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Literato Cantabile: Pílulas

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 10, 2012 by canibuk

Pílulas do tipo deixa-o-pau-rolar.

na mesma base: deixa.

.

Primeiro passo é tomar conta do espaço.

Tem espaço a bessa e só

você sabe o que pode fazer do seu.

Antes ocupe. Depois se vire.

.

Não se esqueça de que você está

cercado, olhe em volta e dê um rolê.

Cuidado com as imitações.

.

Imagine o verão em chamas e fique

sabendo que é por isso mesmo.

A hora do crime precede a hora da

vingança, e o espetáculo continua.

cada um na sua, silêncio.

.

Acredite na realidade e procure

as brechas que ela sempre deixa.

Leia o jornal, não tenha medo de

mim, fique sabendo: drenagem, dragas

e tratores pelo pântano. Acredite.

.

Poesia. Acredite na poesia e viva.

E viva ela. Morra por ela se você

se liga, mas por favor, não traia.

O poeta que trai sua poesia é um

infeliz completo e morto.

Resista, criatura.

.

Sínteses. Painéis. Afrescos. Repor-

tagens. Sínteses. Poesia. Posições.

Planos gerais. “O Close-up é uma

questão de amor”. Amor.

.

Eu, pessoalmente, acredito em

Vampiros. O beijo frio, os dentes

quentes, um gosto de mel.

Poesia de Torquato Neto.

Torquato Pereira de Araújo Neto nasceu em Teresina/PI em 1944. Na década de 1960 mudou-se para o Rio de Janeiro/RJ dedicando-se ao curso de jornalismo. Em 1971 estrelou “Nosferatu no Brasil” de Ivan Cardoso, fazendo o papel de um hilário vampiro que andava de dia pelas praias cariocas. Se suicidou no ano seguinte deixando o bilhete que dizia: “Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar”.

Screwjack

Posted in Literatura with tags , , , , , , , on abril 27, 2012 by canibuk

Acabo de ganhar a companhia do rico e famoso sr. Screwjack, que acabou com o que restava do atum, me fez uma daquelas carícias no queixo e depois tentou me persuadir a sair com ele, mas me recusei… então deu de ombros e saiu sozinho, rumo à aurora gélida e nublada.

Seria melhor se tivesse ficado comigo aqui dentro – nós dois enroscados no sofá, assistindo à Oprah Winfrey na TV… Eu percebia aquilo em seus olhos frios e amarelados. Era uma espécie melancólica de anseio por um amor que precisava esperar sua hora ou que talvez nunca viesse a se concretizar…

Suas lamúrias me enlouqueciam enquanto eu o carregava no colo até a porta da frente. Pouco antes de arremessar sua carcaça negra e desprezível sobre a fina camada de neve que se acumulava na varanda desde a meia-noite, ergui-o até que ficasse de frente para meu rosto e dei-lhe um profundo beijo na boca. Forcei minha língua entre seus caninos pontiagudos e rolei-a pelos sulcos do céu da boca. Agarrei seus ombros fortes e jovens e o trouxe mais perto de mim. Ele ronronava tão alto e tão forte que nós dois começamos a tremer.

“Ha, doce Screwjack”, sussurei. “Estamos perdidos. Mama se mandou para a escola de Corretores Imobiliários. De lá vai para o El Centro e depois talvez acabe indo parar na Daculdade de Direito. Nunca mais a veremos.”

Ele me encarou sem dizer nada. Então, se contorceu até escapar de minhas mãos e caiu no chão… Sumiu de repente, sem ruído algum, como se fosse uma espécie de fantasma de meu outro mundo… enquanto seu vulto negro e imundo saltava para longe em meio à pilha de lenha e através do túnel obscuro entre o abeto azulado e a grade fria e prateada do radiador do Volvo, tive a certeza de que nunca mais o veria.

Não o veria por pelo menos seis anos, e provavelmente nem depois. Quando nos encontrássemos novamente ele pesaria 90 kg, me viraria de bruços e me foderia por trás como se fosse uma pantera.

Seria meu animal e meu comedor, meu perfeito amante onírico, como aquele fantasma que devo esquecer… e a bela e delicada tatuagem que custará US$ 1.500 para ser retirada a laser do meu ombro.

Senhor, perdoa-me por amar este animal de tal forma, e por desejá-lo dentro de mim com tamanha intensidade, a ponto de ansiar pela ocasião em que o sentirei roçar a delicada pele vermelha de meu coração… e por desejar deitar ao seu lado e dormir como um bebê, nossos corpos enroscados compartilhando o mesmo sonho selvagem.

Sou culpado, Senhor, mas também sou um amante – e sou um de seus melhores filhos, como sabes. E, sim, embora eu tenha caminhado em meio a diversas sombras estranhas e agido como louco de vez em quando, e até mesmo babado sobre muitos Sumos-Sacerdotes, nunca o constrangi… sendo assim, deixe-me em paz, seu desgraçado, e faça o sr. Screwjack voltar para mim. Se os outros tiverem alguma dúvida ou quiserem fazer algum comentário depreciativo, mande-os comer merda até morrer.

Quem dentre eles é puro o bastante para atirar a primeira pedra? Ou para me encarar com olhos remelentos e acusadores, afirmando que errei ao me apaixonar por um enorme gato preto?

Esquece, Senhor. Deixa comigo. Só peço que mantenha os advogados a uma boa distância de mim, e faça o mesmo com os puritanos… e deixe-nos a sós para que possamos fazer bebês.

escrito por Hunter S. Thompson (do livro “Screwjack”, editora Conrad, 2005).