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A Piedade

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , , , on outubro 21, 2012 by canibuk

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento abatido na extrema paliçada

os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida

as senhoras católicas são piedosas

os comunistas são piedosos

os comerciantes são piedosos

só eu não sou piedoso

se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos sábados à noite

eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio bóia? por que prego afunda?

eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as estátuas de fortes dentaduras

iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou barbudos

eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que tenho todas as virtudes

eu não sou piedoso

eu nunca poderei ser piedoso

meus olhos retinem e tingem-se de verde

Os arranha-céus de carniça se decompõem nos pavimentos

os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas

arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos.

Poesia de Roberto Piva, publicada originalmente em Paranóia, 1963.

Já Morreu

Posted in Literatura with tags , , , on julho 8, 2012 by canibuk

sempre quis transar com

Henry Miller, ela disse,

mas quando cheguei lá

era tarde demais.

.

diabos, eu disse, vocês

sempre chegam tarde demais, garotas.

hoje já me masturbei

duas vezes.

.

não era esse o problema dele,

ela disse. a propósito,

como você consegue bater

tantas?

.

é o espaço, eu digo,

todo o espaço entre

os poemas e os contos, é

intolerável.

.

você deveria esperar, ela disse,

você é impaciente.

.

o que você pensa de Céline?

perguntei.

.

queria transar com ele também.

.

já morreu, eu disse.

.

já morreu, ela disse.

.

importa-se de ouvir uma

musiquinha? perguntei.

.

pode ser legal, ela disse.

.

dei-lhe Ives.

.

Era tudo que me restava naquela noite.

de Charles Bukowski.

A Obsessão do Sangue

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , , , on abril 1, 2012 by canibuk

Acordou, vendo sangue… Horrível! O osso

Frontal em fogo… Ia talvez morrer,

Disse. Olhou-se no espelho. Era tão moço,

Ah! Certamente não podia ser!

.

Levantou-se. E, eis que viu, antes do almoço,

Na mão dos açougueiros, a escorrer

Fita rubra de sangue muito grosso,

A carne que ele havia de comer!

.

No inferno da visão alucinada,

Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,

Viu vísceras vermelhas pelo chão…

.

E amou, com um berro bárbaro de gozo,

O monocromatismo monstruoso

Daquela universal vermelhidão!

Poesia de Augusto dos Anjos.

(Leia entrevista com Augusto dos Anjos clicando aqui)

Fumando as Nuvens

Posted in Literatura, Nossa Arte with tags , , , , , on março 9, 2011 by canibuk

As borboletas azuis, com as famosas bolinhas coloridas em suas asas, voaram do lodo cheirando cola de sapateiro. O céu vermelho resolveu então me cobrir de beijos, fazendo-me escancarar os dentes cheinhos do amado bolor bucal. Minha parceira também gostou, ficou com a mente mais leve, babando merda mole de prazer. Eu, por sua vez, resolvi que para completar tal orgasmo inusitado, devia sentar-me no sanitário e defecar sangue deixando que tal líquido vital salpicasse a água com sua cor ofensiva. Achei másculo os respingos que molhavam de leve minhas coxas. Meu sapo de estimação – um adorável espécime amorfo esverdeado – coaxava de maneira erótica, me olhando com ternura. Isso me deixou de pau duro, se me permitem confessar tal ato. Com meu jeitinho alegre pedi para ele que me chupasse, lógico que ele não poderia babar. E não babou, diga-se de passagem. Seus vários anos de experiência em tal função permitiram que ele engolisse toda aquela porra em grandes goles enquanto sua buceta ficava molhadinha, ou algo assim. Era muito prazeroso ejacular naquela boquinha torta enquanto sentia o sangue escorrer, ser expurgado, expelido, expulso de meu cu. Tive um novo orgasmo!!!

No interior de meu cérebro as mais incríveis alucinações – provocadas pelo meu orgasmo – se projetavam das mais variadas e coloridas formas. Mordo meus lábios de olhos fechados e engulo o suspiro que estava nascendo no meu imundo esôfago. É durante as alucinações proporcionadas pelo orgasmo que encontro meu paraíso particular, o local onde me fantasio de deus Baco, o local onde chupo meu Sapo, sua bucetinha lubrificada, em retribuição a dedicação com a qual ele se rebaixa diante de seu mestre, ou seja, Eu!!! O local onde as velhas beatas virgens de Aparecida chupam as hemorróidas, com afinco e prazer, uma das outras. O local onde os heterossexuais se banham  entre porra e gays enrustidos. O local onde me chapo com minha plantação de nuvens branquinhas que produzem Mel Vaginal e, lá pelas tantas, me embriago de néctar fecal colhido em favos oriundos dos ânus, bem redondinhos e cheinhos de pregas enrugadinhas, cheirosinhas e alguns até rosadinhos, que cresceram nas axilas das mamães que deram a luz à tal local iluminado pela mão santa do misterioso criador. Até corre um boato onde diz que o tal criador pariu este paraíso depois de realizar uma orgia com duas placentas libidinosas em busca de grana e fama. Quem sabe distinguir verdade de lenda? Bem, não importa, o importante é usufruir de tão gostoso local!

Depois do prazer, me permiti levantar do sanitário. Como não costumo limpar a bunda, pedi para que minha parceira o fizesse com sua língua. Bem devagarinho, bem devagarinho e finalmente bem devagarinho, pois eu sabia que ela iria adorar sentir tal prazer – tão íntimo nosso – pelo maior tempo possível. Escutei ela gozar enquanto limpava minha prega número sete.

Na geladeira aberta os seres inanimados conversavam comigo. Faziam estranhas indagações sobre minha plantação de nuvens branquinhas, sobre as influências vanguardistas de Quasimodo – sim, este é o nome de meu Sapo esverdeado por ser parecido com aquele personagem criado pelo Hugo – e, principalmente, sobre quando eu pegaria minha moto liláz para voar rumo ao espaço celestial com as borboletas azuis. Todas vezes deixei de responder pois não interessa para ninguém o que farei amanhã!!!

escrito por Petter Baiestorf (1996). ilustração de Luciano Irrthum (1996).