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O Blindado Mortal do Século XXI

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 7, 2016 by canibuk

Warlords of the Twenty-First Century (“Blindado Mortal”, 1982, 91 min.) de Harley Cokliss. Com: Michael Beck, Annie McEnroe e James Wainwright.

warlordsNo início da década de 1980 o cinema ainda estava embasbacado com o sucesso mundial de “Mad Max” (1979), de George Miller, um pequeno filme australiano que fez boa bilheteria ao redor do mundo. Por isso pesadelos futuristas estavam se tornando temas recorrentes entre os produtores de exploitations movies, afinal, eram produções baratas com lucro certo. Sendo assim, “Warlords of the Twenty-First Century” surgiu para contar a história de um futuro não distante onde a humanidade se consumiu em guerras pelo petróleo (que alcançou o absurdo preço de 59 dólares o litro). É neste cenário que o comandante Straker (James Wainwright) mantém um grupo de mercenários que roda num caminhão de guerra de comunidade em comunidade explorando a todos. Straker tem uma quedinha amorosa pela feiosa Corlie (Annie McEnroe) que, após confrontar o comandante, consegue fugir e encontra o solitário herói do filme, Hunter (Michael Beck, que pode ser visto em clássicos como “The Warriors/Os Selvagens da Noite” (1979, de Walter Hill, e “Xanadu” (1980), de Robert Greenwald), um motoqueiro boa pinta que vive nas montanhas e acaba ajudando a fugitiva.

battle-truck

“Battletruck”, como “Warlords” também é conhecido (na Itália ele atende pelo título de “Destructors”), é um filme bastante escuro e parado, com uma narrativa que vai em marcha lenta até os 70 minutos quando, finalmente, a produção engrena e fica cheia de ação e aventura, com nosso solitário herói pilotando um fusquinha turbinado com o qual invade o acampamento dos vilões aprontando altas confusões. É uma pena que este filme não tenha sido encarado como um western futurista já que todos os elementos do gênero estão inclusos na fraca história (há, inclusive, carros sendo puxados por cavalos como se fossem carroças improvisadas).

Assista o trailer de “Warlords of the Twenty-First Century” aqui:

Mesmo assim “Warlords” consegue ser um filme que prende a atenção e lança um olhar mais melancólico sobre o futuro da vida em sociedade no planeta Terra (diferente da visão cínica/sarcástica de clássicos como “A Boy and his Dog/O Menino e Seu Cachorro” (1975), de LQ Jones, ou o já citado “Mad Max”), conseguindo apontar outra direção ao tema “fim do mundo civilizado”. “Warlords” é uma produção americana rodada inteiramente na Nova Zelândia , com técnicos locais, por conta de uma greve de roteiristas que acontecia nos USA. A produção foi filmada ao mesmo tempo em que “Mad Max 2” (cujas filmagens estavam acontecendo na Austrália) e lançado duas semanas antes pela distribuidora New World Pictures, empresa comandada pelo visionário Roger Corman e seu irmão Gene.

le-camion-de-la-mortO diretor Harley Cokliss (que mudou seu sobrenome para Cokeliss por motivos óbvios) foi diretor de segunda unidade em “Star Wars: The Empire Strikes Back/O Império Contra Ataca” (1980), de Irvin Kershner. Em entrevista para o blog Cinema Raiders, Cokliss afirmou: “Tínhamos apenas sete semanas para filmar Warlords, houve algumas seqüências muito complicadas de serem filmadas, o que me fez desejar dez semanas e mais dinheiro para filmar tudo. Na verdade, tivemos que cortar cenas inteiras para terminar as filmagens no prazo!”. Ainda nesta entrevista, Cokliss afirmou ainda que não acha que seu filme compartilhe do pessimismo de “Mad Max”. Ainda, à título de curiosidade, o produtor de “Warlords” (Lloyd Phillips) foi produtor executivo de “Inglorious Basterds/Bastardos Inglórios” (2009) de Quentin Tarantino.

warlords_truckAqui no Brasil “Warlords of the Twenty-First Century” foi lançado em VHS pela distribuidora F.J. Lucas sob o título de “Blindado Mortal” e continua inédito em DVD/Blu-Ray. Nos USA foi lançado na coleção Roger Corman’s Cult Classics em um disco Double feature com “Deathsport” (1978) de Allan Arkush e Nicholas Niciphor. Não sou o maior fã de “Warlords”, mas é um bom filme que merece ser redescoberto (e reavaliado sem estar à sombra de “Mad Max”), nem que seja para se delirar com seus vinte minutos finais.

Escrito por Petter Baiestorf para seu livro “Arrepios Divertidos”.

Assista “Warlords of the Twenty-First Century” aqui:

O Cachorro Descobridor de Fêmeas e seu Menino Maltrapilho

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on setembro 10, 2012 by canibuk

“A Boy and his Dog” (“O Menino e seu Cachorro”, 1975, 91 min.) de L.Q. Jones. Com: Don Johnson, Susanne Benton, Jason Robards e Tim McIntire.

Em 2024 o planeta Terra se auto-aniquilou através de uma guerra nuclear e os poucos sobreviventes que aindam vivem na superfície lutam por água potável, comida, armas, munição, conbustível e o artigo mais raro de todos: Mulheres! (a maioria dos sobreviventes são do sexo masculino). Vic (Don Johnson) é a personagem principal deste mundo devastado, um menino de 18 anos que percorre os escombros nucleares saqueando comida em companhia de um rabugento cachorro chamado “Blood” (com voz de Tim McIntire), que é um ótimo farejador de fêmeas. O cachorro acaba sendo a figura paterna, mesmo que às avessas, que Vic respeita e admira. Após algumas aventuras na superfície devastada a dupla encontra Quilla (Susanne Benton), moradora dos subterrâneos que foi enviada ao solo para atrair um macho saudável para fins de reprodução. A cidade subterrânea, conhecida como “Downunder”, possuí luz artificial, baías hidropônicas para produção de alimentos, hierarquia estruturada por uma série de leis bizarras e até mesmo florestas. Uma vez na cidade Vic fica entusiasmado porque foi o escolhido para fazer sexo com várias mulheres, mas lógico, como alegria de maltrapilho em mundo pós-apocalíptico dura pouco, o que parecia ser o paraíso logo se revela um lugar tenebroso à forasteiros.

“A Boy and his Dog” tem um dos melhores finais de filme que já tive o prazer de presenciar, reforçando os motivos pelos quais a produção recebeu inúmeras acusações de ser machista. Não posso comentar aqui para não estragar a surpresa, mas posso adiantar que a conclusão reforça aquela idéia de que uma boa amizade vale mais do que um grande amor. Baseado numa série de contos do escritor Harlan Ellison (escritor de ficção científica que trabalhou em programas de TV como “The Outer Limits”, “Star Trek” e “The Alfred Hitchcock Hour”) escritos em 1969, o roteiro foi desenvolvido pelo ator L.Q. Jones, também responsável pela direção do filme que se inspira na direção pesada de Sam Peckinpah, com quem já havia trabalhado em filmaços como “The Wild Bunch/Meu Ódio Será sua Herança” (1969), “The Ballad of Cable Hogue/A Morte Não Manda Recado” (1970) e “Pat Garrett and Billy the Kid” (1973). O livro de Ellison ganhou o prêmio Nebula Award quando lançado.

O cenário pós-apocalíptico necessário para o filme foi encontrado no deserto de Mojave, numa região conhecida como Coyote Dry Lake, com produção da própria empresa de L.Q. Jones. De certo modo “A Boy and his Dog” foi o grande percussor das inúmeras produções futuristas, de “Mad Max” (1979) de George Miller e “Escape from New York/Fuga de Nova York” (1981) de John Carpenter até as italianadas como “1990: I Guerrieri del Bronx/Os Guerreiros do Bronx” (1982) de Enzo G. Castellari, que tomaram conta dos anos de 1980 com seus vilões punks sádicos que deixaram saudades. Na época Jones tentou produzir uma seqüência do filme mas a produção acabou não decolando, em seu lugar o escritor Ellison continuou a história do filme numa graphic novel chamada “Vic and Blood” ilustrada por Richard Corben.

Antes de dirigir “A Boy and his Dog”, Jones havia experimentado a função com o western dramático “The Devil’s Bedroom” (1964), assinado com seu nome de batismo, Justus McQueen. Jones começou a vida adulta como trabalhador ferroviário até estreiar como ator em “Battle Cry” (1955), drama de guerra dirigido por Raoul Walsh. Após inúmeros trabalhos na televisão assinados com seu nome real, por sugestão dos produtores de um filme, adotou o nome de L.Q. Jones que era mais pomposo. Por muitos anos alternou trabalhos sem importância na TV e cinema classe “A” (dá as caras em filmes estrelados por astros como Henry Fonda, Anthony Quinn, Elvis Presley e outros) até ser chamado por Sam Peckinpah que melhor soube aproveitá-lo na tela. Geralmente associado à filmes de guerra e westerns, Jones também estrelou alguns filmes de horror, como “The Witchmaker” (1969) de William O. Brown, tranqueira onde um psiquiatra investiga uma série de assassinatos de jovens garotas onde pediu para não ser creditado e “The Brotherhood of Satan” (1971) de Bernard McEveety, horror sobre uma família que encontra adoradores de satan no deserto, com roteiro do próprio Jones em parceria com Sean MacGregor. Também vale a pena destacar suas ótimas participações nos clássicos “Hang’em’High/A Marca da Forca” (1969) de Ted Post, onde contracena com Clint Eastwood e o impagável “Lone Wolf McQuade/McQuade – O Lobo Solitário” (1983) de Steve Carver, ação (com comédia involuntária) de Chuck Norris.

No elenco de “A Boy and his Dog” destaque para o sempre ótimo Jason Robards (1922-2000), ator em cerca de 130 filmes sempre interpretando tipos durões. Nos anos de 1950 e 1960 fez muitos trabalhos para a televisão até que em 1968 o diretor italiano Sergio Leone o convidou para viver a personagem Cheyenne no clássico “C’Era una Volta il West/Era Uma Vez no Oeste”, que trazia em seu elenco atores geniais como Henry Fonda, Claudia Cardinale, Charles Bronson e Woody Strode. Depois começou a dar as caras em vários filmaços que se tornaram grandes clássicos do cinema, como “The Ballad of Cable Hogue/A Morte Não Manda Recado” (1970), western genial de Sam Peckinpah que a maioria dos cinéfilos não soube apreciar (está entre meus preferidos); “Tora! Tora! Tora!” (1970) de Richard Fleischer e Kinji Fukasaku, único filmaço sobre o ataque japonês à Pearl Harbor que presta; “Johnny Got His Gun/Johnny Vai à Guerra” (1971) de Dalton Trumbo, o filme de guerra obrigatório para todo aspirante a uma carreira militar; “Murders in the Rue Morgue” (1971) de Gordon Hessler inspirado em Edgar Allan Poe; “All the President’s Men/Todos os Homens do Presidente” (1976) de Alan J. Pakula, sobre o escândalo de Watergate; até “Magnolia” (1999) de Paul Thomas Anderson, um de seus últimos filmes.

“A Boy and his Dog” está em domínio público. Não foi sucesso na época de seu lançamento mas nos dias de hoje atingiu status de cult movie. Aqui no Brasil foi lançado em DVD pela distribuidora Platina Filmes em cópia horrível, sua qualidade consegue ser ainda pior do que a cópia em VHS lançada por aqui pela Nacional Vídeo. Lamentável ver grandes clássicos do cinema de sci-fi sendo tratados tão mal por aqui.

por Petter Baiestorf.

Veja “A Boy And His Dog” aqui: