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Tarzann, o Bonitão Sexy na Cola do Playboy Maldito

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on dezembro 13, 2013 by canibuk

Terra das SacanagensNudie-Cuties foram variações dos Nudist Films (que eram produções com a nudez tratada de forma natural, explorada em filmes como “This Naked Age/This Nude World” (1932) de Jan Gay; “Elysia, Valley of the Nude” (1933) de Bryan Foy, ou o clássico “Garden of Eden/Paraíso dos Nudistas” (1954) de Max Nosseck), onde a nudez natural e saudável das personagens ganharam histórias mais complexas (mas não tão complexas, já que eram filmes feitos para divertir de forma escapista os espectadores) nas mãos de diretores gaiatos como a dupla H.G. Lewis/David F. Friedman, em sua fase anterior ao gore sem limites iniciada com o clássico “Blood Feast” (1963), e a rainha dos filmes nudistas, Doris Wishman, que realizou belezuras como “Hideout in the Sun” (1960); “Nude on the Moon” (1961), inacreditável bobagem sobre astronautas americanos que vão pra Lua e descobrem que lá as pessoas vivem como que num grande campo nudista lunar; e “Blaze Starr Goes Nudist” (1962), estrelado pela stripper real Blaze Starr. Este maravilhoso subgênero cinematográfico lelo pelo menos um grande cineasta gênio ao mundo: Russ Meyer, que estreou na direção de longas com “The Immoral Mr. Teas” (1959) e foi o responsável pelos populares Nudie-Cuties que surgiram no rastro de seu pequeno clássico.

Aqui no Brasil, provavelmente de forma inconsciente e bem atrasado em relação ao seus irmãos pervertidos americanos/europeus, Nilo Machado seguiu os passos dos Nudies-Cuties (flertando muito com o cinema nudista) quando produziu a obra-prima “Tarzann, O Bonitão Sexy” (1977, 51 minutos, direção de Nilo Machado), que contava a história de um grupo de exploradores amadores que vai para a floresta atrás de um avião carregado de ouro que caiu na região onde Tarzann vive com sua esposa Jane e um preguiçoso cachorrinho de madame.

Tarzann1Não espere nenhuma história. Assim que o destemido grupo de aventureiros chega à floresta começam a se banhar num lago, cantar pelados em rodas de acampamento e esperar pelo encontro com o misterioso Tarzann (que, ao aparecer no final do filme, revela todo o bom humor cafajeste de Nilo Machado). Em todo o decorrer do filme as mulheres ficam de topless, sem ter o que fazer na trama, só restando a elas exibirem seus corpos naturais nús. Aliás, percebe-se nitidamente que o elenco de desconhecidos do filme se divertiu muito filmando essa pequena peça obscura do nosso glorioso cinema nacional.

Tarzann2Sempre tive curiosidade em saber como eram os detalhes técnicos dos filmes de Nilo Machado e pude constatar que ele não deve em nada ao cinema americano produzido sem orçamento no início dos anos de 1960, confesso que eu até esperava uma produção mais capenga e improvisada. Neste “Tarzann, O Bonitão Sexy”, temos também uma ótima trilha sonora composta por um grupo que incluía Nilo Machado, Perez Gonzaga, Luiz Nunes, Jair Lemos e J. Wilson, também compositores de ótimas canções como “Vamos Para a Selva”, “Hoje Estou Feliz” e “Não Facilita Nega Se Não”, presentes no filme que foi quase que inteiramente filmado nos estúdios Adelana, no Rio de Janeiro.

Outro filme com produção/direção de Nilo Machado que tive o privilégio de assistir foi “Playboy Maldito” (1973, 50 minutos, direção de Nilo Machado) que, aos moldes dos dramas tragicômicos debochados de George Kuchar, prima pelo exagero das situações dramáticas corriqueiras da vida mundana dos estudantes.

Playboy Maldito

Playboy2A história de “Playboy Maldito” não poderia deixar de ser mais brasileira: Rapaz de família rica vai estudar no Rio de Janeiro e usa sua mesada para viver fazendo festas na noite carioca. O “Playboy Maldito” não perdoa ninguém e de noitada em noitada, orgia em orgia, vai comendo todas as menininhas da cidade, fazendo com que até o comendador Vitorio Palestrina (“Estupro”, 1979, de José Mojica Marins) pareça um santinho. De sacanagem em sacanagem Nilo Machado conduz o espectador à um hilário dramático desfecho carregado de uma moral às avessas. Acho muito bonito quando pervertidos tentam dar lições de moral.

Playboy3Nilo Machado, à exemplo do já citado José Mojica Marins, mostra os ricos como verdadeiros monstros sem moral, todos eles vestidos com figurinos pobres feitos de roupas de segunda e objetos de cena cafonas, como os copos floreados presentes em várias cenas deste “Playboy Maldito”, o que confere à essas produções um sabor brejeiro único. Nilo liga a (pouca) história do filme com muito striptease de mulheres feias e uma trilha sonora simplesmente maravilhosa de Lafayete e seu Conjunto (segundo os créditos do filme), com algumas canções escritas/compostas pela dupla Nilo Machado e Marcus José, como “Noite Vazia” (interpretada por Carmem Silvania); “Logo Mais Você Vem” (interpretada por Ubirajara) e “Noite Sem Luar” (interpretada por Marcus José). Essas trilhas sonoras dos filmes de Nilo Machado deveriam ser lançadas em vinil para o completo deleite dos colecionadores da boa música nacional. Foi uma pena Nilo Machado não ter seguido uma carreira musical em paralelo à sua vida dedicada ao cinema.

Tarzann3

Os filmes de diretores como Nilo Machado são repletos de defeitos técnicos e limitações orçamentárias, mas pulsam cheios de vida e um estilo único de fazer/viver cinema. Estes pequenos grandes clássicos obscuros do cinema nacional precisam ser resgatados e salvos, são uma parte muito importante da arte e história da sociedade brasileira para continuarem perdidos. Espero que o documentário que Nelson Hoineff está fazendo sobre o cinema de Nilo Machado saia o quanto antes.

por Petter Baiestorf.

As Aventuras de Nilo Machado na Terra do Cine-Bundismo

Posted in Cinema with tags , , , on abril 1, 2011 by canibuk

“Com duas garrafas de whisky na mesa eu escrevo qualquer história”, já dizia Nilo Machado (1924 – 1996), um obscuro diretor brasileiro até hoje não reconhecido. Pra não deixa-lo de fora, reviramos arquivos e mais arquivos sobre cinema nacional e conseguimos levantar um pouco de sua história. Uma curiosa história de vida que facilmente pode dar a Nilo Machado o título de diretor mais picareta da história do nosso tão pouco conhecido cinema nacional (essa pesquisa, originalmente publicada no fanzine “Brazilian Trash Cinema 2”, eu realizei em 2000, hoje em dia os historiadores do cinema brasileiro estão conseguindo publicar seus livros com maior facilidade).

1953: após ter sido boy do escritório da distribuidora United Artists, terceiro sargento de infantaria, lanterninha do cinema Polytheama, gerente do cinema Piedade e contador das distribuidoras Warner, Columbia e França filmes, Nilo Machado (com apenas um dente na parte superior da boca) compra a RIO MAR DISTRIBUIDORA, empresa especializada em produções de baixo orçamento, geralmente comédias trashes, policiais, sexploitations, drug-movies, sleaze films americanos, franceses e brasileiros (representando um espaço extremamente importante na distribuição da produção independente local).

1957: Nilo começou a enxertar nos filmes estrangeiros pequenos números de strip tease, como o sucesso foi tanto, logo estava ele próprio filmando a mulherada para botar strips inéditos nas produções distribuídas pela sua empresa.

1960: Abriu a Nilo Machado Produções Artísticas e virou figura lendária do beco da fome (local onde se reunia a classe cinematográfica do Rio e também os músicos de jazz e bossa nova, na Cinelândia). Por essa época, começou a comprar filmes inacabados, que remontava para o delírio da machaiada. Assim realizou “Tuxauá… O maldito”, que misturava cenas da selva africana (tiradas de filmes americanos) com o matagal que havia nos fundos do hospital Geral de Curupaity, em Jacarepaguá. Em “A Psicose de Laurindo” dois amigos contam suas aventuras nos bordéis franceses (e nos seus sonhos aparecem trechos inteiros de filmes franceses que eram distribuídos por Nilo). No filme “Aconteceu no Maracanã”, marido e sua esposa vão assistir a final da copa de 50 (que são imagens tiradas de um documentário) e, enquanto o Brasil perde para o Uruguai, o marido tem visões com mulheres nuas.

1972: Com o sucesso financeiro de “seus” filmes, Nilo arranja algum dinheiro e ao invés de consertar seus dentes podres na boca, compra uma câmera Arriflex, alguns refletores e realiza seu primeiro filme “sério”: “O Playboy Maldito”, um sexploitation chinelão onde faz, além da direção, também o roteiro, iluminação, cenografia, montagem, fotografia e produção.

1977: Nilo é inspirado nos grandes sucessos estrangeiros, faz “Tarzan…O bonitão sexy” (filme que ele dirigiu somente de cuecas, momento este registrado no curta “Cinema 77”) e “Emanuelo…O Belo”, que trazia no papel principal o açougueiro Sylvio Kristal, um jeito magistral que Nilo encontrou de pagar suas dívidas com o açougueiro de seu bairro. Segundo o Jornal do Brasil (31/07/1978), a produção de “Emanuelo… O Belo” custou Cr$ 85 mil e já no segundo dia de exibição havia arrecadado Cr$ 65 mil de renda.

1979: É abandonado por sua esposa e as três filhas.

1980: Após iniciar a construção do estúdio Adelana, alcança certa notoriedade e consegue distribuir seus filmes e outros estados. Nesta mesma época, para aproveitar a lei de obrigatoriedade de exibição de curtas nacionais antes de longas estrangeiros, realizou um punhado de obras picaretas, como “Ginástica”, “Base para boa saúde”, “Tiradentes”, “São Paulo e suas rodovias” , “Sábio Oswaldo Cruz” e muitos outros.

1981: Começou a filmar primeiro a morte de seus personagens, pois se algum dos atores desistisse no meio da produção já tinha na mão a solução para, pelo menos, este problema…

1982: Aproveitando o sucesso do pornô nacional, partiu também ao sexo explicito com sugestivos títulos como “Tarados na Fazenda dos Prazeres” e “A Ilha dos Cornos”.

1988: “A Ilha dos Cornos” (realização de 1985) é liberado pela censura, mas continua proibida a exibição de fotos e cartazes de propaganda.

1990: Já fraco para o negócio faz seu ultimo esforço cinematográfico ao reunir toda a sua produção (incluindo até os melodramas em preto e branco que distribuía) e relançou tudo com novos títulos e enxertos de sexo explícito e coloridão.

1996: Morre sem ser reconhecido como um dos mais incansáveis realizadores e distribuidor do cinema brasileiro.

2000: Seus filmes continuam produções obscuras e totalmente inacessíveis para a geração de novos cinéfilos.

2009: Vai ao ar em Novembro, pelo Canal Brasil, um documentário de 26 minutos sobre Nilo Machado.

2011: Está previsto o lançamento de “Nilo”, docudrama em torno de Nilo Machado.

Filmografia de Nilo Machado: A Máfia Do Sexo (1988), A Noiva Piranha (1988), A Filha Da P… (1988), O preço de uma prostituta (1986), A ilha dos cornos (1985), Nas garras da cafetina (1985), Tarados na Fazenda dos Prazeres (1982), Não Fale em Sexo (1980), Emmanuelo… O Belo (1978), Traí… Minha Amante Descobriu (1978), Tarzan, o Bonitão Sexy (1977), Desejo Sangrento (1976), Traição Conjugal (1976), Lua-de-Mel Sem Começo E Sem Fim (1975), Nas Garras da Sedução (1974), Playboy Maldito (1973), Aconteceu no Maracanã (1969), A Psicose de Laurindo (1969), Tuxauá, o Maldito (1967) e Terra da Perdição (1962) .