país em busca de equipe e principalmente elenco feminino para ser assassinado.

A atriz Rosângela Maldonado (1928), fã de Mojica, procurou seguir seus passos. Primeiro escreveu, produziu, musicou e atuou sob a direção dele, a comédia erótica de cunho fantástico “A Mulher que põe a Pomba no Ar” (1977) sobre uma cientista traída que cria mulheres-pombas para se vingar dos homens. A maquiagem das mutantes consistia em braços com penas, asas coladas nas costas e esquisitos capacetes com bicos. O filme foi um fracasso total, mal sendo distribuido. Obstinada, ela em seguida escreveu, produziu, dirigiu, fez a cenografia, maquiagem, figurino e (ufa!) atuou em “A Deusa de Mármore – Escrava do Diabo” (1977). Uma mulher misteriosa (Maldonado) com 2000 anos de idade, conserva a juventude atravéz de um pacto com o demônio, em troca de um fluido mágico ela extrai a alma de homens durante o ato sexual, sendo constantemente cobrada pelo enviado do capeta “seu Sete Encruzilhada” (Mojica). A mistura de terror com pornochanchada teve uma mãozinha de Mojica na direção, auxiliando sua  discipula atrapalhada com as múltiplas funções. Em destaque na produção mambembe, os créditos de abertura desenhados de forma arrojada pelo artísta plástico Akira Murayama, que também faz uma ponta no filme. Segundo Horácio Higuchi, Mojica estava desapontado com a aluna: “…ela queria que eu fissesse uma espécie de diabo-gay, porque no meu inferno só tinha Homem. Eu reclamei e disse pra ela que meu personagem tinha que ter pelo menos uma assistente mulher. Ela colocou quatro diabas, mas todos os pecadores no inferno eram homens! Que porra de diabo era este, um diabo que só gosta de torturar homens?”.

O filipino Juan Bajon (1948) fez sua estréia escrevendo e dirigindo o policial de suspense “O Estripador de Mulheres” (1978), sobre um assassino psicopata procurado pela polícia e pela imprensa e que acaba condenando injustamente um funcionário de um frigorífico. No elenco, além do ótimo Ewerton de Castro, a linda gaúcha Aldine Müller (1953), que também estrelaria o primeiro filme de outro oriental radicado por aqui, o chinês John Doo (Chien Lun Tun, 1942). Trabalhando no cinema paulista desde os anos 60, em diversas atividades, Doo passou a escrever e dirigir quase sempre misturando erotismo com elementos fantásticos, revelando uma criatividade acima da média da produção da época. Em “Ninfas Diabólicas” (1978) ele coloca Úrsula (Aldine Müller) e Circe (Patricia Scalvi), duas jovens e belas estudantes que pegam uma carona com o bem comportado Rodrigo (Sérgio Hingst-1924-) e após serem levadas para uma casa na praia se revelam assustadoramente sedutoras e perigosas.

A nova incursão de Walter Hugo Khouri no terreno fantástico também é acima da média: “As Filhas do Fogo” (1978), com produção requintada, atriz estrangeira (a bela italiana Paola Morra) e roteiro intelectualizado. Numa mansão na serra gaúcha, duas amigas, após uma experiência com uma vizinha parapsicóloga, passam por estranhas situações com vozes de espíritos angustiados, estranhos rituais e um final onde a casa parece ser devorada pela vegetação local.

Absolutamente sem dinheiro para fazer um novo longa metragem, José Mojica Marins  filma 30 minutos de um drama, onde um psiquiatra é atormentado por pesadelos onde Zé do Caixão quer roubar sua esposa. Completa os outros 56 minutos com cenas extraídas de quatro filmes seus anteriores,  principalmente as que conseguira liberar da censura e tem pronto “Delírios de um Anormal” (1978), um calendoscópio de alucinações repetitivas… demencialmente trash!

O dublê de crítico e cineasta Alfredo Sternheim (1942), escreveu e dirigiu suspense erótico “A Mulher Desejada” (1978) baseado em uma epígrafe de Edgar Allan Poe. Kate Hansen  vive uma estrela de TV em crise que procura refúgio em uma casa de campo de uma amiga. Lá se envolve com Waldo (Eduardo Tornaghi) filho da caseira e acaba descobrindo que mãe e filho não são nada normais, o que a leva para um pesadelo que pode ou não ser real…

Já  “A Força dos Sentidos” (1979) de Jean Garret,  apresenta  um clima fantástico-fantasmagórico recheado de erotismo e a presença mágica de Aldine Müller ao acompanhar um escritor que vai para uma pequena praia para escrever um romance. Lá sente-se atraído por uma bela jovem surdo-muda (Aldine) e descobre um estranho ritual dos moradores locais que envolve um defunto que aparece na praia todas as noites e é levado de volta para o mar em procissão. A inspiração vem da frase de H.P. Lovecraft que abre o filme “Não está morto aquele que pode jazer, e após a eternidade até mesmo a morte pode morrer”.

Mojica em uma fase mais “realista” tivera a idéia de um filme chamado “Estupro”, sobre um industrial milionário chamado Vitorio Palestrina (Mojica!), sádico que gosta de humilhar e torturas suas conquistas (Pete Tombs, em “Mondo Macabro”,  diz que Palestrina é o que Zé do Caixão seria se ganhasse na loteria). Um dia ele estupra uma jovem e lhe arranca um mamilo a dentadas. Passa então a exibir o bico do seio guardado em um vidro como um troféu. Assim como Zé, Palestrina procura uma companheira perfeita, amoral como ele. Conhece a bela Vitória (Arlete Moreira) e se apaixona, mas durante o ato sexual ela lhe arranca os testículos, revelando ser a irmã da garota que ele mutilou. Este melodrama gore acabou sendo exibido no Festival de Cinema Fantástico de Sitges (Espanha) e foi lançado no Brasil com um título mais ameno “Perversão” (1979), exigência da censura.

Elogiado pela crítica e com sucesso de público graças a “Ninfas Diabólicas”, John Doo planeja uma segunda parte para o filme, mas aceita conduzir uma produção mais cara, com elenco orindo das telenovelas. “Uma Estranha História de Amor” (1979) com Nei Latorraca e Selma Egrei, aonde a paixão trágica de um casal sobrevive a morte, reencarnações e graças aos poderes de uma menina vidente acaba influenciando outros amantes. De volta ao sistema independente da Boca do Lixo, Doo dirige “Ninfas Insaciáveis” (1979), policial-erótico com Zilda Mayo e Alvamar Taddei e toques fantásticos; e segmentos eróticos-sobrenaturais  para “A Noite das Taras” (1980), episódio ”A Carta”; “Aqui Tarados” (1980) o gore e irônico “O Pasteleiro” (onde também atua dirigido por David Cardoso); ”Delírios Eróticos” (1981), episódio “Amor por Telepatia” e “Pornô” (1981), o exelente “O Gafanhoto”. Prolífico e criativo, John Doo ainda foi ator várias vezes e escreveu e dirigiu o terror “Excitação Diabólica” (1981), com Wanda Kosmos (a bruxa oficial do cinema nacional) como uma prostituta com poderes sobrenaturais. Maltratada por três motoqueiros metidos a machões, ela se transforma na mulher dos sonhos de cada um deles (Aldine Müller, Zaira Bueno e Silvia Gless), levando-os a loucura e a morte.

A dupla Luiz Castillini (1944) e Cláudio Cunha (1946), especialistas em sacanagem, realizaram em 1982 uma pretenciosa adaptação de um conto de Boccagio, que se chamou  “A Reencarnação do Sexo”, mas a história do espectro de uma bela mulher (Patricia Scalvi) dominado pela vontade da cabeça decepada de seu amante que exige vingança, é na verdade uma cópia erótica do argumento do clássico da Hammer Films inglesa “Frankenstein Criou a Mulher” de 1966.

“Fantasias Sexuais”(1982) seria mais um filme erótico em episódios rotineiro, mas Juan Bajon ousou e  no segmento “Os Caronistas” , três jovens são perseguidos por um psicopata tarado, e em “A Mulher Abelha”, a perturbada personagem título, ameaça suicídio e atraí homens atenciosos que acabam sendo consumidos  sexualmente por ela até a morte.

O carioca Ivan Cardoso (1952), fotógrafo, superoitista e cinéfilo inveterado, driblou todas as dificuldades para realizar de forma independente sua homenagem-paródia  aos clássicos de terror  da Universal/Hammer, com roteiro de R.F.Lucchetti,  “O Segredo da Múmia” (1982), onde o cientista louco brasileiro Expedito Vitus (Wilson Grey) descobre um soro da vida e ressucita uma múmia egípcia para ajuda-lo em uma vingança pessoal. Perfeito em sua combinação de terror com chanchada, sacanagem e deboche tem seu ponto alto no elenco recheado de atores famosos, mulheres maravilhosas, participações especiais (até José Mojica faz uma ponta no começo da história), amigos pessoais de Ivan e estreantes de muito talento,  como o advogado Felipe Falcão no papel do alucinado assistente Igor. O filme, com uma ajuda da Embrafilme na pós produção e distribuição, foi um sucesso de público e crítica e inaugurou um gênero apelidado de “Terrir”.

Nesta época, o terror era uma moda internacional e a tônica da produção brasileira era calcar nos modelos e clichês americanos com doses generosas de nudez e sexo para ajudar nas bilheterias. “Shock” (1982) de Jair Correa (1956), com as belas Aldine Müller, Claudia Alencar e Mayara Magri, era uma tentativa de realizar um suspense ao estilo “Slasher” com um maníaco (metido a bateirista!) eliminando jovens após uma festa  em uma mansão isolada. No erótico “Banquete das Taras” (1982) de Carlos Alberto Almeida (1942), um jovem escultor recebe uma visita da Transilvânia com uma missão: sossegar seu antepassado o Conde (Drácula?!) no sepulcro a mais de 500 anos, fazendo sexo e sacrificando quatro mulheres durante quatro noites. Já no “Banquete das Taras” (1982) de Julius Belvedere (?), um grupo de estudantes que se dedica a pesquisas com o sobrenatural, acaba invocando o espírito do Marquês de Sade, que possuí um deles e transforma tudo em uma orgia de sexo e violência até a intervenção de um espírito do bem que termina com a festa.

Filho de um lendário documentarista francês radicado no Brasil, Jean-Pierre Manzon se aventurou uma única vez em um filme ficcional, numa produção bem cuidada, elenco de primeira (Emílio de Biasi, Aldine Müller, Ênio Gonçalves, Selma Egrei), música original e roteiro nem tanto. “Força Estranha” (1983) reconta a velha história do casal de amantes que planeja enlouquecer a mulher dele, no caso uma jornalista, que passa a ter esquisitas aluninações com uma mulher morta e um casarão antigo. No “final surpresa” ela parece genuinamente possuída e mata os traidores afogados em uma piscina. O filme acabou sendo relançado com o título mais comercial de “Estranhos Prazeres de Uma Mulher Casada”.

Significante e premonitória é a premiação no II Festival Fotóptica de São Paulo do filme gaúcho “Beijo Ardente/Overdose” (1984) de Flávia Moraes e Hélio Alvarez, onde um vampiro entediado da vida eterna (o italiano Andrea L’Abate), auxiliado por seu mordomo sinistro (o hilário Antônio Carlos Falcão), procura um meio alternativo de saciar sua entediante necessidade de sangue humano. Divertido e melancólico, foi rodado em vídeo (Betacam), antevendo uma tendência  que quase dez anos depois seria uma forma de manter o cinema macabro em ação.

Com o domínio dos filmes pornôs importados ocupando cada sala de cinema do país, centenas  de similares  nacionais começaram a emergir rapidamente da Boca do Lixo, e mesmo produções apenas eróticas passaram a ser remontadas sofrendo inserts de cenas hardcore (como um filme de John Doo que acabou virando “A mansão do Sexo Explícito” (1984) e foi assinada por seu diretor de fotografia, Henrique Borges). “As Taras do Mini-Vampiro” (1984) de José Adalto Cardoso, colocou o anão Chumbinho (figura onipresente no gênero) como o personagem título, atacando casais em pleno ato sexual  no interior de São Paulo, provocando confusões em vez de terror e sendo perseguido por um subnutrido caçador de vampiros. O esperto  Fauzi Mansur assina como Victor Triunfo “A Seita do Sexo Profano” (1985), pornô-terror sobre uma mulher que se envolve com os praticantes de uma seita satânica. “Arrepios – O Monstro do Sexo” (1986) de Sylas Bueno e Carlos Nascimento, se servia da fórmula de terror em episódios para mostrar talvez que os maiores “monstros” nacionais foram algumas atrizes da Boca do Lixo, já que elas rivalizavam em feiúra com o mutante-aranha e o monstro da caverna (com máscara e luvas de latéx de carnaval) deste trash absurdo que foi relançado em vídeo em 1992 com o título de “Aberrações”.

O ator/diretor/produtor/roteirista Francisco Cavalcanti rodou “A Hora do Medo” (1986) como um terror-pornográfico sobre um psicopata que com a ajuda da mãe, estupra, mata e esconde os corpos de mulheres no fundo da antiga casa em que moram. Decidido a abocanhar a moda de filmes de terror da época (chamada por aqui de “Espantomania”) pediu ajuda para José Mojica Marins para subtituir as cenas de putaria explícita por mais sangue e horror. O veterano mestre nacional, aproveitou e exagerou, sendo que seus 13 minutos de gore demencial destoam completamente do resto deste sub-Psicose terceiromundista.

Caminho inverso seguiu Ivan Cardoso em seu segundo Terrir, agora o deboche respeitoso do diretor com os clichês do gênero resultaram em  uma pornochanchada noir-musical-macabra chamada “As Sete Vampiras” (1986). Uma espécie de “fantasma do cabaré” assombra o Rio de Janeiro dos anos 50, com direito a mortíferas plantas carnívoras, cientistas loucos, vampiras de mentira, mulhers gostosas nuas de verdade, detetives babacas e figuras icônicas como o Fu-Manchu de Wilson Grey. Tudo com muitas citações ao gênero, reconstituição de época e elenco classe A em um grande e afinado besteirol de sucesso.

Mais de dezesseis anos depois de ser proibido, Mojica conseguiu liberar sem cortes seu “Ritual de Sádicos”, agora “O Despertar da Besta” que foi exibido no Rio Cine Festival onde recebeu o prêmio de Melhor Ator e R.F.Luchetti o de melhor roteiro pela obra.

John Doo conseguiu em seu último esforço autoral, um co-financiamento com a então agonizante Embrafilme para terminar seu “Presença de Marisa” (1986/1988) com Joel Barcelos e Claudia Magno, um melodrama sobre crise existencial, feitiçaria e fenômenos paranormais, ou seja, seus assuntos favoritos. Apesar de um prêmio no Festival de Cinema de Brasília (melhor atriz para Claudia Magno) daquele ano, o filme ficou praticamente sem lançamento e Doo passou a trabalhar apenas como técnico ou ator eventual. O canto de cisne, ou melhor de corvo, para uma década…

Os anos 90 nos trouxeram o “presidente-bandido” Fernando Collor e uma pá de cal no que restava do cinema nacional. Mas dois fenômenos trariam o cinema macabro de volta da tumba: A internacionalização de nossos representantes,  José (agora “Coffin Joe”) Mojica Marins e Ivan (“The Terror”) Cardoso lançados em VHS nos Estados Unidos e o nascimento de uma nova geração, a dos videomakers, jovens cheios de referências via Histórias em quadrinhos, TV e vídeo cassete.

Fauzi Mansur  realizou, com vistas no mercado internacional, “Atração Satânica” (Satanic Atraction) em 1990. Uma série de assassinatos em uma cidade do litoral são motivados por um casal de gêmeos que haviam sido criados por uma seita demoníaca. Um bom Splatter com produção convincente e elenco correto, que só pecou por um roteiro previsível e por sua hilária dublagem em um inglês “caipirônico”, apesar de exibido em mais de dez países (incluindo EUA, Itália e Alemanha) foi  ignorado por aqui, graças a uma péssima distribuição. Mesmo assim, Mansur realizou “Ritual Macabro” (Ritual of Death,  1991) rodado em São Paulo e lançado no exterior com elogios da crítica especializada, mas que continua inédito no Brasil. Um grupo de teatro, durante ensaios sofre diversas mortes sangrentas, provocadas aparentemente pelo espectro de um pastor psicopata ao estilo Jim Jones que possuí o corpo de um ator/roteirista após ele consultar um antigo livro amaldiçoado para escrever uma peça de terror. Destaque para uma cena de sexo sangrenta em uma banheira, envolvendo um casal e uma… cabeça de bode decepada!

Com a impossibilidade técnica e financeira de realizarem obras em película, uma série de novos diretores/produtores passaram a utilizar suas câmeras caseiras de vídeo amigos, parentes e vizinhos como equipe técnica e elenco e filmes de terror trash pipocaram por todo o país. Em Recife, o camelô alagoano Simão Martiniano (1931) realiza “A Rede Maldita” (1992) uma história de suspense sobrenatural sobre um fazendeiro  que rouba uma botija cheia de dinheiro achada por um pobre agricultor, sem saber que a fortuna é amaldiçoada e provoca  a vingança da alma do dono que não consegue descançar. A fita, assim como toda a produção caseira de Martiniano é comercializada diretamente em sua barraca em um camelódromo, em meio a velhos discos de vinil. No Espírito Santo Seu Manoelzinho, um pedreiro, realiza longas em VHS como “O Espantalho Assassino” e “O Aluguel Assombroso”, onde o amadorismo das produções é levado às últimas conseqüências.

Petter Baiestorf & Seu Manoelzinho.

Na pequena cidade de Palmitos, oeste de Santa Catarina, um jovem sócio de uma locadora de vídeo, Petter Baiestorf (1974), reune alguns amigos e com parcos recursos e uma câmera emprestada, roda “Criaturas Hediondas” (1993), uma ficção científica de terror-trash sobre um cientista marciano transloucado que quer invadir a terra. ”Criaturas Hediondas II” (1994) mostra o dia seguinte a invasão, com óbvias influências de Ed Wood Jr., Roger Corman, seriados japoneses e filmes splatter como “O Massacre da Serra Elétrica” (1974). Inventando (assim como Martiniano) seus próprios efeitos especiais e recursos técnicos e descobrindo atores amadores com a cara do gênero, Baiestorf e sua Canibal Produções passam a regurgitar centenas de informações da cultura pop (com um grosso caldo de transgressão e deboche), tomando de assalto o circuito nacional underground de bandas de rock e fanzines. Uma onda de modismo pelos trash-movies e o aparecimento da primeira convenção nacional de horror em São Paulo aceleraram o movimento do  chamado Cinema-de-Garagem. Contando com uma equipe mais numerosa e aprimorando autodidaticamente sua técnica, Baiestorf lança “O Monstro Legume do Espaço” (1995) com as desventuras de uma criatura alienígena (Loures Jahnke) de origem vegetal e ímpetos filosóficos que é aprisionada por um cientista tupiniquim e seu assistente coprófago Caquinha (o maquiador Leomar Wazlawick). Mesmo sem um circuito de exibição e distribuição, o vídeo virou mania, influenciando novos realizadores encantados com  seu clima trash escatológico.

Em São Paulo, Diomédio Piskator adapta uma história em quadrinhos do grande desenhista Júlio Shimamoto numa produção independente em 35mm chamada “Urubuzão Humano” (1996), sobre um médico que depois de ingerir carne humana morta para sobreviver a um acidente aéreo na selva, sofre mutações e se transforma em uma criatura que come cadáveres em cemitérios. A iniciativa ousada encontra o eterno problema brasileiro de finalização e distribuição e jamais é lançada comercialmente.

Influenciado pela história verídica de dois irmãos canibais necrófilos que aterrorizaram o interior do Rio de Janeiro em 1995, Petter Baiestorf concebe “Eles Comem Sua Carne” (1996), onde um grupo de amigos antropófagos, isolados da civilização, tentam viver  em harmonia enquanto caçam  fiscais da prefeitura e estranhos incautos para servir em um banquete de casamento. Procurando misturar ainda mais os gêneros (marca de sua produção futura), Petter Baiestorf lança “Caquinha Superstar A-Go-Go: The Gore Horror Picture Show” (1996), uma tentativa de comédia musical escatológica desenvolvendo o personagem cult aparecido em “O Monstro Legume do Espaço”. Agora o pavoroso Caquinha (E.B.Toniolli) vive feliz ao lado de sua amada Lena, que aplaca seus instintos doentios. Quando ela é atacada por uma dupla de caçadores caipiras, o retardado coprófago se vê sozinho em um mundo com criaturas tão estranhas quanto ele. Contrastando com detalhes de seu lançamento, como trilha sonora original lançada em Cd, o longa rodado as pressas em apenas um fim de semana ficou abaixo das expectativas.

Mojica, que já ganhara até um clone: Antônio Firmino, o “Toninho do Diabo” (criador & criatura nos curtas “O Caçador de Almas” e “O Caçador de Falsos Profetas”) aderiu a nova “boca do lixo eletrônica”. Dirigido por Andrea Pasquini atuou em “Contos de Horror – A Filha do Pavor”(1997), em dois papéis, como um padre e como o narrador “O Cavaleiro do Medo”, da história de uma mulher estuprada e morta que volta para se vingar. O vídeo faria parte de uma pretensa série de vinte episódios realizados para a tv, mas apenas este exemplar seria lançado anos mais tarde para o mercado de videolocadoras. Outra ponta de Mojica seria no decepcionante “Babu – A Vingança Maldita” (1997) de César Nero, sobre um líder de uma seita de adoradores do diabo que é assassinado para retornar com estranhos poderes.

“Blerghhh” (1996/97) de Petter Baiestorf, contando com grande equipe/elenco e efeitos especiais mais elaborados, trás  um grupo de terroristas atrapalhados que seqüestram o filho de um milionário e sua sexy guarda costas e provocam uma série de incidentes que envolvem sexo, drogas, violência gratuita e um morto vivo (o primeiro da filmografia nacional) que se recusa a morrer mesmo quando tem a cabeça decepada. Mesmo tendo sua exibição pública proibida na terceira edição da Horrorcon (mesma convenção que ajudou a Canibal a ser conhecida  nacionalmente) e uma  edição deficiente, o vídeo obteve ótima repercussão. A chamada “fase 1998” da produtora catarinense seria marcada pela transgressão, deboche e sexualidade exacerbada. “S.B.A.F. – Sacanagens Bestiais dos Arcanjos Fálicos” (1998) começou a ser rodado como um vídeo pornô sobre um psiquiatra estudando as taras de dois pacientes, mas acabou se transformando numa mistura (indigesta para grande parte do público) de violência com sexo explícito. Já “Gore Gore Gays”, do mesmo ano, tinha como protagonistas  um casal de bissexuais apaixonados e perturbados (vividos pelos realizadores Baiestorf e Coffin Souza) que embarcam em uma viagem de auto-conhecimento, mutilações e assassinados violentos. Novamente a fórmula sexo explícito + deboche + gore saí pela culatra e os produtores se vêem à beira da falência.

O rockeiro e videomaker do interior paulista Cleiner Micceno, depois de vários curtas metragens divertidos, consegue finalizar “Dominium” (1999) sobre uma invasão de mortos vivos demoníacos que traz o apocalipse sobre a terra. Zumbis também seriam o tema de “Zombio” (1999) de Petter Baiestorf, um média metragem inspirado nos filmes do italiano Lucio Fulci, com um casal em uma ilha que seria paradisíaca se não fossem um psicopata travestido e uma sacerdotiza que acorda uma legião de mortos apodrecidos famintos por carne humana.

Assim, como a praga de zumbis se alastra nos filmes impregnando inocentes transformando-os em criaturas malignas, o vírus do “faça-você-mesmo-e –se –divirta” vai tomando conta do sul do país.

Do interior gaúcho surge “Soul Crusher 2 – O Retorno do Homem Coisa” (1999) do jovem videomaníaco Cristian Verardi, um média da produtora Toque de Muerto, com influências de “Evil Dead” (1984), Spaghetti Westerns, filmes orientais, Troma Films e Canibal Filmes, com uma criatura deformada e sanguinária que procura um livro maldito (que teria sido roubado na imaginária parte 1) por ordens de um lendário demônio chamado Amazarel de Nicodemus. De Chapecó, SC, Fabiano Boni conta a origem de seu personagem Boni Coveiro (calcado nitidamente em Zé do Caixão) em “O Mensageiro das Trevas” (2000), onde o psicopata satanista se diverte matando inicentes escoteiros. Carlos Barbosa, no interior do Rio Grande do Sul, é assolada por um assassino mascarado em “Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na Sexta-Feira 13 do Verão Passado” (2001) de Felipe M.Guerra, uma divertida homenagem satírica aos filmes de terror adolescente dos anos 90 (principalmente a série “Pânico”de Wes Craven). Boni Coveiro retorna dos mortos para se revelar “O Guardião do Inferno” (2001) dirigido e vivido novamente por Fabiano Boni, com participações especiais de Toninho do Diabo, do músico Wander Wildner e de outras personalidades sulinas.

Petter Baiestorf retoma suas atividades e filma “Raiva” (2001), uma mescla de filmes de ação (satirizando Quentin Tarantino) com terror gore, nas atividades de um bando de criminosos que são pegos de surpresa por colonos contaminados por uma droga (testada pelo governo) que libera seus instintos assassinos. Na frente da câmera, praticamente o mesmo grupo de atores/colaboradores que acompanha a Canibal Filmes a anos, por trás muito mais cuidado com a técnica e o amadurecimento da linguagem cinematográfica.

O pioneiro do gore americano H.G.Lewis (2000 Maniacs), Troma & Canibal Filmes foram a influência  para um grupo de paulistas capitaniados por Fernando Rick ao realizarem o trash debochado “Rubão – O Canibal” (2002) e inserirem sua produtora, a Black Vomit Filmes, no circuito de bares e shows de metal, principal reduto de culto a toda esta produção de terror em VHS. A mesma trupe foi (i)responsável  pelo primeiro terror-trash lançado em formato digital (DVD) por aqui: “Feto Morto” (2003), sobre um nerd (Rui Villani) que tem um feto grudado em sua cabeça (resultado de uma relação incestuosa de seu pai) e é hostilizado por uma gang. Escatologia, sexo e gore no que Fernando Rick chama de “estilo Troma de ser”.

Juntando a suas influências básicas, sua admiração pelo grupo de humor britânico Monty Python, Petter Baiestorf realiza o pastelão de terror “Cerveja Atômica” (2003), onde um cientista punk  desenvolve a fórmula da bebida mortal que transforma bêbados em zumbis alucinados e desperta a fúria da avó de Chapéuzinho Vermelho (!?) e suas colegas de chá da tarde, que armadas e perigosas resolvem se vingar.

O cenário de produção desta época começa a mudar, já não existe mais espaço para a divulgação dos vídeos toscos em VHS, os computadores caseiros passaram a substituir as prosáicas mesas de edição linear e o cinema profissional brasileiro começava a se reerguer. Curtas de horror com qualidade técnica e artística (como “Amor só de Mãe” de Denninson Ramalho; ”Sózinho”de André ZP; “Conrad : Bruxaria, Pajelança & Canibalismo” de Luciano Maciel e “Coleção de Humanos Mortos” de Fernando Rick) conseguem espaço e até reconhecimento internacional, apontando novos caminhos para o cinema fantástico nacional.

Ivan Cardoso, ausente das telas por anos, perseguindo orçamentos a altura de suas produções, consegue apoio da Diler Associados e contrata o astro de terror espanhol Paul Naschy (Jacinto Molina) para seu aguardado “Um Lobisomem na Amazônia” (ex-“Amazônia Misteriosa”) em 2005. A interferêcia dos produtores acostumados com produções de cunho televisivo-cinematográfico (leia-se Xuxa/Globo) amenizam muito suas pretenções de uma história envolvendo o personagem clássico Dr.Moreau (baseado em H.G.Wells), guerreiras Amazonas e um lobisomem latino. Remontando material antigo seu (principalmente “O Lago Maldito”de 1977, inacabado e embrião do “Segredo da Múmia”) com cine-jornais antigos e cenas novas cria depois uma obra muito superior,mas pouco vista, chamada “O Sarcófago Macabro” onde um agente americano da CIA (Carlo Mossy) descobre um dossiê sobre um cientista louco brasileiro (Expeditus Vitus, leia-se Wilson Grey, morto em 1993) que colabora com os nazistas e trás para o brasil diversos carrascos da SS, inclusive o próprio Adolf Hitler, como múmias.

Enquanto o paulista Rubens Mello divulga seu média “Lâmia, Vampiro!” (2005), sobre a ressurreição da matriarca dos sanguessugas para evitar o apocalipse planejado por seus rebentos,  Petter Baiestorf planeja uma refilmagem do clássico B “O Incrível Homem que Derreteu” (1978 ), mas o roteiro é mudado para uma história anarco-ateísta sobre a volta de Jesus Cristo como um monstro pegajoso, e finalmente é transformado em “A Curtição do Avacalho” (2006), agora uma comédia que homenageia o cinema marginal  e mistura um cientista louco, um padre fanático, um psicopata mascarado paraguaio, monstros clássicos, heróis atrapalhados, mocinha em perigo e cineastas frustados em uma grande sopa de metalinguagem e auto-referências. No mesmo ano a Canibal cometeria a tão aguardada continuação de seu clássico “O Monstro Legume do Espaço 2”, contando o dia seguinte da suposta morte da criatura, mas o orçamento zero e uma equipe abaixo do mínimo frustaram realizadores e fãs, que ainda aguardam a volta por cima do “ícone do Terror VHS” (atualmente Petter Baiestorf está correndo atrás de investidores para refilmar a primeira parte do “O Monstro Legume do Espaço” com efeitos de Rodrigo Aragão).

No cinemão, o cineasta Walter Rogério conduz o policial com toques de humor negro “Olhos de Vampa” (2006), sobre uma série de crimes que aterrorizam São Paulo com as mesmas características, mulheres  tem o sangue do corpo sugado por uma mordida na bunda e são encontradas seminuas em poses eróticas. Dois policiais que investigam descobrem um suspeito que apelidam de Vampa (o sinistro Joel Barcellos), que vive recluso e protegido por uma velha mendiga.

Um filme realizado por José Mojica e seus alunos em 1979 na bitola amadora Super 8mm é finalmente editado por Eugênio Puppo como parte das comemorações dos 50 anos de carreira do cinesta maldito. “A Praga” (1979/2007) escrita por Lucchetti conta como um homem é amaldiçoado por uma bruxa (Wanda Kosmo, é claro!) e uma misteriosa ferida em sua barriga precisa ser alimentada constantemente com  carne, mesmo que seja carne… humana. Falando em canibalismo, eclode nesta época uma verdadeira epidemia de zumbis antropófagos nacionais. Primeiro é o descolado “Era dos Mortos”(2007) média metragem do mineiro Rodrigo Brandão, com um rapaz que fica preso em um elevador e ao conseguir sair se vê em meio a uma invasão de cadáveres ambulantes e famintos; seguido do pretensioso longa “A Capital dos Mortos” (2008) de Tiago Belotti, com Brasília sendo invadida por mortos vivos como previsto em uma antiga profecia apocalíptica de um padre (com direito a uma rápida ponta de Zé do Caixão em pessoa) e chegando até o cultuado “Mangue Negro” (2008) com roteiro, direção e maquiagens de Rodrigo Aragão (1977). Em meio a um manguezal no interior do Espírito Santo, a pobre comunidade local assiste aterrorizada os mortos levantarem da lama em busca da carne dos vivos. O apavorado catador de caranguejos Luis da Machadinha (Walderrama dos Santos) precisa a todo custo proteger a lavadeira Raquel, sua amada. Maquiador profissional  e realizador de curtas de horror (“Peixe Podre”, “Peixe Podre 2” e “Chupa Cabras”), Aragão utiliza seus conhecimentos para ótimos efeitos especiais, unindo a isto um cenário exótico, um elenco afiado de profissionais e amadores e um roteiro que coloca os zumbis em um contexto verdadeiramente nacional, sendo premiado aqui e no exterior. Este “ciclo nacional” de mortos ambulantes teria ainda a participação do longa gaúcho “Porto dos Mortos” (2009) de Davi de Oliveira Pinheiro, mas não se sabe ao certo se o projeto muito comentado foi  realmente finalizado.

No oeste catarinense o “canibal-mor” Baiestorf exercita estilo e linguagem com médias metragens na linha sexploitation unindo sexo simulado e violência explícita homenageando o diretor espanhol  Jesus Franco e o cinema da Boca do Lixo com “Arrombada-Vou Mijar na Porra do Seu Túmulo” (2007) e “Vadias do Sexo Sangrento” (2008) contando com a edição precisa do músico/cineasta-experimental Gurcius Gewdner.

Depois de trinta anos de tentativas frustradas, bicos em parques de diversão, shows de rock, mestre de cerimônias de filmes vagabundos na TV e pontas em filmes alheios (inclusive pornôs), Josefel do Caixão Zanatas ressurge da tumba para completar a sua saga! Com apoio do produtor Paulo Sacramento e do fã-cineasta Dennison Ramalho, José Mojica Marins tira a poeira de seu roteiro escrito em 1966 e o adapta para os dias atuais em “Encarnação do Demônio”(2008). Depois de passar quatro décadas atrás das grades por seus crimes insanos, Zé do Caixão é posto em liberdade e escolhe novos seguidores, retomando sua busca pela mulher perfeita. No seu encalço estão um padre enlouquecido, dois policiais veteranos e os fantasmas de suas vítimas, todos sedentos de vingança. Com uma produção digna, efeitos especiais elaborados e elenco estelar (Jece Valadão, Adriano Stuart, Débora Muniz, Zé Celso, Helena Ignez e Rui Rezende), Mojica consegue mostrar a força e o horror de seu personagem imortal e é consagrado pela crítica, aparece em capa de revistas sérias e é premiado no Festival de Paulínia. O grande público não corresponde nas bilheterias, mas fãs brasileiros e estrangeiros assistem  ao filme diversas vezes no cinema e em um DVD caprichado com diversos extras.

Em Curitiba(PR), Paulo Biscaia Filho escreve e dirige “Morgue Story – Sangue, Baiacu e Quadrinhos” (2009), humor-negro sobre um estranho triângulo envolvendo Ana Argento, uma desenhista de quadrinhos, um vendedor de seguros cataléptico e um legista psicopata que dopa suas vítimas com veneno de Baiacu para estupra-las e assassina-las no necrotério. Também do Paraná, é “A Bruxa do Cemitério 2” (2009) de Semi Salomão, com um colono sendo atormentado pelo espírito de uma feiticeira que exige vingança e atraí vítimas para um local onde ela domina forças maléficas.

Enquanto o paulista João Paulo Brasile Takada escreve, dirige e edita o longa em duas partes “Fúria Alucinante” (2010), com ação e ultra-violência na história de um ex-militar que através de experiências genéticas se transforma em um super-assassino vingativo, a atriz Gisele Ferran é arregimentada para as hordas da Canibal Filmes e estrela o média “O Doce Avanço da Faca” (2010) de Petter Baiestorf, mostrando que uma mulher também pode virar uma máquina de matar ao se vingar de uma seita de crentes pela morte de seu amado.

arte de Leyla Buk para o filme "O Doce Avanço da Faca".

A nova década mostra o amadurecimento técnico e artístico do nosso cinema “de gêneros”. Felipe Guerra retoma seus personagens para a continuação de sua engraçada sátira aos filmes de terror Hollywoodino com “Entrei em Pânico ao Saber o Que Vocês Fizeram na Sexta-Feira do Verão  Passado 2 – A Hora da Volta da Vingança dos Jogos Mortais de Halloween” (2011) com os novos crimes (risadas) provocados pelo assassino interiorano Geison.

“Pólvora Negra” (2011) de Kapel Furman, é um policial de ação, suspense e muito sangue, com estilo e ótima produção. Também em São Paulo, Sandro Debiazzi finaliza (em 20 anos de filmagens) seu média-metragem “O Tormento de Mathias” (2011), estrelado por Felipe Guerra e Joel Caetano. Mas o novo marco da produção independente cabe novamente ao capixaba Rodrigo Aragão com o maravilhoso “A Noite do Chupacabras” (2011). No interior do Espírito Santo, o conflito entre duas famílias rivais é acentuado com a chegada de um casal e com a presença de uma criatura monstruosa e sanguinária que sai da mata e provoca baixas nas duas facções em guerra. Assim como em “Mangue Negro”, Aragão prova que podemos produzir maquiagens e efeitos especiais de primeira categoria e originalidade. E que monstros como o lendário Chupacabras (vivido por Walderrama dos Santos) podem ser integrados a uma realidade nacional-regional, algo só conseguido antes com o Zé do Caixão de Mojica. Significativa também é a presença de outros cineastas brasileiros em destaque no elenco, como o vilão alucinado de Petter Baiestorf, o herói apalermado de Joel Caetano (diretor de vários curtas de horror, como  “Minha Esposa é um zumbi” (2006), “O Gato” (2009) e “Estranha” de 2011) ou o “Velho-do-Saco” (outra figura mítica/sobrenatural presente na trama) de Cristian Verardi (“Colt Romero”de 2008 e outros).

Como o mundo não acabou como previsto no ano 2000 e me disseram que ainda não vai se aposentar em 2012… assim como o cinema nacional… esperamos novas, emocionantes e assustadoras surpresas, saídas de algum cemitério público, casa mal-assombrada ou principalmente das cabeças  criativas de nossos “Horror-Makers” genuinamente brasileiros, portanto teimosos, endividados e batalhadores. Uma nova geração de curta-metragistas dedicados ao gênero fantástico está surgindo, Rubens Mello (ator em filmes ótimos como “Encarnação do Demônio” de José Mojica e “Ivan” de Fernando Rick) dirigiu recentemente “Lia”, um horror psicológico; Caio D’Andrea realizou o curta “O Solitário Ataque de Vorgon” que é ótimo (além de ter co-dirigido, com o colega Rodrigo Fonseca, o western com toques fantásticos “Duas Vidas Para Antonio Espinosa”); Armando Fonseca realizou um gore movie macabro tecnicamente muito bem realizado chamado “Velho Mundo”; o músico Márcio Júnior e sua esposa Márcia Deretti filmaram “O Ogro”, baseado na obra do desenhista Júlio Y. Shimamoto e Gabriel Carneiro acabou de lançar o curta-metragem “Morte e Morte de Johnny Zombie”, estrelado por Joel Caetano… Não percam o próximo capítulo!

Escrito e pesquisado por Coffin Souza (texto original foi publicado no fanzine “Brazilian Trash Cinema” dos editores Coffin Souza e Petter Baiestorf em novembro de 2001, revisto e atualizado em novembro de 2011)

Joel Caetano e seu Cinema de Recurso Zero

Posted in Cinema, Entrevista with tags , , , , , , on setembro 1, 2011 by canibuk

Joel Caetano e sua equipe da Recurso Zero Produções, nos últimos 10 anos, realizaram vários filmes extremamente interessantes. Conheci o Joel quando ele estava divulgando seu curta “Minha Esposa é um Zumbi” e, desde então, me tornei fã das produções dele. Em 2010 fui convidado pelo cineasta Rodrigo Aragão para interpretar o vilão humano no seu filme “A Noite do Chupacabras” (longa recém lançado) e, para minha surpresa, o “mocinho” do filme era interpretado pelo Joel Caetano. Foi divertido demais filmar com o Joel Caetano, temos várias cenas juntos onde fico torturando e sacaneando ele e, após o término das gravações, sempre ficávamos ele, eu e o ator Walderrama dos Santos (que interpreta o Chupacabras), bebendo umas cachaças e contando histórias de nossas produções até o sol raiar (as filmagens do “A Noite do Chupacabras” eram todas noturnas, o que nos permitia dormir durante o dia). Baseado nessas nossas conversas da madrugada, em set do “A Noite do Chupacabras”, que resolvi entrevistá-lo pro Canibuk.

Eu, Rodrigo Aragão e Joel Caetano.

Petter Baiestorf: Fale um pouco sobre sua infância/adolescência e como você acabou se interessando em virar produtor de filmes independentes:

Joel Caetano: Fui uma criança com muita imaginação! Desde pequeno, gostava de ver filmes, desenhos animados e ler livros e histórias em quadrinhos de super-heróis, ficção científica e terror. Sempre tive facilidade de me transpor ao universo dessas histórias fantásticas, e num dado momento, eu comecei a criar, e a melhor maneira que tive de fazer isso na época foi o desenho. As minhas primeiras lembranças de infância são de estar debruçado sobre uma folha de papel desenhando meus personagens favoritos, Batman, Superman, Sprectreman, Tom e Jerry, Disney entre outros. Comecei a desenhar antes mesmo de saber escrever. Eu tinha muita imaginação e as vezes isso saía do controle. Me lembro que um dia, amarrei uma toalha no pescoço e pulei de uma escada muito grande, achando que ia voar como o Superman… Resultado, quebrei o nariz de todas as formas e lugares possíveis, e devo ter quebrado algo no cérebro também, pois ele nunca mais voltou a funcionar normalmente desde então rs. Cresci nesse universo de desenhos e fantasias, e ao chegar na época da escola, eu me dei bem, pois costumava chamar atenção pelos desenhos. Enquanto os outros alunos desenhavam bonecos de pauzinho e bolinha, eu já desenhava meus personagens favoritos da TV. Logo depois comecei a desenhar caricaturas dos outros alunos (o me causou algumas brigas eu confesso), e me tornei uma figura cômica da sala de aula, sempre aprontando para os outros rirem. Outro momento marcante de minha infância foi a primeira vez que estive num cinema, levado por minhas irmãs que eram um pouco mais velhas que eu. Assisti “Labirinto – A magia do tempo” (“Labyrinth”, 1986, de Jim Henson). Foi uma experiência incrível, saí muito  impressionado da sala. Para uma criança com a imaginação que eu tinha, ver toda aquela fantasia bizarra, criada por Jim Henson, seus bonecos e a música de David Bowie e naquela tela enorme com som para todos os lados, causou um grande impacto em minha vida que até hoje, ao ir no cinema, sinto uma emoção juvenil que me transporta no tempo e espaço de uma forma que não posso mensurar, sou privilegiado em poder  vivenciar essa emoção mesmo depois de tantos anos, é inexplicável.  O segundo filme que assisti no cinema foi, “Robocop – O policial do futuro”, que impressionou pela violência gráfica, nunca tinha visto um filme de ação/ficção científica tão violento e sangrento, não preciso dizer que adorei não é? Aos 13 anos, tentei fazer minhas próprias HQs, primeiro mais infantis, uma espécie de Liga da Justiça só com animais, no bom e velho estilo Disney,  que se chamava “Liga Maluca” que enfrentava a “Liga do Mal” (Qualquer semelhança com os “Superamigos” e a “Legião do Mal” é mera cópia), mas eu era meio preguiçoso e só ficou na primeira edição, mas os tenho até hoje. Fui crescendo e entre as coisas comuns da idade, continuei desenhando, sempre focado no universo de Super-heróis e FC. Nessa época, comecei a ter contato com filmes de terror como, “A hora do Pesadelo” (construí uma luva com lata parecida com a do Freddy para brincar, eu adorava esse personagem), “Brinquedo Assassino”, “A volta dos Mortos Vivos”, “Sexta-feira 13”, “Halloween”, “A coisa”, “A mosca”, “Colheita Maldita”, “A Casa do Espanto” e é claro “Evil Dead”, que na minha opinião é o maior clássico do gênero. Sobre esse filme, me lembro de ficar acordado até tarde toda vez que passava na TV, era como um ritual, não perdia por nada.Eram todos filmes que passavam na TV aberta, pois naquela época, eu não tinha vídeo-cassete. Tudo que eu podia ver do gênero na TV eu via, só me lembro de ter medo de um filme, “O Exorcista”, na época eu tinha medo de tudo que envolve espíritos (isso não mudou muito hoje em dia, esse tipo de filme sempre me incomoda,  é um lado irracional que me persegue, posso ver sangue jorrando em um filme, mas não uma criança morta que se esconde debaixo da cama, vai entender). Falando sobre filme, eu via de tudo. Nos anos de 1980 eram o auge das comédias adolescentes, e as que mais me marcaram foram, “Porks”, “Curtindo a Vida Adoidado”, “Namorada de aluguel”, “Loverboy”, “A primeira Transa de Jonathan”, “Te pego lá fora”, “Mulher Nota 1000” entre outras tranqueiras. Eu assistia Porks, que tinha algumas cenas de nudez e sacanagem (muito leves se levar em consideração hoje, mas para um garoto de 8 a 10 anos, ver um mamilo era o máximo) escondido da minha mãe, com o dedo no botão de mudar de canal e o som bem baixo, quando ela chegava, eu rapidamente mudava de canal tentando disfarçar, acho que ela sempre soube a verdade rs. Falando em comédia, assisti muitos filmes do Jerry Lewis e dos Trapalhões (os mais antigos), sempre adorei comédias desse tipo pastelão mesmo, hoje em dia faltam caras como esses para fazer bem filmes desse tipo, tem o Jim Carrey, mas faz tempo que não faz nada significativo, é uma pena. Não posso falar de filmes sem citar algo que me influenciou por muito tempo, os filmes da primeira trilogia de “Guerra nas Estrelas” (antes daquela frescura de “Uma nova Esperança” etc). Me lembro de brincar de “sabre de luz” com os amigos, fazendo aquele som característico com a boca, “Vrummm… Vrummmm” era muito divertido (principalmente quando algum vizinho trocava as lâmpadas fluorescentes de sua garagem). Eu via e revia esses filmes dezenas de vezes, era um evento quando passava na sessão da tarde, todas as crianças iam assistir, depois saímos com nossos cabos de vassoura e enfrentávamos a nossa própria “Estrela da Morte”. De ficção científica, ainda tinha o “Blade Runner”, “De volta para o Futuro”, “Superman” de Richard Donner (a melhor personificação desse personagem até hoje) e muitos outros, que alimentavam minha fértil imaginação. Destaque para, “O planeta dos Macacos”, e seu final arrebatador, que me deixou por muito tempo chocado com a possibilidade de um futuro tão assustador. Eu gostava muito também dos filmes de ação, aventura e fantasia da sessão da tarde, tipo Krull (odiava a cena que o ciclope morria, era o melhor personagem do filme), Fúria de Titãs, Conan, o Bárbaro, Fuga de NY, Aventureiros do Bairro Proibido, Indiana Jones entre outros. Tive também minha época de ver filmes de artes marciais, os filmes de Bruce Lee e Van Damme eram meus favoritos, eu via os filmes e ficava no quintal de casa treinando os golpes, fazendo exercícios, para depois, ir treinar com os moleques na rua, era uma curtição só, saía briga pra tudo quanto é lado, mas nada sério, só coisa de moleque. Nessa época, já com uns 15 anos, eu tentei novamente fazer uma HQ, O “Ninja X”, a história de um garoto que é salvo de um acidente de avião por um mestre em artes marciais e passa a integrar o seu clã. Quando se torna adulto, ele resolve voltar para sua terra natal para descobrir quem derrubou o avião que matou seus pais. Mais uma vez não terminei, quadrinhos dava muito trabalho. Quando cheguei à adolescência, os hormônios falaram mais alto, comecei a namorar, me afastei dos filmes, tentei ser músico (aprendi a tocar violão), e  estudei eletrônica, foi uma época de trevas, onde a minha diversão era somente encher a cara, jogar futebol e sair em baladas com os amigos, obviamente tudo isso deu errado, eu só voltaria a me dedicar a arte quando, anos depois, comecei a faculdade de Rádio e TV em 2001.

Baiestorf: Você trabalha com o que para sobreviver?

Caetano: Sou formado em Rádio e TV, com pós Graduação em Comunicação organizacional.  Trabalho como editor, assistente de direção e eventualmente como roteirista em uma produtora de vídeos institucionais e propaganda.  O mais interessante é que entrei nessa empresa pois a dona da produtora era uma das alunas da faculdade onde estudei, e ela se lembrou de mim por causa do curta “Dupla Surpresa”, que fiz no primeiro ano do curso e decidiu me chamar para um trabalho, estou lá, desde 2007 e tem sido um ótimo lugar, pois consigo  conciliar meu trabalho com meus filmes e estar perto de profissionais altamente qualificados, com os quais aprendo muito tecnicamente.

Baiestorf: Fale um pouco da sua cara metade, Mariana Zani, que te acompanha desde o início. Vocês se conheceram antes de começar a fazer filmes?

Caetano: Conheci Mariana em 2000, começamos a namorar e 6 meses depois,  decidimos fazer faculdade, estudamos juntos os 4 anos de curso mais 1 ano de pós graduação, tudo isso na mesma sala, o que pra ambos foi muito bom, pois estávamos focados no aprendizado, e um dava suporte ao outro, estudando juntos ou fazendo trabalhos e seminários. A Mariana vem de uma família de artistas, seus pais, Ivete Zani e Luiz Carlos Batista (que hoje participam dos filmes da RZP) se conheceram no teatro na década de 1970. Sua mãe, atriz e seu pai, ator, diretor e roteirista, (que escreve até hoje para o “Grupo Ato”, companhia teatral muito influente na cidade de Bauru em São Paulo) logo se casaram e dessa união, nasceu a Mariana. Pelos relatos da família, Mariana sempre foi muito talentosa e ainda pequena, nas festas de família fazia shows enquanto as outras crianças engatinhavam. Seus pais sempre a incentivaram a seguir essa carreira, por isso ela sabe de tudo um pouco, desenhar, pintar, dançar, atuar e escrever, tudo com muita naturalidade e competência. Quando estávamos na faculdade, nossa idéia era começar a produzir logo no primeiro ano, um pouco por entusiasmo e inocência de nossa parte, mas acabou dando certo.  Decidimos começar por um documentário sobre a praça Benedito Calixto, em Pinheiros, onde acontece, até hoje, uma feira de antigüidades muito famosa. Marcamos uma reunião com várias pessoas, mas só veio, uma hora depois, o Danilo Baia, que era o único que tinha uma filmadora, na época uma Hi-8. Nos juntamos e gravamos várias horas de material, mas cometemos o erro de não pedir autorização de imagem para ninguém, o documentário não deu certo, mas nascia ali, batizada pela própria Mariana Zani, a “Recurso Zero Produções”. A Mariana me ajuda em tudo, ela lê os roteiros e emite suas opiniões, me ajudando no processo de criação, faz produção, maquiagem, ajuda na organização geral, evita que eu maltrate os atores com intermináveis horas de gravação (eu sou meio sem noção às vezes), e me ajuda na divulgação e palestras da RZP. Sem ela nada disso seria possível, funcionamos muito bem juntos, procuramos sempre separar o relacionamento do trabalho, não vou negar que existem divergências, mas fazem parte do processo. Não consigo me imaginar fazendo filmes sem ela, normalmente quando falo dos filmes, não os cito como meus filmes, e sim da RZP, pois é sempre um trabalho em grupo.

Mariana e Joel.

Baiestorf: Como é o processo de criação dos teus filmes? Mariana colabora com idéias sempre?

Caetano: Na verdade as idéias e roteiros vêm da minha cabeça mesmo. Tenho lampejos de inspiração o tempo todo e vou anotado em  qualquer papel que me apareça na frente. Depois de ter a idéia central, escrevo de forma literal, ainda uma espécie de rascunho, e vou aos poucos recheando esse argumento com elementos, dado personalidade e profundidade as personagens, estruturando a história de acordo com o formato e narrativa que pretendo seguir. Nesse momento, conto pra Mariana a história sem muitos detalhes, só para ver sua opinião, muitas vezes ela torce o nariz e eu tento convencê-la do meu argumento, se conseguir, normalmente estou no caminho certo. Feito isso, escrevo o roteiro e depois de pronto, desenho o Storyboard, que me ajuda a definir o visual do filme. Uma coisa importante, é que durante quase todo o processo, eu desenho algo, pois sou muito visual, eu tento montar o filme na minha cabeça antes mesmo do roteiro estar pronto. Esse exercício me ajuda a dar ritmo à história, acho que é coisa de editor, sei lá, mas funciona muito bem comigo.

Baiestorf: Assim como o Felipe Guerra, outro batalhador do cinema independente, você faz vários filmes usando sua família (seu pai, seus sogros, etc…). Como funciona isso?

Caetano: Quando comecei era muito inseguro, pois tinha vontade de fazer filmes que não se via por aí em nosso cinema convencional, principalmente na faculdade, onde a maioria das pessoas queriam fazer filmes mais “sérios”. Minha vontade sempre foi fazer filmes de terror, de ficção científica, com efeitos especiais, sem muita frescura. Para resolver esse problema de ter que persuadir algum ator a trabalhar nos filmes, decidi que tudo seria feito por nós mesmos, eu Mariana Zani e Danilo Baia, a RZP. Foi assim nos dois primeiros filmes, “Afrodite” e “Dupla Surpresa”. Nos dois, eu e Mariana atuamos, eu escrevo e dirijo e o Danilo Baia faz a câmera e direção de fotografia. Com o passar do tempo, nosso trabalho foi amadurecendo, fui estudando mais e aprendendo a escrever melhor, ter mais controle, conhecimento e segurança do que queria. Ainda na faculdade, no último ano, em 2004, fizemos o “Despedida”, um curta de terror, com um fantasma, estrelado por mim e Mariana. O resultado técnico foi bem satisfatório, me senti mais seguro para envolver outras pessoas numa produção. No ano seguinte, fiquei sabendo que iria ter um festival de Cinema Fantástico aqui no estado, na cidade litorânea de Ilha Comprida, e decidi fazer um curta para enviar. Eu e Mariana, tínhamos acabado de casar, e isso refletiu no curta,  no sentido de que, aproveitar o que tínhamos em mãos na época, que era o nosso apartamento, uma câmera mini-dv e uma luz que o Danilo conseguiu por aí (diz a lenda que “pegou emprestado” de uma igreja). Já mais seguro e com um roteiro que, ao meu ver, era bom (diante das circunstâncias), decidi chamar os pais da Mariana e uma amiga dela para participarem como atores, todos toparam no ato e foi uma experiência muito gratificante que resultou no filme “Minha Esposa é um Zumbi”. Desde então, tenho trabalhado com esse grupo de pessoas (menos a amiga da Mariana, que decidiu encerrar sua carreira como atriz depois de fazer o filme conosco), e apesar de serem da família, todos são profissionais do ramo e tenho sorte de poder contar com pessoas tão talentosas. Hoje não trabalho só com esse grupo, já filmei com outros atores, como o Davi de Almeida, ótimo ator que participou do GATO em uma ponta e que já trabalhou em novelas, filmes (VIPs) e séries de TV e Kika Oliveira e Walderrama dos Santos, atores da Fábulas Negras Produções. O casal mais gore do cinema nacional, o Luis da Machadinha e Raquel do filme “Mangue Negro”.  Foi um prazer trabalhar com esse pessoal e pretendo continuar agregando novos parceiros, de acordo com a proposta do filme, mas sem descartar nunca o grupo com quem venho trabalhando ha tantos anos.

Baiestorf: Teus primeiros filmes foram projetos de faculdade, certo?

Caetano: Eu fiz curso de Rádio e Tv, mas meus professores, em grande maioria já tinham trabalhado no cinema e teatro, por isso tive praticamente aulas de cinema. O que me ajudou bastante também, é que durante o curso de Rádio e TV, fiz em paralelo, um curso de teatro, a fim de entender melhor a arte de atuação, e por fim, acabei tomando gosto e atuo nos filme até hoje.

Baiestorf: Como era sua relação com os colegas e professores na faculdade, já que na maioria das vezes faculdades ficam somente na teoria e não na prática?

Caetano: Bom, não esperei a faculdade para começar a realizar meus filmes. Meu primeiro curta pronto foi o Afrodite, que fiz com a Mariana Zani e o Danilo Baia, de uma forma bem improvisada. O mais legal é que a gente exibiu o curta na faculdade (quase que clandestinamente) num evento que estava tendo, não me lembro do quê, e fez o maior sucesso entre os alunos, foi engraçado. Era a primeira vez que eu sentia o gosto de ver meu filme sendo assistido por outras pessoas, uma sensação indescritível até hoje. Nós da RZP éramos meio que um grupo fechado, pois a maioria dos alunos do curso tinham outras aspirações e temas mais sérios, e nós, sempre íamos para as vertentes do cinema de gênero, mas sempre tivemos uma relação muito boa com todos, cada um na sua. Mas foi uma boa época, onde pude experimentar muito, sem medo de errar, sempre defendendo minhas idéias, por isso aprendi bastante.

Baiestorf: Fale sobre “Afrodite”, seu primeiro curta:

Caetano: O “Afrodite” foi gravado depois do “Dupla Surpresa”, mas finalizado antes, pois não tinha muitos efeitos especiais. Foi uma tentativa de fazer um drama, mas que acabou saindo com sangue demais para ser classificado assim. Queríamos impressionar um professor que curtia Nelson Rodrigues e coisas do tipo, foi o máximo que cheguei desse tipo de narrativa. O filme é sobre um cara que procura desesperadamente algo que sua esposa escondeu, descobrimos que ele a traiu e que ela então está se vingando. Por fim, tem uma surpresa muito sangrenta. Foi um curta feito com uma câmera Hi-8 do Danilo Baia, uma luz pendurada numa escada dobrável, um pepino, uma faca de cozinha, uma caixa de fósforos e dois atores, eu e a Mariana. Nem me lembro quanto tempo demorei para escrever o roteiro, foi tudo feito no improviso, acho que nem usei storyboard. Gravamos em um dia e editei no computador sem trilha nem nada, só diálogos.  Como disse anteriormente, ele foi exibido na faculdade e serviu de incentivo para outras produções de alunos, achei isso bacana.

Baiestorf: “Afrodite” teve distribuição? Foi exibido em festivais?

Caetano: Ele foi exibido somente na faculdade, depois coloquei na internet, quem quiser assistir é só acessar a página da Recurso Zero Produções no YouTube.

Baiestorf: “Dupla Surpresa”, de 2002, é um bom “fanfilm”. Como surgiu a idéia de fazê-lo?

Caetano: Quando comecei a fazer faculdade, pesquisei sobre filmes independentes, e a primeira coisa que procurei, por ser muito fã na época, foi filmes do universo de “Guerra nas Estrelas”. Descobri que havia centenas de fanfilms e isso abriu um universo de possibilidades para mim. Na época, nunca tinha imaginado que era possível fazer filmes com efeitos especiais como sabres de luz em casa, isso foi algo totalmente mágico pra mim. Decidi então estudar sobre o assunto, e aprender as técnicas usadas por essas pessoas. Fiz vários testes em casa, eu tinha uma câmera VHS velha e uma placa de captura que comprei usada na Santa Efigênia, a câmera só gravava em preto e branco sem som, mesmo assim serviu para esses testes iniciais, onde aprendi muito sobre After Effects, Studio Max 3d e outros softwares de edição e sonorização. Logo depois, os alunos da minha sala de RTV decidiram fazer uma vaquinha para alugar equipamentos e gravar alguns curtas em um fim de semana, não deu outra, escrevi o roteiro de “Dupla Surpresa” e gravei no estúdio da faculdade, num fundo verde (chroma key). A edição desse curta demorou mais ou menos 6 meses, pois tive que capturar todo material na faculdade, copiar em cds, levar para casa, criar os efeitos dos sabres de luz quadro a quadro, criar o fundo virtual (grande parte peguei “emprestado” de modelos 3D do filme mesmo), animar as naves de fundo, editar e sonorizar em um computador com processador Pentium 160 MHZ (que já era obsoleto na época), que demorava dias para renderizar minutos de trabalho. No fim, apesar de não ter ficado perfeito, o curta foi exibido na faculdade e fez sucesso entre os alunos que como eu, viram que era possível fazer filmes de ficção científica, mesmo sem muitos recursos. Ainda gosto de Star Wars, mas não sou tão fanático, acho que fazer esse filme , o “Dupla Surpresa”, me ajudou a seguir em frente e procurar outras inspirações, como o trash e o terror por exemplo.

Baiestorf: “Dupla Supresa” ganhou vários prêmios, algo habitual em sua carreira. Você faz os filmes pensando em ganhar prêmios?

Caetano: O “Dupla Surpresa” não ganhou tantos prêmios assim, somente prêmios de um festival acadêmico. Na verdade o fiz por gostar mesmo desse tipo de filme, e para aprender a fazer efeitos especiais e composição usando programas de computador. Quando escrevo os filme a última coisa que penso é em prêmios. Sempre me preocupo em fazer uma boa história, e esse é sempre o meu maior objetivo. Acho que esse lance de ganhar prêmios é importante, pois indica que meu trabalho vem sendo reconhecido, mas de maneira alguma tem como prever isso, se fosse algo tão preciso assim, seria matemática, não arte!

Dupla Surpresa (2002).

Baiestorf: Você também já experimentou no campo da animação com os curtas “Onde há Fumaça” (2003) e “Bruma” (2005). Como esses curtas foram concebidos? E como você fez para realiza-los com orçamento zero?

Caetano: “Onde há fumaça” é um curta em stop-motion usando recortes de jornais e revistas, que fala dos males que assolam a humanidade, como drogas, religião, guerra etc. Foi feito meio que sob encomenda para um evento que aconteceu na faculdade e só foi exibido por lá. Gravei em estúdio, com luz e equipamento profissional em apenas um dia. Gosto muito de stop-motion, penso em voltar a usar essa técnica futuramente. O curta “Bruma” foi feito em 2005, um ano depois do término da faculdade. Eu estava meio sem produzir nada, e decidi fazer algo que poderia realizar sozinho. Já tinha usado esse personagem no trailer falso “Heróiz com Z de Brazil”, e decidi fazer um HQ.  Gostei tanto do resultado que decidi fazer um curta animado do “Bruma” nos mesmo moldes das animações da Marvel (Thor, Hulk, Capitão América e Homem de Ferro) da década de 1960, usando uma técnica que consistia em capturar os frames dos HQs e depois transforma-los em animações com o mínimo de movimentos possíveis. Era um estilo que fez muito sucesso na época, e no fim, gostei do resultado dessa técnica para meu curta. Foi uma boa experiência, que viria a ser útil, pois voltei a usar animações no filme “Minha Esposa é um Zumbi” no ano seguinte.

Baiestorf: E a recepção do público como é quando assistem suas animações?

Caetano: “Onde há fumaça” é só um curta experimental, mas me lembro que as pessoas gostaram na época. O “Bruma” faz sucesso devido à animação e o traço, mas não agrada muito no roteiro e locução (que fiz precariamente num microfone de computador). Acho  ambos  trabalhos válidos como aprendizado e desenvolvimento da técnica, mas os roteiros não considero dos meus melhores.

Baiestorf: Fale um pouco sobre seu trabalho como ator? Em 2003 você trabalhou no filme “Véio Mentiroso” e pós 2010 você aceitou vários trabalhos como ator em filmes de outros diretores.

Caetano: Além de “Véio Mentiroso”, interpretei mais papéis em filme de terceiros, como “O Tormento de Mathias” do diretor Sandro Debiazzi, “Morte e Morte de Johnny Zombie” de Gabriel Carneiro e o longa “A noite do Chupacabras” do Rodrigo Aragão. Normalmente procuro ler bastante o roteiro e entender as motivações dos personagens. Gosto de saber como o diretor vê esse personagem, e para isso costumo conversar até entender essa visão e poder integrá-la a minha. Feito isso, o resto é ensaio. O que gosto de fazer é imaginar que estou numa grande brincadeira de faz-de-conta, em alguns momentos mais densos, procuro intensificar mais a minha imersão nesse mundo criado pelo roteirista, mas no geral, eu apenas ligo a tomada e o personagem aparece. Claro que isso depende do quanto ele exige em termos de texto e profundidade, por isso, procuro estudar cada papel de acordo com a sua proposta, sempre respeitando e dando prioridade a visão do diretor.

Baiestorf: Ainda não vi teus curtas “Trabalhador” (2003), “Trailer Heróiz com Z de Brazil” (2004) e “Despedida” (2005). Fale um pouco sobre eles:

Caetano: “Trabalhador” era pra ser um exercício de iluminação na faculdade que aproveitei para fazer um curta. É uma homenagem a Charles Chaplin em tempos modernos, um curta que mostra como o cotidiano de um trabalhador pode ser desgastante e cruel. O destaque do curta é a ótima interpretação de Danilo Baia no personagem título. O Trailer “Heróiz com Z de Brazil” era pra ser um curta, com os mesmo personagens de “O assassinato da Mulher Mental”, mas o roteiro que escrevi na época era totalmente sem pé nem cabeça, para não perder a viagem fiz um trailer falso, sem saber que viraria um filme no futuro. Já “Despedida” é meu curta de formatura da faculdade de RTV. É uma história de amor e fantasmas. Foi a primeira vez que trabalhei com terror sobrenatural. Mais uma vez, me reuni com Mariana Zani e Danilo Baia, fizemos uma produção respeitando todos os passos propostos em sala de aula, e nesse sentido foi muito interessante, apesar de ser uma produção pequena, foram seguidas todas as regras de um filme profissional, e o resultado ficou bem satisfatório. Os três curtas citados acima estão no YouTube, quem quiser conferir é só acessar o canal da Recurso Zero Produções.

Baiestorf: E eles tiveram boa recepção do público?

Caetano: O “Trabalhador” ficou em segundo lugar no júri popular em um festival acadêmico. O Trailer “Heroiz com Z de Brazil” está na internet desde que foi feito, não tem muitos acessos, acabei não divulgando muito, foi só uma brincadeira na época, já o “Despedida” foi exibido no I Cinefantasy, não sei a aceitação do público pois não estava lá na ocasião, foram curtas que fiz e coloquei logo na internet sem pretensão ou divulgação. Esse último é o mais visto na internet, nada demais, mas tem boas avaliações.

Baiestorf: Acho que tua carreira tem 2 fases: Joel estudante, onde você estava experimentando as ferramentas que tinha à mão, e Joel pós-estudante, quando você começou a aplicar com maior segurança tudo que aprendeu com as experiências anteriores. Creio que o teu ótimo curta “Minha Esposa é um Zumbi” (2006) é o divisor dessas 2 fases. Fale um pouco sobre a produção do curta “Minha Esposa é um Zumbi”:

Caetano: Em 2006, eu já havia terminado a faculdade havia 2 anos e não conseguia emprego na área, somente alguns trabalhos esporádicos como editor e cinegrafista. Sempre pensei que se produzisse algo bom, serviria como uma vitrine do meu trabalho e com isso conseguiria algum êxito profissional (o que aconteceu logo depois), mas eu precisava ser visto. Fiquei sabendo de um festival de cinema fantástico que aconteceria em Ilha Comprida, no litoral de São Paulo (que mais tarde mudaria para a capital com o nome de Cinefantasy) e decidi fazer um filme para me inscrever. Nessa época, eu estava imerso nos filmes trash (que maneira de começar a me mostrar para o mercado hein), me deliciando com zumbis, monstros do espaço e toda gama de absurdos deliciosos que só esse tipo de filme pode nos propiciar. Percebi que o terror não precisava ser somente assustador, poderia ser nojento e engraçado. Filme como “Fome Animal”, “Evil Dead” e outros voltavam, com força total, não só como entretenimento juvenil, mas como uma forma de inspiração. O ponto crucial desse despertar para o terror com elementos de comedia aconteceu quando vi o filme, “Todo mundo quase morto” (“Shaun of the Dead” de Edgard Wright). Vi nesse filme, toda a magia dos clássicos filmes de zumbis, mas com uma dose “cavalar” de humor negro, tudo o que eu queria fazer, mais uma vez a inspiração veio de bons e simples exemplos. Decidi então fazer meu próprio filme de zumbi, com terror, comédia e tudo que tinha direito, só tinha um problema… Como eu ia conseguir fazer uma invasão de zumbis quando nem conseguia atores para encenar um curta simples com poucas pessoas. O “pulo do gato” foi pensar na produção ao contrário (coisa que faço até hoje), ver o que tinha em mãos e escrever uma história a partir disso. Bom, eu não poderia ter muitos zumbis, então decidi usar apenas um, ou uma, no caso a Mariana. Já que tínhamos acabado de casar, pensei em ela ser minha esposa mesmo no filme, ia facilitar na interpretação. Logo depois chamei sua mãe que fez o papel de sogra mesmo e o Danilo, que era o melhor amigo de Tonho, meu personagem. Foi também a primeira vez que trabalhei com Luiz Carlos Batista, meu sogro, e como eu sabia que ele era mais experiente ator do grupo, lhe dei um papel de cientista que cria a fórmula de zumbificação. A doutora Melissa, foi interpretada por uma amiga da Mariana chamada Adriana, que foi chamada no dia mesmo. Ela nem era atriz (e desistiu de tentar depois de trabalhar conosco), mas isso foi ótimo para o caráter cômico do personagem. Com todos os elementos em mãos escrevi o roteiro, com intenção de fazê-lo com o máximo de piadas possíveis e ganchos estapafúrdios. Eu parti da premissa de que se não pudesse fazer o melhor, faria o pior filme possível! Gravamos tudo em uns 4 fins de semana, e a edição durou um mês mais ou menos. Durante as gravações, pedi aos atores que interpretassem o mais exagerado que conseguissem, eu queria algo caricato mesmo, próximo do humor físico que citei gostar tanto nas respostas anteriores. Terminado o filme, mandei para o Cinefantasy (que aconteceu em 2006), mas não fui assistir, pois era longe e eu trabalhava muito na época. Para minha surpresa, “Minha Esposa é um Zumbi” ficou em primeiro lugar no júri popular, algo inusitado, visto a forma despretensiosa como foi realizado. “Minha Esposa é um Zumbi” me despertou para o mundo de festivais, que até então eu não via a possibilidade de participar. A partir desse filme, comecei a mandar meus trabalhos para esses eventos cuja importância está na possibilidade de se difundir o cinema de gênero pelo país. O curta também foi escolhido para fazer parte do livro “Cinema de Bordas II”, num capítulo chamado “Minha esposa é um zumbi e a mistura de gêneros de Joel Caetano”,  escrito pelo professor e pesquisador Rogério Ferraraz, que fala do meu trabalho e faz uma análise do filme. Esse filme acabou tomando o status de cult entre algumas pessoas, e é citado como um dos 5 filmes mais importantes para se entender o trash nacional, título que ostento com muita honra.

Baiestorf: Gosto do senso de humor que você imprime nos teus filmes, como o público reage a ele?

Caetano: Normalmente assistir meus filmes com o público é muito divertido. A sala fica totalmente inquieta com os absurdos na tela. O mais engraçado é que as pessoas comentam durante o filme, riem, se assustam, ficam indignadas e em alguns casos até chocadas, é quase como ir a um circo, onde as pessoas se sentem à vontade para se divertir e jogar pipocas no palhaço.

Baiestorf: “Minha Esposa é um Zumbi” foi lançado comercialmente? Você acredita que filmes undergrounds possam ter carreira comercial em cinema e lançamento em DVD?

Caetano: No passado, fiz algumas tentativas com distribuidoras para lançamento de uma coletânea sem sucesso. Hoje acredito em um mercado paralelo, underground mesmo, criado pelos próprios realizadores. Temos que nos unir cada vez mais e fortificar nosso mercado, que é muito segmentado mas existe, só precisa ser explorado de uma forma mais profissional. É muito cedo para se falar numa indústria de filmes de gênero no Brasil, mas existe esse nicho de mercado que tem uma enorme carência de material e que deve ser alimentado, hoje podemos nos gabar de ter diversos produtores independentes que fazem filmes cada vez mais profissionais, sem precisar de apoio do governo, e que podem suprir a necessidade de demanda desses consumidores, o que falta é organização.

Baiestorf: Como surgiu a idéia para a produção de “Junho Sangrento” (2007)?

Caetano: “Junho Sangrento” era uma tentativa de fazer uma sessão dupla de filmes, com trailers falsos (tipo Grindhouse do Tarantino/Rodrigues, cineastas que também adoro), que infelizmente só funcionou pela metade. Escrevi dois roteiros, o “Junho Sangrento e o “Carne Mutante Zumbi do Espaço” e reuni uma galera para passar o fim de semana no sítio de um casal de amigos. Tinha umas 15 pessoas (foi a maior equipe que liderei), e todos trabalhavam por churrasco, cerveja e diversão. No primeiro dia, gravamos algumas cenas do “Carne Mutante” e ao cair da noite decidimos gravar o “Junho Sangrento” até o fim, pois se passava durante o período noturno. Gravamos tudo com sucesso, mas ao terminar, na hora de tomar banho para dormir, descobrimos que a água da região havia acabado, e isso aliado ao cansaço, minou todas as possibilidades de gravar o outro curta no domingo. No fim, editei o “Junho Sangrento”, e juntei a um trailer falso que a Mariana tinha gravado no começo da faculdade o “Jogando com Espíritos”, que nunca tinha sido editado.  Gravei também mais algumas cenas do “Carne Mutante Zumbi no Espaço” no chroma mesmo e fiz um trailer falso (que na minha opinião é a melhor coisa do filme), juntei tudo e o filme ficou pronto. É um filme meio picareta, mas acho divertido pela cara-de-pau desse que vos fala de ter lançado algo desse tipo!

Baiestorf: Rolou algum problema durante as filmagens do “Junho Sangrento”? Acho este curta bem confuso.

Caetano: O nosso problema foi a falta de água e a dificuldade de se filmar um curta com tanta gente em apenas uma tarde e uma noite. Por isso abdicamos de várias cenas e efeitos. Tudo foi gravado com muita pressa, felizmente deu pra montar no final, mas foi só isso mesmo.

Método de trabalho de Joel Caetano.

Baiestorf: E os trailers falsos que tem no “Junho Sangrento”, fale sobre a idéia de fazê-los. Algum pode virar um filme?

Caetano: Ainda tenho o roteiro de “Carne Mutante Zumbi do Espaço”, que quem sabe um dia, possa vir a filmar, só espero que faça jus ao trailer, que acho muito divertido.

Baiestorf: Algo que acho fantástico nos teus curtas é sua habilidade de filmar num único cenário, na maioria das vezes dentro de seu próprio apartamento, como foi com seus curtas “Gato” e “Estranha”, sobre os quais falaremos mais adiante. Como é isso de filmar, na maioria das vezes, num único cenário? É uma opção estética ou uma necessidade?

Caetano: Depende do caso! O “Minha Esposa é um zumbi” foi feito em casa por não haver outra alternativa, mas o “GATO” por exemplo, achei o apartamento ideal para a história, nem pensei em outro lugar. No caso do “ESTRANHA”, eu usei mesmo por conveniência, pois teria os atores convidados Kika Oliveira e Walderrama dos Santos por pouco tempo, então seria mais fácil, até porque eles estavam hospedados aqui em casa. Tenho diversos roteiros que se passam em outros locais, acho que devo aposentar meu apartamento, mas “nunca diga nunca”!

Baiestorf: Nos últimos anos você fez 3 filmaços como diretor/roteirista, fazendo um curta por ano. É importante para você realizar um filme por ano? Como é o planejamento dos teus filmes?

Caetano: Eu tento manter essa constância, até para não “enferrujar”! Normalmente tenho a idéia e  escrevo o roteiro num período de um mês. Depois me junto com a Mariana e fazemos a pré-produção e cronograma. Os filmes que fiz até hoje foram gravados rapidamente, nos fins de semana.  Normalmente começamos na sexta à noite e gravamos até domingo de madrugada (com devidas pausas para dormir, comer,  etc), gosto de deixar o dia de domingo livre para descanso, pois ninguém é de ferro! Terminada as gravações vou para a edição, esse processo pode demorar de um a seis meses, dependendo da minha disponibilidade e do filme em questão. Minha idéia agora é fazer os filmes com mais tempo e profissionalismo, graças a projeção de meus trabalhos, tenho a possibilidade de agregar mais pessoas à equipe, sem contar que a partir de agora, tenho a responsabilidade de me superar nas produções, e esse é um desafio muito interessante e inspirador.

O Assassinato da Mulher Mental.

Baiestorf: “O Assassinato da Mulher Mental” (2008) é um ótimo exemplo de como fazer um filme cheio de efeitos visuais com orçamento quase zero. Como é a concepção dos efeitos visuais dos teus filmes?

Caetano: Sempre achei que os efeitos especiais devem servir à narrativa e não o contrário, então, só os uso se há necessidade dramática na cena, não gosto de fazer histórias calcadas nos efeitos e sim o contrário. Na época da faculdade, estudei muito sobre isso, o título de minha monografia de conclusão de curso é “O uso dos efeitos especiais no cinema de Ficção Cinetífica” para você ter idéia. Para conseguir realizar tudo isso sem dinheiro é importante estudar bastante sobre o assunto. Existem alternativas simples que dão ótimos resultados se você tiver uma tela verde para colocar o ator na frente, é importante dominar a técnica, mas e mais importante ainda, entender conceito  e quando é o momento certo de se aplicar os efeitos especiais.

Baiestorf: “O Assassinato da Mulher Mental”  pode virar uma série? Como o público reage a ele? Pergunto isso levando em conta que o público deste tipo de filme, super-heróis, está acostumado com super-produções onde os efeitos visuais custam verdadeiras fortunas.

Caetano: Eu escrevi “O assassinato da Mulher Mental” inspirado em tudo que eu já havia visto em matéria de histórias em quadrinhos. Por ler muito esse tipo de material, sempre sonhei em ver super-heróis brasileiros, mas não aquelas paródias tipo “Casseta e Planeta”, algo menos imbecil ou ingênuo, que tivesse uma certa consistência, mas que também fosse divertido. Eu fiz esse filme pensando nessa minha carência e sabendo que outras pessoas, no Brasil também queriam ver algo do tipo. Não queria uma história convencional de heróis que salvam mocinhas de vilões maquiavélicos, por isso, criei personagens, que apesar de seus poderes e serviços a humanidade, são falhos e decadentes. O resultado foi bem interessante, nos eventos que exibi, percebi que é um filme que faz muito sucesso com as crianças (apesar de ter um ou dois palavrões) e que, quem gosta de quadrinhos, se diverte com as muitas referências que coloquei, desde as mais óbvias como a foto onde o Hiper-Homem segura uma Rural (emulando a capa da Action Comics número 1, onde o Superman aparece pela primeira vez) até as situações cômicas e diálogos rápidos como os da “Liga da Justiça Internacional”, que gosto muito. Tive várias críticas positivas, em uma delas, o filme era comparado ao “Watchmen” (cujo a HQ é uma das minhas referências para o filme) de Zack Snyder, me divirto com isso, acho que o filme cumpriu sua proposta de divertir e transportar quem assiste para esse universo cheio de reviravoltas, personagens que voltam da morte, heróis pomposos e vilões absurdos que permeiam as histórias em quadrinhos.

Baiestorf: Você trabalha como técnico de efeitos visuais se algum produtor te convidar? Como seria isso?

Caetano: Não tive essa proposta ainda, se rolar, vou analisar para ver se é algo que eu possa fazer. Se sim, trabalharia sem problema algum.

Baiestorf: Como um curta de orçamento baixíssimo deve ser planejado quando elaborado prá ter inúmeras cenas com efeitos visuais?

Caetano: Acho que você deve primeiro pensar em o que você é capaz de fazer bem. Estudar bastante a técnica e testar. Já ocorreu comigo de ter idéias que achei que poderia executar, mas no final, não deram certo. É muito frustrante. O seu filme deve ser do tamanho de sua capacidade, assim, você aprende a cada trabalho e vai aperfeiçoando com o tempo. Planejamento é uma das coisas mais importantes na hora de se realizar um efeito especial, mas deve-se estar seguro do que está fazendo, e essa segurança, só vem com muitos testes.

Baiestorf: Você e a Mariana realizam oficinas de vídeo, como são essas oficinas?

Caetano: Nós trabalhamos o conceito da idéia como principal instrumento de um filme, e que essa idéia, sendo um filme de baixo orçamento, deve ser desenvolvida a partir do que se tem em disponível, tanto de equipamentos quanto de pessoas. Vamos desde a concepção dessa idéia e roteiro, até a produção e finalização de um curta dentro desses preceitos. A última oficina que ministramos foi na “Mostra de Cinema de Bordas” esse ano, onde dividimos a sala em dois grupos que produziram um curta cada um. Foi uma grande proeza, visto que muita gente sai da faculdade de cinema sem produzir quase nada e esses grupos, usando os preceitos da produção independente, conseguiram finalizar dois filmes em apenas 3 dias, com qualidade técnica e narrativa muito interessante. O mais importante é abrir as portas da percepção das pessoas, de que é possível produzir com qualidade e baixo recurso, basta ter criatividade e saber usar o que se tem em mãos da melhor maneira possível.

Baiestorf: Como foi a criação do “Gato” (2009)?

Caetano: Bom, antes de contar como o filme foi criado, primeiro tenho que falar sobre o “gato” ou melhor gata que participou do filme, a Cindy Lauper Maria Mancini. Essa gata foi resgatada da rua por Mariana, minha esposa, no dia dos mortos (que coincidência não?), quando ela voltava do trabalho. A bichana havia sido atropelada ou espancada, não se sabe ao certo, e estava com uma pata totalmente comprometida, que arrastava ao andar. Ao decidir pega-la, Mariana me ligou perguntando o que eu achava, e como sempre fui muito apegado aos animais, concordei e apoiei sua nobre atitude. Desde o primeiro dia que vi a Cindy, sabia que íamos ficar com ela, e depois de semanas de tratamento (e uma pata amputada), ela se restabeleceu e vive conosco até hoje. Agora vocês me perguntam por que contei tudo isso antes de falar do filme não é? Bem, é que o filme “GATO” não existiria sem a Cindy. Eu trabalho em uma produtora como editor no período da manhã, e à tarde, trabalho em meus projetos artísticos, hora escrevendo roteiros, hora fazendo a pré-produção de um filme, hora vendo e revendo referências e por aí vai. Nessas tardes, depois que adotamos a Cindy, ela passou a me fazer companhia. Ela estava sempre presente onde eu estava, quando escrevia, quando via um filme ou lia um livro, quando ia no banheiro e tudo mais. Ela têm uma característica estranha, na verdade uma mania de ficar nos encarando por horas e horas, sem um motivo aparente, parece até que entende o que falamos, é muito estranho (inclusive quem vem aqui em casa sempre fica  meio espantado com essa mania dela). Tudo isso aliado ao fato de ela ter apenas 3 patas a torna uma gata especial. Dessas observações diárias comecei a pensar o quanto ela entendia o que eu estava pensando e dando asas a minha imaginação fértil, imaginei se por acaso, um dia, ela pudesse falar, o que acharia de mim? Pronto, surgiu o primeiro “estalo” da idéia. Decidi então escrever algo sobre isso, e fui criando primeiro o personagem do homem solitário que fala com o seu gato todos os dias, e que em um dado momento, ele ouve o animal responder. A princípio, era pra ter só os personagens do homem e o gato em sua forma animal, e a comunicação seria telepática, uma loucura só. Mas fui agregando elementos para rechear essa trama, a vizinha xereta, a mulher que o abandonou, a amante que ele traz pra casa e por fim, o gato humanóide, que ao meu ver, só funcionou muito bem por causa do ator, Luiz Carlos Batista, que por meio de sua impressionante interpretação,  deu vida a esse personagem. Depois de gravado, o filme foi para o festival de curta fantástico, o Cinefantasy  que aconteceu em 2009, agora em São Paulo. O festival cresceu muito e havia filmes de todo o mundo, com grandes orçamentos e histórias fantásticas em todos os sentidos, para minha surpresa, o filme “GATO” ganhou o júri popular daquele ano, fiquei muito impressionado com o resultado! A partir daí, o filme participou de 17 festivais, ganhando 5 prêmios nacionais e um internacional, o de Melhor Curta Metragem Latino-americano no Montevidéu Fantástico 2010. O filme ainda continua sendo exibido em  mostras  e festivais por aí. Moral da história, a Cindy pagou em dobro todo o carinho que tivemos por ela, pois se não a tivéssemos resgatado, esse filme, que hoje é o nosso maior sucesso, não teria sido realizado.

Baiestorf: A maquiagem da personagem do filme “Gato” foi criada por você? O que você utilizou para confeccioná-la?

Caetano: A maquiagem foi feita por mim sim. Sempre tive vontade de fazer esse tipo de maquiagem, mas achava meio distante, pois só via coisas assim em filmes de hollywood ou grandes produções. Foi então que assisti o filme “Mangue Negro” do Rodrigo Aragão. Vi que o cara fazia esse tipo de maquiagem aqui no Brasil, e que funcionava tão bem quanto as de fora. Comecei a pesquisar, e achei vários tutoriais na internet e fiz alguns testes. Como sou louco pela maquiagem do filme “O planeta dos Macacos” o primeiro teste que fiz foi uma máscara de símio, parecida com as do filme. O resultado não ficou muito satisfatório, mas percebi que com treino, poderia fazer melhor. Então, durante as gravações, eu fui fazendo a máscara, tirei o molde do rosto do ator, fiz um positivo de gesso, modelei a máscara do gato, fiz um negativo disso, usei látex para fazer a máscara, e depois finalizei colando pêlos (de um tecido sintético que comprei na 25 de março, uma rua de bugigangas aqui em São Paulo), para dar o toque final, colei piaçava (nem sei se á assim que se escreve) de vassoura para fazer os bigodes. Um processo totalmente artesanal, que finalizei com uma capuz peludo que cobria o resto da cabeça, e um chapéu de porco, que cortei o nariz e revesti as orelhas de pelo para parecerem de gato. O resultado foi o que todos viram na tela.

Baiestorf: Conte-me, por favor, como foi filmar com sua gatinha de verdade? Adoro felinos de todos os tipos, mas nunca tive paciência de filmar com os bichanos. Foi difícil?

Caetano: A Cindy, como disse, foi uma maravilha do começo ao fim. Tudo que fizemos com ela foi rápido, pois ela é muito esperta. Costumávamos gravar as cenas sem ela perceber e encaixamos tudo no filme de acordo com a necessidade. Cenas mais complexas como a da janela, usei um brinquedo que ela gosta escondido em minha mão, eu balançava e ela vinha naturalmente, gravamos essa cena em apenas 4 takes, com um pra garantir no final. A Cindy tem uma gratidão muito forte por nós, por isso ficou fácil fazer tudo, não forçamos ela à nada. Até a cena do banheiro, onde parece que o personagem principal está estrangulando o gato, foi tranqüilo, pra ela tudo não passou de mais uma brincadeira e em momento algum a forçamos ou machucamos de alguma forma, ela é nossa estrela!

Baiestorf: Teve um importante festival de cinema fantástico aqui no Sul do Brasil que se recusou a exibir “Gato”, dizendo que ele era uma produção amadora. O que você pode falar sobre este episódio?

Caetano: A seleção ou não em alguns festivais depende muito do critério de avaliação de cada um deles e eu respeito isso. Infelizmente não pude participar de alguns festivais, mas entrei em outros, que ao meu ver, conseguem entender a diferença entre um filme amador à um filme de baixo orçamento. Felizmente tive a oportunidade de exibir meus curtas em Porto Alegre, tanto o  “GATO” quanto a “ESTRANHA” em mostras como “A vingança dos Filmes B”, organizada pelo também cineasta (e companheiro de cena em “A noite do Chupacabras”) Cristian Verardi, e fico muito feliz por isso, pois o público teve a oportunidade de ver os filmes, e isso é o que importa no final. É normal não entrar em alguns festivais que normalmente achamos que seríamos aceitos, como é normal também entrar em outros que nem esperamos, não dá pra agradar todo mundo e nem espero que isso aconteça, por que senão ia ser um saco. O mais interessante é que essas barreiras de pré-conceito vêm sendo quebradas pois o filme “GATO” foi exibido em alguns festivais importantíssimos que não são sequer de de gênero, como o Festival de Curtas de BH e o Cine Amazônia, e o internacional Piriápolis de Película no Uruguai, isso é uma vitória não só para mim, mas para todos que fazem e curtem cinema de gênero no país.

Baiestorf: Acho que seus últimos curtas mereciam lançamento comercial. Você tentou  negociar com alguma distribuidora ou tem planos de lançar alguma coletânea de curtas de forma independente mesmo?

Caetano: Eu já tentei lançar os antigos, esses novos ainda não, mas pretendo futuramente fazer isso, seria muito bom poder ter um DVD oficial dos filmes, preciso começar a me organizar quanto a isso!

Baiestorf: E exibição em TV, já teve alguma proposta?

Caetano: Comecei a pensar nesse tipo de coisa mais recentemente e pretendo em breve, poder oferecer esse material tanto para emissoras de TV quanto para distribuidores.

Baiestorf: O que é o “Wonderlandigital”?

Caetano: Foi um curtinha que fiz com a Mariana num fim de semana que não tinha nada pra fazer, foi só pra testar a capacidade de uma filmadora que havia comprado na época.

Baiestorf: Percebo que após 2009 você aceitou vários trabalhos como ator, como é isso?

Caetano: Eu gosto de atuar, mas não pensava em fazer filmes de outras pessoas, já estava feliz em poder fazer meus próprios filmes. Foi então, que fui a um evento chamado CineTerror na Praia II, em Guarapari, Espírito Santo, onde estava passando uma retrospectiva da RZP, do “Minha Esposa é um Zumbi” até o “GATO”. Essa mostra foi organizada pela Fábulas Negras Produções, do diretor Rodrigo Aragão. Chegando lá fui muito bem recepcionado por todos e o Rodrigo, junto com a Mayra (atriz, produtora e esposa do Rodrigo), me disseram que tinham escrito um papel para mim no próximo filme, “A noite do Chupacabras”, fiquei surpreso e feliz, e mesmo sem ler e nem saber nada sobre o tal papel, aceitei na hora, primeiro por ter feito uma grande amizade por todos lá do Espírito Santo, depois, por admirar o filme “Mangue Negro”, que ao meu ver, é um divisor de águas no cinema de terror nacional.  Era uma grande oportunidade  de trabalhar e aprender com esse grupo muito talentoso de pessoas, lideradas pelo Rodrigo. O papel foi maior do que eu esperava, e aprendi e me diverti muito nesse processo todo, foi um sonho de infância realizado. Depois de participar de “A noite do Chupacabras”, recebi alguns convites, uns tive que recusar, por não ter tempo, ou não terem muito haver com meu perfil, e outros aceitei como a ponta no filme “O Tormento de Mathias” de Sandro Debiazzi, filme que gosto muito e tenho orgulho de ter participado e “Morte e Morte de Johnny Zombie” de Gabriel Carneiro, a quem respeito muito e acho um novo diretor que ainda vai dar o que falar, pois é muito profissional e talentoso.

Baiestorf: Como foi ser dirigido pelo Rodrigo Aragão, que, na minha opinião, é o mais significativo diretor de filmes de gênero surgido no Brasil nos últimos 20 anos. Como rolou o convite?

Caetano: O personagem Douglas Silva, foi um presente maravilhoso e interessante e que adorei interpretar. Trabalhar com o Rodrigo é muito bom, além de todo aspecto técnico, todos trabalhavam o tempo todo com o sorriso no rosto, por amarem o que estavam fazendo, é uma equipe muito apaixonada e apaixonante. O Rodrigo é um cara muito inteligente e focado no que está fazendo, e ele tem uma característica muito boa que é conseguir juntar bons profissionais com uma maneira de agir, caráter e determinação iguais a sua e isso facilita tudo. Conversamos muito sobre o personagem antes das gravações e a medida que íamos fazendo as cenas, ele ia apontando algumas modificações que queria, até um ponto que eu já estava totalmente imerso no universo criado por ele no filme e isso foi ótimo. Considero minha participação em “A noite do chupacabras” um grande aprendizado em todos os sentidos, pois pude acompanhar de perto e participar efetivamente de todo o processo (menos da finalização), desde atuar, até ajudar na produção, construção de cenário, máquina de fumaça (o pior trabalho desse set), ver o processo de maquiagem (onde aprendi muito também) entre outras coisas mais, para mim, foi tudo uma grande diversão. Quando atuava, me sentia como na infância, naqueles mundos que criava em minha cabeça, e isso só foi possível de ser realizado por causa desse maravilhoso convite, por isso agradeço muito ao Rodrigo Aragão e a toda sua equipe que me acolheu como um dos seus, hoje me considero um capixaba de coração.

Baiestorf: E sua participação nos filmes “O Tormento de Mathias” (2011) e “Morte e Morte de Johnny Zombie” (2011). Conte como foram as filmagens destas produções:

Caetano: Conheci o diretor Sandro Debiazzi, de “O tormento de Mathias”, em uma das edições da Mostra de Cinema de Bordas em São Paulo. Ele se apresentou, dizendo que tinha visto alguns de meus filmes e que tinha gostado, e que estava com uma idéia de escrever uma dissertação de mestrado falando sobre meu trabalho. Quando ele disse isso, achei que estava “tirando uma” com a minha cara, uma dissertação de mestrado sobre meu trabalho, só podia ser brincadeira (apesar de já terem escrito um capítulo no livro “Cinema de Bordas II, sobre o filme “Minha Esposa é um Zumbi”, vejam como boto fé em mim mesmo rs). Um belo dia, em uma conversa com outro grande diretor independente chamado Felipe M. Guerra, fiquei sabendo que o tal Sandro também o havia abordado, e que o negócio era sério. Logo depois, ele me mandou um e-mail, falando sobre a tal dissertação, e claro que prontamente atendi todas as suas solicitações, pois me senti muito honrado em ser objeto de estudo de um trabalho tão importante. Desde então, eu e Sandro fizemos uma boa amizade, ele terminou sua dissertação denominada “Que horror é esse”, onde analisou o meu trabalho cineasta, o do Felipe M. Guerra e o dele mesmo, sob o pseudônimo de Thitus André. Sobre isso, fiquei sabendo que Sandro vinha gravando um filme à mais ou menos 20 anos, chamado “O Tormento de Mathias”, e que estava com vontade de finalizar. Ele falou comigo sobre o assunto e disse que muita gente o havia persuadido a finalizar sua obra, e eu, fui um dos que incentivei também, alegando que esse tipo de coisa pode se tornar “a maldição da punheta eterna” (termo que roubei do Rodrigo Aragão), onde você nunca chega ao ápice final que é o gozo de se terminar um filme e jogá-lo na face do espectador! Sandro começou a filmar as partes que faltavam e chamou o Felipe M. Guerra para participar como ator, uma escolha totalmente apropriada, pois sua participação é impagável no filme. As cenas que foram gravadas em VHS no passado, serviriam de flash back, uma tirada genial do diretor. Com quase tudo gravado, Sandro decidiu me chamar para fazer uma pequena participação como ator da cena de abertura do filme. Não tinha como negar, participar de algo tão interessante quanto esse filme, que só pelo fato de ter sido filmado em 20 anos, já se torna cult. No filme, interpreto o Dr. Dantas, um médico que usa meios nada convencionais para controle de doentes mentais. Gravamos tudo numa noite, muito rapidamente, mas gostei bastante do resultado, o Sandro além de ter ótimas idéias e soluções para fazer filmes de baixo orçamento, é também um bom editor, o filme tem um ritmo ótimo. O Mathias já é um slasher clássico 100% nacional! Sobre “Morte e Morte de Johnny Zombie” é o seguinte. Também conheço o diretor Gabriel Carneiro de “outros carnavais”. Ele é jornalista, editor chefe da revista eletrônica Zingu e trabalha na Revista de Cinema. Em 2008, quando lancei o curta “O assassinato da Mulher Mental”, ele me entrevistou para a Revista Zingu, numa série de entrevistas que fez com vários diretores independentes (inclusive o Sr. Petter Baiestorf). Desde então, nos encontramos em eventos e ele já escreveu algumas vezes sobre meus curtas, sempre com textos muito bem escritos e bastante críticos de forma muito lúcida e analítica. Em algumas conversas, Gabriel me confidenciou que gostaria de trabalhar em alguma produção, mas que tinha dificuldades de conseguir algo. Eu pensei em chamá-lo algumas vezes, mas acabou não rolando por causa de agendas e outras coisas. Esse ano, fiquei sabendo que Gabriel estava fazendo teste de elenco para seu primeiro curta chamado “Morte e Morte de Johnny Zombie”, até pensei em ir fazer o teste, mas acabei deixando passar por falta de tempo e por achar que talvez não fosse um papel para mim. Foi então, que para minha surpresa, durante a “Mostra de Cinema de Bordas”, Gabriel e Adriana Câmara, sua assistente de direção (e também diretora premiada com o excelente curta “1:21”) me abordaram na fila do ingresso, ele portava em suas mãos um roteiro do curta e ao me entregar, disse que tentou fazer testes com outros atores, mas que o Johnny Zombie tinha que ser interpretado por mim! Não posso dizer o quanto fiquei feliz ao ouvir isso, e é claro que aceitei na hora. As gravações do curta foram extremamente profissionais, fizemos ensaios e durante as filmagens tinha até claquete (coisa que nunca usei nos meus curtas). Por fim, Gabriel se revelou um diretor que sabe o que quer, meticuloso e extremamente perfeccionista. Acredito que o resultado final (ainda não vi a edição final do curta) será um filme de zumbis muito diferente do convencional. Por fim, deu pra perceber que aceito trabalhos motivado pelo envolvimento pessoal e principalmente pela idéia do filme. Como já trabalho com produção de vídeo profissional e ganho a vida com isso, fazer cinema tem que ser divertido e inspirador, senão não faz sentido. Vi tanto nessas propostas, uma forma de aprender e de participar de uma experiência única, por isso aceitei os papéis.

Baiestorf: Teu último filme, “Estranha”, é bem mais violento que seus trabalhos anteriores. Teremos um Joel Caetano mais sangrento nas próximas produções?

Caetano: Tenho me divertido muito com esse negócio de sangue, mas é meio imprevisível. Sou um artista caótico, muitas vezes movido pelo impulso. Pode ser que eu faça uma comédia romântica ou até um western da próxima vez, tudo pode acontecer, mas com certeza, farei mais filmes com sangue, pois me divirto muito com isso.

Baiestorf: No curta “Estranha” você contou com a colaboração dos atores Walderrama dos Santos e Kika de Oliveira, dos filmes do Rodrigo Aragão. Como rolou isso?

Caetano: Ao fazer parte do elenco de “A noite do Chupacabras”, acabei passando muito tempo no Espírito Santo (uns 40 dias se contar tudo). Logo de cara, me apaixonei pelo lugar e pelas pessoas, posso dizer que fiz grande amigos naquele lugar, que espero levar para toda a vida. Kika e Walderrama são dois exemplos, adoro os dois como amigos, mas também são ótimos profissionais. No ano de 2010, eles decidiram vir para São Paulo para participar do Cinefantasy, um grande festival de cinema fantástico que ocorre aqui na cidade. Prontamente, os convidei para ficar em minha casa e eles aceitaram. Nesse meio tempo, voltei ao Espírito Santo para gravar mais cenas do longa do Aragão, e em conversas com a Kika, ela manifestou a vontade de filmar algo com a Recurso Zero, eu é claro, adorei a idéia. Quando voltei para São Paulo, comecei a escrever o roteiro, queria algo simples, que pudesse ser gravado em apenas um ou dois dias,  com equipe reduzida. Tive então a idéia de fazer um filme só com mulheres (para aproveitar a Kika e a Mariana), que fosse bem violento e com um certo apelo sensual. Nasceu então a idéia do curta “ESTRANHA”, e quando eles vieram pra cá, gravamos tudo somente em quatro pessoas, eu dirigi e fiz câmera, fotografia, maquiagem de efeitos e direção de arte, a Mariana Zani atuou, fez maquiagem, figurino e produção, a Kika atuou e fez produção e o Walderrama (só avisei que ele tinha um papel quando estava aqui), fez microfone e atuou. Foi tudo muito divertido, e apesar de ter sido feito rapidamente (foi gravado em 2 noites e 1 dia), gostei muito do resultado final do curta.

Baiestorf: E a recepção do público com o “Estranha”?

Caetano: Está sendo muito bom. Já vi algumas vezes com o público, e são reações diferentes dos meus outros curtas que são mais engraçados. Vejo pessoas rindo de nervoso e algumas se contorcendo em algumas cenas, e por fim, o silêncio total. Sinto que o filme causa um certo estranhamento no público, que fica sem saber o que dizer nos primeiros minutos após seu término, é muito interessante. Do ponto de vista da crítica, vem sendo bem aceito, inclusive acabamos de ganhar o prêmio de Melhor Curta Profissional no ESPANTOMANIA II pelo júri técnico, é o primeiro prêmio do curta. Enviei o filme para alguns festivais que ainda estão rolando, ainda não sei totalmente qual a recepção do filme, só o tempo dirá.

Baiestorf: “Estranha” está com uma ótima qualidade de imagem, que equipamentos tu está utilizando para produzir teus filmes?

Caetano: Estou usando uma câmera DSLR, a T2I 550d. A vantagem dessas câmeras é que se pode gravar com qualidade HD e estética de cinema, por causa da possibilidade de se trocar as lentes, é uma maravilha. No mais, tento trabalhar bem a parte de fotografia, sendo bem criterioso na iluminação das cenas. Uma coisa que preciso citar que fez uma enorme diferença na finalização desse curta é a trilha, que foi feita exclusivamente para o filme pelo artista Tiago Fernando Galvão, que desenhou de forma marcante curva dramáticas e de tensão, levando ao tema do filme ao extremo de forma delicada e muito sensível, entendendo profundamente a proposta do filme.

Baiestorf: O que você pode adiantar sobre teus projetos futuros?

Caetano: Estou fazendo alguns testes com Stop Motion e tenho alguns roteiros que pretendo filmar. Eu pretendia começar a produção de um longa ainda esse ano, mas por problemas pessoais tive que adiar. Nesse momento estou na produção de um curta de um diretor amigo meu, chamado Tiago Fernando Galvão (que fez a trilha de “ESTRANHA”), ajudei ele a escrever o roteiro e estou auxiliando na concepção geral do curta, que terá uma produção muito interessante. Fui também convidado pelo Felipe M. Guerra para participar de seu novo curta, e pretendo filmar um curta também até o final de 2011.

Baiestorf: Como os interessados podem adquirir teus filmes?

Caetano: Ainda não estou vendendo, mas estou preparando alguns DVDS com material inédito para lançar entre o final desse ano ou começo do próximo! Assim que tiver novidades sobre isso lhe aviso, para que possa postar em seu blog!

Baiestorf: Que dicas Joel Caetano deixa para os novatos que queiram começar a produzir filmes?

Caetano: Façam seus filmes acima de qualquer coisa! Acreditem nas suas idéias, pois só assim podem convencer os outros. Não se prendam ao equipamento, eles são só ferramentas, vocês devem usá-los para contar uma boa história, não depender deles. No mais, se divirtam na hora de fazer o filme, isso já é meio caminho andado para seu sucesso.

RZP and Troma.

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