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A Noiva do Turvo

Posted in Cinema, Entrevista, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 9, 2018 by canibuk

A Noiva do Turvo é um curta-metragem produzido no início de 2018 utilizando-se de um celular enquanto festejávamos a passagem de ano. Orçamento zero para contar uma lenda do rio Turvo que, meses antes, Loures Jahnke e sua filha Isabela haviam resgatado para um trabalho escolar que virou um fanzine de contos. Você pode ler o conto A Noiva do Turvo clicando no coletivo literário Maldohorror.

Segue relato dos envolvidos nas gravações:

Petter Baiestorf: O curta A Noiva do Turvo, escrito e dirigido por Loures Jahnke e filmado com seus filhos: Lorenzo de cinco, Isabela de dez, Vinicius de doze e Morgana de vinte anos. Loures, Elisiane Rodrigues, Carli Bortolanza e eu nos divertimos muito durante essa experiência fantasmagórica sessão livre onde respeitamos o ritmo de trabalho das crianças. Não quer dizer que eu vá produzir filmes em celulares, mas abrem-se algumas possibilidades com este formato, principalmente com suas câmeras de alta definição.

Lorenzo, 5 anos, assistente de direção

Loures Jahnke: Exatamente um ano depois da filmagem de Ándale!, na virada de 2017 para 2018, Baiestorf e Bortolanza voltaram para o Baixo Azul, trazendo na bagagem mais de 300 latas de cerveja – sim, eles sempre são exagerados. Não tinham o Toniolli, nem o Élio e nem a filmadora, mas Baiestorf estava com um celular com câmera bacana. Alguns meses antes dessa visita, ajudei minha filha Isabela em um trabalho escolar sobre mitos e lendas locais, o que resultou em um pequeno conto que publiquei no Maldohorror. Eu tinha o argumento e 4 filhos; Peter tinha um celular e o Bortolanza. O produto? A Noiva do Turvo.

Morgana, A Noiva do Turvo

Carli Bortolanza: Loures nos apresentou um texto que ele havia ajudado uma das filhas a escrever para um trabalho escolar que virou um livro coletivo dos alunos que estudavam na mesma sala de aula da filha dele. Sugerindo “Nós podíamos filmar este texto da Isabela, não?”. E “de balde”, por que não? E o primeiro impacto após termos lido o texto foi, “Como não tem câmera, vamos filmar pelo celular!”, única opção e sem nenhuma objeção. A iluminação foi outro empecilho, mas Loures comentou que um vizinho tinha uma bateria com uma lâmpada que fora improvisado para ser usado como uma mochila nas costas, com direito a alças e tudo. A escolha de quem faria o pescador também foi engraçada: Pedi para ser escolhido, pois estava com um pouco de frio e ai ficaria com a roupa manga longa e não precisaria ficar carregando o peso da bateria.

Teste de iluminação durante as gravações com Carli sendo abduzido

E. B. Toniolli: A história é linda, pulsante e real. O Loures mostrou-se um bom diretor, mas que não chega aos pés do Loures escritor, que é formidável.

Loures Jahnke: Filmar A Noiva foi uma das coisas mais divertidas que já fiz. Meus filhos foram batizados na Canibal Filmes – não com groselha, mas com o “espírito da coisa” -, todos riram muito, sofreram – principalmente Morgana e Isabela – e se encantaram. Até a Elisiane, minha companheira, diz que se divertiu muito sendo a produtora do filme – ela pagou um pote de minâncora e um lápis de olho, total de custos.

Carli Bortolanza: Uma coisa que ficou bem marcante foi a empolgação das crianças em participar!

Petter Baiestorf: Para A Noiva não tínhamos uma câmera, somente meu celular. Como eu havia acabado de filmar Beck 137 em Goiânia, GO, com ele, sabia que dava pra fazer algo minimamente bacana. Também deu pra testar o uso de iluminação mínima em espaços abertos – boa parte do curta foi filmado numa plantação de soja que invadimos. De certo modo o uso da iluminação foi uma continuidade do que havia pensado para A Cor que Caiu do Espaço.

Loures Jahnke: Já tinha visto alguns trabalhos feitos com celular, mas A Noiva do Turvo foi para muito além das expectativas, considerando que a maioria das cenas foram noturnas, que a iluminação foi feita com um troço adaptado para caçar lebres tomado emprestado de um vizinho, que os áudios da narração e da trilha sonora  – brilhantemente composta pelo Vinicius, de 12 anos – foram todos gravados em celular e que o Bortolanza passou uma tarde toda catando lenha pra assar carne.

A Noiva se preparando para entrar em cena

Elio Copini: Quanto A Noiva, não participei das filmagens, assisti e gostei muito dele. Despertou uma inveja por não estar lá também.

Loures Jahnke: Toniolli acho que também se divertiu muito, um tempo depois, comigo e com o Baiestorf na casa dele num final de semana inteiro durante a edição do Noiva.

E. B. Toniolli: A Noiva do Turvo já chegou em minhas mãos filmado e só faltando a edição. Dessa vez tínhamos o Loures Jahnke como diretor e ele é uma pessoa muito inteligente, que sabe o que quer e sabe valorizar o trabalho em equipe, deixando todos participarem do processo de maneira ativa. Assim considero esse curta mais coletivo do que as obras naturais da Canibal Filmes, que são a visão do Baiestorf, basicamente.

Morgana e Carli em A Noiva do Turvo

Loures Jahnke: A Noiva do Turvo é quase um filme infantil, inocente, mas que explora um universo cultural muito vasto que são os causos, os mitos e lendas que preenchem o imaginário – e a vida! – das populações camponesas sertões afora.

E. B. Toniolli: Fiquei muito contente em editar o material filmado com celular. Considero que o cinema feito de celular é a evolução natural do processo: Não estamos reféns dos grandes estúdios, das câmeras caras e dos “profissionais” da arte. Cinema é para todos, não para uma elite intelectual que trata a todos como gado intelectual, onde quem não comunga de sua maneira bitolada de ver o mundo, é excluído.

fotos e entrevistas para o post por Petter Baiestorf.

Assista ao curta-metragem aqui:

Maldohorror – O Coletivo do Pavor

Posted in Entrevista, Literatura with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on setembro 17, 2018 by canibuk

Maldohorror é um coletivo de escritores do gênero fantástico que foi criado em 2016 pela dupla E.B. Toniolli e Carli Bortolanza, habituais colaboradores na Canibal Filmes.

O coletivo conta com quase 50 colaboradores fixos, postando uma obra inédita em seu site a cada dois dias. Em tempos tão individualistas como se tornou o mundo pós-redes sociais, dá gosto ver um trabalho coletivo de apoio mútuo como este. Para falar mais sobre o coletivo, entrevistamos a dupla de idealizadores do projeto.

Para conhecer o coletivo Maldohorror, clique na figura abaixo:

Canibuk: Conte como surgiu o Maldohorror.

E.B. Toniolli: O Maldohorror surgiu da necessidade de termos um lugar onde divulgar nossos contos e poesias e fazer experimentações. Por nós, entenda-se por mim, Peter Baiestorf e Carli Bortolanza, amigos de longa data e parceiros em produções cinematográficas. Pensamos num formato diferente, onde publicaríamos 1 obra por dia, sempre a meia-noite. A idéia é atrair outros escritores e assim criando uma comunidade, um coletivo, onde os escritores se apóiam e dessa união esperasse o surgimento de livros, e-books e produtos diversos.

Carli Bortolanza: Estava estudando numa cidade vizinha e ia uma vez por semana de ônibus pra lá, e como o Toniolli mora perto da rodoviária, passava lá e ficávamos umas 4 horas jogando conversa fora, jantávamos e ai depois pegava o ônibus, e nessas conversas, o Toniolli veio um dia com uma a idéia de criar um site para publicar nossos escritos, não lembro bem qual era o nome, mas fomos conversando daqui e dali e nisso surgiu o título Maldohorror, em homenagem ao Isidore Ducasse. Fomos conversar com o Baiestorf que também “comprou” a idéia e ai surgiu o coletivo, mas no começo éramos só em três, e todo dia um texto estava no ar, ai convida daqui e dali, e começa a surgiu o quarto, o quinto, dando um alívio, pois foi uma tarefa árdua, manter todos os dias um texto no ar em poucos escritores.

Canibuk: O que é o Maldohorror? Qual o objetivo com este coletivo literário?

Toniolli: Maldohorror é inspirado no célebre personagem Maldoror, do excelente escritor, Isidore Ducasse, vulgo Conde de Lautréamont (escritor maldito uruguaio/francês no final do século XIX). A idéia foi fazer um trocadilho e aproveitar e inserir o termo Horror, que muito define e identifica os 3 primeiros membros do coletivo e, também, norteia a maioria dos escritores que fazem parte. Maldohorror nasceu com o objetivo principal de apoiar escritores, desde iniciantes até profissionais, desde poetas líricos até desvairados sexuais e dessa mistura emergir um cenário rico para nossos leitores.

Bortolanza: De início, acho que era a pra termos onde mostrar nossos trabalhos, mas não só nós, nós enquanto pessoas que escrevem e não tem onde publicar, e com o site, buscar encontrar essas pessoas como nós que temos muitos textos nas gavetas de casa e unirmos para demonstrar que mesmo no mundo dos sonhos, ninguém está sozinho.

Canibuk: Como fazer parte do coletivo?

Bortolanza: É muito fácil, basta escrever sobre fantasia ou textos malditos, que criticam as religiões, as políticas e esse sistema pobre em que vivemos. Com pelo menos 5 textos nesse estilo, encaminhar para o e-mail contato@maldohorror.com.br e alguém do grupo vai receber e encaminhar para um dos membros que é responsável pelas novas aprovações.

Toniolli: Temos uma comissão, que troca de tempos em tempos, que analisa as obras e aprova a entrada ou responde com críticas positivas para a melhoria das obras. Temos uma posição forte contra qualquer tipo de racismo, sexismo, etc, por que consideramos que a cultura serve pra unir e construir uma sociedade melhor

Canibuk: Como funciona o site? As obras inéditas são lançadas de quanto em quanto tempo?

Toniolli: Hoje, as publicações no Maldohorror são feitas de 2 em 2 dias, através de ciclos. Por ciclo entenda-se repassar todas as obras de nossos autores em ordem alfabética inversa. Os autores enviam suas obras para o editor, atualmente o Carli Bortolanza, que analisa e repassa para uma equipe de revisores. Em seguidas as obras são enviadas para a equipe de publicação, que faz a postagem no site e a divulgação nas redes sociais. Dessa forma vamos executando as atividades de forma coletiva, que é a essência do Maldohorror.

Bortolanza: No começo do site era lançados um texto por dia, todos os dias, embora tenhamos muitos escritores hoje, os textos estão sendo lançados a cada dois dias, para que cada um dos autores possa escrever com mais calma e cada vez melhor e também ter um tempo maior para estar divulgando.

para ler o conto coletivo, basta clicar na imagem abaixo:

Canibuk: Maldohorror funciona como um laboratório aos escritores?

Toniolli: Na minha maneira de ver, sim! Todos os envolvidos estão ligados a arte e arte é experimentação e nada melhor do que uma ferramenta online para testar e já receber feedbacks.

Bortolanza: Alguns escritores já são profissionais, digo, escrevem muito bem e muito, com livros publicados. Mas também tem autores que suas primeiras publicações foram no Maldohorror, e que nesse convívio de escritores, nos grupos sociais, estão se aperfeiçoando, pois no coletivo, um ajuda o outro e não só na escrita, mas também em parcerias. Tive participação em duas coletânea , uma de poesias “Sociedade dos poetas vivos” e outra de contos “O Mundo fantástico de R.F. Lucchetti” lançado esse ano na Bienal em SP, pela editora Coerência, organizado pela Camila, que está no grupo  e me convidou. Outras pessoas do grupo também foram convidadas, assim como surge convite para outras participações aqui e ali, pra esse ou pra aquele participante do grupo. Uma forma de “quem é visto é lembrado”. Também alguns que acabaram se conhecendo pessoalmente.

Canibuk: Quais os e-books lançados pelo Maldohorror e como comprar?

Bortolanza: Lançamos três até agora, um de contos e um de poesias que foram publicados no site, e um terceiro com obras inéditas, sobre final de ano e que esses dias inclusive, em comemoração aos 2 anos do lançamento do site, disponibilizamos os 3 de forma gratuita. Mas podem acessar: Entrando no site da amazona: https://www.amazon.com.br/ só digitar Maldohorror que aparecerá os 03 livros, a 1,99 cada.

Canibuk: E o livro físico? Planos?

Toniolli: Pra 2019 estará saindo o livro físico. Está sob organização de Petter Baiestorf e vai ser lançado em março de 2019. Estamos na fase de seleção do pessoal, orçamentos, etc…

Bortolanza: Desde o início, a idéia era publicar um livro físico por ano, e em cada espelho do livro uma letra do Maldohorror, para que quando o projeto termina-se (projeto inicial é de 11 anos) teríamos 11 livros na estante e que pudéssemos ler a palavra inteira. Mas as mudanças são necessárias e até pelo fato de sempre estarmos em movimento, e não sermos uma coisa fechada. A idéia é publicar o primeiro livro físico no primeiro semestre do ano que vem, e depois pensaremos, como será feito os demais, mas certamente não será só um. Inclusive pessoalmente estou pensando daqui a 9 anos, fazer um meu, com todos os meus textos publicados no site, em ordem de publicação (já tenho esse controle e que até agora, foram 62 textos publicados) como uma forma de registrar fisicamente o projeto.

Canibuk: Como tem sido a recepção do público para com o coletivo?

Toniolli: Temos uma recepção boa com o público. Não temos a intenção de provocar uma nova onda transformadora da cultura brasileira, mas sim servir de canal para a divulgação das obras dos autores. Como a totalidade de nossos escritores escrevem temáticas malditas ou fantásticas, temos um público bastante fiel, apesar de restrito.

Bortolanza: A primeira maravilha é que estamos espalhados por quase todo o Brasil, e talvez o que falta é compartilharmos essas receptividades entre o grupo, comigo, está sendo muito bom, uns me mandam e-mail, mensagens pelo watts, me encontram e me pedem, como “inventam isso”, ou “me deu nojo” “não dormi a noite”. Assim como já fui também convidado pra falar do Maldohorror em sala de aula na universidade, em evento do Sesc (grande parceiro da artes independentes em Chapecó – SC). No trabalho volta e meia um colega diz, “Hó, o cara do bebê que sobe em árvore!”, referindo-se ao texto “Assim Nasce o Cantos dos Tubarões de Ducasse“.

Canibuk: Que observações gostariam de fazer sobre o cenário da literatura fantástica no Brasil?

Toniolli: Nossa barreira inicial é a concorrência com grandes nomes da literatura brasileira e mundial. É o mesmo que acontece com a música: bandas novas concorrem com nomes já consagrados. Mas esse é o cenário é a persistência sempre dá resultados.

Bortolanza: Ao mesmo tempo em que vejo uma expansão, vejo também uma “limitação”. Muitos, embora tenham um ótimo domínio da escrita, parece que falta criatividade para escrever, li algumas coletâneas e é um e outro texto que se destaca, na grande maioria, se descobre todo o enredo já no começo. Teve um em especial, que achei que era o mesmo texto escrito por vários autores, sem nada de novo, parodiando, sexta feira 13 parte 01, 02, 03… Acho que o que falta é o transbordar, viajar, pegar uma bacia com letras e espalhar no ventilador. E pela qualidade dos escritores, sei que todos podem colocar uma nave espacial no meio do nada ou um mostro que se tele transporta e entra em cena surpreendendo o leitor.

Se você está gostando dessa entrevista, entre na página do Maldohorror no facebook e acompanhe as novidades:

Canibuk: É possível um autor seguir carreira literária no Brasil de hoje?

Toniolli: Sim. Com persistência, investimento e, principalmente, obras com identidade e criatividade. Ajuda muito se a pessoa for comunicativa e, novamente, persistente.

Bortolanza: Seguir sim, afinal há muitos espaços para expor os trabalhos, porém se manter financeiramente eu acredito que ainda não há possibilidades, mas está no caminho certo.

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Canibuk: Quem são os autores do coletivo? Gostaria de destacar alguns trabalhos solos de membros do grupo para que os leitores do Canibuk pudessem correr atrás?

Bortolanza: Pra fãs de filmes, tem 06 escritores, além do próprio Baiestorf, que já trabalharam em algum momento nas produções da Canibal Filmes, Eu, E.B. Toniolli, Loures Jahnke, Leomar Waslawick, Alan Cassol e César Souza (espero não ter esquecido alguém). E acredito que muitos outros não estão só ligados a literatura, mas em outras áreas culturais, música, dança… Gostaria de deixar evidenciado, apenas que o conjunto da obra é maravilhoso, se acompanhar o site, dois meses apenas, se enxaguará com textos bons, uns maravilhosos, outros surpreendentes, outros que te deixaram perdidos, outros tão corriqueiros que fará você, ao passar pelas ruas, se deparar com cenas parecidas e lembra-se do desfeche que o autor criou, outras ainda tão cruéis/ perturbadoras que gostaria de não ter lido ou lhe deixá-los-á com brilhos nos olhos de felicidades.

Toniolli: Não gostaria de citar nenhum autor especificamente por que temos quase 50 escritores e todos tem uma maneira de escrever, temáticas próprias. Temos escritores em níveis diferentes: alguns mais viscerais, com uma escrita coloquial e outros estudiosos da língua e que a tratam uma argila a ser moldada. Acho que cada escritor merece uma lida com atenção.

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Canibuk: Qual a importância do Maldohorror dentro do cenário literário nacional?

Bortolanza: Acredito que seja uma porta de entrada e uma maneira de estar no meio de escritores e poder respirar literatura. Também uma maneira de poder crescer na arte de escrever e trocar experiências e amadurecer cada vez mais, evitando os erros que outrem já realizaram.

Toniolli: Eu vejo o Maldohorror como um coletivo de fomento de obras e de experimentações. Nosso editor está sempre cobrando novas obras dos autores e isso acaba incentivando a produção. Fizemos alguns testes com obras compostas coletivamente e esses experimentos são uma oportunidade ímpar de aprendizado e interação. Vale salientar que temos uma comunidade ativa, conversamos, trocamos idéias, fomentamos outros projetos solos dos autores, divulgação de música, cinema e dessa forma vamos criando um cenário e propenso a ebulição de novos projetos.

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Canibuk: Considerações finais:

Toniolli: Obrigado pelo espaço. Fico muito feliz pelo apoio que você dá pras ações e projetos undergound e é disso que precisamos: união. Separados somos fracos e podemos fazer poucos, mas unidos em prol de uma ideal em comum podemos alcançar resultados extraordinário. E é muito legal acessar o site e ver que em 2 anos temos mais de 800 obras pros nossos leitores curtirem. E tem muita coisa que vai surpreender aos leitores do Canibuk. Estamos de página abertas esperando vocês.

Bortolanza: Tem muitos textos que é só adaptar e o roteiro de um filme está pronto, ou um novo enredo nos holofotes do palco teatral ou na sinfonia das guitarras e dos contra baixos.

Clique na imagem abaixo e vá para o Maldohorror:

Snuff – Vítimas do Prazer

Posted in Cinema, Literatura with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on janeiro 26, 2017 by canibuk

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I – A Ideia

A linda moça banha-se alegremente no lago perdido na natureza, extasiando-se.

Do “triller” estacionado à beira da água, sai um rapaz, provavelmente seu companheiro de passeio, descascando uma laranja, aparentemente tranquilo.

A moça, da água, convida-o, brejeira, para partilhar. Ele solta a fruta, coloca a faca entre os dentes, como um Tarzan, e mergulha a seu encontro.

Felizes, riem.

Ele, com a faca.

Como numa brincadeira, a Lâmina da arma corta a alça do sutiã do biquini, fazendo saltar dois lindos e insinuantes seios.

Estranheza.

Uma transfiguração corre a expressão do moço. Tara?

A moça parece não entender. Procura fugir da água e do companheiro.

Perseguição.

Alcança.

Inicia-se uma tentativa de estupro.

A faca.

Ela grita para ser acudida. Não ouve eco.

Lábios e língua do rapaz correm desesperados pelos seios e corpo da moça, em resfôlegos.

A expressão dela diz que nunca antes tinha visto seu companheiro agir daquela forma. Desespero grande.

A expressão dele diz que não tem intenções de se acalmar. Os olhos fulminam, e a boca baba, excitada.

A faca.

As forças da menina querem ceder, mas não podem. Não podem… não podem… não podem…

Ele já a tem sob completo domínio.

A faca da laranja, ergue-se na mão do homem, e desce, implacável, ferindo um dos lindos e insinuantes seios da infeliz.

Um grito louco de dor, e a expressão de pavor.

As dores do ferimento são muitas. Insuportáveis.

Novo pedido de ajuda, agora só com os olhos. Forças faltam para a fala.

Novo golpe fez alongar a mancha de sangue que cobre o corpo feminino. Os olhos estalados,a  boca agora inerte, os últimos suspiros.

Doz rapaz. o estranho rir de quem está possuído.

Num estertor, a moça desfalece definitivamente.

Morre.

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Michael caminha vagarosamente e desliga o projetor de filmes em 16mm, depois de ver correr na tela a palavra “the end”.

No outro canto da sala, visivelmente deprimido com o que acaba de ver, Bob, em silêncio. Respira e força um sorriso.

“Incrível! Nunca vi tanto realismo! Confesso que a cena me tocou as estruturas! Acho que nunca vi uma morte tão bem feita, em cinema!”

Michael, voltando o filme para o carretel que projetara.

“Então, gostou…pois vamos repetir essa cena no nosso trabalho…”

“Vamos precisar escolher a dedo, uma atriz!”

“Engano seu, meu caro Bob… Qualquer garota pode interpretar tão bem quanto esta que vimos. Aliás, nem esta era atriz…”

“Não?… Então, como? !…”

“Simples, amigo: a cena foi real. Ela morreu mesmo!”

Bob engoliu em seco. Conhecia muito bem o colega e sabia quando ele brincava e quando falava sério. Dificilmente se enganava. Seus olhos arregalaram, temerosos.

“Quer dizer que isto que vimos aconteceu de verdade?”

“Lógico!”

“E que no filme que vamos fazer, haverá uma cena como esta?… ou seja… alguém vai morrer de verdade?”

“Muito feliz, a sua dedução!”

Bob saltou da cadeira, automaticamente. Chegou-se à Michael, não querendo acreditar no que ouvia.

“Você está louco rapaz?”

“São ordens de Mr. Lorne…”

De verdade, Bob sentia vontade de esganar o cinismo do amigo. Mas era sensato, e sabia que uma ordem de Mr. Lorne não era para ser discutida, e sim cumprida. Mas queria se convencer de que aquilo era uma das raras brincadeiras de Michael. Uma interpretação muito bem feita.

A possibilidade era remota, mas tentou uma investigação:

“Onde é que você arranjou esta droga?”

“Isso eu não sei. Mas, se quer algumas informações, aqui vão: a intenção dos produtores disso aí que você viu, era filmar um estupro real, pra valer. Para isso, como sempre contrataram uma equipe mínima, e o ator arrumou uma virgem, uma menina com pretensões de fazer carreira em cinema. A cena foi ensaiada de uma forma, mas o ator havia recebido instruções para, na hora “H”, assaltá-la sexualmente. Foi dado algo para estimulá-lo. Mas a moça, assustada com a fúria do ator, reagiu violentamente, como você mesmo viu!”

“Incrível…”

“Ele havia sido pago para violentá-la de qualquer maneira. Pretendiam registrar tudo…”

Bob estava perplexo. A seriedade com que Michael discorria, começava a querer convencê-lo.

“Aí, aconteceu o imprevisto: os técnicos, contagiados pelo clima, estavam mais alucinados que o próprio ator. Tanto assim, que não perceberam que a faca de efeito havia sido trocada por uma real. Você viu o resultado…”

“Que absurdo!” caiu no sofá como se tivesse um enorme peso no corpo. Michael, inalterado:

“Foi um acidente que deu certo!”

“Ma como deu certo?”

“Quando o filme veio parar em nossas mãos, lá em Nova Iorque, não sabíamos que era real. Tentamos colocar no mercado clandestino. O sucesso foi absoluto. Nunca se pagou tão alto por uma cópia.”

“Mais que os filmes pornográficos?”

“Os filmes pornográficos se tornaram brincadeirinha de criança perto deste. Chegamos a fazer projeções especiais, cobrando mil dólares por cabeça. Lotamos o cinema.”

Bob está cada vez mais confuso.

“Mas este filme foi um acidente. Não pode ser refeito!”

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A ideia de Bob era dissuadi-lo de tal ideia. Parecia que Michael estava hipnotizado pela possibilidade de repetir o sensacionalismo, deixando os próprios sentimentos de lado. Mas parecia cada vez mais distante pode convencê-lo do contrário.

“Mr. Lorne quer repetir o sucesso!”

Explodindo:

“Michael, isso é um crime!”

O sorriso cínico e inalterado do amigo aumentou a perplexidade de Bob.

“E a pornografia? Também não é um crime?”

Tentando contornar:

“É diferente, Michael. Os filmes pornográficos são feitos para casais entediados, ou pessoas solitárias. Gente que precisa de estímulo para o ato mais importante da vida. No fundo, sua função é até benéfica. Os médicos mesmos aconselham…”

“Isso é conversa fiada, Bob. Uma coisa não desculpa a outra.”

É, não havia mesmo jeito. Bob pensou um pouco, tentando desemaranhar a confusão que se instalara em sua cabeça. Meio minuto depois, tomou a decisão:

“Está certo. Mas eu não me meto neste negócio!”

Michael acabou de servir-se de um uísque no barzinho, e já voltou ao amigo. Mantendo o mesmo sangue frio. Antes do primeiro fole:

“Você já está metido em nossos negócios até o pescoço! Eu estou aqui para realizar um filme deste tipo, e é o que vou, ou melhor, vamos fazer!”

 

fim do primeiro capítulo de “Snuff – Vítimas do Prazer” de Claudio Cunha (editora MEK, editor Minami Keizi, 120 páginas, meados dos anos 80).

Veja o filme aqui: